segunda-feira, 6 de abril de 2026

OS PIROMANÍACOS E O FIM DO NOSSO MUNDO

"Quem é o escravo fiel e sensato, que o senhor pôs à frente da sua criadagem para que lhes desse de comer à hora própria? Feliz é aquele escravo a quem o Senhor, chegando, encontrará procedendo assim. Em verdade vos digo que o porá à frente de todos os seus bens. Mas se o mau escravo disser no seu próprio coração, 'o meu senhor está demorando', e começar a bater nos seus colegas escravos, a comer e a beber com os embriagados, virá o senhor desse escravo no dia em que ele não o espera e à hora que ele desconhece; e ira cortá-lo ao meio e dar-lhe um lugar com os hipócritas. Ali haverá choro e ranger de dentes."

Evangelho de Nosso Senhor, Deus e Salvador Jesus Cristo segundo o Glorioso Apóstolo e Evangelista São Mateus, capítulo 24, versículos 45 a 51



O piloto do F-15 abatido era uma isca para os dois lados. Não sei se foi de fato resgatado, e se falamos só de um ou dois pilotos. Mas é quase que irrelevante para a dinâmica da guerra. O evento proporcionou aos EUA a tentativa de infiltrar tropas especiais no Irã com apoio do poder aéreo. Eis seu caráter mais fundamental, e também seu maior fracasso.


O Irã mobilizou a população e o sistema de defesa contra a operação "de resgaste". Há denúncias de que os ianques abriram fogo contra a população civil, e que bombardearam suas próprias tropas em solo. O fato nu e cru é que tiveram a dimensão do quão custosa seria uma invasão desse tipo.

Definitivamente, não veríamos nada parecido com uma nova Venezuela.

Os ianques podem insistir, mas aí estamos falando de meses e meses de conflito, que impactariam a economia mundial, levando-a ao colapso, demoliria o MAGA, e levaria à derrota nas midterms.

Como Trump é muito mal aconselhado, é possível que enverede por essa estrada. Mas há outros cenário possíveis, todos muito ruins em escala crescente. Tudo depende do poder dos Piromaníacos, cujo maior símbolo é Pete Hegseth e sua trupe de evangélicos aceleracionistas, cuja missão é tornar o mundo aprazível para o anticristo, imaginando com isso forçar o retorno de Jesus.

Restam duas opções para Trump, além da invasão por terra. Ambas terminam em desastre, mas em níveis diferentes.

A primeira, é tornar público que aceita de alguma maneira as condições do Irã. Pelo menos a principal delas: o controle do Estreito de Ormuz. E que vai pressionar Israel para sair da guerra e do Líbano. Digo tornar público porque o Irã cortou todas as negociações mediadas com os EUA. Isso quer dizer que os ianques já não podem mais fingir que venceram, dar as costas fazendo alguma dancinha, e irem embora. Essa janela de oportunidade já se fechou há pelo menos uma semana.

Desnecessário detalhar o custo político de uma admissão tão grande de derrota. Seria desastroso para Trump internamente. Seria pior ainda para os EUA externamente. E, no entanto, essa seria a opção menos deletéria, menos traumática.

Se os Piromaníacos tiverem força o suficiente na Casa Branca, como parece que tem no Pentágono, não será essa a escolha imediata. Seria contar com uma racionalidade diferente daquela da Piromania apocalíptica dos aceleracionistas evangélicos. Mas retornarei a essa casa do tabuleiro, então é necessário tê-la em mente nos parágrafos abaixo. Vou chamá-la de OPÇÃO 1.

A segunda via é cumprir a promessa de "Choque e Pavor". Utilizar a capacidade que a Coalizão dos Piromaníacos ainda tem na região para destruir as usinas elétricas do Irã, seu complexo petroquímico, a infraestrutura crítica, pontes e estruturas civis de todos os tipos, a fim de passar o recado nu e cru de que "estamos levando vocês de volta à Idade da Pedra".

Óbvio que seria um abraço, para o mundo todo ver pela TV e redes sociais, a crimes de guerra bárbaros. Mas estamos falando do Ocidente, que assistiu o genocídio de Gaza sem fazer absolutamente nada, a não ser algumas lágrimas de crocodilo de intelectuais e jornalistas "progressistas" que juram serem capazes de civilizar o mundo.

Estamos falando de Israel, um país que já nasceu errado, roubando terras, associado ao imperialismo britânico, e praticando limpezas étnicas [Nakba]. Um país que tem uma condecoração homenageando o Grupo Lehi, organização considerada terrorista pelos britânicos e que tentou se aliar à Alemanha Nazista em plenos anos 1940. Um país que nesse exato momento está praticando mais uma limpeza étnica sem que o tal Ocidente, "campeão do humanitarismo", tenha coragem para fazer algo a respeito, a não ser meia dúzia de muxoxos acompanhados de ressalvas repugnantes.

Então, o Choque e Pavor é possível, ainda mais depois de um expurgo que deixou as Forças Armadas de quatro para Pete Hegseth, símbolo máximo da Piromania ianque.

As consequências seriam óbvias: o Irã cumpriria a promessa de fazer o mesmo com o GCC. O país já deu mostras nos últimos dias de que retaliaria à altura. Atacou usinas de energia, poços de petroleo, complexo petroquímico, indústrias químicas etc. É ingênuo imaginar que a Guarda Revolucionária entrou nessa sem a convicção de que precisaria ir às últimas consequências. Eles falam sério, e o erro crasso da cúpula ianque é não ter entendido isso de modo pleno. Ainda não entenderam que estão lidando com shias, que preferem o martírio à compactuarem com a injustiça. É claro que o nacionalismo persa quer que o país sobreviva, mas sem o elemento shia, é impossível entender o conflito. Desde os primeiros dias aviso que o Irã não vai deixar Israel vencer.

Enfim, essa via levaria a um choque econômico brutal, uma recessão que tem tudo para ser a maior do pós II Guerra Mundial, maior até que os choques de petróleo dos anos 1970. A ordem econômica global seria transformada, e os EUA e seus aliados [Europa Ocidental, Japão e Coreia do Sul] estariam no centro da debaclé.

