sábado, 2 de maio de 2026

Theotokos, a primeira a contemplar o Senhor Ressuscitado

"Vós vistes os sofrimentos que os judeus lhe infligiram quando Ele foi elevado na cruz, e que O mataram, e que Seu Pai O ressuscitou dentre os mortos no terceiro dia. E eu fui ao túmulo, e Ele apareceu a mim, e falou comigo, dizendo: “Vai e informa a meus irmãos as coisas que vistes. Que aqueles a quem meu Pai amou venham para a Galileia."

"Discurso sobre Maria Theotokos", Homilia do século VII





A tradição de que a Toda Santa e Toda Pura Virgem Maria foi a primeira a contemplar Cristo Ressuscitado é antiquíssima na Igreja, remontando pelo menos ao século II, particularmente na Síria, região que foi o primeiro grande centro difusor do Cristianismo.


Essa tradição aparece em comentários e poemas de Santos Padres sírios, além de hinos litúrgicos sírios e armênios que remontam aos séculos III ao V. Ela perdurou no tempo e foi sustentada por Padres como São João Crisóstomo, São George da Nicomedia, São Simão da Tessalônica e São Gregório Palamas.


Em alguns desses autores a Virgem Maria é sobreposta à Santa Maria Madalena na imagem de apostola apostolarum ["apóstola dos apóstolos"]. Em outros, Theotokos é sozinha a primeira testemunha [caso da obra de Santo Efrém, o Sírio].

Existe uma hipótese acadêmica forte de que o Diatessaron, uma harmonização dos Evangelhos feita por Taciano no século II e que se tornou leitura padrão nas Igrejas sírias até a Alta Idade Média, identifica a Maria no jardim, no Evangelho de São João, com Theotokos. Parece que essa identificação também circulou na Arábia durante a Antiguidade tardia.


Há também leituras que fazem de Theotokos uma das duas mulheres que viram Cristo Ressuscitado no Evangelho de São Mateus ["a outra Maria", no capítulo 28], tema que se tornou comum na tradição iconográfica ortodoxa.


A Didascalia é um 'manual' de regras eclesiásticas e disciplinares que os cristãos primitivos acreditavam remontar aos próprios Apóstolos. Ela foi escrita na virada do século II para o III, e quando menciona o capítulo 28 de São Mateus, chama Madalena de "a outra Maria" para dar prioridade à primeira Maria, que seria Theotokos.


De modo tardio, há um conjunto de tradições monásticas que foram reunidas por escrito e atribuídas a São Máximo Confessor em um livro chamado "A Vida da Virgem", por volta da virada do século VII para o VIII [o mais provável é que a obra seja de círculos de discípulos de São Máximo, uma rede de monges que se estendia pela palestina, Egito e Síria].



Segundo essa obra, Theotokos contemplou a própria Ressurreição. O livro proporciona muitas informações sobre as crenças e relatos que os ascetas e monges cristãos guardavam e repercutiam sobre a Panagia.


Alguns contrastam essa tradição com as Escrituras. Mas os relatos sobre a Ressurreição nos Santos Evangelhos não convergem em todos os pontos e não se pretendem exaustivos e detalhistas.

Em São Mateus, duas mulheres [as miróforas, que levam óleos para ungir o Corpo do Senhor] vão ao túmulo do domingo de manhã: Maria Madalena e "a outra Maria". Elas veem o sepulcro vazio e dois anjos que lhes anunciam a Ressurreição. Quando partem para avisar os Apóstolos, encontram Cristo Ressuscitado e se prostram aos Seus pés.

Já São Marcos cita três miróforas [além de Madalena, temos "Maria, mãe de Tiago", e Salomé], que também encontram o sepulcro vazio e tem uma visão angélica [nesse caso, no interior do túmulo] que lhes anuncia a Ressurreição e as tornam "apóstolas dos apóstolos". Não há menção de que tenham visto Cristo Ressuscitado no caminho.

Em São Marcos 16:9 se diz que Santa Maria Madalena foi a primeira a ver o Senhor. Mas é de conhecimento geral que o Evangelho de São Marcos termina abruptamente no versículo 8. Os trechos subsequentes foram perdidos, e existem três variantes principais com finais alternativos, uns mais longos que outros. Claro que a versão cuja recepção se consolidou na Igreja é inspirada e normativa, mas ela claramente pretende fazer uma síntese de eventos em cima de textos e tradições já conhecidas, sem se apegar a detalhes específicos.

Em São Lucas, não se tem um número especificado de miróforas. Elas são mulheres que acompanhavam Jesus desde a Galileia, região não só onde começou a Missão Pública do Senhor mas também onde ele tinha Sua parentela. Nesse texto, elas também encontram o sepulcro vazio, tem uma visão angélica no interior da tumba e que lhes anuncia a Ressurreição, e correm para contar para os Apóstolos. São Lucas nomeia três dessas mulheres: Santa Maria Madalena, Santa Joana de Cusa, e Santa Maria [mãe de Tiago]. Esse é também o primeiro Evangelho que relata a corrida de São Pedro ao sepulcro.



Em São Marcos e em São Lucas não se diz que as miróforas encontraram o próprio Cristo Ressuscitado. Elas se deparam com a tumba vazia e Anjos. Em São Mateus ocorre o mesmo, só que elas [as duas?] encontram Cristo Ressuscitado quando correm para dar a notícia aos Onze.

O Evangelho de São João cita apenas uma mirófora, Santa Maria Madalena [Mas é notável que o texto traga indícios de uma multiplicidade de mulheres: "Tiraram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o puseram"]. Ela vê o sepulcro vazio, mas não se descreve nenhum encontro angélico. Nem se diz que entrou no sepulcro. Ao contar para os Gloriosos Apóstolos, Madalena não parecia ainda ter atinado para a Ressurreição, apenas para o desaparecimento do Corpo de Jesus.

São Pedro e São João correm até o túmulo e entram. São João não narra o que encontraram além dos panos e do sudário, mas há ênfase textual sobre a importância de terem entrado. Em São Lucas e São Marcos, bom lembrar, o anjo que anuncia a Ressurreição está dentro do sepulcro.


