sábado, 26 de março de 2022

A DUALIDADE NORTE/SUL NA GEOPOLÍTICA DE DUGIN

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'O Norte era e permanece, por sua própria natureza, o lugar escolhido do poder. Assim, as iniciativas geopolíticas verdadeiramente efetivas vem do Norte. O "Sul pobre'' tem hoje uma vantagem espiritual sobre o "Norte rico", mas não pode servir como uma alternativa séria à agressão profana do "Norte rico", nem pode oferecer um projeto geopolítico radical capaz de subverter a visão patológica do mundo moderno.''

Alexander Dugin



Uma das tentativas mais fundamentais de ver a Geopolítica pela ótica da Geografia Sagrada é a de Dugin. Leiam, por exemplo, o texto "From Sacred Geography to Geopolitics", em que o pensador russo diz que "dentre todas as ciências, é a geopolítica aquela que preservou a maior conexão com a Tradição e as ciências tradicionais."


Correto ou não sobre este ponto, é óbvio que Dugin mobilizou a Geopolítica clássica como forma de traduzir para a elite política russa [e mais recentemente para a Ocidental] aspectos fundamentais de sua perspectiva tradicional.

Notem que falo de ''sua perspectiva tradicional'', pois não se pode confundir a voz de Dugin com a da Tradição, como se ele fosse um Profeta. O russo tem sua própria abordagem dos principais elementos e temas da Tradição, e se vê em continuidade [crítica, pois ele não é só um repetidor de ideias] da escola tradicionalista de Guénon e Evola.

E para esta, que é a verdadeira fonte e raiz da tradução proporcionada por Dugin, nenhum dualismo é contraposição pura e simples, sempre há espaço de complementaridade que aponta para o âmbito superior que as unifica e que é a origem metafísica de ambas as posições. Nunca se pode falar de um ''ou/ou'', sem vislumbrar um "E" mais acima, que pode inclusive ser alcançado por um método que enfatize o "nem isso nem aquilo''. [como fazia Guénon ao mobilizar o Advaita para falar de Tradição.]

Nada disso implica que em uma dimensão própria estas dicotomias deixem de ser funcionais e importantes, inclusive na adoção de vias e posições específicas nas situações da vida social, política e pessoal. Há todo sentido do mundo em escolher entre terra e mar [ou entre terra que se torne anfíbia, e mar que se torne anfíbio, o que não passa também de outra analogia].

Mas há todo sentido do mundo também em escolher entre o Norte e o Sul.

Dugin toma uma decisão neste quesito. Ele sabe que as posições do Norte e Sul tradicionais estão embaralhadas na História e na Geopolítica. Mas ainda assim afirma que o Sul Global -- uma posição geopolítica -- é necessariamente passivo em relação ao "Norte" [mesmo que um norte decaído e corrompido].

O russo não abre mão desta posição: a liberdade dos povos chegará quando o sul global, que guarda resquícios e fragmentos da Tradição mas que não tem força para se tornar uma alternativa de fato às forças antitradicionais, se aliar de maneira subordinada ao Norte Eurasiano [que, ainda que decaído, guarda o aspecto ativo necessário a conduzir a luta contra o Caos].

O posicionamento de Dugin reflete sua visão de que o Norte [geográfico, global, geopolítico] é ativo e soberano mesmo em uma era de trevas; e que o Sul [geográfico, global e geopolítico] é passivo e subordinado mesmo que, diante das circunstâncias, seja guardião da sacralidade em um mundo secularizado.

Ele expõe o projeto em cores mitológicas, que na verdade são aplicações de uma visão pessoal sobre o simbolismo sagrado. Uma visão que dá predileção à Rússia, obviamente:


"Pode ser dito que a correlação entre o Norte e o Sul nos tempos primevos tem uma relação invertida com a presente em nossa época, já que é o Sul que atualmente preserva vínculos com a Tradição, enquanto o Norte definitivamente os perdeu. Ainda assim, esta afirmação não dá conta de toda a realidade [...]. O fato é que a Tradição foi preservada no Sul apenas em uma forma inercial, fragmentária e parcial. Ela mantém uma posição passiva e pode apenas resistir, está permanentemente na defensiva. Assim, o Norte espiritual não se transferiu totalmente para o Sul no Fim dos Tempos -- o Sul apenas acumulou e preservou impulsos espirituais que lhe chegaram certa feita através do Norte sagrado. Nenhuma iniciativa tradicional ativa pode vir do Sul por princípio. [...] O Norte era e permanece, por sua própria natureza, o lugar escolhido do poder. Assim, as iniciativas geopolíticas verdadeiramente efetivas vem do Norte.
O "Sul pobre'' tem hoje uma vantagem espiritual sobre o "Norte rico", mas não pode servir como uma alternativa séria à agressão profana do "Norte rico", nem pode oferecer um projeto geopolítico radical capaz de subverter a visão patológica do mundo moderno.
[...](1) O Norte rico terá oposição não do "Sul pobre", mas do "Norte pobre". O Norte pobre é o sagrado ideal do retorno às fontes nórdicas da civilização. [...] O ''Norte pobre'' existe [em um sentido geográfico] na Rússia. [...]
(2) O "Sul pobre", incapaz de se opor de forma independente ao Norte rico, entrará em uma aliança radical com o Norte Eurasiano pobre e dará início a uma guerra de liberação contra a ditadura do Norte."

