quinta-feira, 4 de junho de 2026

TOP 10 SELEÇÕES DA HISTÓRIA -- 10) HUNGRIA, a jóia da Escola do Danúbio

 AS DEZ MAIORES SELEÇÕES DE TODOS OS TEMPOS



Os principais critérios são desempenho em Copas do Mundo, títulos, grandes jogadores, seleções inesquecíveis, domínio de alguma época, e papel no desenvolvimento do jogo e de outras gerações.


O jogo que realizou o sonho da Escola do Danúbio, a superação da escola britânica



10) HUNGRIA -- A escola do Danúbio elevada à perfeição



Alguns podem perguntar, com justiça, como uma seleção que não se classifica para a Copa do Mundo há quarenta anos [ou 10 edições consecutivas] pode ser classificada como uma das maiores da história.

A Hungria tem nove participações em Copas, a última delas em 1986. É menos que Bélgica [14], Suécia [12], Suíça [11], EUA [11] e Coreia do Sul [11], dentre outras. E o mesmo número que Polônia [9] e Chile [9]. E ainda assim não é exagero dizer que o impacto da Hungria no futebol é maior o que o de todas essas seleções somadas.

Era uma vez o tradicional Império Austro-Húngaro, que tinha em Viena, Praga e Budapeste centros cosmopolitas em que intelectuais de toda a Europa se reuniam em cafés para discutir arte, ciência, contracultura, e política nos anos 1920/30.


O revolucionário Jimmy Hogan: futebol coletivo e de passes curtos


E também para falar a sério sobre futebol, propondo formas de superar o paradigma inglês de jogo físico e lançamentos longos. Em poucos lugares se discutiu tática de modo tão sério e profícuo como nesse ambiente.

O estilo de futebol que surgiu nos anos 1930 ficou conhecido como ''escola do Danúbio", que enfatizava técnica refinada no controle da bola, passes curtos, movimentação constante, e jogo coletivo. Seus grandes difusores foram o inglês Jimmy Hogan e o austríaco Hugo Meils, e um de seus símbolos a seleção austríaca liderada por Mathias Sindelar [o famoso Wunderteam].


Hugo Meils, estrategista por trás do Wunderteam austríaco


A 'escola do Danúbio' tinha ligações diretas com concepções políticas, principalmente com judeus progressistas de tendências socialistas. Com a desagregação do Império, tanto a Tchecoslováquia quanto a Hungria deram continuidade no vínculo entre a escola e o comunismo.

Sua perfeição foi realizada pelo Aranycsapat ["Esquadrão de Ouro"] húngaro, que assombrou o mundo de fins dos anos 1940 até a Revolução Húngara de 1956.

Os "Magiares Mágicos" formavam uma estirpe de craques como poucas vezes se viu: Ferenc Puskas, Nandor Hidegkuti, Sandor Kocsis, József Boszik, Zoltán Czibor etc. Lendas atribuem a alguns desses jogadores mais de 1400 gols na carreira -- ainda que esses números prolíficos nunca tenham sido documentados de fato.

Gusztáv Sebes: o futebol a serviço do Partido



O arquiteto desse timaço foi Gusztáv Sebes, que elevou as ideias 'danubianas' ao status de interesse nacional do Partido Comunista da Hungria, associando um clube [o Honved] à seleção do país, e aplicando de modo sistemático sua famosa frase "todos defendem, todos atacam" em uma concepção de futebol caracterizada pela circulação rápida da bola.

Hidegkuti: o surgimento do meia-atacante e do 'falso 9'


A maior inovação foi o recuo do centroavante para a intermediária. Hidegkuti baixava para armar o time, e se tornar ao mesmo tempo o arco e a flecha da equipe. Era a criação do meia-atacante ou de uma versão mais primitiva do 'falso 9', que impactou severamente os esquemas então dominantes [a 'Pirâmide' e o WM] e preparou o caminho para o 4-2-4.

A revolução técnica, mental e tática do Aranycsapat foi consagrada pela demolição completa do mito da superioridade inglesa. Os Magiares Mágicos realizaram o feito sonhado pelos intelectuais que se encontravam nos cafés austríacos, e responsáveis pela primeira derrota do English Team em Wembley, o famoso 6 a 3 de 1953.

