terça-feira, 7 de março de 2023

FAROESTES INDISPENSÁVEIS, PARTE 5: THE GUNFIGHTER, ou: A marca de Caim

 




NÚMERO 6: The Gunfighter [''O Matador''], de 1950 -->


Os anos 1950 foram os de maior desenvolvimento do "faoreste psicológico'', subgênero que se tornou divisivo entre apreciadores dos bangue-bangues clássicos. Alguns argumentavam que essa linha partia de um preconceito contra o próprio "Western", tratando-o como cinema simplório marcado apenas por duelos, perseguições a cavalo e demonstrações tolas de virilidade.


Mas esse filme dirigida por Henry King e estrelado por Gregory Peck e Millard Mitchell revela o quanto a abordagem podem acrescentar ao gênero sem no entanto descaracterizá-lo.


The Gunfighter exemplifica a influência do cinema noir nestes bons tempos em que brilhavam no Faroeste diretores do porte de Anthony Mann.


O protagonista Jimmie Ringo, interpretado por Gregory Peck, é referência ao lendário pistoleiro John Ringo, que assombrou o Velho Oeste com sua rapidez no gatilho e frieza para matar. O Ringo do mundo real esteve presente no arquetípico tiroteio do Curral OK, contra os irmãos Earp e Doc Holliday. Apareceu morto com um tiro na cabeça nos anos 1880, e ainda hoje se especula se foi vítima da vingança que Wyatt realizou contra os caubóis que perpetraram atentados contra seus irmãos; ou se sucumbiu à própria tendência depressiva e meteu uma bala nos miolos.


Como em todo bom noir, o Jimmie vivido por Peck é assombrado pelo passado, e quer fugir de seus estigmas para finalmente cuidar da família. Ringo tem um filho de oito anos que não vê desde que era um bebê, e pretende reconquistar a confiança da mulher, que o abandonou, mudou de nome e se tornou professora da pequena cidade de Cayene.


Mas o enredo quase não dá margem para que ele nutra esperança em qualquer legado que não o da fama de pistoleiro mais malvado e veloz do Oeste Selvagem. Em toda cidade em que chega, Ringo atrai a atenção não só dos cidadãos locais -- em um misto de admiração e temor por aquela celebridade -- mas também de jovens aventureiros doidos por desafiarem o mito e o vencerem em um duelo que lhes proporcionaria status e glória.





Fugindo do Karma, Ringo só aumenta a sombra que o persegue, deixando uma fila de cadáveres por onde passa e se tornando objeto da vingança dos familiares dos jovens que o desafiam à procura de renome.


Em vez de um matador sedento por sangue, o pistoleiro de Peck é um homem que, ainda que mantenha a imensa periculosidade, perdeu o brilho nos olhos, decepcionado com o peso da própria biografia, observando com certa inveja a vida pacata de rancheiros locais, implorando por um renascimento, e mergulhado em ansiedade, tensão e solidão.

Obra magistral focada no contágio de uma maldição que engole quem a carrega e que desconstrói o mito do ''revólver mais rápido'' -- basilar no imaginário do Velho Oeste. The Gunfighter narra a transmissão pestilenta do pecado e da marca de Caim.

domingo, 12 de fevereiro de 2023

FAROESTES INDISPENSÁVEIS, PARTE 4: FORT APACHE




 NÚMERO 5: Fort Apache ["Sangue de Heróis''], de 1948 -->


Minha homenagem à famosa ''trilogia da cavalaria'', que inclui ''She wore a Yellow Ribbon'' [Legião Invencível], de 1949; e ''Rio Grande'' [Rio Bravo], de 1950, mas se sustenta sozinho: dirigido por Henry Ford e reunindo John Wayne, Henry Fonda e Shirley Temple, não podia ser nada menos que uma obra prima.


Dois elementos chamam atenção em Fort Apache: Primeiro, a obra rompe com o estereótipo comum no gênero até então, e que identificava os indígenas com o caos e a selvageria, ameaça sempre presente no caminho dos colonos e aventureiros que desbravavam e civilizavam o Oeste. Os Apaches de John Ford não são o real perigo nem os verdadeiros antagonistas. Esse título cabe, antes de tudo, ao comerciante da reserva indígena, que sintomaticamente é o representante do governo dos Estados Unidos e cuja autoridade é respeitada até pelos oficiais superiores do Exército. O comerciante/governo se aproveitava da boa fé dos nativos para cometer abusos econômicos e espalhar vício entre os mescaleros. Quando os líderes apaches em pé de guerra [Cochise e Geronimo são incluídos no roteiro] se encontram com o comandante Thursday [vivido por Henry Fonda] para explicar a situação, colocam a culpa no comerciante: ''O Grande Pai Branco nos prometeu proteção, mas ele nos trouxe uma morte lenta'', declaram; e resumem o papel do comerciante da reserva, explicando porque voltaram às armas: ''Ele é pior do que a guerra. Esta mata homens, mas ele mata as crianças, as mulheres e os velhos.''





