sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

DATANDO OS EVANGELHOS SINÓTICOS



Há de se ter sempre cuidado com os critérios de evidência interna do texto utilizados pelos especialistas na composição histórica dos cânones bíblicos.


Por exemplo, a maioria deles considera o libro do Justo Profeta Amós como da primeira metade do século VIII a.C. Mas alguns veem camadas que pertencem ao século VI a.C.

Qual é o argumento? Ora, o de que o livro prevê a destruição de Jerusalém.

O pressuposto aí é que Amós não poderia ter profetizado o evento. O trecho teria de ser escrito depois do ocorrido. Eis o perigo de se ater a um viés travestido de ceticismo metodológico.

Pois algo parecido acontece com a datação dos Evangelhos. A razão mais forte para que datem os Evangelhos de São Lucas e de São Mateus no fim dos anos 80 é que se imagina que eles tem de ser escrito: i. Depois da destruição de Jerusalém e do Segundo Templo pelos romanos, e ii. Depois do Evangelho de São Marcos.

Afinal, Cristo profetizou a debaclé, e a pesquisa prefere apostar que os textos sejam uma releitura cristã das Guerras Judaicas projetada no passado como um discurso de Juízo Divino atribuído ao Senhor.

O curioso é que isso não é justificável sequer em um viés cético. Afinal, os relatos proféticos contra Jerusalém e o Templo são comuns na literatura sagrada, como o próprio Amós é prova. Seria simples supor, nessa ótica, que Cristo estivesse emulando os Profetas.

Mas há um argumento forte, e bem ao gosto daqueles que preferem se restringir a evidências textuais, para que a data dos sinóticos seja anterior ao ano 70.

É consenso de que o autor de Atos dos Apóstolos é o mesmo do Evangelho de São Lucas, não só pelo estilo das duas obras mas também porque uma é apresentada como continuação da outra já nos primeiros versículos. Ou seja, Atos dos Apóstolos foi escrito em conjunto ou pouquíssimo tempo depois que o Evangelho de São Lucas.

Ora, o tema de Atos é a expansão da Igreja por meio de missões, principalmente as lideradas por São Pedro e por São Paulo. Ambos desembocam em Roma em algum momento, onde sabemos que foram martirizados durante as perseguições desencadeadas por Nero -- segundo Tácito, elas começam no ano 64.

Só que Atos dos Apóstolos não faz nenhuma menção a esta perseguição, ou à morte de São Paulo e de São Pedro. Também não há menção à execução ilegal de São Tiago, o Justo, que tem papel importante na obra como líder inconteste da Igreja de Jerusalém -- e que foi morto pelos sacerdotes judeus nos anos 60, tanto segundo Flávio Josefo quanto Santo Hegésipo.

Nada se diz tampouco sobre a destruição de Jerusalém e do Templo, ou, de modo mais amplo, do início das Guerras Judaicas.

O livro chega ao fim com São Paulo vivo e bem em Roma, detido mas bem tratado o suficiente para cuidar do crescimento da comunidade ''com liberdade e sem proibição''.

Isso não tem sentido caso a obra datasse do fim dos anos 80 ou início dos 90, como se pretende. Mas faz todo o sentido do mundo caso o autor a escrevesse antes da perseguição, ainda na primeira metade dos anos 60.

Se essa linha de raciocínio estiver correta, o Evangelho de São Lucas tem foi escrito antes dessa data, já que Atos lhe dá continuação.

E isso muda inteiramente a datação dos demais Evangelhos, principalmente se Mark Goodrace e outros estiverem corretos em sua negação da fonte Q -- tem que tratei noutro local. São Lucas teria conhecimento do Evangelho de São Mateus, que assim seria decididamente da década de 50, jogando São Marcos igualmente para essa época.

Não vou tratar da questão da chamada ''prioridade de Marcos'' aqui. Mas estas observações já são suficientes para alertar o quão frágeis são as tentativas de datar os Evangelhos de forma tardia.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Margaret Barker, o Cristianismo e a História

  ''E Maria passou a ficar no Templo como uma pequena pomba, recebendo seu sustento das mãos de um anjo.''


Proto-Evangelho de Tiago






As ideias da Margaret Barker reproduzem um ''clima intelectual'' muito em voga nos estudos sobre o antigo Judaísmo.


Os historiadores finalmente conseguiram confirmar o pano de fundo da Reforma do Rei Josias e da produção dos textos do que se convencionou chamar de "História Deuteronômica". A Arqueologia demonstrou, sem sombra de dúvida, que entre os séculos IX e VII a.C., os Reinos de Israel e de Judá eram sociedades politeístas no sentido mais comum do termo.


Tanto a religiosidade popular e cotidiana, quanto o culto no Templo [o primeiro Templo] estavam imersos nas crenças e práticas cananeias. Então, se orava e se fazia sacrifícios pra vários deuses e deusas. Incluindo no Templo. Se sacrificava para Moloch, se adorava Astarte, Asherá etc.

As Sagradas Escrituras se referem a esta situação e a remontam ao fim do Reinado do próprio Salomão, que teria se rendido aos cultos de suas mulheres e concubinas.

A questão é: segundo a ''História Deuteronômica'' registrada pela Reforma de Josias, o politeísmo era uma degradação da Revelação recebida por meio do Santo Profeta Moisés, o Vidente de Deus. A Reforma seria uma maneira de retornar à religião primitiva dos hebreus.

Mas muitos na Academia veem a Reforma de Josias como uma "evolução" de Israel rumo à monolatria, não como retorno a uma situação original. [Algumas teses vão além, e julgam a Reforma como uma reação intolerante e masculinista contra a religiosidade até então vigente.]

Margaret Barker tem de ser entendida a partir daí. Quando ela diz que consegue recuperar os principais elementos presentes no Culto do Primeiro Templo, e que o Cristianismo é um retorno a este Culto Original, ela parte do princípio de que não houve nada antes da religião henoteísta [segundo ela] dos séculos IX ao VII a.C. Não houve Páscoa, Êxodo, Monte Sinai etc.

Não seria necessário entrar em detalhes sobre a possível reconstrução que ela faz do culto do Primeiro Templo para entender que essa hipótese é inaceitável diante do ponto de vista cristão, incluindo aí o ponto de vista de alguns dos autores em cima dos quais ela vai enxergar elementos que confirmariam suas teses.