No jogo da volta do confronto internacional, na Hungria, os "Mágicos Magiares" enfiaram estrondosos 7 a 1 nos inventores do ''violento esporte bretão", a pior derrota da Inglaterra em toda a história. O mundo do futebol nunca mais seria o mesmo.

O lendário Ferenc Puskas


Até hoje se discute como foi possível aquela equipe perder a final da Copa de 1954 para a Alemanha Ocidental, time que ela derrotou na fase de grupos por 8 a 3, e sobre a qual tinha aberto dois gols de vantagem com apenas 20 minutos de peleja.

Seja como for, a seleção húngara marcou 27 gols em 5 partidas naquela Copa. É não só a maior goleadora da história dos mundiais mas detentora também de uma média imbatível de 5,4 gols por jogo. Para se ter uma ideia, o Uruguai campeão em 1950 teve média de 3,75 gols; o Brasil que levantou a taça em 1958 teve média de 2,67. A Hungria de 1954 é um ponto fora da curva.

Bella Guttmann treinando o São Paulo


O declínio começou com a repressão soviética em 1956, que levou a um êxodo de jogadores e treinadores húngaros. Por outro lado, o mundo se beneficiou dessa ''diáspora''. Parte dos atletas foi para o futebol espanhol, que gradualmente foi transformado por conceitos danubianos.

Que também tiveram acolhida na Holanda: muitos dos princípios do Aranycsapat foram reelaborados e aplicados no "futebol total" holandês dos anos 1970.

Essas duas linhas de desenvolvimento [a espanhola e a holandesa] se reencontraram na escola do Barcelona/espanhola, cujo principal representante é o técnico Guardiola, com sua ênfase na racionalização coletiva e sistemática do jogo a partir de um controle territorial centrado na troca curta de passes, na circulação rápida da bola, e do ''falso 9''.

A difusão também alcançou o Brasil. Primeiro em 1938, quando Dori Krushner treinou o Flamengo e apresentou o WM ao país, depois redimensionado na "Diagonal" do lendário treinador Flávio Costa; mais tarde, quando o técnico Bela Guttmann treinou o São Paulo em 1956, ajudando a consolidar o 4-2-4 [esquema desenvolvido de maneira independente no Brasil desde os princípios dos anos 1950].

Para completar, Guttmann descobriu Eusébio e o levou para o Benfica, armando a equipe que colocou fim à hegemonia europeia do Real Madrid de Di Stefano e Puskas.

A final da Copa de 1938



Os principais resultados da Hungria são as duas finais de Copa do Mundo em 1938 e 1954. Fizeram três Quartas de Final em 1934, 1962 e 1966. É o país com o maior número de medalhas de ouro olímpicas ao lado da Grã-Bretanha, com três conquistas em 1952, 1964 e 1968.

Os craques, os feitos, a revolução técnica e tática, a influência de meio mundo por uma linhagem contínua de desenvolvimentos da escola criada nos anos 1920/30, e as seleções inesquecíveis dão à Hungria um peso singular na história do futebol. Apesar da irrelevância a partir dos anos 1970, nenhum concorrente vai retirá-la do top 10 sem conquistar pelo menos uma Copa do Mundo.

A incrível final da Copa de 1954


Curiosidade: O 'Esquadrão de Ouro' eliminou a seleção brasileira nas Quartas de Final da Copa de 1954. A peleja, que terminou 4 a 2, foi seguida de uma pancadaria que ficou conhecida como "A Batalha de Berna". A Hungria também derrotou o Brasil na fase de grupos da Copa de 1966, por 3 a 1. O Flamengo trouxe o Honved ao Brasil para uma exursão em 1957, ocasião em que o clube rubro-negro correu risco de punição pela FIFA, já que o time de Puskas se recusava voltar para a Hungria. Era o mundo da Guerra Fria.

Evaristo de Macedo e Puskas na excursão do Honved no Brasil

SANTO IRINEU DE LYON E A PRIMAZIA DE ROMA, ou: Roma entre o Cardeal Newman e a apologética



Ao longo do século XX, boa parte dos teólogos católico-romanos -- quiçá a maioria -- explicou a eclesiologia do Vaticano I como um desenvolvimento histórico-doutrinário segundo as teses do Cardeal John Henry Newman, reconhecido recentemente como Doutor da Igreja Romana.

