sábado, 2 de maio de 2026

Theotokos, a primeira a contemplar o Senhor Ressuscitado

"Vós vistes os sofrimentos que os judeus lhe infligiram quando Ele foi elevado na cruz, e que O mataram, e que Seu Pai O ressuscitou dentre os mortos no terceiro dia. E eu fui ao túmulo, e Ele apareceu a mim, e falou comigo, dizendo: “Vai e informa a meus irmãos as coisas que vistes. Que aqueles a quem meu Pai amou venham para a Galileia."

"Discurso sobre Maria Theotokos", Homilia do século VII





A tradição de que a Toda Santa e Toda Pura Virgem Maria foi a primeira a contemplar Cristo Ressuscitado é antiquíssima na Igreja, remontando pelo menos ao século II, particularmente na Síria, região que foi o primeiro grande centro difusor do Cristianismo.


Essa tradição aparece em comentários e poemas de Santos Padres sírios, além de hinos litúrgicos sírios e armênios que remontam aos séculos III ao V. Ela perdurou no tempo e foi sustentada por Padres como São João Crisóstomo, São George da Nicomedia, São Simão da Tessalônica e São Gregório Palamas.


Em alguns desses autores a Virgem Maria é sobreposta à Santa Maria Madalena na imagem de apostola apostolarum ["apóstola dos apóstolos"]. Em outros, Theotokos é sozinha a primeira testemunha [caso da obra de Santo Efrém, o Sírio].

Existe uma hipótese acadêmica forte de que o Diatessaron, uma harmonização dos Evangelhos feita por Taciano no século II e que se tornou leitura padrão nas Igrejas sírias até a Alta Idade Média, identifica a Maria no jardim, no Evangelho de São João, com Theotokos. Parece que essa identificação também circulou na Arábia durante a Antiguidade tardia.


Há também leituras que fazem de Theotokos uma das duas mulheres que viram Cristo Ressuscitado no Evangelho de São Mateus ["a outra Maria", no capítulo 28], tema que se tornou comum na tradição iconográfica ortodoxa.


A Didascalia é um 'manual' de regras eclesiásticas e disciplinares que os cristãos primitivos acreditavam remontar aos próprios Apóstolos. Ela foi escrita na virada do século II para o III, e quando menciona o capítulo 28 de São Mateus, chama Madalena de "a outra Maria" para dar prioridade à primeira Maria, que seria Theotokos.


De modo tardio, há um conjunto de tradições monásticas que foram reunidas por escrito e atribuídas a São Máximo Confessor em um livro chamado "A Vida da Virgem", por volta da virada do século VII para o VIII [o mais provável é que a obra seja de círculos de discípulos de São Máximo, uma rede de monges que se estendia pela palestina, Egito e Síria].



Segundo essa obra, Theotokos contemplou a própria Ressurreição. O livro proporciona muitas informações sobre as crenças e relatos que os ascetas e monges cristãos guardavam e repercutiam sobre a Panagia.


Alguns contrastam essa tradição com as Escrituras. Mas os relatos sobre a Ressurreição nos Santos Evangelhos não convergem em todos os pontos e não se pretendem exaustivos e detalhistas.

Em São Mateus, duas mulheres [as miróforas, que levam óleos para ungir o Corpo do Senhor] vão ao túmulo do domingo de manhã: Maria Madalena e "a outra Maria". Elas veem o sepulcro vazio e dois anjos que lhes anunciam a Ressurreição. Quando partem para avisar os Apóstolos, encontram Cristo Ressuscitado e se prostram aos Seus pés.

Já São Marcos cita três miróforas [além de Madalena, temos "Maria, mãe de Tiago", e Salomé], que também encontram o sepulcro vazio e tem uma visão angélica [nesse caso, no interior do túmulo] que lhes anuncia a Ressurreição e as tornam "apóstolas dos apóstolos". Não há menção de que tenham visto Cristo Ressuscitado no caminho.

Em São Marcos 16:9 se diz que Santa Maria Madalena foi a primeira a ver o Senhor. Mas é de conhecimento geral que o Evangelho de São Marcos termina abruptamente no versículo 8. Os trechos subsequentes foram perdidos, e existem três variantes principais com finais alternativos, uns mais longos que outros. Claro que a versão cuja recepção se consolidou na Igreja é inspirada e normativa, mas ela claramente pretende fazer uma síntese de eventos em cima de textos e tradições já conhecidas, sem se apegar a detalhes específicos.

Em São Lucas, não se tem um número especificado de miróforas. Elas são mulheres que acompanhavam Jesus desde a Galileia, região não só onde começou a Missão Pública do Senhor mas também onde ele tinha Sua parentela. Nesse texto, elas também encontram o sepulcro vazio, tem uma visão angélica no interior da tumba e que lhes anuncia a Ressurreição, e correm para contar para os Apóstolos. São Lucas nomeia três dessas mulheres: Santa Maria Madalena, Santa Joana de Cusa, e Santa Maria [mãe de Tiago]. Esse é também o primeiro Evangelho que relata a corrida de São Pedro ao sepulcro.