O culto do Primeiro Templo, segundo uma ótica cristã, estava degenerado desde o fim do Reinado de Salomão. Ele não prestava. Logo, a Igreja não podia ser uma recuperação daquela teologia. Tinha de ser uma superação completa e em consonância com o Sinai.

[Não digo com isso que a Reforma do Rei Josias foi uma maravilha. A interpretação é de que ela apenas adiou a Ira Divina, que teria vindo com a conquista de Israel pelos babilônios. Aliás, o topos da Reforma de Josias deixou um legado interessante do imaginário moderno, e um dia pretendo explorar este tema.]

Só que a reconstrução que Barker se dispõe a fazer do culto do Primeiro Templo tampouco pode ser levada a sério no âmbito histórico em que ela se coloca.

Os problemas metodológicos são muito evidentes. Ela pretende entender o culto do Primeiro Templo a partir de uma releitura dos próprios textos hebraicos a partir da premissa de que foram alterados [ou por vocalizações diferentes dos massoretas e/ou pelo trabalho de escribas da história deuteronômica etc.] com o propósito de esconder o tipo específico de henoteísmo que ela enxerga.

Para além das pressuposições que esta hipótese carrega, as mudanças textuais que Barker faz pra forçar sua tese são arbitrárias, subjetivas, e em alguns casos francamente errôneas.

Por tudo o que se sabe no terreno histórico, não dá pra cravar com segurança nem que a "Rainha do Céu'' fosse Asherá e não alguma outra deusa, como Astarte. Não dá pra cravar tampouco que no período entre IX e VII a.C. os hebreus ainda não identificavam Iahweh com El. Que dirá imaginar uma tríade divina subordinacionista cultuada oficialmente e em segredo pelo Alto Sacerdócio, em que El era Deus supremo e Iahweh uma divindade nacional que tinha Asherá como consorte.

Se as bases não fossem frágeis o suficiente, Barker piora a situação ao apelar para uma "tradição secreta'' que teria sido mantida depois das Reformas 'monoteístas' de Josias, e perdurado até a Era Cristã.

Ela diz perceber as reminiscências dessa tradição em uma literatura que foi produzida meio milênio depois [em alguns casos, mais de um milênio depois] da Reforma de Josias, como o Livro de Enoch, escritos dos Santos Padres da Antiguidade, e apócrifos cristãos.

Como História acadêmica, o valor do empreendimento está irremediavelmente comprometido. Fica bem melhor no terreno da teologia e das narrativas esotericistas, um tipo de literatura que tem alternativas com credenciais que considero muito mais legítimas do que a imaginação de Margaret Barker.

A busca por ler o cristianismo pelas lentes do judaísmo do Segundo Templo é bastante válida. Ou pelo menos o que deveria ser o culto de acordo com os movimentos religiosos da Palestina daqueles tempos, já que não dá pra apelar para representantes desta ou daquela corrente de modo totalmente impune. [E eu admito considerar muito mais fundamentado ler os primórdios do cristianismo sob a lente de correntes que aceitavam o culto do Templo do que daquelas que o consideravam maculado.]

De modo que Barker se encontra em terreno muito mais sólido. Outros pesquisadoresd já apontaram os vínculos entre a Teologia de São João e os sacrifícios pascais no Templo, das associações da eucaristia com as tradições sobre o maná do deserto e dos sacrifícios incruentos [pães da proposição], e ainda da Liturgia cristã com os banquetes celestes dos anciãos que subiram ao Sinai e com o sacerdócio levítico, com noções de escatologia realizada presentes no primeiro século, ou ainda com o misticismo da Merkabah, ou as visões proféticas de Daniel.

Mas como se comprometeu a apontar a continuidade da ''tradição secreta'' que ela própria reconstruiu, Barker acaba fazendo extrapolações enviesadas e também arbitrárias em cima de textos como o apócrifo Evangelho de Tiago, hiper-interpretaçõs de prováveis rasuras de Manuscritos do Mar Morto, e distorções [problemáticas para uma historiadora que se pretende séria] de escritos de Fílon de Alexandria, sem conseguir manter consistência nem mesmo com suas próprias alegações sobre o culto do Primeiro Templo.

Aliás, a alegação de Barker de que Fílon conheceria os ensinamentos secretos dos Altos Sacerdotes porque ele próprio seria de descendência sacerdotal me faz pensar se ela refletiu sobre as implicações pra suas ideias caso o sumo-sacerdócio e o Sinédrio fossem mesmo dominados pelos saduceus -- que é a hipótese mais sólida diante das evidências que temos.

Desnecessário apontar a polêmica presente em alguns dos escritos cristãos mais antigos [cartas de São Paulo, Evangelhos canônicos, Atos dos Apóstolos] com os saduceus, principalmente sobre a questão da Ressurreição dos Mortos e da existência de poderes angélicos.

Mesmo que Barker apele e tente ver a Ressurreição de Cristo como uma ''ascensão mística'' em que o Iniciado se identifica com ''Poderes Angélicos" -- algo que não se pode extrair dos escritos canônicos, e daí que ela busque fundamentação em escritos gnósticos do século III, como o ''Evangelho de Filipe" --, isso não resolveria o problema dela com os Saduceus, a não ser que se deseje super-interpretar as crenças deles, que mal conhecemos exceto justamente pelo que se costuma dizer nos escritos canônicos, em Josefo etc.

Enfim, se já seria complicado demonstrar o que ela diz ver em apócrifos ou, por exemplo, na Epístola aos Hebreus, que dirá extrapolar isso para uma abordagem da Igreja dos primeiros séculos, daí para uma ''tradição secreta'' mantida pelo Alto Sacerdócio, até chegar no suposto culto triádico subordinacionista do Primeiro Templo, que ainda por cima seria a Tradição hebraica original.

