segunda-feira, 2 de março de 2026

O ISLÃ XIITA, O IRÃ, E O AYTOLLAH KHAMENEI

Muhammad al-Madhi, o Imã Oculto no xiismo duodecimano


Muitos acreditaram que os EUA tinham obtido uma vitória simbólica e até decisiva com o assassinato de Khamenei. A leitura da grande mídia, especialmente a brasileira, é a de que Trump teria um troféu para exibir internamente, e que o regime iraniano poderia sofrer alguma paralisação e até o colapso.


Essa é uma leitura absurdamente equivocada tanto em relação à real estrutura institucional no Irã como também sobre o Islã shia [xiita].
Não vou me estender nesse texto sobre a questão institucional. Basta apontar que Khamenei não era, como vendido pela mídia ocidental, um "autocrata". O Irã tem um regime altamente institucionalizado. Vou focar em certos princípios do xiismo que são difíceis para um ocidental médio entender.
O Santuário do Imã Hussein ibn Ali, erguido em Karbala, Iraque: centro de devoção e peregrinação xiita


Embora sejam todos muçulmanos, o Islã shia tem diferenças fundamentais para o sunni [sunita]. E a história dos shias é marcada pela perseguição e pela opressão promovida pelos próprios sunnis desde o assassinato de Ali, o quarto Califa [Sucessor], primo e genro do "Profeta" Mohammed, e marido de Fátima [filha do "Profeta" e figura feminina mais venerada no Islã, à frente até da Virgem Maria].
Ali ibn Talib não era apenas uma autoridade temporal para os shias. Ele era o Imã, a autoridade espiritual máxima, que tem o carisma da infalibilidade e da "impecabilidade", guiado diretamente por Deus, e guardião do caráter esotérico do Corão [o Livro Sagrado muçulmano]. Os Imãs são encarados praticamente como a corporificação da Luz Divina, e formam uma linhagem hereditária. O primogênito de Ali foi o segundo Imã e assim sucessivamente, dando continuidade, ainda segundo eles, à presença do conhecimento divino no mundo.
A questão é que todos os Imãs foram massacrados pelos sunnis [sunitas]. O acontecimento mais decisivo, nesse sentido, é a derrota de Hussein ibn Ali na batalha de Karbala diante das forças do Califa Yazid I. O assassinato de Hussein se deu no dia 10 de outubro de 680, e é rememorado pelos shias [xiitas] como o dia de Ashura.
Esse acontecimento não é apenas histórico para os shias. É encarado de modo muito mais profundo e abrangente, é uma Revelação da própria estrutura da realidade. O mundo está tomado pelo mal, inclusive o mundo sunni [sunita]. O mal age na perseguição e na opressão de todos os verdadeiros fiéis, que são seguidores do Imamato, os guias infalíveis que Deus deixou no mundo para manter o conhecimento esotérico do verdadeiro Islã.
Ashura, dia em que os xiitas rememoram que o mundo é dominado pelo mal, e que o fiel tem de lutar em nome da Verdade e da Justiça Divinas em todas as áreas, mesmo ao ponto do martírio


Como eu dizia, todos os Imãs foram assassinados pelos próprios sunnis. Os shias acreditam que o décimo segundo Imã, Muhammad al-Maddhi, escapou dessa morte. Ele passou pela "ocultação", que é explicada como a transposição para um "mundo intermediário" dentro da criação [mais ou menos como para alguns Enoque estaria no segundo céu, ou então oculto no Jardim do Éden]. O Imã Oculto guia os verdadeiros fiéis a partir dessa realidade e, ainda segundo o xiismo, vai retornar um dia para libertar o mundo da opressão e da injustiça, derrotando o Djjalal [figura similar à do anticristo no cristianismo].
Mas ninguém sabe qual o dia e a hora da Revelação do Imã Oculto, isso faz parte da escatologia, vai ocorrer no fim dos tempos. Até lá, o verdadeiro fiel tem a obrigação de buscar o conhecimento, o contato com o Imã Oculto, e lutar pela Verdade e pela Justiça em todos as áreas [inclusive a social e a política], mesmo ao ponto do martírio, que é a suprema glorificação, e que aconteceu com todos os Imãs anteriores ao décimo segundo.
Isso fez com o que o Islã shia se consolidasse como uma "espiritualidade sofredora". Eles dizem que "todo dia é Ashura, todo lugar é Karbala", significando que o mundo jaz no maligno, e que o fiel tem de ser resiliente até a morte em nome de Deus e da Justiça. É uma espiritualidade que mistura gnosticismo e neoplatonismo, e que repercute certo sentimento dos ascetas cristãos que buscavam o deserto proclamando "morte ao mundo" [claro que os shias fazem isso em prol de uma doutrina herética, estou analisando aqui de um ponto de vista de religião comparada].
Ruhollah Khomeini, epicentro da maior revolução religiosa do último século.

