sábado, 21 de março de 2026

QUARTA SEMANA DE GUERRA: QUEM ESTÁ VENCENDO POR ENQUANTO?



A ciência da guerra a encara de forma tripartite, coordenando os aspectos tático, operacional e estratégico. Desde Clausewitz existem delimitações entre as táticas militares e a guerra enquanto fenômeno estratégico [de natureza política].


O soviético Aleksandr Svechin enfatizou a dimensão operacional [articulação das batalhas em uma campanha visando destruir a capacidade militar inimiga], mas a subordinou definitivamente à estratégia fazendo uma reformulação importante em Clausewitz.


O prussiano [e a maior parte da doutrina soviética até a II Guerra Mundial] concebia a guerra como ofensividade máxima e batalhas decisivas. Svechin apontou, a partir de uma leitura da I GM, que a estratégia variava de acordo com o tipo de conflito que o poder político escolhia.


E a escolha podia ser por uma guerra de desgaste.


Dizendo de modo simples, a vitória depende do tipo de combate escolhido. O país define quais são seus objetivos políticos. Depois o tipo de guerra que considera mais apropriado para conquistá-los, e por fim prepara a base econômico-social e militar-política para sustentar o esforço ao longo do vetor tempo [que ganha mais importância se a decisão for pelo atrito].



Nesse sentido, não adianta fazer campanhas magníficas [nível operacional] se elas estão desarticuladas com a escolha do tipo de confronto e com os objetivos políticos [estratégia]. A vitória depende desse contexto amplo, e não de uma continha boba sobre quem vence mais batalhas ou destrói mais tanques. Se a campanha não for estrategicamente útil, então ela perde sua razão de ser, já que é meio e não fim.


Se aplicarmos esses conceitos ao que ocorre no Oriente Médio, o cenário ianque é o seguinte [não vou falar agora dos objetivos israelenses, que são mais amplos]:


A estratégia definida era a queda da República Islâmica a partir da destruição do aparato repressivo, a revolta da população contra o regime, o estabelecimento de lideranças dóceis aos EUA, o domínio dos recursos petrolíferos do país. O tipo de guerra era maximamente ofensiva, conduzida pelo poder aéreo, e decidida rapidamente pela destruição moral do inimigo, e pela incapacitação de suas forças convencionais [força aérea e naval].


Os EUA realizou seus objetivos? A resposta é um sonoro ''NÃO''.


A estratégia fracassou de modo tão completo que deixou a liderança ianque baratinada, como se não tivesse escopos claros. Trump busca agora redefinir a estratégia no meio da campanha: não é mais mudar o regime, não é mais roubar seu petróleo, não é sequer ter domínio sobre Ormuz. É só evitar que o Irã tenha capacidade nuclear [coisa que podia fazer via diplomacia, segundo os jornais, e mantendo Ali Khamenei vivo], e destruir suas forças convencionais.



Essa redefinição já é uma primeira confissão de derrota para quem saiba colocar os pingos nos 'is'. E mesmo essa consecução limitada depende que os EUA consiga manter uma guerra de desgaste no Oriente Médio [já que a ofensiva fracassou]. Daí a necessidade de uma leitura sobre os fatores econômicos, psicológicos [morais], políticos e logísticos que tornariam os ianques aptos para o feito. E há boas razões pra duvidar.


Já o Irã definiu como objetivos a manutenção da integridade territorial, a sobrevivência do regime, e um status quo pós conflito que garanta a cessação das agressões ianques sionistas por tempo suficiente para que consiga se reindustrializar e rearmar. Para tanto escolheu uma guerra de atrito que depende de: i. evitar a supremacia aérea adversária; ii. controlar o Estreito de Ormuz; iii. ditar os termos da escalada militar.


O país está realizando seus objetivos? A resposta é um sonoro 'SIM' seguido de uma observação importante: vem cumprindo com brilhantismo.



O Irã sabia que precisaria de um consenso interno forte o suficiente para uma guerra de desgaste. O nacionalismo persa, o xiismo, o anti-imperialismo proporcionam esse consenso, ajudado pelos erros dos inimigos [assassinato de Khamenei e outras figuras; declarações desastrosas sobre roubo de petróleo, incentivo a conflitos étnicos e civis etc.].