O abismo se completaria pelo fato de que o Irã não se renderia, não reabriria Ormuz, e continuaria com sua capacidade balística operante. Ou seja, os EUA incendiaria o mundo, e não resolveria o problema. Estaria com o mesmo pepino nas mãos, e teria de voltar à Opção 1, aquela que implica em uma admissão de derrota.

Existe uma terceira vereda, praticamente um agravamento da segunda, que preferi não listar de início, mas que é importante mencionar, já que estamos lidando com psicopatas como Pete Hegseth e Benjamin Netanyahu. Ela consiste em provocar uma acidente nuclear na usina de Busherh.

Há sinais de que essa carta é considerada pela Coalizão dos `Piromaníacos. Dias atrás, Busherh foi atacada pela quarta vez, sofrendo um impacto direto, devidamente denunciado pelo Irã.

Um acidente desse tipo afetaria todo o Golfo, e levaria também à destruição econômica já descrita. Seria uma crime inominável, óbvio, mas estamos falando do país que tacou bomba atômica em Nagasaki e Hiroshima, e que usou o 'agente laranja' contra os vietnamitas.

Evidente que diante desse horror máximo, o Irã retaliaria em instalações nucleares israelenses, a essa altura todas mapeadas, a começar por Dimona, tornando a vida em Israel impossível, e espalhando o desastre radioativo para o Mediterrâneo Oriental e parte do Norte da África.

E depois disso tudo voltaríamos à primeira opção, porque a terra desceu ao Inferno, mas o Estreito estaria fechado, o Irã atirando mísseis, e o mundo financeiro comandado pelo dólar em cacos.

O capítulo final viria de uma possível reação sionista: o uso de bombas nucleares em resposta aos acidentes nucleares em seu território. Uma hipótese provável se chegarmos a esse ponto de não-retorno.

Bom, aí saberíamos se o Irã tem ou não a famosa bomba atômica. Se tiverem, vão dizimar todo o Oriente Médio. Se não tiverem, vão tornar a vida no Oriente Médio impossível de outras formas, ou escalando a retaliação em instalações nucleares, usando bombas sujas, ou detonando todas as usinas de dessalinização [há toda uma gama de possibilidades].

E depois do apocalipse, a opção número 1, que implicaria admitir a derrota ainda que de foram tácita, não teria mais sentido. E portanto a Coalizão dos Piromaníacos não precisaria tomá-la. A essa altura, saberíamos se Cristo retornaria, e caso aconteça, como o Senhor julgaria todos nós, incluindo a Coalizão dos Piromaníacos

sábado, 4 de abril de 2026

OS LIMITES DA "RENOVATIO IMPERII" TRUMPISTA


Não há um grande plano por trás das intenções de Trump. A guerra contra o Irã não foi um passo calculado, parte de uma estratégia maior. Não se pode nem chamá-lo de traidor da própria Pátria, ou considerá-lo um aceleracionista que, por alguma crença qualquer, deseja impulsionar o declínio do Império ianque.


A verdade é que Trump não sabia o que estava fazendo. Ele percebeu de modo equivocado a situação, foi enganado por assessores sionistas, falcões de Washington, e desmiolados do nacionalismo evangélico.


Se fosse um aceleracionista, não daria tantos e tantos sinais de que deseja sair do imbróglio. As ameaças, o bombardeio de complexos petroquímicos, o ataque desenfreado a alvos civis, bem como a extensão de prazos [a quantas anda agora a contagem de dias que ele deu ao Irã, alguém lembra?], a insistência na busca de intermediários, a busca por responsabilizar a OTAN, a mudança de objetivos estratégicos em meio a campanha; tudo isso, repito, apontam um governante afobado, doido para colocar fim ao pesadelo.


Trump percebeu que cometeu um erro político grave.


O mesmo se aplica à tese de que suas ações se explicam apenas por conta da chantagem dos Arquivos Epstein. Não que seja impossível em algum grau, afinal a rede de espionagem de Epstein servia exatamente a esses propósitos. Mas é simplista reduzir Trump a um boneco de ventríloquo, agindo contra seus interesses, projetos e vontade. E não se adequaria ao cenário de busca desenfreada por sair do atoleiro.


O erro tem consequências, nem todas elas previstas pelo agente que tomou as decisões que desencadearam o processo. O capital político de Trump vai ser abalado, mas vai alimentar ainda mais a direita radical ianque. A responsabilização do lobby sionista está a pleno vapor. A base do MAGA já tem toda a narrativa em mãos para explicar a situação e usá-la a seu favor.


Além disso, o erro de Trump vai acelerar a debaclé do poder estadunidense, e agora naquela vantagem que era até então incontrastável. Quando se olhava para os EUA, eram nítidos os problemas econômicos, sociais, políticos e ideológicos. Mas não se podia contestar sua imensa superioridade militar.


Esse é o maior legado do conflito atual: expor para o mundo os limites do potencial bélico dos EUA, cujas doutrinas são inadequadas para um conflito assimétrico, despreparadas para a era dos drones, e com gargalos imensos no custo e na produção de seus poderosos artefatos de destruição.


Os EUA teria de reajustar sua pesadíssima máquina militar para os novos tempos, mas isso demanda tempo e desgaste político. Mexer no setor é como atiçar o maior dos vespeiros. O complexo industrial-militar ianque é trespassado não só por todo o tipo de interesse político e econômico, envolvendo máfias pesadas com articulações profundas com o aparato do Estado, mas também com esquemas bilionários de corrupção que, certamente, envolvem redes transnacionais.


Ainda que se consiga mover esse Iceberg sem ser engolido por ele, o reajuste implicaria em um redimensionamento da abrangência imperial. Os EUA teria de cortar alguns dedos para manter as mãos.