É a partir desse arcabouço que tem de ser analisado o impacto do assassinato de Khamenei. Para eles, o "martírio" de Khamenei ou de Nasrallah [líder do Hezbollah] é a seiva da própria espiritualidade shia. Morrer como os Imãs é visto por eles como a suprema glória. Eles vão lamentar, chorar, mas ao mesmo tempo se convencer de que a perseguição pelos poderes desse mundo prova que estão do lado correto, lutando pela Justiça em um mundo inteiramente dominado pela opressão e pela obscuridade.
Para cada iraniano de mentalidade ocidentalizada que comemora a morte de Khamenei, existem uns cem que leem o fato como a experiência da verdade de sua religião e de sua continuidade com a perseguição do Imamato e de seus fiéis pelos "poderes do mundo".
É impossível derrotar uma espiritualidade dessas pela multiplicação de "cruzes" [que no xiismo é um dos símbolos da opressão dos poderemos malignos sobre os enviados por Deus e seus fiéis].
Khamenei orando: sucessor de Khomeini como Líder Supremo foi responsável pela institucionalização do regime e também pela moderação da Guarda Revolucionária

É ingenuidade completa imaginar que se poderia derrotar o Irã com o assassinato de suas lideranças religiosas. Isso é mais ou menos como um César Romano da Antiguidade acreditar que poderia conter o cristianismo torturando e matando um santo da antiguidade. [Mais uma vez, a comparação aqui se dá no campo da fenomenologia da religião.]
A liderança iraniana não é moldada por paradigmas iluministas. Eles não são "ocidentais", que leem o mundo por meio de uma ótica secular. Para eles, o Islã não é uma questão de ir à igreja no fim de semana. Não é mero conservadorismo moral. É toda uma forma de olhar para a realidade que é pré-iluminista. E mais do que isso, é anti-iluminista. Naquele mundo, a religião [seja ela falsa ou verdadeira, não é esse o ponto] ainda não foi derrotada como cosmovisão de governo.
Quem quiser entender de modo mais "popularesco" essa espiritualidade deveria ver o filme Duna, de Villeneuve, ou melhor ainda: ler o livro de Frank Herbert.


Shias em luto por Khamenei em Teerão

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

A Crise do Império na História do Cristianismo


Ninguém de modo algum vos engane. Porque primeiro deve vir a apostasia, e deve manifestar-se o homem da iniquidade, o filho da perdição, o adversário, aquele que se levanta contra tudo o que é divino e sagrado, a ponto de tomar lugar no Templo de Deus, e apresentar-se como se fosse Deus. Não vos lembrais de que vos dizia estas coisas, quando ainda estava convosco? Agora, sabeis perfeitamente o que o detém até que chegue o tempo de se manifestar. Porque o mistério da iniquidade já estão em ação, apenas esperando o desaparecimento daquele que o detém. Então o tal ímpio se manifestará, a quem o Senhor Jesus  destruirá com o sopro de Sua boca e o aniquilará com o Resplendor de Sua Vinda.

2 Tessalonicenses 2:1 a 8



A retração do Império Romano na virada do século VI para o VII teve consequências imensas para o cristianismo. A Europa dita Ocidental ficou à mercê da expansão de um Império germânico que, apesar de se denominar romano, tinha outro horizonte cultural e institucional.


O Império Carolíngeo possibilitou, e em certa medida até impulsionou, a fragmentação da soberania que, acompanhada do avanço de formas específicas de senhorialismo [servidão], levou o Estado a um colapso na nascente Cristandade Latina, entre o fim do século IX e o início do século XI.


A ideia e o poder imperiais não desapareceram, mas foram bastante reformulados. O Império Otônida, mais tarde Sacro Império Romano-Germânico, tinha bases fiscais mais sólidas que qualquer realeza medieval, mas ainda assim era estruturada a partir de potentados feudais locais que, dentre outras coisas, tinham o direito de eleger o Imperador. Por outro lado, o novo Império não contava com o território franco ocidental, que logo se desenvolveria em uma Monarquia que sustentava uma visão de soberania que fazia do Rei o "Imperador de seu território".



É nesse contexto que ocorre a Questão das Investiduras e a Reforma Gregoriana, marcadas pela reivindicação do Bispo de Roma por supremacia sobre os poderes seculares, uma modificação no conceito de Sinfonia dos Poderes [espiritual/temporal] herdada do Papa São Gelásio e do Imperador São Justiniano o Grande. A nova abordagem tinha graves implicações para o Império, já que boa parte dos potentados alemães e italianos que tinham voto na eleição imperial eram também Bispos.


Tanto a Igreja Romana quanto o Império Germânico redescobriram o direito público romano e o aplicaram para fundamentar suas respectivas cosmovisões.


Os canonistas do Papado elaboraram a partir de Graciano o conceito da supremacia papal e plantaram as sementes da doutrina da infalibilidade [plenitudo postestatis]. Já os defensores do Império encontraram na escola de Bolonha um reduto do estudo, ainda que enviesado, dos Códigos de São Justiniano, proclamando que o Imperador recebia seu poder de Deus [ainda que mediado pelo 'povo romano'] para governar todo o mundo [lex regia].


