segunda-feira, 23 de abril de 2018

Como o gradualismo reformista matou o PT, ou: da necessidade de coragem caudilhesca



''Ao subir a rampa do Planalto, sentar na cadeira e pegar a caneta, meu primeiro ato como presidente será suspender a concessão da GLOBO, porque entendo que lhe foi dada de forma inconstitucional, com capital privado internacional''

Leonel Brizola





De modo recorrente, sou criticado por alguns por não ter a mesma leitura negativa que eles possuem do PT. De certo modo, há uma ironia aqui. Durante a minha vida toda tive ojeriza pelo PT. Cresci em tempos de grande polarização e debate político, os anos 1980 da 'redemocratização'. Minha família possuía forte posição trabalhista, meu pai era 'pedetista' e 'brizolista'.


Nesse cenário, desenvolvi desde cedo uma perspectiva bastante negativa sobre o significado político do PT, que só aumentou com a dolorida derrota de Brizola para Lula nas eleições de 1989. Foi por meio por cento dos votos válidos, e impediu Brizola de disputar o segundo turno contra Collor. Naquela apuração, que era ainda manual e demorava semanas, acompanhei as divulgações periódicas dos resultados com a mesma paixão com que assistia jogos do Flamengo.


Durante toda a década de 1990 me recusei a apoiar o PT em qualquer eleição que fosse. Tenho título de eleitor desde 1994, e não votei no partido para eleições municipais, estaduais ou federais. Lembro que o voto dos meus pais migrou de Brizola para Enéas em 1994, as primeiras eleições presidenciais em que pude votar -- e meu escolhido foi Brizola. Depois de 1994, anulei meu voto tanto nas eleições de 1996 quanto nas de 1998.


Só três vezes depois de 1994 me recusei a anular o voto, e só duas vezes ele foi dado ao PT. No primeiro turno das eleiçoes municipais de 2000 votei em Benedita da Silva. Mas não por causa da dita cuja, nem por causa do PT. É que essa senhora se encontrava em uma peleja indefinida contra César Maia, para decidir quem iria ao segundo turno contra Conde. Eu queria tirar César Maia da disputa e votei na única que poderia fazê-lo. Hoje vejo que estava errado, César Maia era a melhor, e não a pior opção para a cidade. O ponto aqui é que se fosse uma pedra ameaçando Maia no primeiro turno, eu teria votado na pedra, é assim que deve ser lido aquele meu voto. A segunda vez foi no segundo turno das eleições presidenciais de 2002. Ali votei em Lula com a intenção explícita de impedir que o PSDB continuasse no poder. Eu não me conformava com qualquer possibilidade de eleição do vampiro José Serra. Foi a única vez que votei de fato no PT e em Lula de maneira consciente e politicamente engajada, motivado antes de tudo pelo meu ódio ao neoliberalismo paulistocêntrico tucano. Na ocasião, cabe frisar, eu estava correto. Era o melhor voto. A terceira vez em que evitei o voto nulo foi no referendo sobre o Estatuto do Desarmamento, ocasião em que votei 'não', e, portanto, a favor do comércio de armas e contra a posição do governo Lula e do 'beatiful people' progressista mobilizado pela Rede Globo.


Durante o período de hegemonia petista, sempre fui crítico e oposição ao partido. Todas as críticas repetidas ad infinitum ao petismo eram feitas por mim naqueles anos. Minhas posições políticas mudaram ao longo desse tempo, eu cheguei a flertar com o liberal conservadorismo entre 2005 e 2007, e depois com a social democracia, antes de retornar a posturas dissidentes. Mas a crítica ao PT foi sempre a mesma: cheguei a criar o epíteto de ''Lulla-lá'' depois do mensalão -- ação política capitaneada por José Dirceu e à qual vejo hoje com bons olhos, por sua coragem e desprezo pela democracia representativa brasileira. Chamei o governo petista de neoliberal, de subordinado a interesses financeiros, de progressista na ordem moral e portanto colonizado pela esquerda pós-moderna etc. etc. etc. Minhas críticas se estenderam no tempo a ''Dilma-má'', como qualquer um que tenha acompanhado minhas postagens sabe.


E, apesar disso, sou acusado de ''petista''. A única razão convincente é a de que não sou engolido em minhas análises e posições recentes pelo ódio ao PT, que grassa e corrói o fígado de muitos conhecidos meus. Como raras vezes li justificativas respeitáveis e coerentes teoricamente para esse antipetismo, só posso encará-lo como um misto de preconceito de classe; um repúdio ao socialismo,  muito comum em meios dissidentes -- e que se constitui num dos erros mais crassos da terceira teoria política quando numa correta análise das reais forças e confrontos na sociedade moderna --; equívocos na leitura da realidade do país; uma certa tendência psico-emotiva meio torpe e que leva alguém a sempre querer dar aquele chutinho no cachorrão que acaba de sofrer uma queda; e um certo ressentimento político temperado por orgulho e miopia estratégica. Essa confluência de elementos explica, caso a caso, o 'antipetismo' ferrenho com que muitos conhecidos meus, nas redes sociais e fora dela, justificam sua abordagem da história política recente.


Erros de leitura e posicionamento político acontecem. Fazem parte do jogo, não é vergonha cometê-los. Nos anos 2000, por exemplo, eu me afastei do trabalhismo para adotar uma postura conservadora que foi primeiramente articulada em torno do neoconservadorismo anglo-saxão. Essa postura foi impulsionada pelo meu vínculo cada vez maior com o tradicionalismo perenialista e minha conversão ao cristianismo. Apesar de manter continuamente minha crença na necessidade de intervenção social do Estado -- nunca fui liberal e olavete em sentido estrito --, apoiei o neo conservadorismo nesse período porque achava que era a melhor forma de manter os resquícios de uma tradição cristã contra o avanço da esquerda pós-moderna -- que eu sinonimizava à esquerda e ponto. Foi só quando percebi que se tratava de uma aliança impossível em termos concretos e que violentava demais minha formação intelectual e ética, é que me afastei totalmente desse tipo de conservadorismo e adotei outros.