Dugin não poderia ser mais claro: O Sul [geográfico, global e simbólico] é, por natureza, subordinado. É conduzido, não conduz. Ele pode, no máximo, se aliar com o Norte Eurasiano, que por causa da Guerra Fria se resguardou em parte do declínio do Norte Geográfico, mas que se mantém como polo ativo e dominante. E admitindo esta dependência, pode participar da guerra sagrada que fará um cerco às forças antitradicionais.

Eu ia me opor a esta visão de Dugin no meu curso de Geopolítica, que acabei não completando [ainda], mostrando o quanto a leitura e aplicação de princípios Tradicionais do russo se equivoca neste ponto [não sei se por ele não ter entendido realmente as implicações deste simbolismo, ou se por interesse em manter a superioridade russa]. É possível, até provável, que eu retome a linha de raciocínio nos próximos meses.

Mas o fato permanece. Não se trata só de Terra e Mar. Se trata também de Norte e Sul.

E, no fim dos tempos, o último homem em pé será brasileiro.

quarta-feira, 9 de março de 2022

A QUARTA TEORIA POLÍTICA DE DUGIN É UM NEOFASCISMO?



Há muita curiosidade, e maiores incompreensões ainda, quanto à proposta teórica e ideológica de Alexander Dugin, que muitos da mídia qualificam, algo impropriamente, como "guru" de Putin.


Dugin se envolveu em algum grau com movimentos declaradamente fascistas no fim dos anos 1980 e início dos 1990, mas logo os deixou pra militar no assim chamado ''Nacional Bolchevismo", que tentava sintetizar alguns elementos fascistas e stalinistas.

Nos anos 2000, já mergulhado no pensamento tradicionalista, decidiu abandonar aquilo que considerava como ideologias modernas ou contemporâneas. E propôs uma meta-teoria para superá-las , publicada em livro originalmente em 2009, e traduzido pro inglês em 2012.

Na obra, o russo estabelece uma nova classificação das principais ideologias, ao mesmo tempo em que as redefine segundo o sujeito normativo que identificava em cada uma delas. Elas seriam o liberalismo, o socialismo e o fascismo [nacionalismo].

O liberalismo é o nome "guarda-chuva" dado a toda ideologia que faz do sujeito moderno o princípio normativo da sociedade. Dizendo de outra maneira, ele aplica o epíteto de liberal a toda ideologia estritamente individualista [no sentido em que Louis Dumont dava ao termo]. O socialismo, identificado principalmente com o marxismo, diz respeito ao conjunto de ideologias que relativizam o indivíduo particular frente a uma coletividade definida pela ordem material de produção da vida social: ou seja, pela classe econômica. Por fim, o fascismo é visto de forma ampla. Todo nacionalismo, não somente os étnicos, com matiz anti-individualista e associado ao Estado-Nacional cai na definição da Terceira Teoria Política. Ou seja, se trata de conceito mais amplo do que o mobilizado na Academia, e que não pode ser reduzido somente ao fascismo italiano ou ao nazismo.

Frequentemente, Dugin é acusado de ser "neofascista". Mas é necessário averiguar o que se entende por este termo pra ver se há algum caráter heurístico no rótulo imputado ao russo.

Há abordagens psicologizantes do fascismo, que o associam à ideia de "personalidade autoritária". Outros, pelo contrário, pensam que qualquer ideologia iliberal, ou seja, anti-individualista, e portanto com traços hierárquicos ou holistas, é necessariamente fascista. Dificilmente estas abordagens são compatíveis com o olhar histórico. O fascismo é uma ideologia marcada por certas características, programas e agendas, não uma doença psíquica. Já o UR-Fascismo tornaria as práticas de poder de todos os povos da história, exceto as do Ocidente contemporâneo, em graus diversos de fascismo, o que dificilmente resiste a qualquer escrutínio histórico e antropológico adequado.

