sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

O PASTOR YAGO MARTINS E O CÂNONE JUDAICO, PARTE II, ou: Os ''deuterocanônicos'' nas fontes citadas

 


O apologeta protestante Yago Martins alega que os ''deuterocanônicos'' foram acrescentados pela Igreja católica-romana, católica-ortodoxa e orientais a um cânone judaico já estabelecido e consolidado na Palestina do século I. 

Algumas pessoas me pediram esclarecimentos sobre pontos específicos da postagem anterior. Vou aproveitar para acrescentar contra-argumentos importantes ao Pastor Yago. Lembro que estou respondendo ao primeiro terço deste vídeo de mais de quarenta minutos [clique], publicado no canal "Dois Dedos de Teologia". 


O video apresenta argumentos apologéticos para defender a ''Bíblia Protestante", cujo Antigo Testamento se fundamenta no texto massorético, que tem um cânone diferente do católico-romano, do cristão ortodoxo e de Igrejas Orientais. Os Protestantes usam os 66 livros estabelecidos pela Reforma Religiosa do século XVI, que ''descanonizou'' obras que, a partir de então, foram chamadas de ''deuterocanônicas'' [pelos católicos] e de "apócrifas" [pelos seguidores do Reformadores].


Na perspectiva Protestante, não foi Lutero quem retirou livros da Bíblia. Os católicos é que teriam adicionado literatura espúria a um cânone judaico já estabelecido nos tempos de Cristo. Os ''apócrifos'' não gozariam de inspiração divina e trariam erros doutrinários graves por conta desta ''deficiência''.


O Antigo Testamento protestante é uma tradução do texto massorético [TM] estabelecido pelos Rabinos Judeus na Idade Média. Lutero e os demais Reformadores acreditava que o TM representava as Escrituras Sagradas dos judeus tal como elas existiam desde a reconstrução do Segundo Templo e do final do Período Profético, na virada do século VI para o século V a.C. Segundo os Rabinos, a partir deste período a Profecia cessou em Israel, e o cânone estava fechado, sem novas revelações. Os protestantes aceitam esta tese e a usam também como motivo para excluir os ''deuterocanônicos'', que foram escritos no "Período Inter-Testamentário'', isto é, entre a cessação profética em Israel e o Nascimento de Cristo.


Será que os Protestantes estão corretos? Os ''deuterocanônicos'' são literatura apócrifa adicionada ao cânone judaico pelos católicos, ortodoxos e cristãos orientais? Quando este acréscimo foi realizado? 


Como estou fazendo séries de postagens sobre a formação do cânone para mostrar que o Sola Scriptura não tem sentido nenhum,  vou lidar mais diretamente com estes temas usando os vídeos do Pastor Yago como exemplo típico da apologética Protestante. 


Dividi o vídeo do Pastor em três grandes blocos de argumentos, cada uma deles contendo adendos mais ou menos secundários em relação ao ponto central:


I. Cânone do Judaísmo Rabínico [com citações importantes de Josefo, Fílon de Alexandria, e das comunidades ''essênias'' de Qumram];

II. Cânone usado por Cristo e, de modo mais amplo, no Novo Testamento;

III. Cânone defendido pelos Padres da Igreja dos primeiros séculos [acrescida de considerações ''doutrinárias'' sobre os ''deuterocanônicos''].


Já escrevi um texto sobre o primeiro bloco de argumentos, com tom mais apologético: clique aqui para ler. Vou aprofundar o assunto.



Lutero e outros reformadores usaram a Tanack como base para seu Antigo Testamento. O texto massorético foi consolidado por meio de elaborações dos Rabinos entre o século V e o X, mas os protestantes a consideram como referência para os escritos sagrados da Palestina do século I. 


1. Cânone e Cânones


A palavra ''cânone'' costuma ser usada com diferentes sentidos. No vídeo do Pastor Yago sobre o Novo Testamento, e que pretendo tratar em postagens futuras, ele pula, aparentemente sem notar, de um para outro uso sem maiores considerações ou explicações.


 A palavra aparece raramente nas Escrituras, e nunca para se referir a um conjunto de livros. Ela só é usada pela Igreja neste último sentido a partir do século IV. A ideia de um cânone escriturístico, no entanto, é Rabínica, ainda que os judeus não usassem o termo.  O significado mais abrangente de cânone é ''regra'' ou ''medida''. É a norma ou ideal que rege o conhecimento e a prática em determinada comunidade ou em dado campo da atividade humana. O cânone não precisa ser escrito. O termo aparece algumas vezes em São Paulo e em Padres da Igreja pra se referir à ''regra de fé'', à tradição apostólica, e não a escritos particulares.


Quando aplicada a obras escritas, a palavra aponta aquele conjunto de livros que, em dada área e sobre certo assunto, separam o joio do trigo, ou seja, o modelo que é parâmetro para todo o restante. E é aqui que entramos propriamente no nosso tema. Dizer que determinada comunidade tem livros canônicos, em um sentido abrangente do termo, não significa dizer que eles tem um cânone de livros em um sentido mais estrito. 


Os judeus sempre consideraram a Torah [os cinco livros atribuídos a Moisés] como ''canônica'', ou seja, como o parâmetro de fé que regulava a vida de sua comunidade religiosa. Daí não se tira que os judeus tivesse uma lista oficial de livros separada de todo o restante e considerada fechada e canônica. É este segundo sentido do termo canônico que nos interessa neste momento: estabelecer qual a lista consensual de livros considerados exemplares e obrigatórios para a vida religiosa, e que estão separados de todos os demais.


Saber que existem livros canônicos não implica ter um cânone de livros. Aliás, ter uma coleção de livros canônicos tampouco implica ter um cânone de livros: a coleção pode estar incompleta, pode estar aberta a futuras inclusões em futuro próximo etc. Já a lista oficial de livros religiosos é considerada ela própria canônica.


Segundo o Pastor Yago Martins, os judeus do século I tinham um cânone neste sentido mais estrito. Era um cânone consensual, e que estava fechado desde o século V a.C., quando se inicia o Período Inter-Testamentário, ou seja, quando a Profecia cessa em Israel. Apesar de não existir um documento com a lista oficial e consensual de livros, ela seria mantida por toda a comunidade a partir de uma tradição oral viva. Lutero e demais Protestantes apenas se conformam a este cânone judaico, diferente de católico-romanos, cristãos ortodoxos, e cristãos orientais não calcedonianos, que adicionam a este cânone alguns livros ''espúrios'', que os evangélicos chamam de ''apócrifos''.


Vamos analisar com mais detalhes o primeiro bloco de argumentos do vídeo:



O Eclesiástico, também chamado de Sabedoria de Ben Sirah, foi escrito no século II a.C. Faz parte de uma literatura sapiencial que deixou marcas profundas no Judaísmo e no Cristianismo. O Talmude da Babilônia traz citações da obra, que é tratada mais de uma vez como Escritura Sagrada


2. O Cânone Rabínico ou Farisaico


O Pastor Yago escora seus argumentos nas fontes rabínicas, compiladas entre o século II e o século VI na Mishná e no Talmude. Segundo ele, os judeus receberam a Revelação Divina [os ''oráculos de Deus'' mencionados por São Paulo] e tem o direito de estabelecer o cânone. Os cristãos apenas receberiam esta informação a fim de ter acesso ao Antigo Testamento. Contestei estas alegações a seguinte maneira:


2.1. As fontes citadas por Martins pertencem a comunidades de Rabinos que sobreviveram às Guerras Judaicas [que tiveram por consequência a Destruição de Jerusalém e do Segundo Templo]. Estes Rabinos eram herdeiros de escolas farisaicas da Palestina do século I, e reformularam o Judaísmo, que agora já não podia mais se organizar em torno do culto do Templo, com seus sacrifícios, calendários e festas religiosas. Esta fase do Judaísmo é denominada Judaísmo Rabínico, ou ainda Talmudismo. De qualquer maneira, se apoiar nela traz dois grandes inconvenientes para o Pastor: 

2.1.1 o primeiro é religioso, já que não tem muito sentido levar em consideração a posição de autoridades judaicas após a Paixão, Crucificação e Gloriosa Ressurreição de Cristo. As promessas espirituais a Israel tem continuidade na Igreja, não em uma comunidade de Rabinos que se forma depois e à parte dela. Não custa lembrar que a Igreja dita ''primitiva'' era formada por judeus e prosélitos [convertidos ao Judaísmo]. Os Doze Apóstolos também eram judeus. Segundo uma perspectiva cristã, estavam muito mais aptos para reconhecer o "Antigo Testamento", ou seja, os "oráculos" que Deus tinha revelado aos judeus, do que o Rabinato formado após a Destruiçaõ do Templo. Além disso, o Rabinato se considerava sucessor das escolas farisaicas, o que acrescenta um obstáculo a mais para a argumentação protestante dada as profundas divergências entre estas vertentes e a Igreja dita ''Primitiva''. Por fim, os posicionamentos destes herdeiros do farisaísmo já eram tomados em meio à polêmica contra o crescimento do cristianismo, como é consenso historiográfico;

2.1.2 o segundo é histórico mas também tem implicações religiosas, já que o Pastor incorre em um ingênuo anacronismo ao considerar que fontes compiladas no século VI [como o Talmude da Babilônia] refletem de modo exato o que acontecia na Palestina meio milênio antes. A justificativa de Yago Martins para abraçar este anacronismo é curiosa: segundo ele, os Rabinos mantiveram uma tradição oral confiável por pelo menos um milênio. Assim, o Protestante que nega qualquer validade à tradição oral cristã depois da escrita das obras neotestamentárias, se apega a uma suposta tradição oral farisaica mantida um milênio depois do início do suposto Período Inter-Testamentário. É o Sola Scriptura colocando a si próprio em xeque, e da maneira mais humilhante possível. Convém lembrar que esta mesma tradição oral rabínica ensina no Talmude que Jesus de Nazaré era um feiticeiro que aprendeu magia no Egito e descreve as torturas que ele estaria sofrendo no Inferno por conta de sua idolatria e blasfêmia. O Pastor considera esta tradição oral confiável ou isenta? Por quê?