Foram erros políticos que eu não escondo. Acontecem. Muita gente que eu admiro em cenários muito mais importantes do que meu pequeno raio de ação cometeram leituras e atitudes equivocadas. Vejam por exemplo Brizola, o grande Leonel Brizola, que se abraçou a Collor em 1991 e 1992 e praticamente morreu politicamente junto com ele. O que foi isso senão um erro capital de leitura e posicionamento político? Recentemente, um conhecido meu criticou um elogio que fiz a Renan Calheiros lembrando que o dito cujo fazia parte da ''República de Alagoas''. Será que ele se recorda ou vivenciou essa época, em que Leonel Brizola se uniu a Collor? Enquanto Renan Calheiros foi um dos primeiros no Congresso a romper com o Presidente e pedir seu impeachment, Brizola acabou preso ao navio que afundava até o fim, em correntes que ele mesmo fabricou. A leitura do líder pedetista, então Governador do Rio de Janeiro, era a seguinte: Collor é um populista que, como Jânio Quadros, não tem bases sociais organizadas. Seu partido era a Globo, que agora o abandonou. Então, nós trabalhistas e esquerdistas podemos aproveitar esse vácuo para apoiá-lo e manipulá-lo. Deu merda. Erro de leitura, de estratégia e de execução. Eu participei de passeatas pela derribada de Collor em que cantos sobre a traição de Brizola eram comuns -- adianto que eu não os entoava e votei em Brizola em 1994. Foi um erro político do grande líder, acontece. O próprio Brizola ironizava seus erros políticos nas propagandas eleitorais. Ele começava dizendo assim na telinha da TV, ''amigos, X está governando não sei onde, e Y foi eleito pra não sei o quê, e eles saíram de nossas fileiras e foram apoiados por nós. Peço desculpas. Mas vejam vocês que, se até Cristo, que era Deus, tinha um traidor entre os Doze, que poderia ser dito de nós?''


É necessário aprender a reconhecer, conviver e corrigir os próprios erros de leitura, os erros políticos etc. Isso faz parte não só do amadurecimento pessoal mas político. Dá mostras de distanciamento de si mesmo, de comprometimento com uma correta hierarquia de valores. É um exercício diário, inclusive, e que transcende a política. Se não se faz isso, a trajetória do sujeito deixa de ser passível de erro pra se tornar ela própria um erro. O antipetismo fanático originado do fígado é causa de uma séria de equívocos cuja justificativa é nula, só se dá no âmbito afetivo, é quase que um ressentimento. Ou, pior, não passa de um orgulho tolo por ter se posicionado de maneira equivocada em determinada situação capital. Não estou dizendo que não se pode criticar o PT, ter repúdio da ideologia do partido e negar o retorno de petistas ao poder. Concordo plenamente com todos os três pontos. Mas isso não significa fechar os olhos para os aspectos do PT e de petistas que podem contribuir para a emancipação do povo brasileiro e para a derrota do inimigo liberal.

O antipetismo ''do fígado'' é incapaz de explicar de forma coerente, por exemplo, o porquê todos os setores produtivos associados à economia financeirizada se voltaram contra Dilma entre 2013 e 2015. Ela não entende o pato da FIESP. Se Dilma e o PT são apenas agentes políticos da bancocracia, porque foram derribados com militância explícita dos setores mais associados ao domínio rentista? Se eles são apenas agentes do neoliberalismo vinculado à revolução cultural pós-moderna da esquerda europeia, por que a Globo se voltou contra eles? Para sustentar essa posição ridícula, os ''antipetismo do fígado'' tem de cair na esparrela de que o país está passando por uma reforma moral, um progresso civilizacional, está derrubando os ''donos do poder'' do Estado patrimonial, e fechar os olhos para quem os governa de verdade: Temer e a cleptocracia, chantageados por sua vez pela Banca. Fechar os olhos para fontes primárias dando conta do golpe contra Dilma para manter os cleptocratas do poder. E fechar os olhos para o choque neoliberal que acossou o país em todas as instâncias -- da política externa à legislação trabalhista. Ou seja, tem de se fazer, com todo o respeito, de imbecil. Esse tipo de incapacidade analítica motivada por azia só leva ao triunfo dos inimigos, é uma vantagem incomensurável dada ao status quo.

Sobre esse tema eu gostaria de ressaltar dois pontos: deixando de lado as óbvias limitações de ser um partido orientado para a segunda teoria política, o ‘socialismo’ em sentido largo, o PT sofre de um câncer que acomete a esquerda no mundo todo, o mal do reformismo gradual. Esse câncer existe no nosso país desde sempre. São notórias as leituras de um PCB, em plena década de 1950 e 1960, de que o Brasil ainda não havia feito a transição para o capitalismo e que por causa disso era necessário apoiar a burguesia nacional contra o “imperialismo”. A incapacidade analítica aí chegava aos píncaros e se casava com uma miopia política tão ferrenha que só podia tornar esse comunismo em idiota útil dos capitalistas. Esse mal do reformismo, que se acentuou na medida em que os social-democratas lograram construir um Estado de Bem Estar Social na Europa, persegue a esquerda brasileira como um fantasma, e isso pode ser dito até mesmo dos trabalhistas. Mas não me entendam mal, nessa fração da esquerda nacionalista havia uma gradualismo temperado por certo radicalismo e virilidade caudilhesca e senhorial, que, quando unida à competência política podia causar mais estragos do que uma revolução mal conduzida e sem meios de criar apelo popular – como são exemplo nossos guerrilheiros no Araguaia.

O gradualismo reformista, quando não apimentado por essa virilidade caudilhesca capaz de radicalismos pra manter sua base política, acaba no mais rotundo e desalentador fracasso. Acaba sendo um anticlímax. O exemplo acabado disso é o PT, e essa é a maior crítica que se pode fazer à trajetória desse movimento de segunda teoria política. Olhando para o PT se percebe como seus líderes compuseram uma estratégia de longo prazo, que se afirmaria ao longo dos vinte anos em que supostamente dominariam a cadeira presidencial. Essa estratégia consistia em conciliações iniciais com o sistema financeiro, a mídia e a classe média em torno da manutenção da arquitetura econômica neoliberal enquanto eram avançadas mudanças em outros planos: investimentos em energia nuclear, reorientação da política externa, apoio a movimentos de esquerda latino-americanos, investimentos no Nordeste, programas assistencialistas e liberais de transferência de renda, recuperação da capacidade interventora do Estado por meio da recomposição de seus quadros etc. Em um segundo momento, o PT implementou uma sutil mudança na arquitetura econômica: uma postura mais neokenesyana e menos monetarista, com uma política anticíclica e redução gradual e controlado dos juros básicos na economia.

Essas medidas não abalaram nem de perto o predomínio da bancocracia, mas já foram suficientes para que parte do sistema partidário e da classe média tentassem derribar o governo. A justificativa inicial era o Mensalão, um mesada que o gênio de José Dirceu criou para evitar a partilha de postos do Estado com o Congresso Cleptocrata. Mas a popularidade de Lula e um cenário internacional favorável, que produziu no país uma onda de consumo e expansão de crédito, deu suporte à manutenção do projeto gradualista de reforma, agora já plenamente adaptado aos esquemas do “presidencialismo de coalizão” inaugurados por Fernando Henrique Cardoso e que permitiam ao Presidente manter uma sólida maioria no Parlamento.