Há 3 argumentos que, até onde vejo, negam qualquer caráter verdadeiramente fascista à QTP:

I) Dugin é fortemente anti-racista. Ele inclusive amplia o conceito de racismo a fim de incluir toda posição, postura ou mentalidade que hierarquize povos de maneira etnocêntrica;
II) Não é nacionalista. Pelo contrário, é crítico à relativização de todas as identidades em prol de um conceito massificado e homogêneo de nação;
III) Dugin repudia o conceito Ocidental de Estado-Nação, que considera prejudicial e superado.

Se formos além nestas formulações, o pensador russo é muito mais platônico em sua perspectiva metafísica do que verdadeiramente hegeliano.

São elementos que negam o caráter fascista do pensamento de Dugin, ainda que se possa considerá-lo holista, hierárquico e autoritário.

O pensador russo supõe superar as teorias políticas contemporâneas propondo um novo sujeito. De modo geral, ele sugere duas aproximações ou alternativas para este papel: o primeiro, uma determinada leitura do conceito de Dasein, de Heidegger. O segundo, que considero bem mais interessante, a mobilização e ressignificação da tese das Estruturas do Imaginário, de Gilbert Durand. Para Dugin, cada povo tem um Logos específico e próprio, que ele associa a um dos regimes do imaginário do intelectual francês.

Apesar destas formulações, a principal chave para ler a proposta de Dugin continua sendo a tradicionalista. E talvez, ainda mais especificamente, Henry Corbin. Quando Dugin fala de Povo, não está se referindo a uma coletividade massificada, nem muito menos a um etnia. Ele reivindica, por um lado, a noção de Narod, que tem longa história no socialismo populista russo, mas que também foi instrumentalizada, com um significado historicizado, pelos soviéticos. Por outro lado, e na verdade acima, se encontra a angelologia de Corbin. Todo Povo verdadeiro é expressão de um Anjo, de um universal ou forma divina específica, com um destino e uma atuação precisa na "história sagrada". É uma visão tradicionalista.

Daí também porque a proposta da QTP não se reduz a um molde a ser exportado e copiado por todos os povos. Cada Narod teria de buscar em seu Logos [ou imaginário] os princípios constitutivos de sua organização social e política. A QTP se define, antes de tudo, como uma meta-teoria.

No campo geopolítico, o Narod se vincularia a um Grande Espaço, e não a um Estado-Nacional. O pensador russo defende um ordenamento internacional formado por confederações de Estados, conjuntos multi-nacionais com formas civilizacionais diversificadas. A UE ou a "Pátria Grande" [latino-americana] seriam dois exemplos possíveis de Grandes Espaços civilizacionais, organizados segundo o Logos dos Povos q neles habitam. [existem, portanto, um número indefinido de possibilidades de formações sociais e políticas].

terça-feira, 8 de março de 2022

DA FRENTE SOL DA PÁTRIA -- A entrevista à Folha de SP e a participação de Zanini no My News

 



O jornalista Fábio Zanini, que entrevistou a mim e aos meus confrades Uriel Araujo e Lucas Leiroz para a Folha de São Paulo, resultando em excelente matéria sobre o que chamou de ''seguidores de Dugin'' no Brasil, marcou presença no canal My News, no Youtube, no dia 07 de março.


No geral, a participação de Zanini foi boa, já que o tema é complexo e cheio de nuances, que mesmo um público qualificado teria dificuldade de digerir de imediato. Mas devo pontuar algumas questões que foram ditas e que não refletem por inteiro nem o pensamento de Dugin nem a realidade dos movimentos que dialogam, em maior ou menor grau, com o pensador russo.


1) Fábio Zanini afirmou que, segundo Dugin, a Rússia deveria se expandir territorialmente para englobar regiões em que houvesse populações russófonas, que ele chamou na entrevista de 'povo russo'. Mas há um erro fundamental nessa consideração: a noção de Povo [Narod] para Dugin não tem conotação étnica. A própria Rússia é um Estado multinacional, com diversas etnias, repúblicas com diversos graus de autonomia, e línguas diferentes em seu território. Os ''russos étnicos'' são no máximo 60% da população russa. A noção de Narod é herdeira dos tempos soviéticos, e implica antes de tudo uma população que se constitui como Povo por conta do processo histórico, com tudo que o conforma;


2) O jornalista informou, de maneira correta, que houve um 'racha' na Nova Resistência que gerou uma nova corrente dissidente. A separação não foi motivada pela Guerra da Ucrânia ou qualquer inimizade. Esta nova corrente é a Frente Sol da Pátria que, atenção, NÃO FOI AINDA LANÇADA OFICIALMENTE, mas cuja existência já é pública. Ela se constitui de antigos militantes da NR, inclusive algumas lideranças formais e estratégicas, e também de pessoas que nunca tiveram militância neste campo. A Frente Sol da Pátria está se preparando para raiar muito em breve no interior do nacionalismo-popular brasileiro, com uma proposta que coloca o Brasil no centro da dissidência.