Não vou elaborar sobre as ideias de Newman. Sua noção de desenvolvimento não é estritamente ortodoxa, e tem diferenças estruturais com a de São Vicente de Lérins ou, digamos, a de São Dumitru Staniloae.

O ponto, no entanto, é que boa parte da teologia romana passou a considerar que o Papado, tal como concebido hoje, surge ao longo de um processo mais ou menos longo, e que a primazia de Roma era exercida, no primeiro milênio, em meio a uma estrutura fortemente sinodal.

Esta percepção pode ser encontrada em obras e documentos de diversos níveis do catolicismo romano. Tanto em obras de História, como Dvornik e Schatz; quanto nas teológicas, como em Ratzinger [futuro Papa Bento XVI]; como também em documentos oficiais publicados no site do Vaticano e que servem ao diálogo ecumênico [o mais significativo é o Documento de Chietti, elaborado em conjunto por teólogos ortodoxos e romanos].

Os dogmas do Vaticano I sobre o Papado, proclamados em um período conturbado da história ocidental, podem ser resumidos como a afirmação de um combo articulado de ideias sobre a origem divina do primado do Bispo romano [por meio de São Pedro], sua soberania absoluta e suprema sobre toda a Igreja, sua jurisdição universal ordinária e imediata tanto na administração e disciplina e costumes, além da infalibilidade em questões de fé e moral.

As teses de Newman permitem aos romanos defender os dogmas do Vaticano I atenuando o ônus de explicar porque a Igreja não 'funcionava' nesses moldes eclesiológicos no primeiro milênio. Eles apontam aquilo que chamam de sementes ou princípios dessas doutrinas, e apelam para um desdobramento natural, que consideram orgânico, das potencialidades contidas naquelas raízes de acordo com as necessidades de uma História que está, continuam eles, sob o controle divino.

Essa abordagem é diferente da que costumamos ver em certos nichos apologéticos, que tentam demonstrar a monarquia hiper-absolutista do Vaticano I em tempos primitivos da Igreja apelando para recortes de textos ou episódios de conflito. Nesses casos, não se trata de buscar ''sementes'' ou ''princípios'', mas muitas vezes de encontrar algum dos dogmas da Pastor Eterno no século II ou III.


O exemplo mais comum está na famosa passagem de Santo Irineu de Lyon no Livro III de "Contra as Heresias":

Ad hanc enim ecclesiam, propter potiorem principalitatem, necesse est omnem convenire ecclesiam, hoc est eos qui sunt undique fideles, in qua semper ab his qui sunt undique conservata est ea quae est ab apostolis traditio.

["Pois, devido à sua primazia superior, é necessário que todas as igrejas se reúnam nesta igreja, ou seja, os fiéis de todas as partes, na qual a tradição transmitida pelos apóstolos sempre foi preservada por todos os fiéis de todas as partes."]

ou ainda:

["Pois a esta igreja, por causa de uma principalidade mais forte, é necessário que convirja toda a igreja, isto é, aqueles que são fiéis de toda parte, na qual sempre por estes que são de toda parte foi conservada a tradição que é dos apóstolos."]


A tradução mais comum e mais usada na apologética romana crava que, segundo Santo Irineu, todas as demais Igrejas deviam concordar [doutrinariamente] com Roma. O problema é que essa tradução é problemática e muito longe de ser consensual.

[As que coloquei acima são de programas online, como o DeepL ou o Polytranslator, mas a pendenga sobre as dificuldades da passagem são bem conhecidas e podem ser encontradas na obra do historiador católico-romanos Klaus Schatz.]

O texto original, em grego, se perdeu, e só temos a versão em latim. E é um latim ambíguo, que leva a problemas de compreensão. O que significa "propter potiorem principalitatem"? Autoridade, fundação original, posição, excelência, preeminência? Roma tinha essa qualidade por si mesma, ou derivada de algum outro fator? E que autoridade ou preeminência seria essa?

De modo similar o termo "convenire". A tradução mais direta indica "convergir, se reunir em torno de", e não "concordar". Além disso, o autor vincula a singularidade romana aos "fiéis de todos os lugares", lugares estes em que a "tradição foi preservada", dando a entender que a presença eventual deles na cidade era importante para o argumento.

É sintomático que o historiador católico-romano Klaus Schatz, conhecido defensor de uma eclesiologia monárquica bastante centralizadora, declare que “não há uma interpretação conclusiva que elimine todas as dificuldades.” ["Papal Primacy: From its Origins to the Present".]