Sabia que boa parte de sua infraestrutura industrial e convencional estaria a mercê do bombardeio ianque-sionista, principalmente nas primeiras fases do conflito, daí abandonar determinadas forças convencionais em prol da proteção de sua capacidade de agressão e a concentração da produção bélica em unidades ocultas em cavernas, túneis, bunkers em áreas de difícil acesso para a artilharia inimigo. A essa altura, quem acredita a sério na propaganda ianque e sionista sobre escassez de lançadores e mísseis na Guarda Revolucionária?


Sabe que para ditar a escalada militar depende da contínua capacidade de seus mísseis, de que seu inimigo não tenha dúvida da disposição iraniana para a retaliar na mesma medida, do poder de desestabilizar e ameaçar os vizinhos, e da manutenção de seu controle sobre o Estreito de Ormuz.




A partir daí, explora com maestria as limitações logísticas, econômicas e políticas do adversário -- incluindo as restrições ianque-sionistas em suas defesas aéreas --, se preparando para um esforço de muitos meses, que inclui o destemor por atraí-los para um combate naval em torno do Estreito e para um combate terrestre no Oriente Médio.


O cenário pode mudar, e os EUA conseguir uma ruptura decisiva que altere o veredito que vem sendo construído? Evidente, estamos falando da maior potência econômica e militar já vista. O conflito definitivamente ainda não terminou.


Mas com tudo o que aconteceu até o momento, com os horizontes criados até aqui, não há como avaliar de outra maneira.


NESTE MOMENTO, o correto é dizer que o Irã está vencendo a guerra.


terça-feira, 10 de março de 2026

O Poder Espiritual na História do Irã, ou: O Imam, o Rei e os Juristas-Clérigos

 Eu sou Ismāʿīl, vim ao mundo;

caminho sobre a terra como no céu;
os que não sabem me conhecerão:
eu sou ʿAlī, ʿAlī sou eu!

Eu sou a verdade divina; venho de Deus.
Sou um dos Doze Imames.
Os quatro cantos da terra eu ocupo.
Sou o mesmo que a onipotência de ʿAlī.

Muḥammad Muṣṭafā, selo dos profetas, chegou...

Meus imames Jaʿfar al-Ṣādiq e ʿAlī Mūsā al-Riḍā vieram.

[...]

O Eleito vestiu mil e uma vestes

e percorreu a terra.

Prostra-te! ...

Adão vestiu novas roupas;
Deus veio! Deus veio!

Eu sou idêntico a Deus...

Vem, olha agora para a verdade divina, ó homem cego e errante:

Eu sou a Causa Primeira Absoluta em movimento sobre a qual os homens falam!

Poemas do Xá Ismail



O conflito do Irã é bom para pensar uma das fragilidades mais evidentes dos estudos históricos, a minimização da agência de organizações religiosas.


Em geral, a religião é tratada como um subtema da História das Ideias, como expressão de fatores mais profundos de ordem social e econômica, discurso ideológico, ou como arcabouço cultural que exerce influência quase que em um plano inconsciente.


Mas a história contemporânea é incompreensível sem a agência programática de instituições espiritualistas, mesmo quando ela se dá de forma discreta. Estudar as revoluções burguesas e liberais sem levar em conta o espiritualismo e ocultismo europeu é perda de tempo. O secularismo é um discurso público voltado para as massas, elaborado em larga escala por elites religiosas/ocultistas que se sentem no dever de conduzir a sociedade.


O mesmo se dá com o Irã e sua particular conformação político-institucional. Ela não pode ser reduzida a uma ditadura pessoal, como muitos da mídia e o governo Trump imaginavam, nem suas origens se encontram em debates filosóficos universitários do século passado.


As raízes do poder shia no Irã remontam à intersecção entre ordens sufis tardo-medievais, a devoção aos Imames no Iraque, Pérsia e Centro da Ásia, e as tribos turcomanas que exerciam poder local com a gradual fragmentação do Império Mongol. As extensas redes de fiéis, seguidores e clientes das turuk rapidamente passaram por um processo de militarização, entrelaçamento com práticas e crenças xamânicas da Ásia Central, e finalmente com o desenvolvimento de um messianismo militante que, sob impulso dos Ghulat [os "exagerados", que acreditavam em formas de metempsicose e viam o Imam como "encarnação divina"], deificavam líderes carismáticos.



A mais bem sucedida organização do tipo é a tariqa Safavi, fundada em Ardabil no século XIII, mas reformulada por Haydar Safavi, que dizia ser descendente de Ali, em uma forma de gnosticismo armado fundamentado no fanatismo militante dos Qizilbash, confederações de tribos disciplinada segundo uma rígida crença messiânica.