3) O jornalista também disse que as organizações que dialogam com Dugin ''não se alinham totalmente com Bolsonaro". No caso da Frente Sol da Pátria isto é falso. Não nos alinhamos de forma alguma com Bolsonaro. Em minha entrevista à Folha de São Paulo, deixei claro que ''militamos contra Bolsonaro em todas as frentes". Sim, somos conservadores, mas não somos moralistas. Bolsonaro é um moralista que posa falsamente de conservador. Além disso, discordamos de todas as pautas anti-trabalhistas e neoliberais de Bolsonaro. Repudiamos também sua política externa adesionista aos EUA e ao Partido Republicano norte-americano -- bem como o abraço acrítico à política israelense, que afronta os interesses nacionais, a história do Itamaraty, e o imenso contingente de descendentes de árabes que são parte indissociável da nossa formação social e cultural --, o desprezo que ele demonstra pela necessidade de integração latino-americana e de aprofundamento do Mercosul e outros instrumentos de estreitamento de nossas relações com os vizinhos da América do Sul. E sequer preciso entrar nas terríveis associações que a família presidencial tem com figuras milicianas ligadas à Máfia do Jogo e a organizações de narcotraficantes;





4) Zanini qualificou as organizações que dialogam com o pensamento de Dugin de "anti-esquerdistas''. Isto só se aplica à Frente Sol da Pátria em nossa crítica à esquerda pós-moderna, também chamada de esquerda identitária, associada a ONGs e diretrizes emanadas dos principais centros do capitalismo mundial. A Frente Sol da Pátria se abraça aos pensadores, políticos e militantes de raiz nacionalista-popular, trabalhista e socialista que defenderam uma superação do liberalismo e do capitalismo, muitos deles identificados com a magnífica história e corrente da esquerda sul-americana. Também nos inspiramos em diversos movimentos de inspiração socialista que ao redor do mundo batalharam pela libertação de seus povos e pelo fim da opressão capitalista. Nós repudiamos o individualismo da ''nova esquerda'', mas não a esquerda per si, nem muito menos o socialismo, ainda que não sejamos marxistas;


5) Por fim, embora sejamos apresentados como ''duguinistas'' ou ''seguidores de Dugin'', esclarecemos que a Frente Sol da Pátria não tem gurus. Não somos nenhum tipo de olavetismo russófilo. Dugin é um amigo [político] e importante intelectual, mas não é nem poderia ser a única referência teórica e política de um movimento que abraça, antes de todas as coisas, a brasilidade e o destino sul-americano. Dugin não é, para a Frente Sol da Pátria, uma inspiração maior do que Darcy Ribeiro, Getúlio Vargas, Perón, José Carlos Mariátegui, Ariano Suassuna, Caio Prado Júnior, José Martí, Gilberto Freyre, Manuel Bonfim e tantas outras figuras que pensaram a grandeza do nosso país e da América Latina. Dialogamos abertamente e de forma madura com o pensamento e as posições de Dugin, mas não somos correias de transmissão de suas agendas políticas. É verdade também que somos Tradicionalistas, mas este é um paradigma de pensamento muito mais amplo do que se convenciona reproduzir na imprensa, e que não se reduz também aos autores do século XX que são rotulados como tradicionalistas.


O SOL HÁ DE BRILHAR MAIS UMA VEZ!


André Luiz V.B.T. dos Reis
08 de Março de 2022


domingo, 6 de março de 2022

E SE DUGIN FOR DE FATO A MENTE POR TRÁS DE PUTIN?



por André Luiz V.B.T. dos Reis

A grande mídia apresenta o cientista social Alexander Dugin como o ''guru'' e ''ideólogo'' de Putin, mas não se esforça para compreender quais seriam então estas ideias que movem o atual governo russo. Tratam tudo como uma forma de ''nacionalismo'' saudosista dos tempos soviéticos ou czaristas. Mas esta é uma descrição distorcida, caricatural, mais confunde do que explica.




Alexander Dugin é um geopolítico que, na linha de clássicos desta ciência, como McKinder, Spykman e Schmitt, pensa existir um confronto estrutural entre Mar [potências marítimas, ou poder naval] e Terra [potências continentais, poder terrestre]. Esta é também a leitura da escola geopolítica anglo-saxã, ou norte-americana e britânica.


