domingo, 19 de novembro de 2017

Liga da Justiça e o fechamento do ciclo iniciado por Snyder

Everybody knows that the dice are loaded
Everybody rolls with their fingers crossed
Everybody knows the war is over
Everybody knows the good guys lost
Everybody knows the fight was fixed
The poor stay poor, the rich get rich
That's how it goes
Everybody knows

Leonard Cohen




Liga da Justiça fecha o arco iniciado por Zack Snyder com Man of Steel, de 2013. Foi um percurso atribulado, acompanhado por mudanças de visual, de tom e de construção de personagens

Temos aqui o fim do arco iniciado com Man of Steel há quatro anos. A construção do Universo Compartilhado da DC Comics esteve sob batuta de Snyder durante esse tempo, até que uma tragédia familiar o retirou da pós-produção desse terceiro filme, trazendo pra equipe Geoff Johns, roteirista de quadrinhos que alcançou grande projeção nos últimos anos, além de Joss Whedon, sucesso na rival Marvel Studios.


As mudanças levaram a refilmagens de última hora que deixaram marcas no novo longa -- umas positivas e outras negativas, algumas apenas curiosas. Dá pra perceber, ainda que nem de longe do modo tão abrupto quanto em Esquadrão Suicida, as alterações no tom do filme, deixando-o mais leve, menos filosófico e amargurado. 


As cenas iniciais dão conta da desesperança e luto que teriam tomado o planeta com a morte do Super-homem.
Violência, ódio contra estrangeiros e abandono à injustiça social regados a uma versão de ''Everybody Knows'', de Leonard Cohen; um grupo de terroristas religiosos que odeia o mundo moderno tentando explodir um museu. As cenas visam pensar a perda do maior herói do DC e ao mesmo tempo tratar de problemas contemporâneos, bem ao estilo Snyder. Mas essa linha não tem continuidade, é abandonada ao longo do roteiro, que evita qualquer profundidade maior que dificulte sua compreensão a um pré-adolescente.


Embora os pontos filosóficos abordados por Snyder não sejam varridos pra debaixo do tapete, a amplitude deles é reduzida para evitar o peso do drama: em vez do niilismo e da problematização do papel dos herois/deuses em um mundo pós-moderno, o cinza da vida se restringe aos distúrbios pessoais dos protagonistas. Batman encontra o sentido de sua atividade no homem que ajudou a matar, e tem de lidar com a culpa por sua cegueira enquanto procura remediar a situação propondo a formação de um grupo para substituir aquilo que ele próprio considera insubstituível. A ''filosofia de biscoito chinês'' que manteve Diana Prince sã após a morte de Steve Trevor -- ''você tem de seguir em frente'', disse o amado à deusa amazona -- é ironizada por Batman, que questiona a incapacidade do ícone feminista de exercer liderança e ser um farol de esperança tal como o Super-homem havia sido. 


Os personagens que estreiam no Universo da DC também trazem as suas sombras. Diferente do que os trailers fazem parecer, Arthur Curry não é um rebelde sem causa, mas um ''auto-exilado'', que ainda não lidou com o trauma de ter sido abandonado pela própria mãe e que mantém tênues vínculos com Atlântida. O Flash, alívio cômico do filme, traz o peso de um drama familiar cuja solução é o verdadeiro móvel de Allen. A apresentação de Victor tangencia o caráter soturno e melancólico dos filmes anteriores. 
A apresentação sombria de Victor Stone revela que Snyder possuía ideias diferentes sobre o filme, mas elas foram reorientadas e ajustadas a um filme aventuresco e infanto-juvenil


Mas todos os dramas apontados deixam de ser o foco da história quase tão rápido quanto são apresentados. Eles emergem apenas para fechar o ciclo de Snyder, pontas que se amarram para dar apoio a uma história leve, de heroísmo, engajamento, aventura, dando a impressão de que o filme que sairia da batuta do diretor de Batman v Superman teria um tom distinto do que a montagem que foi para as telas. Os remendos de última hora deixaram outros tantos sinais: os produtores tiveram de retirar o bigode de Henry Cavill apelando pra computação gráfica, alterando de modo perceptível a face do ator. O Lobo das Estepes se tornou um vilão genérico, um tanto mal desenhado e mal executado, com objetivos igualmente genéricos. Com a ausência de Snyder, o filme perdeu também em grandiosidade visual, não tem mais aquele quê de graphic novel. E a história das caixas maternas são referências óbvias demais ao Senhor dos Anéis.


Muitos vão apontar a Marvel como o modelo perseguido pela Warner, rindo-se daquilo que parece ser uma capitulação ao estúdio rival. Mas na minha opinião o filme emula, na verdade, as animações da própria Liga, que trazem o mesmo elã. E nesse sentido, uma vez comprada essa ideia, é diversão garantida. A visão combina com aquela já estabelecida dos heróis. A interação entre eles possui contornos próprios dependendo dos envolvidos e a química é perfeita e convincente. Os personagens secundários de Lois Lane, de Martha Kent e de Alfred funcionam ainda que apareçam pouco – e aqui cabem aplausos para a interpretação sempre cirúrgica de Jeremy Irons. O enredo é bem amarrado, com bom ritmo. A maior parte das piadas tem timing e contexto apropriado, muitas vezes fazendo referência aos quadrinhos e à história dos próprios protagonistas. Não há um excesso de subtramas, como se chegou a temer pela necessidade de contar para o público a origem do Aquaman, do Flash e do Cyborg.
Arthur Curry, o Aquaman, é a próxima aposta da Warner, que deve se fiar daqui por diante em filmes pontuais, focados em personagens singulares, mais do que em um grande universo compartilhado


Por fim, o Super-homem é um capítulo à parte. Aqui a Warner não tinha escolha senão recuperar um personagem cujo tratamento nos outros filmes foi por demais incompreendido. Se é verdade que faltou magnitude à ressurreição de Kal-El, o estúdio não teve ressalvas nem titubeou em levar pras telas o Super que todos queriam: senso de unidade da Liga, mais poderoso que todos os demais membros reunidos, arma sem a qual a derrota é iminente -- ressaltando assim a importância e o tamanho do personagem. E, claro, Clark aproveitou pra ter um papo de homem pra homem com Bruce Wayne em cena que levantou aplausos do cinema. 


