quinta-feira, 24 de outubro de 2024

RIO PODE SE ISOLAR COMO A CIDADE BRASILEIRA COM O MAIOR NÚMERO DE CAMPEÕES DA LIBERTADORES


Os botafoguenses tem toda a razão de estarem orgulhosos e delirantes. É a primeira vez que o clube consegue um real destaque na Libertadores, praticamente garantindo seu lugar na final de 2024 após uma goleada histórica sobre o Peñarol.


Times pequenos como o São Caetano e o Bragantino chegaram na final da Libertadores, era estranho que o Botafogo nunca tivesse realizado o feito. E ao mesmo tempo era também demonstração da incrível derrocada do clube e que simbolizava, em determinado grau, a minoração pela qual passou o futebol carioca após os anos 1980.


Depois de sua era de ouro, o clube teve alguns bons momentos, mas que não passavam de ''voos de galinha'' sem base sólida que sinalizasse um futuro melhor. Foi assim com o dinheiro investido pelo bicheiro Emil Pinheiro, entre 1989 e 1992. O time da estrela solitária foi bicampeão carioca, título ainda muito relevante na época, rompendo um jejum de mais de vinte anos, e ainda chegou à final do Brasileiro de 1992.


Um padrão similar se repetiu sob a gestão de Carlos Augusto Montenegro -- empresário bem sucedido que fez do Ibope referência de instituto de pesquisa e que soube se aproveitar bem da quase paridade entre real e dólar no primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso. O clube produziu ídolos históricos, como Túlio Maravilha e Vágner, foi campeão brasileiro em 1995, Carioca em 1997, e chegou à decisão da Copa do Brasil 1999.


Mas eram voos curtos e insatisfatórios e o Botafogo se apequenava a olhos vistos ano após ano. As tentativas de reverter o quadro pouco repercutiam no âmbito nacional. O clube virou chacota dos demais membros do ''G-12" e sua própria presença entre os grandes passou a ser contestada, e com bons argumentos, diante da ascensão do Athletico PR, muito mais bem sucedido que o alvinegro carioca neste século. A torcida do alvinegro enfrentava um processo rápido de ''desnacionalização''.


Antes de ser vendido a Textor, o destino do Botafogo parecia ser a irrelevância. Rebaixamentos se sucediam, a dívida era impagável, e os atletas preferiam jogar em clubes regionais e ascendentes do interior de Sao Paulo, do Sul e do Nordeste. A SAF oxigenou momentaneamente o clube. Quer dizer, isso se Textor não for o Emil Pinheiro desta nova geração, algo que ainda não está claro. Até lá, os botafoguenses curtem o momento, que parecia ser um sonho inexequível há três anos.


Pro Rio de Janeiro é, obviamente, uma ótima notícia. Podemos nos isolar como a cidade brasileira com o maior número de clubes campeões continentais -- dividimos a primeira posição com os paulistanos desde o ano passado. A liderança continua com Buenos Aires, que tem cinco clubes campeões da Libertadores. Mas dentro do país, o Rio está prestes a ostentar uma marca quase impossível de ser alcançada.

Nada mal para uma geração que ouviu algumas vezes que "o futebol carioca acabou". Ainda não, ainda não...

terça-feira, 22 de outubro de 2024

Paul Di'Anno e a morte do Heavy Metal

 "Nasci em um cenário/De raiva e ganância/De dominação e perseguição/Minha mãe era uma rainha/Meu pai eu nunca vi/Eu não deveria ter existido/E agora passo meu tempo/Procurando por aí/Por um homem em que nenhum lugar pode ser encontrado/Até encontrá-lo/Nunca vou parar de buscar/Vou encontrar esse cara/Vou viajar o mundo todo/Porque sou filho da ira/E estou chegando pra te pegar"

Wrathchild, Iron Maiden


A repercussão da morte de Paul Di'Anno dá a dimensão da importância cultural que o Iron Maiden teve para a classe média ocidental nas duas últimas gerações. Que é um grupo basilar para o fenômeno hoje decadente do Heavy Metal todos sabem, mas me refiro à identidade desse grupo social pra lá de cosmopolita.


É surpreendente por dois motivos: o Maiden não tocou nas rádios na maior parte de sua carreira. Quando chegou lá, e alcançou algum sucesso com a MTV, já estávamos quase em meados dos anos 1990 e Bruce Dickinson já era vocalista da banda há mais de uma década. E Paul não era preferido nem pelos fãs dos anos 1980, quando a new wave of british heavy metal estava fora do circuito mais popular da indústria. [Nesse ponto, sempre fiz parte de uma minoria das minorias, pois sempre achei o Di'Anno melhor.]

Não é incomum que uma banda extravase em muito sua importância musical e se torne marca de uma geração, mas é engraçado que tenha ocorrido justamente com o Maiden. Quando eu escutava à vera, na virada dos anos 1980 pros 90, ela ainda não estava ''normalizada'' para o grande público brasileiro. Isso só aconteceu com o álbum Fear of the Dark. Algo semelhante acontecia com o Metallica na época.

Em termos musicais, o Iron Maiden é bastante precário, ainda que muitos furos acima do nicho em que se desenvolveu. Mesmo para quem, como eu, valoriza o popular, é difícil perceber ali qualquer elemento artístico mais elevado ou duradouro. E eles sempre tiveram o bom senso e o mérito de não se levarem muito a sério. Havia um certo humor britânico em tudo o que a banda fazia, mesmo quando lidavam com abordagens temáticas interessantes. As canções são melodicamente muito superiores ao gênero, mas muitas vezes são óbvias colagens de riffs e solos, de modo bem pouco criativo. Quando decidiram incrementar a fórmula que repetiam álbum depois de álbum, os fãs mais fiéis reclamaram histericamente.



O fenômeno do metal é tão superficial e raso quanto o grupo social que o abraçou, os adolescentes dos anos 1980 e 1990 da pequena burguesia da era de ouro do capitalismo [e dos Estados de bem Estar Social] e de horizontes mentais conservadores [o headbanger típico é um reacionário] que povoa as cidades grandes e médias dos cinturões das metrópoles. Este grupo social está hoje na meia idade. Quem frequentava shows do Maiden nos últimos anos notava que o público típico era de quarentões levando os filhos.