O poder marítimo teria construído um sistema-mundo [conceito muito caro ao sociólogo Immanuel Wallerstein] a partir das Grandes Navegações. O centro deste sistema-mundo está na aliança anglo/holandesa/norte-americana [daí ser chamada de sistema ''atlântico'' ou atlantista], que controla os fluxos econômicos e também os circuitos militares e comerciais dos Oceanos. Este sistema-mundo promove determinadas instituições e valores nas áreas que domina, reduzindo-as a periferias suas. E a partir do controle dos mares, ''cerca'' as potências terrestres em todos os continentes.


O principal ''cerco'' se dá às potências da ''heartland'' eurasiática, que Mckinder considerava a área de maior potencial de recursos demográficos e materiais do planeta. Segundo a geopolítica anglo-saxã, o surgimento de um Estado que dominasse a heartland eurasiática geraria ''massa crítica'' suficiente para furar o ''cerco'' imposto pelo sistema-mundo atlântico. Este Estado se expandiria, buscando águas quentes [navegáveis] e projetaria poder global.


Geopoliticamente, a Guerra Fria era um confronto entre Terra [União Soviética, potência eurasiática] e Mar [EUA, centro governante do sistema-mundo atlântico]. O cerco à Eurásia se dava pela OTAN, na Europa; por Israel e Turquia no Oriente Médio e Cáucaso; pela Península Arábica; pela Índia; por Taiwan, no Mar do Sul da China; pela Coréia do Sul; e finalmente pelo Japão. Era um arco de controle da expansão eurasiática, que G. Kennan, outro geopolítico norte-americano, chamava de "estratégia de contenção''.


O cerco realizado pelo sistema-mundo atlântico também é promovido nos demais continentes. O geopolítico norte-americano N. Spykman desenhou um controle do Sul pelo Norte Geopolítico a partir do domínio de áreas estratégicas [o controle europeu do Mediterrâneo, por exemplo, permite subordinar geoestrategicamente a África; o controle norte-americano do Mar do Caribe permite o domínio da América do Sul].


Esta estratégia implica em evitar a união dos poderes terrestres de cada continente, um modo de ''dividir para reinar'', já que esta fragmentação impediria o surgimento de Estados com peso crítico suficiente para contestar o domínio do sistema mundo atlântico.



Ora, a geopolítica de Dugin é uma estratégia para quebrar este domínio. Não apenas na Eurásia, a partir da aliança, e alguns casos união, dos poderes terrestres da região. Mas na Europa [União Europeia], África, América Latina, Ásia Central, Extremo Oriente etc.


Em cada uma destas regiões, os poderes continentais deveriam se unir militar e economicamente para cortarem os laços com o ''império atlantista global" [o sistema-mundo controlado a partir dos EUA]. Os laços econômicos da Rússia se dariam, com tendências autárquicas, dentro da Eurásia e de seu Grande Espaço específico.


Portanto, esta diminuição de laços econômicos, financeiros e políticos com o Ocidente não é uma má notícia para a ótica de Dugin. Essa ''desglobalização'' é justamente o anúncio, os primeiros sinais do fim do domínio mundial do Poder Marítimo, e do surgimento de um mundo com vários polos de poder, alguns deles representando os poderes terrestres de continentes diferentes: União Eurasiática centrada na Rússia; a civilização chinesa; a União Europeia com autonomia da política anglo/norte-americana.


Este projeto abriria também possibilidade para que o Sul rompesse a subordinação ao Norte Geopolítico. Seria possível pensar, por exemplo, um Grande Espaço soberano na América Latina.


Toda vez que noticiam a Rússia retirada de alguma organização esportiva mundial [FIFA, COI] ou desligada de multinacionais ou redes financeiras globais, ou ''punida'' pela indústria cultura norte-americana [Hollywood, Netflix etc.] com boicote de seus produtos; temos de pensar que isto é visto, da ótica de Alexander Dugin, não como uma minoração do poder russo. Mas como um passo no projeto de construção de uma civilização autônoma, autodeterminada, com um Grande Espaço continental próprio, e um sistema econômico mais ''autárquico'' e autocentrado.