No fim das contas, Santo Irineu de Lyon parece apontar o caráter especial da preservação da tradição da Igreja de Roma, dado algum caráter singular [origem em São Pedro e São Paulo, posição central na oikumene cristã] e à presença eventual nela de cristãos de todas as partes do Império.

Não bastasse os problemas da tradução, que obstaculizam retirar do trecho qualquer coisa semelhante ao Vaticano I, há também o contexto. Não se pode recortar o parágrafo sem ter atenção ao tema tratado pelo autor e a conclusão a que ele conduz. Vale destacar dois pontos:

i. Santo Irineu não trata da organização jurisdicional da Igreja. Sua intenção é refutar as supostas "tradições gnósticas", oriundas de "ensinamentos secretos" e experiências particulares, contrapondo-as à verdadeira tradição apostólica resguardada nas Igrejas fundadas pelos Apóstolos e governadas por seus sucessores [os Bispos]. A passagem apresenta Roma como um lugar privilegiado para testemunhar essa tradição, não como "centro decisório doutrinal";

ii. Alguns parágrafos depois, o mesmo Santo Irineu de Lyon sugere o que fazer em caso de controvérsia sobre a tradição apostólica:

Quid autem si neque apostoli quidem scripturas reliquissent nobis? Nonne oportebat ordinem sequi traditionis, quam tradiderunt his quibus committebant ecclesias? [...] Quid si qua de modica quaestione disceptatio esset, nonne oporteret in antiquissimas recurrere ecclesias, in quibus apostoli conversati sunt, et ab eis de praesenti quaestione sumere quod certum et re liquidum est?

["Mas e se os próprios apóstolos não nos tivessem deixado nenhuma escritura? Não teria sido necessário seguir a ordem da tradição que eles transmitiram àqueles a quem confiaram as igrejas? [...] E se houvesse uma controvérsia sobre alguma questão menor, não deveríamos recorrer às igrejas mais antigas, nas quais os apóstolos atuaram, e extrair delas, a respeito da questão em pauta, o que é certo e claro?"]


Se os apologetas romanos estivessem corretos, Santo Irineu teria perdido uma excelente oportunidade de proclamar a autoridade decisória final do Bispo de Roma. No entanto, diante de qualquer controvérsia, por menor que seja, ele recomenda que se recorra às igrejas em que os Apóstolos conviveram, no plural e sem especificar alguma acima das demais.

Ressalto que o texto é bastante favorável a Roma. Ele aponta, de fato, que essa Igreja era vista de forma especial e com primazia já no fim do século II. O que decepciona alguns apologetas romanos é que ela seja insuficiente para mostrar indícios da monarquia papal hiper-absolutista da "Pastor Eterno".


Isso nos leva também à ação de Santo Irineu de Lyon na pendenga quarto-decimana por volta dos anos 190. A maior parte do mundo cristão comemorava a Páscoa em um domingo, dia da Ressurreição. Mas havia Igrejas, especialmente as da Ásia Menor, que seguindo uma tradição associada aos Gloriosos Apóstolos São João e São Felipe, a comemoravam sempre no 14 de Nissan.

Alguns apologetas romanos, desejosos de defender a jurisdição universal do Bispo de Roma ainda no século II, citam a História da Igreja de Eusébio de Cesareia:

Ὁ δὲ Βίκτωρ, τῆς Ῥωμαίων ἐκκλησίας προεστώς, παραχρῆμα τὰς μὲν Ἀσίας ἁπάσας ἐκκλησίας, ἅμα ταῖς ὁμόροις, ὡς ἑτεροδοξούσας, ἀποτέμνειν ἐπειρᾶτο τῆς κοινῆς ἑνώσεως· καὶ γραφὰς προτιθεὶς, ἀκοινωνήτους πάντας ἄρδην τοὺς ἐκεῖσε ἀποφαίνει ἀδελφούς.