Os dois poderes com pretensões universalistas se digladiaram por toda a Idade Média Central, a o movimento cruzadista foi fator determinante para ambos. A verdade, porém, é que a disputa fragilizou sobremaneira as bases 'políticas' do Império Germânico, que saiu definitivamente derrotado na segunda metade do século XIII após o triunfo momentâneo de Frederico II.



Mas o Papado não pôde usufruir a aparente vitória. A Unam Sanctam, que tinha a intenção de consolidar a supremacia papal sobre todas as esferas da Cristandade Latina, não foi aceita pelo Rei francês Filipe IV, que arremeteu contra o Papa Bonifácio VIII nos primeiros anos do século XIV e simplesmente o prendeu. A desmoralização foi ainda mais completa porque o Papado foi transferido para Avignon, feudo pontifício em território francês, sendo controlado a partir dali pelo Monarca Capetíngeo.

Nos 70 anos que se seguiram, a maioria esmagadora dos Papas e da cúria romana eram franceses, e boa parte dos interesses do Papado eram os interesses da França. Óbvio que isso desmoralizou as pretensões universalistas do Papado, e deu espaço para outra eclesiologia desenvolvida nos séculos XII e XIII, a conciliarista. Quando o Papado decidiu retornar a Roma, já no cenário da Guerra dos Cem Anos, o cisma foi quase que inevitável. O Ocidente conviveu por duas gerações com dois [e até três] Bispos de Roma, processo que desembocou na declaração da superioridade do Concílio Geral sobre o Papa no Sínodo de Constança, já no século XV.

Os advogados da Supremacia papal se recuperariam nas décadas seguintes, principalmente nos Concílios de Florença e de Trento. O século XVI foi de consolidação das linhas gerais das doutrinas mais tardes consagradas no Vaticano I [1870]. Mas as eclesiologias herdeiras do conciliarismo sobreviveram por toda a Europa. Na França, principal potência do continente, na sofisticada forma do galicanismo. Nos territórios alemães sob o modelo de um episcopalismo moderado que evoluiria para o Febronianismo. Nos territórios do Império Austríaco, na forma estatal do Josefinismo. E na Península Ibérica por meio de um Regalismo pragmático.




No fim das contas, as doutrinas do supremacismo e da infalibilidade papais eram quase que contra-culturais, predominando nos Estados Pontifícios, no clero do centro e do Norte da Itália, e na ação de ordens como a dos Jesuítas. A ação dos canonistas medievais destruiu a possibilidade de um Império Romano no Ocidente -- ainda que sua intenção não fosse exatamente essa, é impossível a co-existência de ''dois impérios'' que se considerem universais em um mesmo território/civilização --, mas sucumbiu frente aos "impérios nacionais" representados pelas Monarquias Absolutistas, processo associado também ao surgimento dos Protestantismos [vitoriosos, não por acaso, em territórios do Sacro Império Romano Germânico].

A adesão à eclesiologia supremacista cresceu apenas quando as próprias Monarquias foram sacudidas pela emergência de uma nova forma de secularismo movido por ideias iluministas e liberais [e só mais tarde socialistas], que destruiu a presença da religião no espaço público. A Revolução Francesa, a expansão napoleônica, e mais tarde as ondas revolucionárias de 1822, 1830 e 1848,detonaram qualquer pretensão de poder temporal do clero, o espoliaram da base territorial de exercício de poder, e ameaçaram a própria viabilidade do cristianismo como força institucional.

No século XIX, o episcopado convergiu para o ultramontanismo. Aquela que era até então uma eclesiologia minoritária se consagrou no Vaticano I em uma monarquia papal de poderes quase que ilimitados dentro da Igreja Romana no momento mesmo em que isso se tornava praticamente irrelevante em termos políticos e sociais.




Os católico-romanos não demoraram muito para perceber o imbróglio, e as tendências desde o fim da II Guerra Mundial são as de minimizar a abrangência das definições da Pastor Eterno por meio da Lumem Gentium, de um Papado nada triunfalista, e finalmente do apelo cada vez maior à sinodalidade.

É como se a Igreja Romana de meados do século XX para cá tenha sido acometida por um sentimento de constrangimento e até estupor por ter se tornado, em meio a um mundo pós-cristão, muito mais uma Monarquia plenipotenciária fundamentada em noções mais adequadas à relação jurídica entre governantes e governados, do que uma continuidade com o modelo de comunhão sacramental e sinodal herdado da Antiguidade.

Retornando ao ponto: a retração do Império Romano teve consequências terríveis para o Cristianismo.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

RANKING DE FUTEBOL 2025

1. INTRODUÇÃO


O Flamengo teve um ano avassalador em campo e no Ranking


Chegou a hora de atualiza o RANKING ANDRÉ DE FUTEBOL a partir da temporada 2025. E ocorreram muitas mudanças nas posições dos clubes! Menos no histórico e no recorte nacional, e muito mais no somatório nacional/internacional e no recorte internacional. Mas todos apresentaram alteração na classificação geral.