A morte de Paul Di'Anno pode, portanto, ser um dos primeiros obituários de todo um gênero cuja precariedade já não possibilita que expresse mais os anseios dessa classe média frustrada e entediada. Até porque ela não vive mais naquele mundo construído pela social-democracia dos anos 1960 e 1970. Os que pretendiam explorar os meandros do Metal fugiram para ramos bem específicos e de difusão ainda mais diminuta e que se tornaram  cada dia mais experimentais, até que começaram a se esgotar também há quinze anos. Os demais se renderam à música eletrônica ou a alguma expressão do imenso conjunto do hip hop ianque.

Para os saudosistas e fãs mais velhos fica a homenagem a Di'Anno. considero Killers o melhor álbum da banda, o momento em que o Maiden estava tinindo, nas pontas dos casos, e com a melhor formação de sua história. Não vou dizer ''up the irons'' porque, a essa altura, isso soa bem ridículo.


terça-feira, 15 de outubro de 2024

Jessé Souza contra o Racismo Primordial, ou: do perene ódio progressista ao Cristianismo

"É necessário demonstrar que o racismo primordial se produz primeiro em termos religiosos e depois em termos científicos, sem qualquer solução de continuidade. Estou aqui propondo uma definição ampliada de racismo que possa abranger toda forma de hierarquia construída entre ''humanos superiores'' e ''humanos inferiores''. Como o racismo racial é ''apenas'' uma das formas possíveis por meio das quais isso se constrói, é necessário que nos dediquemos a buscar as formas mais elementares, abstratas e universais que regem a gramática de toda desigualdade hierárquica"

Jessé Souza, "A Guerra contra o Brasil"


Jessé de Souza deu entrevista ao Globo em que inclui uma avaliação precisa da decadência da esquerda. O abraço ao identitarismo a afastou das classes populares e o futuro pós-Lula é cada vez mais problemático. A solução seria que os ditos progressistas aprendessem com Getúlio Vargas, cujo legado e memória foi atacado pelo lulopetismo por décadas e décadas.

Mas Jessé está em posição de fornecer elementos para que o problema possa ser minimamente sanado?

Nada indica, já que ele contribui para a alienação progressista com suas teses descabidas sobre o racismo. O sociólogo consegue tornar o conceito ainda mais abrangente que o de Dugin. Ele identifica uma matriz do pensamento racista, um racismo primordial, não no pseudo-universalismo iluminista [que nada mais é que a generalização temporal e espacial do eurocentrismo], mas nas fontes intelectuais da civilização helenista, romana, cristã, europeia e ocidental.

O Racismo Primordial, diz ele, seria consequência da psicologia e antropologia platônicas, mais particularmente da hierarquia entre o espírito [o logos, a razão] e o corpo [as paixões, incluindo os desejos]. Esta distinção se tornou axial no agostinianismo, que teria acrescentado uma versão de cogito que romperia com aspectos muito importantes da psicologia aristotélica.

Pronto, a "gramática da desigualdade'' estaria pronta para espalhar o vírus do ''racismo primordial'' por civilizações inteiras ao longo de séculos de ação da Igreja Católica [e mais tarde pela ética protestante] e para legitimar o estranhamento entre os grupos sociais. [1]

A linha de argumentação de Jessé é adornada com muito Bourdieu e Taylor. O principal, no entanto, é que a legitimação e reprodução da desigualdade viria do platonismo vulgar que Nietzsche chamava de cristianismo, e das instituições que o veiculam ao longo dos tempos. E desse modo ele pretende ter encontrado a chave que explica a reprodução do ''racismo estrutural'' que Sílvio Almeida teria intuído.



Racismo, nessa abordagem, nada mais é que sinônimo de ''hierarquia'', um verdadeiro ''pecado original'' na ótica progressista. A responsabilidade por toda essa falta de modernidade [ou seja, pelos obstáculos ao igualitarismo] está na religião, como não poderia deixar de ser. E como o racismo nada mais é que do que uma forma oitocentista de desigualdade e hierarquia entre populações, já dá pra entender onde se pretende chegar.

Chega a ser risível ler Jessé criticar a ''esquerda de Oslo'' e as agendas identitárias, denunciar o afastamento do povo e a guerra cultural contra as classes populares, e vê-lo analisar a história por meio dessas chaves canhestras e batidas. "Médico, cura-te a ti mesmo!", eu diria. Jessé precisava aprender alguma coisa com Getúlio Vargas, que superou o repúdio à religião herdado do positivismo e de certo socialismo utópico e se aproximou do catolicismo-romano e da Doutrina Social da Igreja.

Ele voltará!

Mas não por papinho furado que tem por pano de fundo a criminalização do cristianismo e a condenação da história intelectual ocidental. Reproduzindo tendências inerentes ao progressismo desde suas origens, Jessé até começa bem. Mas não se segura e investe contra a natureza, os anjos, a beleza, o espírito, e tudo que é superior na vida e no mundo. _____________________________


[1] Jessé vê, no entanto, um potencial democratizante no protestantismo por oposição ao catolicismo-romano pelas críticas à hierarquia social medieval e pela valorização da ascese do trabalho. Evidente que ele não podia deixar de se apegar a mais este jargão do progressismo.

domingo, 13 de outubro de 2024

A Escada de Jacó por qual os Anjos descem à Terra e sobem ao Céu

 

"A Escada de Jacó é a Santíssima Virgem Maria, que é a ponte entre o céu e a terra. Ela é aquela que traz o Filho de Deus do céu para a terra, e é aquela que nos guia de volta para o Céu".

São Gregório Palamas



Na postagem anterior, falei um pouco sobre as divergências entre os Tradicionalistas em torno da ideia de Pontifex. Antes de falar da abordagem cristã ortodoxa sobre este tema, é bom recordar um aspecto muito importante da veneração a Theotokos, e que se associa, de modo tipológico, à discussão empreendida pelos dois metafísicos. 