A responsabilidade também recai na liderança militar ianque. O Tenente-Coronel Thursday, que acaba de se mudar para o longínquo Fort Apache na companhia da filha Filadélfia, entende sua escolha para Comandante da guarnição como uma perda de status. Era uma época em que oficiais superiores "cumulavam glórias" nas guerras indígenas, e Thursday se sentia chutado para escanteio, ''liderando homens contra mosquitos e sapos''. O Tenente-Coronel se lamenta durante a apresentação aos oficiais do Regimento: enquanto os Sioux eram guerreiros contumazes, sempre dando trabalho e oportunidade de brilho para os generais que os combatem, eles estavam perdidos em terra dos ''decadentes'' e ''covardes'' apaches. O contraponto a Thursday vem do Capitão York [interpretado por John Wayne], o Comandante anterior: Os apaches não seriam covardes, longe disso, e quando invadidos pelos Sioux em certa ocasião, os teriam colocado para correr. Este primeiro discurso em defesa dos indígenas seria repetido por Wayne ao longo do filme.


John Ford usa Thursday para desconstruir, à sua maneira, o mito do heroísmo da liderança militar da Cavalaria nas Guerras Indígenas. O oficial que buscava antes de tudo glória militar ressoa o General Custer; e assim como o personagem histórico, leva seus homens para o desastre de uma nova Batalha de Little Birghorn. O Comandante sanguinário ecoa racismo contra os "selvagens seminus", com os quais não via necessidade de manter acordos ou de respeitar a palavra dada, e também trai seus subordinados mais próximos. Sua arrogância leva à derrota trágica do Regimento frente aos mescaleros. Ford aproveita para expor a fabricação da narrativa que sustenta o mito das Guerras Indígenas. Anos depois, o falecido Thursday é mencionado e propagandeado nas escolas do Leste do país como um herói, excepcional soldado e exemplo, imagem construída em torno do General Custer por muitas décadas. Nenhum de seus oficiais nega a narrativa oficial, acreditando que ela era necessária para o Regimento e para a nação.




Mas Thursday tampouco é retratado de modo unidimensional. O racismo, a arrogância, a sede por glória e reconhecimento, não o impedem de atos nobres, inclusive em relação a desafetos. Com ordens de eficácia dúbia, ele intencionalmente salva a vida do Capitão York e escolhe morrer junto de seu alto comando. Ainda que desgostoso com o relacionamento entre sua filha Filadélfia [personagem de Shirley Temple] com o Tenente Michael O'Rourke [vivido por John Agar], dá ordens que protegem a vida do rapaz ao perceber o perigo em que metera seus homens. Suas motivações são complexas, a hybris não lhe tira a honra.


O segundo elemento fundamental da obra é a maneira como John Ford retrata o cotidiano do Regimento. O passatempo das mulheres que vivem ao lado dos maridos e pais militares, o treinamento de recrutas, a diversão dos soldados, os costumes de dança, a corte de um jovem a uma senhorita atraente, serenatas. A vitalidade do Forte se apresenta diante de nossos olhos, com personagens secundários bem desenvolvidos e trabalhados, e sem que se esqueça de citar também, ainda que por alto, determinados costumes indígenas. Por fim, uma exaltação dos valores do soldado comum, cujo nome não é citado nos livros de História, mas que, segundo o Capitão York, é a a verdadeira alma que garante continuidade às Forças Armadas. ''Eles vão lutar por 30 moedas por mês e um pouco de uísque, mas dividirão a última gota da garrafa'', nas palavras de Wayne.




Um filme que critica as motivações do alto oficialato militar sem no entanto deixar de louvar a voz do homem comum que veste a farda; que projeta honra, coragem, capacidade estratégica e resistência legítima nos líderes indígenas, inconformados com as promessas não cumpridas do ''homem branco''; que espelha o comportamento, ainda que idealizado, de diversas categorias sociais dos Estados Unidos do século XIX; e aponta para o contraponto necessário entre o mito e a história na ação e na memória ''coletiva''.

sábado, 11 de fevereiro de 2023

OS DELÍRIOS DA TORCIDA ARCO-ÍRIS, PARTE 1: A TORCIDA DO FLAMENGO FOI CRIADA PELA REDE GLOBO NOS ANOS 1970?

“Poucas instituições serão tão abrangentes, nacionalmente, quanto o Flamengo — a Igreja Católica, sem dúvida, é uma delas, e, talvez o jogo do bicho. E olha que o Flamengo não promete a vida eterna e nem o enriquecimento fácil. Ao contrário, às vezes mata de enfarte e, quase sempre, só dá despesa. Mas uma coisa ele tem em comum com a religião e o bicho: a Fé! Por onde vai, o Rubro‐Negro arrasta multidões fanatizadas”.

Nelson Rodrigues




Aldeia Kariri-Xocó, interior de Alagoas, se prepara para acompanhar mais um jogo do clube de coração: "Quando o Mais Querido joga, nos reunimos e vamos assistir na casa de nossos familiares, quando vencemos comemoramos até altas horas da noite cantanto Toré, e quando prde vamos cada um para sua casa tristes, porém sem deixar a confiança abalada", diziam em 2009.


Torcida arco-íris é como os rubro-negros, principalmente os da antiga, chamam a "torcida anti-Flamengo". Dizem que é a segunda maior do Brasil, o que é discutível. Mas certamente é uma das mais criativas, capaz de elaborar uma profusão de lendas urbanas, fábulas, teorias da conspiração etc. com o intuito de explicar o sucesso perene d'O Mais Querido, que lhes dói amargamente n'alma.

