sábado, 13 de janeiro de 2018

AS DIFERENÇAS ENTRE A ESPIRITUALIDADE ORTODOXA E OUTRAS TRADIÇÕES

Metropolita Hierotheos Vlachos

traduzido por André Luiz V. B. T. dos Reis




Santo Ancião Paisios

A espiritualidade ortodoxa é bastante diferente de qualquer outra ''espiritualidade'' de tipo oriental ou ocidental. Não pode existir confusão entre as diversas espiritualidades, porque a Ortodoxia é teocêntrica, enquanto as demais são antropocêntricas.

A diferença aparece primeiro no ensino doutrinal. Por isso colocamos a palavra ''ortodoxa'' depois de ''Igreja'' para distingui-la de qualquer outra religião. Com certeza, a palavra''ortodoxa'' deve estar associada com a palavra ''eclesiástica'', já que a Ortodoxia não pode existir fora da Igreja; nem, claro, pode a Igreja existir fora da Ortodoxia.

Os dogmas são resultados de decisões dos Concílios Ecumênicos sobre vários assuntos de fé. Os dogmas são chamados assim porque delimitam as fronteiras entre o erro e a verdade, entre a doença e a saúde. Assim, eles são, por um lado, expressões da Revelação, e por outro lado, agem como ''remédios'' para nos guiar até a comunhão com Deus, nossa razão de ser.

As diferenças dogmáticas refletem diferenças correspondentes na terapia. Se uma pessoa não segue o ''caminho reto'', não consegue alcançar seu destino. Se não toma os ''remédios'' apropriados, não consegue adquirir saúde; em outras palavras, não vai experimentar nenhum benefício terapêutico. Repito, se comparamos a espiritualidade ortodoxa com outras tradições cristãs, a diferença de abordagem e método terapêutico se torna mais evidente.



Um ensinamento fundamental dos Santos padres é de que a Igreja é um ''hospital'' que cura o homem doente. Em muitas passagens das Sagradas Escrituras é usada essa linguagem. Uma delas é a parábola do Bom Samaritano: ''Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão; E, aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre o seu animal, levou-o para uma estalagem, e cuidou dele; E, partindo no outro dia, tirou dois dinheiros, e deu-os ao hospedeiro, e disse-lhe: Cuida dele; e tudo o que de mais gastares eu to pagarei quando voltar.'' [Lucas 10:33-35]

Nessa parábola, o samaritano representa Cristo que cura o homem ferido e o leva para a estalagem, que é o ''hospital'', a Igreja. É evidente aqui que Cristo é apresentado como um Curador, um médico que sana os males; e a Igreja é o verdadeiro hospital. É muito representativo que São João Crisóstomo, ao analisar essa parábola, destaque essas verdades enfatizadas acima.

A vida do homem ''no Paraíso'' foi reduzida a uma vida governada pela diabo e seus ardis. ''E caiu nas mãos de ladrões'', isto é, nas mãos do diabo e de todos os poderes hostis. As feridas sofridas pelo homem são os vários pecados, como dito pelo Profeta Davi: ''As minhas chagas cheiram mal e estão corruptas, por causa da minha loucura'' [Salmos 37]. Porque ''todo pecado causa uma injúria e uma ferida''. O Samaritano é o próprio Cristo que desce dos Céus à terra para curar o homem ferido. Ele usa óleo e vinho para ''tratar'' as feridas; em outras palavras, ao ''misturar Seu sangue com o Espírito Santo, traz o homem à vida''. Segundo uma outra interpretação, o óleo corresponde à palavra consoladora e o vinho à palavra de rigor. Misturadas, elas tem o poder de unificar a mente dispersa. ''Ele o pôs sobre seu animal'', isto é, Ele assumiu a carne humana sob ''os ombros'' de Sua Divindade e ascendeu encarnado ao Seu Pai nos Céus.

Então o bom samaritano, ou seja, Cristo, levou o homem pra a grandiosa, maravilhosa e espaçosa estalagem -- a Igreja. E entregou o homem ao estalajadeiro, que é o Apóstolo Paulo, e através do Apóstolo Paulo todos os Bispos e padres, dizendo: ''Tomem conta dos gentios, que entreguei a vocês na Igreja. Eles sofrem com a doença do pecado, então curem-nos, usando como remédio as palavras dos Profetas e os ensinamentos do Evangelho; tornai-os saudáveis através das admoestações e das palavras consoladoras do Velho e Novo Testamentos.'' Assim, segundo São João Crisóstomo, Paulo é quem mantém as Igrejas de Deus, ''curando todas as pessoas por meio de suas admoestações espirituais e oferecendo a cada uma delas aquilo de que realmente necessitam.''

Na interpretação dessa parábola por São João Crisóstomo, é claramente demonstrado que a Igreja é um hospital que cura as pessoas afligidas pelo pecado; e os Bispos e padres são os terapeutas do povo de deus.