Antes de falar delas, no entanto, tenho de mencionar a criação de novas competições internacionais da FIFA. A COPA DO MUNDO DE CLUBES teve sua primeira edição. O novo formato da COPA INTERCONTINENTAL/MUNDIAL INTERCLUBES incluiu a criação de novas Recopas Intercontinentais. Desde o ano passado, os clubes brasileiros tem acesso a mais dois troféus oficiais, o DERBY DAS AMÉRICAS [uma reedição da antiga Copa Interamericana] e  a CHALLENGER CUP.


O Ranking sofreu pequenos ajustes para se adequar à nova realidade moldada pela FIFA. Os critérios podem ser lidos nos links abaixo:

1. Critérios Gerais

2. Sobre Nacionais e Internacionais

3. Observações Importantes


Lembrando que o Ranking vem em algumas versões diferentes para dar conta do contexto histórico do mundo da bola. O RANKING HISTÓRICO inclui todas as competições oficiais nos níveis estadual, inter-estadual, nacional e internacional. 


Já o RANKING NACIONAL/INTERNACIONAL soma apenas o desempenho nos torneios desses dois âmbitos [levando em conta apenas as competições reconhecidas como oficiais pelas entidades responsáveis: CBD/CBF no caso dos Nacionais; e CONMEBOL e FIFA no caso dos internacionais].


Apresento também dois recortes a título de curiosidade: um RANKING NACIONAL  e um RANKING INTERNACIONAL a fim de vislumbrar a diferença de desempenho dos clubes nesses cenários de disputa.



2. A TEMPORADA 2025


O Fluminense em ação nas semifinais da Copa do Mundo de Clubes, jogo contra o Chelsea


O Flamengo foi inegavelmente o maior vencedor da temporada e obteve uma pontuação geral avassaladora. Para que se tenha ideia do impacto rubro-negro, com o número de pontos somente desse ano, o Flamengo já teria posição garantida no top 15 do RANKING NACIONAL/INTERNACIONAL. 


Bastante atrás, tivemos excelentes anos do Corinthians e do Palmeiras. Os dois rivais conseguiram o mesmo nível de pontuação. Ainda que a torcida do Timão esteja muito mais feliz por causa dos troféus, convém lembrar que o Palmeiras participou de mais uma Libertadores, a primeira edição da COPA DO MUNDO DE CLUBES, e levou pontos por conta dos vices do Paulista, do Brasileiro e do Paulista. As taças são o que há de mais importante para este Ranking, mas ele contempla também a constância e o desempenho nas principais competições.


Daí ser necessário destacar também o ano de Fluminense e Bahia. O tricolor carioca, por exemplo, não gritou 'é campeão', mas sua participação na COPA DO MUNDO, em que terminou no terceiro lugar, teve repercussões bastante positivas no somatório geral. Por outro lado, o bom desempenho de Botafogo e Internacional se devem, em boa parte, a uma ''inércia'' do que fizeram na temporada passada, em que garantiram participação em grandes competições.


O desempenho dos clubes em 2025 foi assim:


1. Flamengo: 340
2. Corinthians: 67
3. Palmeiras: 66
4. Fluminense:41
5. Bahia: 35
6. Botafogo: 30
7. Internacional: 23



3. O RANKING HISTÓRICO


O Fortaleza foi rebaixado, mas conseguiu melhores posições no Ranking por causa da participação na Libertadores e do descenso do Paysandu


O Ranking Histórico apresenta poucas modificações, exceto a do Corinthians superando o Santos. Mas o Flamengo disparou no primeiro lugar


Antes de mais nada, é notável que as cinco primeiras posições sejam ocupadas pelos quatro grandes de São Paulo, a UF mais rica do país, com a intromissão do Flamengo. Isso reforça a conclusão que só a força nacional d'O Mais Querido do Brasil é capaz de enfrentar o poderia paulista. 


O Flamengo disparou e aumentou sua vantagem para o Palmeiras, o segundo colocado. Os 400 pontos que separam os dois rivais inter-estaduais equivalem a cerca de quatro Brasileiros, o que dá a dimensão da liderança do rubro-negro da Gávea. O São Paulo está consolidado na terceira posição.


Já o Corinthians ultrapassou o Santos [como veremos, isso não aconteceu ainda no RANKING NACIONAL/INTERNACIONAL]. A distância entre os dois é pequena o suficiente para se falar em empate, mas agora com o Timão efetivamente à frente. Há pouca diferença entre Grêmio [6º] e Cruzeiro [7º],  e a disputa nesse recorte da tabela vai se intensificar no próximo ano. Também temos praticamente um empate entre Vitória e Fortaleza na parte debaixo, mas com a equipe baiana momentaneamente à frente.



4. O RANKING NACIONAL/INTERNACIONAL


Mais uma decisão da Libertadores entre clubes brasileiros. A segunda em cinco anos entre Flamengo vs Palmeiras. Na foto, o gol do título.