Muitos analistas insistem que Putin não previa o tamanho das sanções e da reação internacional. Talvez seja hora de imaginar que o sentido destas sanções, este movimento específico do Ocidente, foi previsto [e desejado] por Dugin no grande tabuleiro de xadrez da Geopolítica Mundial.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Bruxarias Passadas e Hodiernas

Gerald Gardner: o fundador da Wicca mentia à vera sobre as origens de sua nova religião, mas tinha larga experiência em práticas de tradições diversas, desde a OTO até cultos indianos à deusa Kali


Gerald Gardner, o fundador da 'Wicca', o mais conhecido movimento da ''bruxaria moderna", era maçom, iniciado na OTO por Crowley, envolvido com cultos a Kali na Índia, tinha conexões sufis, e fazia parte da Irmandade de Crotona [da filha de Annie Besant].


Mas boa parte da nova religião que ele criou [e estou sendo um tanto irônico aqui, porque Charles Leland a chamava de ''Antiga Religião" -- Old Religion] se deve a uma mistura de thelema com as obras de Leland, de Graves e, principalmente, de Margaret Murray.


Esses autores alegaram que existia um paganismo sobrevivente na Europa, com um culto organizado e um sistema doutrinário e de prática bastante coerente e consistente, que atravessou os tempos e resistiu à pressão do cristianismo hegemônico. As autoridades cristãs teriam chamado essa religião subterrânea de 'bruxaria' e 'culto diabólico'.


Charles Godfrey Leland foi uma das principais fontes da crença, há muito refutada, de que a Bruxaria da Era Moderna era, na verdade, uma religião estruturada e não cristã que enfatizava a liberdade e que foi oprimida pela sociedade hierárquica europeia


Enfim, as teses de Murray sobre essa religião da fertilidade baseada na polaridade sexual não valem um níquel e foram completamente desmoralizadas nos anos 1960 e 1970. Mas se tornaram ''dogmas'' da 'Wicca'. Gardner jurava ter sido iniciado por um ''coven secreto'', mas quando confrontado por Doreen Valiente, uma de suas adeptas mais criativas, admitiu que as ''tradições'' que recebera eram ''fragmentárias'', e que as preencheu com noções aprendidas principalmente em Crowley.

Valiente sabia que Gardner era um tremendo mentiroso. [O sujeito a apresentou a jornalistas como se ela fosse representante de uma das ''tradicionais famílias de bruxos'' que ele descreveu em "A Bruxaria Hoje", o que ela sabia ser lorota.] Mas em geral deixava passar. Só que não curtia Crowley, e reescreveu boa parte d'O Livro das Sombras pra livrar o 'movimento' da influência thelemita, que considerava nefasta. Ela mais tarde romperia com Gardner.


  A egiptóloga Margaret Murray dedicou sua carreira à defesa e descrição da Religião "Matriarcal" e de polaridade sexual, de culto à ''Deusa", que teria sido oprimida pelo cristianismo. Suas alegações se tornaram dogmas para alguns dos movimentos contemporâneos de "Bruxaria", embora já tenham sido refutados pela pesquisa acadêmica desde os anos 1960


Outro "cisma" veio de Alex Sanders, que também dizia descender de uma ''família tradicional de bruxos'', e inventou sua própria tradição, introduzindo aspectos de Cabala, Hermetismo e magia cerimonial. A maior ruptura, no entanto, foi a admissão dos homossexuais, que não eram bem vistos por Gardner, que tinha muito mais noção da importância da relação complementar entre os sexos para as práticas espirituais e mágicas. Sanders chamou sua corrente de "Bruxaria Alexandrina".

Apesar da invencionice, as ideias por trás desses 'neopaganismos' e 'bruxarias' não são desprovidas de sentido, nem muito menos podem ser menosprezadas. Sua metafísica, práticas, perspectivas e ritos são colagens e parasitismo de tradições, essas sim mais antigas, e de conceitos que foram distorcidos por agendas ocultistas do tempo. Mas existem verdades em meio a tudo isso.
Valiente é uma das ''mães'' da Bruxaria Contemporânea: discípula de Gardner, logo descobriu o imenso conjunto de invencionices do criador da Wicca, se desagradou da imensa influência de Crowley, e reescreveu 'O Livro das Sombras', remodelando a figura da Wicca em moldes celtas. Levou a efeito o primeiro grande ''cisma'' da tradição garderiana.


Além disso, esses movimentos se associaram com grupos políticos defensores do feminismo radical, da ideologia de gênero, e ambientalismo pós-pós [vejam a "Bruxaria Diânica" e a "Reclaiming Tradition"]. Também tem papel essencial no movimento ecumênico, dos quais se tornaram xodós nos anos 1990.

