quinta-feira, 4 de junho de 2026

TOP 10 SELEÇÕES DA HISTÓRIA -- 10) HUNGRIA, a jóia da Escola do Danúbio

 AS DEZ MAIORES SELEÇÕES DE TODOS OS TEMPOS



Os principais critérios são desempenho em Copas do Mundo, títulos, grandes jogadores, seleções inesquecíveis, domínio de alguma época, e papel no desenvolvimento do jogo e de outras gerações.


O jogo que realizou o sonho da Escola do Danúbio, a superação da escola britânica



10) HUNGRIA -- A escola do Danúbio elevada à perfeição



Alguns podem perguntar, com justiça, como uma seleção que não se classifica para a Copa do Mundo há quarenta anos [ou 10 edições consecutivas] pode ser classificada como uma das maiores da história.

A Hungria tem nove participações em Copas, a última delas em 1986. É menos que Bélgica [14], Suécia [12], Suíça [11], EUA [11] e Coreia do Sul [11], dentre outras. E o mesmo número que Polônia [9] e Chile [9]. E ainda assim não é exagero dizer que o impacto da Hungria no futebol é maior o que o de todas essas seleções somadas.

Era uma vez o tradicional Império Austro-Húngaro, que tinha em Viena, Praga e Budapeste centros cosmopolitas em que intelectuais de toda a Europa se reuniam em cafés para discutir arte, ciência, contracultura, e política nos anos 1920/30.


O revolucionário Jimmy Hogan: futebol coletivo e de passes curtos


E também para falar a sério sobre futebol, propondo formas de superar o paradigma inglês de jogo físico e lançamentos longos. Em poucos lugares se discutiu tática de modo tão sério e profícuo como nesse ambiente.

O estilo de futebol que surgiu nos anos 1930 ficou conhecido como ''escola do Danúbio", que enfatizava técnica refinada no controle da bola, passes curtos, movimentação constante, e jogo coletivo. Seus grandes difusores foram o inglês Jimmy Hogan e o austríaco Hugo Meils, e um de seus símbolos a seleção austríaca liderada por Mathias Sindelar [o famoso Wunderteam].


Hugo Meils, estrategista por trás do Wunderteam austríaco


A 'escola do Danúbio' tinha ligações diretas com concepções políticas, principalmente com judeus progressistas de tendências socialistas. Com a desagregação do Império, tanto a Tchecoslováquia quanto a Hungria deram continuidade no vínculo entre a escola e o comunismo.

Sua perfeição foi realizada pelo Aranycsapat ["Esquadrão de Ouro"] húngaro, que assombrou o mundo de fins dos anos 1940 até a Revolução Húngara de 1956.

Os "Magiares Mágicos" formavam uma estirpe de craques como poucas vezes se viu: Ferenc Puskas, Nandor Hidegkuti, Sandor Kocsis, József Boszik, Zoltán Czibor etc. Lendas atribuem a alguns desses jogadores mais de 1400 gols na carreira -- ainda que esses números prolíficos nunca tenham sido documentados de fato.

Gusztáv Sebes: o futebol a serviço do Partido



O arquiteto desse timaço foi Gusztáv Sebes, que elevou as ideias 'danubianas' ao status de interesse nacional do Partido Comunista da Hungria, associando um clube [o Honved] à seleção do país, e aplicando de modo sistemático sua famosa frase "todos defendem, todos atacam" em uma concepção de futebol caracterizada pela circulação rápida da bola.

Hidegkuti: o surgimento do meia-atacante e do 'falso 9'


A maior inovação foi o recuo do centroavante para a intermediária. Hidegkuti baixava para armar o time, e se tornar ao mesmo tempo o arco e a flecha da equipe. Era a criação do meia-atacante ou de uma versão mais primitiva do 'falso 9', que impactou severamente os esquemas então dominantes [a 'Pirâmide' e o WM] e preparou o caminho para o 4-2-4.

A revolução técnica, mental e tática do Aranycsapat foi consagrada pela demolição completa do mito da superioridade inglesa. Os Magiares Mágicos realizaram o feito sonhado pelos intelectuais que se encontravam nos cafés austríacos, e responsáveis pela primeira derrota do English Team em Wembley, o famoso 6 a 3 de 1953.