Essa organização chega ao poder com Ismail I, um jovem de catorze anos que era venerado como Deus pelos Qizilbash. A nova monarquia se baseava fundamentalmente na sacralidade do Xá [o Monarca], considerado descendente de Ali e representante ["Sombra de Deus"] de Muhammad al-Madhi, o Imam Oculto.


O novo Estado passou por um processo de institucionalização e burocratização ao longo do século XVI, consolidando o poder de um clero que foi fundamental na conversão da população ao xiismo [até o início do século XVII, a Pérsia ainda era majoritariamente sunni]. Os Qizilbash foram domesticados, as turuk sufis explicitamente perseguidas. Na Era Moderna, o Islã contava com dois grandes Estados, cada um deles legitimado pelas correntes sunni e shia, o Califado Otomano e o Xá Persa.



Com o tempo, o poder dos ulemás cresceu sob o impacto das ideias metafísicas e jurídicas das escolas de Hillal e de Isfahan, que articulavam formas complexas de aristotelismo, neoplatonismo, e gnosticismo. Os conceitos de ijtihad e taqlid lhes dava direito de estabelecer definições religiosas vinculantes sobre temas importantes, em vez de se basearem apenas na tradição de decisões anteriores. Os ulemás logo reivindicaram o papel de intérpretes autorizados da lei divina, competindo com o Xá pela representação do Imam Oculto. Ocorria também uma hierarquização do clero, primeiro com a figura religiosa-militar do Sadr, criada pelo próprio Ismail I, em um processo de fortalecimento que vai desembocar no Marja al-Taqlid, o grande jurista, cujas fatwas vinculam toda a comunidade religiosa.


Esse desenvolvimento teve idas e vindas, mas a balança pendeu decisivamente para os juristas-clérigos com o fim dos Reis Safávidas no início do século XVIII. Depois do governo do Xá Nadir, e as guerras subsequentes, emergiu uma Dinastia que já não podia reivindicar descendência de Ali ibn Talib. O governante agora fazia o papel de um poder temporal cuja legitimação era a de guardião do xiismo duodecimano, não mais de voz na terra do Imam Oculto.


Embora a história seja mais longa e complexa do que a acima, a doutrina da Wilayat al-Faqih [no fundo, o governo do jurista], elaborada por Khomeini, pode ser vista como o desenlace dessa disputa nas condições específicas do século XX, em que se discutia restrições ao poder do Rei/Xá. Na ausência do Mahdi, e até seu retorno, o Estado é tutelado pelos mujtahid [o jurista-clérigo], em uma pirâmide de poder que culmina no Líder Supremo, agora não mais apenas intérprete da Lei, mas governante e delegado do Imam.

O Irã é um caso singular de articulação e disputa entre uma autoridade espiritual que se pretende poder temporal, e um poder temporal que tem origem na autoridade espiritual, mas modelado por um gnoscitismo militante oriundo de ordens místicas que permanecem nas sombras não tanto em função da sua discrição, mas da cegueira de autodeclarados especialistas cuja função é a de estudar as formações políticas. A História do Poder é, no fundo, a História da Religião.



domingo, 8 de março de 2026

O MITO PROTESTANTE DO "CÂNON DE SÃO JERÔNIMO"


Para justificar a novidade de seu Cânon, os evangélicos reivindicam São Jerônimo, muitos deles jurando que a tradução da Vulgata desse Santo Padre coincidia com o que eles pensavam das Escrituras.


Começando do princípio: As Escrituras Sagradas usadas pelos cristãos era a Septuaginta, que circulava em mais de uma versão. A Septuaginta não coincidia com o Cânon que os Rabinos consolidariam nos séculos II e III da Era Cristã, ela incluía outros textos, mais tarde chamados no Ocidente de "deuterocanônicos". Já os livros comuns à versão rabínica constavam na Septuaginta com variações muito importantes. Livros como o de Jeremias, Daniel, Ester são mais amplos em grego, e há divergências fundamentais, por exemplo, em obras da importância de Isaías.


As primeiras traduções da Septuaginta para o latim foram feitas ainda no século II. São conhecidas como "Vetus Latina", e circulavam em diferentes edições. Na verdade, a "Vetus Latina" é um conjunto de versões traduzidas diretamente da Septuaginta. Essas traduções se consolidaram nas leituras litúrgicas das Igrejas ''Ocidentais" a partir do século II.