O Super-homem retorna em mais de um sentido: o público finalmente vai ver o personagem todo poderoso e significativo com o qual se acostumou


Pra terminar, as cenas pós-créditos revelam que a Warner não vai se prender a obviedades na provável continuação da Liga da Justiça. Nada de Darkseid, mas ameaças mais clássicas e terrenas, que vão deixar o fã da DC com um sorriso no rosto. O mesmo sorriso que tive ao ver a corrida entre o Super-homem e o Flash pra saber quem é o mais rápido.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

São Miguel Arcanjo, o Guardião da Entrada

Lendo sobre tradições envolvendo São Miguel no Dia dos Finados, me deparei com o artigo que traduzi logo abaixo. Ele pertence a um blog de interpretação de ícones cristãos ortodoxos. Uma breve consideração antes de apresentar minha pobre e rápida tradução do texto, cujo link para o original apresento no fim. São Miguel Arcanjo, além de derrotar Satã e expulsá-lo dos Céus, possui uma ligação muito forte com os falecidos, tanto no catolicismo-romano quanto na Ortodoxia. Ele é representado como um anjo que realiza a pesagem das almas no juízo particular – que se sucede à morte do indivíduo – ou no Juízo Final. Entre os católico-romanos, existe a crença também de que protege, alivia as dores e até resgata as almas no “Purgatório” – ''local'' post-mortem cuja existência não é aceita por nós ortodoxos. De todo modo, há episódios interessantes sobre São Miguel na Santa Tradição, como a disputa entre ele e o diabo pelo corpo do Glorioso São Moisés após a morte do Profeta de Deus. Outro aspecto do Arcanjo é o seu papel apocalíptico de Senhor da Guerra, que cavalga durante os últimos tempos em um cavalo rubro voador e com uma aparência aterrorizante. Mas esse assunto fica pra outra postagem




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ANOTANDO NOMES E....

Na entrada de dois templos budistas japoneses frequentemente se encontram duas divindades guardiãs. Abaixo um par que data do período Kamakura (século XIII e início do século XIV).





Sempre lembro dessas divindades guardiãs quando vejo os dois anjos pintados na entrada das Igrejas Ortodoxas em países eslavos. Eles são os “Ангелы Господни, записывающие имена входящих в храм” – os “Anjos do Senhor, Registrando os nomes daqueles que entram na Igreja’’.

Quando estão os dois juntos (algumas vezes só um está presente), o anjo na esquerda da entrada (nos países eslavos) é o Arcanjo Miguel (Mikhail), tal como visto aqui na Igreja de São Simeão o Recebedor de Deus, no Mosteiro Zverin em Novgorod:






Ele carrega ameaçadoramente uma espada em sua mão direita, e um pergaminho em sua esquerda.

No ‘’Manual do Pintor’’ (Hermineia) grego de Dionysios de Fourna, podemos ler:

Dentro da porta do templo, à direita, o Arcanjo Miguel; Ele carrega uma espada e um pergaminho com estas palavras: ‘Sou um soldado de Cristo, e armado com uma espada. Aqueles que entram com temor, eu os defendo, os guardo, protejo-os e velo por eles; mas aqueles que entram com um coração impuro, os golpeio sem misericórdia com essa espada.’’

Às vezes, nas Igrejas eslavas, está escrito no pergaminho de Miguel:
Простираю меч мой на приходящих в чистый дом Божий с нечистыми сердцами.
"Estendo minha espada sobre aqueles que entram na casa pura de Deus com coração impuro."

De novo, nas Igrejas eslavas Gabriel (Gavriil) geralmente está no lado direito da entrada, apesar de Dionysios de Fourna escrever:

"À esquerda, Gabriel segura um pergaminho, e escreve essas palavras com um junco: ‘Registro a disposição interna daqueles que aqui entram; cuido dos bons, mas prontamente faço os maus perecerem".



Aqui uma versão muito mais recente dos dois Arcanjos, tais como vistos na Igreja de São Cirilo, em Kiev, Ucrânia.

Miguel à esquerda:





E Gabriel à direita:


Como mencionado antes, algumas igrejas tem um só anjo anotando, que é às vezes conhecido simplesmente como o Ангел храма – Anjo Khrama – ‘’Anjo da Igreja’’. Se acredita que este anjo se torna o protetor de uma igreja quando ela é consagrada, e permanece em serviço até a Segunda Vinda [de Cristo]. Esse anjo pode ser representado em pé ou sentado, registrando em seu pergaminho os nomes daqueles que entram na igreja, de modo que possa dar seu relatório sobre eles no Juízo Final.

Agora, claro que há uma relação aqui com a imagem padrão do Anjo da Guarda em ícones, que segue cada pessoa durante a vida e registra seus feitos.




Fonte: https://russianicons.wordpress.com/2017/08/14/taking-names-and/

terça-feira, 31 de outubro de 2017

O DIA DAS BRUXAS, ou: BENTO CARNEIRO, AQUELE QUE TEME UM SABÁ BRASILEIRO





Tenho quarenta anos de idade, sou de uma época que Halloween era nome de um filme de terror. Mas hoje, como parte da americanização forçada pelo mercado e comprada por parte das classes médias urbanas, já se imitam, aqui e ali e em algumas metrópoles brasileiras, os festejos presentes na maior parte dos EUA. Claro que esses festejos não tem raízes na nossa cultura, e por isso eles não passam de espuma, coisa de uma geração e que logo vai passar, mais ou menos como a moda de fazer ''festas americanas'' na minha época de garoto.

[Pra quem tem menos de trinta anos e portanto não sabe o que é uma ''festa americana'': pré-adolescentes se reuniam no início da noite na casa de um deles. Meninos levavam um refrigerante, meninas levavam doces ou salgados. Escutavam umas músicas estrangeiras, dançavam, riam, talvez paquerassem. Dez da noite a maioria estava indo pra casa. Vou voltar a isso depois, mas notem que a estrutura da festa poderia ser vista por alguns como um verdadeiro sabá, um encontro demoníaco de bruxas e demonhos].