Falarei sobre alguns dos delírios mais recorrentes para servir de referência para os historiadores do esporte, cada vez mais interessados em fenômenos de histeria em massa, como é o caso das ideias birutas da torcida arco-íris, ou então para aqueles que gostem de se divertir lendo sobre crenças absurdas e devaneios alucinados.



INSANIDADE 1: O Flamengo tinha uma torcida pequena antes de um suposto plano maligno elaborado pela Rede Globo nos anos 1970.


Já testemunhei gente educada, culta e informada vociferar essa teoria maluca diante de estupefato público, como quem revelava mistérios ancestrais e professasse verdades arqui-evidentes.

No campo estrito da razão e da análise dos fatos, a narrativa não tem o mínimo sentido. A televisão no Brasil tem uma história. E em 1970, só 20% dos lares tinham um aparelho de TV [metade deles nas cidades de Rio e de São Paulo]. A televisão só se torna efetivamente presente na maior parte dos domicílios pobres ao longo dos anos 1980. Mais ainda: o televisionamento de campeonatos não era comum até o fim da década de 1980. Antes disso, só partidas esporádicas e avulsas eram transmitidas. O marco da entrada da TV na difusão dos campeonatos é a Copa União em 1987. Acompanhar campeonatos sistematicamente pela televisão só se tornou prática comum nos anos 1990. Até então, o rádio era predominante, principalmente nas classes mais baixas.

[Na verdade, a predominância das transmissões de TV, a maior parte delas monopolizada pela TV Globo, tem a ver com nacionalização das torcidas paulistas, um fenômeno pós-1980. Mas este é outro papo.]


O Flamengo assumiu e revalorizou diversos estereótipos preconceituosos com que os adversários se referiam à popularidade do clube entre as classes "subalternas" e "perigosas": Time do Urubu e da Festa na Favela.


Ora, a torcida do Flamengo já era dominante nos estádios muito antes disso. O rubro-negro carioca nunca foi brilhante no Robertão, que entre 1967 e 1970 foi o embrião ou preparatório para a criação do Campeonato Brasileiro de Clubes. Era período de penúria financeira e técnica d'O Mais Querido. Ainda assim, o flamengo foi o clube que teve a melhor média de público nas quatro edições do torneio. Não é preciso recordar que a TV Globo só foi fundada em 1965, e estava longe de ser a Vênus Prateada líder de audência que se surgiria em meados da década seguinte. E que quase ninguém tinha aparelho de TV na época. E que os campeonatos tampouco eram televisionados.

As médias de público do Flamengo eram constantemente as maiores do Maracanã desde a fundação do estádio. As massas mobilizadas pelo Rolo Compressor dos anos 1950 deram à "Magnética" o status de "dona do Maracanã", algo reconhecido até por adversários: Nílton Santos explicou diversas vezes que levou Garrincha para o Botafogo porque não queria nem imaginar o que ele faria caso jogasse com "o apoio da massa rubro-negra". Isto em 1953.

Dos dez maiores públicos em confrontos de clubes na História do Maracanã [ou seja, deixando de lado as partidas que envolviam a seleção brasileira], o Flamengo esteve envolvido em nada menos que nove deles. Quatro antes de 1970.

As pesquisas de opinião não eram tão confiáveis no passado quanto depois da redemocratização. Tampouco eram nacionalizadas. Ainda assim servem de parâmetro para cidades específicas. Ora, a primeira grande pesquisa de torcidas no Rio de Janeiro, a do Instituto Gallup em 1948, mostrava o Flamengo como time de preferência de 42,5% dos cariocas, muito à frente da segunda colocada [a do Fluminense, com 23,5% das respostas]. O Rio de Janeiro era a maior cidade do país então.


Revista Placar de dezembro de 1971 comenta a pesquisa de opinião Gallup, mostrando espanto com o crescimento da torcida do Flamengo mesmo em época de vacas muito magras: um fenômeno cultural e nacional que se explica em âmbito próprio.


A percepção do gigantismo da torcida do Flamengo era algo dado para todos que acompanhassem não só os estádios nos anos 1930 e 1940, como também as festas populares nas ruas quando dos títulos do clube, e também na atração gerada nas excursões da equipe pelo Brasil. Daí que escritores e jornalistas como José Lins do Rêgo e Nelson Rodrigues tratassem o Flamengo como o time da massa já nessa época.

Por fim, o epíteto de "Mais Querido do Brasil" é ainda anterior e remonta a uma das maiores conquistas da história do clube, a Taça Salutaris, primeira e única. Ela foi entregue ao Flamengo depois do concurso realizado pelo Jornal do Brasil em todo o país para descobrir qual a equipe com maior simpatia nacional. Os votos, enviados a partir de cupons disponibilizados em edições do jornal, vinham principalmente da Capital Federal, mas também dos estados vizinhos de São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo. Dos poucos mais de 736 mil votos recebidos pelo JB, 254.851 escolheram o rubro-negro carioca.

Não é possível desprezar a representatividade do concurso, que teve grande impacto. O país tinha menos de 40 milhões de habitantes, apenas um quarto deles vivendo na área urbana. O número de votos enviado para o JB é bastante relevante, e indicava de fato a imensa popularidade do Flamengo já à época.