Só depois que os Apóstolos se ausentam que Santa Maria Madalena tem a visão do ''jardineiro'', que depois reconhece ser o Senhor. Nesse relato, ela não é a primeira a ver algum anjo, a entrar no sepulcro ou a crer na Ressurreição. Mas se trata do primeiro encontro com Cristo, se coadunando com São Marcos 16:9 [a informação desse versículo, que faz parte do 'final substituto', pode reproduzir o que se conta no Evangelho de São João, ou seja, é possível que exista alguma dependência literária].

O que se depreende dos Santos Evangelhos é que um número indefinido de Miróforas foi ao túmulo no Domingo. Encontraram a pedra removida. Algumas [todas?] entraram no sepulcro e tiveram visões de Anjos anunciando a Ressurreição. Elas retornam para avisar os Gloriosos Apóstolos. Algumas delas podem ter encontrado o próprio Cristo Ressuscitado no caminho. Todas encontraram? Parece que não.




Existe outro complicador, que é a tradição recebida por São Paulo e descrita na Primeira Epístola aos Coríntios. No Capítulo 15, o Glorioso Apóstolo usa uma 'fórmula' de apresentação de ensinamentos recebidos e reproduz o que certamente era um 'credo' primitivo aprendido diretamente dos Doze.

Segundo esse 'Credo', Cristo Ressuscitado aparece "a Cefas, e depois aos Doze". Logo depois, aparece a São Tiago [certamente São Tiago Adelphotheos, também chamado de São Tiago, o Justo]. Aqui há uma prioridade do Colégio Apostólico seguida pelo líder da Casa [parentela] do próprio Cristo. [A aparição de Cristo a São Tiago Adelphotheos é uma tradição primeva repercutida por historiadores da Igreja do século II, e no Evangelho dos Hebreus, um apócrifo muito bem reputado por alguns Santo Padres].



Não há menção às miróforas ou a qualquer mulher, mas não há contradição, já que os Evangelhos nitidamente fazem delas "apostola apostolarum", ou seja, Apóstolas para os próprios Apóstolos.

Abaixo, o modo como a obra "A vida da Virgem", atribuída a São Máximo Confessor [mas provavelmente uma compilação de tradições monásticas feitas por círculos ligados a esse Padre], relata Theotokos testemunhando a Ressurreição:

"Entretanto, a Imaculada Virgem Maria não se afastou do túmulo, e observava e escutava tudo o que estava acontecendo e sendo dito. Ela viu o grande terremoto que despertou as primícias daqueles que dormem (cf. 1 Cor 15,20) e que fez os guardas adormecerem, e que rolou a pedra (cf. Mt 28,2.4), e depois o despertar dos guardas novamente e sua entrada na cidade (cf. Mt 28,11). As mulheres que tinham ido e voltado não puderam ver nada disso; mas a bendita mãe do Senhor, tomada de amor por Seu filho e permanecendo inseparavelmente junto ao túmulo, foi testemunha de tudo até que viu inclusive a Sua gloriosa Ressurreição. Pois as outras mulheres viram a pedra removida e o anjo sentado sobre ela; mas quando e como isso aconteceu, não o sabiam de modo algum. Somente a imaculada mãe do Senhor, ali presente, conhecia tudo. E por isso recebeu a boa nova da Ressurreição antes de todos, e antes de todos foi considerada digna da altura tão desejada de todo bem e da visão divinamente bela de seu Senhor e filho."


terça-feira, 21 de abril de 2026

QUEM TEM MEDO DO PAGANISMO?, ou: os limpinhos e o vale dos leprosos


Uma das maiores estranhezas do protestantismo/evangelicalismo é seu temor descabido a tudo que considere ''pagão''.


Eles usam o termo em um sentido que foge um tanto do cristianismo mais tradicional. Para a Igreja, ''pagão'' é aquele que não foi batizado em Cristo, e por isso ainda vivia como o ''velho homem'', sem um coração novo.


Isso significa que toda pessoa pode ganhar um sentido novo na vida com o Batismo e a recepção na Igreja. É uma ideia que tornou possível a expansão do cristianismo por diversas culturas, e se tornou indissociável de seu universalismo.


Mas a sensibilidade evangélica redimensionou o paganismo segundo algumas ideias judaicas sobre os gentios. O judaísmo é uma religiosidade de exclusivismo étnico, eleição nacional, e pureza ritual e legal. Para algumas de suas vertentes mais poderosas, o gentio é parte de um povo que não tem vínculo jurídico com Deus, não pertence à ancestralidade escolhida, e não foi purificado pelo cumprimento das obrigações legais e ritualísticas. Por isso, tudo nele ameaça ''infectar'' e ''macular'' Israel, que tem de criar um cordão de isolamento, quase sanitário.


Assim, muitos judeus identificavam os elementos de sua cultura como revelações do Alto com o escopo de torná-los radicalmente diferentes dos povos ao seu redor, de modo que sua eleição fosse plenamente reconhecível e pudesse ser reproduzida no tempo. A cultura alheia, não sendo revelada pelo Alto, estava misturada ao erro, à ignorância e ao cramulhão.



Como se tratava de uma religião étnica, essa tensão se coadunava com a convivência entre as demais nações ao mesmo tempo que possibilitava a sobrevivência e continuidade dos judeus como grupo nacional distinto.


Mas quando essa abordagem se torna dominante em uma religiosidade universalista como o cristianismo se cria um problema: a identificação de determinada cultura com Revelação Divina, em detrimento das demais que não passariam de "obras do demonho''.


Para ser justo, essa é uma tendência implícita no cristianismo desde o início, já que há também continuidades com a espiritualidade judaica. Mas o evangelicalismo, ao radicalizar o princípio do Sola Scriptura e demonizar o conceito de tradição, abre uma caixa de Pandora de extremismo e exclusivismo.


Se dado costume, festa, rito ou elemento qualquer não pode ser justificado pela leitura das Escrituras, muitos evangélicos concluem que se trata de ''paganismo'' e que conciliar com ele leva ao risco de "contaminação". Como os costumes descritos nas Escrituras são basicamente os judaicos e serviam exatamente ao propósito de diferenciação étnica em relação aos cananeus e outras nações do Mediterrâneo Oriental, cria-se um nó difícil de desatar.