No jogo da volta do confronto internacional, na Hungria, os "Mágicos Magiares" enfiaram estrondosos 7 a 1 nos inventores do ''violento esporte bretão", a pior derrota da Inglaterra em toda a história. O mundo do futebol nunca mais seria o mesmo.

O lendário Ferenc Puskas


Até hoje se discute como foi possível aquela equipe perder a final da Copa de 1954 para a Alemanha Ocidental, time que ela derrotou na fase de grupos por 8 a 3, e sobre a qual tinha aberto dois gols de vantagem com apenas 20 minutos de peleja.

Seja como for, a seleção húngara marcou 27 gols em 5 partidas naquela Copa. É não só a maior goleadora da história dos mundiais mas detentora também de uma média imbatível de 5,4 gols por jogo. Para se ter uma ideia, o Uruguai campeão em 1950 teve média de 3,75 gols; o Brasil que levantou a taça em 1958 teve média de 2,67. A Hungria de 1954 é um ponto fora da curva.

Bella Guttmann treinando o São Paulo


O declínio começou com a repressão soviética em 1956, que levou a um êxodo de jogadores e treinadores húngaros. Por outro lado, o mundo se beneficiou dessa ''diáspora''. Parte dos atletas foi para o futebol espanhol, que gradualmente foi transformado por conceitos danubianos.

Que também tiveram acolhida na Holanda: muitos dos princípios do Aranycsapat foram reelaborados e aplicados no "futebol total" holandês dos anos 1970.

Essas duas linhas de desenvolvimento [a espanhola e a holandesa] se reencontraram na escola do Barcelona/espanhola, cujo principal representante é o técnico Guardiola, com sua ênfase na racionalização coletiva e sistemática do jogo a partir de um controle territorial centrado na troca curta de passes, na circulação rápida da bola, e do ''falso 9''.

A difusão também alcançou o Brasil. Primeiro em 1938, quando Dori Krushner treinou o Flamengo e apresentou o WM ao país, depois redimensionado na "Diagonal" do lendário treinador Flávio Costa; mais tarde, quando o técnico Bela Guttmann treinou o São Paulo em 1956, ajudando a consolidar o 4-2-4 [esquema desenvolvido de maneira independente no Brasil desde os princípios dos anos 1950].

Para completar, Guttmann descobriu Eusébio e o levou para o Benfica, armando a equipe que colocou fim à hegemonia europeia do Real Madrid de Di Stefano e Puskas.

A final da Copa de 1938



Os principais resultados da Hungria são as duas finais de Copa do Mundo em 1938 e 1954. Fizeram três Quartas de Final em 1934, 1962 e 1966. É o país com o maior número de medalhas de ouro olímpicas ao lado da Grã-Bretanha, com três conquistas em 1952, 1964 e 1968.

Os craques, os feitos, a revolução técnica e tática, a influência de meio mundo por uma linhagem contínua de desenvolvimentos da escola criada nos anos 1920/30, e as seleções inesquecíveis dão à Hungria um peso singular na história do futebol. Apesar da irrelevância a partir dos anos 1970, nenhum concorrente vai retirá-la do top 10 sem conquistar pelo menos uma Copa do Mundo.

A incrível final da Copa de 1954


Curiosidade: O 'Esquadrão de Ouro' eliminou a seleção brasileira nas Quartas de Final da Copa de 1954. A peleja, que terminou 4 a 2, foi seguida de uma pancadaria que ficou conhecida como "A Batalha de Berna". A Hungria também derrotou o Brasil na fase de grupos da Copa de 1966, por 3 a 1. O Flamengo trouxe o Honved ao Brasil para uma exursão em 1957, ocasião em que o clube rubro-negro correu risco de punição pela FIFA, já que o time de Puskas se recusava voltar para a Hungria. Era o mundo da Guerra Fria.

Evaristo de Macedo e Puskas na excursão do Honved no Brasil

Nenhum comentário:

Postar um comentário