terça-feira, 20 de dezembro de 2022

OS 10 MAIORES JOGADORES DA HISTÓRIA, NÚMERO 7: ZINÉDINE ZIDANE

 O 7º lugar na lista dá a dimensão da qualidade extraordinária de um dos grandes meia-armadores [ou "maestros", como dizem os italianos] já vistos, e um dos grandes responsáveis pelo sucesso de duas variações do 4-5-1, a família de esquemas táticos mais influente dos últimos trinta anos. A história de Zidane é indissociável da seleção francesa. Ele fez o país se esquecer um pouco do genial Michel Platini, abandonar o posto secundário que ocupava no futebol mundial, e ganhar uma Eurocopa, mais uma vez com um tento decisivo de seu principal jogador. Zidane fez da França uma potência.




NÚMERO 7: ZINÉDINE ZIDANE


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Reconsiderei a dimensão de Zidane na minha lista, tirando-o do top 5 e do posto de maior jogador europeu da História. Nada contra Zizou, apenas apuração dos critérios e uma reflexão mais atenta sobre seu papel nos Mundiais de 1998 e 2006. No primeiro caso, não fez uma Copa espetacular, mas decidiu o título na final. No segundo caso, teve um dos maiores desempenhos de um jogador na história das Copas do Mundo durante a fase eliminatória, mas não a decidiu a favor dos "Azuis".


De todo modo, o sétimo lugar na lista dá a dimensão da qualidade extraordinária de um dos grandes meia-armadores [ou "maestros", como dizem os italianos] já vistos no universo da bola, e um dos grandes responsáveis pelo sucesso de duas variações do 4-5-1, a família de esquemas táticos mais influente dos últimos trinta anos: o 4-3-2-1, de 1998; e o 4-2-3-1, de 2002.


Lembro que os franceses possuíam muita expectativa com a participação de Zizou em 1998. A França possuía um time contestado: uma linha de defensores muito forte com um meio e ataque bastante mediano em termos internacionais. Mas Zidane era astro da Juventus campeã mundial em 1996 e despertava esperança.


Depois de um bom início de Copa, o principal jogador da seleção francesa foi expulso no terceiro jogo da fase de grupos. Ficou de fora da grande batalha de oitavas de final contra o Paraguai, e que terminou com a vitória dos Azuis com um gol de ouro no último minuto da prorrogação. O adversário da fase seguinte foi a poderosa Itália, que se entrincheirou no seu lado do campo no templo complementar e durante toda a prorrogação, levando a decisão para os penais. Naquela partida, Zidane estava de volta à equipe, e comandou as principais jogadas dos Azuis, encurralando os adversários. No entanto, o narrador da Globo cismava em implicar com o jogador, toda hora chamando a atenção de Casagrande, o comentarista daquela ocasião, dizendo, ''olha, e os franceses tinham muita esperança nesse jogador, mas ele não está resolvendo...''


Na quarta vez em que ouviu a ladainha, Casagrande não aguentou. Explodiu contra o narrador dizendo quase aos gritos, ''pra mim, ele está muito bem, está arrebentando. Agora, fazer tudo certo o tempo todo só se fosse o Pelé!"


Assim como aconteceu com Casagrande, foi aquela atuação que me convenceu de que Zidane era um craque daquele naipe decisivo, que cresce na ''hora da onça beber água''. Desnecessário recordar como Zizou conquistou aquela Copa para seu país. Depois de sair da Juventus, se tornou em líder e principal estrela de um Real Madri repleto de gente graúda, chegando a eclipsar até mesmo Ronaldo Fenômeno no time. Foi dele um dos mais belos gols da história da Liga das Campeões, garantindo o título para o clube madrilenho.


Apesar disso, a história de Zinedine é indissociável da seleção francesa. Ele fez o país se esquecer um pouco do grande Michel Platini, abandonar o posto secundário que ocupava no futebol mundial, e ganhar uma Eurocopa, mais uma vez com um tento decisivo de seu principal jogador. Zidane fez da França uma potência europeia e mundial.


Problemas físicos impediram que brilhasse na Copa de 2002, mas quando ninguém mais acreditava, nem mesmo os franceses, o meio campista desenhou as mais belas páginas de sua carreira em pleno Mundial da Alemanha.


O experiente atleta brigou com a imprensa, com quem não trocou um só pio durante a Copa. Depois da sofrida classificação para as oitavas, realizou duas das maiores atuações de um atleta numa competição entre seleções, inclusive contra o nosso escrete -- que era a grande favorita para a conquista.


Zinedine ficou conhecido pela expulsão na final de 2006 depois de aplicar uma cabeçada no defensor da Itália. Até a justificativa para a agressão despertou admiração em alguns. Segundo Zizou, o sujeito havia ferido a honra de sua irmã, e nem uma final de Mundial justificaria uma omissão dele diante da ofensa. Nesse episódio, o meia mostrava o quanto havia de argelino nele.


Zidane não era um meia de dribles deslumbrantes, de firulas, de espetáculos desnecessários. Nesse aspecto, ele lembrava muito o nosso Gérson ''Canhotinha de Ouro'', cuja genialidade se expressava por um domínio da pelota e do jogo na meia cancha, pela qualidade do passe, do chute, e pela liderança indiscutível no gramado.


Talvez seja também o mais conhecido carrasco do Brasil em Copas do Mundo, roubando um posto que pertencia a Paolo Rossi.