Mudanças importantes, com o Flamengo chegando à primeira colocação, a inversão de posição entre Bahia e Sport, e a entrada do Fortaleza na tabela [ajudado pela rebaixamento do Paysandu para a série C]


Assim como no RANKING HISTÓRICO, as primeiras posições pertencem ao Flamengo e aos grandes de SP, ainda que a ordem sofra alteração. O Flamengo retoma a liderança desse somatório, que considero o mais importante para os torcedores do século XXI. A distância entre o primeiro colocado e o Palmeiras, bem como do Palmeiras para o São Paulo, equivale a uma Libertadores, e não pode ser menosprezada. Mas ainda é possível falar de um GRANDE TRIO que comanda o futebol brasileiro, já que esses são os três únicos clubes com mais de 2 mil pontos nesse Ranking [na verdade, mas de 2300]. Se vamos evoluir para uma "espanholização" entre Flamengo e Palmeiras é algo que só vai ficar claro ao longo dos próximos anos.


Convém notar que, diferente do RANKING HISTÓRICO, o Santos [4º] continua à frente do Corinthians [5º]. A mesma inversão acontece no caso de Cruzeiro [6º] e Grêmio [7º], ainda que a proximidade de ambos nos permita falar quase que em um empate. O mesmo empate ocorre entre o Atlético Mineiro [9º], Fluminense [10º] e Vasco [11º]. Irrisórios 8 pontos os separam, um nada que se torna ainda mais explícito quando lembramos que o Fluminense vai levar 10 pontos a mais ano que vem por causa da participação já garantida na Libertadores. O tricolor, aliás, aparece agora à frente do Vasco, tirando o rival do top 10.


O Bahia superou o Sport e deve se consolidar como o maior do Nordeste nesse Ranking, já que se classificou para a próxima Libertadores. Essa ''inércia'' de uma temporada para outra é importante, e garantiu a entrada do Fortaleza na lista, ajudado também pelo rebaixamento do Paysandu para a série C.



5. O RANKING NACIONAL


O Corinthians conquistou sua quarta Copa do Brasil


Poucas alterações de nota, mas o rebaixamento do Paysandu possibilitou também que o Fortaleza entrasse na tabela, apesar do mau ano do tricolor cearense


Nesse recorte, o Cruzeiro mostra força para entrar no top 5, mudando a configuração de grandes SP + Flamengo que vemos nos Rankings anteriores. O Palmeiras viu sua liderança para o Flamengo diminuir em cem pontos, mas permanece confortável em primeiro lugar e não terá sua posição ameaçada em 2026. O Corinthians, por sua vez, está cada vez mais consolidado na terceira posição, mais distante do Flamengo [2º] mas também do São Paulo [4º].


Não houve mudanças substanciais nas posições intermediárias, apesar da pequena distância que separa o recorte que vai do Grêmio [7º] ao Fluminense [11º]. O Bahia [14º] está agora à frente do Sport [15º], ainda que praticamente empatado em pontos. Importante ressaltar que o tricolor baiano se aproxima perigosamente do Athletico Paranaense. E o Fortaleza também entrou na lista, muito mais por causa do rebaixamento do Paysandu.



6. O RANKING INTERNACIONAL


Um ano dourado para o Flamengo e de contínua ascensão internacional


Ranking que mais sofreu mudanças, com o Flamengo superando o Santos e o Palmeiras superando o Grêmio. Fluminense e Bahia também continuam subindo.


Esse é o recorte que sofreu as maiores mudanças de posição. As duas mais marcantes são a ascensão do Flamengo, que superou definitivamente o Santos e conquistou a segunda posição da lista; e a do Palmeiras, que superou o Grêmio e avançou para o quarto lugar. A liderança do São permanece inabalável, ainda que tenha tombado em duzentos pontos em relação ao rubro-negro da Gávea.


Internacional [6º] e Cruzeiro [7º] permanecem praticamente empatados, mas agora com o Colorado à frente. A participação da Raposa na Libertadores do ano que vem deve inverter de novo a posição. O Fluminense [9º] superou o Atlético Mineiro [10º], e tem tudo para consolidar o lugar dada a classificação para vaga direta na Libertadores 2026.


Na parte de baixo, Bahia [15º] e Fortaleza [16º] continuam galgando degraus. O mau ano do tricolor cearense deve interromper sua trajetória momentaneamente. Mas os baianos vão superar o São Caetano por conta da classificação para a Libertadores. 


Que venha 2026! Boas Festas para todos!


domingo, 10 de agosto de 2025

Filioque

 




Alguns confrades e consorores me pedem para falar sobre a polêmica entre ortodoxos e romanos em torno da "cláusula Filioque". Há muita incompreensão a respeito, o que é natural, já que se trata de tema de grande profundidade teológica.


Um ponto fundamental é que o debate é sobre a ORIGEM ETERNA DAS HIPÓSTASES.


Alguns citam versículos das Escrituras [passagens no Evangelho de São João, no Apocalipse, em Gálatas etc.] sobre o envio do Espírito Santo ao mundo, a Economia da Salvação, ou as Relações entre Deus e a criação achando solucionar o imbróglio. Mas nem mesmo a processão energética é o cerne do problema.