Taça Salutaris, conferida pelo Jornal do Brasil em 1927 ao clube Mais Querido do Brasil


Sempre se procurou resposta para o tamanho e a difusão da torcida rubro-negra pelo país. O peso de ser um clube do Rio de Janeiro, capital do Império e depois primeira capital da República, além de primeira metrópole do Brasil e centro difusor de certa ideia de nacionalidade, está sem dúvida por trás da massificação do Flamengo. Mas não explica porque este clube e não, digamos, o Botafogo ou o Fluminense.

Alguns remontam a simpatia do Flamengo aos treinos que fazia na Praia do Russell. Outros, ao espírito festeiro e inclusivo da República de atletas na sede do clube, menos elitista que seus principais rivais. As cores vermelha e preta também entram no pacote de explicações, por serem ligadas a movimentos anarco-sindicalistas que, nas principais metrópoles brasileiras, foram uma das fontes de elaboração do imaginário do trabalhismo. Ou por serem as cores de Exu e suas energias, bastante poderosas na mentalidade do povo carioca.

O que se sabe ao certo é que muitos rubro-negros famosos e a própria diretoria do clube buscaram associar a identidade do Flamengo a uma identidade nacional possível: um Brasil mestiço, que integrava ricos e pobres, que era alegre e confiante. O principal nome deste projeto é o Presidente José Bastos Padilha, talvez o mais importante do clube, e que dá nome ao Estádio da Gávea, quando a sede no bairro foi erguida por ele nos anos 1930.

Esta identidade rubro-negra é reconhecida e, ainda que implicitamente, reforçada e reproduzida pelos próprios preconceitos sociais que os rivais levantam em relação ao rubro-negro: é o clube dos "marginais", que com camisa do Flamengo assaltariam nas ruas; é o "time do urubu", isto é, dos pretos; é o preferido dos pobres; clube dos "espertos e malandros"; time "da favela". Os rubro-negro são "arrogantes", fazem a festa antes mesmo do título garantido.

Todos estes estereótipos, criados ao longo de diversas décadas, repercutem o caráter eminentemente popular do Flamengo, que independe dos momentos de maior ou menor poderio da equipe. Projetos midiáticos de crescimento da própria torcida foram elaborados por São Paulo e Corinthians nas duas décadas passadas, em época em que o rubro-negro carioca estava mergulhado em dívidas e mal conseguia se segurar na primeira divisão do Campeonato Brasileiro. Mas todas as pesquisas realizadas apontavam a contínua tendência de crescimento nacional da torcida do Flamengo, principalmente entre os mais jovens, o que levou Márcio Braga, um dos mais famosos ex-Presidentes d'O Mais Querido, à declaração lapidar em entrevista no início da década passada: "É um fenômeno cultural".

E organicamente nacional, para desespero da Arco-Íris.


Mosaico da torcida rubro-negra dá a chave para a compreensão do gigantismo da torcida do Flamengo: Somos uma Nação


Sejam quais forem as raízes da força do Flamengo no imaginário do brasileiro comum do Oiapoque ao Chuí, nada tem a ver com Roberto Marinho, a TV Globo ou conspirações tenebrosas elaboradas por engravatados em salões perfumados do Jardim Botânico.

A resposta talvez venha das arquibancadas pelo grito da própria Magnética: Somos uma Nação!

domingo, 5 de fevereiro de 2023

FAROESTES INDISPENSÁVEIS, PARTE 3



NÚMERO 4: Red River [''Rio Vermelho''], de 1948 --> O espaço mítico do Velho Oeste permite que se conte suas histórias a partir de múltiplas vozes e perspectivas. O ''barão do gado'' é uma dessas figuras mais das vezes malévola que faz papel de sombra ameaçadora a engolir comunidades inteiras, aterrorizando pequenos posseiros e contratando gangues de caubóis e ladrões. Mas nessa obra monumental do lendário cineasta Howard Hawks, ele se torna o pivô de uma jornada heroica, a abertura da trilha de Chrisholm, essencial para que rebanhos vindos do Texas alcançassem as ferrovias do Kansas, de onde partiam para alimentar os vitoriosos da Guerra Civil na Costa Leste.


''Red River'' une qualidades difíceis de serem sintetizadas: o épico trata da vida dura de caubóis em meio a uma viagem angustiante repleta de perigos de morte, um retrato da unificação do mercado americano em torno do Leste industrializado após o fim da Guerra Civil, uma aula de sociologia sobre as hierarquias no interior da vida rural americana, e ao mesmo tempo uma tragédia clássica que consegue extrair o melhor de atores até então subestimados -- ou porque não haviam ainda conquistado as telas [Montgomery Clift] ou porque seu talento não havia sido devidamente explorado [John Wayne].

Thomas Dunson é um homem duro e de fortes convicções, que não volta atrás depois de tomar uma decisão. Sua obsessão por se transformar num grande proprietário o leva a abandonar sua caravana, deixando para trás a mulher amada. Já nas primeiras cenas se estabelecem traços definitivos da personalidade do anti-herói vivido por Wayne. A promessa de retornar para buscar a amada se revela um terrível erro, que não escuta os conselhos do fiel amigo ''Groot'' Nadine, que por sua vez se cala diante da teimosias irredutível de Dunson.
Thomas consolida seu domínio sobre grande porção de terra no Texas ao roubá-la de 'Don Diego' pela força das armas. A violência do anti-herói faz referência aos conflitos de fronteira e os tratados que garantiram aos americanos o controle da região. O grupo se completa com a chegada de um menino sobrevivente de um ataque indígena à caravana: Matt Garth, vivido na fase adulta por Montgomery Clift, e é criado como filho pelo grande proprietário.