OS 10 MAIORES JOGADORES DA HISTÓRIA, NÚMERO 8: KYLIAN MBAPPÉ

 A precocidade de Kylian não é demérito, mas um ponto a seu favor. Com duas finais de Copa, um título, artilharia em 2022, e prêmio de Revelação em 2018, sua marca na competição é indelével, inesquecível e assombrosa. Em uma era que venera os números, ressalto que o francês, que completa 24 anos de idade neste 20 de dezembro, já tem cerca de 260 gols na carreira. E não são gols quaisquer. Mbappé é jogador de jogo grande.




NÚMERO 8: KYLIAN MBAPPÉ



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Alguns podem considerar cedo incluir Mbappé entre os 10 maiores jogadores da História. Mas se Maradona terminasse sua carreira em 1986, ninguém contestaria que 'El Pibe de Oro' já estava no Olimpo. Ronaldo Fenômeno já se encontrava entre os grandes com a conquista da Copa em 2002, antes mesmo de vencer qualquer competição continental e mesmo nacional. Para não falar do incomparável Pelé.


A precocidade de Kylian não é demérito, mas um ponto a seu favor. Com duas finais de Copa, um título, artilharia em 2022, e prêmio de Revelação em 2018, sua marca na competição é indelével, inesquecível e assombrosa. Em uma era que venera os números, ressalto que o francês, que completa 24 anos de idade neste 20 de dezembro, já tem cerca de 260 gols na carreira. Tudo indica que é jogador para 700 gols, o que o tornaria um dos maiores artilheiros já vistos.


E não são gols quaisquer. São quase 40 com a camisa dos "Azuis", colocando-o na disputa pelo posto de maior artilheiro de sua seleção nacional já no ciclo para a América do Norte 2026. Em Copas do Mundo, são 12 tentos em 14 partidas, média rigorosamente igual à de Pelé [0,85], sinalizando que está na briga por ser o maior artilheiro da história da competição [o alemão Miroslav Klose tem 16 gols].


Sua média cresce nos momentos mais cruciais: nas fases eliminatórias, balançou a rede 8 vezes em 8 jogos, média de um gol por partida. São 4 em duas finais distintas de Mundiais, incluindo o "hat-trick" de domingo passado. Ele é agora o atleta com mais gols em finais de Copa, superando Pelé e Zidane [cada um com 3 tentos]. Está ao lado do inglês Geoff Hurst, que também fez um hat-trick em 1966. E junto com Pelé, Vavá, Zidane e Breitner, é o único atleta a marcar em duas decisões.


Mbappé é jogador de jogo grande. E além da mortal capacidade de definição, é um dos atletas mais velozes das últimas décadas, com uma capacidade de desacelerar e reacelerar que poucos já viram. Mas também se move bem em espaços curtos, tem visão de jogo, excelentes passe e cruzamento, e versatilidade para atuar nas pontas, como atacante pelo meio, e de centroavante. Um atacante completo e diferenciado, o mais próximo nessa década de uma força da natureza.


Filho de imigrantes africanos, faz parte também de uma geração que afirma a própria identidade nacional com suas vitórias pelos "Azuis". Kylian é parisiense. Nascido e criado na capital francesa. Iniciou sua carreira em um clube da capital e, depois de chamar atenção de gigantes como o Real Madri e o Chelsea, assinou contrato com o Mônaco, se transformando no jogador profissional mais jovem da equipe, um recorde que pertencia a Thiery Henry. Mbappé se tornou o eixo do projeto francês em torno do Paris Saint German, de projetar o "futebol-champanhe" no continente como uma expressão da vitória do 'direito do solo' na aquisição da nacionalidade e integração à Europa.


O tempo dirá se o ciclone francês subirá ainda mais na lista. Mas eu diria que esta é uma aposta bastante segura. A França vive sua era de ouro no futebol. Mbappé é o atacante de maior valor de mercado na Europa e atua por um dos mais ricos e mais poderosos times do Velho Mundo. E só agora ele está decolando rumo ao seu auge atlético. 

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

OS 10 MAIORES JOGADORES DA HISTÓRIA, NÚMERO 9: BECKENBAUER

 Franz era sinônimo de elegância nos gramados. Quase um paradoxo, ele se tornou um atleta completo assim que trocou o meio campo pela zaga central. A mudança de posição não o transformou em mais um zagueiro habilidoso como tantos outros, e sim na referência principal de uma transformação tática que marcou décadas de futebol alemão, a criação da função de líbero no país, não "à italiana", mas jogando livre e construindo a equipe por trás. Beckenbauer ficava na sobra na linha de defesa, mas era também a principal saída de bola e o grande armador do Bayern e da Alemanha.






NÚMERO 9: BECKENBAUER


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'Der Kaiser' é um atleta que, praticamente consenso nos anos 1980 e 1990, tem sido um tanto esquecido nas grandes listas dos últimos dez anos. Seja porque o futebol alemão tenha passado por problemas de renovação depois do tricampeonato mundial e só superados recentemente, talvez por causa dos escândalos de corrupção na FIFA que envolveram seu nome, seja por um lapso da ''memória coletiva'', o jogador símbolo do Bayern de Munique anda com a cotação em baixa.


O grande capitão germânico era imprescindível em qualquer top 5 até pouco tempo atrás. Na eleição para jogador do século que a FIFA empreendeu em 1999, com um Grande Júri formado por dirigentes esportivos, ex-jogadores, jornalistas e analistas de todo o mundo, Beckenbauer ficou em quarto lugar entre os maiores futebolistas da História, logo atrás de Johan Cruyff. Já a Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol o escolheu como terceiro melhor de todos os tempos.


Em minhas recordações, 'O Imperador' é o sujeito que igualaria em 1990 o feito de Zagallo. Como técnico do time alemão, levantou a Copa do Mundo da Itália e se tornou o segundo homem a conquistar o título tanto como jogador quanto como treinador [Meu pai corrigiu ao ouvir um narrador anunciar a façanha: ''Zagallo venceu DUAS vezes como jogador e uma como técnico!''].