Quer dizer, ao mesmo tempo que estou me lixando pro Halloween tenho convicção de que ele não ameaça em nada a cultura brasileira, assim como a Black Friday também não ameaça [ela não tem como igualar o aniversário do Guanabara entre nós]. Só aviso pros que me lêem que é bobo, ridículo, é ''pagar muito mico'' ficar com esse provincianismo de comemorar uma festa estrangeira sem vínculo algum com nossas festividades populares.

Mas se tem uma coisa que me incomoda nessa história é ouvir que o Halloween não deve ser comemorado porque se trata de uma ''festa pagã''. E aí se iniciam lamentos, ranger de dentes, um ''bate pé'' sem fim entremeados com pseudo-história dos druidas, de sacrifícios humanos ao Deus da Morte e outras bobagens copiadas inteiramente da histeria evangélica americana e adornada com mitos academicistas do século XIX. Até entendo que alguns grupos de jovens, desejando ''balançar o esqueleto'', copiem modinhas de outro país. Mas copiar a satanização que grupos religiosos desse país fazem dessa festa aí é um pouco demais pra minha cabeça.

Então, voltando à ''festa americana'' dos anos 1980, deixa eu esclarecer de vez: o Halloween não é a nova versão de um ritual satânico de origens pagãs. Não, por favor, não me fale de celtas e de Samhaim, essas aí são referências distantes de festivais camponeses obscuros, sobre os quais se sabe pouquíssimo até na Academia, dos quais não se tem a certeza nem mesmo da data. Qualquer coisa que saia muito disso é uma mentira que estão te vendendo. Festivais como esse existem no mundo todo, pois a vida em cidade era rara até ontem. E assim como hoje comemoramos em casas, salões, boates, avenidas, até ontem comemorávamos no campo, nas vilas, nas aldeias, nos pastos, seguindo os costumes da vida rural. Praticamente todos os festejos com mais de um século de existência tem algum vínculo com a vida, os costumes e a mentalidade do homem do campo. O que pensam que a festa junina ou o Dia de Reis são, afinal?

Isso posto, os vínculos do Halloween com festivais pagãos celtas são frágeis, frutos principalmente de achismos e de saltos de ideologia, daqueles que acham que toda festa cristã é necessariamente cópia mal intencionada do paganismo pra engabelar as pobres almas; e de saltos de fé, que unem neopagãos e evangélicos na crença de que seus deuses ou anti-deuses estão lhes aparecendo em todo lugar. E, com certeza, os costumes atuais do Halloween não tem nada a ver com o Samhaim -- nem as abóboras, nem os doces, nem as pilherias infantis, muito menos as fantasias de Yoda.

Todas as evidências concretas que temos sobre a data se referem aos três dias de comemoração cristã que se estendem de 31 de outubro a 02 de novembro. O próprio nome ''Halloween'' tem origem na véspera da Festa de Todos os Santos. E foi estabelecida em Roma para toda a Europa que hoje chamamos de ocidental, não só para as Ilhas Britânicas, pra tentar unificar festas de comemoração de santos e mártires [ou de ancestrais em geral] que ocorriam em datas diversas nas regiões da Cristandade [na Irlanda, costumava ser no dia 20 de abril, e espero que eu não esteja decepcionando vocês aqui...]. Não sei se ainda reparam, mas estamos em época festiva cristã, vamos ter um feriado nacional no dia 2 de novembro -- e antes do aprofundamento da secularização da sociedade brasileira, o dia primeiro de novembro costumava ser ponto facultativo também, essa sim uma tradição que deveríamos recapturar.

Não caiam portanto nessa de satanizar o Halloween, fazendo associações absurdas entre costumes nascidos há um ou dois séculos e cultos de deuses esquecidos de povos mortos de outros continentes. Isso é consequência da ''protestantização'' da mentalidade geral, a mesma que jura de pé juntos que o Natal é uma forma de cultuar o deus sol e que a árvore de Natal é oriunda de um culto germânico pagão. Além de alegações falsas no âmbito histórico, são bobas no campo do estudo das culturas.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

A grande obra ainda a completar, ou: o sentido da Era Vargas

Getúlio inaugura a política de massas no país
Mais do que nacional desenvolvimentismo, o que define a Era Vargas é a integração popular nas diversas esferas da vida da Pátria.

De todas as observações que já foram feitas a respeito de Getúlio, essa é a que consiste em verdadeiro eixo explicativo da formação política, da trajetória e do projeto do ''Pai dos pobres''.

Antes de 1930, o Brasil era uma República construída para as Oligarquias rurais, que visavam criar uma caricatura dos ''Estados Unidos do Brasil'' conformada com a divisão internacional do trabalho, e manter uma hierarquia social excludente, herdeira do escravismo.

Vargas rompeu com essa visão sem ter dó dos fetiches liberais das elites parasitárias: derrubou as oligarquias, derrotou os paulistas numa guerra civil, impôs uma Constituição, fechou os parlamentos, e, em vez de ''democracia burguesa'', prometeu gradual e cada vez maior participação popular no mundo da política, na sociedade, na identidade que o país construía, e nos dividendos econômicos.

As Forças Armadas, grandes parceiras de Vargas na maior parte de seu governo, eram as verdadeiras impulsionadoras do Nacional Desenvolvimentismo, do plano de um Brasil Industrial. Tanto é assim que essa linha teve continuidade sob o regime dos generais durante o fim dos anos 1960 e toda a década de 1970.

O que as FFAA não possuíam, antes temiam, como o restante das elites brasileiras, era essa força integradora, esse ''monstro da lagoa negra'' que Getúlio trazia à tona. Era a política de massas, a política de valorização do salário mínimo, a ampliação dos direitos sociais, a extensão da legislação trabalhista ao campo, a reforma agrária.

Foi contra esse aspecto da política varguista que o golpe de 1954 foi desferido. O manifesto dos coronéis tem esse contexto, o de escândalo em torno do aumento do salário mínimo. O golpe de 1964 idem, a histeria militar contra a ''insubordinação'' dentro da hierarquia do Exército, e, claro, da estrutura social nacional.


Inclusive no âmbito identitário, em que Getúlio merece mais críticas, havia esse horizonte, essa estrela guia: o Brasil não devia ser uma imitação da civilização europeia, o Rio de Janeiro não era uma Paris dos trópicos, como desejavam as oligarquias da ''República Velha". A nação possuía uma identidade própria a ser construída a partir dos costumes e hábitos de suas camadas populares: boteco, mulatas, samba, ''jeitinho'', praia [no caso, o Rio foi o esteio dessa construção]. O erro homogeneizante desse projeto esconde seu acerto fundamental: o Brasil é seu povo.

