segunda-feira, 19 de outubro de 2026

OS LIMITES DO UDENISMO À DIREITA E À ESQUERDA, ou: como a nova direita desaguou em Flávio Bolsonaro

"Uma péssima notícia para os udenistas: Flávio Bolsonaro é a Alerj no poder."





Não deixa de ser engraçado ver a direita tão mobilizada para eleger Flávio Bolsonaro. Esse campo ressurgiu em 2014/15 carregando o mesmo "udenismo" de décadas passadas: um forte sentimento moralista e anti-corrupção contra políticos cleptomaníacos entricheirados no Estado.




O udenismo é o elo que amarrava a velha e a nova direita, um veículo permanente do inconformismo tanto da classe média tradicional quanto de uma classe média surgida da industrialização.

Se formos mais a fundo, o udenismo atravessa também outros campos políticos: o próprio PT se baseava nesse pathos. Nos anos 1980 e 1990, a legenda cresceu com o discurso da ética na política, da mudança de práticas, do partido de trabalhadores não só limpo como militante contra as chagas de uma elite patrimonialista. A leitura petista trazia as marcas da sociologia de Raimundo Faoro.



O petismo se desvencilhou do udenismo por conta dos escândalos do primeiro mandato de Lula. O Mensalão jogou por terra a imagem do "partido da ética", e a turma da estrelinha nunca mais recuperou a aura. Eles perderam o apoio da classe média udenista com culpa burguesa [uma fatia esquerdista da classe média], do proletariado ascendente, e adquiriu feições muito mais populistas, outra ironia histórica.

Voltando à direita, o lavajatismo nada mais era que um udenismo de toga, herdeiro de certa postura 'tenentista'. Não há símbolo maior dessa ala do que espíritas [kardecistas] acreditando que Sérgio Moro era reencarnação de Emanuel.



Acontece que o udenismo não é a totalidade da direita, e é mais eficiente para destruir estruturas e desestabilizar governos do que para se consolidar de forma programática e propositiva. É muito difícil ao udenismo sobreviver à experiência do poder, que é sempre realizada em adequação com elites que são a coluna vertebral das hierarquias sociais, e com instituições seculares que são os fundamentos da nação organizada.

Se é possível evocar dois outros símbolos da insuficiência do udenismo, lembremos de Jânio Quadros e Collor. O primeiro era a "vassourinha" que limparia o Brasil da roubalheira e das imoralidades, fosse criando o ponto para funcionários públicos ou proibindo biquínis nas praias. Durou meses no poder, e foi tão exótico e delirante que hoje ficamos surpresos com o tamanho do mito criado em torno de algo com tão pouca substância, como era o político Jânio Quadros.



Já Fernando Collor trazia outras marcas. Era herdeiro de uma antiga oligarquia política, e um dos grandes oradores do país. Existia algo de messiânico em torno de sua figura, trabalhada nos detalhes para ser misto de juventude, heroísmo, coragem. Collor era o "caçador de marajás" e o ungido do então "todo poderoso" Roberto Marinho. Mas não teria vicejado caso não tivesse uma verve populista vibrante. Obviamente, seu governo se esfacelou por falta de base parlamentar, o mesmo problema que angustiava Jânio e o levou à tentativa de um golpe bonapartista.

O udenismo não é páreo para o populismo. Uso este último termo de forma técnica, e não pejorativa, me referindo a lideranças carismáticas que mobilizam as massas em torno de uma abordagem maniqueísta da sociedade e encarnam pessoalmente todo uma confluência de elementos da cultura e história política das classes que representam.



O udenismo pode até se associar ao populismo, mas não sobrevive contra ele, uma lição que a realidade ensinou ao PT -- e quem não se deixou convencer abandonou o barco em prol de novos purismos [o PSOL, por exemplo]. O partido da estrelinha há tempos gravita em torno do fenômeno populista do lulismo.