Franz era sinônimo de elegância nos gramados. Quase um paradoxo, ele se tornou um atleta completo assim que trocou o meio campo pela zaga central. A mudança de posição não o transformou em mais um zagueiro habilidoso como tantos outros, e sim na referência principal de uma transformação tática que marcou décadas de futebol alemão, a criação da função de líbero no país, não "à italiana", mas jogando livre e construindo a equipe por trás. Beckenbauer ficava na sobra na linha de defesa, mas era também a principal saída de bola e o grande armador do Bayern e da Alemanha.


O 'pai dos líberos' foi um dos principais destaques do time alemão ocidental que chegou à final contra a Inglaterra em 1966, marcando quatro gols naquela campanha.


Ainda que a seleção germânica não tenha ido à decisão no México, 'Der Kaiser' protagonizou partidas épicas junto com sua equipe: a eliminação do 'English Team' nas quartas de final seguido d'O Jogo do Século contra os italianos em uma das semifinais do torneio. Esse confronto terminou na prorrogação com o placar de 4 a 3 para os italianos, e Beckenbauer atuou boa parte do tempo com uma tipoia improvisada depois de ter deslocado o ombro em uma disputa ainda no segundo tempo do jogo, quando sua equipe se encontrava com a desvantagem de um 1 tento a 0 no placar.


Não bastassem duas Copas brilhantes, Franz emendou uma terceira. Em 1974, ele conduziu a Alemanha Ocidental à conquista da Copa jogada em casa, superando na final o Futebol Total da Holanda de Johann Cruyff.


Beckenbauer foi o líder técnico daquela que se tornou a maior geração da história do futebol alemão. Sua carreira em clubes é também brilhante, tornando-se não só o maior ídolo do Bayern de Munique mas sendo escolhido Presidente da icônica equipe europeia. A dinâmica do esquecimento e da memória, que também se abate sobre outros grandes craques, vai trazer a imagem d'O Imperador à tona mais dia menos dia.

domingo, 18 de dezembro de 2022

OS 10 MAIORES JOGADORES DA HISTÓRIA, NÚMERO 10: ZICO

 Seus dribles e perfeição técnica levam o Rei Pelé a afirmar até hoje que Zico foi o jogador brasileiro que mais chegou próximo dele. Assim como outros monstros do esporte, Zico não venceu uma Copa do Mundo, fazendo parte de um clube que conta com Zizinho, Puskas, Leônidas da Silva, Cruyff, Eusébio, Di Stefano, Platini, Júnior, Cristiano Ronaldo. A diferença é que o ídolo rubro-negro virou símbolo de uma das seleções mais amadas pelo planeta bola, tão fantástica que é considerada a maior seleção a não vencer um Mundial, ao lado da "Laranja Mecânica" de 1974.




Poucas brincadeiras são tão legais para um torcedor quanto fazer listas de melhores times, seleções, jogadores, partidas etc. Vou atualizar a minha lista de maiores jogadores de todos os tempos. Lembrando que esta é a minha lista, com textos que justificam minhas escolhas. Cada um pode fazer a sua, com os critérios e justificativas que lhe parecerem mais adequados. A discussão sobre estes pontos não tem fim, e penso que a presença dos meus escolhidos pode ser defendida sem nenhum apelo ao absurdo.


NÚMERO 10: ZICO


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O imortal Nelson Rodrigues chegou a declarar no início dos anos 1970 que estava dedicado a ir de bar em bar, de rua em rua, de portão em portão para transmitir sua verdade, a de que Zico era o melhor jogador do mundo. Desde os tempos dos irmãos Antunes no Fluminense e Edu no América se profetizava que o craque daquela família de boleiros do subúrbio carioca era o franzino Arthur, que comia a bola em campeonatos de bairros e no futebol de salão.

Criado em uma família na qual o Flamengo era uma religião, Zico possuía o mesmo problema que Messi apresentaria ao Barcelona quase meio século mais tarde, um físico franzino que só lhe permitiu jogar profissionalmente depois de um severo e planejado tratamento de vanguarda.

O garoto conquistou a torcida de cara e conduziu um grupo de juvenis ao título carioca de 1974. Seus dribles e perfeição técnica levam o Rei Pelé a afirmar até hoje que Zico foi o jogador brasileiro que mais chegou próximo dele. O futebol do ''Galinho de Quintino'' amadureceu em um misto de inteligência, habilidade no drible, perfeição nos passes, destreza na bola parada e faro de gol que deixariam extasiados os torcedores do Flamengo, os amantes do futebol e a crítica especializada dentro e fora do país.

Zico fez do Maracanã sua casa, tornou-se o maior artilheiro da história do estádio mais importante de todos, e levou o Flamengo a uma hegemonia crescente: primeiro no Rio de Janeiro, depois no Brasil e por fim na América do Sul e no mundo. O ''Camisa 10 da Gávea'' se transformou em uma lenda sem fronteiras, líder de uma equipe que foi considerada pelo Grande Júri da FIFA, reunido no fim do século XX, entre as dez melhores já vistas.

Assim como outros monstros do esporte, Zico não venceu uma Copa do Mundo, fazendo parte de um clube que conta com Zizinho, Puskas, Leônidas da Silva, Cruyff, Eusébio, Di Stefano, Platini, Júnior, Cristiano Ronaldo. A diferença é que o ídolo rubro-negro virou símbolo de uma das seleções mais amadas pelo planeta bola, tão fantástica que é considerada entre as maiores já montadas pelo Brasil ainda que não tenha ficado sequer entre as quatro primeiras da Copa de 1982. Muitos consideram o Brasil daquele ano como a maior seleção a não vencer um Mundial, ao lado da "Laranja Mecânica" de 1974. O Galinho brilhou em campos espanhóis com o mesmo fulgor e magnitude com que comandava o Flamengo em seus dias de glória.