História? Não. Tour de force para construir uma mitologia esotericista um pouco mais competente que a ''média'', certamente mais bem informada, e sem dúvida com intuições interessantes. Mas não passa disso.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

A Bíblia Protestante NÃO É a da Igreja Primitiva e a dos Apóstolos

 "Muita gente não sabe, mas a Bíblia usada pelos protestantes é uma tradução de um texto hebraico completamente diferente daquele usados pelos primeiros cristãos e pela maioria dos judeus na Antiguidade Clássica. É o texto massorético, uma versão do Antigo Testamento que se consolidou entre os judeus a partir do século II depois de Cristo. Os cristãos, e a maioria dos judeus, usavam outra versão das Escrituras, a Septuaginta, uma tradução em grego koiné feita em Alexandria a partir do século III a.C. Existem divergências importantes entre a Septuaginta e o Texto Massorético. Diferenças de palavras, de divisão de livros, e até de número de livros [a Septuaginta é maior, contém mais obras]. Estas diferenças não foram causadas pela tradução para o grego no século III a.C. Escavações realizadas nas cavernas de Qumram, perto do Mar Morto, revelaram um conjunto de textos datados dos séculos II e I a.C. Estes textos demonstram que existiam versões das Escrituras em proto-massorético com divergências uma para a outra. Também foram encontradas a Septuaginta e versões em aramaico e hebraico que traduziam a Septuaginta em determinados trechos."




Algumas pessoas se surpreenderam por eu dizer que a Bíblia utilizada pelos protestantes NÃO É a ''Bíblia" [Escrituras] da "Igreja Primitiva", e sim uma versão escolhida e elaborada pelos Rabinos do Judaísmo a partir do século II depois de Cristo. Vou aprofundar o assunto em etapas.



i. E os textos das Escrituras judaicas antes da Septuaginta?


Essa é uma pergunta recorrente, principalmente dentro daqueles círculos que gostariam de ter os ''textos originais'' em mãos. A resposta para ela é simples: por tudo o que sabemos da composição da 'Tanach' [as Escrituras Judaicas], não conhecemos nenhuma versão, cópia, fragmento de texto comprovadamente anterior à Septuaginta.

A tradição judaica assegura que uma cópia das Escrituras [Lei e Profetas] foi trazida de volta para a Palestina no fim do Exílio na Babilônia, no fim do século VI a.C. Acredita-se que cerca de 40 mil judeus retornaram para a Palestina a fim de reconstruir o Templo e o culto religioso.

Pois bem, como atestado pela própria tradição judaica, o hebraico já tinha se perdido como língua comum do povo nesse tempo. A maioria dos judeus falava o aramaico e, com o passar dos séculos, o grego [principalmente em sua versão popular, o koiné]. Só uma minoria entendia o hebraico, de forma que quando as Escrituras eram lidas em público, elas tinham de ser 'traduzidas' e explicadas para quem a ouvia. [origem dos targums, mas não vou me estender sobre isso aqui.]

Essa versão pós-exílica das Escrituras Judaicas é chamada entre historiadores de "Documento Sacerdotal" [ou ''priestly tradition''], pois foi recomposta pelos levitas que passaram a dominar a religião judaica em torno do culto realizado no Segundo Templo. Ela se consolida por volta do século V. a.C.

Ora, não temos nenhuma copia, fragmento ou versão qualquer desse texto. Mas é provável que tenha sido ele o utilizado para traduzir as Escrituras judaicas para o grego a partir de meados do século III a.C. [A versão conhecida como Septuaginta, ou ''Versão dos Setenta", ou ainda LXX.]

De modo que não há nenhuma razão para imaginar que alguma versão em hebraico é mais próxima do texto pós-exílico do que a Septuaginta. E, como vou explicitar ainda mais, a versão usada pela "Igreja Primitiva'' [Era Apostólica, inclusive] era não só a Septuaginta, como o texto massorético é POSTERIOR a ela.



ii. Existia texto em hebraico usado ao lado da Septuaginta?

Existia mais de uma variante correndo pela Palestina dos dois séculos anteriores a Cristo. Provavelmente existia uma versão usada no Templo de Jerusalém, mas que não nos chegou. E existiam variantes conhecidas a partir, por exemplo, das escavações nas comunidades de Qumram, no Mar Morto [a poucos quilômetros de Jerusalém].

Em Qumram foram encontrados mais de 15 mil rolos de papiros com textos datados de fins do século III a.C. até meados do século I a.C. Quase metade deles são textos das Escrituras Judaicas hoje conhecidas como "Tanach" [mas tenham atenção aqui, pois volto a isso mais adiante].

Pois bem, estes textos tem variações importantes quando comparados com os textos massoréticos. E tem variações importantes dentro de seu próprio ''corpus''. Antes da descoberta e da tradução desses manuscritos, a maior parte dos historiadores acreditava na seguinte teoria de transmissão dos textos: uma versão que teria sido traduzida para a Seputaginta; uma versão que teria dado origem ao texto massorético usado pelo Judaísmo Rabínico; e uma terceira versão usada pelos Samaritanos [um problema à parte, que não vou tratar aqui.]

Esta teoria é considerada muito problemática atualmente: a multiplicidade de variantes em circulação na Palestina era MUITO MAIOR do que apenas três versões textuais.

Mais uma observação: cerca de um terço dos manuscritos encontrados são fragmentos e cópias de textos e livros que não fazem parte hoje da Tanach, ou seja, das Escrituras Judaicas, mas que fazem parte de outras versões do cânone do Antigo Testamento. Alguns destes livros estão presentes na Septuaginta e não estão presentes no texto massorético: Tobit, o livro da Sabedoria, o Salmo 151 etc. Alguns não estão presentes nem mesmo na Septuaginta, como o Livro de Enoch.

Isso demonstra que não existia um cânone fechado no Judaísmo do século I. Não existia uma lista de livros canônica definitiva, esse cânone estava aberto a discussões. Quem acha, portanto, que o texto massorético mais tarde consolidado no Judaísmo Rabínico [e depois usado pelos protestantes] é mais próximo de um "cânone judaico'' original está viajando na maionese: não há nenhuma razão para se acreditar nisto.



iii. Por que a maioria dos judeus usava a Septuaginta?

Já respondi em parte a esta questão: com exceção de uma elite, os judeus não falavam nem liam hebraico. A língua comum da Palestina era o aramaico. E a língua franca dos letrados do Império Romano era, principalmente, o grego.

Vou acrescentar mais uma informação: a maior parte dos judeus no século I, o século em que Cristo realizou sua Missão Pública, NÃO vivia na Palestina, e sim em outras regiões dentro e fora do Império Romano.

A população judaica no Império Romano entre os século I a.C e I d.C. gravitava entre 4 e 6 milhões de pessoas. [entre 5 e 10% da população do Império.]. Existiam também judeus no Império ao lado de Roma, o Império Persa.