2.2 Sendo herdeira dos fariseus, o Rabinato tampouco representa a comunidade dos judeus do século I. Existiam outras correntes religiosas na Palestina, como os saduceus [que, segundo Flávio Josefo, eram a seita mais influente na elite judaica e que faziam inclusive Sumo-Sacerdotes], os essênios [e as comunidades ''enochianas'' de Qumram, de modo mais abrangente], os terapeutas [citados por Fílon de Alexandria, outra fonte usada pelo Pastor], os zelotas. E uma massa da população que não se identificava necessariamente com nenhuma dessas vertentes. Não sabemos quais cânones eram usados por estas correntes, se é que eles usavam algum. Sabemos, por exemplo, que os saduceus tinham divergências sérias com a ''tradição oral'' dos fariseus e não acreditavam em anjos ou na Ressurreição dos Mortos. Além disso, cerca de 80% dos judeus do Império Romano viviam fora da Palestina e falavam grego. A maioria deles usava a Septuaginta, versão grega das Escrituras Judaicas e cuja tradução se inicia no século III a.C. A Septuaginta contém obras que o Pastor considera ''deuterocanônicas'' e versões diferentes dos livros sagrados quando comparadas ao texto massorético e usado por Lutero em sua tradução do Antigo Testamento. 


2.3 É consenso que existiam disputas entre os Rabinos sobre a canonicidade de determinados livros. É possível flagrar estes debates tanto na Mishna [escritos entre os séculos II e V] quanto nos Talmudes [compilados nos séculos V e VI]. Os Rabinos tinham dúvidas sobre o Livro de Ester, Cântico dos Cânticos e Eclesiastes. Eles tinham a mesma desconfiança dos historiadores atuais, a de que estes livros foram escritos naquilo que os protestantes chamam de Período Intertestamentário. Ora, Yago Martins admite a existência destas disputas, e portanto tem de admitir também que o cânone farisaico ainda não estava 'fechado' no século II. O Pastor tenta escapar desta óbvia conclusão argumentando que, apesar de existirem divergências sobre a canonicidade destes livro específicos, havia consenso contra todos os ''deuterocanônicos''. Mas não é bem assim: o Talmude da Babilônia, que ele usa como fonte, cita algumas vezes Sabedoria de Ben Sira [chamada também de Eclesiástico] como Escritura Sagrada. Este é um fato puro e simples que não pode ser negado, e que é também consenso historiográfico. Assim, pelo menos este ''deuterocanônico'' era bem conceituado no Judaísmo Rabínico do início da Idade Média a ponto do Talmude conter afirmações a favor da sacralidade do texto. 


2.4 O maior conjunto de evidências que temos sobre os livros usados na Palestina entre os séculos III a.C e I d.C. são os mais de 15 mil rolos de pergaminhos encontrados nas Carvernas de Qumram e no Deserto da Judeia. São centenas de cópias de livros ou fragmentos de livros. Elas apontam, de modo concreto e insofismável, que as Escrituras Judaicas circulavam na Palestina em formas múltiplas. Existiam diversas variantes em hebraico, de modo que o texto proto-massorético do Judaísmo Rabínico posterior não era o único lido. Mesmo os textos da Torah [a Lei Mosaica] tinha versões divergentes e reelaborações [como a contida no Pergaminho do Templo ou no Pentateuco Samaritano]. Foram encontradas duas versões diferentes do Livro de Jeremias [uma mais curta, coincidindo com a Septuaginta, em que o livro tem cerca 2700 palavras a menos e uma disposição distinta dos capítulos] e uma mais longa [mais próxima do texto proto-massorético]. E, mais importante ainda, existiam cópias de ''deuterocanônicos'', como Ben Sira [Eclesiástico] e Tobit. E obras que geralmente não constam de cânones, como o Primeiro de Enoque e o Livro de Jubileus. O número de cópias destas obras era considerável o suficiente para que concluamos que eles eram considerados importantes.



A Mishná é uma coleção de tradições rabínicas escrita entre o século II e IV da Era Cristã. O Pastor Yago Martins a usa como fonte, mas ela é testemunha de disputas sobre a canonicidade dos Livros de Ester, Cântico dos Cânticos, Eclesiastes e até mesmo Ezequiel. Nem mesmo o cânone rabínico parecia fechado no período.


3. O Testemunho de Flávio Josefo


Yago Martins usa o famoso historiador para sustentar a tese de que já havia um cânone tradicional judaico na Palestina do século I. Na obra "Contra Ápio", Josefo diz:

"Pois não temos uma inumerável multidão de livros entre nós, discordando e contradizendo uns aos outros, [como os gregos], mas somente vinte e dois livros, (8) que contêm os registros de todo o tempo decorrido; que são devidamente acreditados [como] sendo divinos; destes, cinco pertencem a Moisés, que contém suas leis e as tradições da origem da espécie humana até a morte dele. Este intervalo de tempo foi de apenas três mil anos. Mas da morte de Moisés até o reinado de Artaxerxes, rei da Pérsia, que reinou depois de Xerxes, os profetas que houveram depois de Moisés escreveram o que foi feito em seus tempos em treze livros. Os quatro livros restantes contêm hinos a Deus, e preceitos de conduta para a vida humana. É verdade que nossa história tem possuido escritores desde Artaxerxes, muito particularmente, mas não são estimados de semelhante autoridade como os anteriores, de nossos antepassados, porque não tem havido uma exata sucessão dos profetas desde aquele tempo. E que nós temos dado crédito firmemente a estes livros de 8 nossa nação é evidente pelo que fazemos; pois durante muitas gerações conforme já passamos, ninguém teve a ousadia de acrescentar coisa alguma, nem tirar coisa alguma, ou mudar algo neles."

Parte deste trecho é apresentado no vídeo em uma versão um pouco diferente. Segundo Martins, ela indica que o cânone judaico já era formado pelos 22 livros tradicionalmente aceitos, sem qualquer presença dos ''deuterocanônicos''. E que o próprio Josefo dá testemunho da existência do Período Intertestamentário ao citar o Reinado de Artaxerxes I, no século V, como um ponto limite da presença de Profetas entre os judeus. 


Contestei essas alegações da seguinte forma:


3.1 Josefo escreve no fim do século I, após a Destruição de Jerusalém, e adere explicitamente ao farisaísmo -- ele afirma que discorda essênios, saduceus e zelotas. Suas obras já eram, então, orientadas pelas escolas que estavam dando origem ao Judaísmo Rabínico e não uma expressão do status quo do Judaísmo do Segundo Templo. Um dos objetivos de Josefo é demonstrar que as Revoltas Judaicas contra o Império Romano foram obras dos zelotes, e não dos fariseus, aliviando a barra da comunidade judaica diante das autoridades de seu tempo. Esta agenda foi em parte bem sucedida, porque os romanos permitiram a reconstrução de Jerusalém e do Templo. Mas esta última não foi concluída porque estourou uma nova Guerra Judaica, a Revolta de Bar Kochba [131 a 135 d.C.], que teve apoio dos fariseus. A maior liderança do Rabinato judaico, o Rabi Akiva Ben Joseph, reconheceu Simão Bar Kochba, o comandante da Revolta, como o Messias Judaico, o que mostrou definitivamente aos romanos que, diferente do que alegavam os fariseus, o ''problema'' não estava apenas na corrente zelota. O mais interessante é que Yago Martins cita Aquila de Sínope, um discípulo do Rabi Akiva Ben Joseph, como exemplo de que as Escrituras Judaicas podiam ser traduzidas para o grego numa boa, que a versão da Septuaginta não era necessária. Mais uma vez, a argumentação Protestante tem problemas históricos mas também religiosos. De todo modo, e voltando ao ponto central, Josefo é exemplo das crenças principais desses Rabinos, não da comunidade judaica do século I.