Com as premissas estabelecidas, o filme dá um salto temporal de catorze anos, para o fim da Guerra Civil. Dunsan, Groot e Matt comandam vastos pastos, um bom número de caubóis e dez mil cabeças de gado. Mas o mercado do sul não consegue absorver a produção do rancho ''River D''. A solução é abrir uma perigosa e incerta rota para as ferrovias do Missouri para escoar o rebanho para as ricas cidades do Leste. A viagem promete meses de perigos, que vão desde a possibilidade de estouros da boiada, o enfrentamento de condições climáticas extremas e ataques em sua passagem pelo território indígena [Oklahoma].

A pior ameaça, no entanto, é o temperamento do próprio Dunson, que mergulha na tirania e na paranoia. A transformação do líder em tirano é tratada de maneira soberba: Wayne começa o filme com um chapéu branco, e agora tem um negro; seus cabelos se tornam grisalhos; um tiro na perna torna sua caminhada torta; vive agora abraçado a uma garrafa de uísque.

As dificuldades da jornada criam as condições para motins, resolvidos pela força e pela aplicação de uma rotina de exaustão que impeça qualquer fuga dos empregados. O medo reina no grupo e o conflito recrudesce quando se descobre uma rota mais fácil para a maravilha tecnológica da ferrovia e que evitaria o caminho mais longo para o norte. Mas Dunson não muda suas decisões. Sua teimosia o mergulha em um estado de semi-loucura provocada pelo excesso de álcool e ausência de sono. A rebelião completa é evitada por um desafio menor mas ainda assim muito mais doloroso, com o enfrentamento entre Matt e seu pai, uma relação amorosa que se desenvolve na grande linha trágica do filme: o homem que pretende alcançar a imortalidade através do filho, o filho que se sente compelido a se provar para o pai, a confiança que se esvai por meio de uma traição motivada pela intenção de proteger a vida de todos, incluindo aí propriedade do ''barão do gado'', ameaçada pela hybris.

A grandiosidade da narrativa tem seu ponto fraco na inclusão de uma personagem feminina, nova versão do tipo clássico da ''prostituta de bom coração'': Tess Millay, cuja chegada confere tons mais psicanalíticos à trama. É ela também que está no meio da resolução do conflito entre pai e filho, em desfecho criticado por muitos como um anti-clímax.

Planos gerais exuberantes, um realismo excruciante na condução do gado pela trilha, os aspectos históricos, um roteiro magistral e atuações grandiosas tornam ''Red River'' um dos maiores clássicos do Faroeste e uma obra magna da carreira de Hawks, que ainda teria fôlego para se superar dez anos depois [mas essa é outra história]. John Wayne, por sua vez, mostra capacidade insuspeita de sair da zona de conforto, se preparando para a consagração como ator nas décadas seguintes.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

FAROESTES INDISPENSÁVEIS, PARTE 2

NÚMERO 3: My Darling Clementine [''Paixão dos Fortes''], de 1946




Wyatt Earp é um símbolo do Velho Oeste. Um sujeito de carne e osso, que atravessou todo aquele período histórico e fez de quase tudo. Caçou búfalos, foi operário de ferrovias, buscou prata em minas, gerenciou cassinos, conduziu gado por trilhas no deserto, se tornou justiceiro. Mas sua fama se consolidou por seu trabalho como xerife de cidades conflagradas, mergulhadas no caos e no conflito.

Wyatt sobreviveu ao Velho Oeste, adentrou o século XX e testemunhou o fim do estilo de vida aventureiro e desordenado que formataria para sempre o imaginário americano. Depois da Primeira Guerra Mundial já era uma lenda viva, um fóssil, e também uma fonte para os primeiros "bangue-bangues" -- força do cinema americano já na década de 1910, em pleno apogeu do cinema mudo, em um tempo em que Hollywood ainda não existia.

Uma biografia muito famosa de Earp foi lançada e se tornou um clássico instantâneo: ''Frontier Marshall'' [''Xerife da Fronteira'']. Imediatamente ela se tornou inspiração para produções dos grandes estúdios, mesmo depois que se descobriu que ela pecava por seu pequeno apego à verdade histórica. A lenda de Earp era mais forte do que os fatos, e foi elaborada, modificada, expandida em diversas versões.

Rapidamente episódios da vida de Earp se tornaram pedras basilares do mito do Oeste, como o famoso tiroteio do Curral OK, em Tombstone, em que Wyatt e dois de seus irmãos, ajudados pelo amigo Doc Holliday [outra figura indispensável na história do século XIX americano], derrotam representantes de uma gangue de ladrões de gado que se recusavam a obedecer a ordem do Xerife Virgil, que tinha proibido o porte de armas na cidade.