Maior goleador da seleção depois de Pelé, fenômeno de popularidade na pequena Udinese -- com a qual chegou a disputar a artilharia do italiano contra Platini, que atuava pela poderosa Juventus --, maior ídolo da história do clube de maior torcida do Brasil, o Galinho de Quintino também conheceu a dor e a tragédia, seja por não ter levado o escrete canarinho à conquista de uma Copa -- o que lhe daria uma dimensão ainda maior nessa lista, seguramente entre os cinco primeiros --, seja pelas limitações físicas que o acompanharam na fase final de sua trajetória, vítima da violência de adversários que quase puseram um ponto final em sua carreira.

No início dos anos 90, depois da primeira aposentadoria, Zico foi escolhido pelos japoneses para se tornar a estrela que consolidaria um campeonato nacional no país, também aqui similar à ida de Pelé para o Cosmos, nos Estados Unidos. A estrela surgida no Rio, conquistadora do Maracanã e do mundo, foi também inesquecível no país do sol nascente.

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

RANKING DE FUTEBOL 2022, parte III -- O Ranking combinado Internacional/Nacional

 

1.      Introdução

 

O Ranking abaixo combina os resultados no âmbito internacional com o âmbito nacional, deixando de lado os estaduais e os regionais/inter-regionais que são usados no Ranking Geral[clique no link para ler]. Como expliquei no texto passado, ele se fundamenta na aposta de que nas próximas décadas, os estaduais vão se tornar irrelevantes no dimensionamento da grandeza de um clube nos debates entre torcedores. O Ranking Geral oferece um panorama histórico mais acurado de todo o futebol de clubes no Brasil. Mas este Ranking Internacional/Nacional aponta para a direção em que deságua o patamar atual de profissionalização do nosso futebol, um processo que se acelerou desde o fim dos anos 1980.

 


 

2.      O Grande Trio

 

O Flamengo domina de maneira folgada o Ranking Geral. Mas no Ranking Internacional/Nacional chegou à liderança nesta temporada. Um olhar mais atento, no entanto, flagra um verdadeiro empate técnico entre O Mais Querido, o São Paulo e o Palmeiras. Menos de 20 pontos separam estas equipes. Podemos dizer que no fim de 2022, e quando analisado pelo critério das grandes competições nacionais e internacionais, o futebol brasileiro é dominado por um grande trio de clubes.

 

Se formos ainda mais rigorosos, percebemos que este trio pode se tornar muito em breve na hegemonia de uma dupla. Enquanto o São Paulo patina, Flamengo e Palmeiras dividem os principais títulos nacionais e continentais nos últimos cinco anos. Não parece que este panorama vá se alternar nas próximas temporadas. Notem também que estes clubes já abrem mais de 400 pontos de vantagem do quarto colocado, o Santos, e mais de 500 pontos em relação ao quinto colocado, o Corinthians.

 

O São Paulo chegou a este nível principalmente por seu currículo em disputas internacionais. O clube lidera com muita folga o Ranking Internacional [clique no link para ler]. No Nacional, no entanto, cai para a quinta posição. Já o Palmeiras lidera o Ranking nacional, mas é só o quinto colocado no Internacional. O Flamengo ocupa a segunda posição no Nacional e a terceira no Internacional.



3.      Outras disputas

  

O Atlético Mineiro está muito perto de entrar no top 10 deste Ranking, superando o Fluminense. E o Athletico Paranaense já se encontra à frente do Botafogo quando deixamos de lado os estaduais e regionais que fizeram a fama d’O Glorioso. Sport e Bahia disputam ponto a ponto o posto de “Maior do Nordeste”.

 

A brincadeira vai continuar em 2023, e estes rankings atualizados sempre que necessário.

terça-feira, 22 de novembro de 2022

RANKING DE FUTEBOL 2022, parte II -- Os Rankings Internacional e Nacional

 

1.  1.    Introdução

 

 

Neste texto, vou esmiuçar o Ranking Geral [clique para ler], dividindo-o em uma classificação de conquistas/desempenho Internacional, e em uma classificação de conquistas/desempenho Nacional. O Ranking Geral leva em consideração campeonatos nos âmbitos a) estadual; b) regional e inter-regional; c) nacional; d) internacional. Mas com o novo patamar de profissionalização do futebol, as duas primeiras esferas tem perdido peso e servido mais para uma avaliação histórica do que de sinalização para o crescimento atual e futuro dos clubes. Daí a razão de isolar os campeonatos que hoje são mais valorizados do ponto de vista técnico e financeiro. O Ranking Geral é liderado pelo Flamengo, seguido por Palmeiras, São Paulo, Santos, Corinthians. Vejamos agora a hierarquia dos recortes.

 

 

 2. Ranking Internacional

 

 


Ainda que mergulhado em crise há anos, o São Paulo continua dominando amplamente o Ranking Internacional. Tamanha é a hegemonia do tricolor paulista, detentor de três títulos mundiais e três Libertadores da América, que mesmo que o Flamengo, clube que mais pode pontuar neste âmbito em 2023, ganhe absolutamente tudo, ainda assim a liderança folgada do São Paulo estaria assegurada.

 

Por outro lado, o Flamengo vem subindo no Ranking e este ano superou a pontuação do Grêmio. Mais ainda, O Mais Querido agora ameaça de maneira efetiva o segundo lugar do Santos. O Grêmio [4º] também se vê em problemas. Além de perder a posição para o Flamengo, vê o Palmeiras [5º] se aproximando.