O projeto de tradução conhecido como Vulgata era em princípio uma revisão dos Evangelhos. No fim do século IV, São Jerônimo começou esse trabalho corrigindo a Vetus Latina de acordo com o texto grego. Essa revisão abarcou APENAS os Evangelhos. Não incluiu Atos dos Apostolos, as cartas paulinas, as cartas católicas, ou Apocalipse. Gradualmente a iniciativa foi ampliada para o Velho Testamento. São Jerônimo se mudou para Belém para ter acesso a textos hebraicos que considerava mais confiáveis.


Entre os séculos II e V, a Igreja debateu qual seria a lista canônica fixa do NT e do VT. Cada Padre tinha sua posição a respeito. São Jerônimo também tinha sua opinião. Ele preferia seguir o cânon rabínico [Hebraica Veritas], mas com alguns nuances [que vou apontar mais adiante.]


Mas isso não significa que existia um "Cânon de São Jerônimo". No fim do século IV, justamente na época em que ele começou seu trabalho de revisão e tradução, Concílios realizados no Norte da África definiram uma lista canônica oficial para todas as Igrejas que deles participaram. Nos anos 390, a lista canônica das Igrejas do Ocidente [incluindo Roma] e do Norte da África [incluindo Alexandria] seguiam a Septuaginta e se afastava dos Rabinos.



Ou seja, a posição de São Jerônimo foi "derrotada" nos Concílios de Hipona, Cartago etc. Ele não se rebelou contra a decisão. Apesar de ter defendido a "Hebraica Veritas", O Bispo de Estridão aceitou o Sínodo e a prática litúrgica herdada da Septuaginta.

A prova disso é que ele incluiu todos esses livros na Vulgata, cuja tradução chegou ao fim por volta de 405 [mais de dez anos posterior ao Concílio de Cartago], e que citava os "deuterocanônicos" em comentários e cartas posteriores, os apresentando com o linguajar de Escrituras inspiradas.

Mas e os livros traduzidos por São Jerônimo na Vulgata, eles batem com o Cânon veterotestamentário dos protestantes?

NÃO.

É verdade que o trabalho de São Jerônimo comparava a Septuaginta com outras versões em grego, com versões da Vetus Latina, e com textos hebraicos. E que em larga medida usou manuscritos hebraicos em sua tradução do Pentateuco, Profetas, Livros Históricos e Sapienciais. Mas há exceções notáveis!

1) São Jerônimo revisou/traduziu os Salmos três vezes. A primeira, ainda em Roma, era apenas uma revisão da Vetus Latina, corrigindo-a segundo o grego [Septuaginta]. A segunda, nos anos iniciais da década de 390, quando ele já se encontrava em Belém, foi uma nova tradução a partir da Septuaginta, e que foi chamada de "Saltério Galicano". Foi esta tradução que predominou na Vulgata! A terceira versão de São Jerônimo, "Saltério segundo o Hebraico", nao foi adotada nem na Vulgata nem na prática litúrgica! Portanto, apesar de preferir o hebraico, a Vulgata de São Jerônimo transmitiu o Saltério a partir da Septuaginta [que tem distinções importantes em relação à versão massorética, tanto no texto quanto na contagem dos Salmos].

2) Há diferenças de texto e tamanho da versão em hebraico do Livro de Daniel para as versões que circulavam em grego [incluindo a Septuaginta]. Muitos chamam isso hoje de "adições a Daniel", como o Livro de Susana, Bel e o Dragão, a Oração de Azarias, o Cântico dos Três Jovens. Na verdade, eram partes integrantes da versão grega usada liturgicamente pelos cristãos. São Jerônimo decidiu traduzir a versão grega de Teodócio, que é ampliada, e não a hebraica [mais curta e que segue a versão rabínica].

3) São Jerônimo traduziu também o Livro de Tobias e Judite [dois "deuterocanônicos"] do aramaico.

4) São Jerônimo não traduziu mas revisou os demais "deuterocanônicos", ajustando o texto da Vetus Latina ao da Septuaginta.




Portanto, o trabalho de São Jerônimo seguia o Cânon estabelecido nos Concílios norte-africanos. Não existia um "cânon de São Jerônimo", e sim uma posição desse Padre no debate que ocorria.

As traduções proporcionadas por São Jerônimo tampouco se adequam inteiramente aos textos rabínicos. Se é verdade que preferia as versões hebraicas à grega, é VERDADE TAMBÉM que São Jerônimo sempre se subordinou antes ao USO LITÚRGICO do que às suas preferências pessoais. Daí o Saltério e o Livro de Daniel seguirem as versões gregas.