São José o Hesicasta

E é precisamente esse o trabalho da teologia ortodoxa. Quando nos referimos à teologia ortodoxa, não falamos simplesmente da história da teologia. A última, claro, é parte dela mas não de modo absoluto ou exclusivo. Na tradição patrística, os teólogos são videntes de Deus. São Gregório Palamas chama Barlaão [que tentou trazer a teologia escolástica ocidental para dentro da Igreja Ortodoxa] de ''teólogo'', mas ele enfatizavam claramente que a teologia intelectual diferia grandemente da experiência da visão de Deus; aqueles que seguiram o ''método'' da Igreja e conquistaram a perfeita fé, a iluminação do nous e a deificação (theosis). A teologia é o fruto da cura do homem e o caminho que leva à cura e à aquisição do conhecimento de Deus.

A teologia ocidental, portanto, se diferenciou da teologia ortodoxa. Em vez de ser terapêutica, possui um caráter mais emocional e intelectual. No Ocidente (após a ''Renascença Carolíngea''), a teologia escolástica evoluiu, o que é contrário à Tradição Ortodoxa. A teologia ocidental está baseada no pensamento racional enquanto a Ortodoxia é hesicasta. A teologia escolástica tentou entender logicamente a Revelação de Deus e se conformar à metodologia filosófica. Tal abordagem é representada pelo dito de Anselmo [Arcebispo de Canterbury de 1093-1109, um dos primeiros após a conquista normanda e a destruição da antiga Igreja Ortodoxa inglesa]: Creio para entender''. Os escolásticos reconhecem Deus no início e então tentam provar sua existência por argumentos lógicos e categorias racionais. Na Igreja ortodoxa, tal como expresso pelos Santos Padres, a fé é a Revelação de Deus ao homem. Aceitamos a fé a ou ouvir não de modo a entendê-la racionalmente, mas para que possamos purificar nossos corações, alcançar a theoria e experimentar a Revelação de Deus.

A teologia escolástica alcançou seu ponto culminante na pessoa de Tomás de Aquino, um santo na Igreja Católica Romana. Ele defendeu que as verdades cristãs são divididas em naturais e sobrenaturais. As verdades naturais podem ser provadas filosoficamente, como a verdade da Existência de Deus. As verdades sobrenaturais -- tais como o Deus Triuno, a Encarnação do Verbo, a Ressurreição dos corpos -- não podem ser provadas filosoficamente, e assim não podem ser refutadas. A Escolástica associa a teologia com a filosofia de modo muito próximo, e mais ainda com a metafísica. Em consequência, a fé foi alterada e a própria teologia escolástica caiu em descrédito quando o ''ídolo'' do Ocidente -- a metafísica -- colapsou. A Escolástica é responsável por boa parte da situação trágica criada no Ocidente a respeito da fé e das questões de fé.

Os Santos Padres ensinam que as categorias natural e metafísica não existem mas se referem antes ao criado e ao incriado. Os Santos Padres nunca aceitaram a metafísica aristotélica. Mas não é minha intenção me alongar sobre isso. Os teólogos do Ocidente durante a idade Média consideravam a teologia escolástica um desenvolvimento dos ensinamentos dos Santos padres, e daí em diante tiveram início os ensinamentos dos francos de que a teologia escolástica era superior àquela dos Santos Padres. Consequentemente, os escolásticos, que se ocupam com a razão, se consideram superiores aos Santos Padres da Igreja. Eles também acreditam que o conhecimento humano, um fruto da razão, é mais elevado do que a Revelação e a experiência.



É dentro desse contexto que deve ser visto o conflito entre São Gregório Palamas e Barlaão. Barlaão era essencialmente um teólogo escolástico que tentava transmitir a teologia escolástica para a Ortodoxia.

As perspectivas de Barlaão -- de que não podemos realmente saber Quem o Espírito Santo verdadeiramente é (uma forma de agnosticismo), de que os antigos filósofos gregos são superiores aos Profetas e Apóstolos (já que a razão está acima da visão dos Apóstolos), de que a luz da Transfiguração é criada e que pode ser desfeita, de que o modo hesicasta de vida (isto é, a purificação do coração e oração noética incessante) não é essencial -- são visões que expressam uma perspectiva escolástica e, portanto, secularizada da teologia. São Gregório Palamas previu o perigo que essas opiniões levavam à Ortodoxia e através do poder e energia do Santíssimo Espírito e a experiência que ele mesmo adquiriu como um sucessor dos Santos Padres, confrontou esse perigo e preservou sem adulterações a Tradição e a Fé ortodoxa.

Tendo fornecido um panorama do tópico em tela, se examinamos a espiritualidade ortodoxa em comparação ao catolicismo romano e ao protestantismo, as diferenças são imediatamente descobertas.

Os protestantes não tem uma tradição de ''tratamento terapêutico''. Eles supõe que acreditar em Deus, intelectualmente, constitui a salvação. Mas a salvação não é um objeto de aceitação intelectual da verdade; antes é uma transformação pessoal e deificação pela graça. Essa transformação é efetuada por um ''tratamento'' análogo ao de uma pessoa, como veremos nos próximos capítulos. Nas Escrituras Sagradas parece que a fé vem por meio da audição da Palavra e da experiência da ''theoria'' (a visão de Deus). Aceitamos a fé primeiro pela audição de modo a sermos curados, e então conquistamos a fé pela theoria, que salva o homem. Os protestantes, por acreditarem que a aceitação das verdades de fé, a aceitação teorética da Revelação de Deus, ou seja, a fé pelo ouvir salva o homem, não possuem uma ''tradição terapêutica''. Podemos dizer que se trata de uma concepção de salvação muito ingênua.