O regime militar, nacional desenvolvimentista, e que em determinado momento incluiu até mesmo uma política externa independente, nunca conseguiu esse passo. O ''milagre'' foi construído em cima de brutal expropriação dos mais pobres, e o país se tornou um conjunto caótico de metrópoles favelizadas marcadas pela mais vergonhosa desigualdade de renda do planeta: do Império escravista ao Brasil das ''cidades partidas''.

O trabalhismo, que se apropriou legitimamente da imagem de Vargas, consolidado primeiro no PTB de Jango, e mais tarde no PDT de Brizola, deu continuidade a esse legado, e pariu ideias [''socialismo moreno'', ''o povo brasileiro''] e perigo para as elites parasitárias. Lula e o PT jamais, em momento nenhum, causaram nessas classes privilegiadas o temor e tremor que Leonel Brizola era capaz de levantar.

Infelizmente, Lula não aproveitou a oportunidade aberta por Brizola quando o velho gaúcho o levou ao túmulo de Vargas em São Borja. Ao contar a experiência, após a morte do líder do PDT, Lula mostrou que considerou a visita curiosa, pitoresca, extravagante, uma concessão a um movimento de lutas ultrapassado. Brizola não conseguiu alinhavar Lula na linhagem de luta pela soberania popular: apresentou o operário a Getúlio, mas o operário não o reconheceu. Quando percebi esse ar de zombaria de Lula, soube ali que seu movimento fracassaria no fim das contas.

É sumamente necessário que as lideranças do PDT levem Ciro Gomes a São Borja, que façam-no jurar diante do túmulo de Getúlio dar seguimento à sua obra de emancipação do povo brasileiro dos parasitas que o exploram e o mantém em estado servil. Os rumos da próxima geração de brasileiros dependem desse ato singelo, desse ritual de culto ancestral.

Nada, absolutamente nada, nem mesmo uma política nacional desenvolvimentista, vai conduzir o Brasil de novo ao seu rumo sem que esse ato seja realizado. E se o rito for devidamente cumprido, nem uma possível derrota eleitoral será capaz de apagar a sensação crescente de que um novo terremoto se abaterá sobre o mundo cinza dos traidores do país.

sábado, 3 de junho de 2017

Santo, Rei e Sacerdote

Hoje a Igreja comemora o Santo Imperador Constantino e sua mãe, a Santa Imperatriz Helena. Ambos recebem o epíteto de ''Igual aos Apóstolos''. São Constantino foi responsável pelo Édito de Milão, que 'descriminalizou' o cristianismo no Império. Também estabeleceu a perspectiva ortodoxa de que o Imperador possuía uma função similar às dos Bispos. Quem tem qualquer dúvida sobre isso por causa de alguma reminiscência católica-romana que permanece mesmo após a conversão, leia o que diz São Nicodemos Hagiorita nos seus Sinaxaria. Ele afirma que São Constantino era Rei e Bispo [ou seja, Rei e Sacerdote]. Nosso Bem Aventurado Pai cita o Dodekavivlos, do Patriarca Dositheo de Jerusalém, que defende que São Constantino era Bispo em 26 sentidos possíveis.

Foi por sua intervenção também que a palavra ''consubstancial'' foi acrescentada ao Credo, derrotando todo e qualquer subordinacionismo.

Um episódio muito importante da vida desse grande Santo, Rei e Sacerdote, foi a Batalha da Ponte Mílvia, realizada às portas de Roma contra o usurpador Maxêncio. Às vésperas da batalha, São Constantino recebeu uma visão [em sonho ou olhando para o céu, as versões não coincidem] de uma cruz com as iniciais X R [significando Cristo] e da frase ''in hoc signo vinces'' ['com este símbolo vencerás']. Constantino gravou o Chi-Ro nos escudos de seus soldados e o usou como lábaro, derrotando seu inimigo e iniciando sua caminhada para a unificação do Império sob seu comando.

A Batalha da Ponte Mílvia foi um exemplo de vitória de Cristo sobre os deuses romanos, no terreno mesmo em que estes últimos eram mais invocados pela cidade que governava o mundo, o da proteção de seus Exércitos nos campos de batalha.

A Batalha da Ponte Mílvia foi a refundação do Império, sua revitalização, e permitiu que ele sobrevivesse mais mil anos após a chegada dos germânicos, tempo necessário à conversão dos povos eslavos que começaram a entrar na órbita de Constantinopla -- fundada também por São Constantino -- dois ou três séculos depois.

Abaixo, afirmações do Santo Imperador para uma companhia de Bispos:

''Eu também sou um Bispo. Vocês são Bispos do homem interior. Eu sou Bispo do homem exterior e do homem interior. Do exterior, porque cuido de sua educação e do correto modo de vida. Não é sem propósito que carrego a espada. Do interior, porque sou colaborador de vocês na consolidação e crescimento da fé ortodoxa, estabelecido também na mesma fundação dos Profetas e dos Apóstolos'' [1]



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[1] Citado por Dositheo de Jerusalém no Dodekavivlos. Conferir a tradução para o inglês em: [http://www.johnsanidopoulos.com/2015/05/constantine-great-as-saint-bishop-and.html]

quarta-feira, 24 de maio de 2017

O Raio de Zeus, ou: o surgimento de um herói

Em 1997, Gustavo Kuerten levantava pela primeira vez o troféu de Roland Garros -- uma fagulha divina elevou o tennis do catarinense a um patamar inalcançável

Para boa parte do mundo ficou impossível pensar em Roland Garros sem ter a mente invadida pela imagem de um surfista jovial, magro e sempre sorridente, brasileiro de nome alemão.

Gustavo Kuerten possuía apenas 21 anos em 1997. Era o número 67 do ranking da ATP, posição que indicava um futuro promissor no top 100, uma boa carreira, mas que não gerava expectativas desmedidas para o major francês. Apenas um tenista havia conquistado um Grand Slam com ranking mais alto que Guga apresentava então: Mark Edmonson, no Aussie Open de 1976 [em 2001, Goran Ivanisevic se juntaria a ele ao deixar a aposentadoria para levantar o troféu em Wimbledon]. No ano anterior, Guga havia sido eliminado na primeira rodada.