No capítulo 28 de Gênesis, o Patriarca Jacó é advertido por Isaque, seu pai, a não tomar por mulher uma das filhas de Canaã. Ele é enviado à casa do avô materno para escolher uma das filhas de Labão, seu tio. No caminho, repousa em dado lugar e é acometido por um sonho misterioso. O episódio é narrado desta maneira:

"Isaac chamou Jacó e o abençoou, dando-lhe esta ordem: "Não desposarás uma filha de Canaã. Mas vai a Padã-Aram, à casa de Batuel, pai de tua mãe, e escolhe lá uma mulher entre as filhas de Labão, irmão de tua mãe. Deus Todo-Poderoso te abençoe, te faça crescer e multipliar, de sorte que te tornes uma multidão de povos. Conceda-te ele, como também à sua posteridade, a bênção de Abraão, a fim de que possuas a terra onde moras, e que Deus deu a Abraão." Isaac despediu Jacó, e este partiu para Padã-Aram, para a casa de Labão, filho de Batuel, o arameu, irmão de Rebeca, mãe de Jacó e de Esaú. [...] Chegou a um lugar, e ali passou a noite, porque o sol já se tinha posto. Serviu-se como travesseiro de uma das pedras que ali se encontravam, e dormiu naquele mesmo lugar. E teve um sonho: via uma  escada, que, apoiando-se na terra, tocava com o cimo o céu; e anjos de Deus subiam e desciam pela escada. No alto estava o Senhor, que lhe dizia: "Eu sou o Senhor, o Deus de Abraão, teu pai e o Deus de Isaac; darei a ti e à tua descendência a terra em que estás deitado. Tua posteridade será tão numerosa como os grãos de poeira no solo; tu te estenderás, para o ocidente e para o oriente, para o norte e para o meio-dia, e todas as famílias da terra serão benditas em ti e em tua posteridade. Estou contigo, para te guardar aonde quer que fores, e te reconduzirei a esta terra, e não te abandonarei sem ter cumprido o que te prometi." Jacó, despertando de seu sono, exclamou: "Em verdade, o Senhor está neste lugar, e eu não o sabia!" E, cheio de pavor, ajuntou: "Quão terrível é este lugar! É nada menos que a casa de Deus; é aqui, a porta do céu".


A Igreja Ortodoxa identifica o sonho como uma pré-figuração da Toda Santa e Pura Virgem Maria. Theotokos é a Escada por meio da qual Cristo encarna, tal como ensinava Santo Efraim o Sírio: "A Escada de Jacó é a Santíssima Virgem Maria, que trouxe o Filho de Deus do Céu para a Terra." O mesmo ensinamento se encontra em São João Damasceno: "A Virgem Maria é a escada por meio da qual Deus vem até nós, e ela é a porta através da qual podemos subir até o Céu."


Ícone da Escada da Divina Ascensão


A Escada vista por Jacó tem importância capital no ascetismo ortodoxo. Uma das principais obras sobre o tema, chamada de "A Escada da Divina Ascensão", foi escrita pelo monge São João do Sinai, também conhecido como São João da Escada, hegúmeno do Mosteiro de Santa Catarina do Sinai durante a primeira metade do século VII. Ela lista os passos ou degraus no ascetismo, em número de trinta, para que o asceta possa alcançar a theosis -- termo grego para deificação, o propósito da vida cristã.

Em um dos hinos da Igreja para a Mãe de Deus se canta:

"Sarça que arde mas não queima,
Paz, ó Ponte para o Alto,
Escada vista por Jacó;
Paz, ó vaso puro em que 
O santo maná foi guardado".


Alguém pode se lembrar também da seguinte passagem do primeiro capítulo do Evangelho de São João Teólogo:

"Diz-lhe Natanael: "De onde me conheces?" Respondeu-lhe Jesus: "Antes de Filipe te chamar, vi-te quando estavas debaixo da figueira". Respondeu-lhe Natanael: "Rabi, tu és o filho de Deus, tu és o Rei de Israel". Jesus respondeu e disse-lhe: "Porque te disse 'vi-te debaixo da figueira', tu crês? Verás algo de maior do que essas coisas". E diz-lhe: "Amém amém vos digo: vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem".

A perícope remete evidentemente à Escada de Jacó, e se liga à visão ortodoxa de Cristo como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, e à união Hipostática. O mistério da natureza humana de Cristo também está ligado à Theotokos.


São João Teólogo contempla o Filho do Homem





Guénon e Evola, ou Realeza e Sacerdócio

 "Está estabelecido assim que a autoridade da Monarquia temporal desce sem mediação da fonte da autoridade universal. E que esta fonte, una na pureza de sua origem, flui em múltiplos canais dada a abundância de sua excelência."

Dante Alighieri




A Dupla Coroa do Monarca egípcio, a branca representando o Alto Egito e a vermelha o Baixo Egito. É a coroa usada tanto por Horus quanto pelo deus criador Atum

Uma das maiores pendengas entre Tradicionalistas é a divergência entre Guénon e Evola sobre os vínculos entre a "Autoridade Espiritual" e o "Poder Temporal" -- como o francês colocava o problema. Esta questão tem repercussões em vários níveis, não apenas na organização social.


Na varnashrama hindu, os brâmanes são uma casta 'superior' a dos Ksatryias. Os primeiros representam a 'palavra' do Macantropo [Homem Universal], e se ocupam da transmissão da doutrina, tanto em forma expositiva e lógica, como também mistérica e iniciática. A vocação brâmane se vincularia a Vishnu e à guna sattva, de caráter luminoso e ascendente pelos graus de ser. Os homens com essa vocação são os ''intelectuais'', ''contemplativos'' e ''mestres'' em dada civilização. Tem atividades sacerdotais, artísticas e professorais e se vinculam prioritariamente ao conhecimento e sua difusão.


Os Ksatryias, por sua vez, representam os membros do Macantropo, e portanto seu potencial para ação em dado mundo ou ordem de manifestação. Sua vocação está ligada a Brahma, o demiurgo, e à guna Rajas [na verdade, uma mescla entre Sattva e Rajas], que expande ou consolida determinada organização ou ordem ou compossibilidades em dado plano ou âmbito da realidade. Os indivíduos que pertencem a essa varna exercem o poder, o governo e a administração de dada sociedade. Estão também ligados às funções de Justiça e Guerra.


Se fôssemos comparar estas varnas com a psicologia humana, os brâmanes se associam ao Nous, ou ao Intelecto Ativo. Poderíamos também dizer que eles estão associados ao espírito e à cabeça. Já os Ksatryias se vinculam à personalidade, ao peito, à alma irascível. No terreno esotérico, estas varnas estão ligadas a formas diferentes de Iniciação. Os brâmanes são gnósticos, trilham vias jñana, de pura contemplação e metafísica, compatíveis com suas tendências sátvicas. Já os Ksatryias tem apelos emotivos e psíquicos que os tornam mais adequados a caminhos devocionais, à ligação com ''divindades pessoais''.