Os católico-romanos também não possuem a perfeição da tradição terapêutica que a Igreja Ortodoxa possui. Sua doutrina da Filioque é uma manifestação da fraqueza de sua teologia para perceber a relação entre a pessoa e a sociedade. Eles confundem as propriedades pessoais: o ''não gerado'' do Pai, o ''gerado'' do Filho e a processão do Espírito Santo. O Pai é causa da ''geração'' do Filho e da processo do Espírito Santo.

A fraqueza latina em compreender e a falha em expressar o dogma da Trindade mostra a inexistência de uma teologia empírica. Os três discípulos de Cristo (Pedro, Tiago e João) contemplaram a glória de Cristo no Monte Tabor; eles ouviram de uma vez a voz do Pai, ''Esse é meu filho amado'', e viram a descida do Espírito Santo em uma nuvem, pois a nuvem é a presença do Espírito Santo, tal como diz São Gregório Palamas. Assim os discípulos de Cristo adquiriram o conhecimento do Deus Triuno em theoria (visão de Deus) e por revelação. Foi revelado a eles que Deus é uma essência em três Hipóstases.


Isso é o que ensina São Simeão o Novo Teólogo. Em seus poemas, ele proclama uma vez após a outra que, enquanto contempla a Luz Incriada, o homem deificado adquire a Revelação da Trindade Divina. Se encontrando em ''theoria'' (visão de Deus), os santos não confundem os atributos hipostáticos. O fato de que a tradição latina chegou ao ponto de confundir os atributos hipostáticos e o ensinamento de que o Espírito Santo procederia também do Filho mostra a inexistência de uma teologia empírica entre eles. A tradição latina fala da graça criada, o que sugere que eles não experimentam a graça de Deus. Pois quando um homem obtém a experiência de Deus, então ele vem a compreender que a graça é incriada. Sem essa experiência não pode existir nenhuma ''tradição terapêutica'' genuína.


E de fato não encontramos em toda a tradição latina o equivalente ao método terapêutico ortodoxo. Não se fala do Nous; nem se distingue o Nous da razão. O Nous obscurecido não é tratado como uma doença, nem a iluminação do Nous como uma terapia. Muitos textos latinos altamente difundidos são sentimentais e se exaurem em uma estéril etiologia. Na Igreja Ortodoxa, pelo contrário, há uma grande tradição a respeito desses temas, que mostra que no interior dela existe o verdadeiro método terapêutico.

Uma fé é verdadeira na medida em que possua benefícios terapêuticos. Se está apta a curar, então é uma fé verdadeira. Se não cura, não é uma fé verdadeira. A mesma coisa pode ser dita sobre a medicina: um cientista verdadeiro é aquele que sabe como curar e seu método traz benefícios terapêuticos, enquanto um charlatão é incapaz de curar. As mesmas verdades se sustentam quando se diz respeito aos assuntos da alma. A diferença entre a ortodoxia e a tradição latina, tanto quanto as confissões protestantes, parece estar principalmente no método da terapia. Essa diferença se torna manifesta nas doutrinas de cada denominação. Os dogmas não são filosofia, nem é a teologia o mesmo que a filosofia.

Dado que a espiritualidade ortodoxa difere de modo distinto das ''espiritualidades'' de outras confissões, ainda mais difere da ''espiritualidade'' das religiões orientais, que não acreditam na natureza teantrópica de Cristo e no Espírito Santo. Elas são influenciadas pela dialética filosófica, que foi superada pela Revelação de Deus. Essas tradições não são conscientes da noção de pessoa e do princípio hipostático. E o amor, como ensinamento fundamental, está totalmente ausente. Alguém pode encontrar, é claro, nessas religiões orientais um esforço da parte de seus seguidores para se apartarem de pensamentos racionais e imagens, mas este é na verdade um movimento rumo ao nada, à não existência. Não há um caminho levando seus ''discípulos'' à theosis-deificação (ver a nota abaixo) do homem integral.



Daí porque há um vasto e caótico abismo entre a espiritualidade ortodoxa e as religiões orientais, apesar de certas similaridades externas na terminologia. Por exemplo, as religiões orientais podem empregar termos como ''êxtase'', ''impassibilidade'', ''iluminação'', ''energia noética'' etc. mas estão impregnadas por um conteúdo diferente dos termos correspondentes na espiritualidade ortodoxa.