Quando da eleição de Trump, publiquei em meu blog artigo explicando que os EUA entrava em seu período cesarista, de concentração interna de poderes e abandono de boa parte das aparências democráticas e liberais, e ao mesmo tempo de expansionismo imperialismo bruto para compensar a decadência de suas próprias bases materiais de atuação.


Para continuar a analogia com o Império Romano, é como se a Renovatio Imperii tivesse batido no teto. Depois das migrações germânicas, que demoliram o poder romano no Mediterrâneo Ocidental, as elites imperiais desenvolveram um projeto de restauração territorial [e ideológica] em um novo período expansionista ao longo do século VI, nos reinados de Justino I e Justiniano I. Ao longo de três gerações, os romanos reconquistaram o norte da África, a Itália e recolocaram os pés na Península Ibérica. Mas o projeto foi impactado pela invasão da Itália pelos lombardos, e a crescente independência dos eslavos nos Bálcãs no último terço daquele século.


O "teto" da Renovatio anunciou a crise que iria estourar décadas mais tardes, um período de retração que só foi estabilizado quando o Império mudou de base, de identidade e de meios de intervenção. O Império Romano do século IX ["Império Bizantino"] se organizava em torno de um núcleo territorial mais enxuto [não mais todo o Mediterrâneo], com recursos fiscais e comerciais muito mais exíguos, apostando na sofisticação diplomática e na capacidade de influência civilizacional e religiosa mais do que no expansionismo militar "universal".


Em um médio prazo, e dentro dos limites da analogia, a derrota estratégica no Irã será para os EUA como a catastrófica chegada dos exércitos de Alboíno à Itália em 568, e a fundação do Regnum Langobardorum de Pávia. Trombetas apocalípticas, anunciando o fim do sonho de estabilizar de novo o Mediterrâneo como o mare nostrum romano.

sábado, 21 de março de 2026

QUARTA SEMANA DE GUERRA: QUEM ESTÁ VENCENDO POR ENQUANTO?



A ciência da guerra a encara de forma tripartite, coordenando os aspectos tático, operacional e estratégico. Desde Clausewitz existem delimitações entre as táticas militares e a guerra enquanto fenômeno estratégico [de natureza política].


O soviético Aleksandr Svechin enfatizou a dimensão operacional [articulação das batalhas em uma campanha visando destruir a capacidade militar inimiga], mas a subordinou definitivamente à estratégia fazendo uma reformulação importante em Clausewitz.


O prussiano [e a maior parte da doutrina soviética até a II Guerra Mundial] concebia a guerra como ofensividade máxima e batalhas decisivas. Svechin apontou, a partir de uma leitura da I GM, que a estratégia variava de acordo com o tipo de conflito que o poder político escolhia.


E a escolha podia ser por uma guerra de desgaste.


Dizendo de modo simples, a vitória depende do tipo de combate escolhido. O país define quais são seus objetivos políticos. Depois o tipo de guerra que considera mais apropriado para conquistá-los, e por fim prepara a base econômico-social e militar-política para sustentar o esforço ao longo do vetor tempo [que ganha mais importância se a decisão for pelo atrito].



Nesse sentido, não adianta fazer campanhas magníficas [nível operacional] se elas estão desarticuladas com a escolha do tipo de confronto e com os objetivos políticos [estratégia]. A vitória depende desse contexto amplo, e não de uma continha boba sobre quem vence mais batalhas ou destrói mais tanques. Se a campanha não for estrategicamente útil, então ela perde sua razão de ser, já que é meio e não fim.


Se aplicarmos esses conceitos ao que ocorre no Oriente Médio, o cenário ianque é o seguinte [não vou falar agora dos objetivos israelenses, que são mais amplos]:


A estratégia definida era a queda da República Islâmica a partir da destruição do aparato repressivo, a revolta da população contra o regime, o estabelecimento de lideranças dóceis aos EUA, o domínio dos recursos petrolíferos do país. O tipo de guerra era maximamente ofensiva, conduzida pelo poder aéreo, e decidida rapidamente pela destruição moral do inimigo, e pela incapacitação de suas forças convencionais [força aérea e naval].


Os EUA realizou seus objetivos? A resposta é um sonoro ''NÃO''.


A estratégia fracassou de modo tão completo que deixou a liderança ianque baratinada, como se não tivesse escopos claros. Trump busca agora redefinir a estratégia no meio da campanha: não é mais mudar o regime, não é mais roubar seu petróleo, não é sequer ter domínio sobre Ormuz. É só evitar que o Irã tenha capacidade nuclear [coisa que podia fazer via diplomacia, segundo os jornais, e mantendo Ali Khamenei vivo], e destruir suas forças convencionais.



Essa redefinição já é uma primeira confissão de derrota para quem saiba colocar os pingos nos 'is'. E mesmo essa consecução limitada depende que os EUA consiga manter uma guerra de desgaste no Oriente Médio [já que a ofensiva fracassou]. Daí a necessidade de uma leitura sobre os fatores econômicos, psicológicos [morais], políticos e logísticos que tornariam os ianques aptos para o feito. E há boas razões pra duvidar.


Já o Irã definiu como objetivos a manutenção da integridade territorial, a sobrevivência do regime, e um status quo pós conflito que garanta a cessação das agressões ianques sionistas por tempo suficiente para que consiga se reindustrializar e rearmar. Para tanto escolheu uma guerra de atrito que depende de: i. evitar a supremacia aérea adversária; ii. controlar o Estreito de Ormuz; iii. ditar os termos da escalada militar.


O país está realizando seus objetivos? A resposta é um sonoro 'SIM' seguido de uma observação importante: vem cumprindo com brilhantismo.



O Irã sabia que precisaria de um consenso interno forte o suficiente para uma guerra de desgaste. O nacionalismo persa, o xiismo, o anti-imperialismo proporcionam esse consenso, ajudado pelos erros dos inimigos [assassinato de Khamenei e outras figuras; declarações desastrosas sobre roubo de petróleo, incentivo a conflitos étnicos e civis etc.].