Guénon ia além ao sustentar que a iniciação dos ksatryias era dos Mistério Menores, ligados à salvação da personalidade, ao retorno ao estado original do homem como centro deste mundo [estado adâmico], e aos conhecimentos cosmológicos. Já a iniciação brâmane era a dos Mistérios Maiores, que levavam à Identificação Suprema [ou realização espiritual], de natureza principalmente metafísica.


Dito isto, ele ensinava que em toda ''civilização normal'' -- ou seja, toda sociedade organizada segundo a Tradição --, os brâmanes exerciam a autoridade sobre os Ksatryias. Estes tinham todo o poder na ordem mundana, mas se curvariam aos sacerdotes e mestres que detinham o ensinamento tradicional de ordem mais elevada. Como o Rei nada mais era que um ksatryia, estaria limitado pelo sacerdócio.


Evola pensava diferente. Ele fazia notar a existência de um estado anterior à divisão de varnas, o estado do próprio Realizado. Neste estado, os poderes de brâmanes e Ksatryias estariam sintetizados. A função social que corresponderia a este estado era a do Rei-Sacerdote, o Pontifex supremo. O Ksatryia teria características que lhe permitiriam conquistar o poder sacerdotal e atingir este elevado patamar espiritual, sem mediação brâmane. Esta via régia colocava o Monarca em uma posição superior a do sacerdote.


A resposta guenoniana ao argumento do Barão é de que não vivemos mais na Era de Ouro, em que alguns homens já nasciam Iniciados. No momento atual de degeneração, a Era de Trevas, a posição de Evola não faria sentido.


Na Cristandade Latina, ambos exemplificavam sua discordância por meio das pendengas entre o Papado e o Império -- ou na terminologia italiana, entre guelfos e gibelinos. Mas elas também tomam forma no fortalecimento das Monarquias no alvorecer da Modernidade, com a Realeza submetendo o clero e insistindo em teorias como a do Direito Divino.


A discordância neste ponto está longe de ser banal, e traz implicações para a análise da decadência espiritual e civilizacional. A tese principal de Guénon era a Rebelião dos Ksatryias, que causa uma ruptura no reflexo pessoal e social do Mancatropo. As considerações de Evola sobre o ''Retrocesso das Castas" são um tanto diferentes, bem como dos meios para evitar ou 'retificar' a situação.

Em outra postagem vou falar de uma perspectiva cristã-ortodoxa sobre este 'problema'.

terça-feira, 8 de outubro de 2024

Julius Evola e a Iniciação no Cristianismo


 Duas semanas atrás, publiquei um texto resumindo, de forma bem simplificada e didática, as divergências que René Guénon e Fritjof Schuon tinham a respeito do Cristianismo.


Houve quem me perguntasse a opinião de Julius Evola. Fiel a sua perspectiva sobre a tradição iniciática, que pode ser melhor compreendida a partir da obra "A Tradição Hermética", Evola resumia toda essa pendenga de forma bem simples:

"Na minha opinião, o que pode existir de iniciático no Cristianismo não é cristão, e o que é cristão não pode ser iniciático." [O Arco e a Clava, 1968]

Assim, Evola não nega a possibilidade de ritos e fluxos iniciáticos na história cristã, nem sua continuidade através dos tempos. Ele cita sinais nos Padres da Antiguidade, em São Simeão o Novo Teólogo, no conceito de theosis e no hesicasmo na Ortodoxia, nas ordens de cavalaria na Idade Média, nos ciclos arturianos, e até em certas ambiências protestantes.

Mas ele considerava que o esoterismo e o poder iniciático que porventura existissem no cristianismo não eram propriamente cristãos. O Cristianismo, por natureza, seria uma doutrina divorciada desses princípios tradicionais, sacerdotal por definição, e devocional demais para que pudesse ser incluída no âmbito do qual Evola falava.

Por isso também, ele achava que os movimentos cristãos mais próximos de uma real compreensão esotérica eram os heréticos, especialmente os gnósticos da Antiguidade.



Se o cristianismo podia ou não ser base para uma restauração tradicional no Ocidente é outra questão, para a qual Evola deu resposta negativa durante quase toda sua vida, ainda que no final já tivesse uma resposta mais ambígua e até favorável, em algum grau, ao Cristianismo.

Enfim, a abordagem de Evola é uma terceira via, uma alternativa tradicionalista, em relação a de Guénon e Schuon. O primeiro pensava o cristianismo como inicialmente esotérico, mas descendo para o nível do exoterismo por Providência Divina a fim de evitar momentaneamente a derrocada civilizacional que se prenunciava na Antiguidade. O segundo considerava os ritos cristãos propriamente iniciáticos nos "três ramos" dessa religião: catolicismo-romano, ortodoxia e luteranismo.

Evola diz que é possível sim que exista, tanto em sua origem, quanto em seus desdobramentos históricos, iniciações no cristianismo. Mas elas não surgem NO cristianismo. São como um ''corpo acrescentado'', quase que estranho, a uma forma de espiritualidade [o cristianismo] que é por natureza profana.

Evidente que nenhuma dessas três abordagens pode satisfazer plenamente um cristão, apontando para a dificuldade que é encaixar esta religião na narrativa Tradicionalista.

sábado, 5 de outubro de 2024

O Profeta Jonas e o Monstro Marinho


 O Profeta Jonas, que os ortodoxos comemoramos hoje, não foi engolido por um ''peixe'' [tradução na Vulgata]. Nem por uma "baleia" [tradução de Lutero]. O termo na Septuaginta é Kêtos, que é melhor traduzido como ''ser marinho'' ou ''monstro marinho''. E aí pode ser muita coisa, incluindo monstros desconhecidos por nós.