Por fim, a Vulgata de São Jerônimo não se tornou de uma hora para outra o texto comum das Igrejas do Ocidente. Ela continuou coexistindo com versões da Vetus Latina, algumas delas muito mais usadas em certas regiões. O prestígio e a difusão da Vulgata cresceu aos poucos, e de maneira desigual. Só se pode afirmar que ela ganhou predominância definitiva a partir do final do século VIII, já no período Carolíngeo, quando o texto passou por revisões que o uniformizaram. Mesmo assim, versões da Vetus Latina persistiram até o início do segundo milênio.

Tanto a Vulgata quanto a Vetus Latina circulavam segundo a lista canônica definida nos Concílios norte-africanos do século IV. É verdade que alguns poucos manuscritos apresentavam variações [oração a Manassés, por exemplo]. Mas NÃO se seguiu o cânon rabínico definido nos séculos II e III depois de Cristo. Não havia nenhum "Cânon de São Jerônimo".

Fim da mitologia protestante.


ps.: as discussões sobre o Cânon voltaram a esquentar no Ocidente com os movimentos de Reforma, no século XV. Muitos protestantes alegam que o "cânon não estava fechado porque os romanos estavam discutindo os livros antes de Trento". Sim, porque o movimento reformista começou DENTRO da Igreja Romana. Esse processo levou a uma ruptura, um cisma. Os reformadores, como Lutero, saíram de DENTRO da Igreja Romana. Se separaram dela e fundaram seus próprios movimentos. Daí porque Roma sentiu necessidade de "dogmatizar" seu cânon, primeiro em Florença-Ferrara, depois em Trento, como reação aos reformistas. Isso não significa que não existisse um cânon anterior definido por concílios e expresso no uso litúrgico comum.

pps.: As listas definidas nos concílios regionais, incluindo os norte-africanos, foram recebidas oficialmente no VI Concílio Ecumênico, mais especificamente nos cânones definidos em Trullo.


segunda-feira, 2 de março de 2026

O ISLÃ XIITA, O IRÃ, E O AYTOLLAH KHAMENEI

Muhammad al-Madhi, o Imã Oculto no xiismo duodecimano


Muitos acreditaram que os EUA tinham obtido uma vitória simbólica e até decisiva com o assassinato de Khamenei. A leitura da grande mídia, especialmente a brasileira, é a de que Trump teria um troféu para exibir internamente, e que o regime iraniano poderia sofrer alguma paralisação e até o colapso.


Essa é uma leitura absurdamente equivocada tanto em relação à real estrutura institucional no Irã como também sobre o Islã shia [xiita].
Não vou me estender nesse texto sobre a questão institucional. Basta apontar que Khamenei não era, como vendido pela mídia ocidental, um "autocrata". O Irã tem um regime altamente institucionalizado. Vou focar em certos princípios do xiismo que são difíceis para um ocidental médio entender.
O Santuário do Imã Hussein ibn Ali, erguido em Karbala, Iraque: centro de devoção e peregrinação xiita


Embora sejam todos muçulmanos, o Islã shia tem diferenças fundamentais para o sunni [sunita]. E a história dos shias é marcada pela perseguição e pela opressão promovida pelos próprios sunnis desde o assassinato de Ali, o quarto Califa [Sucessor], primo e genro do "Profeta" Mohammed, e marido de Fátima [filha do "Profeta" e figura feminina mais venerada no Islã, à frente até da Virgem Maria].
Ali ibn Talib não era apenas uma autoridade temporal para os shias. Ele era o Imã, a autoridade espiritual máxima, que tem o carisma da infalibilidade e da "impecabilidade", guiado diretamente por Deus, e guardião do caráter esotérico do Corão [o Livro Sagrado muçulmano]. Os Imãs são encarados praticamente como a corporificação da Luz Divina, e formam uma linhagem hereditária. O primogênito de Ali foi o segundo Imã e assim sucessivamente, dando continuidade, ainda segundo eles, à presença do conhecimento divino no mundo.
A questão é que todos os Imãs foram massacrados pelos sunnis [sunitas]. O acontecimento mais decisivo, nesse sentido, é a derrota de Hussein ibn Ali na batalha de Karbala diante das forças do Califa Yazid I. O assassinato de Hussein se deu no dia 10 de outubro de 680, e é rememorado pelos shias [xiitas] como o dia de Ashura.
Esse acontecimento não é apenas histórico para os shias. É encarado de modo muito mais profundo e abrangente, é uma Revelação da própria estrutura da realidade. O mundo está tomado pelo mal, inclusive o mundo sunni [sunita]. O mal age na perseguição e na opressão de todos os verdadeiros fiéis, que são seguidores do Imamato, os guias infalíveis que Deus deixou no mundo para manter o conhecimento esotérico do verdadeiro Islã.
Ashura, dia em que os xiitas rememoram que o mundo é dominado pelo mal, e que o fiel tem de lutar em nome da Verdade e da Justiça Divinas em todas as áreas, mesmo ao ponto do martírio