A resposta mais comum seria diferenciar aquilo que é essencial à Revelação daquilo que é costumeiro e contingente, além de frisar as rupturas ocorridas a partir da Encarnação do Senhor, vendo todo o Antigo Testamento como Pedagogia Divina cujo sentido se realiza em Cristo. É o que fez, em diversos graus, todo o cristianismo ao longo de mais de um milênio.


Mas a retórica evangélica contra as Igrejas tradicionais depende de acusá-las a partir da leitura das Escrituras, apontando aquilo que se afastava da ''pureza'' do cristianismo primitivo. Daí a adoção de uma perspectiva cada vez mais judaizante e a denúncia de infiltração "pagã".


Um exemplo é o Natal, em que os cristãos comemoram a Encarnação de Deus. Basta que evangélicos descubram que nesse dia muitos povos pagãos celebram alguma festa solsticial para usarem o argumento como "prova" de que as Igrejas tradicionais nada mais são do que reedições do paganismo.


Não adianta avisar que esses cristãos não estão nem aí para o solstício, que eles festejam o mistério do Deus que se faz homem na Pessoa de Jesus Cristo. A simples coincidência com festivais "pagãos" ameaça "contaminar", "macular", "corromper" a pureza do "povo santo". Uma Igreja tradicional verá com alegria que um ''pagão'' que comemorava o solstício agora comemore a Natividade do Senhor. Um evangélico torce o nariz porque o melhor é esquecer que os solstícios existem ou encará-los sem qualquer sentido religioso [o que leva a uma dessacralização da natureza, mas isso é outro papo].


Evidente que essa postura só pode ser mantida a ferro e fogo onde grassa a mais profunda ignorância sobre a história religiosa e as interações culturais. Por isso, muitos evangélicos se chocam ao descobrir que muitos das festas, ritos e elementos religiosos do Israel bíblico não eram nenhuma novidade no Mediterrâneo Oriental antigo, e podem ser descritos ou como 'apropriações' ou uma cultura compartilhada com os povos cananeus.


Recentemente, li um evangélico assoberbado porque avisaram que a festa judaica do Pentecostes [shavuot] era em origem um festival da colheita -- portanto camponês, e que seguia o calendário 'natural' agrícola -- similar ao que se comemorava em diversos povos da região.


Na imaginação dele, aquelas festas e ritos descritos no Antigo Testamento eram fruto de uma Revelação Divina completamente diferente de tudo o que existia no mundo, e especialmente da região em que os hebreus viveram.


Ele não pode conceber que quando Jacó ergue uma coluna de pedra no local em que vivencia uma teofania [Gênesis 28], estava fazendo uma massebah, um santuário memorial [que podia ou não ser alvo de culto contínuo] em dedicação a uma divindade. Estava agindo como qualquer cananeu da região, replicando uma prática, vejam só, "pagã".


A própria imagem usada por Jacó, com um sonho em que via uma escada ligando Terra e Céu, por meio da qual transitavam Elohim [deuses ou filhos de El] também é comum aos povos cananeus e mesopotâmicos [na verdade, é um símbolo religioso universal]. Do mesmo modo, a concepção do Trono Divino como uma Tenda erguida sobre uma Montanha, a noção do lugar de convivência com Deus como um jardim de delícias etc. são imagens típicas de toda a cultura religiosa cananeia [e se tornaram modelos para a construção do Tabernáculo e para o Templo de Jerusalém].


De modo impressionante, o Pentateuco é um compêndio de símbolos, imagens, conceitos e elementos religiosos pagãos, como qualquer pessoa minimamente instruída reconhece facilmente. A Revelação do Sinai não é uma "criação ex nihilo". Isso não nega as especificidades da religião judaica, mas mostra que ela compartilhava e partia de linguagem e expressões [inclusive cultuais] comuns a diversos outros povos.


A Igreja dita ''primitiva'', e de modo geral o cristianismo do primeiro milênio, que surge e se desenvolve em cidades fortemente cosmopolitas [Roma, Alexandria, Antioquia, Éfeso, Constantinopla etc.], tinha noção dessas similaridades, e por isso evitou demonizar completamente a cultura e a espiritualidade alheia, tentando discernir nelas o que eram "sementes do Verbo".


Pareceria ridículo dizer que não se pode comemorar a Natividade de Cristo em um solstício [na verdade, parece ridículo afirmar que Cristo não poderia nascer em um Solstício], só porque se tratava de uma elemento da ordem natural celebrado por culturas pagãs. Afinal, Deus é criador da Natureza, então algo nela reflete a própria Divindade. Também parece ridículo alegar que nenhum elemento religioso, filosófico, simbólico, cultual pagão possa ser mobilizado de forma cristã, já que não faltam exemplos nas Escrituras em que isso foi feito para a construção do Judaísmo, e que o próprio homem é ícone de Deus.


Enfim, aquilo que é pagão é transfigurado pelo Batismo. Não enviado para um "vale dos leprosos" pra manter a ilusão de que somos ''limpinhos".


Evangélicos mais cultos tendem a reconhecer isso, mas como é da *tradição* protestante usar a denúncia da "paganização" como arma retórica, eles percebem também a fragilidade em que ficam se admitirem por completo os complexos laços da espiritualidade humana.


A Boa Nova é a Encarnação do Verbo, a Redenção, e a Ressurreição, com a abertura do Reino dos Céus para todos os homens. Não é a invenção de uma religião a partir do nada.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

NETANYAHU É A ALMA DO SIONISMO, ou: O Terrorismo sionista ao longo da História

Benjamin Netanyahu, que muitos judeus ortodoxos acreditam ser o precursor do Messias.

Muitos se agarram ao wishful thinking de que o problema de Israel se resume a Benjamin Netanyahu, como se o atual Primeiro Ministro fosse um desvio da história israelense. Mas "Bibi" é o telos inevitável do movimento sionista. Ele estava inscrito nessa ideologia desde o início, de modo que suas políticas são quase que a manifestação nua e crua do que Israel é por trás de todos os adornos e máscaras.