Pois bem, a população de judeus na Palestina estava entre 500 mil e 700 mil pessoas. Isto quer dizer que apenas entre 10% e 20% dos judeus viviam na Palestina. Os demais habitavam o Egito, a Síria, a Etiópia, a Itália etc. A população de judeus no Egito, por exemplo, era no mínimo tão grande [provavelmente maior] quanto a da Palestina. [no século I a. C, entre 500 mil e 1 milhão de judeus vivia no Egito].

Alexandria era a segunda maior cidade do mundo romano no século I a.C, atrás apenas da própria Roma. Sua população era estimada em cerca de meio milhão de almas. A população judaica da cidade ficava entre 150 mil e 200 mil habitantes, o que a tornava a maior cidade judaica do mundo [Jerusalém, por exemplo, tinha entre 30 mil e 80 mil habitantes nessa época, e nem todos eram judeus.]

Agora, o uso do grego no dia a dia se espalhavam mesmo na Palestina. A língua era comumente falada nas principais cidades da Galileia e da Judeia [e muito menos nas aldeias e no mundo rural]. A Galileia, por exemplo, era região de forte influência helênica. Uma cópia completa dos Profetas Menores da Septuaginta foi encontrada em uma das cavernas de Qumram!

Conclusão: o grego era a língua franca da maioria dos judeus. Era a língua que distinguia os judeus em Roma até o século V depois de Cristo! [a comunidade judaica de Roma se comunicava em grego, e não em latim!] Isso não apenas ajudou a disseminação da Septuaginta: a Septuaginta era uma DEMANDA das populações judaicas.

Além disso, a Septuaginta era venerada pelas populações judaicas, segundo o testemunho de Fílon de Alexandria. Existia um festival anual no porto de Alexandria em que os judeus, e também gregos, comemoravam o local em que a ''luz da Septuaginta" tinha surgido a partir da tradução dos anciãos.

Essas populações judaicas não faziam questão alguma de que o texto fosse em hebraico, nem achavam que isso fosse necessário para que eles se comunicassem com a mensagem divina.



iv. É seguro dizer que a Igreja Primitiva usava a Septuaginta?

É líquido e certo. Por diferentes razões:

a) Todos os livros do Novo Testamento foram escritos em GREGO: as cartas de Sao Paulo, os Evangelhos, Atos dos Apóstolos, as cartas católicas [as epístolas de São Tiago, Sao Judas, de São João e de São Pedro]. O único texto do Novo Testamento que pode ter sido escrito em aramaico ou hebraico é a primeira versão [hoje perdida] do Evangelho de São Mateus. Mas isto é uma Tradição da Igreja que não tem crédito entre os historiadores. Seja como for, o Evangelho canônico de São Mateus é também a versão em grego. Ora, o fato de todos os livros do Novo Testamento terem sido produzidos e copiados em grego indica que eles eram escritos e lidos por comunidades que liam e se comunicavam também em grego.

b) Os escritores cristãos entre os séculos II e V d. C. citavam e defendiam o uso da Septuaginta. E inclusive criticaram os judeus quando os rabinos, a partir de fins do século II e mais acentuadamente no século III, passaram a defender o uso de versões hebraicas [o texto proto-massorético, como vou explicitar].

c) Os próprios textos do Novo Testamento demonstram que seus autores usavam a Seputaginta! Há citações das Escrituras nas cartas de São Paulo que batem perfeitamente com a Septuaginta, mas não com o texto massorético. No Capítulo 7 de Atos dos Apóstolos, Santo Estêvão faz um discurso baseado nas Escrituras Judaicas, e afirma, no versículo 14, que 75 pessoas foram com Jacó para o Egito. Ora, o numero 75 está na Septuaginta, tanto em Gênesis 46:24 quanto em Êxodo 1:5. No texto massorético o número é de 70 pessoas. O autor do Evangelho de Lucas, escrevendo nos anos 60 [ou nos anos 80, segundo os historiadores], usava a versão da Septuaginta. Mais: em 7:43, Santo Estêvão cita o capítulo 5 do livro de Amós, falando do deus Renfão. Ora, no texto massorético, nesse lugar em Amós, o nome do deus é Quinjum! O nome 'Renfão' só se encontra na Septuaginta! São exemplos simples para ilustrar o ponto.

Ou seja, os protestantes não usam a mesma versão do ''Antigo Testamento", ou Escrituras judaicas, que a ''Igreja Primitiva'', que os cristãos da Era Apostólica etc. Eles usam outro texto, que foi adotado pelos Rabinos a partir do século II depois de Cristo.




v. Como surgiu o texto massorético usado pelos protestantes?


A cidade de Jerusalém e o Templo de Jerusalém [o Segundo Templo] foram inteiramente destruídos pelos romanos por volta do ano 70 d.C. como consequência das Guerras Judaicas. Mais tarde, os romanos reconstruíram Jerusalém como cidade romana e deram permissão aos judeus pra que reconstruíssem o Templo [seria o Terceiro Templo]. Mas a Revolta de Bar Kochba, incentivada pelos próprios sacerdotes, levou à expulsão da maior parte dos judeus da Palestina [por volta de 135 d.C.].

A religião judaica teve de ser reconstruída em cima da autoridade dos Rabinos. Esse rabinato se considerava herdeiro das escolas farisaicas da Palestina no século I. Portanto, eles são herdeiros 'espirituais' dos fariseus. O Judaísmo Rabínico nasce a partir da Mishná e, posteriormente, do Talmud, conforme expliquei na outra postagem.

Pois bem ,foram estes rabinos que escolheram uma das variantes em hebraico para ''texto oficial'' e que estabeleceram o cânone judaico -- vamos lembrar que o cânone final dos judeus não estava ainda definido! Essa definição só ocorre no século IV da Era Cristã, quando finalmente se chega a um consenso sobre os 24 livros da Tanach [Escrituras Judaicas].