Como um raio lançado à terra por Zeus, anunciando o nascimento dum novo herói, um milagre ocorreu naquela semana, um clique na mente e no corpo do catarinense, fazendo surgir não só um gênio como também uma revolução. Desde sua estreia, Kuerten passou a exibir um tennis hipnotizante. Na terceira rodada, derrotou Thomas Muster, o Rei do saibro, austríaco cujo estilo precedeu em quinze anos o de Rafa Nadal, e que terminou a carreira como mais de 40 títulos na superfície. Muster havia sido campeão em 1995, e fez de tudo, absolutamente tudo, para estancar as ondas inquebrantáveis que o afogavam naquele jogo. Em determinado momento, reclamou em voz alta: ''quem é esse cara? o que ele tá fazendo? Para de dar bola impossível!'' Aquele cara era o sucessor de Thomas como dono inconteste da terra batida.

Muster era incansável na quadra, rápido de pernas, cobrindo todos os ângulos, jogando sempre mais uma bola. O novo Rei, pelo contrário, inventou uma nova forma de atuar naquela superfície: sempre no ataque, pegando a bola por cima, com pancadas retas do fundo de quadra, e dando nascimento a um novo tipo de revés agressivo, seu famoso golpe de backhand na paralela.

A França permaneceu atônita quando o ''manezinho'' passou nas oitavas de final por Medvedev, que decidiria o título em 1999 contra Agassi. Nesse confronto se estabeleceu definitivamente o laço amoroso entre o brasileiro e o público parisiense. Depois de ter começado o quinto e decisivo set perdendo por 3 a 0 , Guga contou com a torcida para virar uma partida quase perdida; e, no momento de seu triunfo, dedicou a vitória aos franceses, que inventaram um novo grito de guerra: ''Alléz, Gugá!''

Mas foi a rodada seguinte que definiu as possibilidades de Kuerten no Aberto da França. Ele enfrentou o então campeão, Yevgeny Kafelnikov. Mais tarde, Guga confessou ter dado o embate por perdido quando o russo fez dois sets a um. Tudo o que queria a partir dali era aproveitar o momento, sua despedida daquelas semanas maravilhosas, que, provavelmente, jamais voltariam a se repetir. Entrou solto e relaxado para o quarto set, desejando apenas gozar de sua última meia hora no torneio. E eis o raio de Zeus, aquela fagulha divina que traz o gênio à tona. O surfista de uniforme colorido atingiu um patamar em seu jogo que tornou o então campeão em mero espectador do que ocorria do outro lado da rede. Venceu nada menos que oito games consecutivos, dando um pneu no russo e estabelecendo a quebra que lhe garantiria presença nas semifinais e o favoritismo para a conquista da taça -- na opinião de ninguém mais, ninguém menos que Bjorn Borg.
 
Guga deita no coração que havia desenhado na Philippe Chatrier após a conquista de seu terceiro título, em 2001, vencendo na final Alex Corretja
O sonho continuou nos dias seguintes, até que o jovem de cabelos desgrenhados conquistasse seu primeiro major em cima do bicampeão Sergi Bruguera. Nos próximos anos, o tennis do brasileiro amadureceria, criando bases para os mágicos anos de 2000/2001, quando se consolidou como principal jogador da ATP, venceu mais dois títulos em Roland Garros [vencendo na final, respectivamente, de Magnus Norman e Alex Corretja], uma Master Cup [na hard court, passando por Pete Sampras e Andre Agassi] e atingiu o posto de número um do ranking. Quando seu jogo evoluía para a dominância da quadra dura [Guga vencera Cincinatti passando por Roddick, Haas, Kafelnikov, Ivanisevic, Henman e Patrick Rafter] de modo a se tornar favorito absoluto para o US Open 2001, seu corpo cobrou os treinos exaustivos, e uma lesão crônica no quadril levou embora suas possibilidades de competir por grandes títulos.

Mesmo assim, nos duros anos que se seguiram, em que persistiu na carreira com dores e entre cirurgias com o objetivo de manter o tennis brasileiro em evidência, os momentos de magia emergiam vez ou outra. Assim foi em 2004, quando disputou a terceira rodada de Roland Garros contra Roger Federer, que já iniciara sua hegemonia sem igual sobre o circuito. E eis o 'clique', a mágica fagulha, que elevava o jogo de Guga sobre o saibro a um patamar capaz de transformar os maiores adversários em espectadores sem reação: 3 a 0 contra o mestre suíço.

Como expresso no gesto inesquecível após sua terceira conquista do troféu de Roland Garros-- o coração que desenhou na Philippe Chatrier, e em que deitou pra simbolizar sua ligação com o público --, o 'manezinho da Ilha' nunca mais deixou o coração dos brasileiros, dos amantes do tennis, do público francês, e se tornou reconhecido e lembrado como um dos maiores saibristas que já existiram.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Ronald Barnes, gênio brasileiro

''O Barnes era um gênio''. As palavras são de ninguém menos que Thomaz Koch, maior ídolo do tênis masculino pátrio antes do fenômeno Gustavo Kuerten. Era também o jogador predileto de Maneco Fernandes, grande mito das quadras brasileiras antes de Koch. Um testemunho insuspeito do talento de Barnes vem de um de seus maiores desafetos, Paulo da Silva Costa, ex-presidente da Confederação Brasileira de Tênis [CBT]. Era o ano de 1959, e Barnes, de 18 anos, treinava em uma das quadras de Wimbledon, onde disputaria tanto o torneio juvenil [no qual seria vice-campeão] quanto o de adultos. Eis que se aproxima o lendário técnico australiano Harry Hopman [homenageado anualmente com a Hopman Cup] seguido de seus pupilos Neale Fraser, Rod Laver, Roy Emerson e Fred Stoller. O grupo se sentou ao lado da quadra pra acompanhar o jovem brasileiro. Curioso com a situação, Paulo perguntou a Hopman o motivo porque observava o treino de Barnes. O técnico explicou que estava ministrando uma aula teórica sobre devolução de saque, e que escolhera o brasileiro para exemplificar para seus alunos a execução perfeita desse fundamento.