Sabia que boa parte de sua infraestrutura industrial e convencional estaria a mercê do bombardeio ianque-sionista, principalmente nas primeiras fases do conflito, daí abandonar determinadas forças convencionais em prol da proteção de sua capacidade de agressão e a concentração da produção bélica em unidades ocultas em cavernas, túneis, bunkers em áreas de difícil acesso para a artilharia inimigo. A essa altura, quem acredita a sério na propaganda ianque e sionista sobre escassez de lançadores e mísseis na Guarda Revolucionária?


Sabe que para ditar a escalada militar depende da contínua capacidade de seus mísseis, de que seu inimigo não tenha dúvida da disposição iraniana para a retaliar na mesma medida, do poder de desestabilizar e ameaçar os vizinhos, e da manutenção de seu controle sobre o Estreito de Ormuz.




A partir daí, explora com maestria as limitações logísticas, econômicas e políticas do adversário -- incluindo as restrições ianque-sionistas em suas defesas aéreas --, se preparando para um esforço de muitos meses, que inclui o destemor por atraí-los para um combate naval em torno do Estreito e para um combate terrestre no Oriente Médio.


O cenário pode mudar, e os EUA conseguir uma ruptura decisiva que altere o veredito que vem sendo construído? Evidente, estamos falando da maior potência econômica e militar já vista. O conflito definitivamente ainda não terminou.


Mas com tudo o que aconteceu até o momento, com os horizontes criados até aqui, não há como avaliar de outra maneira.


NESTE MOMENTO, o correto é dizer que o Irã está vencendo a guerra.


terça-feira, 10 de março de 2026

O Poder Espiritual na História do Irã, ou: O Imam, o Rei e os Juristas-Clérigos

 Eu sou Ismāʿīl, vim ao mundo;

caminho sobre a terra como no céu;
os que não sabem me conhecerão:
eu sou ʿAlī, ʿAlī sou eu!

Eu sou a verdade divina; venho de Deus.
Sou um dos Doze Imames.
Os quatro cantos da terra eu ocupo.
Sou o mesmo que a onipotência de ʿAlī.

Muḥammad Muṣṭafā, selo dos profetas, chegou...

Meus imames Jaʿfar al-Ṣādiq e ʿAlī Mūsā al-Riḍā vieram.

[...]

O Eleito vestiu mil e uma vestes

e percorreu a terra.

Prostra-te! ...

Adão vestiu novas roupas;
Deus veio! Deus veio!

Eu sou idêntico a Deus...

Vem, olha agora para a verdade divina, ó homem cego e errante:

Eu sou a Causa Primeira Absoluta em movimento sobre a qual os homens falam!

Poemas do Xá Ismail



O conflito do Irã é bom para pensar uma das fragilidades mais evidentes dos estudos históricos, a minimização da agência de organizações religiosas.


Em geral, a religião é tratada como um subtema da História das Ideias, como expressão de fatores mais profundos de ordem social e econômica, discurso ideológico, ou como arcabouço cultural que exerce influência quase que em um plano inconsciente.


Mas a história contemporânea é incompreensível sem a agência programática de instituições espiritualistas, mesmo quando ela se dá de forma discreta. Estudar as revoluções burguesas e liberais sem levar em conta o espiritualismo e ocultismo europeu é perda de tempo. O secularismo é um discurso público voltado para as massas, elaborado em larga escala por elites religiosas/ocultistas que se sentem no dever de conduzir a sociedade.


O mesmo se dá com o Irã e sua particular conformação político-institucional. Ela não pode ser reduzida a uma ditadura pessoal, como muitos da mídia e o governo Trump imaginavam, nem suas origens se encontram em debates filosóficos universitários do século passado.


As raízes do poder shia no Irã remontam à intersecção entre ordens sufis tardo-medievais, a devoção aos Imames no Iraque, Pérsia e Centro da Ásia, e as tribos turcomanas que exerciam poder local com a gradual fragmentação do Império Mongol. As extensas redes de fiéis, seguidores e clientes das turuk rapidamente passaram por um processo de militarização, entrelaçamento com práticas e crenças xamânicas da Ásia Central, e finalmente com o desenvolvimento de um messianismo militante que, sob impulso dos Ghulat [os "exagerados", que acreditavam em formas de metempsicose e viam o Imam como "encarnação divina"], deificavam líderes carismáticos.



A mais bem sucedida organização do tipo é a tariqa Safavi, fundada em Ardabil no século XIII, mas reformulada por Haydar Safavi, que dizia ser descendente de Ali, em uma forma de gnosticismo armado fundamentado no fanatismo militante dos Qizilbash, confederações de tribos disciplinada segundo uma rígida crença messiânica.


Essa organização chega ao poder com Ismail I, um jovem de catorze anos que era venerado como Deus pelos Qizilbash. A nova monarquia se baseava fundamentalmente na sacralidade do Xá [o Monarca], considerado descendente de Ali e representante ["Sombra de Deus"] de Muhammad al-Madhi, o Imam Oculto.


O novo Estado passou por um processo de institucionalização e burocratização ao longo do século XVI, consolidando o poder de um clero que foi fundamental na conversão da população ao xiismo [até o início do século XVII, a Pérsia ainda era majoritariamente sunni]. Os Qizilbash foram domesticados, as turuk sufis explicitamente perseguidas. Na Era Moderna, o Islã contava com dois grandes Estados, cada um deles legitimado pelas correntes sunni e shia, o Califado Otomano e o Xá Persa.



Com o tempo, o poder dos ulemás cresceu sob o impacto das ideias metafísicas e jurídicas das escolas de Hillal e de Isfahan, que articulavam formas complexas de aristotelismo, neoplatonismo, e gnosticismo. Os conceitos de ijtihad e taqlid lhes dava direito de estabelecer definições religiosas vinculantes sobre temas importantes, em vez de se basearem apenas na tradição de decisões anteriores. Os ulemás logo reivindicaram o papel de intérpretes autorizados da lei divina, competindo com o Xá pela representação do Imam Oculto. Ocorria também uma hierarquização do clero, primeiro com a figura religiosa-militar do Sadr, criada pelo próprio Ismail I, em um processo de fortalecimento que vai desembocar no Marja al-Taqlid, o grande jurista, cujas fatwas vinculam toda a comunidade religiosa.