Voltando ao ponto principal, o texto em hebraico adotado pelos Rabinos é chamado de Proto-Massorético. Não é ainda esse o texto usado depois pelos judeus e pelos protestantes. Explico:

O hebraico não tem vogais. Assim, na hora de entender o texto, as vogais tem de ser inseridas. Não apenas isso, mas também os acentos etc. Qualquer mudança na vocalização do texto pode trazer diferenças de sentido. Os massoretas [os escribas responsáveis pela definição do texto que os judeus passaram a chamar de ''tradicional''] trabalharam nesta uniformização. Martin Goodman, professor da Universidade de Oxford, diz o seguinte:

"Os estudiosos responsáveis pela produção do que ficou conhecido como masorah, ou ''texto tradicional'', trabalharam principalmente na segunda metade do primeiro milênio da Era Comum, a maior parte na terra de Israel, culminando no texto bíblico determinado na Escola de Tiberíades no século X. Suas anotações críticas consistiam em marcar cada lugar onde o que é lido no texto (keri) deve ser diferente do que está escrito (ketiv). Esse processo poderia alterar completamente o sentido aparente de um trecho, lendo (por exemplo) lo (com um vav) significando ''para ele'' em vez de lo (com um aleph) significando ''não'' em Isaías 63:9. Em vez de ler que ''não era nem um mensagem nem um anjo, mas sua própria Face que os salvava", os massoretas entendiam que o texto dizia, "e Se tornou seu salvador. Ante sua angústia Ele se angustiava", com a importante implicação de que Deus sofre com os sofrimentos de Israel".[GOODMAN, 2017]

O trecho citado pelo professor é típico: comparem Isaías 63:9 numa bíblia protestante, que segue o texto dos Rabinos, com o texto nas traduções que seguem a Septuaginta nesse trecho [bíblia Ave Maria, por exemplo]. As implicações são óbvias pra quem quiser refletir minimamente sobre o tema...

Enfim, os massoretas trabalharam em cima do texto em Academias na Palestina e na Babilônia entre o século V e o século X. Só no fim desse período podemos falar do estabelecimento definitivo de um Texto Massorético, seguindo as linhas das famílias rabínicas que dominavam a chamada "Escola de Tiberíades". Só a partir daí ocorreu real homogeneidade de transmissão do texto em hebraico.




vi. Os protestantes e o Texto Massorético

Quando Lutero rompeu com a Igreja Católica-Romana e traduziu as Escrituras para o alemão, decidiu utilizar o texto massoreta dos Rabinos por supor ingenuamente que ela refletia de forma mais exata as Escrituras dos tempos de Cristo.

Conforme argumentei aqui, os protestantes ESTÃO ERRADOS. O Texto Massorético é uma elaboração gradual realizada entre os séculos V e X a partir de uma versão em hebraico chamada de 'proto-massorético', adotada pelos Rabinos nos séculos II e III, e que era UMA DAS variantes existentes na Palestina entre os séculos II a.C e I d.C.

Não bastasse isto, o texto proto-massorético NÃO ERA a versão das Escrituras usada pela ''Igreja Primitiva'' e pelos Apóstolos.

Existe ainda um problema a mais para o protestantismo: os Rabinos que escolheram e elaboraram o Texto Massorético alegavam ser herdeiros das escolas farisaicas. Não preciso nem dizer o que os Apóstolos e o próprio Cristo pensavam dos fariseus, basta ler os Evangelhos, principalmente os de São Mateus e São João.

Por fim, esses mesmos Rabinos que estavam compondo o Texto Massorético elaboravam e ensinavam também o Talmude. Existem trabalhos acadêmicos que demonstram que, no Talmude, Jesus Cristo é retratado como um feiticeiro, que aprendeu magia no Egito, foi corretamente executado, e cuja alma se encontra no inferno [eles descrevem as torturas de Cristo no Inferno].

Nada disso aqui é invenção minha, tudo pode ser facilmente comprovado.

Muitos protestantes acreditam no 'Sola Scriptura', ou nas Escrituras como única regra de fé. Ao mesmo tempo, usam Escrituras que foram elaboradas por autodeclarados herdeiros dos fariseus séculos depois da Ressurreição do Senhor e que NÃO ERAM usadas na ''Igreja Primitiva'', que os próprios protestantes tendem a ver como uma ''era de ouro'' do cristianismo.

Complicado, né?

terça-feira, 5 de setembro de 2023

FAROESTES INDISPENSÁVEIS 9: The Westerner ["A Última Fronteira"]

 



NÚMERO 10: The Westerner [''A Última Fronteira''], de 1940 --> Vou abrir uma exceção à ordem cronológica da lista, voltar dezoito anos no tempo e citar essa pérola estrelada por Gary Cooper e por Walter Brennan, que ganhou o seu terceiro oscar de ator coadjuvante pelo papel.


William Wyler traz para a tela uma versão romantizada da vida de um personagem real do Velho Oeste, o ''juiz de paz'' Roy Bean, interpretado com maestria pelo lendário Brennan. Muitos aspectos conhecidos na biografia de Bean se encontram no filme. Ele é nomeado para uma região sem lei, e realiza os julgamentos na Taberna que possuía e onde reunia o seu ''júri'', formado por caubóis embriagados. Um canastrão que inventava sentenças esdrúxulas tirando vantagem delas, principalmente das multas que aplicava.


O filme retrata a veneração do juiz por Lilly Langtry. Bean renomeou uma das cidades em que se estabeleceu e em que exerceu sua ''jurisdição'' com o nome da atriz. Uma de suas tabernas era chamada de ''Jersey Lilly'', apelido de Langtry.


O problema que tinha no pescoço e costas, resultado de uma tentativa de enforcamento da qual escapou, também se torna motivo pra cenas cômicas.


Diferente do sujeito histórico, porém, o Bean de The Westerner gosta de enviar seus récus para a forca. E está no meio de uma disputa comum no Velho Oeste e que reatualiza naquele lugar mítico a rivalidade entre pastores e agricultores. No caso, uma guerra entre caubóis, que criavam e conduziam gado, e colonos que chegavam na região querendo demarcar suas terras, diminuindo assim as áreas de pastoreio.


''A Lei a Oeste dos Pecos'', como Bean se nomeava, faz de tudo para manter a hegemonia dos caubóis e prejudicar seus rivais que vivem do plantio.


Cole Harden [Gary Cooper] é um pistoleiro que passa pela região e é confundido com um ladrão de cavalos. Sua sentença no tribunal de Bean seria a de morte, mas ele é esperto o suficiente para adiar a própria execução se aproveitando da paixão de Bean por Langtry. Cole inventa uma série de lorotas sobre como teria conhecido a atriz e conquistado uma mecha de seus cabelos. O juiz e Harden estabelecem uma relação de admiração mútua e amizade. O pistoleiro conhece os abusos perpetrados pelo dono da taberna que transforma bêbedos em jurados, e o juiz também percebe que o personagem de Cooper é um trambiqueiro. Mas o afeto mútuo é inevitável.