3.2 Flávio Josefo afirma que são 22 os livros aceitos. A Tanach tem 24 livros. É provável, portanto, que o cânone rabínico conhecido por Josefo tenha divergências com o t exto massorético. Não sabemos se as diferenças da lista de Josefo se devem apenas a uma disposição diferentes dos livros ou se sua lista era diferente. Mas sabemos que a versão de Estar usada por ele era aquela que condiz com a Septuaginta e não a do texto proto-massorético dos fariseus. O Livro de Ester na Septuaginta tem capítulos a mais que a versão hebraica. Estas adições eram usadas por Flávio Josefo. Lembrem-se que Ester era motivo de polêmica na Mishná.


3.3 Josefo não diz que os Profetas cessaram em Israel no século V a.C., como depois alegado pelos Talmudistas, e sim que a sucessão dos Profetas não é clara depois do Reinado de Artaxerxes I, afirmação que tem de ser entendida diante da comparação que ele faz com a estabilidade do Sumo-Sacerdócio. Segundo ele, a sucessão de Reis e de Profetas tinha sido interrompida de alguma maneira, mas não a do Sumo-Sacerdócio -- uma alegação bastante contestada por algumas correntes do Judaísmo da Palestina do século I. Mas Josefo reconhece a existência de profetas posteriores a Artaxerxes, sendo João Hircano, que reinou na segunda metade do século II a.C., um dos exemplos mais claros:

"But when Hyrcanus had put an end to this sedition, he after that lived happily, and administered the government in the best manner for thirty-one years, and then died, 30 leaving behind him five sons. He was esteemed by God worthy of three of the greatest privileges,—the government of his nation, the dignity of the high priesthood, and prophecy; for God was with him, and enabled him to know futurities; and to foretell this in particular, that, as to his two eldest sons, he foretold that they would not long continue in the government of public affairs; whose unhappy catastrophe will be worth our description, that we may thence learn how very much they were inferior to their father's happiness."

["Mas quando Hircano colocou um fim à sua sedição, viveu feliz; e governou da melhor maneira por trinta e um anos, e depois morreu, deixando cinco filhos. Ele foi considerado por Deus digno de três dos maiores privilégios -- o governo de sua nação, a dignidade do sumo-sacerdócio, e a profecia; pois Deus estava com ele, e o tornou apto a conhecer os eventos futuros; e a prever, por exemplo, que seus dois filhos mais velhos não teriam continuidade no governo dos assuntos públicos; e cuja catástrofe infeliz será descrita po nós, de modo que aprendamos o quanto eles foram inferiores em felicidade ao pai deles."]

É provável que houvesse dúvida nas escolas farisaicas sobre a cessação da profecia antes do período Asmoneu ou da Destruição do Segundo Templo. O que explica as discussões sobre livros como Ester e Eclesiástico [Sabedoria de Ben Sirah].


3.4 Josefo tem a Septuaginta em alta conta e dá crédito à Carta de Aristeia, que alega que a Tradução dos Setenta e Dois Anciões foi inspirada por Deus. Isso indica que, apesar de sua adesão ao farisaísmo, o historiador não vê diferença de valor entre o texto proto-massorético e a Septuaginta, que incluía os ''deuterocanônicos''. 



Simão Bar Kochbah foi o líder da Terceira Guerra Judaica, ocorrida entre 131 e 135 d.C. O Rabi Akiva Ben Joseph, principal liderança rabínica do século II, e referência para toda a Mishná, apoiou a Revolta e reconheceu Bar Kochbah como o Messias. Após a rebelião, os romanos proibiram os judeus de entrarem em Jerusalém.


4. O testemunho de Fílon de Alexandria


De modo um tanto surpreendente, o Youtuber usa o filósofo Fílon, que escreveu no segundo terço do século I, para defender que nem mesmo os judeus que usavam a Septuaginta consideravam os "deuterocanônicos" como obras inspiradas por Deus. Fílon não os teria citado diretamente em suas obras, e assim, conclui o Pastor, "um dos maiores pensadores hebreus de seu tempo simplesmente não se relaciona com os apócrifos em sua construção teológica". 


Contestei essa alegação da seguinte maneira:


4.1 É verdade que Fílon não cita diretamente os ''deuterocanônicos". A questão é que ele tampouco cita Ezequiel, Ester, Lamentações de Jeremias, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos e Daniel. A ausência de citação direta de um livro na obra de Fílon não pode ser usada, portanto, para averiguar seu status canônico, ou então teríamos de considerar todas essas obras fora do cânone aceito pelo teólogo e assumir que havia divergência sobre as listas entre os judeus do século I;


4.2 Apesar de não citar ''deuterocanônicos'', há alusões e referências ao texto de Ben Sira [Eclesiástico] na obra de Fílon. Mais ainda, é consenso que a literatura sapiencial alexandrina, da qual faziam parte os ''deuterocanônicos'', é basilar para a teologia de Fílon. Não tem sentido nenhum afirmar que eles não contribuíram para as construções teóricas deste pensador;


4.3 Fílon reconhece explicitamente a Septuaginta como Escritura Sagrada, dando crédito à versão de que os 72 Anciões foram inspirados por Deus. Ele não faz em nenhum momento distinção ou separação deste ou daquele livro contido na Septuaginta. Como o próprio Pastor admite, a "Tradução dos 70" trazia os ''deuterocanônicos".



Ilustração de João Hircarno, que era considerado Profeta por Flávio Josefo. O historiador judeu alegava que a sucessão dos Profetas era desconhecida, mas não que a Profecia tinha cessado em Israel.


5. Conclusão


Enfim, nem mesmo as escolas farisaicas do período posterior à Destruição do Segundo Templo tinham um cânone fechado ou concordavam inteiramente sobre a cessação da Profecia em Israel. Além disso, existiam outras correntes na Palestina do século I, com crenças bem distintas, e que possivelmente reconheciam uma literatura diferente daquela farisaica. Temos evidências de que o número de livros que circulava na região era maior do que o cânone Rabínico posterior, e que suas próprias formas textuais eram mais fluidas. Para completar, a maioria dos judeus no período usava a Septuaginta, versão em grego que trazia os "deuterocanônicos'' e que era comumente considerada inspirada por Deus.


Este bloco de argumento do Pastor Yago Martins não demonstra em lugar nenhum que os "deuterocanônicos" eram desprezados ou deixados de lado por um cânone já estabelecido e fechado, mantido desde o século V a.C., e que seria hoje usado pelos Protestantes. Há evidências de uso das obras ''deuterocanônicas'' tanto pelo Rabinato, quanto por outras correntes do Judaísmo do século I, e também por Flávio Josefo [Adições a Ester, pelo menos] e Fílon de Alexandria.


Esclarecida a questão, vou me preocupar agora com o segundo bloco de argumentos do vídeo do canal "Dois dedos de Teologia", aquelas que buscam considerar o cânone usado por Cristo e pelos autores do Novo Testamento. Será que é possível demonstrar que Cristo e os Apóstolos tinham um cânone judaico fechado e que ele era aquele do texto massorético, hoje usado pelos Protestantes?

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

O Pastor Yago Martins e o Cânone Judaico, parte I: O Cânone estava fechado na Palestina do século I?


O Judaísmo Rabínico emerge no século II d.C. a partir da liderança de Rabinos que sobreviveram às Guerras Judaicas, com a consequente destruição de Jerusalém, do Segundo Templo, e da derrota na Revolta de Bar Kochbah [cerca de 135 d.C.]


Anunciei que comentaria as posições do Pastor Yago Martins sobre a formação do Novo Testamento [leia aqui]. Mas sei que ele trata também do cânone do Velho Testamento com o objetivo de responder às críticas de católico-romanos de que Lutero teria retirado livros das Sagradas Escrituras [veja aqui]. Em algumas postagens, defendi que não havia qualquer cânone judaico fechado nos tempos de Cristo, que a Igreja dita "Primitiva" usava a Septuaginta, e que o texto massorético, usado pelos protestantes para seu Antigo Testamento, foi elaborado pelos Rabinos na Idade Média. Vocês podem conferir nos seguintes textos: aqui, aqui e aqui.


Pois bem, as minhas alegações não batem com as do Pastor, que tenta disponibiliza vários argumentos apologéticos para a defesa da Bíblia Protestante. Vou comentar alguns deles antes de me debruçar sobre o tema do Novo Testamento. 


É bom lembrar que, da minha perspectiva, a questão é ampla: questiono o Sola Scriptura, princípio basilar das Reformas protestantes, e não somente a propriedade deste ou daquele livro pertencer a um cânon. O meu ponto é que o Sola Scriptura não fazia nenhum sentido para a Igreja dita ''Primitiva'', que é invenção moderna, uma novidade que pareceria delirante para os cristãos dos primeiros séculos. É neste sentido que analiso o vídeo do canal "Dois dedos de teologia''. Afinal, se a Bíblia Protestante não é aquela dos Apóstolos, então o movimento evangélico tem um problemão em mãos.