Filho de ingleses, Ronald Barnes nasceu no Rio de Janeiro no dia primeiro de janeiro de 1941. Quando criança, ganhou de um namorado de sua irmã o apelido de ''Vovô'' ao perder os dentes de leite. Foi um típico boêmio carioca: fumante inveterado, com fama de bom de copo e o hábito de virar noites no carteado. Aqueles que o viram jogar concordam que poderia ter chegado ao estrelato mundial caso fosse disciplinado e dedicado aos treinos, uma necessidade cada vez maior naqueles anos de consolidação do profissionalismo.


A brevidade de sua carreira impediu Barnes de conquistar a fama que Thomaz Koch gozou entre os brasileiros, mas não apagou seu fulgurante brilho. Os resultados dos seus pouco mais de oito anos de atividade nos principais torneios do mundo são fenomenais. Barnes se sagrou campeão brasileiro pela primeira vez em 1958, com apenas 17 anos. Foi bicampeão nacional no ano seguinte, mesma temporada em que conquistou o Orange Bowl, maior torneio juvenil do planeta [Chegou a vencer um terceiro campeonato brasileiro em 1965, derrotando Koch na final]. Tornou-se o primeiro tenista pátrio a conquistar duas medalhas de ouro em um Pan-Americano: campeão de simples e de duplas em 1963 [seu parceiro de duplas foi Carlos Alberto ''Lelé'' Fernandes, irmão mais novo de Maneco]. 


Seu desempenho se estendeu aos torneios de Grand Slam. Barnes foi o primeiro brasileiro a alcançar a semifinal de um major, feito superado somente em 1997 por Gustavo Kuerten [e igualado por Fernando Meligeni em 1999]. Aconteceu em Forest Hills [o atual US Open] em 1963. Não foi um acontecimento casual, pois Barnes fez também quartas de final em Roland Garros no ano seguinte, e ficou também entre os oito melhores de Forest Hills/US Open em 1967, último ano de sua carreira.


O sucesso do carioca não se resumiu a simples, Barnes foi também exímio duplista, tendo chegado ás quartas de final de Forest Hills/US Open [tendo por parceiro ninguém menos que Roy Emerson], Wimbledon e Roland Garros [fazendo dupla com Carlos Alberto ''Lelé'' Fernandes], feitos ainda mais marcantes quando se considera que naqueles tempos os grandes nomes de simples disputavam também as duplas em praticamente todos os torneios, o que tornava o nível das competições muito elevado. Os brasileiros Barnes/Lelé foram derrotado nas Quartas de Final de duplas de Wimbledon por Roy Emerson/Manolo Santana, por exemplo, que eram respectivamente o número dois e três do mundo aquela temporada. Sua conquista mais significativa se deu no Aberto de Roma, torneio mais badalado de então depois dos Grand Slams. Barnes fez dupla com Koch em uma final histórica contra os australianos John Newcombe/Tony Roche. Ambas as duplas foram consideradas campeãs por falta de luz natural quando a partida se encontrava empatada em 5 a 5 no quinto set.


Voltando às simples, foi em Roma também, em 1964, uma das vitórias mais luminosas de Barnes, sobre o mítico australiano John Newcombe [vencedor de sete majors, cinco deles na Era Aberta]. O brasileiro passeou em quadra, batendo o adversário por humilhantes 6/2, 6/0, 6/1. Barnes protagonizou vitórias históricas contra tenistas do gabarito de Nikola Pilic [semifinalista de Wimbledon em 1967 e finalista de Roland Garros em 1973], Rafael Osuna [campeão em Forest Hills/US Open em 1963] e Cliff Drysdale [finalista de Forest Hills/US Open em 1965, duas vezes semifinalista de Wimbledon em 1965/66, duas vezes semifinalista de Roland Garros em 1965/66].


Uma de suas partidas mais famosas aconteceu no Aberto de Miami, em 1965. Eram as oitavas de final, e Barnes enfrentaria 'Manolo' Santana, maior tenista da história da Espanha antes do surgimento de Rafael Nadal, e dono de quatro majors [Roland Garros em 1961 e 1964, Wimbledon em 1966 e Forest Hills/US Open naquele mesmo ano de 1965]. Manolo era considerado o tenista número um do mundo pelas revistas especializadas. Na véspera da peleja, Barnes jogou carteado até a madrugada, embalado por doses cavalares de Black Label. No dia seguinte, venceu Manolo por 6/2 e 7/5, em um verdadeiro show de tênis. O espanhol foi ao vestiário cumprimentar o adversário, a quem abraçou, dizendo para todos: ''Esse homem joga muito, mas muito tênis!''


A carreira de Barnes começou a ser abreviada em abril de 1966, quando foi suspenso por Paulo da Silva Costa por se recusar a jogar um torneio imposto pelo Presidente da CBT. Com isso, não pôde participar da campanha do time brasileiro que pela primeira vez chegou às semifinais da Copa Davis, nem tampouco disputar eventos internacionais. O carioca aproveitou para ministrar aulas de tênis e ajudar no treinamento de outras seleções [Espanha e Tchecoslováquia]. Também casou naquele ano com Ella Ploch, campeão venezuelana de tênis e terceira colocada no concurso de Miss Venezuela. Retornou ao circuito no ano seguinte, alcançando excelentes resultados no Aberto de Montreal, no Canadá, e exibindo ótima performance em simples e em duplas [tendo Roy Emerson como parceiro] em Forest Hills/US Open, onde chegou às quartas de final em ambas as modalidades. Sua vingança contra o dirigente que o suspendera se deu em 1968, quando se tornou um dos artífices do movimento que tirou Paulo da Silva Costa da presidência da CBT.


Mas Barnes havia se cansado do circuito e abandonou o esporte com apenas 26 anos de idade. Segundo Koch, o motivo é que ''Barnes se casou cedo demais!'' De todo modo, o Vovô foi uma das mais talentosas páginas da história do tênis brasileiro e sul-americano. 