Um dos obstáculos pro entendimento foi a tradução da Vulgata. Não porque ela esteja equivocada, mas porque generalizou termos gregos diferentes vertendo-os para o latim "procedere/procedit" [proceder/procede].

A expressão usada no Credo é "τὸ ἐκ τοῦ Πατρὸς ἐκπορευόμενον" [''e que procede do Pai''].

Exatamente o mesmo verbo que se encontra em São João 15:26.


"Ὅταν δὲ ἔλθῃ ὁ Παράκλητος ὃν ἐγὼ πέμψω ὑμῖν παρὰ τοῦ Πατρός, τὸ Πνεῦμα τῆς ἀληθείας ὃ παρὰ τοῦ Πατρὸς ἐκπορεύεται…

"Quando, porém, vier o Consolador, que eu vos enviarei [πέμψω] da parte do Pai, o Espírito da verdade, que procede [ἐκπορεύεται] do Pai…"


O Filho envia o Espírito ao mundo. Mas o Espírito procede [ἐκπορεύεται/ἐκπορευόμενον] do Pai. Enquanto o verbo latino "procedere" significa "origem" e "envio" em sentido geral e abrangente, o grego ἐκπορεύεται é específico para origem ontológica, existencial e absoluta.


O que diferencia as Pessoas/Hipóstases na Trindade é o modo como elas são causadas pelo Pai, e é expresso pelo Credo Niceno-Constantinopolitano a partir das discussões que culminaram no II Concílio Ecumênico -- e fundamentado na teologia dos Padres Capadócios. A Origem das Hipóstase do Filho e do Espírito é a Hipóstase do Pai, a primeira por Geração e a segunda por ''Expiração" [Processão], nisso consistindo suas particularidades hipostáticas.


De modo que o Pai é o Princípio ou causa [aitia] não causada na Trindade. A unidade na Trindade repousa assim na Monarquia do Pai.


A primeira vez que o Credo foi cantado com o Filioque em uma liturgia oficial no Ocidente foi no III Concílio de Toledo, em 589, que oficializou a conversão do Rei Recaredo e do Reino Visigodo, até então arianos, à Ortodoxia. Este Concílio Regional ocorreu mais de 200 anos depois das decisões do II Concílio Ecumênico, portanto.


E expressava dois processos que ocorriam no Ocidente naqueles séculos:

i. À medida em que perdia contato com o Oriente e com a língua grega, o Ocidente se tornou cada vez mais dependente da teologia agostiniana. O Bem Aventurado Santo Agostinho elaborou uma doutrina que expressava a Santíssima Trindade a partir de analogias psicológicas e relações de operações divinas. Assim, existiriam dois modos de processão [Intelecto --> Verbo/Filho; Vontade --> Amor/Espírito].

ii. O Ocidente foi conquistado e dividido em Reinos Germânicos. A maioria deles era ariano, e fazia questão de manter a divisão religiosa como forma de assegurar a separação entre conquistadores [arianos] e conquistados [ortodoxos].


A adoção da Filioque tem, portanto, um tempero de reação ao arianismo respaldada pela teologia trinitária agostiniana.

A 'cláusula' se popularizou entre os 'latinos', gerando reações no Oriente. Em meados do século VII, São Máximo o Confessor defendeu a posição ocidental em carta famosa e reivindicada tanto por ortodoxos quanto por romanos em suas pendengas. Nela, Sao Máximo deixa claro que a Filioque era aceitável PORQUE ela não colocava em questão que a Hipóstase do Pai era causa única na Trindade.


Essas considerações de São Máximo estabeleceram os limites possíveis do entendimento oriente/ocidente e que vigoram até hoje nas tentativas de superar a divergência. Não há problemas para os ortodoxos com qualquer menção à processão energética [como vai explicitar São Gregório do Chipre no século XI] ou com a fórmula de que o Espírito procede do pai por meio/através do Filho. Desde que resguardada a fé de que o Pai é o Princípio Originante único na Trindade.


No entanto, a teologia "filioquista" se fortaleceu entre os ocidentais nos séculos seguintes, e foi impulsionada por reviravoltas no âmbito do poder. A mais importante delas, a formação do Império Franco sob Carlos Magno [fins do século VIII e início do século IX], que se fez coroar "Imperador Romano do Ocidente" em flagrante polarização com o Império Romano do Oriente ["Império Bizantino"].


Os governantes francos pressionaram os Papas pela adição da Filioque na liturgia em Roma. Mas mesmo quando concordavam com a doutrina por trás da "cláusula", os Papas do período [com destaque para o Papa Adriano e o Papa Leão] se recusaram corajosamente a ceder aos insistentes apelos imperiais. Eles preferiam manter a unidade de fé com o Oriente e sabiam que nenhum Concílio local tinha autoridade para modificar o Credo.

As diferenças doutrinárias já estavam muito claras nas disputas em torno de São Fócio, na segunda metade do século IX. Mas foram amenizadas quando o Papado caiu de vez sob influência de famílias oligárquicas italianas [a chamada "Pornocracia", também conhecida na historiografia ocidental como "a igreja sob poder dos leigos"], mais especialmente os Teofilactos, cuja agenda política exigia aliança com Constantinopla.