Vamos aos argumentos do Pastor.


1. ''Os judeus tem o direito de definir o cânone do Antigo Testamento''


Martins usa a Epístola de São Paulo aos Romanos, capítulo 9, para argumentar que os 'oráculos de Deus' foram destinados aos judeus. E que, desse modo, são eles que tem o direito de estabelecer um cânone sobre os textos sagrados, cumprindo aos cristãos apenas recebê-lo e aceitá-lo tal como transmitido pelo ''povo eleito'', ou antes, pela comunidade judaica.


Mas, ainda que se aceite este argumento, a comunidade judaica para a qual os ''oráculos'' foram destinados não é aquela em que o Pastor se apoia para defender a tese de que o cânone judaico estaria fechado nos tempos de Cristo


Ele usa como fonte os escritos dos Rabinos que sobreviveram às Guerras Judaicas e que conduziram a criação do que chamamos mais propriamente de Judaísmo Rabínico, entre os séculos II e VI da Era Cristã.


Ora, afirmar que os textos do Judaísmo Rabínico refletem fielmente o status quo da Palestina do século I é um anacronismo que nenhum historiador levaria a sério. No fim desta seção, vou apontar a justificativa central de Yago Martins para se abraçar a esse anacronismo. 


Por ora, basta apontar que os Rabinos que escreveram a Mishná e o Talmude são descendentes espirituais e históricos de correntes -- escolas farisaicas, a se levar a sério os escritos destes próprios Rabinos -- que sobreviveram à Revolta de Bar Kochbah. O Judaísmo do século I era constituído por um número muito maior de tendências e seitas-- como a dos saduceus, essênios/comunidades de Qumram, zelotas, terapeutas, para não falar dos samaritanos, que constituem um problema específico -- e uma massa de população que não se identificava necessariamente com qualquer um destes movimentos. 



Rabi Akiva ben Joseph, uma das grandes lideranças Rabínicas no século II: ele reconheceu Simão Bar Kochbah, "o Filho da Estrela'', como o Messias. Um dos discípulos de Akiva traduziu as Escrituras Judaicas para o grego já em meio à polêmica entre Rabinos e cristãos



Não há qualquer evidência de que estas vertentes concordavam quanto a todos os livros que usavam, bastando elencar as dúvidas sobre o ''cânone saduceu''. A visão tradicional é de que os Saduceus só conferiam status divino à Torah [O Pentateuco, atribuído ao Justo Profeta Moisés, o Vidente de Deus]. Esta ideia tem sido criticada mais recentemente, mas não a ponto de demonstrar qual seria, de fato, a lista de livros em que se fundamenta esta seita específica. De todo modo, é inegável que os saduceus negavam a ''Torah Oral'', ou as tradições farisaicas em cima das quais Yago Martins escora sua tese. 


Não custa lembrar que os Saduceus faziam parte do alto sacerdócio do Templo, que  eram a seita mais influente na elite judaica [segundo Flávio Josefo], e que há indícios de que comandavam o Sumo-Sacerdócio no século I. 


Por outro lado, milhões de judeus moravam fora da Palestina. A maioria dos judeus vivia em outras regiões do Império Romano [e havia comunidades inclusive no Império Persa]. Estas comunidades, como vou detalhar em textos ulteriores, usavam a Septuaginta, que traz uma lista de livros diferente daquela mais tarde defendida no Judaísmo Rabínico. 


Transformar os Rabinos do século II em ''representantes'' autorizados da comunidade judaica é não só equivocado do ponto de vista histórico mas expressa a tendência protestante de subordinação ao "Rabinismo''. O protestantismo é uma ''heresia'' judaizante neste sentido específico do termo. 

Talmude da Babilônia, escrito no século VI, afirma compilar ensinamentos, tradições, folclores judaicos guardados ao longo de séculos. Segundo academicos, o Talmude apresenta Jesus Cristo como um feiticeiro que estaria condenado ao inferno


Yago Martins chega a citar como fonte o Talmude da Babilônia [documento que se refere a Jesus Cristo em termos que deveriam causar engulhos em um cristão sincero], obra Rabínica do século VI, para defender que o cânon judaico estaria fechado por causa do ''Período Inter-Testamentário". Segundo os talmudistas, o período profético termina por volta da construção do Segundo Templo, ou no início do século V. Os Profetas teriam se calado em Israel, e nenhum nova revelação teria sido feita por Iahweh


Se levarmos esse argumento a sério, a comunidade judaica para a qual os oráculos divinos foram destinados é ainda anterior às correntes existentes na Palestina do século I. Os próprios fariseus se formam e desenvolvem no período Asmoneu, a partir do século II a.C., e conferir autoridade a seus ensinamentos, que mais tarde levariam à Mishná e ao Talmude, seria puro nonsense. Caso Yago Martins não consiga provar a existência de um cânone fechado no século VI a.C., então nada feito. Não será reivindicando a autoridade de ensinamentos de Rabinos do início da Idade Média, que diziam ser descendentes de uma corrente forjada no século II a.C., que seu ponto seria demonstrado. 


Para complicar ainda mais, temos fortes indícios de que nem mesmo o cânone Rabínico estava fechado no século II. O Pastor mobiliza Flávio Josefo, historiador que escrevia em fins do século I, já após a destruição de Jerusalém, com o objetivo de demonstrar que o cânon judaico era formado por 22 livros já naquela época -- deixando portanto de fora os chamados ''deuterocanônicos''. Lemos na obra "Contra Apion":

"For we have not an innumerable multitude of books among us, disagreeing from and contradicting one another [as the Greeks have], but only twenty-two books, which contain all the records of all the past times; which are justly believed to be divine; and of them five belong to Moses, which contain his laws and the traditions of the origin of mankind till his death."


O problema deste argumento é que o cânone do Judaísmo Rabínico defendido pelos protestantes contém 24 livros, e não 22 como citado em Josefo. 


Algumas soluções foram propostas pra resolver este possível enigma, mas elas são especulativas, sem evidências a seu favor. O fato indiscutível é que o número de obras não bate, o que indica que o cânone à qual Josefo se referia no fim do século I não é o mesmo que foi aceito pelos Rabinos a partir do início da Idade Média.  

Possível busto de Flávio Josefo


E, de fato, sabemos de debates rabínicos em torno da canonicidade de determinadas obras. Na Mishná, compilada a partir do século II, existem discussões sobre a canonicidade do Cântico dos Cânticos, do Livro de Ester e do Eclesiastes. Ou seja,  havia mesmo entre eles uma disputa sobre a lista oficial de livros inspirados. Não custa lembrar os Rabinos já levavam em conta o crescimento do Cristianismo e o antagonismo com a Igreja, que, como vou detalhar, usava a Septuaginta. 


É nesse contexto que tem de ser entendida a tradução das Escrituras Hebraicas para o grego realizada por Aquila de Sínope, discípulo do Rabino Akiva ben Joseph, nos anos 120 d.C. Embora não saibamos exatamente qual o cânone usado nesta tradução, já que só restaram fragmentos trazendo trechos dos livros de Reis, é óbvio que não seguiria a Seputaginta. Na verdade, apelar para um discípulo de Akiva ben Joseph revela o beco sem saída da argumentação de Yago Martins: este é o mesmo Rabino que, liderando a comunidade de judeus palestinos, reconheceu Bar Kochbah como o Messias durante a Terceira Guerra Judaica. 


O próprio Pastor admite que os Rabinos discutiam o cânone no século II ao citar o polêmico "Concílio de Jamnia", hoje bastante desacreditado nos estudos sobre a emergência do Judaísmo Rabínico. Mas, por incrível que pareça, não chega à conclusão óbvia de que não havia um cânone fechado entre as próprias escolas farisaicas nas quais ele vai buscar a fonte de legitimidade do Antigo Testamento protestante.


Os historiadores não chegaram a um consenso sobre a época em que o cânone dos Rabinos foi fechado, mas a tendência mais forte e majoritária é considerar que ele ainda se encontrava aberto no século II. O que parece explicar também, de modo muito mais simples, o porquê Josefo, escrevendo nas décadas posteriores à destruição do Segundo Templo, lista apenas 22 livros e não 24. E explica também porque o Livro de Ester não estava presente nos manuscritos encontrados em Qumram.


Fílon de Alexandria considerava a Septuaginta, a versão das Escrituras em grego, como inspirada por Deus


Os Pergaminhos encontrados nas cavernas de Qumram formam o conjunto mais extenso de evidências que temos sobre os textos usados pelos Judeus da Palestina entre os séculos III e I a.C. O Livro de Ester, objeto de polêmica na Mishná, não foi encontrado nestes mais de 15 mil Rolos de Pergaminhos. Mas lá constam três cópias do Eclesiástico [Sabedoria de Ben Sirach] e 4 de Tobit [dois ''deuterocanônicos''] -- para não mencionar as 25 do Primeiro Livro de Enoch e as 21 do Livro de Jubileus, que não costumam fazer parte de nenhum cânone. 