Para se ter uma ideia, parte dos estatutos da United Religions Initiative, fundada em 1995 pelo bispo anglicano William Swing com o objetivo de ser a faceta religiosa das Nações Unidas, foi escrito por membros do 'Covenant of Goddess' [COG], criado na Califórnia nos anos 1970 e bastante influente no 'Parlamento Mundial das Religiões' -- que há pelo menos uma geração coloca a 'culpa' pelos problemas mundiais e ambientais nas religiões tradicionais, especialmente no cristianismo.


Z Budapest inicia uma tradição rival dos garderianos a partir dos anos 1970: A Bruxaria Diânica é fortemente feminista, se opondo não só ao patriarcado, mas ao militarismo. Tem vínculos ecológicos fortes e era restrita às mulheres, consideradas ''bruxas naturais''.


[Aliás, a perspectiva fortemente anticristã é elemento fundamental da identidade da Wicca, por mais que falem de tolerância e bla bla blá.]

Por trás da mais superficial cultura pop existe um iceberg de tendências e agendas ao mesmo tempo espiritualistas e políticas.

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

O OLAVETISMO NÃO É O BOLSONARISMO


Com a morte de Olavo de Carvalho pululam tentativas de explicar o significado e as razões de sua influência. a grande mídia repete quase em uníssono o jargão de que Olavo é o "guru de Bolsonaro", ou o responsável pela criação do bolsonarismo.

Mas isso não é de todo verdade e confunde a confluência de dois movimentos distintos em um momento específico da história brasileira. A trajetória de Olavo de Carvalho e dos círculos que amplificaram suas ideias está bem distante da formação do fenômeno de massas da bozóloucura.

Um dos erros das análises apressadas é identificar a origem visível do olavetismo em meados da década passada, durante a crise que atingiu o governo de Dilma Roussef. Ora, os núcleos de apoio e de seguidores do "filósofo da Virgínia" já estavam mais do que consolidados a essa época.

O líder daquilo que poderíamos chamar de ''novo conservadorismo brasileiro'' surge para o debate público por meio de artigos de jornais publicados semanalmente n'O GLOBO durante a segunda metade dos anos 1990. O articulista chamava a atenção pela verve polemista, e tinha por trás de si o sucesso de livros como "O Jardim das Aflições" [1995] e ''O Imbecil Coletivo" [1996], além de um movimentado e bastante acessado website oficial. O pensamento de Olavo já era marcado por forte diálogo com o conservadorismo norte-americano e denúncia do marxismo, mas era bem menos histérico e monomaníaco. Poderíamos dizer que se tratava de um intelectual assumidamente de direita com grande ar de respeitabilidade. As portas do establishment estavam abertas para Olavo de Carvalho.

A ascensão do olavetismo se abraça à do PT. Conforme Lula ia se tornando o favorito para as eleições presidenciais de 2002, o espaço de Olavo na mídia tradicional cresceu. Naquele ano, tinha espaço também na revista ÉPOCA, no Jornal do Comércio e outros veículos. Montou um site de notícias que unia liberais e conservadores, o Mídia Sem Máscara. E adequou sua retórica a um antipetismo cada vez mais feroz, a ponto de considerar o partido uma instituição literalmente satânica, "que jamais poderia ter vindo a existir". Por trás do PT, denunciava o caráter deletério da ''casta intelectual'', cuja maior e mais degradada representante seria a USP.

Sua visibilidade sofreu um baque com o primeiro mandato de Lula, que não parecia confirmar suas previsões catastróficas de conversão do país ao comunismo. Ele foi perdendo espaço nos jornais, e também brigou com boa parte dos liberais do Mídia Sem Máscara, que se afastaram dele como de um leproso. Nessa fase, Olavo passou a ser considerado um intelectual "marginal", tratado praticamente como ''persona non grata'' pela Academia, tido por irrelevante, obscuro e um tanto ridículo. Mas as portas que lhe foram fechadas nesse ambiente apenas lhe deixaram em paz para crescer em espaços que, menosprezados àquela altura pelo establishment, se revelaram de imensa importância para o debate e a propaganda intelectual e política no século XXI.

O Orkut se tornou a primeira grande rede social acessada em massa pelas classes médias brasileiras. E o reino do olavetismo foi construído nesse mundo virtual, que permitia a convivência, o encontro e a troca de ideias diária de pessoas que, não só não se encontrariam nunca no mundo real, como eram portadoras das percepções menos mainstream sobre o mundo e a sociedade. Ignorado pelas universidades e pela mídia tradicional, ridicularizado até mesmo pelos opositores do PT que gozavam de maior ''respeitabilidade'', Olavo sustentava sua influência e aumentava sua capacidade de mobilização dentro de uma certa elite social por meio de debates nas comunidades do Orkut e, a partir de 2006, no programa popularesco True Outspeak, transmitido pela internet.