O segundo passo da estratégia petista foi uma remodelação de cima do sistema educacional brasileiro [o projeto da Pátria Educadora, de Mangabeira Unger] e uma virada na arquitetura econômica. Agora não bastava só um abraço tópico ao neo-keynesianismo, era necessário superar a financeirização da economia por meio de uma política neo-desenvolvimentista que combatesse o spread bancário e recuperasse o investimento público e a indústria brasileira. Foi aqui que a porca  torceu o rabo. Num cenário de mudança da política externa norte-americana, de crise econômica mundial, de retração do mercado das matérias primas que exportávamos, essa nova mudança foi sabotada pela elite econômica financeirizada. Foi aí que a FIESP e companheiros se voltaram definitivamente contra o PT, e, mais especificamente, contra Dilma Rousseff, dando azo à aliança com a classe média, a Globo, e os interesses americanos que planejaram a derribada do frágil consenso esquerdista no país.

É necessário que se tenha atenção para isso: o PT caiu, ou melhor, foi abandonado pelas forças produtivas e empresariais, justamente porque tentou fazer a transição para uma forma de desenvolvimentismo. A escolha de Lula por Dilma Roussefr já indicava isso claramente, porque se trata de um quadro técnico historicamente ligado ao trabalhismo e ao PDT, não uma política de raiz petista. Só em 2000 Dilma abandonou o PDT e migrou para o PT. Era uma transição planejada para o nacional desenvolvimentismo, dentro da abordagem gradualista e reformista petista. Claro que pode-se criticar aqui a competência e a eficiência desse desenvolvimentismo de Guido Mantega – os próprios desenvolvimentistas afirmam que eram políticas equivocadas e porcas e eu mesmo possuo texto em que critico as raízes e os fundamentos do projeto do Pátria Educadora. Mas o importante é perceber a principal razão do confronto que explodiu a partir dali. É notório que muitos aptos a apoiar um projeto nacional desenvolvimentista hoje se regozijam com a queda de Dilma, sem perceber o porquê se formou definitivamente a aliança que despedaçou o governo da petista.

A queda de Dilma diz respeito não somente ao PT, mas a qualquer um que apoie uma mudança da arquitetura financeirizada do país. Revela que os movimentos e líderes que pretendam levar a efeito essa mudança serão sabotados por diversas organizações empresariais e pela grande mídia, da mesma maneira que Dilma foi. E serão apedrejados quanto mais competentes forem as mudanças propostas, visto que boa parte do setor industrial está comprometido até o talo com a economia financeirizada.

É necessário repetir até a exaustão: De certo modo, o estopim para a queda de Dilma e do PT foram antes seus acertos do que seus erros. Mas de modo estrutural, o maior problema foi a própria postura gradualista, que repetindo um erro histórico da esquerda do país, pensa poder alcançar grandes resultados com pequenas e paliativas mudanças, sem que as forças hegemônicas da estrutura de poder brasileiro percebam suas manobras. Nesse ponto, a capitulação do PT foi ainda pior do que a do trabalhismo dos anos 1950 e 1960. Porque as derrotas daquele trabalhismo se deram em meio a atos simbólicos de radicalismo que mantiveram o capital político de seus líderes.

Peguemos o exemplo da heroica queda de Getúlio: Quando a guerra de classes se acentuou no país e os coronéis do Exército assinaram um manifesto em fevereiro de 1954, cujo cerne era impedir qualquer aumento do salário mínimo que colocasse em risco a hierarquia social brasileira, Vargas pareceu desistir diante de seus inimigos ao demitir João Goulart, então Ministro do Trabalho e autor da polêmica proposta rejeitada pelo alto oficialato que se fazia porta voz ali da classe média tradicional. Durante dois meses só se falava de capitulação de Vargas frente ao clamor dos coronéis na defesa dos interesses da classe média. Ora, na data do seu discurso de maio para os trabalhadores, um inflamado Vargas anunciou o aumento de 100% causando uma comoção popular e uma crise política sem precedentes. A demissão de Goulart havia sido uma estratégia de radicalização. Vargas estava assumindo inteiramente para si a responsabilidade, e com isso o ônus e o bônus, pelo aumento. Com isso manteve suas bases políticas, ao mesmo tempo que preservou para o futuro a figura de Jango. Quando de sua aparente derrota, aquele fatídico ultimato dado pelos generais em agosto seguido por seu suicídio, essas mesmas massas saíram desesperadas às ruas e formaram a base para a continuidade do trabalhismo.

Comparem com o gradualismo civilizado e democrático de Dilma. Uma vez acuada por manifestações logo depois das eleições de 2014, o que ela fez? Concessões aos liberais com mudanças na legislação previdenciária, que, de cara, alienaram metade daqueles que escolheram por ela depois da ferrenha campanha contra Aécio Neves. É inócuo evitar radicalismos acreditando em uma conciliação democrática com os agentes hegemônicos da sociedade. Essa crença na democracia burguesa é um retrocesso, foi uma ilusão coletiva em um partido que foi capaz de gerar um líder como Zé Dirceu, que imaginou o mensalão pra não ter de distribuir cargos para a cleptocracia. O Império da lei não é nada e nada pode diante do conflito entre as classes. Até os militares, quando de suas aventuras e desventuras golpistas dos anos 1940 aos 1970, diziam atuar sob o império da lei e no cumprimento de seus deveres constitucionais, o mesmo tipo de declaração dada por gente como Sérgio Moro, que finge não ter realizado crimes na sua cruzada anti-esquerdista.

Mesmo de uma perspectiva da segunda teoria política, é necessário radicalizar e ter em mente que o reformismo redunda sempre em fracasso, e no pior dos fracassos, aquele que dizima as possibilidades políticas de um movimento pela total alienação de seu público. O cadáver do partido dos trabalhadores está aí a lembrar pra esquerda e para todos que pretendam recuperar ou capturar seu legado, que existe certa estrutura de poder no país que tem de ser desafiada custe o que custar, com os meios necessários para que a vontade desses agentes seja dobrada. Nesse sentido, a esquerda brasileira precisa se ''venezualizar'', aprendendo com o exemplo do Comandante Chávez. Ou se tornar “brizolista” de vez. É a única maneira de estabelecer qualquer mudança significativa e permanente no país, sem que se dê um passo para logo depois ter de retroceder três.

segunda-feira, 12 de março de 2018

Os 30 maiores tenistas da Era Aberta: Introdução

O British Hard Court Championship de 1968, disputado em quadras de saibro na cidade de Bournemouth, Inglaterra, foi o primeiro torneio da Era Aberta. O campeão na ocasião foi o australiano Ken Rosewall




Nesse ano, a "Era Aberta'' do tennis completa cinquenta aniversários. Assim como na maior parte dos grandes esportes, a ascensão do profissionalismo gerou uma imensa polêmica e sofreu resistência daqueles que imaginavam as competições como duelos entre gentlemen e gostariam de evitar que o espírito do lucro e o aburguesamento tomasse de vez as quadras. A Federação Internacional de Tennis de Grama [ILTF] proibiu que jogadores que recebessem vencimentos por suas exibições e confrontos participassem dos principais torneios, particularmente os Grand Slams e a Copa Davis.