["Vitor, o chefe da Igreja Romana, imediatamente tentou cortar de uma só vez da comunhão comum todas as igrejas da Ásia e as vizinhas, por serem heterodoxas, e, ao mesmo tempo, escreveu cartas declarando que todos os irmãos que viviam lá estavam fora da comunhão"]

O problema, evidentemente, está no recorte feito na obra de Eusébio. Segundo o historiador, a divergência quanto a data da celebração da Páscoa suscitou uma tentativa de uniformização. "Por conseguinte, realizaram-se sínodos e assembléias de bispos para tratar do assunto; e todos, de comum acordo, publicaram por carta um decreto eclesiástico para todos os fiéis, declarando que o mistério da ressurreição do Senhor dentre os mortos não fosse jamais celebrado senão no domingo e que somente neste dia se encerrariam os jejuns relativos à Páscoa."

Eusébio continua, citando alguns exemplos de concílios regionais discutindo o problema: Corinto, Jerusalém, Cesareia, Roma etc. O foco é mostrar o "mecanismo" de aferição da tradição apostólica e da decisão sobre a data da Páscoa: ainda não tínhamos um Concílio Ecumênico, que só seria possível com a convocação de um Imperador, mas a Igreja encaminhou sínodos locais para decidir a questão.

Daí surge a dissensão da Ásia Menor, que se recusa a abandonar a tradição herdada do 14 de Nissan. É nesse contexto que Eusébio descreve a tentativa de São Vítor, Bispo de Roma, de romper a comunhão com as Igrejas da região.

É significativa a reação suscitada pela ação de São Vítor. Segundo Eusébio, Καὶ αἱ τῶν πολλῶν ἐπισκόπων φωναὶ παρεῖσαν, ἐπιπληττόντων αὐτῷ σφοδρότερον. ["E as vozes de muitos bispos se fizeram ouvir, repreendendo-o com ainda mais veemência."]

Logo depois, ele cita a oposição de Santo Irineu de Lyon: Ἰρηναῖος δέ τις, ὀνόματι μὲν εἰρηνοποιός, τῷ δὲ τρόπῳ τοιοῦτος ὤν, ἐπιστολὰς ὑπὲρ τῆς εἰρήνης τῶν ἐκκλησιῶν προϊστάμενος, πολλὰ μὲν καὶ ἄλλα προσήκοντα διελέγχετο τὸν Βίκτορα, μὴ δεῖν ὅλας θεοῦ ἐκκλησίας ἀποτέμνειν παραδόσεως ἀρχαίου ἔθει χρωμένας.

["E certo Irineu, que era pacificador tanto no nome quanto no caráter, escrevendo cartas em favor da paz das igrejas, censurava Vítor também em muitas outras coisas apropriadas, dizendo que não se devia cortar igrejas inteiras de Deus por seguirem um costume de antiga tradição.”]

A admoestação de Santo Irineu continua, descrevendo como muitos cristãos oriundos da Ásia Menor viviam em Roma sem, no entanto, seguirem a prática dominical. E relembrando o episódio do encontro de Santo Aniceto de Roma e São Policarpo de Esmirna, que tinham consciência da divergência e nem por isso se "excomungaram" mutuamente por causa dela.

O episódio revela de fato que São Vítor pretendia falar em nome da unidade da Igreja, e pensava exercer prerrogativas próprias e exclusivas, como um tipo de centro da comunhão cristã. Mas tudo em meio a uma Igreja cujos procedimentos e decisões são fortemente ancorados na colegialidade e no consenso eclesiástico, e não por escolha unilateral de um monarca absoluto que exige obediência irrestrita.

Não é como se o Bispo de Roma tivesse acordado num dia e decidido impor à Igreja uma prática qualquer existente em Roma sob pena de excomunhão de quem discordasse. Houve sínodos em todo o Império para definir ou averiguar a tradição apostólica normativa, aquela que se praticava em [quase] todo lugar.

Diante da divergência da Ásia Menor, São Vítor agiu de modo punitivo, supondo que seria seguido pelas demais Igrejas [certamente por conta da Primazia romana]. Estava errado, pois foi admoestado, sintomaticamente, não só pelo Oriente, mas também pelos Bispo "ocidentais".

Outro fator importante: em nenhum momento se afirma que o Bispo de Roma preside diretamente algo mais que a Igreja de Roma. Eusébio sempre se refere a ele como líder de sua igreja, em meio a outros líderes de Igrejas. Santo Irineu de Lyon idem.