Mas Cole se apaixona pela filha de um agricultor local. O protagonista fica num fogo cruzado entre sua amada e o amigo, e usa a mentira sobre a mecha de cabelo da musa para tentar manipular o juiz e conduzi-lo a um acordo.




Brennan e Cooper oferecem uma aula de interpretação [e é possível perceber em ambos até certos maneirismos do cinema mudo, ainda que a era deles já tivesse chegado ao fim há mais de dez anos], misturando temas típicos do faroeste com humor e drama na medida exata. No fim, a musa redime os rivais, embora os agricultores saiam vitoriosos na pendenga. [Como se diz em The Magnificent Seven, os agricultores sempre acabam vitoriosos, constantes que são, similares à terra em que trabalham].

terça-feira, 8 de agosto de 2023

O Flamengo é pai do Fluminense?, ou: o vínculo umbilical entre os dois clubes

 

Alberto Borghert, Remador do Flamengo desde 1906, e Capitão do time de Futebol do Fluminense em 1910 e 1911.






Diante da escassez de títulos, quando os tricolores desejam pontuar que são importantes na História do futebol afirmam que "o Fluminense é pai do Flamengo". Fundar o Flamengo seria a grande contribuição que o clube das Laranjeiras teria dado ao mundo. O problema é que isto é uma grande mentira, conforme explico mais uma vez abaixo.


Quando eu era criança, a historieta de que o Fluminense havia fundado o Flamengo grassava solta no Rio de Janeiro. Todo mundo falava disso, e não havia muitos meios de contestar, pois o acesso à História dos clubes era difícil. Eram mais ou menos como as historietas de que o Botafogo foi base das três seleções que conquistaram a Copa do Mundo, ou de que nenhum jogador do Flamengo era campeão da Copa do Mundo. Ou então a historieta que o Flamengo ganhou uma Libertadores disputada sem times argentinos. Era mentirada braba que corria solta, e poucos tinham a internet à mão para colocar as coisas em seu devido lugar.


Mas eu era intelectualmente curioso e lia muito. Rapidamente descobri que o Flamengo foi o clube que mais cedeu jogadores para a seleção de 1958. Que o Botafogo tinha tantos titulares naquele escrete quanto o Vasco da Gama. Que o Glorioso só tinha um jogador na seleção de 1970 [mesma quantidade que o Flamengo]. Que o River Plate foi um dos representantes argentinos na Libertadores de 1981.
 

E, claro, descobri também que o Flamengo era sete anos mais velho que o Fluminense. Assim como os detalhes por trás da fundação do Departamento de Desportos Terrestres d'O Mais Querido do Brasil. E a história era completamente diferente daquela divulgada por tricolores com apoio da mídia.


O Flamengo foi fundado em 1895 como um clube de Regatas. O Remo era o esporte mais popular da cidade. Popular em vários sentidos. Em dia de Regata, a cidade parava. A elite comparecia em massa, os banqueiros e industriais, os políticos, e até o Presidente da República. As mulheres afluíam em profusão, pois os remadores eram os 'galãs' da época. E o povão também estava lá, apostando nos vencedores, como fazia no turfe, e assistindo aquelas competições gratuitas.


O Flamengo logo se tornou um dos clubes mais populares do Remo. Segundo o célebre cronista João do Rio, "O Clube de Regatas do Flamengo tem uma dívida a cobrar dos cariocas. Dali partiu a formação das novas gerações, a glorificação do exercício físico, para a saúde do corpo e a saúde da alma. [...] Foi o núcleo de onde irradiou a paixão avassaladora pelo esporte."





O futebol nasce como lazer de uma pequena elite. A mitologia criada em torno da chegada do futebol no nosso país demonstra esta verdade: filhos da alta classe que voltavam de temporadas na Europa [ou mais especificamente da Inglaterra] e traziam bolas, uniformes e livros de regras daquela que era a grande moda nas Ilhas Britânicas. Ora, o futebol só desbancou de vez o Remo no gosto popular lá pros anos 1920.


Mas isso não aconteceu de uma hora pra outra, claro, o ''ludopédio'' foi se espraiando aos poucos. Em 1902, o Fluminense foi criado no Rio de Janeiro dedicado exclusivamente ao futebol. O que pouco se diz é que o Fluminense foi fundado na Rua Marquês de Abrantes, no Flamengo. Em uma reunião de vinte pessoas, sendo três delas sócios do Clube de Regatas do Flamengo.
 

E não eram sócios quaisquer: um deles era Virgílio Leite, Presidente do Flamengo. O Presidente da sessão que fundou o Fluminense, Manuel Ríos, também seria Presidente do Flamengo anos depois. E Arthur Gibbons, o terceiro sócio do Flamengo presente, seria Presidente do Clube no ano seguinte.
 

Portanto, diferente da narrativa tricolor, é o Fluminense que foi fundado [também] por sócios influentes do Flamengo. [Não exigimos paternidade, porém, fiquem tranquilos.]


Manuel Ríos, Presidente do Flamengo em 1905, presidiu também a reunião de vinte pessoas que fundou o Fluminense naquele ano. Oscar Cox, primeiro Presidente tricolor, era Secretário do encontro.



Isso explica a ligação dos dois clubes naquelas primeiras décadas. Era muito comum que Remadores do Flamengo jogassem futebol pelo Fluminense. E que os tricolores das Laranjeiras torcessem para o Flamengo nas regatas.
 

Tão comum que Alberto Borghert, capitão do time de futebol do Fluminense, era sócio e Remador do Flamengo. Remador do Flamengo desde 1906, diga-se de passagem. [Foi jogador e capitão do Fluminense apenas em 1910 e 1911.]
 

[O capitão do time de futebol tinha um status muito especial naqueles tempos:  fazia as vezes de técnico também, era o verdadeiro comandante da equipa.]


Ora, houve um desentendimento político em torno de Alberto Borghert no fim do campeonato carioca de futebol de 1911. Quem comandava a direção do tricolor das Laranjeiras queria afastar o capitão da decisão do título. O time não aceitava, mas resolveram internamente ganhar o título para só depois tomar alguma medida mais drástica. Era questão de honra. Eles levantaram o troféu mas não foram ao jantar de comemoração oferecido pela Diretoria do Clube. Preferiram anunciar a saída do Fluminense.
 

Alguns desses atletas do futebol tricolor eram atletas também do Flamengo. E o maior deles, o capitão Alberto Borghert, convenceu o grupo que a solução seria migrar para o Flamengo. Borghert sugeriu ao rubro-negro a fundação de um Departamento de Desportos Terrestres. O Flamengo torceu o nariz, mas decidiu aceitar.