Pouco a pouco, tenistas de grande expressão eram seduzidos por promotores profissionais e decidiam viver dos dividendos pagos por suas partidas, assumindo o custo de abandonarem as competições mais tradicionais. Esse processo se intensificou em meados dos anos 1950, época do crescimento de empresas de eventos tais como a National Tennis League [NTL] e a World Championship Tennis [WCT]. Nos anos 1960, o incipiente circuito profissional já possuía os maiores ídolos do ''esporte branco''. Havia, inclusive, um série de pro-majors que visavam o impossível, substituir os Grand Slams para os 'banidos' pela ILTF.

Tudo isso mudou em março de 1968, quando a Federação Internacional decidiu admitir a presença de profissionais em seus torneios. O primeiro major a contar com eles foi Roland Garros, conquistado pelo lendário australiano Ken Rosewall. O tennis nunca mais foi o mesmo, e a via para a fundação da Associação de Tenistas Profissionais [ATP] e para a massificação e disseminação do esporte estava definitivamente aberta. Mas essa é outra história, diferente daquela que vou contar aqui.

Em comemoração à data, vários sites, jornalistas e revistas especializados tem criado listas com os maiores ou melhores jogadores que disputaram a Era Aberta. A mais recente delas, dentre as mais famosas, foi feita por Steve Tignor na Tennis Magazine. Meio que inspirado nessa publicação, entro na brincadeira e faço eu também minha lista.

Adoto como principal o mesmo critério norteador escolhido por Tignor: Levo em conta a carreira inteira dos jogadores que conquistaram pelo menos um Grand Slam na Era Aberta. Ou seja, os gênios que se limitaram a vencer somente no tempo amador do ''esporte dos reis'' não vão entrar na minha série. Afinal se trata aqui de comemorar o aniversário da Open Era, um período determinado da história que modificou profundamente o tennis e o modo como ele é disputado. Importa frisar, no entanto, que não limito a análise apenas aos resultados obtidos depois de 1968, o que seria de todo injusto. Está valendo a integralidade da carreira de simples. dos campeões da ''Idade dos Profissionais''.

Os títulos de duplas também entram na conta, mas de modo extremamente secundário. Aumento o peso deles quando trato dos jogadores cujo auge se deu entre os anos 1960 e meados da década de 1980, quando praticamente todos os maiores nomes das quadras disputavam as modalidades de duplas. Depois disso, a exigência física do jogo de simples cresceu de modo tal que acabou por afastar os principais tenistas de outras categorias de disputa, cada vez mais concentrados que ficaram no que realmente dava dinheiro e prestígio. De todo modo, os resultados de duplas só vão ser usados para comparações pontuais, 'desempates' e situações similares.

A carreira de um jogador pode ser avaliada de diferentes maneiras, e no tennis a principal medida será sempre a dos majors. O Grand Slam é o ápice desse esporte; se não é tudo, é quase tudo no ''planeta raquete''. Mas a consolidação da Era Aberta trouxe outros parâmetros que não puderam mais ser deixados de lado, o principal deles o ranking da ATP, cuja criação se deu em agosto de 1973. Ter sido número 1 do mundo é uma das maiores glórias para um tenista. Centenas e centenas podem bater no peito reivindicando reconhecimento por serem campeões de Grand Slam. Mas somente 26 em toda a história carregam a honra do número 1. E se alcançar esse posto é pra poucos, mais difícil ainda é se manter nele. O número de semanas na liderança do ranking ou o número de temporadas terminadas como líder do circuito são sinais inequívocos de grandeza, sinalizam o quanto o jogador foi superior aos demais de sua geração. A conquista de majors indica o nível de qualidade máximo que um tenista pode alcançar em uma competição, já a história do ranking revela a ''qualidade média'' que ele é capaz de manter durante o ano, sua consistência ao longo do tempo.

O inesquecível Pete Sampras declarou em sua autobiografia ['Mente de Campeão'] que um jogador de ponta tem de ser avaliado também pela capacidade de predominar sobre sua época, não apenas demonstrando maior consistência no ranking, mas também no confronto direto ['homem a homem'] contra seus principais rivais. Concordando com o mestre, também levo o head to head em consideração nos momentos em que esses vislumbres se tornam necessários. 

Por fim, não pretendo resumir toda e qualquer análise a uma mera confrontação de números. A quantidade de torneios conquistados ou os diferentes aspectos associados ao ranking tem de ser contextualizados. Houve tempo em que os grandes jogadores preferiam pular o Australian Open, ou então Roland Garros. Houve tempo em que a maior parte dos majors era na grama [hoje, apenas Wimbledon permanece na superfície original do esporte]. Há gerações mais fracas e outras mais fortes. A política do esporte influenciou o valor dos majors em certas temporadas, e há um ou outro que sofreram boicotes por diferentes razões. Além disso, seria tolo pretender fazer uma lista dos maiores sem pretender levar em conta os elementos qualitativos de um jogador. O domínio dos golpes, a adaptação a diferentes superfícies, a capacidade de improvisar, a performance em momentos decisivos, as novidades que trouxe para o jogo e sua importância para o desenvolvimento do tennis.

Alguns poderiam considerar esses itens como ''subjetivos'', pretendendo com isso diminuí-los. Permitam-me discordar: eles são plenamente objetivos -- afinal, o que é a objetividade senão intersubjetividade? --, e podem ser discernidos por aqueles que amam, acompanham e conhecem o tennis. Não podem, por certo, serem reduzidos à frieza dos números ou da mera quantidade, mas isso não é nenhum pecado: o mais importante, significativo, aquilo que é verdadeiramente decisivo e determinante, tanto na vida quanto no jogo, também não o pode.

Começo na próxima postagem a minha lista dos 30 maiores tenistas masculinos da Era Aberta.


sábado, 13 de janeiro de 2018

AS DIFERENÇAS ENTRE A ESPIRITUALIDADE ORTODOXA E OUTRAS TRADIÇÕES

Metropolita Hierotheos Vlachos

traduzido por André Luiz V. B. T. dos Reis




Santo Ancião Paisios

A espiritualidade ortodoxa é bastante diferente de qualquer outra ''espiritualidade'' de tipo oriental ou ocidental. Não pode existir confusão entre as diversas espiritualidades, porque a Ortodoxia é teocêntrica, enquanto as demais são antropocêntricas.

A diferença aparece primeiro no ensino doutrinal. Por isso colocamos a palavra ''ortodoxa'' depois de ''Igreja'' para distingui-la de qualquer outra religião. Com certeza, a palavra''ortodoxa'' deve estar associada com a palavra ''eclesiástica'', já que a Ortodoxia não pode existir fora da Igreja; nem, claro, pode a Igreja existir fora da Ortodoxia.