Muitos enchem a boca para falar da "democracia israelense", comparando-a positivamente em relação aos seus vizinhos e inimigos. Mas o partido ''eleito democraticamente'' em Israel é o Likud.


Não que a esquerda sionista seja muito melhor. Ela foi a força predominante no Estado judeu até meados dos anos 1970. E foi responsável por episódios como a limpeza étnica na primeira guerra árabe-israelense, em 1948 [chamada pelos árabes de Nakba, ''A Catástrofe"], e por casos de terrorismo como o Lavon Affair [a Operação Susana]. Foi responsável também pelas ocupações ilegais dos territórios palestinos e árabes após a Guerra dos Seis Dias.


Mas a esquerda sionista deixou de ser dominante em Israel. No fim dos anos 1970, a direita chegou ao poder, e progressivamente foi eclipsando os antigos trabalhistas. O processo se consolidou de vez com o fracasso das negociações de paz com a OLP, que atravessaram os anos 1990. Nos últimos vinte e cinco, trinta anos, o Likud domina o governo israelense, modelando suas políticas e exibindo de modo triunfante as marcas mais características do sionismo.


Começo pela foto abaixo. É Menachen Begin, Primeiro-Ministro de Israel entre 1977 e 1983, o homem que desbancou os Trabalhistas no Estado Judeu e representou a ascensão da atual direita. A história política de Begin está entrelaçada com a do Likud. E se inicia com o Revisionismo Sionista, de Jabotinsky, a ala oposicionista aos socialistas entre os anos 1920 e 1940.


Menachen Begin, símbolo da ascensão da direita sionista



Jabotinsky era ultra-nacionalista e defendia que o Mandato Britânico inteiro na Palestina deveria ser convertido em território do Estado de Israel, incluindo aí a Transjordânia [atual Jordânia]. Para impor sua visão, fundou e liderou uma milícia paramilitar chamada Irgun, que realizava uma série de atentados terroristas contra os ingleses e os árabes.


O Irgun teve participação importante na repressão da Revolta Árabe-Palestina entre 1936 e 1939, e alguns de seus atentados terroristas alcançaram infâmia internacional, como o Domingo Sangrento, em que pelo menos 10 civis árabes foram assassinadoss. O grupo comemorava o evento como uma ''Revolta Macabeia'', se referindo ao levante liderado por Judas Macabeu contra o governo selêucida no século II a.C.


Outro atentado de triste memória foi a bomba plantada em um mercado popular em Haifa, que matou 18 árabes, dentre eles seis mulheres e três crianças. São só alguns exemplos, já que as atividades do Irgun se estenderam até 1948, quando foi integrado às IDF [Forças Armadas Israelenses].

Jabotinsky, o ultra-nacionalista cujos sonhos de um Grande Israel são compatíveis com o sionismo religioso 



Pois bem, Menachen Begin entrou para o Irgun em 1942, tornou-se o principal comandante da milícia dois anos depois, e com a integração de seus quadros na IDF, fundou um partido político para dar continuidade ao legado do Movimento Revisionista de Jabotinsky, o Herud, ao qual voltarei mais adiante.


Antes disso, é necessário mencionar uma dissidência nascida no Irgun em 1940. Durante a Segunda Guerra Mundial, o grupo decidiu colaborar com os britânicos. O raciocínio era que a colaboração no esforço de guerra seria recompensada com um Estado judeu depois que o conflito terminasse.


Mas nem todos concordaram com o argumento. Um membro de nome Avraham Stern escolheu trilhar caminho próprio, e fundou uma nova milícia paramilitar chamada Lohamei Herut Israel ["Guerreiros pela Liberdade de Israel"], mais conhecida pelo acrônimo Lehi.


O Lehi implementou uma complexa política visando se aproximar do eixo nazi-fascista durante a II GM. Segundo eles, as restrições impostas pelo Mandato Britânico à compra de terras e imigração judaica faziam dos ingleses os inimigos do povo judeu. Os nazistas seriam apenas antissemitas, mas não seus inimigos. Eles poderiam ser manipulados. Stern tentou criar um acordo com os nazistas: O Lehi os ajudaria contra os ingleses e os alemães criariam um Estado Judeu após o fim da guerra. Todo mundo sairia ganhando, já que a limpeza étnica que os nazistas planejavam para os judeus, acreditava Stern, terminaria com a expulsão de todos eles para o novo Estado Sionista.


Desse modo, o Lehi se engajou em uma série de atos terroristas contra os britânicos. Sua principal inspiração era o IRA [O Exército Revolucionário Iraniano]. Aliás, o Lehi se declarava oficialmente terrorista em suas publicações oficias, como o famoso artigo Terror, em que se lê: "Nem a ética ou tradição judaica desqualificam o terrorismo como meio de combate. [...] Mas, primeiro e antes de tudo, o terrorismo é para nós parte da batalha política conduzida nas atuais circunstâncias".


Os atos de terrorismo do Lehi não se davam apenas na Palestina, eles alcançavam a Europa também.

O Grupo Lehi, considerado terrorista na Europa



Não devemos exagerar as divergências entre Irgun e Lehi. Logo depois do fim da II Guerra Mundial, ambos se uniram em uma estratégia conjunta para forçar os britânicos a entregar o Mandato na Palestina e fundar um Estado Judeu. Não só se coordenaram, mas contaram também com o apoio da Haganah, milícia sob controle dos socialistas sionistas. Os três grupos foram os pilares do Movimento de Resistência Judaica, que se abraçou de vez ao terrorismo, incluindo o atentado ao Hotel Rei Davi, em 1946, que matou mais de 90 civis dentre ingleses, judeus e árabes.


Lehi e Irgun também se envolveram em um episódio vexaminoso durante a primeira guerra árabe-israelense, que os sionistas chamam de "Guerra de Independência". Em meio à Nakba, provocaram o massacre da aldeia Deir Assain, que ficava próxima à Jerusalém. Dos quase 600 moradores palestinos, cerca de 200 foram assassinados, a maior parte em suas próprias casas.