E assim o Flamengo rompeu uma dualidade que já era nítida na cidade naqueles tempos: a divisão entre Clubes de Remo e Clubes de Futebol foi superada. O Flamengo foi o primeiro Clube de esportes aquáticos a disputar também torneios de Futebol. O escudo mais famoso, dedicado aos esportes terrestres, se uniu ao escudo mais antigo [e que considero ainda mais belo], que representa os esportes aquáticos. Campeão de Terra e Mar. 



 

Os primeiros times de futebol do Flamengo, organizados pelo Remador Alberto Borghert, foram formados por atletas vindos do Fluminense. Mas não só. Também migraram para o rubro-negro jogadores vindos do América-RJ e do Botafogo.
 

O fato é que a fundação do Departamento de Desportos Terrestres do Flamengo foi realizado por decisão do próprio clube e por sugestão de um Remador rubro-negro. [Que, como era comum naqueles tempos, jogava bola no Fluminense, onde chegou a capitão do time.] E que mais tarde foi também Presidente do Flamengo [1927]. Borghert foi também Diretor da CBD [Confederação Brasileira de Desportos] e do CND [Conselho Nacional de Desportos] e autor do primeiro gol no estádio da Arena da Baixada, no Athletico Paranaense, em 06 de setembro de 1914, em um amistoso em que o Flamengo derrotou o Internacional-PR por 7 a 1.


Não foi o "Fluminense que fundou o futebol do Flamengo". O verdadeiro Pai do Flamengo, como sabem todos os conhecedores da história do Clube mais popular do país, é José Agostinho Pereira da Cunha, nosso primeiro Presidente, em 1895.


O tricolor carioca é meio carente de grandes feitos, e isto talvez explique o apego à mentira de que são "pais do Flamengo". Seria uma forma de finalmente terem importância incontestável na história do ''violento esporte bretão''. Por isso, caso um tricolor cometa o equívoco de reproduzir esta historieta, sejam compreensivos. Corrijam, mas com cuidado e elegância. Entendam que é tudo o que eles tem. Não tirem o chão dos pés dele com brutalidade e falta de cuidado. Lembrem-se que na origem os clubes tinham excelentes relações, que Sócios-Presidentes do Flamengo estiveram entre os fundadores do nosso rival mais novo e menor.

Abaixo, imagem da ata de fundação do Fluminense, sessão presidida por Manuel Ríos, sócio e Presidente do Flamengo, na Rua Marquês de Abrantes, no bairro do Flamengo, Rio de Janeiro.


terça-feira, 18 de julho de 2023

Alexander Dugin e Kemi Seba contra os mestiços

Dugin fez uma postagem no twitter enchendo a bola do livro de Kemi Seba sobre pan-africanismo, e destacando pontos com os quais ele "concorda totalmente". O ideólogo russo faz algumas ressalvas à posição de Seba no fim do tuíte, mas considera "geniais" os elementos elencados. [1] Para mim, são quase todos problemáticos. Mas destaco especialmente os pontos 11 e 12, que dizem respeito ao Brasil de forma ainda mais direta. [Tradução minha, sem grandes revisões]: "11. Quando mais negro, melhor. Os mulatos devem ser levados de volta à melatonina -- o casamento de negros de pele mais clara com negros de pele mais escura deveria ser uma norma sanitária. É a ação mística de liberação da escravidão e da dispersão. Para apagar a branquitude como marca de danação e doença espiritual. 12. Quilombos podem ser criados não só na África mas em outros territórios em que africanos vivem -- o primeiro estado africano baseado no princípio quilombola foi criado em Pernambuco (Brasil) e durou de 1604 e 1694. Era chamado de Palmares e sua capital Makaku. Mais Palmares! Tudo isto é genial!"



Dugin concorda, portanto, com princípios mais radicais do afrocentrismo e de um movimento negro que defende medidas explicitamente racistas. Dentre elas, a ideia de que mulatos, ou seja, mestiços não deveriam existir. Na verdade, o casamento de mestiços com negros deveria ser "uma norma sanitária" [''genial!", não se contém Dugin] a fim de "escurecê-los". Seria a aplicação inversa do "embranquecimento" incentivado pelas elites racistas da Primeira República. O que há de comum entre esta medida sanitária e aquela das elites da República Oligárquica é a imitação do código racista anglo-saxão segundo o qual o mestiço é uma excrescência e não deveria existir. Para elas, pior do que ser preto [ou branco, no caso da retórica de Kemi Seba], pior do que ser indígena, é ser mestiço. A hierarquia racial que o Norte Geopolítico incentivou a partir de fins do século XVIII é uma bizarrice, mas pior ainda é seu ódio às mesclas, misturas, mestiçagens que ameaçam os limites definidos pela classificação racial que eles criaram. Dugin nao vê nada errado nestas ideias de Seba. Ele as considera geniais. É verdade que ele discorda da tendência a cair no racismo biológico e no ódio ao branco, pra lá de explícitos na retórica do pan-africanista Kemi Seba [que adotou um nome que significa "Estrela Negra"]. Mas não vê nada demais que a cor da pele seja uma marca espiritual e que o mestiço, portanto, seja encarado como expressão de degeneração. A Idade de Ouro esperada por Dugin [e por Seba] é racializada. Não há espaço nela para o brasileiro, este ser de fronteiras, que nasce no espaço limítrofe.


É difícil imaginar uma maneira em que esta visão possa ser aplicada ao Brasil, um país em que quase metade da população [umas cem milhões de pessoas] se declara parda, sem levar ao caos social. Seba e Dugin oferecem uma chave na instrumentalização da ideia de Quilombo, que é lida por ele quase que no tom de exclusivismo racial e étnico. Sou favorável à ideia comunitária do Quilombo, regida por princípios culturais próprios e por certa autonomia administrativa e identidade cultural. Mas Dugin e Seba deveriam pesquisar mais para entender que em Palmares viviam também pretos crioulos, mulatos, e até brancos pobres. E no antigo território de Palmares são identificadas também ruínas de igrejas. O exclusivismo e segregacionismo étnico e racial defendido por Dugin e Seba [''todo mundo com uma raça definida e cada raça em seu quadrado''] não serve ao Brasil. É o anti-Brasil por excelência, país em que escolas de samba são abertas a pessoas de todas as raças e etnias, e também a pessoas sem raça e etnias, e que podem ser administradas por brancos, mestiços etc., sendo emblemas da nacionalidade antes que da racialidade. O olhar segregacionista de Dugin e Seba não cabe nem mesmo no Quilombo dos Palmares, como revela qualquer pesquisa decente sobre o tema.