São Nicodemos trata desse tema em seu 'Grande Synaxaristes':

"Para aqueles que amam o conhecimento e que são curiosos, apresentamos aqui algumas coisas sobre o Ketos. O Ketos era maior que um navio-prisão, de acordo com Theocles. Era cinco vezes maior que um elefante, de acordo com Aeliano. Tinha 50 cúbitos de comprimento, de acordo com Eratóstenes. Era de cem cúbitos segundo Nearchos. E segundo Onésicrato, tinha seiscentos pés. Ortágoras diz que tinha mil pés de comprimento e cinquenta de largura.
De acordo com os Padres Teóforos que seguiam estes homens da Antiguidade, o Ketos tinha um tamanho imenso. São Basílio Magno afirmava que a magnitude do corpo do Ketos era maior que uma montanha, e que eles pareciam ilhas [Hexaemeroun, Hom. 7). Quando o Ketos nadava sobre as ondas, dizia Santo Ambrósio, parecia uma ilha ou uma grande montanha cujo pico tocava os céus. Eustácio de Antioquia, em seu Hexaemeron, declarou que um Ketos, chamado de aspidochelon, era tão grande que parecia uma ilha aos olhos dos marinheiros.
Mesmo os modernos dizem que em Santonia, cidade da França localizada o Oceano Britânico, foi encontrado um Ketos com cento e vinte pernas, segundo Scaliger. E outro foi achado no Mar Báltico, com cem cúbitos de comprimento, segundo Ziegler. Estes estão entre os muitos Ketos que contam ter sido encontrados, dentre os quais estão aqueles chamados de baleias."


Como se percebe, os homens encontraram muitos tipos de Ketos no mar, eles não podem ser reduzidos a grandes peixes, tubarões e baleias. Não sabemos que tipo de Monstro Marinho engoliu o Profeta Jonas, mas sabemos que ele foi ''sepultado'' em suas entranhas ou ventre. Tanto isso é verdade, que ele ora ao Senhor dessa maneira:

"Gritei em aflição ao Senhor meu Deus;
E ele ouviu-me.
Das entranhas do Hades ouviste meu grito e minha voz.
Atiraste-me para [as] profundezas
Do coração do mar; e rios me cercaram.
[...]
Desci à terra, cujas trancas me detêm, eternas;
E que suba a ruína da minha vida, ó Senhor meu Deus!
Quando a minha alma me abandonava,
Lembrei-me do meu Senhor."

O Profeta fala da sua morte. Daí o Sinal de Jonas, mencionado por Cristo: Jonas foi tragado pelo Hades e depois retornou à vida. [Deus ordena que o Ketos, o Monstro Marinho, o vomite em terra.]



Existem diversas conexões entre o ocorrido com Jonas e ritos iniciáticos em diversos continentes e tempos. Mircea Eliade tratou dessas similaridades em seu "Mito e Realidade", associando o neófito engolido por um monstro ao retorno à Mãe-Terra ou, de modo mais próprio, um ''retorno ao útero''.

O importante é notar que para a Igreja não se trata de uma ''alegoria'' ou parábola. O Profeta Jonas e os acontecimentos descritos são considerados históricos. No entanto, o mundo para os antigos não é o mundo imaginado pelo homem moderno. É uma realidade imbricada por diversas dimensões, em que o preternatural e o sobrenatural irrompem a todo momento e se fazem presentes aos sentidos. Não convém interpretar ou compreender estas passagens escriturísticas com limitada capacidade imaginativa e cognitiva contemporânea.

domingo, 29 de setembro de 2024

O Anticristo

"Quando vocês ouvirem que Cristo chegou ou apareceu na terra, então saibam que se trata do anticristo."

São Zósimo da Palestina




Existem muitos ensinamentos e profecias dos Santos Padres que nos auxiliam a entender o Anticristo e seu reinado no fim dos tempos. Quando o tema é abordado, em geral se fala de forma imediata de política, buscando nos eventos cotidianos os sinais do fim dos tempos. Mas há um tópico que é ainda anterior a este, e que se liga também à angelologia. E remonta ao significado da Rebelião dos Anjos e da guerra que se estabelece a partir desta catástrofe cósmica.


Os Santos Padres dos primeiros séculos levavam muito a sério uma gama de literatura que compilavam tradições antiquíssimas, mas que não foram incluídos no cânone escriturístico. Dentre estas obras, O Livro de Enoque e o Livro dos Jubileus tem peso bastante considerável. Não vou me estender sobre este ponto para o qual já há texto neste blog: leia aqui.


Chamo a atenção para este trecho específico do texto: "E aí voltamos ao primeiro livro de Enoque e suas descrições das rebeliões dos Anjos, comandada por Azazel e por Samiyaza, e que ensinam aos homens segredos em diversos âmbitos, incluindo aí a magia, a metalurgia, as estratégias e armas de guerra, e outros tantos mistérios da Criação -- como ritos e cultos que envolvem aborto, abuso sexual, consumo de sangue, sacrifício humano e canibalismo. Estes mesmos "Guardiões" Angélicos estupram mulheres e geram uma descendência de Gigantes [Os Nefilins] que vão escravizar a maior parte dos seres humanos -- narrativa que deixou marca explícita no textos canônicos, como em Gênesis 6:1 a 4, ou como na ordem de São Paulo em I Coríntios 11:10 para que as mulheres usem véus como proteção contra os anjos [Os 'Guardiões' ardem de luxúria pelas mulheres, há todo um vínculo aí entre a natureza feminina, o erotismo, e a sabedoria divina].''


Pois bem, a existência de filhos de demônios caminhando materialmente sobre a terra é plenamente possível se levarmos em conta estas tradições e os ensinamentos dos Padres.


Santo Inácio Brianchaninov dizia que os espíritos demoníacos possuem o vício da luxúria, ainda que fossem incorpóreos. São Paulino de Nola explicava dessa maneira o uso de véus por parte das mulheres: ''Que compreendam por que Paulo ordenou que suas cabeças fossem cobertas com um grande véu: por causa dos anjos, isto é, dos anjos que estão pronto para seduzi-las e que os santos condenarão.''


Até o século III, todos os Padres interpretaram o trecho escriturístico sobre os Nefilins, Gigantes que seriam frutos das relações entre os Filhos de Deus e as filhas dos homens, como a união sexual entre anjos decaídos e mulheres, seguindo a interpretação presente nos relatos de Enoque.


São Metódio dizia, ''Os demais permaneceram nas posições para as quais Deus os criou e apontou; mas o diabo era insolente, e tendo nos invejado, agiu de modo perverso no dever que lhe foi confiado; como também assim fizeram aqueles que subsequentemente se enamoraram por pecados carnais e entraram ilicitamente em intercurso com as filhas de homens. Para estes também, assim como ocorre com os homens, Deus concedeu o fruto de suas próprias escolhas.''