A foto abaixo ajuda a entender a influência do Lehi em Israel. Trata-se de Yitzhak Shamir, Primeiro-Ministro de Israel em 1983/84, e depois de novo entre 1986 e 1992. Shamir fez parte do Irgun, e rompeu com o grupo junto de Stern. Quando este foi fuzilado em 1942, Shamir assumiu a liderança do Lehi. Com o fim do grupo, entrou para o Mossad [serviço de inteligência israelense] em meados dos anos 1950. No fim dos anos 1960, entrou para o partido Herud, que mencionei anteriormente, e que era liderado por Menachen Begin, antiga liderança do Irgun.

Yitzhak Shamir, o Irgun e o Mossad no poder


Alguns membros do Grupo Lehi foram condenados pela Justiça de Israel no início dos anos 1950 depois que assassinaram o Conde sueco Folke Bernadotte, um herói na libertação dos judeus de campos de concentração durante o Holocausto. Mas todos foram perdoados pela Justiça. Israel criou desde os anos 1980 a condecoração Lehi, conferida a israelenses por coragem e bravura em guerra.


Voltando ao Herud: quando de sua fundação muitos judeus progressistas da Diáspora se pronunciaram contra o novo partido em carta coletiva, datada de 1948, assinada por Albert Einstein e Hannah Arendt dentre outros. Na carta pública, o Herud é denunciado como um partido extremista com claros vínculos nazi-fascistas.


Mas isso não foi suficiente para barrar o partido. Durante algum tempo ele foi marginal na política israelense, dominada pela esquerda sionista. Mas o Herud conseguiu um crescimento expressivo quando montou uma coalizão com o Partido Liberal. O Gahal, ainda liderado por Begin, obteve uma expansão significativa de cadeiras no Knesset a partir do fim do anos 1960.


Na ocasião, Israel já passara a ocupar os territórios palestinos e árabes como consequência da vitória na Guerra dos Seis Dias. Enquanto a esquerda sionista pretendia trocar as terras por acordos de paz e reconhecimento mútuo com os governos árabes, a direita em torno do Herud proclamava abertamente que Israel deveria consolidar a posse dessas terras a partir de uma política de assentamento de colonos, principalmente na Cisjordânia.


O Herud se associou com pequenos movimentos conservadores e centristas em 1973, ano do trauma da Guerra do Yom Kippur, e fundou o Likud, nascido primeiramente como uma aliança de partidos sob liderança de Begin. O Likud era o centro do Movimento Grande Israel , cujo nome dispensa comentários. Em 1977, com o descrédito da esquerda sionista por causa dos impasses militares, e da condenação do sionismo pela ONU [1975], o partido finalmente conquista o governo.

O massacre dos palestinos em Shantila, o Líbano de ontem é o Líbano de hoje


Uma vez no poder, Menachen Begin conduziu o Acordo de Camp David com o Egito de Sadat, pacificando as relações com o maior país árabe. Em decorrência disso, ganhou o Nobel da Paz. Parece que concederam o prêmio cedo demais, pois dois anos depois Begin atacou o reator nuclear iraquiano, e em 1982 invadiu o Líbano para expulsar do país a OLP, dando início a uma ocupação militar que ficou marcada pelos massacres de Sabra e Shantila, e pela derrota nas mãos de um partido shia surgido para expulsá-lo da terra dos cedros, o Hezbollah.


Apesar de desmoralizado, a "Doutrina Begin", de ataques preventivos contra seus inimigos, se internalizou de vez em Israel.


São essas as figuras que modelaram o maior partido de direita de Israel, o Likud, que vence eleições seguidamente desde meados dos anos 1990. O Likud se aproveitou de mudanças demográficas importantes em Israel, da aliança com os EUA, e do crescimento do sionismo religioso impulsionado por judeus ortodoxos para demolir os Acordos de Oslo, aumentar exponencialmente a política de assentamentos na Cisjordânia, reivindicar Jerusalém como capital israelense, e promover a divisão da liderança palestina a fim de obstaculizar para sempre a criação do Estado Palestino.


Faz parte desta estratégia ampliar o reconhecimento e os acordos de paz com Estados árabes [Acordos de Abraão] para isolar o movimento palestino, e voltar o foco internacional contra o Irã, que comanda um arco de poder xiita no Iraque, Líbano e Síria.

O genocídio em Gaza não foi um acidente, não é um desvio. Sua sombra sempre esteve lá.



Portanto, o governo israelense atual se trata de um partido central da direita sionista, cujo DNA está no ultra-nacionalismo expansionista, no supremacismo étnico, e no terrorismo do Revisionismo Sionista, do Irgun, do Lehi.


Não impressiona que chamem os palestinos de ‘’animais’’, promovam deslocamento forçado de civis, se abracem à limpeza étnica, e bombardeiem residências, escolas e hospitais.


Esse é o sionismo nu e cru desde suas origens. Sua encarnação histórica poderia ser Ben Gurion, mas é na verdade Benjamin Netanyahu.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

OS PIROMANÍACOS E O FIM DO NOSSO MUNDO

"Quem é o escravo fiel e sensato, que o senhor pôs à frente da sua criadagem para que lhes desse de comer à hora própria? Feliz é aquele escravo a quem o Senhor, chegando, encontrará procedendo assim. Em verdade vos digo que o porá à frente de todos os seus bens. Mas se o mau escravo disser no seu próprio coração, 'o meu senhor está demorando', e começar a bater nos seus colegas escravos, a comer e a beber com os embriagados, virá o senhor desse escravo no dia em que ele não o espera e à hora que ele desconhece; e ira cortá-lo ao meio e dar-lhe um lugar com os hipócritas. Ali haverá choro e ranger de dentes."

Evangelho de Nosso Senhor, Deus e Salvador Jesus Cristo segundo o Glorioso Apóstolo e Evangelista São Mateus, capítulo 24, versículos 45 a 51



O piloto do F-15 abatido era uma isca para os dois lados. Não sei se foi de fato resgatado, e se falamos só de um ou dois pilotos. Mas é quase que irrelevante para a dinâmica da guerra. O evento proporcionou aos EUA a tentativa de infiltrar tropas especiais no Irã com apoio do poder aéreo. Eis seu caráter mais fundamental, e também seu maior fracasso.