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Do Capítulo 2 de ''Orthodox Spirituality: A brief introduction'', publicado em 1994 pelo Mosteiro da Natividade de Theotokos, Levadia, Grécia. Veja também ''Way Apart: What is the Difference Between Orthodoxy and Western Confessions?'', do Metropolita Anthony (Khrapovitsky) de Kiev e Galícia

Orthodox Christian Information Center
Met. Hierotheos Vlachos
25 / 11 / 2013

ps.: Theoria é a visão da glória de Deus. A theoria é identificada com a visão da Luz incriada, a energia incriada de Deus, com a união do homem com Deus, com a theosis [ver nota abaixo] do homem. Assim, theoria, a visão e a theosis estão associados intimamente. A theoria possui vários graus. Há a iluminação, visão de Deus, e a visão constante (por horas, dias, semanas e até meses). A oração noética é o primeiro estágio da theoria. O homem teorético é aquele que atingiu esse estágio. Na Teologia Patrística, o homem teorético é representado como o pastor das ovelhas.

pps.: A Theosis-Deificação é a participação na graça incriada de Deus. A Theosis é identificada e associada com a theoria (visão) da Luz Incriada (veja nota acima). É chamada de theosis na graça porque é alcançada através da energia da graça divina. É uma co-operação de Deus com o homem, já que é Deus quem opera e o homem quem co-opera.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Areia que escorre entre os dedos, ou: O Progressismo liberal destruiu Guerra nas Estrelas? Parte Final

''Os Antigos, os Celestiais, os Rakata, não pronunciavam julgamento  de seu trabalho. Moviam planetas, organizavam sistemas estelares, conjuravam aparatos do lado sombrio, como a Forja Estelar, quando julgavam adequado. Se milhões morriam no processo, sem problema. As vidas de boa parte dos seres não tem importância. Os Jedi não conseguiram entender isso. Ocupam-se tanto tentando salvar vidas e lutando para manter em equilíbrio os poderes da Força que perderam a noção de que a vida senciente foi feita para evoluir, não simplesmente regozijar numa estase tranquila.''

Darh Plagueis





A cena final revela Luke como um Mestre realizado, a ''lenda da galáxia'': o reencontro com o personagem se tornou despedida dolorosa para alguns fãs e gloriosa para outros



Quando tratamos das causas para as críticas conservadoras atuais em cima da nova trilogia de Guerra nas Estrelas há de se ter redobrado cuidado para não cair em psicologismos. Há um óbvio viés político e sociológico imbricado com esse repúdio, que se liga por um lado ao conteúdo progressista que eu concordei existir na franquia, e, por outro, ao pêndulo ideológico que existe na vida das sociedades em que ela é exibida.







Mas dando prosseguimento à linha de raciocínio, prefiro discutir a tendência conservadora de criticar essa trilogia específica da saga enquanto se engana ao pretender separar as demais da mentalidade liberal, como se Guerra nas Estrelas não estivesse desde seu início mergulhado nos mais típicos valores americanos. Ora, se deixarmos de lado os dois extremos, aquele em que o cinema é mera propaganda dos valores ocidentais e aquele em que não traz nenhum abraço a eles, a obra de George Lucas se insere em um conjunto de filmes que pode tanto ser criticado por seu liberalismo como apreciado apesar dessas limitações. Muitos direitistas e conservadores estão preferindo, no entanto, louvar as duas primeiras trilogias ao mesmo tempo que condenam os filmes recentes ao inferno por pecados que são cometidos desde 1977. Nesse sentido é inócuo fingir que não há influências geracionais por trás dessa postura, ainda que eu admita existirem aqueles que escolhem manter o duplo critério por razões mais propriamente de caráter político.









Cada geração tem a tendência de encarar seu tempo como um período especial, e, mais curioso ainda, a proteger os elementos cuja ligação afetiva alimenta a sensação tão desejável de fazer parte da última bolacha do pacote, depois da qual tudo é decadência e nulidade. No caso de Guerra nas Estrelas, esse sentimento se traduz pela ilusão de que o estado em que conhecemos a saga é o que revela sua versão definitiva, sua verdade mais profunda e suas características mais essenciais. O que veio antes foi preparação para o cume que tivemos a sorte de conhecer, e o que vem depois é mero desvio e comércio. Evidente que toda e qualquer obra possui traços que a distinguem e sem as quais ela se torna definitivamente outra coisa. “The Walking Dead” acabaria como tal se deixasse de ser ambientada em um apocalipse zumbi. A saga criada por George Lucas não poderia abandonar o conceito de 'Força'. Mas essas particularidades não estão fixas nem no interior da concretude artística que as veiculam nem num determinado momento temporal. Como mencionei mais de uma vez nessas postagens, a obra é relida, vai sendo redimensionada à medida que encontra seu público, criando certa autonomia diante das intenções de quem a assina. E se esse público que recebe e remodela continuamente o significado da obra se estende no tempo em mais de uma geração fica complicado estabelecer um limite objetivo para o desenvolvimento daquelas particularidades que permitem reconhecê-la.