Esse desenvolvimento teve idas e vindas, mas a balança pendeu decisivamente para os juristas-clérigos com o fim dos Reis Safávidas no início do século XVIII. Depois do governo do Xá Nadir, e as guerras subsequentes, emergiu uma Dinastia que já não podia reivindicar descendência de Ali ibn Talib. O governante agora fazia o papel de um poder temporal cuja legitimação era a de guardião do xiismo duodecimano, não mais de voz na terra do Imam Oculto.


Embora a história seja mais longa e complexa do que a acima, a doutrina da Wilayat al-Faqih [no fundo, o governo do jurista], elaborada por Khomeini, pode ser vista como o desenlace dessa disputa nas condições específicas do século XX, em que se discutia restrições ao poder do Rei/Xá. Na ausência do Mahdi, e até seu retorno, o Estado é tutelado pelos mujtahid [o jurista-clérigo], em uma pirâmide de poder que culmina no Líder Supremo, agora não mais apenas intérprete da Lei, mas governante e delegado do Imam.

O Irã é um caso singular de articulação e disputa entre uma autoridade espiritual que se pretende poder temporal, e um poder temporal que tem origem na autoridade espiritual, mas modelado por um gnoscitismo militante oriundo de ordens místicas que permanecem nas sombras não tanto em função da sua discrição, mas da cegueira de autodeclarados especialistas cuja função é a de estudar as formações políticas. A História do Poder é, no fundo, a História da Religião.



domingo, 8 de março de 2026

O MITO PROTESTANTE DO "CÂNON DE SÃO JERÔNIMO"


Para justificar a novidade de seu Cânon, os evangélicos reivindicam São Jerônimo, muitos deles jurando que a tradução da Vulgata desse Santo Padre coincidia com o que eles pensavam das Escrituras.


Começando do princípio: As Escrituras Sagradas usadas pelos cristãos era a Septuaginta, que circulava em mais de uma versão. A Septuaginta não coincidia com o Cânon que os Rabinos consolidariam nos séculos II e III da Era Cristã, ela incluía outros textos, mais tarde chamados no Ocidente de "deuterocanônicos". Já os livros comuns à versão rabínica constavam na Septuaginta com variações muito importantes. Livros como o de Jeremias, Daniel, Ester são mais amplos em grego, e há divergências fundamentais, por exemplo, em obras da importância de Isaías.


As primeiras traduções da Septuaginta para o latim foram feitas ainda no século II. São conhecidas como "Vetus Latina", e circulavam em diferentes edições. Na verdade, a "Vetus Latina" é um conjunto de versões traduzidas diretamente da Septuaginta. Essas traduções se consolidaram nas leituras litúrgicas das Igrejas ''Ocidentais" a partir do século II.


O projeto de tradução conhecido como Vulgata era em princípio uma revisão dos Evangelhos. No fim do século IV, São Jerônimo começou esse trabalho corrigindo a Vetus Latina de acordo com o texto grego. Essa revisão abarcou APENAS os Evangelhos. Não incluiu Atos dos Apostolos, as cartas paulinas, as cartas católicas, ou Apocalipse. Gradualmente a iniciativa foi ampliada para o Velho Testamento. São Jerônimo se mudou para Belém para ter acesso a textos hebraicos que considerava mais confiáveis.


Entre os séculos II e V, a Igreja debateu qual seria a lista canônica fixa do NT e do VT. Cada Padre tinha sua posição a respeito. São Jerônimo também tinha sua opinião. Ele preferia seguir o cânon rabínico [Hebraica Veritas], mas com alguns nuances [que vou apontar mais adiante.]


Mas isso não significa que existia um "Cânon de São Jerônimo". No fim do século IV, justamente na época em que ele começou seu trabalho de revisão e tradução, Concílios realizados no Norte da África definiram uma lista canônica oficial para todas as Igrejas que deles participaram. Nos anos 390, a lista canônica das Igrejas do Ocidente [incluindo Roma] e do Norte da África [incluindo Alexandria] seguiam a Septuaginta e se afastava dos Rabinos.



Ou seja, a posição de São Jerônimo foi "derrotada" nos Concílios de Hipona, Cartago etc. Ele não se rebelou contra a decisão. Apesar de ter defendido a "Hebraica Veritas", O Bispo de Estridão aceitou o Sínodo e a prática litúrgica herdada da Septuaginta.

A prova disso é que ele incluiu todos esses livros na Vulgata, cuja tradução chegou ao fim por volta de 405 [mais de dez anos posterior ao Concílio de Cartago], e que citava os "deuterocanônicos" em comentários e cartas posteriores, os apresentando com o linguajar de Escrituras inspiradas.

Mas e os livros traduzidos por São Jerônimo na Vulgata, eles batem com o Cânon veterotestamentário dos protestantes?

NÃO.

É verdade que o trabalho de São Jerônimo comparava a Septuaginta com outras versões em grego, com versões da Vetus Latina, e com textos hebraicos. E que em larga medida usou manuscritos hebraicos em sua tradução do Pentateuco, Profetas, Livros Históricos e Sapienciais. Mas há exceções notáveis!

1) São Jerônimo revisou/traduziu os Salmos três vezes. A primeira, ainda em Roma, era apenas uma revisão da Vetus Latina, corrigindo-a segundo o grego [Septuaginta]. A segunda, nos anos iniciais da década de 390, quando ele já se encontrava em Belém, foi uma nova tradução a partir da Septuaginta, e que foi chamada de "Saltério Galicano". Foi esta tradução que predominou na Vulgata! A terceira versão de São Jerônimo, "Saltério segundo o Hebraico", nao foi adotada nem na Vulgata nem na prática litúrgica! Portanto, apesar de preferir o hebraico, a Vulgata de São Jerônimo transmitiu o Saltério a partir da Septuaginta [que tem distinções importantes em relação à versão massorética, tanto no texto quanto na contagem dos Salmos].