 

Também é interessante notar que o Athletico PR está à frente de Fluminense e Botafogo no âmbito internacional. E atenção para a entrada do Fortaleza na briga, um time que por enquanto ainda está ausente do Ranking Geral.

 

 3. Ranking Nacional




Com o Brasileiro 2022, o Palmeiras abriu diferença para o Flamengo e lidera o âmbito nacional. O Flamengo cresceu também com a conquista de mais uma Copa do Brasil, se isolando do Corinthians [3º]. A tendência atual é o isolamento d’O Mais Querido e do Alviverde paulista na liderança deste ranking. Eles já abrem mais de 400 pontos de diferença do quarto colocado, o Cruzeiro, uma distância muito difícil de ser tirada mesmo em médio prazo.

 

O São Paulo, que lidera com muita folga o Ranking Internacional, é apenas o 5º colocado no Nacional. Há uma disputa ferrenha se desenhando entre a 7ª e a 11ª posições: Grêmio, Internacional, Vasco da Gama, Fluminense e Atlético Mineiro estão próximos uns dos outros. Um grande título e a hierarquia será alterada em 2023. O Athletico PR, que já aparece à frente de Botafogo e Fluminense no âmbito internacional, está a cada dia mais próximo do clube de General Severiano também no Nacional.

 

No próximo texto, vou combinar os dois Rankings para estabelecer a hierarquia dos clubes quando levamos em conta apenas os torneios de âmbito nacional e internacional. Ou seja, deixando de lado a história dos regionais e dos estaduais.


domingo, 20 de novembro de 2022

RANKING GERAL DO FUTEBOL 2022


 


1. Introdução



Chegou o momento de atualizar o Ranking Geral de Futebol segundo o desempenho na temporada de 2022. Houve pequena mudança no sistema de pontuação. Não nos critérios mas no peso do rebaixamento. A perda de pontos que conferi na versão original é excessiva. A partir deste ano, a queda para a segunda divisão leva à perda de 10 pontos, não mais de 20. E a queda para a terceira divisão leva à perda de 20 pontos, não mais 40. Corrigi também algumas imprecisões de contagem. Em minha defesa, nenhuma destas alterações implicou em mudança em posição na tabela. Todos os demais critérios e pesos permaneceram iguais aos expostos ano passado: 


1) https://andreluizvbtr.blogspot.com/2021/12/um-ranking-de-conquistas-no-futebol.html

2) https://andreluizvbtr.blogspot.com/2021/12/ranking-parte-ii-o-problema-dos.html

3) https://andreluizvbtr.blogspot.com/2021/12/o-ranking-de-conquistas-no-futebol.html


O Ranking Geral abaixo leva em conta as conquistas e desempenho em torneios de quatro âmbitos de competição: 1) estaduais; b) regionais ou inter-regionais; c) nacionais; d) internacionais. Ao longo da semana, vou destrinchá-lo, apresentando a classificação por torneios internacionais; por torneios nacionais; e então, uma soma de torneios de âmbito nacional e internacional. A minha aposta é que daqui por diante os feitos conquistados nos estaduais e regionais serão cada vez mais menosprezados dado o novo momento de profissionalização do futebol brasileiro, muito calcado em disputas nacionais e continentais. O Ranking Geral apresenta, portanto, o panorama histórico mais abrangente. Os demais, que publicarei nos próximos dias, apontam para o cenário futuro.

 

O Ranking 2022. Flamengo amplia a vantagem na liderança. Palmeiras supera o São Paulo. Corinthians se aproxima do Santos, e o Fluminense do Vasco. Paysandu rouba a posição do Ceará.


2. Mudanças

 


O Flamengo ampliou sua vantagem na ponta do Ranking. Disputando o Brasileiro e a Libertadores mais uma vez, conquistando a principal competição continental, além da Copa do Brasil, e contando com o vice do campeonato carioca, o clube da Gávea abriu mais de 250 pontos em relação ao segundo colocado, uma diferença quase impossível de ser tirada em apenas um ano.

 

A segunda posição, no entanto, sofreu uma alteração, o São Paulo perdeu o posto para o Palmeiras. O alviverde disputou mais uma edição da primeira divisão do campeonato brasileiro e da Libertadores; e conquistou o campeonato paulista, a Recopa Sul-Americana e o Campeonato Brasileiro. Além disso, pontuou como vice campeão mundial FIFA. Um desempenho só inferior em pontos ao do Flamengo.

 

Vice-Campeão da Copa do Brasil e disputando mais uma edição da Libertadores, o Corinthians [5º] se aproximou do Santos [4º]. A distância que os separa caiu para cerca de 50 pontos.  O mesmo pode ser dito do Vasco da Gama [9º] em relação ao Fluminense [10º]. Os dois rivais estão separados por menos de 40 pontos, um nada, principalmente se considerarmos que o tricolor está classificado para mais uma Libertadores da América.

 

Na parte de baixo do Ranking, o Paysandu conquistou mais um inter-regional, a Copa Verde, e ultrapassou o  Ceará, que amargou o rebaixamento para a segunda divisão. A queda fez com que o ‘Vozão’ fosse o único clube da lista com pontuação minorada em relação à temporada anterior.

 

 3. Disputas

 


A liderança do Flamengo impede que a ponta do Ranking seja dominada só por clubes paulistas. O rubro-negro da Gávea é o intrujão carioca entre os grandes do estado mais rico do país. O único paulista que tem acompanhado o ritmo de conquistas d’O Mais Querido do Brasil é o Palmeiras. O Flamengo somou 216 pontos nesta temporada, o Palmeiras 172. Nenhum outro clube chegou sequer perto desta contagem.