Elevado a símbolo da lei e da ordem, de um bravo que impôs com métodos violentos a civilização em meio a caubóis bêbedos e de armas em punho, Earp também soube deixar o distintivo de lado quando lhe apeteceu. Trabalhando muitas vezes nos meandros entre o legal e o ilegal, abraçou de vez a vida de ''fora da lei'' quando os tribunais não deram conta dos atentados que seus irmãos sofriam na mão de desafetos, incomodados com seu sucesso em pacificar cidades. O heroi reuniu um grupo, sempre apoiado pelo perigoso e carismático Doc Holliday, e saiu à caça dos inimigos, circunstância que definitivamente gravou seu nome na história da conquista do Oeste.

De todos os sucessos cinematográficos inspirados pela vida de Earp -- tais como ''Dodge City'', ''Frontier Marshall'', ''Doc'', ''Winchester 73'', ''Gunfight at the Ok Corral'', ''Hour of the Gun'', e os mais recentes ''Tombstone'' e ''Wyatt Earp'' --, ''My Darling Clementine'' [1946] é certamente o mais importante de todos, e também uma das melhores obras do mestre John Ford.

Romantizando a biografia já ultra-idealizada de Earp, Ford compôs uma poesia em forma de cinema. Não deu o papel principal para John Wayne, preferindo a figura menos dura e menos ameaçadora de Henry Fonda. Seu Wyatt é sujeito civilizado, repleto de discernimento, bem apessoado e de boa higiene, que é capaz de desarmar quase todos com sua liderança misturada a bons modos.

O lado mais sujo do heroi do ''western'' fica por conta do Doc Halliday [a mudança de nome foi para evitar conflitos com a família de Holliday] de Victor Mature, um cirurgião que deixou a sociedade da Costa Leste para se tornar o homem mais respeitado de Tombstone, levando a vida entre tiroteios, bebedeiras em tabernas, jogos de azar, os amores da dançarina Chihuahua e crises de uma tuberculose já em estágio avançado. Halliday poderia parecer um perigo para a tentativa de Earp de colocar ordem na cidade conflagrada, mas os dois estabelecem uma genuína amizade desde o primeiro encontro.

O título do filme faz menção a uma personagem fictícia e à famosa música folclórica. Clementine é uma enfermeira apaixonada por Doc, e que procura por ele na tumba do Oeste em decomposição. Apesar de todo o amor, os dois não ficarão juntos. O cirurgião sabe que há uma sentença de morte pairando sobre ele, similar ao destino traçado para o próprio Velho Oeste. A tensão que se estabelece entre a moça civilizada das metrópoles e Earp dá o tom do filme, uma paixão platônica que jamais se concretiza pela lealdade implicada na amizade entre o pistoleiro tuberculoso e o xerife.

A dinâmica da narrativa não esconde o fio de Ariadne do gênero, a busca por vingança. Wyatt aceitou ser xerife de Tombstone depois que seu irmão mais novo foi assassinado por ladrões de gado. A possibilidade de revanche dos Earp dá um sentido diferente a todos os atos que realiza em defesa da lei.

Mas o que chama atenção nessa peça única de Ford é o seu retrato singular do Faroeste. Os EUA saíam da II Guerra Mundial e rumavam para seu destino urbano, cosmopolita e tecnológico. Em contraste, John Ford oferece para sua Tombstone um panorama rústico, simples, vagaroso. O cotidiano rural está em todo lugar: conversas na taberna, preparativos para a quermesse, pregações da Igreja, danças, jogos de pôquer. O diretor presta homenagem àquele ritmo peculiar, àquela temporalidade distinta que marca a vida campestre do Velho Oeste, mais do que a uma loucura veloz de perseguições, duelos e balas zunindo que caracterizavam esse mundo imaginário.

Mais do que ação desenfreada, Ford dá a seu público um poema, uma ilustração da canção homônima do filme, como se um pequeno criador de gado tocasse sua viola do fundo de um Saloon e colocasse em palavras ritmadas e caipiras as cenas predominantes do mito. Ou como a tomada de Wyatt Earp [Henry Fonda] sentado em frente ao hotel da cidade, apoiando seu pé numa pilastra e balançando sua cadeira enquanto observa sem pressa o caminhar do pequeno povoado que se desdobra diante de seus olhos.
Todas as

sábado, 21 de janeiro de 2023

FAROESTES INDISPENSÁVEIS, PARTE 1

 

Temos muito o que aprender com um país que está se esvaindo, os EUA “profundo”, das pequena e médias cidades, do comunitarismo e perspectiva cristã entranhada, dos pequenos negócios de família, pequenos proprietários rurais. Não significa adesão ideológica, nem muito menos geopolítica, mas valorização de um certo tradicionalismo orgânico, popular e legitimamente americano.

 

O ‘Faroeste’, por exemplo, é um dos marcos da narrativa mitológica do mundo contemporâneo, com seus heróis e monstros, abismos e transcendências. Por entretenimento, vou citar nos próximos posts alguns dos filmes indispensáveis do gênero.

 

 

FAROESTES INDISPENSÁVEIS [ordem cronológica]:

 

NÚMERO 1: Stagecoach [''No Tempo das Diligências], de 1939 --> O fim dos anos 1930 ressuscitou de vez o 'western', que havia perdido espaço com a chegada do cinema falado. 1939 foi o ano da virada, com o lançamento de alguns sucessos e clássicos inesquecíveis. A partir de então, o gênero dominou a indústria cinematográfica estadunidense por três décadas.