Rey e Finn descobrem a velha sucata que é a nave mais rápida da galáxia: os fãs dos anos 1980 voltam para casa





Parte considerável dos fãs de Guerra nas Estrelas carrega a firme convicção de que conhece a estrutura definitiva da narrativa, a partir da qual pode jogar anátemas sobre qualquer tentativa de mudança. É espantoso ver garotos que nasceram quase vinte anos depois da primeira trilogia dizendo que a linhagem Skywalker não poderia ser abandonada, pois a saga se trata principalmente sobre Anakin, o ''escolhido'', quando sabemos que nos primeiros rascunhos Luke era filho de Obi Wan, e que sua filiação a Vader não havia sido decidida pelo próprio criador da saga antes do início da produção d’O Império contra-ataca. Outro dia, eu lia uma entrevista antiga de George Lucas, em que o cineasta explicava que Yoda não era exatamente um Jedi. Ele seria um mestre que guiava outros que pretendiam e podiam se tornar cavaleiros da Ordem. Como consequência dessa perspectiva, continuava Lucas, Yoda não lutava, e, disse ele literalmente, não conseguiria enfrentar, por exemplo, Darth Vader. Agora pensem na segunda trilogia, em que acompanhamos o mesmo Yoda como um dos membros mais importantes do Conselho Jedi, hábil o suficiente para se digladiar com inimigos e dar saltos acrobáticos brandindo seu sabre de luz em lutas magníficas contra o Conde Dooku e contra o Imperador em pessoa [Darth Sidious para os mais novos]. Qual a ''verdade'' da saga, aquela na cabeça de George Lucas nessa entrevista ou a que ele próprio levou ao cinema?






Eu cresci nos anos 1980 com os três primeiros filmes, e os fãs da minha idade tem uma relação ambígua com os lançamentos da Disney. Nos anos 2000 fomos engolfados por uma certa estranheza quanto aos rumos estabelecidos pela Lucasfilm. ''Ameaça Fantasma'' era demasiado infantil para nós, que já estávamos cursando a faculdade ou iniciando a vida profissional, quando não criando já o primeiro filho e sustentando a primeira casa. A ambiência nos deslocava, não reconhecíamos de imediato o universo com o qual havíamos crescido -- apesar do filme ter alguns planos e cenas belíssimos, como o dos amplos salões de Naboo, mergulhados num misto de grandiosidade e orientalismo. Esse deslocamento era acentuado pelo novo trio de protagonistas: Luke, Leia e Solo foram descartados, e em seu lugar víamos Anakin, Padmé e um jovem Obi Wan. Ainda mais estarrecedor, porém, era a baixa qualidade dos filmes. De fato, o único que merece ser chamado de bom é ''A Vingança do Sith''. Diante disso, fiquei espantado com o sucesso da empreitada: George Lucas foi extremamente bem sucedido ao levar Guerra nas Estrelas para adolescentes criados entre PCs, na Internet, desejosa por realidade virtual e mergulhados em cada vez mais impressionantes jogos de console, uma geração que crescia entre os embates do fim da União Soviética, do unilateralismo geopolítico ianque, das tentativas de fortalecimento da ONU e dos novos eixos da política americana. O sucesso foi de tamanha magnitude que multiplicou de modo espetacular uma série de produtos, o ''Universo Extendido'' semi-oficial, que possibilitou que os novos fãs criassem sua própria leitura daquele universo.

A morte de Han Solo






Na verdade, dei boas vindas à maior parte dos conceitos implementados na segunda trilogia. Ainda que a experiência cinematográfica não tenha sido satisfatória, as ideias desenvolvidas para Guerra nas Estrelas aprofundaram a mitologia e a elevaram de patamar. Eu as absorvi tanto quanto a nova geração, e imagino que o mesmo aconteceu com a maioria de nós que continuaram acompanhando a saga. Mas existia uma saudade do universo e dos personagens originais, e isso ficou nítido quando J.J. Abrams nos mergulhou de novo na ambiência dos primeiros filmes e, ao lado de novos protagonistas, trouxe de volta os velhos herois dos anos 1980.  Muitos se comoveram com a entrada de Solo na Millenium Falcon dizendo a seu fiel parceiro, ''Chewie, estamos em casa!'', ou com o encontro do mesmo Solo com a perene princesa Leia. [embora a nova geração vá crescer chamando-a de ''general'']. Os sentimentos positivos em relação aos novos filmes foram contrabalançados ao se perceber que os herois retornaram também para que fosse possível se despedir deles, algo que foi negado pelas obras de 1999 a 2005. O choro que se produziu em parte dos fãs mais antigos foi acrescido de resmungos quanto à partida de Luke. ''Agora a saga acabou'', li algumas dezenas de vezes. As reclamações incluíam o desenvolvimento dos personagens, e até Mark Hamill se juntou ao coro, embora depois tenha explicado que estava errado. O ator representava o fã antigo que havia sido retirado da zona de conforto.