Os dogmas são resultados de decisões dos Concílios Ecumênicos sobre vários assuntos de fé. Os dogmas são chamados assim porque delimitam as fronteiras entre o erro e a verdade, entre a doença e a saúde. Assim, eles são, por um lado, expressões da Revelação, e por outro lado, agem como ''remédios'' para nos guiar até a comunhão com Deus, nossa razão de ser.

As diferenças dogmáticas refletem diferenças correspondentes na terapia. Se uma pessoa não segue o ''caminho reto'', não consegue alcançar seu destino. Se não toma os ''remédios'' apropriados, não consegue adquirir saúde; em outras palavras, não vai experimentar nenhum benefício terapêutico. Repito, se comparamos a espiritualidade ortodoxa com outras tradições cristãs, a diferença de abordagem e método terapêutico se torna mais evidente.



Um ensinamento fundamental dos Santos padres é de que a Igreja é um ''hospital'' que cura o homem doente. Em muitas passagens das Sagradas Escrituras é usada essa linguagem. Uma delas é a parábola do Bom Samaritano: ''Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão; E, aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre o seu animal, levou-o para uma estalagem, e cuidou dele; E, partindo no outro dia, tirou dois dinheiros, e deu-os ao hospedeiro, e disse-lhe: Cuida dele; e tudo o que de mais gastares eu to pagarei quando voltar.'' [Lucas 10:33-35]

Nessa parábola, o samaritano representa Cristo que cura o homem ferido e o leva para a estalagem, que é o ''hospital'', a Igreja. É evidente aqui que Cristo é apresentado como um Curador, um médico que sana os males; e a Igreja é o verdadeiro hospital. É muito representativo que São João Crisóstomo, ao analisar essa parábola, destaque essas verdades enfatizadas acima.

A vida do homem ''no Paraíso'' foi reduzida a uma vida governada pela diabo e seus ardis. ''E caiu nas mãos de ladrões'', isto é, nas mãos do diabo e de todos os poderes hostis. As feridas sofridas pelo homem são os vários pecados, como dito pelo Profeta Davi: ''As minhas chagas cheiram mal e estão corruptas, por causa da minha loucura'' [Salmos 37]. Porque ''todo pecado causa uma injúria e uma ferida''. O Samaritano é o próprio Cristo que desce dos Céus à terra para curar o homem ferido. Ele usa óleo e vinho para ''tratar'' as feridas; em outras palavras, ao ''misturar Seu sangue com o Espírito Santo, traz o homem à vida''. Segundo uma outra interpretação, o óleo corresponde à palavra consoladora e o vinho à palavra de rigor. Misturadas, elas tem o poder de unificar a mente dispersa. ''Ele o pôs sobre seu animal'', isto é, Ele assumiu a carne humana sob ''os ombros'' de Sua Divindade e ascendeu encarnado ao Seu Pai nos Céus.

Então o bom samaritano, ou seja, Cristo, levou o homem pra a grandiosa, maravilhosa e espaçosa estalagem -- a Igreja. E entregou o homem ao estalajadeiro, que é o Apóstolo Paulo, e através do Apóstolo Paulo todos os Bispos e padres, dizendo: ''Tomem conta dos gentios, que entreguei a vocês na Igreja. Eles sofrem com a doença do pecado, então curem-nos, usando como remédio as palavras dos Profetas e os ensinamentos do Evangelho; tornai-os saudáveis através das admoestações e das palavras consoladoras do Velho e Novo Testamentos.'' Assim, segundo São João Crisóstomo, Paulo é quem mantém as Igrejas de Deus, ''curando todas as pessoas por meio de suas admoestações espirituais e oferecendo a cada uma delas aquilo de que realmente necessitam.''

Na interpretação dessa parábola por São João Crisóstomo, é claramente demonstrado que a Igreja é um hospital que cura as pessoas afligidas pelo pecado; e os Bispos e padres são os terapeutas do povo de deus.


São José o Hesicasta

E é precisamente esse o trabalho da teologia ortodoxa. Quando nos referimos à teologia ortodoxa, não falamos simplesmente da história da teologia. A última, claro, é parte dela mas não de modo absoluto ou exclusivo. Na tradição patrística, os teólogos são videntes de Deus. São Gregório Palamas chama Barlaão [que tentou trazer a teologia escolástica ocidental para dentro da Igreja Ortodoxa] de ''teólogo'', mas ele enfatizavam claramente que a teologia intelectual diferia grandemente da experiência da visão de Deus; aqueles que seguiram o ''método'' da Igreja e conquistaram a perfeita fé, a iluminação do nous e a deificação (theosis). A teologia é o fruto da cura do homem e o caminho que leva à cura e à aquisição do conhecimento de Deus.

A teologia ocidental, portanto, se diferenciou da teologia ortodoxa. Em vez de ser terapêutica, possui um caráter mais emocional e intelectual. No Ocidente (após a ''Renascença Carolíngea''), a teologia escolástica evoluiu, o que é contrário à Tradição Ortodoxa. A teologia ocidental está baseada no pensamento racional enquanto a Ortodoxia é hesicasta. A teologia escolástica tentou entender logicamente a Revelação de Deus e se conformar à metodologia filosófica. Tal abordagem é representada pelo dito de Anselmo [Arcebispo de Canterbury de 1093-1109, um dos primeiros após a conquista normanda e a destruição da antiga Igreja Ortodoxa inglesa]: Creio para entender''. Os escolásticos reconhecem Deus no início e então tentam provar sua existência por argumentos lógicos e categorias racionais. Na Igreja ortodoxa, tal como expresso pelos Santos Padres, a fé é a Revelação de Deus ao homem. Aceitamos a fé a ou ouvir não de modo a entendê-la racionalmente, mas para que possamos purificar nossos corações, alcançar a theoria e experimentar a Revelação de Deus.

A teologia escolástica alcançou seu ponto culminante na pessoa de Tomás de Aquino, um santo na Igreja Católica Romana. Ele defendeu que as verdades cristãs são divididas em naturais e sobrenaturais. As verdades naturais podem ser provadas filosoficamente, como a verdade da Existência de Deus. As verdades sobrenaturais -- tais como o Deus Triuno, a Encarnação do Verbo, a Ressurreição dos corpos -- não podem ser provadas filosoficamente, e assim não podem ser refutadas. A Escolástica associa a teologia com a filosofia de modo muito próximo, e mais ainda com a metafísica. Em consequência, a fé foi alterada e a própria teologia escolástica caiu em descrédito quando o ''ídolo'' do Ocidente -- a metafísica -- colapsou. A Escolástica é responsável por boa parte da situação trágica criada no Ocidente a respeito da fé e das questões de fé.