Os duginistas no Brasil rebolam pra escapar das críticas que lhes fazemos de importação das ideias etnicizantes de Dugin. Conforme a Sol da Pátria já explicou, o ideólogo russo é partidário de uma radicalização do modelo de separação étnico-racial implantada no Império Russo e depois no Estado soviético. Cada etnia deveria habitar em seu próprio território, com concessões na legislação civil para suas próprias identidades culturais. Na Rússia existem até passaportes internos a fim de evitar o deslocamento das "nacionalidades"/etnias. Este modelo cabe perfeitamente nas ideias racializantes descritas nos pontos abaixo. Cada raça/etnia no seu "quadrado", ou território, vivendo sob sua própria cultura, lei e organização sócio-política. As mesclas [mestiçagens de quaisquer tipos] seriam evitadas pois são entendidas como uma degeneração moderna. Não é à toa que Dugin considera um país sem etnias ou em que as etnias não exercem um poder central na organização comunitária como um emblema da corrupção. Ele critica os EUA por serem uma nação desetnicizada. Ora, o Brasil é muitas vezes mais desetnicizado que os EUA. A centralidade da ideia de etnia, com a qual Seba e Dugin ocultam certo racialismo latente quando não um racismo explícito, não cabe de forma alguma na América Latina. Não cabe na experiência diária de nossos povos. Nada contra as etnias e raças em si mesmas. Mas gostamos tanto delas que as misturamos, e continuaremos a misturá-las, em novos arranjos que são o terror da limitada, estreita e reducionista imaginação racialista.


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[1] Postagem de Dugin no Twitter: https://twitter.com/Agdchan/status/1680274225712463872


domingo, 16 de julho de 2023

WIMBLEDON, O TORNEIO QUE CRIOU UM ESPORTE

 



Pode parecer exagerado dizer que o tennis nasceu em Wimbledon. Mas nem tanto. É verdade que existiram precursores ao atual ''esporte dos Reis''. Na Idade Média, o 'jeu de paumme', de origens misteriosas, se tornou uma verdadeira mania nos mosteiros cristãos até ser proibido pela Igreja no século XIV por causa do tempo que os monges dedicavam ao jogo e às apostas.

O 'jeu de paumme' migrou para os castelos da Nobreza, onde evoluiu para o ''tênis régio'', também chamado de ''tênis real''. Em todo lugar da Europa havia salões e corredores de castelos em que as disputas ocorriam sobre o piso duro de pedra [1].

Mas estes jogos eram bem diferentes do tênis que conhecemos. Outras regras, outros equipamentos, outro contexto [2]. O ''tênis real'' entrou em ocaso após a Revolução Francesa: os progressistas o consideravam por demais associado com o modo de vida da tão odiada aristocracia. No início do século XIX, restavam só meia dúzia de salões para a prática do jogo em toda a França.

No segundo quarto do século XIX, a nova nobreza inglesa -- já aburguesada, elite social de um país que inventava a indústria moderna, a vida urbana contemporânea e a própria ideia hodierna de esporte -- passou a praticar o críquete e, um pouco depois, o ''lawn tennis'' [tênis de grama] nos gramados de suas residências e mansões, em meio ao lazer de fim de semana, em reuniões de ladies and gentlemen, em piqueniques e festas. Nada de viajar pra castelos no interior da Inglaterra pra se enfiar em escuros salões e corredores: o melhor era a diversão ao ar livre.

Um clube de críquete criado em 1868 por seis gentlemen resolveu apostar no novo entretenimento. O All England Croquet Club [3] criou sua primeira quadra de tênis em 1875, data que alguns consideram como a verdadeira certidão de nascimento do esporte. O sucesso levou o clube a criar outras quatro quadras em volta da primeira, que ganhou assim o epíteto de ''Quadra Central'', mais tarde repetido em todos os clubes e torneios do mundo. O primeiro torneio da história surgiu da necessidade de financiar um rolo de nivelamento de quadras. Em 1877, nascia Wimbledon, a primeira final tendo sido assistida por um público de duzentos pagantes.




Foi em torno do ''Championship'' que se consolidaram os padrões do ''esporte branco''. Em 1877, até a altura da rede era diferente: 1,52 m nas extremidades e 0,99 no centro. A área de saque tinha 7,92 m da rede contra 6,40 m atuais. Wimbledon é anterior às regras do tênis, que foram se disseminando a partir das convenções firmadas no All England Club. Foi ali que a quadra se tornou retangular [e não mais na forma de uma ampulheta] e adquiriu as medidas que se espalharam pela Europa. Wimbledon é anterior à ITF, fundada como International Lawn Tennis Federation [ILTF] em 1913 [4]. Era o único torneio considerado 'major' antes da decisão da ILTF de criar o Grand Slam, em 1924.

A mística do Championship só cresce desde então, assim como sua tradição e singularidade. É o único Grand Slam que continua sendo disputado na superfície original do tênis, o único também que mantém a antiga tradição do traje inteiramente branco. Não há maior prestígio para os tenistas do que levantar o troféu do torneio, cujo glamour é muito superior e bem mais antigo do que o mundo do profissionalismo, do pragmatismo e da eficiência a todo custo. Como disse a bicampeã Petra Kvitova: ''[Wimbledon] significa tudo, definitivamente. Quer dizer, é Wimbledon! O tennis aqui é História.''


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[1] Foi no salão do 'Jeu de Paumme' do Palácio de Versalhes que os representantes do Terceiro Estado se reuniram e fizeram o 'juramento de péla [jeu de paumme]', desobedecendo a ordem de dissolução dos Estados Gerais e dando início à Revolução Francesa.

[2] Prova da diferença é que o 'Jeu de Paumme', cujo prestígio se recuperou parcialmente no século XIX, continuou no programa dos Jogos Olímpicos em 1908, quando o ''lawn tennis'' já era um grande sucesso no mundo anglo saxão.

[3] Mais tarde rebatizado de All England Tennis Club e All England Tennis and Croquet Club.

[4] A palavra ''Lawn'' só foi retirada do nome da Organização em 1977.