Outra reviravolta política ocorreu com a ascensão da dinastia Otônida no Império Romano-Germânico [969] e a queda gradual da Itália sob a órbita de um renovado poder imperial. E assim, atendendo a "pedidos" do Imperador Henrique II, o Papa Bento VIII permitiu que, pela primeira vez, o Credo foi cantado em Roma com a interpolação "Filioque", no dia 14 de fevereiro de 1014.

A partir de então, os teólogos romanos se esforçaram para defender a novidade com outras novidades. A mais radical delas, a exposição de Anselmo da Cantuária, feita a pedido do Papa Urbano II no contexto da convocação da Primeira Cruzada, no fim do século XI.


Em "De Processione Spiritus Sancti", Anselmo defendeu a Filioque não a partir dos Santos Padres ou das Escrituras, e sim da aplicação da lógica aristotélica. Partindo da premissa agostiniana de que as Hipóstases se distinguem por suas relações de origem 'operativas', ele tentou demonstrar que a Filioque era uma conclusão racional inescapável.


O argumento romano já evidenciava também o afastamento ''metodológico" da teologia ocidental, que adentrava então o período da escolástica. Para a Ortodoxia, é inimaginável que questões no âmbito estritamente teológico [ou seja, sobre a Santíssima Trindade, e portanto transcendentes ao criado] possam ser reduzidas à aplicação de categorias lógicas. [e isso independente da insuficiência do próprio argumento, já que a oposição relativa não precisa vir das relações de origem, e sim do MODO de origem.]


Por outro lado, o pressuposto agostiniano de que as hipóstases podem ser definidas por analogias de operações psicológicas levou Anselmo a alegar "que a processão não era necessariamente uma propriedade da Hipóstase do Pai, mas provinha da substância divina compartilhada por todas as três pessoas (secundum eandem deitatis unitatem – “segundo a mesma unidade de divindade”), e aqui aplicada apenas ao Pai e ao Filho (já que o Espírito não é a causa da sua própria existência). Se o Credo professava que o Espírito procedia do Pai, e o Pai é Deus, Anselmo argumentava que o Filioque está “claramente demonstrado, [pois] o Credo diz que o Espírito Santo procede de Deus, já que o Filho é Deus.” Se alguns (por exemplo, Agostinho) argumentam que o Filho procede principalmente do Pai, “queremos significar apenas que o próprio Filho, de quem o Espírito é, tem do Pai o próprio fato de que o Espírito Santo é do Filho, já que Ele [o Filho] tem a sua substância do Pai.[1]


Essa tendência de deslocar a origem das Hipóstases a uma essência comum entre Pai e Filho deságua em Tomás de Aquino: "Assim como Boaventura, Tomás afirmava de modo inequívoco o Pai como principium totius deitatis (“princípio de toda a divindade”) dentro da Trindade, já que somente Ele era o princípio sem princípio. No entanto, essa afirmação não impediu Tomás de afirmar explicitamente que o Filho era auctor (autor), principium (princípio) e fons (fonte) do Espírito Santo. Isso acontecia porque o Filho possui “o mesmo poder espirativo que pertence ao Pai”, o qual Ele possui como um dom recebido do Pai. “Portanto, o Espírito Santo procede igualmente de ambos, embora às vezes se diga que procede principalmente ou propriamente do Pai, porque o Filho tem esse poder a partir do Pai.” [2]


Também a pedido do Papado, Tomás de Aquino vai escrever "Contra os Erros dos Gregos" [o título não foi escolhido por ele]. Seus argumentos contornam o fato de que o latim ''procedere'' não tem o mesmo significado que o grego ἐκπορεύεται, e elencam um conjunto robusto de citações patrísticas que tem o vício de serem hoje reconhecidamente espúrias.


No fim, Tomás de Aquino apresenta uma observação curiosa a respeito da interpolação, a de que o Papa tinha o direito de alterar o Credo já que sendo "Sucessor de Pedro e Vigário de Cristo, é o primeiro e o maior de todos os bispos", e tem "a plenitude do poder sobre toda a Igreja de Cristo."


Ou seja, outra alegação que nenhum ortodoxo vai levar a sério, tornando a Filioque, para nós, uma novidade, defendida a partir de novidades na argumentação teológica, e que culmina em uma novidade eclesiológica.


Há soluções para a divergência, mas passam por um retorno a São Máximo Confessor, e à distinção essência/energias que também pode ser apontada nos mesmos Padres Capadócios cuja teologia fundamentou os dogmas trinitários. -------
[1] "The Filioque, History of a Doctrinal Controversy", A. Edward Siecienski, Oxford University Press, 2010

[2] idem, ibidem

sábado, 26 de julho de 2025

A Receita de bolo de Dugin, ou: a manipulação imperialista do conceito de Tradição

 "Putin é o líder mais pró-Ocidente e pró-liberal que vocês possam imaginar. O único momento em que isso é diferente está em sua devoção à soberania russa, e ainda assim no estilo clássico do realismo ocidental em Relações Internacionais. Ele é pró-capitalista e pró-globalista, e liberal-democrata".