São Justino Mártir foi ainda mais direto: ''Nos temos antigos, demônios perversos apareceram e defloraram mulheres.''


Depois do século III, muitos Padres encararam os ''Filhos de Deus'' como homens poderosos que haviam atingido uma gnose demoníaca. Mas essa explicação não entra em conflito com a anterior, como se depreende das explicações e profecias sobre o nascimento do anticristo. E também repercute uma literatura antiga, pois este é a explicação adotada no Livro dos Jubileus.



Esta questão está intrinsecamente vinculada ao Anticristo, o ''filho do diabo'', que nada mais é que uma imitação canhestra e grotesca de Deus. Santos afirmaram que ele será filho de mãe judia, e portanto judeu, ainda que nascido na Rússia, em uma região entre Moscou e São Petersburgo. A respeito do pai há, porém, indicações aparentemente conflitantes. Alguns indicaram que o diabo tentaria encarnar num homem em imitação ao Filho de Deus. Outros explicaram de forma mais pormenorizada que o anticristo teria pais humanos, mas no momento de sua concepção o diabo entraria no útero de sua mãe, se misturaria ao sêmen do pai, e transferiria pra criança a plenitude de seu poder.


São Nilo do Monte ensinou: ''Sim, ele nascerá do sêmen, mas sem participação do homem. Do sêmen, mas não de algum homem.''


São Serafim de Sarov profetizou de forma pormenorizada: ''Jesus Cristo, o verdadeiro Deus-Homem, o Filho de Deus Pai, nasceu em Israel por inspiração do Espírito Santo, e o anticristo, o homem-diabo, nascerá no meio dos russos. Ele será filho de uma prostituta da tribo de Dã e filho do diabo por meio da transferência artificial para ela do sêmen do homem, com o qual o espírito das trevas se estabelecerá em seu útero. Mas um dos russos que viverá no tempo do nascimento do anticristo (similar a São Simeão o Recebedor de Deus, que anunciou o nascimento da Criança Jesus ao mundo) vai amaldiçoar o bebê recém-nascido e anunciar ao mundo que se trata do verdadeiro anticristo."


Ora, os romenos acreditam que os strigoi [vampiros] podem conquistar materialidade física e passar a viver entre os homens. Eles seriam capazes de se reproduzir com mulheres. Os filhos dessas relações seriam "strigoi" vivos [Strigoi viu], entes amaldiçoados que se tornariam vampiros quando falecessem. Todo este folclore, que é mais universal do que se imagina, está em consonância com ensinamentos tradicionais.


É possível que, assim como o nascimento de Cristo foi preparado ao longo de séculos e séculos de ascetismo e purificação que culminou na linhagem que deu origem à Toda Santa e Pura Virgem Maria; assim também a chegada do anticristo seja preparada por toda uma linhagem diabólica, que vai culminar em uma virgem que é, ao mesmo tempo, prostituta de Satã. Esta é uma das facetas do Mistério da Iniquidade, que nada mais é que o grande plano concebido pelo Inferno em sua guerra cósmica contra a Igreja.


Este plano só entraria em sua execução final após a remoção do Katechon, citado pelo Glorioso Apóstolo São Paulo como o principal obstáculo ao surgimento do ''filho da perdição". O Katechon foi interpretado na Tradição da Igreja como o Imperador Romano. No Cristianismo Ortodoxo, o último Imperador Romano foi o Czar Nicolau II, assassinado pelos bolcheviques quando da Revolução Russa. Com o fim do Império Russo, o dique final para a chegada do anticristo foi removido.




É verdade que o anticristo é, ao mesmo tempo, uma força coletiva e psíquica, e também um tipo aplicado a diferentes personagens da História. Mas é também uma ''encarnação diabólica'', um homem que receberá o poder e a energia de Satã no fim dos tempos para impor o império do diabo na terra, tal como profetizado por diversos santos.


O anticristo será judeu, e pregará a tolerância religiosa, e uma religião universal. E terá imenso carisma, sendo reconhecido como um grande filantropo. Ele será também um mestre de magia, capaz de verdadeiros prodígios, e os judeus vão aclamá-lo como Messias. Todas estas informações estão profetizadas, e algumas delas podem ser lidas no Synaxarion do Domingo do Juízo Final.


O anticristo vai permanecer escondido, vivendo com discrição até os trinta anos de idade. Quando finalmente se revelar ao mundo, será sedutor, trará palavras de paz, e vai conquistar a simpatia da maior parte das pessoas. Será visto como aliado, inclusive, por muitos cristãos. Só quando estiver já com o poder nas mãos que seu ódio pela Igreja vai se tornar explícito e sumamente violento.


Segundo Santo Efraim o Sírio, "Ele virá em uma imagem que seduzirá a todos. Como um homem humilde, gentil, que diz odiar a falsidade, rejeita os ídolos, prefere a piedade e a bondade, ama os pobres, tem as feições belas, é doce com todos, e respeita especialmente a nação judaica, pois ela estará aguardando sua chegada [...]. Com astúcia, tomará medidas para agradar a todos, não aceitará presentes nem se expressará com ira, não se mostrará taciturno, mas seduzirá o mundo com bons modos, até que seja entronizado."


Santo Inácio Brianchaninov afirmou que "Aqueles que não compreendem o Cristianismo verão nele [no anticristo] um representante e defensor da verdadeira religião, e se unirão a ele. Ele se vangloriará, se anunciando como o prometido Messias, e os filhos da sabedoria do mundo vão saudar esta apresentação. Por causa de seu renome, poder, capacidade geniais e seu mais amplo desenvolvimento dos elementos do mundo, será visto por eles como um deus, e eles se tornarão seus cúmplices."


A descrição acima se aproxima muito da de um ''avatar'' da Nova Era, tão ao gosto de certa espiritualidade contemporânea alimentada pelo ocultismo e esotericismo ocidental dos últimos séculos. Ela se adequaria, por exemplo, às tentativas da Sociedade Teosófica de criar um ''novo Cristo'' na figura de Krishnamurti. Não é impossível que o Mistério da Iniquidade trabalhe no mesmo sentido, mas com a ação de fato comandada por Satã e seus anjos decaído, que ''ardem de luxúria'' pelas mulheres, e são capazes de gerar linhagens de proles demoníacas.