Como eu dizia, todos os Imãs foram assassinados pelos próprios sunnis. Os shias acreditam que o décimo segundo Imã, Muhammad al-Maddhi, escapou dessa morte. Ele passou pela "ocultação", que é explicada como a transposição para um "mundo intermediário" dentro da criação [mais ou menos como para alguns Enoque estaria no segundo céu, ou então oculto no Jardim do Éden]. O Imã Oculto guia os verdadeiros fiéis a partir dessa realidade e, ainda segundo o xiismo, vai retornar um dia para libertar o mundo da opressão e da injustiça, derrotando o Djjalal [figura similar à do anticristo no cristianismo].
Mas ninguém sabe qual o dia e a hora da Revelação do Imã Oculto, isso faz parte da escatologia, vai ocorrer no fim dos tempos. Até lá, o verdadeiro fiel tem a obrigação de buscar o conhecimento, o contato com o Imã Oculto, e lutar pela Verdade e pela Justiça em todos as áreas [inclusive a social e a política], mesmo ao ponto do martírio, que é a suprema glorificação, e que aconteceu com todos os Imãs anteriores ao décimo segundo.
Isso fez com o que o Islã shia se consolidasse como uma "espiritualidade sofredora". Eles dizem que "todo dia é Ashura, todo lugar é Karbala", significando que o mundo jaz no maligno, e que o fiel tem de ser resiliente até a morte em nome de Deus e da Justiça. É uma espiritualidade que mistura gnosticismo e neoplatonismo, e que repercute certo sentimento dos ascetas cristãos que buscavam o deserto proclamando "morte ao mundo" [claro que os shias fazem isso em prol de uma doutrina herética, estou analisando aqui de um ponto de vista de religião comparada].
Ruhollah Khomeini, epicentro da maior revolução religiosa do último século.

É a partir desse arcabouço que tem de ser analisado o impacto do assassinato de Khamenei. Para eles, o "martírio" de Khamenei ou de Nasrallah [líder do Hezbollah] é a seiva da própria espiritualidade shia. Morrer como os Imãs é visto por eles como a suprema glória. Eles vão lamentar, chorar, mas ao mesmo tempo se convencer de que a perseguição pelos poderes desse mundo prova que estão do lado correto, lutando pela Justiça em um mundo inteiramente dominado pela opressão e pela obscuridade.
Para cada iraniano de mentalidade ocidentalizada que comemora a morte de Khamenei, existem uns cem que leem o fato como a experiência da verdade de sua religião e de sua continuidade com a perseguição do Imamato e de seus fiéis pelos "poderes do mundo".
É impossível derrotar uma espiritualidade dessas pela multiplicação de "cruzes" [que no xiismo é um dos símbolos da opressão dos poderemos malignos sobre os enviados por Deus e seus fiéis].
Khamenei orando: sucessor de Khomeini como Líder Supremo foi responsável pela institucionalização do regime e também pela moderação da Guarda Revolucionária

É ingenuidade completa imaginar que se poderia derrotar o Irã com o assassinato de suas lideranças religiosas. Isso é mais ou menos como um César Romano da Antiguidade acreditar que poderia conter o cristianismo torturando e matando um santo da antiguidade. [Mais uma vez, a comparação aqui se dá no campo da fenomenologia da religião.]
A liderança iraniana não é moldada por paradigmas iluministas. Eles não são "ocidentais", que leem o mundo por meio de uma ótica secular. Para eles, o Islã não é uma questão de ir à igreja no fim de semana. Não é mero conservadorismo moral. É toda uma forma de olhar para a realidade que é pré-iluminista. E mais do que isso, é anti-iluminista. Naquele mundo, a religião [seja ela falsa ou verdadeira, não é esse o ponto] ainda não foi derrotada como cosmovisão de governo.
Quem quiser entender de modo mais "popularesco" essa espiritualidade deveria ver o filme Duna, de Villeneuve, ou melhor ainda: ler o livro de Frank Herbert.


Shias em luto por Khamenei em Teerão