Em São Marcos e em São Lucas não se diz que as miróforas encontraram o próprio Cristo Ressuscitado. Elas se deparam com a tumba vazia e Anjos. Em São Mateus ocorre o mesmo, só que elas [as duas?] encontram Cristo Ressuscitado quando correm para dar a notícia aos Onze.

O Evangelho de São João cita apenas uma mirófora, Santa Maria Madalena [Mas é notável que o texto traga indícios de uma multiplicidade de mulheres: "Tiraram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o puseram"]. Ela vê o sepulcro vazio, mas não se descreve nenhum encontro angélico. Nem se diz que entrou no sepulcro. Ao contar para os Gloriosos Apóstolos, Madalena não parecia ainda ter atinado para a Ressurreição, apenas para o desaparecimento do Corpo de Jesus.

São Pedro e São João correm até o túmulo e entram. São João não narra o que encontraram além dos panos e do sudário, mas há ênfase textual sobre a importância de terem entrado. Em São Lucas e São Marcos, bom lembrar, o anjo que anuncia a Ressurreição está dentro do sepulcro.


Só depois que os Apóstolos se ausentam que Santa Maria Madalena tem a visão do ''jardineiro'', que depois reconhece ser o Senhor. Nesse relato, ela não é a primeira a ver algum anjo, a entrar no sepulcro ou a crer na Ressurreição. Mas se trata do primeiro encontro com Cristo, se coadunando com São Marcos 16:9 [a informação desse versículo, que faz parte do 'final substituto', pode reproduzir o que se conta no Evangelho de São João, ou seja, é possível que exista alguma dependência literária].

O que se depreende dos Santos Evangelhos é que um número indefinido de Miróforas foi ao túmulo no Domingo. Encontraram a pedra removida. Algumas [todas?] entraram no sepulcro e tiveram visões de Anjos anunciando a Ressurreição. Elas retornam para avisar os Gloriosos Apóstolos. Algumas delas podem ter encontrado o próprio Cristo Ressuscitado no caminho. Todas encontraram? Parece que não.




Existe outro complicador, que é a tradição recebida por São Paulo e descrita na Primeira Epístola aos Coríntios. No Capítulo 15, o Glorioso Apóstolo usa uma 'fórmula' de apresentação de ensinamentos recebidos e reproduz o que certamente era um 'credo' primitivo aprendido diretamente dos Doze.

Segundo esse 'Credo', Cristo Ressuscitado aparece "a Cefas, e depois aos Doze". Logo depois, aparece a São Tiago [certamente São Tiago Adelphotheos, também chamado de São Tiago, o Justo]. Aqui há uma prioridade do Colégio Apostólico seguida pelo líder da Casa [parentela] do próprio Cristo. [A aparição de Cristo a São Tiago Adelphotheos é uma tradição primeva repercutida por historiadores da Igreja do século II, e no Evangelho dos Hebreus, um apócrifo muito bem reputado por alguns Santo Padres].



Não há menção às miróforas ou a qualquer mulher, mas não há contradição, já que os Evangelhos nitidamente fazem delas "apostola apostolarum", ou seja, Apóstolas para os próprios Apóstolos.

Abaixo, o modo como a obra "A vida da Virgem", atribuída a São Máximo Confessor [mas provavelmente uma compilação de tradições monásticas feitas por círculos ligados a esse Padre], relata Theotokos testemunhando a Ressurreição:

"Entretanto, a Imaculada Virgem Maria não se afastou do túmulo, e observava e escutava tudo o que estava acontecendo e sendo dito. Ela viu o grande terremoto que despertou as primícias daqueles que dormem (cf. 1 Cor 15,20) e que fez os guardas adormecerem, e que rolou a pedra (cf. Mt 28,2.4), e depois o despertar dos guardas novamente e sua entrada na cidade (cf. Mt 28,11). As mulheres que tinham ido e voltado não puderam ver nada disso; mas a bendita mãe do Senhor, tomada de amor por Seu filho e permanecendo inseparavelmente junto ao túmulo, foi testemunha de tudo até que viu inclusive a Sua gloriosa Ressurreição. Pois as outras mulheres viram a pedra removida e o anjo sentado sobre ela; mas quando e como isso aconteceu, não o sabiam de modo algum. Somente a imaculada mãe do Senhor, ali presente, conhecia tudo. E por isso recebeu a boa nova da Ressurreição antes de todos, e antes de todos foi considerada digna da altura tão desejada de todo bem e da visão divinamente bela de seu Senhor e filho."


Nenhum comentário:

Postar um comentário