2) Há diferenças de texto e tamanho da versão em hebraico do Livro de Daniel para as versões que circulavam em grego [incluindo a Septuaginta]. Muitos chamam isso hoje de "adições a Daniel", como o Livro de Susana, Bel e o Dragão, a Oração de Azarias, o Cântico dos Três Jovens. Na verdade, eram partes integrantes da versão grega usada liturgicamente pelos cristãos. São Jerônimo decidiu traduzir a versão grega de Teodócio, que é ampliada, e não a hebraica [mais curta e que segue a versão rabínica].

3) São Jerônimo traduziu também o Livro de Tobias e Judite [dois "deuterocanônicos"] do aramaico.

4) São Jerônimo não traduziu mas revisou os demais "deuterocanônicos", ajustando o texto da Vetus Latina ao da Septuaginta.




Portanto, o trabalho de São Jerônimo seguia o Cânon estabelecido nos Concílios norte-africanos. Não existia um "cânon de São Jerônimo", e sim uma posição desse Padre no debate que ocorria.

As traduções proporcionadas por São Jerônimo tampouco se adequam inteiramente aos textos rabínicos. Se é verdade que preferia as versões hebraicas à grega, é VERDADE TAMBÉM que São Jerônimo sempre se subordinou antes ao USO LITÚRGICO do que às suas preferências pessoais. Daí o Saltério e o Livro de Daniel seguirem as versões gregas.

Por fim, a Vulgata de São Jerônimo não se tornou de uma hora para outra o texto comum das Igrejas do Ocidente. Ela continuou coexistindo com versões da Vetus Latina, algumas delas muito mais usadas em certas regiões. O prestígio e a difusão da Vulgata cresceu aos poucos, e de maneira desigual. Só se pode afirmar que ela ganhou predominância definitiva a partir do final do século VIII, já no período Carolíngeo, quando o texto passou por revisões que o uniformizaram. Mesmo assim, versões da Vetus Latina persistiram até o início do segundo milênio.

Tanto a Vulgata quanto a Vetus Latina circulavam segundo a lista canônica definida nos Concílios norte-africanos do século IV. É verdade que alguns poucos manuscritos apresentavam variações [oração a Manassés, por exemplo]. Mas NÃO se seguiu o cânon rabínico definido nos séculos II e III depois de Cristo. Não havia nenhum "Cânon de São Jerônimo".

Fim da mitologia protestante.


ps.: as discussões sobre o Cânon voltaram a esquentar no Ocidente com os movimentos de Reforma, no século XV. Muitos protestantes alegam que o "cânon não estava fechado porque os romanos estavam discutindo os livros antes de Trento". Sim, porque o movimento reformista começou DENTRO da Igreja Romana. Esse processo levou a uma ruptura, um cisma. Os reformadores, como Lutero, saíram de DENTRO da Igreja Romana. Se separaram dela e fundaram seus próprios movimentos. Daí porque Roma sentiu necessidade de "dogmatizar" seu cânon, primeiro em Florença-Ferrara, depois em Trento, como reação aos reformistas. Isso não significa que não existisse um cânon anterior definido por concílios e expresso no uso litúrgico comum.

pps.: As listas definidas nos concílios regionais, incluindo os norte-africanos, foram recebidas oficialmente no VI Concílio Ecumênico, mais especificamente nos cânones definidos em Trullo.


segunda-feira, 2 de março de 2026

O ISLÃ XIITA, O IRÃ, E O AYTOLLAH KHAMENEI

Muhammad al-Madhi, o Imã Oculto no xiismo duodecimano


Muitos acreditaram que os EUA tinham obtido uma vitória simbólica e até decisiva com o assassinato de Khamenei. A leitura da grande mídia, especialmente a brasileira, é a de que Trump teria um troféu para exibir internamente, e que o regime iraniano poderia sofrer alguma paralisação e até o colapso.


Essa é uma leitura absurdamente equivocada tanto em relação à real estrutura institucional no Irã como também sobre o Islã shia [xiita].
Não vou me estender nesse texto sobre a questão institucional. Basta apontar que Khamenei não era, como vendido pela mídia ocidental, um "autocrata". O Irã tem um regime altamente institucionalizado. Vou focar em certos princípios do xiismo que são difíceis para um ocidental médio entender.
O Santuário do Imã Hussein ibn Ali, erguido em Karbala, Iraque: centro de devoção e peregrinação xiita


Embora sejam todos muçulmanos, o Islã shia tem diferenças fundamentais para o sunni [sunita]. E a história dos shias é marcada pela perseguição e pela opressão promovida pelos próprios sunnis desde o assassinato de Ali, o quarto Califa [Sucessor], primo e genro do "Profeta" Mohammed, e marido de Fátima [filha do "Profeta" e figura feminina mais venerada no Islã, à frente até da Virgem Maria].
Ali ibn Talib não era apenas uma autoridade temporal para os shias. Ele era o Imã, a autoridade espiritual máxima, que tem o carisma da infalibilidade e da "impecabilidade", guiado diretamente por Deus, e guardião do caráter esotérico do Corão [o Livro Sagrado muçulmano]. Os Imãs são encarados praticamente como a corporificação da Luz Divina, e formam uma linhagem hereditária. O primogênito de Ali foi o segundo Imã e assim sucessivamente, dando continuidade, ainda segundo eles, à presença do conhecimento divino no mundo.
A questão é que todos os Imãs foram massacrados pelos sunnis [sunitas]. O acontecimento mais decisivo, nesse sentido, é a derrota de Hussein ibn Ali na batalha de Karbala diante das forças do Califa Yazid I. O assassinato de Hussein se deu no dia 10 de outubro de 680, e é rememorado pelos shias [xiitas] como o dia de Ashura.
Esse acontecimento não é apenas histórico para os shias. É encarado de modo muito mais profundo e abrangente, é uma Revelação da própria estrutura da realidade. O mundo está tomado pelo mal, inclusive o mundo sunni [sunita]. O mal age na perseguição e na opressão de todos os verdadeiros fiéis, que são seguidores do Imamato, os guias infalíveis que Deus deixou no mundo para manter o conhecimento esotérico do verdadeiro Islã.
Ashura, dia em que os xiitas rememoram que o mundo é dominado pelo mal, e que o fiel tem de lutar em nome da Verdade e da Justiça Divinas em todas as áreas, mesmo ao ponto do martírio