Os Santos Padres ensinam que as categorias natural e metafísica não existem mas se referem antes ao criado e ao incriado. Os Santos Padres nunca aceitaram a metafísica aristotélica. Mas não é minha intenção me alongar sobre isso. Os teólogos do Ocidente durante a idade Média consideravam a teologia escolástica um desenvolvimento dos ensinamentos dos Santos padres, e daí em diante tiveram início os ensinamentos dos francos de que a teologia escolástica era superior àquela dos Santos Padres. Consequentemente, os escolásticos, que se ocupam com a razão, se consideram superiores aos Santos Padres da Igreja. Eles também acreditam que o conhecimento humano, um fruto da razão, é mais elevado do que a Revelação e a experiência.



É dentro desse contexto que deve ser visto o conflito entre São Gregório Palamas e Barlaão. Barlaão era essencialmente um teólogo escolástico que tentava transmitir a teologia escolástica para a Ortodoxia.

As perspectivas de Barlaão -- de que não podemos realmente saber Quem o Espírito Santo verdadeiramente é (uma forma de agnosticismo), de que os antigos filósofos gregos são superiores aos Profetas e Apóstolos (já que a razão está acima da visão dos Apóstolos), de que a luz da Transfiguração é criada e que pode ser desfeita, de que o modo hesicasta de vida (isto é, a purificação do coração e oração noética incessante) não é essencial -- são visões que expressam uma perspectiva escolástica e, portanto, secularizada da teologia. São Gregório Palamas previu o perigo que essas opiniões levavam à Ortodoxia e através do poder e energia do Santíssimo Espírito e a experiência que ele mesmo adquiriu como um sucessor dos Santos Padres, confrontou esse perigo e preservou sem adulterações a Tradição e a Fé ortodoxa.

Tendo fornecido um panorama do tópico em tela, se examinamos a espiritualidade ortodoxa em comparação ao catolicismo romano e ao protestantismo, as diferenças são imediatamente descobertas.

Os protestantes não tem uma tradição de ''tratamento terapêutico''. Eles supõe que acreditar em Deus, intelectualmente, constitui a salvação. Mas a salvação não é um objeto de aceitação intelectual da verdade; antes é uma transformação pessoal e deificação pela graça. Essa transformação é efetuada por um ''tratamento'' análogo ao de uma pessoa, como veremos nos próximos capítulos. Nas Escrituras Sagradas parece que a fé vem por meio da audição da Palavra e da experiência da ''theoria'' (a visão de Deus). Aceitamos a fé primeiro pela audição de modo a sermos curados, e então conquistamos a fé pela theoria, que salva o homem. Os protestantes, por acreditarem que a aceitação das verdades de fé, a aceitação teorética da Revelação de Deus, ou seja, a fé pelo ouvir salva o homem, não possuem uma ''tradição terapêutica''. Podemos dizer que se trata de uma concepção de salvação muito ingênua.

Os católico-romanos também não possuem a perfeição da tradição terapêutica que a Igreja Ortodoxa possui. Sua doutrina da Filioque é uma manifestação da fraqueza de sua teologia para perceber a relação entre a pessoa e a sociedade. Eles confundem as propriedades pessoais: o ''não gerado'' do Pai, o ''gerado'' do Filho e a processão do Espírito Santo. O Pai é causa da ''geração'' do Filho e da processo do Espírito Santo.

A fraqueza latina em compreender e a falha em expressar o dogma da Trindade mostra a inexistência de uma teologia empírica. Os três discípulos de Cristo (Pedro, Tiago e João) contemplaram a glória de Cristo no Monte Tabor; eles ouviram de uma vez a voz do Pai, ''Esse é meu filho amado'', e viram a descida do Espírito Santo em uma nuvem, pois a nuvem é a presença do Espírito Santo, tal como diz São Gregório Palamas. Assim os discípulos de Cristo adquiriram o conhecimento do Deus Triuno em theoria (visão de Deus) e por revelação. Foi revelado a eles que Deus é uma essência em três Hipóstases.


Isso é o que ensina São Simeão o Novo Teólogo. Em seus poemas, ele proclama uma vez após a outra que, enquanto contempla a Luz Incriada, o homem deificado adquire a Revelação da Trindade Divina. Se encontrando em ''theoria'' (visão de Deus), os santos não confundem os atributos hipostáticos. O fato de que a tradição latina chegou ao ponto de confundir os atributos hipostáticos e o ensinamento de que o Espírito Santo procederia também do Filho mostra a inexistência de uma teologia empírica entre eles. A tradição latina fala da graça criada, o que sugere que eles não experimentam a graça de Deus. Pois quando um homem obtém a experiência de Deus, então ele vem a compreender que a graça é incriada. Sem essa experiência não pode existir nenhuma ''tradição terapêutica'' genuína.


E de fato não encontramos em toda a tradição latina o equivalente ao método terapêutico ortodoxo. Não se fala do Nous; nem se distingue o Nous da razão. O Nous obscurecido não é tratado como uma doença, nem a iluminação do Nous como uma terapia. Muitos textos latinos altamente difundidos são sentimentais e se exaurem em uma estéril etiologia. Na Igreja Ortodoxa, pelo contrário, há uma grande tradição a respeito desses temas, que mostra que no interior dela existe o verdadeiro método terapêutico.

Uma fé é verdadeira na medida em que possua benefícios terapêuticos. Se está apta a curar, então é uma fé verdadeira. Se não cura, não é uma fé verdadeira. A mesma coisa pode ser dita sobre a medicina: um cientista verdadeiro é aquele que sabe como curar e seu método traz benefícios terapêuticos, enquanto um charlatão é incapaz de curar. As mesmas verdades se sustentam quando se diz respeito aos assuntos da alma. A diferença entre a ortodoxia e a tradição latina, tanto quanto as confissões protestantes, parece estar principalmente no método da terapia. Essa diferença se torna manifesta nas doutrinas de cada denominação. Os dogmas não são filosofia, nem é a teologia o mesmo que a filosofia.

Dado que a espiritualidade ortodoxa difere de modo distinto das ''espiritualidades'' de outras confissões, ainda mais difere da ''espiritualidade'' das religiões orientais, que não acreditam na natureza teantrópica de Cristo e no Espírito Santo. Elas são influenciadas pela dialética filosófica, que foi superada pela Revelação de Deus. Essas tradições não são conscientes da noção de pessoa e do princípio hipostático. E o amor, como ensinamento fundamental, está totalmente ausente. Alguém pode encontrar, é claro, nessas religiões orientais um esforço da parte de seus seguidores para se apartarem de pensamentos racionais e imagens, mas este é na verdade um movimento rumo ao nada, à não existência. Não há um caminho levando seus ''discípulos'' à theosis-deificação (ver a nota abaixo) do homem integral.