Para fins de comparação, foram encontradas apenas duas cópias do Livro de Josué, duas do Livro de Eclesiastes, e quatro de Juízes e do Cânticos dos Cânticos. O que aponta que Eclesiástico e Tobit não eram de forma alguma menosprezados.


O vídeo também usa a ausência de citações diretas dos chamados ''deuterocanônicos'' na obra de Fílon de Alexandria [que teria escrito na primeira metade do século I]. É estranho que o Pastor mobilize Fílon neste ponto, porque isto só pode ser feito a partir de um recorte bastante arbitrário das obras deste autor. O argumento é desmontado facilmente, dado que Fílon também não cita Daniel, Eclesiastes, Ester, o Cântico dos Cânticos, Ezequiel e Lamentações de Jeremias. A linha de raciocínio de Yago Martins exigiria que ele também desconsiderasse estas obras do ''cânone de Fílon". 


Além disso, há dúvidas se realmente não há alusões ou pelo menos forte influência de Eclesiástico na obra do filósofo alexandrino. O curioso, no entanto, é que ele não reconhecia a divisão triparte das Escrituras Sagradas consagrada na Tanach Rabínica ["Leis", "Profetas", "Escritos"] -- que Martins usa como apoio de sua argumentação -- e se refere à Septuaginta como texto inspirado por Deus. 


O Pastor Yago não pode ter tudo, nem deve atirar para todos os lados. Ou ele considera Fílon um testemunho confiável sobre as Escrituras Sagradas ou não. Se ele considera, então está refutado.


Convém lembrar que a Igreja dita ''primitiva'' era formada basicamente por judeus e prosélitos [convertidos ao Judaísmo]. Os Doze Apóstolos eram todos judeus. Imaginar que os Rabinos que descendem de escolas farisaicas após a Destruição de Jerusalém tem autoridade para definir o texto bíblico e não a Igreja é muito estranho para alguém que se define como cristão. Pois as promessas a Israel tem continuidade na Igreja. Imaginar que a Igreja cristã esteja subordinada a Rabinos é a suprema ironia quando se trata de História do Cristianismo. O que deveria importar é saber que texto bíblico era de uso comum na Igreja dita ''Primitiva'', e não aquilo que descendentes espirituais e históricos de escolas farisaicas disseram sobre as Escrituras depois da Gloriosa Ressurreição.


Para terminar esta seção, a justificativa central de Martins para se remeter a escritos dos Rabinos entre os séculos II e VI da Era Cristã já indica toda a contradição do Sola Scriptura. Segundo o Pastor, estes escritos são legítimos para se falar do cânone judaico porque são frutos de uma ''tradição oral'' mantida ao longo dos séculos. Não seria necessário qualquer comentário. 


Cavernas de Qumram, onde foram encontrados milhares de pergaminhos com dezenas de livros judaicos dos séculos III a I a.C. Maior testemunha das obras que circulavam pela Palestina nos tempos de Cristo


Prefiro não mencionar o que os Evangelhos dizem sobre aas ''tradições'' dos fariseus, qualquer cristão sério está bem informado a esse respeito. Ressalto apenas o paradoxo de um protestante apelar para a legitimidade de uma suposta tradição oral farisaica que seria mantida séculos depois que as Escrituras Sagradas teriam supostamente tomado sua forma final [o Talmude da Babilônia é mil anos posterior ao suposto início do período Intertestamentário], e ao mesmo tempo nega qualquer possibilidade do mesmo ter sido realizado pela Igreja após a escrita dos livros do Novo Testamento. 


Para não se submeter à tradição da Igreja, o Protestante tem de aceitar a tradição dos fariseus. 


Vou continuar analisando os argumentos de Yago Martins em uma postagem futura. No próximo texto da série, comento os argumentos sobre o suposto cânone usado por Nosso Senhor, Deus e Salvador Jesus Cristo e pelos Santos e Gloriosos Apóstolos. 


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Yago Martins, o Sola Scriptura e os argumentos de Kostenberger e Kruger

 



Poucos anos atrás aconteceu um pequeno debate entre Olavo de Carvalho e o Pastor Yago Martins. A pendenga começou porque o filósofo da Virgínia escreveu texto intitulado ''Por que não sou evangélico'' [clique para ler] e o postou em seu Facebook junto com um desafio: o de que nem mil teólogos protestantes conseguiriam refutá-lo.


Ora, a repercussão que Olavo tem no público evangélico é notória, e ainda maior naqueles primeiros anos do mandato de Jair Bolsonaro. Alguns pediram para que Yago respondesse ao texto, o que ele fez em seu canal do Youtube.


Como é comum quando o nome de Olavo está envolvido, a conversa rapidamente evoluiu para o embate erístico, com discípulos do pensador se envolvendo -- no caso, Bernardo Kuster -- e tentando desqualificar o interlocutor. O modo mais elegante com que Yago levou a conversa, bem como erros óbvios na exposição de Olavo, deram ao pastor a mão forte no enfrentamento, até porque um contingente considerável dos leitores do filósofo já estava predisposto a aceitar a defesa do ponto de vista evangélico.


Mas, como em outros casos, Olavo teve a intuição correta do problema, ainda que o tenha abordado de forma atabalhoada. Os equívocos que cometeu não refutam o cerne do argumento apresentado. Talvez ele não tenha sido capaz de apresentar e elaborar bem o ponto, que permanece fazendo sentido aida assim: o Sola Scriptura não existe em ponto algum das Sagradas Escrituras, já o rito da Eucaristia sim.


De todo modo, dei uma olhada rápida em alguns vídeos de Yago Martins sobre a formação do cânone, um tópico importante para quem defende o Sola Scriptura. Apesar de bem articulado, de estudioso e inteligente, os argumentos que o influencer protestante usa são frágeis. Ele se sai bem como apologeta, e é evidente que seu canal se dedica, antes de qualquer coisa, a defender suas crenças. Mas não parece ter justificativas sólidas o suficiente para sustentar este princípio basilar da Reforma.


Vou tratar de alguns destes argumentos de Yago Martins em postagens que farei nas próximas semanas. Vou partir de um vídeo que ele lançou em seu canal anos atrás com o intuito de defender o Sola Scriptura. No vídeo, o Pastor sustenta suas posições por meio do livro "A Heresia da Ortodoxia", de Andreas J. Kostenberger e Michael J. Kruger.


Não tenho intenção de iniciar um debate com Yago Martins, e tampouco sou defensor de Olavo de Carvalho. Meu intuito é tão somente usar o vídeo e os argumentos que ele apresenta como exemplos do beco sem saída do Sola Scriptura e, portanto, dos problemas do protestantismo em relação ao que sabemos da formação do cânone bíblico.


Como introdução a este tema, vou repetir alguns dos pontos que tenho colocado nas últimas semanas a respeito do "Antigo Testamento'', lembrando que as observações que vou fazer sobre o vídeo de Yago Martins dizem respeito ao que chamamos de Novo Testamento.


i. Não havia cânone judaico fechado no século I da Era Cristã. Vocês vão encontrar alguns pesquisadores defendendo isso, mas estão em minoria. Teólogos protestantes e judeus defendem que o cânone existia, eles dependem disso por questões de fé, mas de um ponto de vista histórico não há como demonstrar este ponto.


ii. Se voltamos aos três séculos anteriores a Cristo, descobrimos que as Escrituras Judaicas circulavam não só sem cânone fechado como também em diversas variantes. E quanto a isso não pode existir dúvida alguma, porque estas variantes [em hebraico, mas também em samaritano e grego] foram encontradas nos rolos de Qumram. Vou repetir: existiam variantes em hebraico e temos PROVA disto na forma de manuscritos e fragmentos de manuscritos. Existiam variantes até mesmo no texto da Torah.


iii. Não temos nenhum manuscrito com trechos das Escrituras Judaicas anteriores ao século III a.C. Portanto, não temos como comparar essas variantes [em hebraico, e as variantes com a Septuaginta e com o pentateuco samaritano] contrastando-o com uma cópia mais antiga, que remonta, digamos, ao fim do exílio na Babilônia ou mesmo antes.


iv. A Septuaginta foi um tradução das Escrituras Judaicas para o grego, que se inicia em III a.C. Nos tempos de Cristo, era a versão das Escrituras mais usada pelos judeus, já que pelo menos 80% deles viviam fora da Palestina e se comunicavam, principalmente, em grego koiné. Para os judeus do Egito, por exemplo, a Septuaginta era uma versão inspirada por Deus, e existia inclusive festas religiosas em Alexandria comemorando a ''tradução dos 72 anciãos''. Além disso, a versão em grego também circulava muito na Palestina, principalmente nas grandes cidades, em que o grego era também língua comum. Em Qumram, comunidade judaica bastante conservadora, foram encontrados manuscritos contendo livros inteiros da Septuaginta.