Como eu dizia, todos os Imãs foram assassinados pelos próprios sunnis. Os shias acreditam que o décimo segundo Imã, Muhammad al-Maddhi, escapou dessa morte. Ele passou pela "ocultação", que é explicada como a transposição para um "mundo intermediário" dentro da criação [mais ou menos como para alguns Enoque estaria no segundo céu, ou então oculto no Jardim do Éden]. O Imã Oculto guia os verdadeiros fiéis a partir dessa realidade e, ainda segundo o xiismo, vai retornar um dia para libertar o mundo da opressão e da injustiça, derrotando o Djjalal [figura similar à do anticristo no cristianismo].
Mas ninguém sabe qual o dia e a hora da Revelação do Imã Oculto, isso faz parte da escatologia, vai ocorrer no fim dos tempos. Até lá, o verdadeiro fiel tem a obrigação de buscar o conhecimento, o contato com o Imã Oculto, e lutar pela Verdade e pela Justiça em todos as áreas [inclusive a social e a política], mesmo ao ponto do martírio, que é a suprema glorificação, e que aconteceu com todos os Imãs anteriores ao décimo segundo.
Isso fez com o que o Islã shia se consolidasse como uma "espiritualidade sofredora". Eles dizem que "todo dia é Ashura, todo lugar é Karbala", significando que o mundo jaz no maligno, e que o fiel tem de ser resiliente até a morte em nome de Deus e da Justiça. É uma espiritualidade que mistura gnosticismo e neoplatonismo, e que repercute certo sentimento dos ascetas cristãos que buscavam o deserto proclamando "morte ao mundo" [claro que os shias fazem isso em prol de uma doutrina herética, estou analisando aqui de um ponto de vista de religião comparada].
Ruhollah Khomeini, epicentro da maior revolução religiosa do último século.

É a partir desse arcabouço que tem de ser analisado o impacto do assassinato de Khamenei. Para eles, o "martírio" de Khamenei ou de Nasrallah [líder do Hezbollah] é a seiva da própria espiritualidade shia. Morrer como os Imãs é visto por eles como a suprema glória. Eles vão lamentar, chorar, mas ao mesmo tempo se convencer de que a perseguição pelos poderes desse mundo prova que estão do lado correto, lutando pela Justiça em um mundo inteiramente dominado pela opressão e pela obscuridade.
Para cada iraniano de mentalidade ocidentalizada que comemora a morte de Khamenei, existem uns cem que leem o fato como a experiência da verdade de sua religião e de sua continuidade com a perseguição do Imamato e de seus fiéis pelos "poderes do mundo".
É impossível derrotar uma espiritualidade dessas pela multiplicação de "cruzes" [que no xiismo é um dos símbolos da opressão dos poderemos malignos sobre os enviados por Deus e seus fiéis].
Khamenei orando: sucessor de Khomeini como Líder Supremo foi responsável pela institucionalização do regime e também pela moderação da Guarda Revolucionária

É ingenuidade completa imaginar que se poderia derrotar o Irã com o assassinato de suas lideranças religiosas. Isso é mais ou menos como um César Romano da Antiguidade acreditar que poderia conter o cristianismo torturando e matando um santo da antiguidade. [Mais uma vez, a comparação aqui se dá no campo da fenomenologia da religião.]
A liderança iraniana não é moldada por paradigmas iluministas. Eles não são "ocidentais", que leem o mundo por meio de uma ótica secular. Para eles, o Islã não é uma questão de ir à igreja no fim de semana. Não é mero conservadorismo moral. É toda uma forma de olhar para a realidade que é pré-iluminista. E mais do que isso, é anti-iluminista. Naquele mundo, a religião [seja ela falsa ou verdadeira, não é esse o ponto] ainda não foi derrotada como cosmovisão de governo.
Quem quiser entender de modo mais "popularesco" essa espiritualidade deveria ver o filme Duna, de Villeneuve, ou melhor ainda: ler o livro de Frank Herbert.


Shias em luto por Khamenei em Teerão

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

A Crise do Império na História do Cristianismo


Ninguém de modo algum vos engane. Porque primeiro deve vir a apostasia, e deve manifestar-se o homem da iniquidade, o filho da perdição, o adversário, aquele que se levanta contra tudo o que é divino e sagrado, a ponto de tomar lugar no Templo de Deus, e apresentar-se como se fosse Deus. Não vos lembrais de que vos dizia estas coisas, quando ainda estava convosco? Agora, sabeis perfeitamente o que o detém até que chegue o tempo de se manifestar. Porque o mistério da iniquidade já estão em ação, apenas esperando o desaparecimento daquele que o detém. Então o tal ímpio se manifestará, a quem o Senhor Jesus  destruirá com o sopro de Sua boca e o aniquilará com o Resplendor de Sua Vinda.

2 Tessalonicenses 2:1 a 8



A retração do Império Romano na virada do século VI para o VII teve consequências imensas para o cristianismo. A Europa dita Ocidental ficou à mercê da expansão de um Império germânico que, apesar de se denominar romano, tinha outro horizonte cultural e institucional.


O Império Carolíngeo possibilitou, e em certa medida até impulsionou, a fragmentação da soberania que, acompanhada do avanço de formas específicas de senhorialismo [servidão], levou o Estado a um colapso na nascente Cristandade Latina, entre o fim do século IX e o início do século XI.