Sensações parecidas podem ser percebidas entre os que conheceram a franquia nos anos 2000. Descobriram agora que a linhagem Skywalker está sendo deixada de lado; e se perguntam, atônitos, ''sobre o quê, afinal, é essa nova trilogia?'' Acusam a Disney de destruir seu objeto de afeição por razões comerciais -- como se a Lucasfilm não tivesse nascido como um negócio ou como se fosse desapegada de preocupações com o marketing. Em uma cena marcante d'Os Últimos Jedi, a Comandante Holdo, preparada para o sacrifício em prol da Resistência, encara seus companheiros de luta fugindo em transportes, na execução de um plano que ela mesma havia concebido, e diz, ''Boa sorte, Rebeldes!'' A frase me lembrou que a Disney havia lançado uma série que vem fazendo muito sucesso, ''Rebels". A animação, que já vai para a quarta temporada, se passa logo depois do Episódio III, e mostra a ''fagulha'' de inconformismo que desembocaria depois na organização de uma Rebelião formal contra o Império. Impossível deixar de notar a ponte que está sendo feita com a história contada agora nos cinemas, embora a temporalidade seja distinta. A nova trilogia se foca principalmente no público que está sendo criado assistindo ''Rebels'', com personagens diferentes daqueles rostos com que nos acostumamos, mas que se encaixam no contexto daquela galáxia muito distante.



Rey precisa de alguém que lhe mostre seu lugar em ''tudo aquilo''




E é esse o tema principal de Rian Johnson -- que, dizem, foi convidado para organizar a quarta trilogia que já está sendo pensada pela Disney, e espero que a informação não provoque uma série de suicídios de fãs inconformados pela ausência de um ponto final na saga --, como levar Guerra nas Estrelas para um novo público sem deixar de transmitir os elementos essenciais que fizeram da obra um marco do universo pop. Alguns elementos que capturaram a imaginação das outras gerações serão abandonados ou adormecidos. Ninguém falou até agora de midi-chlorians. O sangue Skywalker está deixando de ser central. Solo, Luke e Leia estão tão mortos quanto Anakin, Obi Wan e Padmé. É relativizada a suposta profundidade do embate político entre federalismo e autoritarismo, que Lucas encarava como uma luta que se perdia nas brumas da civilização. E nem a Ordem Jedi parece escapar do turbilhão de mudanças. A própria visão sobre a Força pode ser aprofundada, se levamos a sério tudo o que Luke disse. Ele nos mostrou outra dimensão dos poderes dos iniciados ao realizar uma projeção que era também materialização e capacidade de interagir com o mundo físico -- Yoda não é só um uma vaga presença conselheira tampouco, ele conjurou um relâmpago que incendiou a árvore sagrada dos Jedi. E o Diamante Negro, o poder bruto e originário, pode vir a ser tema de reflexões que prometem conduzir  Guerra nas Estrelas a outro nível. São mudanças que fazem estremecer os corações conservadores, que agora encaram a verdade de que a saga não lhes pertence, que não se comunica mais só com eles, e que um público ainda mais jovem vai reler à luz dos novos filmes tudo o que eles consideravam firmemente estabelecido. Como dizia o Bardo de Sobral, o novo sempre vem, e tanto conservadorismo quanto progressismo são insuficientes para lidar com ele.

domingo, 24 de dezembro de 2017

A diferença entre conservadorismo e tradição, ou: O Progressismo liberal destruiu Guerra nas Estrelas? Parte IV

''O Império, seus pais, a Resistência, os Sith, os Jedi...deixe o passado morrer. Mate-o, se for necessário. É a única maneira de se tornar aquilo que você está destinado a ser''

Kylo Ren




Luke avisa a Yoda e Obi-Wan que não mataria o próprio pai, frase que os mestres encaram como uma vitória do Imperador. O Padawan sabia mais do que os Anciãos



Ao longo da argumentação que venho tecendo, dei razão ao cerne da crítica conservadora a Guerra nas Estrelas: a franquia é de fato um instrumento de divulgação da sensibilidade progressista [por vezes uso também o termo liberal, embora nem todos os conservadores possam concordar com ele]. Ainda que não traga um discurso explícito e militante que reduza a obra a um mero marketing ideológico, a moldura ou arquitetura em que se desenvolvem as histórias está incrustada e formatada pela mentalidade progressista. Mas divisei também pelo menos quatro erros crassos na crítica mencionada: i) Ela não enfatiza que pode ser aplicada de modo geral a todo produto de Hollywood voltado para o grande público; ii) Ela dá a impressão de que o liberalismo passou a permear Guerra nas Estrelas apenas na nova trilogia, quando na verdade já está presente desde seus primórdios e em todo o seu desenvolvimento; iii) não percebe que, assim como nos outros filmes da saga, os lançamentos recentes tampouco se reduzem ao progressismo, e é possível separar neles os elementos mais profundos ou reinterpretar a obra a partir de um olhar menos limitado; iv) a própria crítica conservadora está cerceada por restrições que a impedem de apreciar algumas das maiores qualidades dos novos filmes.