v. A Septuaginta era a versão das Escrituras usada pela "Igreja Primitiva" [como os protestantes gostam de chamá-la]. Isto é um fato facilmente provado, inclusive. Cerca de oitenta por cento das citações das Escrituras realizadas nos textos do Novo Testamento batem com a Septuaginta. [as que não batem com a Septuaginta nem por isso vem do texto massorético, diga-se de passagem.] O que demonstra que os autores desses livros canônicos a usavam comumente. Quando São Paulo falava das Escrituras, dos 'oráculos' entregue aos judeus etc., ele citava, muitas vezes, a Septuaginta. Existem passagens nos Evangelhos que só fazem sentido tendo a Septuaginta de fundo. Passagens da Septuaginta são ''colocadas na boca"' de Cristo no Evangelho de São Mateus. O Livro de Isaías usado pelos cristãos era nitidamente na versão dos LXX. [E sabemos disso porque o Isaías da Septuaginta é bem diferente das variantes hebraicas.]


vi. O texto usado atualmente pelos judeus foi consolidado na Idade Média cristã. Antes do século V, existia um texto pré-massorético, escolhido pelos Rabinos e que era uma das variantes que remontavam à Palestina. Mas as vocalizações deste texto foram trabalhados entre o século V e X, até o consenso em torno da versão da Escola de Tiberíades. O primeiro manuscrito completo do texto massorético que temos em mãos data do ano 1008. É necessário ter atenção a isto, pois o texto massorético NÃO É o texto proto-massorético. Não só porque diferenças na vocalização alteram o sentido do texto, mas também porque existem variações no texto consonantal entre o proto-massorético e o massorético.


vii. Sim, Lutero e os protestantes estavam errados ao imaginar que o texto massorético era a versão original ou mais fiel da Tanach transmitida desde sempre, e que todo o restante eram traduções não inspiradas. Quem acredita nesta narrativa hoje em dia o faz por própria conta e risco, mas não há fundamento histórico para isto hoje em dia.


viii. Pra terminar, o alfabeto hebraico usado hoje em dia é uma construção pós-exílio da Babilônia. O Justo Profeta Moisés não conseguiria ler nenhum texto em hebraico pós-exílico, pois o alfabeto anterior ao século VI era diferente e mais próximo do samaritano. A língua hebraica original era mais próxima daquela dos cananeus e foi perdida após a destruição de Jerusalém em 586 a.C. Então, toda vez que você ver um texto em hebraico das Escrituras ou mesmo da Torah, mesmo que seja um fragmento de manuscrito da Antiguidade, saiba que ele é NECESSARIAMENTE uma reescrita do alfabeto paleo-hebraico. Quem reteve este alfabeto de forma mais próxima foi o pentateuco samaritano.


Por enquanto, é isso.

sábado, 10 de fevereiro de 2024

A Rebelião de Azazel e dos Anjos Guardiões, ou: A formação do cânone, parte 4


Aproveito a pergunta que me fizeram noutro lugar sobre o Livro de Enoque -- e que pretendo tratar em postagem específica -- pra fazer uma observação sobre o cânone neotestamentário.


Bato na tecla que o Sola Scriptura pareceria delírio para a Igreja dita ''Primitiva". Que nem o cânone judaico nem o cristão estavam fechados nos primeiros séculos depois de Cristo. Que no primeiro século de existência da igreja não se sentia necessidade de um Novo Testamento. Que no primeiro século da Era Cristã, os escritos que mais tarde formariam a ''Bíblia" ainda estavam sendo escritos: as primeiras gerações cristãs morreram sem conhecê-los.

Mas há outro aspecto muito importante: a influência na Igreja de certos escritos e tradições que hoje são pouco conhecidos dos cristãos. Aquelas compiladas no Livro de Enoque estão entre elas.

O Livro de Enoque [me refiro ao I Livro de Enoque] não foi aceito como canônico, com exceção da Igreja etíope. E, no entanto, é muito difícil entender o desenvolvimento da cristologia, da cosmologia, da angelologia, da soteriologia e da escatologia cristãs sem levá-lo em conta.

Muitos tem a impressão bastante equivocada de que boa parte destes elementos doutrinários são 'tardios'. A pesquisa acadêmica do século XIX, fortemente influenciada pelo protestantismo, imaginou essas tradições como misturas indevidas com o 'paganismo' na medida em que o cristianismo se expandia para fora da Palestina ou em que era aceito como religião oficial do Império Romano.

Nada mais falso. Como apontei diversas vezes, o Judaísmo tinha uma diversidade imensa de correntes durante o Segundo Templo. Existiam correntes judaicas disputando o sentido da religião. As correntes farisaicas e saduceias não resumiam nem de longe tudo o que se entendia por Judaísmo nos dois séculos anteriores a Cristo. Nem o culto do Templo de Jerusalém era consensual, pois existiam vertentes que o consideravam conspurcado por se basear em um sacerdócio e/ou calendário ilegítimo.

O Judaísmo Rabínico que se desenvolveu a partir do fim da Antiguidade dá continuidade a certas correntes do Segundo Templo, mais especificamente escolas farisaicas. A Igreja pode ser entendida, em muitos sentidos, como a continuidade de outras correntes deste mesmo complexo religioso.

E aí voltamos ao primeiro livro de Enoque e suas descrições das rebeliões dos Anjos, comandada por Azazel e por Samiyaza, e que ensinam aos homens segredos em diversos âmbitos, incluindo aí a magia, a metalurgia, as estratégias e armas de guerra, e outros tantos mistérios da Criação -- como ritos e cultos que envolvem aborto, abuso sexual, consumo de sangue, sacrifício humano e canibalismo. Estes mesmos "Guardiões" Angélicos estupram mulheres e geram uma descendência de Gigantes [Os Nefilins] que vão escravizar a maior parte dos seres humanos -- narrativa que deixou marca explícita no textos canônicos, como em Gênesis 6:1 a 4, ou como na ordem de São Paulo em I Coríntios 11:10 para que as mulheres usem véus como proteção contra os anjos [Os 'Guardiões' ardem de luxúria pelas mulheres, há todo um vínculo aí entre a natureza feminina, o erotismo, e a sabedoria divina].

O lamento da humanidade escravizada subiu ao trono de Deus por meio de intermediários angélicos -- sim, porque a ideia de intermediação entre os homens e Deus estava colocada no Segundo Templo, não foi nenhuma ''paganização'' do cristianismo --, e Deus ordena a guerra contra os poderes rebelados, levada a efeito pelos Sete Arcanjos que se reúnem ao redor do Trono divino.

Só se compreende as práticas judaicas do primeiro século, e só se percebe o contexto de elementos muito importantes do Novo Testamento, se levamos em conta essas crenças, que eram bastante disseminadas entre os judeus.

Azazel, o anjo aprisionado no deserto, e para o qual os sacerdotes do Templo enviavam o bode expiatório com os pecados de todo o povo.


O Livro de Enoque também traz detalhes do Julgamento Divino sobre os Anjos Rebelados, levado a efeito pela figura do Filho do Homem, um Anjo acima dos próprios Anjos que, muitas vezes, é identificado nesse livro como o próprio Iahweh e também como o Messias.

Definitivamente, as crenças da Igreja dita "Primitiva" não surgiram do nada. E os embates entre cristãos e fariseus e saduceus etc. podem ser vistos, em certo âmbito, como conflitos entre judaísmoS diferenteS. Não tem nada a ver com uma suposta ''helenização'' ocorrida após a conversão do Império Romano.

Só levando em conta as tradições enoquianas que se percebe o desenvolvimento histórico da 'cosmologia' da Descida de Cristo aos Infernos, a libertação dos justos rumo ao Paraíso, o papel capital de Jerusalém como eixo do mundo. É ali que se pode entender melhor também a posição do Apocalipse de São João, que dá continuidade à história do conflito entre os Anjos de Deus e os Anjos Rebelados, e que descreve as "Duas Bestas" como Monstros que emergem do Mar [Leviatã] e da Terra [Behemot].

Além disso, a própria ideia do Anjo está associada, nos tempos apostólicos, ao de Realeza e de 'protetor' de um povo específico, de modo que toda essa cosmologia e angelologia se intersecciona com a História e com o que chamaríamos hoje de ''política''. A Igreja não nasce no mundo de Maquiavel, em que estes âmbitos existem em 'caixinhas' separadas umas das outras.

Mas isso é tema para ser tratado devagar, com cuidado e comedimento. Há uma razão para que não tenham se tornado escritos canônicos. Porque a ideia de cânone está vinculada àquilo que pode ser lido publicamente [cantado em voz alta] nos ritos cristãos. O canônico, por mais divino e inspirado que seja, é também a ponta de um Iceberg que flutua no oceano profundo da Santa Tradição.