 

Depois destes dois “líderes da manada”, temos Atlético Mineiro e Athletico Paranense com temporada muito boa. Apesar de ter falhado em cumprir as expectativas de seu valioso elenco, o Galo de Minas foi campeão estadual, da Supercopa do Brasil, e se fez presente em mais uma Libertadores. Já o Furacão foi vice-campeão da competição mais importante do continente. Fluminense e Corinthians também apresentaram boas contagens na temporada.

 

No próximo texto, a separação entre a classificação NACIONAL e a INTERNACIONAL.



quarta-feira, 12 de outubro de 2022

A TRAIÇÃO DO PRESIDENTE, ou: pequena reflexão sobre estelionatos eleitorais e suas consequências

"Você pagou com traição
a quem sempre lhe deu a mão"


Jorge Aragão/Dida/Neoci Dias


Terrorismo injustificável, mas nascido da desesperança popular, do abandono das promessas de transformação realizadas em meio à Nova República


Poucos dias antes da promulgação da Constituição Federal, mais especificamente no dia 29 de setembro de 1988, um brasileiro sequestrou um avião da VASP, que saía do aeroporto de Confins, em Belo Horizonte.


Raimundo Nonato, de 28 anos de idade, havia sido demitido de uma construtora semanas antes. Aproveitando as parcas medidas de segurança nos aeroportos, entrou no Boeing 737 armado com um revólver .22 com a intenção de jogar a aeronave no Palácio do Planalto e matar o Presidente José Sarney, a quem culpava pela crise. O vôo tinha 105 passageiros, fora a tripulação.


Na confusão do sequestro, dois tripulantes foram feridos à bala. O co-piloto foi assassinado com um tiro na nuca. O avião se aproximou de Brasília já escoltado por dois caças Mirage da Força Aérea Brasileira.


O heroi do dia foi o comandante Fernando Murilo Lima e Silva. Com sangue frio, inventou desculpas para não cometer o atentado. Disse para Raimundo que o dia nublado na capital federal o impedia de visualizar o Palácio do Planalto, e deu voltas sobre a cidade até o nível de combustível ficar crítico.


Quando não tinha mais alternativa, o piloto tomou uma decisão corajosa. Realizou uma manobra louca e inédita para um Boeing, fazendo a aeronave girar 360° em linha reta. Depois arremeteu para o chão realizando piruetas em parafuso. Isso desnorteou Raimundo Nonato, que foi ao chão, dando o tempo que Lima e Silva precisava para pousar o Boeing no aeroporto de Goiânia.


Ainda assim, o sequestrador saiu do avião usando o comandante como escudo. Houve tiroteio com a Polícia Federal, e o piloto saiu com um tiro na perna. Raimundo foi baleado três vezes nas pernas e no quadril, e embora não sofresse risco aparente de vida, acabou morrendo no hospital tempos depois: um verdadeiro mistério.


Um ano antes, Clésio Venâncio, de 45 anos de idade, também tentou matar o Presidente José Sarney. Em fevereiro de 1987, depois de receber alta de um hospital psiquiátrico, ele subiu a rampa do Palácio do Planalto munido com uma faca. Era quase um Adélio da época.


Mas nem tudo era loucura, pelo menos não desse tipo. Quando visitou o Paço Imperial, no Rio de Janeiro, em 25 de junho de 1987, o ônibus presidencial foi cercado por uma multidão de militantes do PT e do PDT. Eles gritavam palavras de ordem, impedindo o desembarque de Sarney, e ficaram gradualmente mais violentos. A certa altura, tentaram incendiar o veículo. Um dos pedetistas carregava uma picareta e, com um golpe, quebrou uma janela próxima ao presidente, que saiu com a mão ferida. Sarney culpou Brizola pelo escarcéu, e chegou a processar o ex-Governador do Rio.

"Eu acreditei!", gritava personagem de Jô Soares, representando a quebra de confiança da população com o sistema político depois do fracasso do Plano Cruzado


Todo esse ódio, causa destes atos injustificáveis, se devia à mágoa da população com o primeiro grande estelionato eleitoral da Nova República. O povão acreditou no Plano Cruzado, que congelou preços, salários e tarifas no início de 1986. Adotado por Funaro e Sayad, apoiado pela Fiesp, o Plano foi saudado com lágrimas nos olhos pela economista de esquerda Maria da Conceição Tavares. O slogan do governo era o ''Tem que dar certo!" As classes populares se tornavam ''fiscais do Sarney'', armadas com a tabela de preços da Sunab e chamando a polícia contra gerentes de mercados e vendas que não cumprissem o que estava escrito.


A inflação declinou violentamente, o consumo explodiu, e a popularidade do presidente foi às alturas. Não era pro tabelamento de preços durar muito tempo, mas Sarney resolveu esticar a corda, se aproveitando dos seus quase 100% de aprovação popular para vencer as eleições de outubro de 1986. O pleito era importantíssimo, pois dali sairia a Assembleia Nacional Constituinte.


O PMDB elegeu 22 dos 23 governadores e 38 das 49 vagas no Senado. Fez também 260 dos 487 deputados federais. Brizola, única voz que ousou criticar o Plano Cruzado, não conseguiu fazer seu sucessor: Darcy Ribeiro perdeu as eleições no Rio para Moreira Franco, o homem que dizia que resolveria o problema da criminalidade em seis meses.


Poucos dias depois da eleição, Sarney abandonou a população. Se rendeu ao ágio, à escassez de mercadorias nas prateleiras, ao gado escondido em fazendas no interior do país, e convocou uma rede de TV e rádio para anunciar um reajuste de quase 100% em itens da sacrossanta tabela da Sunab, e de 60% dos combustíveis.