Yoda ensina que o medo leva ao ''lado escuro'' da Força; de modo similar, também faz com que a crítica conservadora caia em algumas forçações de barra e leituras enviesadas do enredo e das cenas d'Os Últimos Jedi. Um exemplo é a sugestão de Mateus Diniz, feita neste texto com que dialogo e que torno fio condutor das minhas postagens, de que a relação entre Holdo e Leia está impregnada pela sensibilidade gay. Ora, o filme aponta a ligação entre duas guerreiras e amigas que se conheciam há muito tempo, batalharam juntas contra o mesmo oponente, e se despedem na certeza que de uma delas vai ao encontro da morte. Não há qualquer laivo erótico ou implicação outra nas cenas. Outra sugestão é a de que no próximo filme o personagem de Oscar Isaac será retratado como homossexual. Não digo que seja impossível, afinal a pauta de defesa pelos direitos gay é elemento importante da militância liberal de Hollywood. Mas é imensamente improvável: primeiro porque, quando se trata de produtos destinados a um grande mercado, a implementação dessa agenda se dá de modo bastante sutil e marginal, e isso já há meio século. [não sejam ingênuos para não perceberem as insinuações por trás dos trejeitos de ''mordomo'' de C-3PO]. Segundo, tudo indica que o novo líder da Resistência vai viver uma história romântica com Rey.








As decisões equivocadas do impulsivo Dameron provocam consequências catastróficas: um líder em formação aprendendo com os próprios erros




Esse tipo de forçação impede os conservadores de notarem uma das mensagens mais poderosas d'Os Últimos Jedi, problema que pode ser exemplificado com as análises que alguns fizeram em cima dos arcos de Poe Dameron e Luke: O Episódio VIII nos revela um membro importante da Resistência ao mesmo tempo corajoso e impulsivo, incapaz do pensamento estratégico necessário a uma liderança confiável. Como resultado, todos os seus planos e decisões acabam conduzindo ao desastre. Há quem diga, com certa razão, que a maior parte das mortes de rebeldes é provocada pela imperícia do sujeito.O arco de Dameron se coaduna bem com a intenção de Rian Johnson de dobrar as expectativas dos fãs, levando-os a situações bastante familiares e consagradas apenas para resolvê-las de modo inesperado -- lembro mais uma vez aqui a frase de Skywalker para Rey, ''isso não vai se passar do modo como você imagina''. A bravura cega do piloto faz com que a Resistência perca toda a sua frota de bombardeiros em troca da destruição de apenas um encouraçado da Primeira Ordem. Depois conduz a um plano mirabolante -- porém arquiconhecido dos que acompanham a franquia -- de invasão de uma gigantesca nave inimiga para sabotá-la por dentro, quase provocando a destruição total dos Rebeldes --  que só não ocorre por causa, agora sim , do heroísmo da Comandante contra a qual Poe havia se amotinado. Como lhe diz Leia, ''Holdo estava mais preocupada em proteger a fagulha [da rebelião/esperança] do que em ser vista como heroi''.






Para os conservadores, a cena se tornou reveladora da intenção de Hollywood usar Guerra nas Estrelas para defender a subordinação dos homens às mulheres. As virtudes masculinas de Dameron, segundo eles, não seriam suficientes para proteger a Resistência. As duas mulheres na liderança, Leia e Holdo, é que possuiriam o domínio emocional necessário à função. O problema dessa abordagem é que, embora as cenas afirmem de fato o protagonismo feminino -- tema já tratado em postagem anterior --, o roteiro não mostra Poe fracassando por ser homem, e sim por ser um jovem temerário. A imaturidade de Poe é que lhe fazia pensar que sabia mais do que aqueles que ocupavam posições mais elevadas. Ele não conseguia ver os motivos, a estratégia, por detrás das ações dos mais experientes. Eis aqui um tema recorrente em Hollywood, as novas gerações seriam portadoras de uma verdade que a antiga não é capaz de divisar por causa de seu apego a modelos ultrapassados. Rian Johnson subverte essa noção. A mensagem é tão nítida que, após o sacrifício de Holdo, Poe se torna o líder que nasceu para ser, sem no entanto perder nada de sua virilidade. Ele se torna capaz de abortar uma missão suicida contra o aríete/estrela da morte no terceiro ato do filme. Nos momentos finais, demonstra a habilidade -- antes de Leia, frise-se -- de compreender as intenções de Luke -- um homem que, naquele momento, unia heroísmo e estratégia em prol de um bem maior -- e salvar o que restava dos rebeldes. A nova posição de Poe Dameron é confirmada pela própria Leia, que diz aos seus subordinados, ''por que estão olhando para mim? Sigam-no!'', e reforçada por uma das frases de Luke em diálogo com Kylo: ''a Resistência se revigorou hoje'', frase acompanhada pela aparição do rosto de Dameron na tela. O garoto imaturo havia se tornado um homem.





Rey é mais uma representação dos fãs esperando mais do mesmo, Luke ''pegaria uma espada de laser e sairia pela galáxia detonando sozinho a Primeira Ordem''





A mesma mensagem é passada no relacionamento entre Rey e Luke, reforçando que não se está discutindo nenhuma ''guerra dos sexos''. Nesses últimos dias, acompanhei pela Internet leituras que viram nas ações de Skywalker sintomas de covardia e depressão. Alguns chegaram a dizer que Rey deu ''uma lição de moral'' no Mestre Jedi. Confesso ter percebido diferente: embora demonstre pesar pela perda de Ben Solo, a questão que envolve Luke na Ilha Sagrada é mais ampla do que seus próprios dramas de consciência. Ele não quer ser o professor de Rey porque entende que os Jedi devem acabar, que seus métodos são falhos e que, no fim das contas, o orgulho da Ordem é um dos motores do conflito cósmico. Ele oferece a Rey três lições: a primeira, de que a Força é um poder originário que não pertence a ninguém, e que portanto é vaidade vincular o lado luminoso à existência histórica dos Jedi; a segunda, é a de que o legado dos Jedi é o fracasso, que eles não conseguiram escapar do ego e de suas consequências, retratadas no filme como a sombra que passa pela mente de Luke em relação a Kylo e que leva à luta entre mestre e discípulo; a terceira não é dada, pois Rey, passando por cima dos conselhos do Mestre e achando que havia visto algo que ele não havia sido capaz de ver, abandona a Ilha.