Em 2005, o filósofo se muda para a Virgínia, EUA. Para muitos, era uma tentativa de fugir dos inúmeros processos que se acumulavam contra ele em resposta às suas invectivas contra a esquerda, celebridades, acadêmicos etc., processos que ele encarava como sintoma de uma perseguição política. A essa altura, Olavo já havia unido sua persona pública ao neoconservadorismo norte-americano, e se tornado um fiel defensor do governo de George Bush Jr., da "Guerra ao Terror" e do projeto do "Novo Século Americano". Denunciava o PT como agente do Foro de São Paulo, uma terrível organização destinada a constituir no continente uma união socialista nos moldes da soviética, em aliança com o narcotráfico internacional.

O domínio eleitoral do PT e o crescimento quase que "subterrâneo" de suas ideias em meios com boa educação formal e capital social, fez com que se tornasse o principal foco de oposição intelectual aos círculos em torno de Lula. Quem não gostava do PT e da ideologia que naquele momento estava na crista da onda encontrava em Olavo uma fundamentação minimamente coerente para o anti-esquerdismo, além de um universo inteiro de autores desprezados no debate público do país. O próprio Olavo figurava como um ícone, um campeão anti-marxista, com reconhecida capacidade de vencer debates sem ter razão. Em 2009, Olavo deu um novo passo na consolidação do olavetismo com a criação de seu Seminário de Filosofia, que formou milhares de alunos em sua leitura da realidade intelectual e política.

Foi quase que natural que a direita se voltasse para ele quando a crise e o cansaço com o prolongado predomínio petista e com o avanço das pautas da esquerda liberal em diversos âmbitos se tornou uma avalanche capaz de alterar os rumos eleitorais do país.

Mas não foi a mudança de humores populares que criou o olavetismo. Ele já estava lá. Com tradição, história de crítica à esquerda e ao PT, e gerações de legiões de alunos, seguidores e dependentes treinados nos conceitos e clichês divulgados pelo filósofo. O sucesso estrondoso de "O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota" [2013] e as imagens de fanáticos saindo às ruas para protestar gritando "Olavo tem razão" são anteriores ao fenômeno de massa mais amplo do bolsonarismo.

O Olavetismo é formado por um conservadorismo religioso que, inicialmente reverberando um tradicionalismo católico-romano crítico à Teologia da Libertação e à cúpula da CNBB, foi se aproximando cada vez mais dos evangélicos depois da mudança do "guru" para a Virgínia. Suas ideias debatiam com os princípios da Escola Tradicionalista, principalmente René Guénon e Frithjof Schuon, embora Olavo tenha passado a contestá-los de maneira mais forte a fim de adaptá-los à sua nova versão neocon, americanófila e ligeraimente islamofóbica consolidada com sua migração para a terra dos ianques.

O apego ao sionismo sempre esteve presente, mas também cresceu com o tempo. Na verdade, Olavo foi quase que um vanguardista na união entre conservadorismo brasileiro e filo-judaísmo. Já a verve fanaticamente liberal e anti-estatista nunca mudou. O filósofo da Virgínia sempre foi muito próximo das ideias de Estado Mínimo. Por fim, crítico aos EUA ao longo dos anos 1980 e 1990, Olavo se rendeu à geopolítica dos falcões de Washington, vindo a considerar o Partido Republicano como uma verdadeira trincheira contra o suposto "marxismo cultural" que dominava os Democratas, e, através de elos de uma corrente de influência institucional, o establishment universitário, midiático e político-partidário brasileiro.

Antes da queda derrocada do PT, em 2016, ninguém nos círculos olavéticos falava de Bolsonaro de modo relevante. Foi o ex-capitão do Exército que se aproximou do fenômeno do olavetismo, que dava à sua visão tosca e reacionária de mundo, vinculada ao saudosismo em relação aos porões do regime civil-militar, uma consistência teórica e filosófica que ela não possuía.

O crescimento do Olavetismo foi a reação possível de gerações incomodadas com a superficialidade das discussões acadêmicas e do predomínio das teses da sociologia da USP. Seu impulso se deu principalmente nas altas classes médias e em jovens com imensa curiosidade intelectual e tendências contrárias ao discurso hegemônico imposto pela geração anterior.

As causas de seu sucesso não desaparecem com o falecimento de Olavo, e não dependem dos destinos de Bolsonaro, cujo público raiz é bastante distinto, embora encontrem um terreno comum na sua escolha por submissão aos EUA, a Israel e ao antiprogressismo ferrenho e fanático travestido de anticomunismo radical.
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