Foi sua morte política. E quase o levou à morte de fato. Pequena recordação, talvez aterradora, das consequências diretas do desespero popular diante do abandono daqueles em que depositou suas esperanças. E um alerta para os candidatos atuais sobre o momento grave por que passa o país. Estas ações condenáveis são a ponta de um Iceberg. E os rumos do Brasil não nos trazem tranquilidade. Podemos estar à beira de uma grave disrupção política provocada pelo fracasso final da Nova República, e orientada não contra uma pessoa em particular, mas contra a totalidade do arcabouço institucional.

terça-feira, 20 de setembro de 2022

O LÍDER QUE DESTRÓI QUEM O ACOMPANHA, ou: da estratégia de lacração direitista

A Revista Casseta Popular lançou a candidatura do Macaco Tião. Ele chegou em terceiro lugar nas eleições para Prefeito do Rio de Janeiro, em 1988, com mais de 400 mil votos.


Nenhuma liderança tem os fios da História nas mãos, mas ainda assim lideranças fazem diferença. Elas podem se aproveitar de circunstâncias e contextos para difundir suas ideias e pautas, acumulando poder político para o seu grupo; ou podem desmoralizar seus movimentos por completo, estigmatizando-os a ponto de condená-los à marginalidade social.


Meu objetivo não é criticar quem acreditou em Bolsonaro nem dizer "eu avisei" [é verdade que sempre fiz oposição a Bolsonaro]. E sim apontar o equívoco de imaginar que ele tem uma conexão mais forte com a população do que a esquerda identitária. Já é hora de dizer em alto e bom som que nenhum dos dois grupos sabe muito bem o que está fazendo.


Até a semana da Pátria, a diferença entre os dois líderes nas pesquisas estava caindo. Havia a nítida percepção de que o PT estava na defensiva. Quando vi o pandemônio em que Bolsonaro transformou o 7 de setembro, apostei que a tendência se inverteria. Fui imediatamente criticado por alguns bolsonaristas que, pasmem, chegaram a dizer que o comício provava que "os militares sairiam do poder quando quisessem". Que esta alienação exista entre os seguidores do movimento não é novidade, chamo a atenção para o delírio que existe na cúpula que compõe a estratégia bolsonarista. Alguns deles disseram a jornalistas que cobriam o Bicentenário que "a mídia não sabia como a extrema-direita [sic] funcionava".


Pois eu vou explicar como o bolsonarismo funciona: construindo um espírito de seita em 15% do eleitorado, manipulando memes direitistas que distribui via redes sociais, usando a "lacração à direita" para chocar os "de fora" e se manterem na mídia, e investindo no blefe até o ridículo.


Quais são os resultados dessa estratégia de "ostentação da infâmia"? Primeiro, ela se presta à construção de uma seita em torno do líder. Há quem acredite de fato que Bolsonaro foi enviado por Deus, que está combatendo o comunismo e a Rede Globo, que é capaz de fechar o STF e o Congresso etc. Os cultistas se alienam tanto da realidade que chegam a imaginar que as tiradas mais toscas, contraproducentes e constrangedoras de Bolsonaro são um ganho político só porque ele pode fazê-las em público.


De fato, ele pode puxar corinhos de "imbrochável" naquilo que deveria ser a comemoração do Bicentenário, levando à loucura seguidores que imaginam que este tipo de comportamento é uma forma de "combater o sistema". Fora da bolha que o ama cada vez mais, ele só provoca repulsa. Não apenas entre progressistas, mas também entre conservadores.


A maior demonstração disto é sua impopularidade no eleitorado feminino. A grande mídia, hegemonizada por um discurso de esquerda identitária, está equivocada ao imaginar que as mulheres brasileiras são "feministas". Elas são fortes, líderes de comunidades, trabalham, são chefes de família, e enfrentam diversos problemas com violência doméstica, discriminação e misoginia. No entanto, tendem mais ao conservadorismo de costumes e de ideias do que os homens. São mais religiosas. Não se veem em guerra contra o patriarcado. O discurso feminista misândrico não as atrai. E ainda assim elas repudiam o bolsonarismo com vigor, mesmo sendo maioria entre os evangélicos. A mulher brasileira, que é trabalhadora mas também conservadora e religiosa, repudia o feminismo anti-essencialista mas detesta o discurso bolsonarista. Não porque o "imbrochável" seja "machista" ou "tóxico", mas porque é indecoroso, inoportuno, e sem noção.



O Macaco Tião era sucesso de mídia, de público. Amado por todos os que frequentavam o Zoológico do Rio de Janeiro. A maior parte do bolsonarismo não passa do mesmo entretenimento, sem qualquer poder de influência real para fora da própria bolha.



Bolsonaro não sabe se comunicar com as mulheres. Não sabe se comunicar com os pobres. Não sabe se comunicar então com o povo. Ele só sabe lacrar à direita. Só sabe dizer bobagens que reforçam o sectarismo de seu movimento, mas que ao mesmo tempo o transforma em chacota e queimação de filme em qualquer âmbito da sociedade organizada. Nenhum partido político sério vai nascer do bolsonarismo. Ele não vai adentrar seriamente as ideologias, a grande mídia, os intelectuais, a cúpula das FAs. Nem Arthur Lira acredita nele. Mas ele está lá, crente que está abafando ao puxar corinhos de "imbrochável".