O Irã mobilizou a população e o sistema de defesa contra a operação "de resgaste". Há denúncias de que os ianques abriram fogo contra a população civil, e que bombardearam suas próprias tropas em solo. O fato nu e cru é que tiveram a dimensão do quão custosa seria uma invasão desse tipo.

Definitivamente, não veríamos nada parecido com uma nova Venezuela.

Os ianques podem insistir, mas aí estamos falando de meses e meses de conflito, que impactariam a economia mundial, levando-a ao colapso, demoliria o MAGA, e levaria à derrota nas midterms.

Como Trump é muito mal aconselhado, é possível que enverede por essa estrada. Mas há outros cenário possíveis, todos muito ruins em escala crescente. Tudo depende do poder dos Piromaníacos, cujo maior símbolo é Pete Hegseth e sua trupe de evangélicos aceleracionistas, cuja missão é tornar o mundo aprazível para o anticristo, imaginando com isso forçar o retorno de Jesus.

Restam duas opções para Trump, além da invasão por terra. Ambas terminam em desastre, mas em níveis diferentes.

A primeira, é tornar público que aceita de alguma maneira as condições do Irã. Pelo menos a principal delas: o controle do Estreito de Ormuz. E que vai pressionar Israel para sair da guerra e do Líbano. Digo tornar público porque o Irã cortou todas as negociações mediadas com os EUA. Isso quer dizer que os ianques já não podem mais fingir que venceram, dar as costas fazendo alguma dancinha, e irem embora. Essa janela de oportunidade já se fechou há pelo menos uma semana.

Desnecessário detalhar o custo político de uma admissão tão grande de derrota. Seria desastroso para Trump internamente. Seria pior ainda para os EUA externamente. E, no entanto, essa seria a opção menos deletéria, menos traumática.

Se os Piromaníacos tiverem força o suficiente na Casa Branca, como parece que tem no Pentágono, não será essa a escolha imediata. Seria contar com uma racionalidade diferente daquela da Piromania apocalíptica dos aceleracionistas evangélicos. Mas retornarei a essa casa do tabuleiro, então é necessário tê-la em mente nos parágrafos abaixo. Vou chamá-la de OPÇÃO 1.

A segunda via é cumprir a promessa de "Choque e Pavor". Utilizar a capacidade que a Coalizão dos Piromaníacos ainda tem na região para destruir as usinas elétricas do Irã, seu complexo petroquímico, a infraestrutura crítica, pontes e estruturas civis de todos os tipos, a fim de passar o recado nu e cru de que "estamos levando vocês de volta à Idade da Pedra".

Óbvio que seria um abraço, para o mundo todo ver pela TV e redes sociais, a crimes de guerra bárbaros. Mas estamos falando do Ocidente, que assistiu o genocídio de Gaza sem fazer absolutamente nada, a não ser algumas lágrimas de crocodilo de intelectuais e jornalistas "progressistas" que juram serem capazes de civilizar o mundo.

Estamos falando de Israel, um país que já nasceu errado, roubando terras, associado ao imperialismo britânico, e praticando limpezas étnicas [Nakba]. Um país que tem uma condecoração homenageando o Grupo Lehi, organização considerada terrorista pelos britânicos e que tentou se aliar à Alemanha Nazista em plenos anos 1940. Um país que nesse exato momento está praticando mais uma limpeza étnica sem que o tal Ocidente, "campeão do humanitarismo", tenha coragem para fazer algo a respeito, a não ser meia dúzia de muxoxos acompanhados de ressalvas repugnantes.

Então, o Choque e Pavor é possível, ainda mais depois de um expurgo que deixou as Forças Armadas de quatro para Pete Hegseth, símbolo máximo da Piromania ianque.

As consequências seriam óbvias: o Irã cumpriria a promessa de fazer o mesmo com o GCC. O país já deu mostras nos últimos dias de que retaliaria à altura. Atacou usinas de energia, poços de petroleo, complexo petroquímico, indústrias químicas etc. É ingênuo imaginar que a Guarda Revolucionária entrou nessa sem a convicção de que precisaria ir às últimas consequências. Eles falam sério, e o erro crasso da cúpula ianque é não ter entendido isso de modo pleno. Ainda não entenderam que estão lidando com shias, que preferem o martírio à compactuarem com a injustiça. É claro que o nacionalismo persa quer que o país sobreviva, mas sem o elemento shia, é impossível entender o conflito. Desde os primeiros dias aviso que o Irã não vai deixar Israel vencer.

Enfim, essa via levaria a um choque econômico brutal, uma recessão que tem tudo para ser a maior do pós II Guerra Mundial, maior até que os choques de petróleo dos anos 1970. A ordem econômica global seria transformada, e os EUA e seus aliados [Europa Ocidental, Japão e Coreia do Sul] estariam no centro da debaclé.

O abismo se completaria pelo fato de que o Irã não se renderia, não reabriria Ormuz, e continuaria com sua capacidade balística operante. Ou seja, os EUA incendiaria o mundo, e não resolveria o problema. Estaria com o mesmo pepino nas mãos, e teria de voltar à Opção 1, aquela que implica em uma admissão de derrota.

Existe uma terceira vereda, praticamente um agravamento da segunda, que preferi não listar de início, mas que é importante mencionar, já que estamos lidando com psicopatas como Pete Hegseth e Benjamin Netanyahu. Ela consiste em provocar uma acidente nuclear na usina de Busherh.

Há sinais de que essa carta é considerada pela Coalizão dos `Piromaníacos. Dias atrás, Busherh foi atacada pela quarta vez, sofrendo um impacto direto, devidamente denunciado pelo Irã.

Um acidente desse tipo afetaria todo o Golfo, e levaria também à destruição econômica já descrita. Seria uma crime inominável, óbvio, mas estamos falando do país que tacou bomba atômica em Nagasaki e Hiroshima, e que usou o 'agente laranja' contra os vietnamitas.