Estamos há anos luz das declarações da "Pastor Eterno", segundo a qual o Papa de Roma exerce uma jurisdição universal, suprema, imediata, ordinária e plena sobre a fé, disciplina e costumes; e à qual todos os fiéis e clero tem de se subordinar. Estamos muito distantes da Sé Romana que, segundo o Vaticano I, é juíza de todos, mas cujos juízos não podem ser julgados por ninguém.

Mais uma vez, o episódio narrado é favorável à Igreja de Roma. Demonstra que ela exercia de fato uma Primazia no período, e um papel de articulação e talvez de representação supra-regional. O que não se retira daí é a Monarquia hiper-absolutista, e sim um tipo de autoridade exercido sob a colegialidade e com prerrogativas delimitadas pela sinodalidade.

Para um romano que se escore em Newman, isso já seria suficiente. Já para os apologistas que desejam, a todo custo, projetar no cristianismo antigo o Papado Imperial da Idade Média ou ainda as definições da Pastor eterno, a disputa traz mais problemas que soluções.

PARA JUSTIÇA, MONIQUE É VÍTIMA E NÓS BRASILEIROS SOMOS OS CULPADOS, ou: Que país é este?

"Não me ofereceram
Nem um cigarro
Fiquei na porta
Estacionando os carros
Não me elegeram
Chefe de nada
O meu cartão de crédito
É uma navalha"

"Brasil", de Cazuza, George Israel e Nilo Romero





Acordamos todos estupefatos ao saber que Monique Medeiros não apenas pagou sua pena com a sociedade no caso do assassinato de Henry Borel.


Descobrimos que é a sociedade brasileira -- eu, você, todos nós -- que devemos desculpas a Monique.

A juíza Elizabeth Machado Louro entende que a mãe até pecou por "omissão" diante dos maus tratos que o sociopata Jairinho, sentenciado a 43 anos, proporcionava ao seu filho de 4 anos de idade.

Mas se tornou vítima da nossa reação desproporcional, já que todos os fatos, ainda segundo a magistrada, são "favoráveis" à pobre mãe.

Os brasileiros saímos condenados do tribunal. Massacramos Monique nas redes sociais, e ainda criamos expectativas bisonhas de que uma mulher tem de ser uma "mãe perfeita" [leia-se: não deixar o companheiro torturar e matar de porrada o filho de quatro anos de idade.]



A sentença da juíza Elizabeth declara que, se Monique fosse homem, sequer seria processada. Todo o escândalo em torno dela nada mais é que misoginia, preconceito de gênero, fruto de uma sociedade corroída pelo nefasto Patriarcado.

Como homem, tenho até medo de me pronunciar contra Monique Medeiros, para não cometer nenhum crime de ódio. Todo cuidado é pouco para não causar ainda mais dano psicológico contra essa mulher, crime que pode levar a dois anos de reclusão, certamente sem perdão judicial.

Vítima de Jairinho, do Patriarcado, e da Justiça, talvez Monique devesse processar a Prefeitura do Rio, que a exonerou do cargo de professora. Por que o Município tomou essa medida radical? Seria machismo?

Eis os valores que as instituições -- os partidos políticos, os tribunais de justiça, o arcabouço jurídico, as universidades públicas -- consolidaram no Brasil.

Um país que permite tribunais raciais em concursos públicos, punitivista ao extremo contra qualquer pronunciamento contrário à sensibilidade de certa esquerda hegemônica, de uma democracia tutelada por juristas ''iluminados'' que visam precaver qualquer obstáculo popular contra a marcha da distopia reinante.

Monique Medeiros está livre. A sociedade brasileira foi condenada por misoginia, patriarcalismo e outros rótulos retirados do dicionário da esquerda cosmopolita e americanizada.

Há uma incompatibilidade explícita entre a hierarquia de valores nas instituições, e o sentimento de Justiça mais básico vigente no povo brasileiro.

Trocando em miúdos, o Brasil ''oficial" não nos representa. Estamos exilados, ainda que permanecendo em território nacional; e perplexos porque os donos das instituições ainda ousam falar em nosso nome.



Nada do que aconteça daqui para frente nesse caso vai apagar o dia de hoje. Em que o Estado, na voz da juíza Elizabeth, perdoou uma mulher condenada por júri popular pelo homicídio [culposo] do filho de 4 anos, alegando que nós, brasileiros, a fizemos sofrer demais com nossas críticas.

Tenham um bom dia, brasileiros.