Há a formação de toda uma mentalidade, toda uma expectativa, todo um clima que nasce da confluência de uma espiritualidade que gira cada vez mais em torno do fenomenalismo, da busca por poderes psíquicos, mas também um vago sentimentalismo universalista travestido de humanismo, uma confiança sem fim nas possibilidades humanas, a ânsia pela globalização e unificações mundiais, o deslumbramento com a tecnologia, o fascínio com o fenômeno UFO etc.



O anticristo não vai seduzir o mundo apenas com belas palavras e ações filantrópicas. Ele será capaz de prodígios imensos, que deixarão todos os povos estupefatos. O anticristo receberá seu poder diretamente de Satã, nada nele estará livre da influência direta do diabo. E ele será capaz de enganar quase todos com este poder prodigioso, e isso inclui os próprios cristãos.

Há profecias que explicam que, antes da ascensão do anticristo ao poder, o mundo estará dividida entre dez Reis. O anticristo é o ''décimo primeiro rei'', que vai tentar impor sua autoridade sobre todos os demais. Sete dos reis vão se submeter voluntariamente ao anticristo. Três deles vão resistir e manter sua independência. Difícil saber até que ponto estes números são ''literais'', mas o conflito político descrito é evidente: O anticristo vai tentar dobrar os três reis romanos ''rebeldes'' pela força das armas. Será uma guerra mundial, escatológica, em que o filhote do capiroto estabelecerá seu domínio no globo.


Uma vez ''rei global'', a hipócrita doçura do anticristo vai chegar ao fim. Seu governo se tornará um totalitarismo sufocante, opressivo e genocida. Ele vai reconstruir o templo dos judeus em Jerusalém, e se fará adorar como deus. E perseguirá os cristãos que não o louvarem como Deus, aqueles que permanecerão fiéis à igreja. A perseguição será brutal, como nunca se viu na História, e ninguém se salvaria caso o tempo de reinado global do anticristo não fosse encurtado por misericórdia divina. O culto público a Cristo e a Eucaristia serão proibidas, e a Igreja terá de retornar às catacumbas.

Este tema ressoa bastante a perseguição aos cristãos no Império Romano antes de São Constantino e São Teodósio. O Imperador Romano era divinizado, e encarado como uma autoridade universal. Os habitantes do Império eram obrigados a adorá-lo, particularmente no Exército. Os cristãos eram mal vistos pelo governo imperial por causa da recusa a essa adoração, entendida como ausência de lealdade à Roma.


Desse modo, as profecias indicam que o anticristo vai reeditar o que foi realizado na Roma pagã nos primeiros séculos da Igreja. Mas com uma diferença, ele vestirá a carapuça de Messias Judeu, recebendo apoio do ''povo eleito''. Daí porque a reconstrução do Templo de Jerusalém sempre foi encarada por muitos santos como o indicativo da chegada do reinado diabólico na terra.

Há outros mistérios nesse período, como a pregação dos dois santos profetas que denunciarão o anticristo, serão assassinados por ele e, ressuscitados por Deus, vão subir até os Céus. Resumindo, o anticristo será derrotado na Segunda Vinda Gloriosa do Senhor, que ocorre no momento em que a Igreja já não puder mais realizar ofertas sobre a terra. Neste exato momento, o anticristo terá reunido todos os povos sob sua tirana para o confronto final.

E então virá o fim, de modo estrondoso, com a destruição de todas as civilizações, com a mudança de lugar de todos os mares, em que ''todas as montanhas se tornarão planas''. Deus invadirá a terra dando fim ao governo de três anos e meio do anticristo. E dando fim ao mundo tal como o conhecemos.


terça-feira, 24 de setembro de 2024

O CRISTIANISMO ENTRE GUÉNON E SCHUON, ou: como a Igreja dividiu os Iniciados Tradicionalistas

 


Uma das divergências mais conhecidas entre René Guénon e o Fritjof Schuon se deu quanto à natureza do protestantismo, mas trazia elementos que abarcavam o Cristianismo como um todo e até mesmo a compreensão de cada um desses autores sobre o significado de esoterismo e Iniciação.


Segundo Guénon, o Cristianismo nasce como um esoterismo sem qualquer dimensão exotérica, uma via iniciática de realização espiritual sem o objetivo de gerar um arcabouço religioso voltado a irrigar as relações sociais e institucionais de dada sociedade ou civilização.


Todos os ritos cristãos [Batismo, Eucaristia etc.] e todas as doutrinas [Santíssima Trindade, Encarnação do Verbo etc.] seriam originalmente esotéricas, reservadas a Iniciados. Os 'sacramentos' [mistérios] veiculariam forças divinas capazes de elevar o homem a um novo estado de SER [os ''estados universais'' ou angélicos], suplantando os limites da individualidade. Enfim, seriam propriamente iniciáticos também.


Mas o mundo romano estaria decadente, corrompido e indo pro buraco. Notem que Guénon tinha uma visão negativa sobre a Antiguidade Clássica. Para ele, tanto a civilização grega quanto a romana eram emblemas da queda e da degeneração, uma visão que causaria calafrios em qualquer evoliano.

O francês aceitava o argumento iluminista de que o Renascimento, o Humanismo e a Modernidade eram reemergências das tendências dominantes da Antiguidade Clássica, e por isso os criticava igualmente . No pensamento de Guénon, a Idade Média era uma civilização superior a estes dois outros momentos, um oásis no deserto. Em uma abordagem guenoniana, é até possível identificar a era das trevas [Kali Yuga] com o surgimento da civilização greco-romana, cujas consequências mais deletérias foram mitigadas ou obstaculizadas pelo cristianismo.

Era necessária uma retificação daquele mundo mediterrâneo degradado representado então pelo Império Romano. A Providência Divina terira feito com que a Igreja desenvolvesse um exoterismo, assumindo a missão de colocar ordem naquele caos. A Idade Média cristã que sucedeu a civilização mediterrânea seria, para Guénon, fruto da ação de Deus para estancar os problemas que levavam todo o mundo romano ladeira abaixo. A Igreja era o Katechon, a barreira contra o Anticristo, contra o surgimento do Ocidente. Toda essa narrativa de Guénon trai uma dimensão bastante vinculada ao catolicismo-romano europeu de seu tempo, que enfrentava os desafios do avanço da Ordem liberal.