A ideia e o poder imperiais não desapareceram, mas foram bastante reformulados. O Império Otônida, mais tarde Sacro Império Romano-Germânico, tinha bases fiscais mais sólidas que qualquer realeza medieval, mas ainda assim era estruturada a partir de potentados feudais locais que, dentre outras coisas, tinham o direito de eleger o Imperador. Por outro lado, o novo Império não contava com o território franco ocidental, que logo se desenvolveria em uma Monarquia que sustentava uma visão de soberania que fazia do Rei o "Imperador de seu território".



É nesse contexto que ocorre a Questão das Investiduras e a Reforma Gregoriana, marcadas pela reivindicação do Bispo de Roma por supremacia sobre os poderes seculares, uma modificação no conceito de Sinfonia dos Poderes [espiritual/temporal] herdada do Papa São Gelásio e do Imperador São Justiniano o Grande. A nova abordagem tinha graves implicações para o Império, já que boa parte dos potentados alemães e italianos que tinham voto na eleição imperial eram também Bispos.


Tanto a Igreja Romana quanto o Império Germânico redescobriram o direito público romano e o aplicaram para fundamentar suas respectivas cosmovisões.


Os canonistas do Papado elaboraram a partir de Graciano o conceito da supremacia papal e plantaram as sementes da doutrina da infalibilidade [plenitudo postestatis]. Já os defensores do Império encontraram na escola de Bolonha um reduto do estudo, ainda que enviesado, dos Códigos de São Justiniano, proclamando que o Imperador recebia seu poder de Deus [ainda que mediado pelo 'povo romano'] para governar todo o mundo [lex regia].


Os dois poderes com pretensões universalistas se digladiaram por toda a Idade Média Central, a o movimento cruzadista foi fator determinante para ambos. A verdade, porém, é que a disputa fragilizou sobremaneira as bases 'políticas' do Império Germânico, que saiu definitivamente derrotado na segunda metade do século XIII após o triunfo momentâneo de Frederico II.



Mas o Papado não pôde usufruir a aparente vitória. A Unam Sanctam, que tinha a intenção de consolidar a supremacia papal sobre todas as esferas da Cristandade Latina, não foi aceita pelo Rei francês Filipe IV, que arremeteu contra o Papa Bonifácio VIII nos primeiros anos do século XIV e simplesmente o prendeu. A desmoralização foi ainda mais completa porque o Papado foi transferido para Avignon, feudo pontifício em território francês, sendo controlado a partir dali pelo Monarca Capetíngeo.

Nos 70 anos que se seguiram, a maioria esmagadora dos Papas e da cúria romana eram franceses, e boa parte dos interesses do Papado eram os interesses da França. Óbvio que isso desmoralizou as pretensões universalistas do Papado, e deu espaço para outra eclesiologia desenvolvida nos séculos XII e XIII, a conciliarista. Quando o Papado decidiu retornar a Roma, já no cenário da Guerra dos Cem Anos, o cisma foi quase que inevitável. O Ocidente conviveu por duas gerações com dois [e até três] Bispos de Roma, processo que desembocou na declaração da superioridade do Concílio Geral sobre o Papa no Sínodo de Constança, já no século XV.

Os advogados da Supremacia papal se recuperariam nas décadas seguintes, principalmente nos Concílios de Florença e de Trento. O século XVI foi de consolidação das linhas gerais das doutrinas mais tardes consagradas no Vaticano I [1870]. Mas as eclesiologias herdeiras do conciliarismo sobreviveram por toda a Europa. Na França, principal potência do continente, na sofisticada forma do galicanismo. Nos territórios alemães sob o modelo de um episcopalismo moderado que evoluiria para o Febronianismo. Nos territórios do Império Austríaco, na forma estatal do Josefinismo. E na Península Ibérica por meio de um Regalismo pragmático.




No fim das contas, as doutrinas do supremacismo e da infalibilidade papais eram quase que contra-culturais, predominando nos Estados Pontifícios, no clero do centro e do Norte da Itália, e na ação de ordens como a dos Jesuítas. A ação dos canonistas medievais destruiu a possibilidade de um Império Romano no Ocidente -- ainda que sua intenção não fosse exatamente essa, é impossível a co-existência de ''dois impérios'' que se considerem universais em um mesmo território/civilização --, mas sucumbiu frente aos "impérios nacionais" representados pelas Monarquias Absolutistas, processo associado também ao surgimento dos Protestantismos [vitoriosos, não por acaso, em territórios do Sacro Império Romano Germânico].

A adesão à eclesiologia supremacista cresceu apenas quando as próprias Monarquias foram sacudidas pela emergência de uma nova forma de secularismo movido por ideias iluministas e liberais [e só mais tarde socialistas], que destruiu a presença da religião no espaço público. A Revolução Francesa, a expansão napoleônica, e mais tarde as ondas revolucionárias de 1822, 1830 e 1848,detonaram qualquer pretensão de poder temporal do clero, o espoliaram da base territorial de exercício de poder, e ameaçaram a própria viabilidade do cristianismo como força institucional.

No século XIX, o episcopado convergiu para o ultramontanismo. Aquela que era até então uma eclesiologia minoritária se consagrou no Vaticano I em uma monarquia papal de poderes quase que ilimitados dentro da Igreja Romana no momento mesmo em que isso se tornava praticamente irrelevante em termos políticos e sociais.




Os católico-romanos não demoraram muito para perceber o imbróglio, e as tendências desde o fim da II Guerra Mundial são as de minimizar a abrangência das definições da Pastor Eterno por meio da Lumem Gentium, de um Papado nada triunfalista, e finalmente do apelo cada vez maior à sinodalidade.

É como se a Igreja Romana de meados do século XX para cá tenha sido acometida por um sentimento de constrangimento e até estupor por ter se tornado, em meio a um mundo pós-cristão, muito mais uma Monarquia plenipotenciária fundamentada em noções mais adequadas à relação jurídica entre governantes e governados, do que uma continuidade com o modelo de comunhão sacramental e sinodal herdado da Antiguidade.

Retornando ao ponto: a retração do Império Romano teve consequências terríveis para o Cristianismo.