Daí porque há um vasto e caótico abismo entre a espiritualidade ortodoxa e as religiões orientais, apesar de certas similaridades externas na terminologia. Por exemplo, as religiões orientais podem empregar termos como ''êxtase'', ''impassibilidade'', ''iluminação'', ''energia noética'' etc. mas estão impregnadas por um conteúdo diferente dos termos correspondentes na espiritualidade ortodoxa.

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Do Capítulo 2 de ''Orthodox Spirituality: A brief introduction'', publicado em 1994 pelo Mosteiro da Natividade de Theotokos, Levadia, Grécia. Veja também ''Way Apart: What is the Difference Between Orthodoxy and Western Confessions?'', do Metropolita Anthony (Khrapovitsky) de Kiev e Galícia

Orthodox Christian Information Center
Met. Hierotheos Vlachos
25 / 11 / 2013

ps.: Theoria é a visão da glória de Deus. A theoria é identificada com a visão da Luz incriada, a energia incriada de Deus, com a união do homem com Deus, com a theosis [ver nota abaixo] do homem. Assim, theoria, a visão e a theosis estão associados intimamente. A theoria possui vários graus. Há a iluminação, visão de Deus, e a visão constante (por horas, dias, semanas e até meses). A oração noética é o primeiro estágio da theoria. O homem teorético é aquele que atingiu esse estágio. Na Teologia Patrística, o homem teorético é representado como o pastor das ovelhas.

pps.: A Theosis-Deificação é a participação na graça incriada de Deus. A Theosis é identificada e associada com a theoria (visão) da Luz Incriada (veja nota acima). É chamada de theosis na graça porque é alcançada através da energia da graça divina. É uma co-operação de Deus com o homem, já que é Deus quem opera e o homem quem co-opera.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Areia que escorre entre os dedos, ou: O Progressismo liberal destruiu Guerra nas Estrelas? Parte Final

''Os Antigos, os Celestiais, os Rakata, não pronunciavam julgamento  de seu trabalho. Moviam planetas, organizavam sistemas estelares, conjuravam aparatos do lado sombrio, como a Forja Estelar, quando julgavam adequado. Se milhões morriam no processo, sem problema. As vidas de boa parte dos seres não tem importância. Os Jedi não conseguiram entender isso. Ocupam-se tanto tentando salvar vidas e lutando para manter em equilíbrio os poderes da Força que perderam a noção de que a vida senciente foi feita para evoluir, não simplesmente regozijar numa estase tranquila.''

Darh Plagueis





A cena final revela Luke como um Mestre realizado, a ''lenda da galáxia'': o reencontro com o personagem se tornou despedida dolorosa para alguns fãs e gloriosa para outros



Quando tratamos das causas para as críticas conservadoras atuais em cima da nova trilogia de Guerra nas Estrelas há de se ter redobrado cuidado para não cair em psicologismos. Há um óbvio viés político e sociológico imbricado com esse repúdio, que se liga por um lado ao conteúdo progressista que eu concordei existir na franquia, e, por outro, ao pêndulo ideológico que existe na vida das sociedades em que ela é exibida.







Mas dando prosseguimento à linha de raciocínio, prefiro discutir a tendência conservadora de criticar essa trilogia específica da saga enquanto se engana ao pretender separar as demais da mentalidade liberal, como se Guerra nas Estrelas não estivesse desde seu início mergulhado nos mais típicos valores americanos. Ora, se deixarmos de lado os dois extremos, aquele em que o cinema é mera propaganda dos valores ocidentais e aquele em que não traz nenhum abraço a eles, a obra de George Lucas se insere em um conjunto de filmes que pode tanto ser criticado por seu liberalismo como apreciado apesar dessas limitações. Muitos direitistas e conservadores estão preferindo, no entanto, louvar as duas primeiras trilogias ao mesmo tempo que condenam os filmes recentes ao inferno por pecados que são cometidos desde 1977. Nesse sentido é inócuo fingir que não há influências geracionais por trás dessa postura, ainda que eu admita existirem aqueles que escolhem manter o duplo critério por razões mais propriamente de caráter político.









Cada geração tem a tendência de encarar seu tempo como um período especial, e, mais curioso ainda, a proteger os elementos cuja ligação afetiva alimenta a sensação tão desejável de fazer parte da última bolacha do pacote, depois da qual tudo é decadência e nulidade. No caso de Guerra nas Estrelas, esse sentimento se traduz pela ilusão de que o estado em que conhecemos a saga é o que revela sua versão definitiva, sua verdade mais profunda e suas características mais essenciais. O que veio antes foi preparação para o cume que tivemos a sorte de conhecer, e o que vem depois é mero desvio e comércio. Evidente que toda e qualquer obra possui traços que a distinguem e sem as quais ela se torna definitivamente outra coisa. “The Walking Dead” acabaria como tal se deixasse de ser ambientada em um apocalipse zumbi. A saga criada por George Lucas não poderia abandonar o conceito de 'Força'. Mas essas particularidades não estão fixas nem no interior da concretude artística que as veiculam nem num determinado momento temporal. Como mencionei mais de uma vez nessas postagens, a obra é relida, vai sendo redimensionada à medida que encontra seu público, criando certa autonomia diante das intenções de quem a assina. E se esse público que recebe e remodela continuamente o significado da obra se estende no tempo em mais de uma geração fica complicado estabelecer um limite objetivo para o desenvolvimento daquelas particularidades que permitem reconhecê-la.




Rey e Finn descobrem a velha sucata que é a nave mais rápida da galáxia: os fãs dos anos 1980 voltam para casa





Parte considerável dos fãs de Guerra nas Estrelas carrega a firme convicção de que conhece a estrutura definitiva da narrativa, a partir da qual pode jogar anátemas sobre qualquer tentativa de mudança. É espantoso ver garotos que nasceram quase vinte anos depois da primeira trilogia dizendo que a linhagem Skywalker não poderia ser abandonada, pois a saga se trata principalmente sobre Anakin, o ''escolhido'', quando sabemos que nos primeiros rascunhos Luke era filho de Obi Wan, e que sua filiação a Vader não havia sido decidida pelo próprio criador da saga antes do início da produção d’O Império contra-ataca. Outro dia, eu lia uma entrevista antiga de George Lucas, em que o cineasta explicava que Yoda não era exatamente um Jedi. Ele seria um mestre que guiava outros que pretendiam e podiam se tornar cavaleiros da Ordem. Como consequência dessa perspectiva, continuava Lucas, Yoda não lutava, e, disse ele literalmente, não conseguiria enfrentar, por exemplo, Darth Vader. Agora pensem na segunda trilogia, em que acompanhamos o mesmo Yoda como um dos membros mais importantes do Conselho Jedi, hábil o suficiente para se digladiar com inimigos e dar saltos acrobáticos brandindo seu sabre de luz em lutas magníficas contra o Conde Dooku e contra o Imperador em pessoa [Darth Sidious para os mais novos]. Qual a ''verdade'' da saga, aquela na cabeça de George Lucas nessa entrevista ou a que ele próprio levou ao cinema?