Ronald Barnes faleceu vítima de um câncer em 2002.


domingo, 5 de fevereiro de 2017

Maneco, o prodígio

A história do tênis brasileiro é recheada de personagens talentosos e singulares, cuja memória foi negligenciada pelo grande público. E assim estamos sempre recomeçando nas quadras, cada tenista que explode para o sucesso é sempre o primeiro tenista a fazê-lo, o primeiro ídolo, e não um elo de uma longa corrente capaz de criar orgulho nas novas gerações ou de se tornar fundamento para o desenvolvimento de uma escola pátria do ''esporte dos reis''. Entre aqueles que o apreciam poucos sabem quem foi, por exemplo, Manuel Fernandes, vulgo ''Maneco''. 



Verdadeiro mito das quadras brasileiras durante os anos 1940 e 1950, Maneco  nasceu em São Paulo no ano de 1921, um dos filhos do 'Seu' Jaime, porteiro do glamouroso Clube Athletico Paulistano. Trabalhava como pegador de bola até que seu talento com as raquetes, visível desde a infância, chamasse a atenção dos sócios, que decidiram torná-lo jogador do clube em troca de uma pequena remuneração mensal.


Seu cartão de visitas no cenário nacional se deu em 1939, quando derrotou aquele que era considerado o grande nome do tênis brasileiro em um torneio organizado para arrecadar fundos para as vítimas de um terremoto no Chile. Alcides Procópio não viu a cor da bola e caiu em 3 sets, inaugurando uma das mais famosas freguesias das quadras pátrias. Os números da rivalidade sempre foram objeto de discordância jocosa entre os dois amigos. Segundo Maneco, os dois haviam se enfrentado 114 vezes, e Procópio só havia vencido uma vez [justamente a final do primeiro campeonato brasileiro, em 1943, por 12 a 10 no quinto set, derrota que Maneco considera a mais dolorida de sua carreira]. Já Alcides diz que foram 17 jogos e que ele chegou a vencer duas vezes. De todo modo, admitia de bom grado a superioridade do novo prodígio.


As possibilidades de que Maneco se tornasse mais conhecido no cenário internacional foram frustradas com a Segunda Guerra Mundial. Só foi sair do país em 1948, para disputar as oitavas de final da Copa Davis, na Tchecoslováquia, que possuía o time campeão do ano anterior e que acabaria bicampeão naquela temporada. Em Praga, conquistou uma sólida vitória em três sets contra Ferdinand Urba, revelação tcheca. Depois da Davis, todos esperavam que Maneco realizasse um pequeno giro por torneios europeus. Mas ele voltou três meses depois ao país sem ter disputado jogo algum. Havia conhecido um português rico com quem viajou o Velho Mundo conhecendo restaurantes e bares.


Maneco era representante de um tempo romântico do ''esporte branco'', em que o único treino eram os próprios jogos. Além disso, era um grande boêmio, que se preparava para as partidas com visitas às ''suas meninas'', ingeria largas quantidades de uísque e vinho, e passava as madrugadas no carteado. Foi mais ou menos assim que venceu Enrique Moréa, o melhor tenista argentino da década de 1940 e 1950, numa espetacular jornada no Pacaembu, um feito ainda mais impressionante quando se sabe que o portenho conquistaria o Pan-Americano, e em 1953 e 1954 seria considerado por revistas especializadas com um dos dez melhores jogadores do mundo. Tamanha sua reputação, que Moréa foi nomeado Presidente Honorário da Associação Argentina de Tênis em 2014. 


Durante aquela visita ao Brasil, o argentino demoliu Armando Vieira, jogador que dominava o campeonato nacional, por avassaladores 6/0, 6/0 e 6/1. Na manhã do dia anterior ao confronto contra o argentino, Maneco foi tomar uns drinques com conhecidos. Almoçaram em belo restaurante e depois partiram para o Parque Balneário, onde jogaram pôquer até a tarde do dia seguinte, impulsionados por garrafas de uísque. Depois de um dia e meia na esbórnia, Manuel tomou uma chuveirada de quarenta minutos e entrou em quadra para vencer seu adversário em cinco sets, depois de quatro horas e meia de peleja.


O tenista paulista conquistou outras vitórias memoráveis. Uma delas sobre Pancho 'Segura', equatoriano que foi quatro vezes semifinalista em Forest Hills [como era chamado o major dos EUA, hoje conhecido como US Open] durante a década de 1940 e número um do mundo no início dos anos 1950. Em jogo realizado no Paulistano, em 1942, Segura venceu os dois primeiros sets por 7/5 e 6/0, e teve duplo match point no terceiro, sacando em 5/1, mas o brasileiro conseguiu uma virada épica, fechando seus sets em 7/5, 6/2 e 6/3.


Outra tarde memorável se deu contra o americano Bob Falkenburg, em Santos. O ano era 1948, e Bob acabara de vencer nada mais, nada menos do que o Torneio de Wimbledon. Mas naquele dia foi demolido pelo brasileiro em 3 sets tão humilhantes que o fizeram deixar o Tennis Club pelas portas de fundo, de tão envergonhado. A propósito, Falkenburg mais tarde se naturalizou brasileiro e fundou a rede de lanchonetes Bob's, cuja primeira loja foi aberta em Copacabana, Rio de Janeiro.


Maneco foi campeão sul-americano em 1947, e bicampeão brasileiro em 1947 e 1954. Se tornou vice campeão brasileiro seis vezes, a maioria delas em derrotas para Armando Vieira, tenista menos talentoso mas verdadeiro atleta, e que construiu sua sólida carreira nas quadras americanas. Em entrevista a Mino Carta, em 1976, Maneco declarou que os melhores tenistas brasileiros que viu jogar haviam sido Maria Esther Bueno e Ronald Barnes.