Bolsonaro deve ter algum ganho pessoal com esta estratégia. Mas para todos os demais fora da seita ela é percebida como queimação de filme. Bolsonaro arrisca inviabilizar politicamente todos os que se aproximam e se associam com ele. Seus aliados serão engolidos pelo buraco negro que é o bolsonarismo, e pagarão o preço, que será maior ou menor de acordo com seu grau de envolvimento, por este tipo de vínculo. Bolsonaro arranha a imagem da direita, do conservadorismo, do liberalismo, do nacionalismo, dos militares, dos evangélicos, do cristianismo e de tudo o mais com que tiver proximidade. É um Rei Midas às avessas, enfim, puxando corinhos lacradores e distribuindo memes entre o seu séquito, que incapacitados politicamente e cada vez mais marginais e isolados dentro da sociedade em que vivem, acabam por depender cada vez mais da própria seita. Afinal, a bolha bolsonarista é a única que os aceita como "normais" e sãos.


Nunca me considerei de direita. Na verdade, sou getulista, trabalhista e brizolista. Mas sou também conservador, antipetista, antiprogressista, religioso. Pois bem: não há o mínimo futuro para estas ideias antiprogressistas, que são sim populares, sob o guarda-chuva do bolsonarismo. São milicianos reacionários afundados no filistinismo mais odioso, saudosos de porões de tortura, e cuja ideologia mais profunda é o oportunismo. Seu horizonte mental é o da subcelebridade direitista, usada como espantalho pelos identitários para denunciar como execrável toda e qualquer alternativa ao establishment.


A liderança de Bolsonaro é similar ao Macaco Tião. Todo mundo gostava de parar pra ver o circo e gargalhar, mas ao mesmo tempo sabiam que não passa de um animal que, em acessos de fúria, joga fezes e urina naqueles que, desavisados, acabam se aproximando demais da jaula.

domingo, 18 de setembro de 2022

A VERDADE DA PRESENÇA DA NOVA RESISTÊNCIA NO PDT






Marie Declercq e Letícia Oliveira publicaram neste domingo, dia 18, uma matéria no Portal UOL sobre a "infiltração" da Nova Resistência no PDT. Mas cometem erros crassos, comuns em certo tipo "jornalismo antifa".
 

1. Levam a sério declaração de Raphael Machado de que há mais de "vinte membros filiados ao PDT". Mas isto não passa de propaganda da própria NR. Um "bait" em que caem antifas. Nem meia dúzia de militantes da NR tem vida ativa em qualquer partido político, seja PDT ou outro. A atuação do grupo se dá principalmente por redes sociais.


2. A eleição do vereador Ivanzinho de Joventino em Cuieté se deu pelo Cidadania, não pelo PDT. Sua campanha independeu da NR, que tinha uma célula minúscula na Paraíba, formada por três ou quatro pessoas, sem capacidade de atuar no interior . Na verdade, essa é a situação da maioria das células dessa organização, que no Brasil todo não conta com mais de uma centena de membros com diversos graus de mobilização. Como eu disse, a atuação se dá principalmente pelas redes sociais. Depois que ganhou a eleição, a proximidade de Ivanzinho com a NR aumentou, já que ele foi intensamente usado como objeto de propaganda, como "o primeiro vereador quarto-teórico do país". Mas a verdade é que Ivanzinho mal conhece a QTP. Ele sempre foi lulista. Sempre fez, e continua fazendo, propaganda explícita para Lula. Mais uma vez, nada a ver com o PDT.


3. Capitão Leo, que foi candidato a vereador do Rio de Janeiro pelo PROS se aproximou da NR depois de ter sua candidatura lançada. Queria gente pra fazer propaganda de rua e nas redes, se identificou com algumas pautas nacionalistas, e passou a se dizer membro da organização. Ele tampouco era um "membro da NR que se infiltrou no PDT".  Além disso, o capital político do Capitão Leo é pequeno. A militância antifa esquece de dizer que seu desempenho nas urnas foi pífio. 


4. Diferente do que dito na matéria, a NR não apoia Cabo Daciolo no Rio, e sim Clarissa Garotinho, do União Brasil. Isto pode ser confirmado visitando as redes sociais das lideranças do Rio de Janeiro. Aliás, as principais lideranças da NR no Rio de Janeiro [cidade em que a organização foi fundada] se aproximaram bastante do bolsonarismo este ano. A pequena articulação eleitoral que fizeram no estado passou longe do PDT.


A militância antifa exige que membros da NR sejam "expulsos" do PDT. Mas qual exatamente? Digam um nome que tenha vida ativa no PDT. Como se expulsa um fantasma? Exorcismo? Os jornalistas que assinam a matéria poderiam fazer este favor a Carlos Lupi, e dizer afinal quais são os membros da organização que estão dentro do partido. Não o fazem porque não conhecem de fato nenhum.


Parte da militância antifa quer vender a ideia de que Dugin, o intelectual que é o guru da liderança da NR, tem algum vínculo com o PDT e com Ciro Gomes. Mas isto é falso. O Centro de Estudos Multipolares [CEM], um think tank duginista coordenado por Flávia Virgínia, e que foi citado na matéria do UOL, aderiu a Haddad em 2018. 


Aliás, se querem uma fonte direta, aqui vai: tenho conhecido que se reuniu em 2019 com Dugin na sala do movimento neoeurasiano, na Rússia, e ouviu do próprio que os setores mais influentes do governo Putin tinham preferência por Lula e pelo PT, e má vontade com qualquer outro campo político brasileiro. Seria absurdo, no entanto, exigir que o PT expulsasse membros da NR do partido por causa desta informação. Repetindo pela terceira vez, a atuação desse grupo se dá principalmente por redes sociais, em que tentam parecer muito maiores do que realmente são.


Eis a verdade por trás de tanta paranoia.