Evidente que diante desse horror máximo, o Irã retaliaria em instalações nucleares israelenses, a essa altura todas mapeadas, a começar por Dimona, tornando a vida em Israel impossível, e espalhando o desastre radioativo para o Mediterrâneo Oriental e parte do Norte da África.

E depois disso tudo voltaríamos à primeira opção, porque a terra desceu ao Inferno, mas o Estreito estaria fechado, o Irã atirando mísseis, e o mundo financeiro comandado pelo dólar em cacos.

O capítulo final viria de uma possível reação sionista: o uso de bombas nucleares em resposta aos acidentes nucleares em seu território. Uma hipótese provável se chegarmos a esse ponto de não-retorno.

Bom, aí saberíamos se o Irã tem ou não a famosa bomba atômica. Se tiverem, vão dizimar todo o Oriente Médio. Se não tiverem, vão tornar a vida no Oriente Médio impossível de outras formas, ou escalando a retaliação em instalações nucleares, usando bombas sujas, ou detonando todas as usinas de dessalinização [há toda uma gama de possibilidades].

E depois do apocalipse, a opção número 1, que implicaria admitir a derrota ainda que de foram tácita, não teria mais sentido. E portanto a Coalizão dos Piromaníacos não precisaria tomá-la. A essa altura, saberíamos se Cristo retornaria, e caso aconteça, como o Senhor julgaria todos nós, incluindo a Coalizão dos Piromaníacos

sábado, 4 de abril de 2026

OS LIMITES DA "RENOVATIO IMPERII" TRUMPISTA


Não há um grande plano por trás das intenções de Trump. A guerra contra o Irã não foi um passo calculado, parte de uma estratégia maior. Não se pode nem chamá-lo de traidor da própria Pátria, ou considerá-lo um aceleracionista que, por alguma crença qualquer, deseja impulsionar o declínio do Império ianque.


A verdade é que Trump não sabia o que estava fazendo. Ele percebeu de modo equivocado a situação, foi enganado por assessores sionistas, falcões de Washington, e desmiolados do nacionalismo evangélico.


Se fosse um aceleracionista, não daria tantos e tantos sinais de que deseja sair do imbróglio. As ameaças, o bombardeio de complexos petroquímicos, o ataque desenfreado a alvos civis, bem como a extensão de prazos [a quantas anda agora a contagem de dias que ele deu ao Irã, alguém lembra?], a insistência na busca de intermediários, a busca por responsabilizar a OTAN, a mudança de objetivos estratégicos em meio a campanha; tudo isso, repito, apontam um governante afobado, doido para colocar fim ao pesadelo.


Trump percebeu que cometeu um erro político grave.


O mesmo se aplica à tese de que suas ações se explicam apenas por conta da chantagem dos Arquivos Epstein. Não que seja impossível em algum grau, afinal a rede de espionagem de Epstein servia exatamente a esses propósitos. Mas é simplista reduzir Trump a um boneco de ventríloquo, agindo contra seus interesses, projetos e vontade. E não se adequaria ao cenário de busca desenfreada por sair do atoleiro.


O erro tem consequências, nem todas elas previstas pelo agente que tomou as decisões que desencadearam o processo. O capital político de Trump vai ser abalado, mas vai alimentar ainda mais a direita radical ianque. A responsabilização do lobby sionista está a pleno vapor. A base do MAGA já tem toda a narrativa em mãos para explicar a situação e usá-la a seu favor.


Além disso, o erro de Trump vai acelerar a debaclé do poder estadunidense, e agora naquela vantagem que era até então incontrastável. Quando se olhava para os EUA, eram nítidos os problemas econômicos, sociais, políticos e ideológicos. Mas não se podia contestar sua imensa superioridade militar.


Esse é o maior legado do conflito atual: expor para o mundo os limites do potencial bélico dos EUA, cujas doutrinas são inadequadas para um conflito assimétrico, despreparadas para a era dos drones, e com gargalos imensos no custo e na produção de seus poderosos artefatos de destruição.


Os EUA teria de reajustar sua pesadíssima máquina militar para os novos tempos, mas isso demanda tempo e desgaste político. Mexer no setor é como atiçar o maior dos vespeiros. O complexo industrial-militar ianque é trespassado não só por todo o tipo de interesse político e econômico, envolvendo máfias pesadas com articulações profundas com o aparato do Estado, mas também com esquemas bilionários de corrupção que, certamente, envolvem redes transnacionais.


Ainda que se consiga mover esse Iceberg sem ser engolido por ele, o reajuste implicaria em um redimensionamento da abrangência imperial. Os EUA teria de cortar alguns dedos para manter as mãos.


Quando da eleição de Trump, publiquei em meu blog artigo explicando que os EUA entrava em seu período cesarista, de concentração interna de poderes e abandono de boa parte das aparências democráticas e liberais, e ao mesmo tempo de expansionismo imperialismo bruto para compensar a decadência de suas próprias bases materiais de atuação.


Para continuar a analogia com o Império Romano, é como se a Renovatio Imperii tivesse batido no teto. Depois das migrações germânicas, que demoliram o poder romano no Mediterrâneo Ocidental, as elites imperiais desenvolveram um projeto de restauração territorial [e ideológica] em um novo período expansionista ao longo do século VI, nos reinados de Justino I e Justiniano I. Ao longo de três gerações, os romanos reconquistaram o norte da África, a Itália e recolocaram os pés na Península Ibérica. Mas o projeto foi impactado pela invasão da Itália pelos lombardos, e a crescente independência dos eslavos nos Bálcãs no último terço daquele século.


O "teto" da Renovatio anunciou a crise que iria estourar décadas mais tardes, um período de retração que só foi estabilizado quando o Império mudou de base, de identidade e de meios de intervenção. O Império Romano do século IX ["Império Bizantino"] se organizava em torno de um núcleo territorial mais enxuto [não mais todo o Mediterrâneo], com recursos fiscais e comerciais muito mais exíguos, apostando na sofisticação diplomática e na capacidade de influência civilizacional e religiosa mais do que no expansionismo militar "universal".