Óbvio que o protestantismo impede uma compreensão real de todas estas questões por toda sua associação com o Sola Scriptura, e sua relação moderna com o texto escrito, com a leitura introvertida e individual etc.

Na próxima postagem, volto a falar da formação do cânone.


terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Dos Evangelhos, canônicos ou não, ou: A Formação do Cânone, parte 3

 




1. Introdução


Por curioso que possa parecer, os Evangelhos geraram um consenso mais rápido na Igreja que o epistolário e outros documentos. Ainda assim, esse consenso não surgiu no século I nem na geração apostólica. Ele é fruto do segundo terço do século II. E não impediu que outros escritos sobre a vida pública de Jesus tivessem forte influência na Igreja desse mesmo período.


Havia uma tendência dos historiadores de proporem uma datação tardia aos Evangelhos. Ela foi revertida a partir dos anos 1930/40, na medida em que se estudavam as citações sobre eles nas obras dos escritores cristãos dos séculos II e III, e em que se descobriam fragmentos de manuscritos. 


Já escrevi uma postagem sobre a datação dessas obras [clique no link], então não preciso me alongar. No quadro podemos ter uma ideia da maneira como os acadêmicos veem este tema e compará-lo com a atribuição tradicional. Mas devo acrescentar algumas palavras. 


Não deve existir qualquer constrangimento para um cristão em sustentar a datação tradicional. A pesquisa acadêmica data São Lucas e São Mateus após a Destruição do Templo com argumentos bastante frágeis, baseados principalmente em certa descrença sobre a possibilidade deste conflito ter sido previsto nos Sinóticos. Afinal, ''profecias não existem''. Há, porém, motivos muito bons, mesmo do ponto de vista histórico e  das evidências internas textuais para considerar estes textos como anteriores aos anos 70. 


Um segundo debate é quanto a autoria. Há uma descrença generalizada nos meios históricos com a atribuição tradicional. Em geral, os historiadores tratam esses textos como ''anônimos'' porque os evangelistas não se nomeiam no corpo do documento. E no entanto não temos nenhuma evidência de que eles tenham sido algum dia atribuídos a outras pessoas que não São Mateus, São Marcos, São Lucas e São João. As primeiras menções aos evangelhos hoje canônicos, ainda na primeira década do século II, trazem, de modo unânime e sem discordâncias, essas atribuições. A rápida difusão e autoridade que esses escritos ganharam na Igreja é mais um argumento a favor da abordagem tradicional.


Um terceiro ponto diz respeito ao Evangelho de São João. Alguns especialistas defendem que o texto foi composto em etapas [mais ou menos aplicando a este Evangelho a tradicional tese sobre o Livro de Isaías]. A camada mais antiga remontaria aos anos 50, uma segunda diria respeito aos anos 70, e uma  terceira seria a redação final no fim do primeiro século. Esta hipótese é altamente especulativa, e enfrenta muitos problemas dada a unidade óbvia do texto. É fácil perceber que ele tem um epílogo, mas sua estrutura -- desde o preâmbulo, passando pelos sete sinais, até a teologia da Paixão e da Ressurreição, e finalmente a confissão da Divindade de Cristo por São Tomé --, formam um todo bastante consistente, incluindo de um ponto de vista estilístico.

Fragmentos contendo versículos de São Mateus, primeiras décadas do século II

Há também muitas questões levantadas sobre quem seria o João por trás do Evangelho. A Tradição cristã afirma que se trata de um dos Doze Apóstolos, mais especificamente João filho de Zebedeu, irmão de São Tiago Maior. Os críticos do texto levantam dúvidas, mas nas últimas décadas se criou um consenso de que, seja quem for que esteja por trás deste documento, também produziu as três cartas hoje canônicas. [Do Apocalipse vou tratar depois.]


Por fim, existem duas questões muito importantes sobre os canônicos: o final perdido de São Marcos e a famosa Perícope da Adúltera, assuntos que vou abordar nessa postagem. 



2. Da autoridade dos Canônicos

Os Evangelhos canônicos já eram citados na Primeira Epístola de São Clemente de Roma, escrita entre os anos 70 e 90 do primeiro século. Há passagens na Carta que revelam conhecimento dos Evangelhos de São Mateus e de São Lucas, embora os textos não sejam referenciados no corpo da Epístola. 


Há uma menção ainda mais substancial em São Papias de Hierápolis, que esclarece, em obra escrita por volta do ano 100, a origem dos Evangelhos de São Marcos e de São Mateus, usando como  suposta fonte uma figura que ele chama de "São João, o Ancião". A maior parte dos escritores antigos [mas não todos] concluiu que ele se referia a São João Evangelista [e, por inferência, a São João Teólogo].


Esse testemunho é importante de mais de uma maneira. Primeiro, mostra que os evangelhos canônicos se difundiram rapidamente pelas comunidades cristãs. Segundo, e já me repetindo, revela que os textos sempre foram atribuídos a estes autores específicos. Em terceiro lugar, e ainda mais fundamental, o modo como São Papias se refere a estes documentos não parece indicar que eles tivessem o status de Escritura Sagrada. 


Pelo contrário, ele afirma dar mais importância às narrativas e ensinamentos que pode coletar pelo contato direto com os discípulos dos Apóstolos do que com os escritos que porventura lhe chegam. Ou seja, para São Papias, a tradição oral e discipular tinha precedência até mesmo sobre os Evangelhos.


A importância dos canônicos aumentou muito rapidamente, e São Justino Mártir, escrevendo por volta do ano 150, indica que eles eram lidos em voz alta no culto cristão. Como esta prática não é mencionada na Didaché -- obra que mencionei na postagem anterior -- ou em Padres como Papias, é possível concluir que, em algum momento do segundo terço do século II os Evangelhos hoje canônicos passaram a ser considerados com um status similar ao das "Leis e Profetas", ou seja, das Escrituras Judaicas [em sua versão da Septuaginta]. 


Na década de 160, um escritor assírio de nome Taciano sintetizou os quatro evangelhos canônicos em um texto único, o Diatéssaron. E por volta de 180, Santo Irineu de Lyon defendia o uso dos quatro Evangelhos, chamando-os de Evangelho tetramorfo.


Ícone de São Papias, Bispo de Hierapolis


Como não temos qualquer evidência de cânone em que constasse um Evangelho diferente dos canônicos [exceto aquele de Marcião de Sínope, que originou as discussões sobre a necessidade de uma lista oficial de livros], é bem possível que a autoridade de São Mateus, São Marcos, São Lucas e São João fosse inconteste desde o início. A própria rapidez com que esses documentos se tornaram conhecidos [há fragmentos de São João encontrados em diferentes localidades do Egito e datados dos anos 120] indica a aceitação que tiveram nas comunidades cristãs e sua diferença capital para todos os demais livros que mencionavam ensinamentos de Cristo. 


Daí não se tira, no entanto, que os demais ''evangelhos'' fossem inteiramente desconsiderados. Vamos nos voltar para eles.



3. Apócrifos pero no mucho


Existiram evangelhos que, apesar de não terem o status dos atuais canônicos, foram lidos de forma sistemática pelos cristãos do século II. Chama a atenção, por exemplo, as menções ao Evangelho dos Hebreus, que alguns historiadores acreditam, de forma bem fundamentada, ser uma referência a três obras distintas, uma delas, inclusive, associada à suposta versão em aramaico de São Mateus. 


Não existem cópias ou fragmentos dessas obras, mas elas são citados por autores dos século II e III. Os historiadores datam este Evangelho entre os anos 100 e 130, e o consideram fruto de uma comunidade judaico-cristã do Egito. Há três elementos importantes no texto:


a) Ele preserva a tradição de que São Tiago o Justo teria sido um dos primeiros para quem Cristo apareceu logo após a Ressurreição. Esta história não é mencionada em nenhum Evangelho Canônico, mas é bem antiga na Igreja, já que mencionada por São Paulo na I Epístola aos Coríntios. São Tiago o Justo é personagem importante em Atos dos Apóstolos, em que é retratado como líder da Igreja de Jerusalém. A Carta de São Paulo aos Gálatas, documento de fins dos anos 40, atesta que ele era considerado uma das "três colunas da Igreja''. A menção à aparição de Cristo a São Tiago "Irmão do Senhor" sinaliza a antiguidade das tradições mantidas por essa comunidade cristã do Egito;


b) Esse mesmo texto revela a crença de que a Mãe de Cristo era a encarnação de um Poder Angélico chamado São Miguel. Esta crença não foi acolhida na Igreja, é francamente heterodoxa. Mas demonstra, sem sombra de dúvida, que a mesma Igreja que definiu uma lista de livros oficiais engrandecia o status de Maria ''plena de graça".


c) Sua associação com a ''Perícope da Adúltera'' no Evangelho de São João, que vou mencionar logo adiante.