Pois bem, a nova direita, que nasceu impulsionada pela udenismo, mergulhou no bolsonarismo. Jair nunca foi um personagem udenista, ele é membro do baixo clero, e construiu sua carreira como um tipo de 'sindicalista' ou representante corporativo dos baixos escalões do Exército. Era o sujeito que defendia os direitos e as remunerações de cabos, sargentos e tenentes, que até os anos 1990 eram muito baixas.



Mas os udenistas se abraçaram a Jair na tentativa de influenciá-lo. Não foram os únicos, os generais-políticos, os intervencionistas, as olavetes, e até mesmo Paulo Guedes imaginaram a mesma coisa. Depositaram as fichas em um fenômeno muito antigo da política brasileira, representado por uma personagem oriundo do velho nacionalismo anti-trabalhista do regime civil militar.

E aí chegamos a Flávio, que entrou na política por inspiração do pai, e reproduzindo o mesmíssimo viés ideológico, mas com temperamento e carreira muito distintas. Flávio é não só um homem marcadamente do "centrão", e herdeiro de uma nova oligarquia política, como alavancou seu eleitorado em torno das polícias militares, especialmente o fenômeno das milícias no Rio de Janeiro.





Jair Bolsonaro não é, ele próprio, oriundo desse círculo. Podemos até vinculá-lo aos porões do regime civil-militar, toda aquela podridão que fazia cm que escalões médios das Forças Armadas chamassem Ustra, um torturador de mulheres, de ''heroi anticomunista". Mas a carreira partidária de Bolsonaro se fundamentava nos votos de militares subalternos: era um voto corporativista, de representação de categoria, obedecendo a uma lógica econômica e marcadamente de "classe profissional". Não era voto ideológico, ainda que o pouco apreço de Bolsonaro pelo regime democrático fosse conhecido desde seu primeiro mandato em Brasília.

A proximidade do bolsonarismo com o fenômeno rasteiro, criminoso e degradante das milícias vem a partir da ascensão de Flávio. Este sim um parlamentar sem biografia no Exército, mas que surfou o caos de segurança pública fluminense durante os anos de Sérgio Cabral.



Flávio conquista a vaga de deputado estadual na mesma eleição que entregou o primeiro mandato de Presidente a Lula. Foi carregado para a Alerj pelo nome do pai, muito forte entre ativos e inativos do Exército: a cidade do Rio de Janeiro concentra um quarto dos militares do Exército de todo o país. Mas elaborou uma estratégia de "complementaridade" do legado familiar, investindo na construção de uma base eleitoral entre as polícias. Vem daí suas iniciativas de condecoração de Adriano da Nóbrega e sua aproximação com o que mais tarde se tornou o submundo das milícias cariocas.

Não significa que Flávio seja ele próprio miliciano, óbvio que não, e sim que se tornou representante de uma categoria de segurança fortemente corrompida pelo fenômeno das milícias, com os quais ele tentou compactuar durante seus três primeiros mandatos, e para os quais arrastou em certa medida o pai.



Ainda que Flávio tenha afastado sua imagem desse meio, principalmente depois que Jair alcançou projeção nacional como aríete do antipetismo e do anti-identitarismo, esse passado está marcado em sua testa, e é boa parte de sua biografia político-eleitoral. Além disso, ele é também o sujeito dos "pequenos esquemas", dos "rolos" típicos da Alerj e do baixo clero do Centrão. Não há qualquer coluna vertebral ideológica própria que não seja parasitismo do carisma muito mais genuíno do pai.

Sérgio Moro e Deltan Dallagnol apoiam Flávio Bolsonaro para Presidente. No caso, é por sobrevivência política e hipocrisia óbvia, pois é impossível que eles não saibam quem é Flávio, o menos ideológico e mais carreirista dos filhos de Bolsonaro.

Mas e o eleitorado udenista? Talvez esteja fazendo como o eleitor intervencionista, ou mesmo o liberal. Quieto, algo envergonhado, constrangido: e ainda assim cravando 22 nas urnas por conta do antipetismo.