O "sincericídio do guru"



A obra de Alexander Dugin não passa, toda ela, da aplicação de reducionismos maniqueístas toscos para fins de propaganda geopolítica. Em termos teóricos, ela não resiste a uma análise de três minutos.


A receita de bolo é a seguinte:

i. tratar de forma maniqueísta o par Tradição vs Anti-Tradição descrito na obra de autores da ''escola tradicionalista'';

ii. reduzir toda a complexidade de teorias e fenômenos históricos e sociais a pares dicotômicos, mesmo quando não o são, usando para isso confusões terminológicas explícitas;

iii. encaixar, em verdadeira tour de force, os pares dicotômicos construídos no ponto ii. na dualidade Tradição vs Anti-Tradição [tratada de forma maniqueísta, lembrem-se];

iv. vincular o polo "Tradição" sempre ao Estado Russo e seus interesses geopolíticos, e o polo "Anti-Tradição" aos obstáculos à ação imperial russa.


Um exemplo claro da aplicação da receita é quanto aos debates geopolíticos e identitários que se desenvolveram na Rússia a partir do século XIX, e que dividiram seus intelectuais em europeístas ['ocidentalistas'], eslavófilos, e eurasianos.

Em termos estritamente geopolíticos, esses posicionamentos são incompatíveis. Se eurasianos defendem o espraiamento do Estado Russo para o "exterior próximo" não só do leste europeu e dos Bálcãs, mas também para o Cáucaso e Ásia Central, os eslavófilos tendem a ver com maus olhos este tipo de tendência.

Depois da revolução, muitos eurasianos aderiram, felizes e contentes, ao Stalinismo, percebendo nele a construção do Estado euroasiático capaz de se impor à Europa. Basta apontar isso para provar que esse debate não está intrinsecamente ligado a qualquer dualidade Tradição vs Anti-Tradição.

Com o esfacelamento do bolchevismo, parte considerável da dissidência russa adotou posturas "neo-eurasianas" como forma de defender a reconstrução de seu poder geopolítico como força concorrente à Europa [em vez de simplesmente integrada e subordinada a ela]. Nesse sentido, o comunista Zyuganov era tão neo-eurasianista quanto outros ideólogos na outra ponta o espectro político ideológico.

O neo-eurasianismo de Dugin, desenvolvido em parceria com Limonov, não é exatamente eurasianismo, mas um frankenstein ideológico criado para atrair, ao mesmo tempo, o excepcionalismo étnico de raiz eslavófila e posições anti-capitalistas, tudo cimentado na ideia neo-imperialista de reconstrução do espaço geopolítico russo em seu sentido mais amplo.

Já apontei que esse tipo de reconstrução geopolítica não está necessariamente atrelada a parâmetros tradicionais [ou tradicionalistas]. Mas Dugin vende para a patuleia a ideia de que essa política é a própria epítome da ideia de Tradição.

Se Putin adota uma posição de confronto com a OTAN, então ele se torna, imediatamente, um símbolo solar encarnado que peita corajosamente o anticristo. É uma forma erística de pressionar Putin para posturas geopolíticas mais condizentes com o nacionalismo expansionista russo.

Mas dizer que Putin é "solar" só porque defende o espaço geopolítico russo [seja ele mais ou menos amplo, de acordo com a ideologia de plantão], é o mesmo que tornar Charles de Gaulle, Mao Tsé Tsung, ou Fidel Castro agentes da Tradição só porque confrontam os EUA.

Ou seja, pura papagaiada sem nexo pra enganar incautos. Qualquer população tende a defender sua própria independência. Qualquer potência tende a defender suas posições estratégicas. A Rússia, a França, a Inglaterra, a China, ou qualquer outra.

Isso não tem a ver com o parâmetro Tradição vs Anti-Tradição, a não ser na imaginação desenfreada do "pau pra toda obra", que é a militância dissidente sob orientação do "guru".

Como bem analisou o professor Angêlo Segrillo, Putin é um ocidentalista moderado. Ou, mais especificamente, um gosudarstvennik. Um defensor dos interesses do Estado. É nesse sentido que ele se contrapõe às demais potências.

Qualquer dúvida, só olhar para as instituições e para a sociedade russa. Putin é só um Presidente que governa um país ocidenalizado, segundo o figurino básico do modelo, dos princípios, e dos valores do próprio Ocidente. Temperados com o autoritarismo da cultura política russa, sem dúvida, mas sem beber de ideias do Tradicionalismo.

Já disse antes e repito: o Estado inglês é muito mais tradicional do que o russo. Quem quiser olhar para um governante em moldes tradicionais, vai olhar para o Rei Charles, e não para o plebeu Putin. Evidente que isso não torna a geopolítica inglesa menos execrável. Mas é justamente esse o ponto. O ponto em que vocês, russófilos, foram enganados.