 

Stagecoach, que uniu o diretor John Ford e seu amigo John Wayne, não foi o 'western' de maior sucesso do ano, mas estabeleceu todos os parâmetros que marcariam definitivamente a fase clássica do gênero, desde as tomadas, o roteiro e os tipos que se tornaram presentes em boa parte dos ''bangue-bangue''.

 

Uma diligência parte do Arizona rumo ao Novo México levando Dallas, uma prostituta expulsa da cidade por uma liga de mulheres moralistas; um oficial de Justiça que exerce custódia sobre Ringo Kid, um jovem caubói que busca vingança contra os assassinos de seu pai e irmão; um médico bebum; um vendedor de uísque; um banqueiro; uma mulher grávida que pretende se encontrar com o marido, oficial da cavalaria; um jogador e apostador de má fama. A diligência enfrenta o perigo de passar por território saqueado pelos Apaches de Gerônimo.

 

Tom militar no primeiro ato e psicológico no restante, perseguições, humor, a paixão entre o heroi e a prostituta de bom coração, o papel do assalto indígena e da cavalaria, filme que modelou a história do cinema.

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NÚMERO 2: The Ox-Bow Incident [''Consciências Mortas''], de 1943 --> Um tanto à frente do seu tempo, já prenunciando o ''faoreste psicológico'' e mais reflexivo em uma época em que vigorava o modelo clássico. Dirigido por William Wellman.



 

Dois caubóis visitam uma cidade que era vítima constante de roubo de gado. Enquanto bebem na taberna local, chega a notícia de que um cidadão foi assassinado em assalto. Logo se monta uma turba que, aproveitando da ausência do xerife, monta expedição para perseguir e linchar os culpados.

 

Vozes contrárias se fazem ouvir e pedem discernimento e paciência e advogam que tudo deve ser feito com legalidade a fim de que novos abusos sejam evitados. O clamor por sensatez, justiça e legalidade é sempre calado pela maioria, que deseja a ''justiça da fronteira'', feita pelas próprias mãos.

 

A turba, liderada por ex-oficial do Exército Confederado que pretende dar uma lição no filho cobardola levando-o a participar de um linchamento, promove caçada e prende três transeuntes que acampavam ali perto. Se inicia um arremedo de julgamento, com os prisioneiros sustentando a própria inocência e um conflito de consciência sobre a legitimidade do que acontecia. Os cidadãos decidem se podem ou não enforcar os sujeitos sem a presença de autoridade constituída ou de um julgamento formal, numa disputa de visões de sociedade.

 

O filme tem interpretações brilhantes de Henry Fonda, Dana Andrews e Anthony Quinn e se tornou um clássico cujo argumento foi repetido exaustivamente a partir de então, em filmes dos mais variados gêneros e também em séries e shows de TV.

 

 

CONTINUA


sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

OS 10 MAIORES TIMES JÁ MONTADOS NO BRASIL

 Um conhecido pediu minha opinião sobre os 10 maiores times de futebol já montados no Brasil. Ia fazer uma lista quando lembrei que já tinha uma publicada há pouco mais de 5 anos. Vou aproveitar aquela, fazendo as alterações que hoje penso serem necessárias.


Escolhi as equipes abaixo levando em consideração diversos critérios: o valor técnico dos seus atletas, o jogo coletivo que foram capazes de mostrar, o impacto tático, a marca que deixaram em sua geração, os títulos etc. Mas a prioridade foi dada ao aspecto técnico.



1 - SANTOS 1961/1964





O maior time da maior era do futebol brasileiro, que por ''coincidência'' foi a maior era do futebol mundial. Time do Rei, primeiro e único, inigualável, inimitável, rodeado por multidão estelar de vassalos. Time base: Gilmar; Lima, Mauro, Calvet e Dalmo; Zito e Mengálvio; Dorval, Coutinho, Pelé e Pepe.






2 - BOTAFOGO 1961/1964




O maior jogador da Copa de 1958, o meia armador Didi, unido com Garrincha, o "Anjo das Pernas Tortas", maior jogador da Copa de 1962, e circundado por Nílton Santos, a "Enciclopédia do Futebol", Zagallo, Amarildo, Quarentinha, o lendário goleiro Manga....Bom, vejam a escalação base do bicampeão carioca de 1962/63 e campeão do torneios Rio-SP de 1962 e 1964: Manga, Paulistinha/Adalberto, Jadir/Tomé, Nílton Santos e Rildo; Aírton e Didi; Garrincha, Amarildo/Édison, Quarentinha e Zagallo.





3 - FLAMENGO 1978/1983





Mítico time capitaneado por Zico, eleito entre os dez maiores do século XX em eleição na FIFA, pioneiro do 4--5-1, que venceu desde o incrível Pentacampeonato da Taça Guanabara, passando pelo tricampeonato carioca, três Brasileiros em quatro anos, e Libertadores e Mundial Interclubes. Essa equipe chegou a ficar 52 partidas invictas em 1979, até hoje um recorde no nosso futebol. Time base: Raul; Leandro, Marinho, Mozer e Júnior; Andrade/Vítor, Adílio/Carpegiani e Zico; Tita, Nunes/Cláudio Adão e Lico/Júlio César.