Maneco faleceu em 2003.

sábado, 28 de maio de 2016

As Faces do Golpe -- Parte I: o projeto de Serra e uma Corte acovardada



Nos últimos dias, a grande mídia escancarou um novo capítulo da novela da queda de Dilma com a divulgação de conversas gravadas entre Sérgio Machado e outros líderes do PMDB [Romero Jucá, Renan Calheiros e José Sarney]. [1] Machado estava apavorado com a Procuradoria da República no seu encalço e acabou fazendo um acordo de delação premiada com a Força-Tarefa da Operação Lava-Jato. Os áudios revelam que a tremedeira não era só dele, mas generalizada entre os políticos tradicionais. Os telefonemas tratam de um acordo entre os líderes dos principais partidos para entregarem a cabeça de Dilma Rousseff em troca do fim das investigações da Lava-Jato. Esse acordo teria sido possibilitado pelo estabelecimento de um consenso sobre o verdadeiro teor da operação, cujo alvo não se limitaria à destruição de Lula e do PT, mas se estenderia a todo sistema político-partidário em uma perseguição implacável que teria por fim a implosão da política tradicional e a renovação da República pelas mãos daquilo que foi chamado pelo próprio Machado de ''casta pura''. O PSDB teria aceitado uma aliança em torno de Michel Temer visando a proteção de toda classe política sob a fachada de um ''governo de salvação nacional''. A estratégia é mais um trecho do emaranhado de conspirações e fatores da crise, cujos elementos envolvem não apenas alas paulistas do PSDB e a cleptocracia -- que comandaram o golpe parlamentar propriamente dito --, mas vão desde as novas instâncias de representação da classe média liberal, passam por setores produtivos cada vez mais dependentes da globalização financista, e desaguam na emergência de um grupo de agentes do Ministério Público e da Polícia Federal portadores de uma nova forma de ''tenentismo jurídico''. Mais ainda, boa parte desses atores estão permeados também por interesses e lobbies de empresas, de think tanks e do aparato estatal norte-americano. Dou início a uma pequena série de posts com o intuito de esclarecer, de forma simples e didática, alguns atores envolvidos na trama política que vem determinando a guinada atlantista e liberal no Brasil, mudança que pode não ter chegado ao fim e  que promete capítulos de maior radicalização.





Serra, o mediador dos interesses liberais e americanos no sistema partidário


José Serra é um dos articuladores mais importantes em meio ao golpe. Sem espaço no PSDB paulista para tentar mais uma candidatura à Presidência da República e adversário conhecido de Aécio Neves, o maior nome do social-liberalismo e do parlamentarismo brasileiro se aproximou do PMDB no ano passado [2]. Serra tem conexões com o FBI, com quem manteve contatos em São Paulo em operações para combater o PCC -- relações que não passavam por nenhum tipo de crivo do Itamaraty [3]. Ele também é o principal mediador dos interesses de petroleiras estrangeiras na mudança da lei de partilha no pré-sal, conforme demonstram telegramas vazados pela Wikileaks em 2009 e o projeto de lei que apresentou ao Senado em 2015 [4]. Serra ganhou de Temer um turbinado Ministério das Relações Exteriores. É o primeiro não diplomata no posto nas últimas duas décadas e o cargo é um sinal de suas ambições presidenciais ou, quem sabe, de se tornar primeiro ministro em uma possível solução parlamentarista. De imediato, anunciou diretrizes que alteravam por completo a política externa do PT [que dava maior ênfase ao multilateralismo e às relações identitárias Sul-Sul -- bem como à busca por um maior protagonismo internacional, simbolizado na conquista de um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU e por uma maior independência em relação aos ditames dos EUA]. Serra anunciou a adesão do Brasil aos ''valores ocidentais'', uma gestão determinada pela busca de acordos comerciais com as grandes potências econômicas -- com elogios a acordos bilaterais e à TransPacific Partnership, rompimento com os regimes bolivarianos sul-americanos e menores ambições de protagonismo internacional [5]. No mesmo dia em que as gravações de Jucá e Machado desvendavam a existência de um acordão dos principais líderes partidários para derrubarem Dilma em troca de proteção contra a sanha da Lava-Jato, Serra instruía os diplomatas do Itamaraty para que defendessem o ''governo'' Temer de qualquer acusação de golpe nos países em que trabalhassem [6].





Gilmar Mendes, o braço do PSDB no STF


O papel do Ministro Gilmar Mendes no golpe continua. Peça estratégica do PSDB no Supremo Tribunal Federal, Mendes se articulou com Serra e Armínio Fraga para impedir a posse de Lula na Casa Civil [7]. Ele também é o maior escudo de Aécio Neves, evitando a abertura dos processos que descortinam o ''esquema'' do político mineiro, que, segundo Machado nos áudios recentemente divulgados, é conhecido por ''todo mundo'' [8]. Gilmar Mendes preside também o TSE, onde corre uma ação que pode anular a chapa vencedora das eleições presidenciais de 2014 [9]. Esse processo é usado para chantagear Michel Temer, e, provavelmente, garantir um espaço ainda maior de certas alas tucanas na condução do novo governo. As conversas entre Jucá e Machado indicam que o PSDB aceitou deixar de lado o golpe via TSE a fim de se alinhar no esquema de proteção da cleptocracia contra as investigações da Operação Lava Jato.






Uma Corte grampeada e acovardada



Os últimos anos consolidaram a imagem do Supremo Tribunal Federal como intérprete final da Constituição e de garantia última da ordem institucional. Mas a Corte sofreu um desgaste imenso desde o julgamento histriônico do Mensalão, quando vaidades tornaram o evento em um show de mídia. O Tribunal sofreu um processo de partidarização e foi tomado por uma ultra-sensibilidade em relação à opinião pública, fato que pode estar ligado também aos grampos encontrados em gabinetes de Ministros da Corte [10]. O julgamento de uma ação que suspendia as atribuições de Cunha foi adiado por cinco meses por medo das consequências de sua deposição antes do julgamento da admissibilidade do impeachment. Os áudios que revelam o acordo cleptocrata para a derrubada de Dilma Rousseff já eram conhecidas pelos Ministros desde março mas nada foi feito em relação ao tema. Pelo contrário, Jucá e Machado afirmam nas gravações não só que tem acesso a Ministros do Supremo, mas também que alguns deles teriam intermediado conversas com aqueles que exigiam a derrocada de Dilma em troca da paralisação das investigações. Os deputados diziam também que o acordão pela derrubada de Dilma Rousseff, vendido sob o manto de um ''governo de salvação nacional'', teria participação da Corte. No auge da crise, Lewandovski teria se reunido com a Presidente Dilma para cobrar maiores salários e a aprovação de novos benefícios para os Ministros do Tribunal.




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[1] Conversa entre Sérgio Machado e Romero Jucá ; Conversa entre Sérgio Machado e José Sarney ; Conversa entre Sérgio Machado e Renan Calheiros

[2]  Serra se aproxima do PMDB de olha na Presidência ; Parte do PMDB corteja Serra ; Cúpula do PMDB dará sinal verde para filiação de Serra