Outro texto do período bastante lido e que deixou uma influência imensa na Igreja foi o "Proto-Evangelho de São Tiago'', também chamado por alguns de "Evangelho da Infância de São Tiago". Há alusões a ele em escritores cristãos do último terço do século II. A sobrevivência de diversos manuscritos indica sua imensa difusão entre os cristãos, e aponta que a obra data, pelo menos, da primeira metade do século II. 


É desse documento, ou das tradições compiladas nele, que nos chegam a maior parte das informações presentes na Mariologia, tal como o anúncio do nascimento da Mãe de Deus pelo Arcanjo Gabriel, sua criação no Templo de Jerusalém, a escolha de São José para guardá-la por meio de uma casamento, bem como sua virgindade perpétua. 


Papiro egípcio do final do século III com trechos do Proto-Evangelho de São Tiago Adelphotheos


Apesar disso, o Proto-Evangelho foi esquecido no Ocidente cristão por desagradar a São Jerônimo, que não aceitava a versão de que os ''irmãos de Cristo'' eram filhos de um primeiro casamento de Sao José. São Jerônimo sustentava que São José tinha um voto de celibato. 


Ainda assim, as tradições do Proto-Evangelho de São Tiago foram retomadas em um texto apócrifo do século VII que circulou no Ocidente com o nome de Pseudo-Evangelho de São Mateus [ou ainda como "Evangelho da Natividade de Maria"], já sem as características que levaram o original a ser criticado por São Jerônimo. 


As tradições compiladas na obra atribuída a São Tiago compõem, no entanto, a versão oficial na Igreja Ortodoxa. Há consenso de que são antiquíssimas, já que o texto foi escrito entre 110 e 140. Ele é mais uma prova irrefutável que a devoção à Santíssima Virgem Maria e seu status entre os cristãos estava presente nas mesmas gerações que decidiam pela composição do Novo Testamento. 


É possível provocar ainda mais neste ponto já que, para a pesquisa acadêmica, alguns dos textos que viriam a compor o cânone cristão foram escritas na mesma época que os Evangelhos dos Hebreus [que podiam ser três textos diferentes] e o Proto-Evangelho de São Tiago. Enfim, muitos elementos da Mariologia já eram comuns em comunidades cristãs de forte influência judaica. 



4. E Tomé?


Existem alguns textos de meados do século II que são conhecidos pelas fortes críticas que receberam de escritores cristãos na Antiguidade. Seu conteúdo tem forte tendência gnóstica e helenista, e eles nunca foram debatidos a sério para o cânone da Igreja. Fazem parte deste grupo o Evangelho da Verdade, o Evangelho dos Doze Apóstolos, e o Evangelho de Basilides, todos compostos no terceiro quarto do século II. 


Mas há pelo menos um Evangelho com sabor gnóstico em que devo me deter, o famoso Evangelho de Tomé, descoberto em meados do século passado e que ocasionou um frenesi e certa disputa entre os pesquisadores. Por ser um Evangelho de ditos -- sem uma estrutura narrativa, apenas frases e parábolas atribuídas a Cristo e iniciadas pelas palavras "Disse Jesus..." --, ele reforçava a hipótese Q, que mencionei nessa postagem [clique no link]. Alguns círculos [com destaque para o Jesus Seminar] argumentaram que o texto era dos anos 50, o que faria dele um dos documentos mais antigos do Cristianismo.


Mas essa não é a tese dominante hoje em dia. Estudos indicaram que mais de dois terços do texto são tentativas de harmonizar trechos de São Lucas e de São Mateus, ao modo do Diatéssaron [mas na forma de Ditos]. Além disso, há passagens francamente gnósticas. A maior parte dos pesquisadores o data na segunda metade do século II, e o considera dependente dos canônicos, ainda que haja possibilidade de que mantenha estratos de tradição oral do primeiro século. 


De todo modo, o Evangelho de Tomé não teve grande difusão, nem ocasionou qualquer debate na Igreja Primitiva. É um documento sem grande importância para nossa discussão.


Diatessaron, de Taciano, escrito por volta de 160/170



5. Evangelhos 'rasurados'?


Existem duas ''rasuras'' famosas nos canônicos e que despertam viva polêmica. A primeira é conhecida como o final perdido de São Marcos. Nos manuscritos à disposição, o Evangelho de Marcos acaba no versículo 8 do capítulo 16. As passagens do versículo 9 a 20 estão faltando. No entanto, estas passagens são citadas e aludidas em obras de cristãos do último terço do século II. A explicação mais aceita hoje em dia é a de que o final original foi perdido e reescrito um pouco mais tarde [ainda nas primeiras décadas do século II] por algum copista. 


[A alternativa seria acreditar que o final canônico seja exatamente aquele escrito por São Marcos, e que foi perdido em alguns manuscritos antigos mas preservado em outros aos quais não temos acesso ainda. Mas é uma tese bastante discutível porque conhecemos versões destes trechos com notações e com fraseologia diferente].


Há bons indícios, assim, de que o final canônico de São Marcos não foi escrito pelo próprio Evangelista, e sim por algum Padre da virada do século I para o II. Os últimos versículos deste Evangelho seriam pós-apostólicos.


Mais forte ainda é a ''rasura'' em São João. É que nenhum dos manuscritos antigos contém a famosa Perícope da Adúltera, entre 7:53 e 8:11. Mais ainda, as leituras do Evangelho para a Festa de Pentecostes, na Igreja Ortodoxa, pulam justamente esta passagem -- como é simples confirmar pelas leituras da quarta semana após a Páscoa. A história da adúltera perdoada por Cristo não consta dos dois papiros mais antigos contendo capítulos inteiros de São João, ambos datados da virada do século II para o III, nem tampouco dos dois códices canônicos preservados do século IV. Ela só aparece em manuscritos do século V. E em alguns casos, aparece no Evangelho de São Lucas.


O mais curioso é que essa história era conhecida pelo menos desde os fins do século I. São Papias, a menciona por volta do ano 110, dizendo que ela constava do Evangelho dos Hebreus. Agápio de Hierápolis, escritor medieval, afirmou que São Papias incluiu a história em sua obra "Exposição dos Ditos do Senhor"Há também menções a ela em obras cristãs do século III [Disdacalia] e em Padres do século IV, como Dídimo o Cego e Santo Hilário de Poitiers.


Há quem defenda que a autoria da perícope é do próprio São João Teólogo, mas estão em franca minoria e em muita desvantagem quanto as evidências atuais, pelo menos no campo historiográfico. Até que se descubra qualquer dado que mude o veredito atual na pesquisa acadêmica, dificilmente se pode sustentar, neste terreno, que a passagem saiu da pena de São João ou de um possível ''secretário''.


Não se sabe ao certo como uma narrativa que circulava na tradição oral desde pelo menos fins do século I e que possivelmente constava em um Evangelho Apócrifo [O Evangelho dos Hebreus, a se acreditar em São Papias] veio a fazer parte do Evangelho de São João. De todo modo, é mais uma demonstração inequívoca de que a canonicidade dos textos, narrativas e passagens da vida de Cristo dependem da autoridade da Igreja para reconhecer a inspiração do Espírito Santo. Em algum momento do século IV ou V, a Perícope da Adúltera, bastante conhecida na Igreja dos primeiros séculos, foi estabelecida no texto de São João sem gerar qualquer problema quanto a sua aceitação.





6. Evangelhos definidos, mas não um Cânone


De modo que temos o seguinte cenário após as considerações acima. Os Evangelhos hoje canônicos foram compostos entre os anos 50 e 100, ainda na geração apostólica. Foram imediatamente abraçados pelas comunidades cristãs, se difundiram de forma rápida [São João, escrito nos anos 90, já circulava pelo Egito vinte anos depois], sempre com a mesma atribuição de autoria. 


Entre 120 e 150, os Evangelhos passaram a ser lidos nos cultos [encontros] cristãos com o mesmo status que a Septuaginta. O peso dos Quatro Evangelhos nunca foi contestado nem igualado por qualquer outra obra do mesmo tipo, mas se tinha consciência de que eles apresentavam variações nos manuscritos, e que histórias fora dele também faziam parte do legado da Igreja. Outros Evangelhos tinham algum grau de aceitação, como se sabe pelo respeito às tradições contidas nos Evangelhos dos Hebreus [inclusive na provável perícope da Adúltera] e no Proto-Evangelho de São Tiago. 


Chegamos à segunda metade do século II sem nenhuma lista oficial de livros, nenhum cânone, nada que lembrasse um Novo Testamento. Em meados do século II, o Sola Scriptura pareceria para a Igreja um delírio. 


Antes de falar do cânone propriamente dito, cumpre dedicar tempo à terceira categoria de escritos, contendo os livros de instrução, os livros de Atos [o de São Lucas, hoje canônico; mas também o de Paulo e o de Paulo e Tecla], e a literatura apocalíptica [de São João, e de São Pedro].