4 - PALMEIRAS 1969/1973




Não ganhou o título de ''Academia'' à toa. Liderado por Ademir da Guia, o Palmeiras montou uma equipe diferenciada em termos técnicos e ao mesmo tempo eficiente, capaz de acumular títulos nacionais no período e roubar o protagonismo do Santos de Pelé em São Paulo. Time Base: Leão; Eurico, Luís Pereira, Alfredo Mostarda e Zeca; Dudu e Ademir da Guia; Edu Bala/Fedato, Leivinha, César Maluco e Nei.




5 - BOTAFOGO 1967/1969





Equipe que sucedeu o timaço de Garrincha, Nílton Santos e Didi, mantendo o domínio do futebol carioca e o prestígio nacional e internacional, talvez fosse uma equipe tão espetacular quanto a primeira, capaz de verdadeiros shows de bola. Bicampeão da Taça Guanabara em 1967/68, Bicampeão Carioca 1967/1968, Campeão da Taça Brasil de 1968, formava mais das vezes com Cao/Ubirajara; Moreira, Zé Carlos, Leônidas e Waltencir; Carlos Roberto e Gérson; Rogério, Roberto, Jairzinho e Paulo Cézar "Caju".




6 - CRUZEIRO 1965/1970




Houve um tempo em que a seleção brasileira era mero combinado Rio-São Paulo. Em 1962, por exemplo, um dos critérios da convocação foi que a equipe nacional tivesse o mesmo número de jogadores que atuavam no ''Eixo". O Santos quebrou a hegemonia do trio de ferro de Sampa, mas foi o Cruzeiro deste período que efetivamente "nacionalizou" a seleção brasileira e preparou a expansão do Torneio Rio-SP, que levaria ao Robertão e ao protótipo de um real campeonato nacional de clubes. Pentacampeão Mineiro 1965/66/67/68/69 e Campeão da Taça Brasil de 1966 atropelando o então Penta, nada menos que o Santos de Pelé. Time Base: Raul; Pedro Paulo, Fontana/William, Procópio e Neto; Wilson Piazza/Zé Carlos, Dirceu Lopes e Tostão; Natal, Evaldo e Hilton.




7 - VASCO DA GAMA 1945/1950




Equipe que representou a ascensão do futebol brasileiro no cenário continental e, por meio da seleção de 1950, da qual foi base, no cenário mundial. O Vasco pôs fim à hegemonia do Flamengo de Zizinho no Rio, levantou o Carioca de 1945, 1947, 1949/50, se sagrou o primeiro Campeão do Maracanã, e se tornou Campeão da América em 1948. Barbosa; Augusto/Wilson e Rafagnelli; "Príncipe" Danilo, Jorge e Ely; Lelé/Ismael, Friaça/Heleno de Freitas, Ademir Menezes/Jair da Rosa Pinto, Djalma e Maneca/Chico.




8 - INTERNACIONAL 1975/1980





Uma das mais poderosas e revolucionárias equipes da história do nosso futebol, mas que costuma ser relativizada por ter sido montada fora do Eixo Rio São Paulo. Depois de cansar de vencer o campeonato gaúcho [octacampeão entre 1969 e 1976], hegemonizou o Campeonato Brasileiro, eclipsando o Fluminense de Rivelino e tomando o lugar do Flamengo de Zico em 1979. Até hoje, é o único time a conquistar o Campeonato Brasileiro de maneira invicta. Foi vice campeão da Libertadores em 1980. Sua principal glória são os títulos brasileiros de 1975/76 e 1979 [invicto]. Manga/Benítez; Cláudio, Figueroa, Marinho Perez/Mauro Galvão e Vacaria; Batista/Carpegiani, Caçapava e Falcão; Valdomiro/Jair, Bira/Lula e Mário Sérgio/Escurinho.




9 - ATLÉTICO MINEIRO 1978/1982




Colocou fim à hegemonia do Cruzeiro em Minas e revelou um dos maiores times da história da América do Sul, que só não foi mais vitorioso porque seu maior jogador, o grande Reinaldo, enfrentou contusões sistemáticas, e pelo obstáculo do Flamengo de Zico. Hexacampeão Mineiro 1978/79/80/81/82/83. Time Base: João Leite; Nelinho/Orlando, Osmar, Luisinho e Jorge Valença; Geraldo/Chicão, Toninho Cerezo e Paulo Isidoro; Pedrinho, Reinaldo e Éder/Dario.




10 - PALMEIRAS 1993/1994




A Parmalat contratou Vanderlei Luxemburgo e ajudou o Palmeiras a montar um time histórico que colocou fim ao sofrimento de uma geração que tinha crescido apenas ouvindo as histórias da Academia no início dos anos 1970. Bicampeão paulista em 1993 e 1994, Bicampeão brasileiro 1993 e 1994, esta equipe costuma ser relativizada por causa do grande impacto dos troféus e do jogo do São Paulo de Telê, mas era tecnicamente impressionante e dominante no futebol brasileiro do período. Velloso; Mazinho, Antônio Carlos, Tonhão/Cléber e Roberto Carlos; Daniel/Flávio Conceição, César Sampaio, Edílson e Zinho; Edmundo e Evair.