Eu cresci nos anos 1980 com os três primeiros filmes, e os fãs da minha idade tem uma relação ambígua com os lançamentos da Disney. Nos anos 2000 fomos engolfados por uma certa estranheza quanto aos rumos estabelecidos pela Lucasfilm. ''Ameaça Fantasma'' era demasiado infantil para nós, que já estávamos cursando a faculdade ou iniciando a vida profissional, quando não criando já o primeiro filho e sustentando a primeira casa. A ambiência nos deslocava, não reconhecíamos de imediato o universo com o qual havíamos crescido -- apesar do filme ter alguns planos e cenas belíssimos, como o dos amplos salões de Naboo, mergulhados num misto de grandiosidade e orientalismo. Esse deslocamento era acentuado pelo novo trio de protagonistas: Luke, Leia e Solo foram descartados, e em seu lugar víamos Anakin, Padmé e um jovem Obi Wan. Ainda mais estarrecedor, porém, era a baixa qualidade dos filmes. De fato, o único que merece ser chamado de bom é ''A Vingança do Sith''. Diante disso, fiquei espantado com o sucesso da empreitada: George Lucas foi extremamente bem sucedido ao levar Guerra nas Estrelas para adolescentes criados entre PCs, na Internet, desejosa por realidade virtual e mergulhados em cada vez mais impressionantes jogos de console, uma geração que crescia entre os embates do fim da União Soviética, do unilateralismo geopolítico ianque, das tentativas de fortalecimento da ONU e dos novos eixos da política americana. O sucesso foi de tamanha magnitude que multiplicou de modo espetacular uma série de produtos, o ''Universo Extendido'' semi-oficial, que possibilitou que os novos fãs criassem sua própria leitura daquele universo.

A morte de Han Solo






Na verdade, dei boas vindas à maior parte dos conceitos implementados na segunda trilogia. Ainda que a experiência cinematográfica não tenha sido satisfatória, as ideias desenvolvidas para Guerra nas Estrelas aprofundaram a mitologia e a elevaram de patamar. Eu as absorvi tanto quanto a nova geração, e imagino que o mesmo aconteceu com a maioria de nós que continuaram acompanhando a saga. Mas existia uma saudade do universo e dos personagens originais, e isso ficou nítido quando J.J. Abrams nos mergulhou de novo na ambiência dos primeiros filmes e, ao lado de novos protagonistas, trouxe de volta os velhos herois dos anos 1980.  Muitos se comoveram com a entrada de Solo na Millenium Falcon dizendo a seu fiel parceiro, ''Chewie, estamos em casa!'', ou com o encontro do mesmo Solo com a perene princesa Leia. [embora a nova geração vá crescer chamando-a de ''general'']. Os sentimentos positivos em relação aos novos filmes foram contrabalançados ao se perceber que os herois retornaram também para que fosse possível se despedir deles, algo que foi negado pelas obras de 1999 a 2005. O choro que se produziu em parte dos fãs mais antigos foi acrescido de resmungos quanto à partida de Luke. ''Agora a saga acabou'', li algumas dezenas de vezes. As reclamações incluíam o desenvolvimento dos personagens, e até Mark Hamill se juntou ao coro, embora depois tenha explicado que estava errado. O ator representava o fã antigo que havia sido retirado da zona de conforto.





Sensações parecidas podem ser percebidas entre os que conheceram a franquia nos anos 2000. Descobriram agora que a linhagem Skywalker está sendo deixada de lado; e se perguntam, atônitos, ''sobre o quê, afinal, é essa nova trilogia?'' Acusam a Disney de destruir seu objeto de afeição por razões comerciais -- como se a Lucasfilm não tivesse nascido como um negócio ou como se fosse desapegada de preocupações com o marketing. Em uma cena marcante d'Os Últimos Jedi, a Comandante Holdo, preparada para o sacrifício em prol da Resistência, encara seus companheiros de luta fugindo em transportes, na execução de um plano que ela mesma havia concebido, e diz, ''Boa sorte, Rebeldes!'' A frase me lembrou que a Disney havia lançado uma série que vem fazendo muito sucesso, ''Rebels". A animação, que já vai para a quarta temporada, se passa logo depois do Episódio III, e mostra a ''fagulha'' de inconformismo que desembocaria depois na organização de uma Rebelião formal contra o Império. Impossível deixar de notar a ponte que está sendo feita com a história contada agora nos cinemas, embora a temporalidade seja distinta. A nova trilogia se foca principalmente no público que está sendo criado assistindo ''Rebels'', com personagens diferentes daqueles rostos com que nos acostumamos, mas que se encaixam no contexto daquela galáxia muito distante.



Rey precisa de alguém que lhe mostre seu lugar em ''tudo aquilo''




E é esse o tema principal de Rian Johnson -- que, dizem, foi convidado para organizar a quarta trilogia que já está sendo pensada pela Disney, e espero que a informação não provoque uma série de suicídios de fãs inconformados pela ausência de um ponto final na saga --, como levar Guerra nas Estrelas para um novo público sem deixar de transmitir os elementos essenciais que fizeram da obra um marco do universo pop. Alguns elementos que capturaram a imaginação das outras gerações serão abandonados ou adormecidos. Ninguém falou até agora de midi-chlorians. O sangue Skywalker está deixando de ser central. Solo, Luke e Leia estão tão mortos quanto Anakin, Obi Wan e Padmé. É relativizada a suposta profundidade do embate político entre federalismo e autoritarismo, que Lucas encarava como uma luta que se perdia nas brumas da civilização. E nem a Ordem Jedi parece escapar do turbilhão de mudanças. A própria visão sobre a Força pode ser aprofundada, se levamos a sério tudo o que Luke disse. Ele nos mostrou outra dimensão dos poderes dos iniciados ao realizar uma projeção que era também materialização e capacidade de interagir com o mundo físico -- Yoda não é só um uma vaga presença conselheira tampouco, ele conjurou um relâmpago que incendiou a árvore sagrada dos Jedi. E o Diamante Negro, o poder bruto e originário, pode vir a ser tema de reflexões que prometem conduzir  Guerra nas Estrelas a outro nível. São mudanças que fazem estremecer os corações conservadores, que agora encaram a verdade de que a saga não lhes pertence, que não se comunica mais só com eles, e que um público ainda mais jovem vai reler à luz dos novos filmes tudo o que eles consideravam firmemente estabelecido. Como dizia o Bardo de Sobral, o novo sempre vem, e tanto conservadorismo quanto progressismo são insuficientes para lidar com ele.