Rey não me parece ter condições de ''dar lições de moral'' em Luke tampouco. A todo momento ela se mostra presa na necessidade de encontrar seus pais, quer vivenciar uma mentira, a de que vem de uma linhagem importante e marcada pela nobreza -- fragilidade que vai ser explorada por Kylo mais à frente. A todo momento se mostra impermeável ao que lhe está sendo ensinado: Assim como R2-D2, Chewbacca e boa parte dos fãs, a protagonista fica atônita, tentando argumentar com Luke sobre seus motivos, que ela não conhece e ainda assim repudia. Rey deseja a repetição de temas passados, e sai frustrada sempre que isso lhe é negado. O sabre de luz que estende a Luke é jogado fora com desprezo. No início, ela se recusa a crer que o Mestre havia falhado com Kylo, o ''monstro''. Depois, sua carência a leva a uma ligação com o adversário que a impede de acreditar que o parricida tivera sido totalmente consumido pelo ''lado sombrio'', como Luke lhe havia contado. Ela concordava agora que Luke havia falhado, mas porque não havia percebido, como ela supostamente conseguira, que Ben Solo ainda não havia feito sua escolha, que existia conflito no coração do vilão. Deixando de lado os conselhos daquele que queria por mestre, Rey decide emular a ''lenda'' de Luke -- que deixara de lado as sugestões de Yoda e Obi-Wan a respeito da necessidade de matar Vader --, e se entrega ao inimigo para ''convertê-lo'' à luz. Mais uma vez Rian Johnson constrói sua narrativa em cima das expectativas dos fãs de longa data, mas dessa vez as coisas não ocorrem como eles e a protagonista pensavam:  Ben Solo está de fato morto, como Luke havia entendido desde o início. A história não se repete, a não ser como farsa. Rey havia sido manipulada pelo ''lado sombrio'' ao não confiar no que lhe dizia Skywalker.





Rey pensa ter visto algo que Luke não foi capaz de ver e emula o Mestre ao se entregar para o inimigo visando convertê-lo para a Luz: os jovens estão sempre um passo atrás ao esperarem a repetição de modelos passados






O núcleo da narrativa, detalhado por Yoda diante da Árvore Sagrada em chamas, e depois pelo próprio Luke em seu encontro com Leia, é que os mais velhos, os antigos mestres, devem ser ouvidos, inclusive por causa de seus fracassos. Temos aqui um filme que ambiciona, por um lado, levar Guerra nas Estrelas a uma nova geração -- ponto a que voltarei mais tarde --, e para isso rompe gradualmente com os antigos personagens e com a família Skywalker, as principais marcas das trilogias anteriores. Por outro lado, os jovens devem se afirmar sem que o passado seja totalmente esquecido. Enquanto Kylo pede por uma ''emancipação'' total com suas raízes, os herois afirmam a continuidade de seus elementos essenciais, ainda que essa continuidade não seja retratada por um desesperador e vazio ''eterno retorno''. Diferente do que diz Mateus Diniz, o roteiro não se trata de inversão dos papéis entre mestres e discípulos, uma quebra da autoridade tradicional -- uma crítica que cairia melhor aos filmes da primeira trilogia, afinal Luke se transforma em lenda na medida em que se nega a fazer aquilo que lhe é  sugerido por Obi Wan e Yoda, a saber, abandonar seus amigos ao sofrimento nas mãos de Vader até que tenha poder suficiente para matar o próprio pai -- e sim da valorização da transmissão de conhecimento mesmo quando as instituições mais conhecidas para a realização dessa passagem -- a família, simbolizada aqui pelo sangue Skywalker, e o sistema discipular jedi, figurado pela relação mestre e padawan -- estejam à beira do colapso e do esvanecimento. De modo contrário ao que pensa a crítica conservadora, é a primeira trilogia que traz jovens mais sábios do que os anciãos; e é o episódio atual que sente necessidade de mostrar aos jovens o verdadeiro sentido da tradição discipular.



Kylo Ren vê na ruptura total com o passado o caminho para se realizar todo o seu potencial: a visão é criticada ao longo de todo o filme, mas ''não do modo como você imagina''





Resta responder a uma pergunta: qual é a real fonte das críticas conservadoras, e também daquelas de fãs da primeira e segunda trilogias, aos novos desenvolvimentos da saga implementados por Abrams e Johnson? Tratarei desse problema na parte final dessa série de postagens.









[continua]
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