O exoterismo desenvolvido pela Igreja na forma dos dogmas, da massificação do cristianismo, e do Direito Canônico seria uma solução proporcionada pelo próprio Deus [este ponto é importante para o francês]. Pois os ritos e doutrinas também 'desceram' até o âmbito do exoterismo. Os 'sacramentos' se tornaram exotéricos, ritos de agregação religiosa importantes para a consolidação e sobrevivência da individualidade [salvação da alma], mas não mais para a realização espiritual [entrada em estados superiores do SER].

O discurso guenoniano abriu problema importante nas obras tradicionalistas: já que a Igreja teve de se tornar exotérica por 'decreto divino', onde foi parar o esoterismo cristão? Nos mosteiros? Em ordens de cavalaria? Em grupos hermético-cristãos?

Já o protestantismo, que nasceu e cresceu impulsionado pelas forças desagregadoras da Cristandade Latina [Idade Media europeia], não seria nem esotérico nem exotérico, mas uma forma religiosa não tradicional, ou seja, sem qualquer vínculo com elementos sagrados, com forças apurusheia [superiores ao homem]. Era só um agente do caos ligada ao desfazimento da ordem cristã medieva, que era divina segundo Guénon.

Bom, o movimento de Fritjof Schuon se desenvolveu de modo muito poderoso nos EUA, país que tem matriz protestante e evangélica, além de iluminista e maçônica. Parte considerável dos seguidores da tariqa Maryammya cresceu dentro de igrejas e seitas protestantes [uma verdade que se aplica à própria família de Schuon], e não gostaria de abandoná-las e se converter ao catolicismo romano, ao islamismo, hinduísmo etc.

A tariqa Maryammya se vendia como uma organização esotérica capaz de ''complementar'' o exoterismo de qualquer religião tradicional. Desse modo, Schuon não exigia conversão de seus seguidores caso eles já estivessem em uma via tradicional [a não ser em casos excepcionais], apenas submissão a ele, o guru, no âmbito ''esotérico''.

Ele se constituía, portanto, como uma autoridade ''supra-religiosa'' e universal, capaz inclusive de reler todas as demais doutrinas segundo seus ''ensinamentos esotéricos''. Mas se o membro não praticasse nenhuma via tradicional, então teria de se converter a uma para ser aceito na Maryammya. Eis aí o dilema porque passavam os cristãos em geral, que não sabiam se existia esoterismo na Igreja, e os protestantes/evangélicos em particular, sequer considerados uma forma tradicional.

A solução de Schuon foi 'revisar' a abordagem guenoniana -- pelo menos quanto a Lutero, e não tanto quanto ao calvinismo. O suíço desvinculou o que cada via espiritual era enquanto 'arquétipo' e os exoterismos a que poderia dar surgimento, alegando, de modo provocativo, que todo exoterismo era 'herético' [desviante] em determinado grau quando comparado ao esoterismo.

Essa perspectiva schuoniana era um ''escândalo'' do ponto de vista guenoniano, para o qual a ortodoxia era importante mesmo no âmbito exotérico. Na verdade, Schuon se aproximava muito da teoria dos três ramos do cristianismo: o luterano/protestante/evangélico, o católico-romano, e o católico-ortodoxo.

O suíço negava também a modernidade de Lutero. O 'Reformador' seria acima de tudo um homem medieval que desenvolveu um exoterismo cristão compatível com a alma mística germânica -- outro ponto muito importante para o perenialismo schuoniano, já que uma das justificativas para a necessidade da pluralidade exotérica estaria na diversidade de tipos e temperamentos entre as populações humanas.

A partir daí, o líder da Maryammya 'reinterpretou' os ensinamentos luteranos de modo 'esotérico' [ou segundo a doutrinas da Tariqa que liderava], visando demonstrar como eram válidos e legítimos segundo o 'arquétipo espiritual' cristão e uma forma adequada de misticismo germânico. Reinterpreta inclusive o conceito de sacramento, visto como símbolo operativo exterior que ativava um princípio interior, justificando a ênfase luterana na fé individual -- e também certas abordagens mágicas do ocultismo oitocentista.

Para complementar, Schuon se afasta da narrativa guenoniana de que os sacramentos teriam se exoterizado no fim da Antiguidade. Para ele, eles continuam mantendo sua eficácia iniciática, de modo que os protestantes poderiam continuar praticando sua religião sem necessidade de se converter ao Islamismo etc.

A pendenga sobre o Cristianismo levou à ruptura definitiva e explícita entre René Guénon e Fritjof Schuon. E demarca também a divergência de ambos quanto a aspectos fundamentais do Tradicionalismo. E acima de tudo aponta a imensa dificuldade de adequar o cristianismo ao discurso tradicionalista.


Ícone de Cristo com uma espada no Mosteiro da Ascensão, em Kosovo


A perspectiva guenoniana leva à ênfase cada vez mais estrita na ortodoxia religiosa, em consonância cada vez maior ao Islã sunita e ao sufismo -- não surpreende que no fim dos anos 1930 Guénon considerasse todo o cristianismo como um cadáver espiritual, repercutindo uma posição mainstream dos sunnis. De modo muito peculiar, Guénon nunca aderiu à ideia de que ''todas as religiões são iguais e levam a Deus''. Esta afirmação moderna seria incompreensível para ele. Quanto mais o tempo passou, mais ele pareceu identificar a religião verdadeira com o próprio Islã -- ainda que mantivesse posições que escandalizariam boa parte dos sunitas.

Já a perspectiva schuoniana leva à relativização gradual de todas religiões em um sentido bastante contemporâneo. Todas elas são consideradas ''heréticas'' diante da verdadeira ortodoxia: o esoterismo da Unidade Transcendental cujos ensinamentos eram proporcionados pelo próprio Schuon. Estão borradas de vez as próprias delimitações entre ortodoxia e heterodoxia religiosa. As religiosidades eram apenas meios que podiam ser manipulados e reelaborados e reinterpretados segundo a Verdade esotérica, desde que o ''iniciado'' tivesse alguma boa vontade.

E desse modo, a Igreja dividiu pela espada a unidade dos Tradicionalistas, que é mais aparente do que muitos imaginam.