Em um médio prazo, e dentro dos limites da analogia, a derrota estratégica no Irã será para os EUA como a catastrófica chegada dos exércitos de Alboíno à Itália em 568, e a fundação do Regnum Langobardorum de Pávia. Trombetas apocalípticas, anunciando o fim do sonho de estabilizar de novo o Mediterrâneo como o mare nostrum romano.

sábado, 21 de março de 2026

QUARTA SEMANA DE GUERRA: QUEM ESTÁ VENCENDO POR ENQUANTO?



A ciência da guerra a encara de forma tripartite, coordenando os aspectos tático, operacional e estratégico. Desde Clausewitz existem delimitações entre as táticas militares e a guerra enquanto fenômeno estratégico [de natureza política].


O soviético Aleksandr Svechin enfatizou a dimensão operacional [articulação das batalhas em uma campanha visando destruir a capacidade militar inimiga], mas a subordinou definitivamente à estratégia fazendo uma reformulação importante em Clausewitz.


O prussiano [e a maior parte da doutrina soviética até a II Guerra Mundial] concebia a guerra como ofensividade máxima e batalhas decisivas. Svechin apontou, a partir de uma leitura da I GM, que a estratégia variava de acordo com o tipo de conflito que o poder político escolhia.


E a escolha podia ser por uma guerra de desgaste.


Dizendo de modo simples, a vitória depende do tipo de combate escolhido. O país define quais são seus objetivos políticos. Depois o tipo de guerra que considera mais apropriado para conquistá-los, e por fim prepara a base econômico-social e militar-política para sustentar o esforço ao longo do vetor tempo [que ganha mais importância se a decisão for pelo atrito].



Nesse sentido, não adianta fazer campanhas magníficas [nível operacional] se elas estão desarticuladas com a escolha do tipo de confronto e com os objetivos políticos [estratégia]. A vitória depende desse contexto amplo, e não de uma continha boba sobre quem vence mais batalhas ou destrói mais tanques. Se a campanha não for estrategicamente útil, então ela perde sua razão de ser, já que é meio e não fim.


Se aplicarmos esses conceitos ao que ocorre no Oriente Médio, o cenário ianque é o seguinte [não vou falar agora dos objetivos israelenses, que são mais amplos]:


A estratégia definida era a queda da República Islâmica a partir da destruição do aparato repressivo, a revolta da população contra o regime, o estabelecimento de lideranças dóceis aos EUA, o domínio dos recursos petrolíferos do país. O tipo de guerra era maximamente ofensiva, conduzida pelo poder aéreo, e decidida rapidamente pela destruição moral do inimigo, e pela incapacitação de suas forças convencionais [força aérea e naval].


Os EUA realizou seus objetivos? A resposta é um sonoro ''NÃO''.


A estratégia fracassou de modo tão completo que deixou a liderança ianque baratinada, como se não tivesse escopos claros. Trump busca agora redefinir a estratégia no meio da campanha: não é mais mudar o regime, não é mais roubar seu petróleo, não é sequer ter domínio sobre Ormuz. É só evitar que o Irã tenha capacidade nuclear [coisa que podia fazer via diplomacia, segundo os jornais, e mantendo Ali Khamenei vivo], e destruir suas forças convencionais.



Essa redefinição já é uma primeira confissão de derrota para quem saiba colocar os pingos nos 'is'. E mesmo essa consecução limitada depende que os EUA consiga manter uma guerra de desgaste no Oriente Médio [já que a ofensiva fracassou]. Daí a necessidade de uma leitura sobre os fatores econômicos, psicológicos [morais], políticos e logísticos que tornariam os ianques aptos para o feito. E há boas razões pra duvidar.


Já o Irã definiu como objetivos a manutenção da integridade territorial, a sobrevivência do regime, e um status quo pós conflito que garanta a cessação das agressões ianques sionistas por tempo suficiente para que consiga se reindustrializar e rearmar. Para tanto escolheu uma guerra de atrito que depende de: i. evitar a supremacia aérea adversária; ii. controlar o Estreito de Ormuz; iii. ditar os termos da escalada militar.


O país está realizando seus objetivos? A resposta é um sonoro 'SIM' seguido de uma observação importante: vem cumprindo com brilhantismo.



O Irã sabia que precisaria de um consenso interno forte o suficiente para uma guerra de desgaste. O nacionalismo persa, o xiismo, o anti-imperialismo proporcionam esse consenso, ajudado pelos erros dos inimigos [assassinato de Khamenei e outras figuras; declarações desastrosas sobre roubo de petróleo, incentivo a conflitos étnicos e civis etc.].


Sabia que boa parte de sua infraestrutura industrial e convencional estaria a mercê do bombardeio ianque-sionista, principalmente nas primeiras fases do conflito, daí abandonar determinadas forças convencionais em prol da proteção de sua capacidade de agressão e a concentração da produção bélica em unidades ocultas em cavernas, túneis, bunkers em áreas de difícil acesso para a artilharia inimigo. A essa altura, quem acredita a sério na propaganda ianque e sionista sobre escassez de lançadores e mísseis na Guarda Revolucionária?


Sabe que para ditar a escalada militar depende da contínua capacidade de seus mísseis, de que seu inimigo não tenha dúvida da disposição iraniana para a retaliar na mesma medida, do poder de desestabilizar e ameaçar os vizinhos, e da manutenção de seu controle sobre o Estreito de Ormuz.




A partir daí, explora com maestria as limitações logísticas, econômicas e políticas do adversário -- incluindo as restrições ianque-sionistas em suas defesas aéreas --, se preparando para um esforço de muitos meses, que inclui o destemor por atraí-los para um combate naval em torno do Estreito e para um combate terrestre no Oriente Médio.


O cenário pode mudar, e os EUA conseguir uma ruptura decisiva que altere o veredito que vem sendo construído? Evidente, estamos falando da maior potência econômica e militar já vista. O conflito definitivamente ainda não terminou.


Mas com tudo o que aconteceu até o momento, com os horizontes criados até aqui, não há como avaliar de outra maneira.


NESTE MOMENTO, o correto é dizer que o Irã está vencendo a guerra.