Não vou elaborar sobre as ideias de Newman. Sua noção de desenvolvimento não é estritamente ortodoxa, e tem diferenças estruturais com a de São Vicente de Lérins ou, digamos, a de São Dumitru Staniloae.
O ponto, no entanto, é que boa parte da teologia romana passou a considerar que o Papado, tal como concebido hoje, surge ao longo de um processo mais ou menos longo, e que a primazia de Roma era exercida, no primeiro milênio, em meio a uma estrutura fortemente sinodal.
Esta percepção pode ser encontrada em obras e documentos de diversos níveis do catolicismo romano. Tanto em obras de História, como Dvornik e Schatz; quanto nas teológicas, como em Ratzinger [futuro Papa Bento XVI]; como também em documentos oficiais publicados no site do Vaticano e que servem ao diálogo ecumênico [o mais significativo é o Documento de Chietti, elaborado em conjunto por teólogos ortodoxos e romanos].
Os dogmas do Vaticano I sobre o Papado, proclamados em um período conturbado da história ocidental, podem ser resumidos como a afirmação de um combo articulado de ideias sobre a origem divina do primado do Bispo romano [por meio de São Pedro], sua soberania absoluta e suprema sobre toda a Igreja, sua jurisdição universal ordinária e imediata tanto na administração e disciplina e costumes, além da infalibilidade em questões de fé e moral.
As teses de Newman permitem aos romanos defender os dogmas do Vaticano I atenuando o ônus de explicar porque a Igreja não 'funcionava' nesses moldes eclesiológicos no primeiro milênio. Eles apontam aquilo que chamam de sementes ou princípios dessas doutrinas, e apelam para um desdobramento natural, que consideram orgânico, das potencialidades contidas naquelas raízes de acordo com as necessidades de uma História que está, continuam eles, sob o controle divino.
Essa abordagem é diferente da que costumamos ver em certos nichos apologéticos, que tentam demonstrar a monarquia hiper-absolutista do Vaticano I em tempos primitivos da Igreja apelando para recortes de textos ou episódios de conflito. Nesses casos, não se trata de buscar ''sementes'' ou ''princípios'', mas muitas vezes de encontrar algum dos dogmas da Pastor Eterno no século II ou III.
O exemplo mais comum está na famosa passagem de Santo Irineu de Lyon no Livro III de "Contra as Heresias":
Ad hanc enim ecclesiam, propter potiorem principalitatem, necesse est omnem convenire ecclesiam, hoc est eos qui sunt undique fideles, in qua semper ab his qui sunt undique conservata est ea quae est ab apostolis traditio.
["Pois, devido à sua primazia superior, é necessário que todas as igrejas se reúnam nesta igreja, ou seja, os fiéis de todas as partes, na qual a tradição transmitida pelos apóstolos sempre foi preservada por todos os fiéis de todas as partes."]
ou ainda:
["Pois a esta igreja, por causa de uma principalidade mais forte, é necessário que convirja toda a igreja, isto é, aqueles que são fiéis de toda parte, na qual sempre por estes que são de toda parte foi conservada a tradição que é dos apóstolos."]
A tradução mais comum e mais usada na apologética romana crava que, segundo Santo Irineu, todas as demais Igrejas deviam concordar [doutrinariamente] com Roma. O problema é que essa tradução é problemática e muito longe de ser consensual.
[As que coloquei acima são de programas online, como o DeepL ou o Polytranslator, mas a pendenga sobre as dificuldades da passagem são bem conhecidas e podem ser encontradas na obra do historiador católico-romanos Klaus Schatz.]
O texto original, em grego, se perdeu, e só temos a versão em latim. E é um latim ambíguo, que leva a problemas de compreensão. O que significa "propter potiorem principalitatem"? Autoridade, fundação original, posição, excelência, preeminência? Roma tinha essa qualidade por si mesma, ou derivada de algum outro fator? E que autoridade ou preeminência seria essa?
De modo similar o termo "convenire". A tradução mais direta indica "convergir, se reunir em torno de", e não "concordar". Além disso, o autor vincula a singularidade romana aos "fiéis de todos os lugares", lugares estes em que a "tradição foi preservada", dando a entender que a presença eventual deles na cidade era importante para o argumento.
É sintomático que o historiador católico-romano Klaus Schatz, conhecido defensor de uma eclesiologia monárquica bastante centralizadora, declare que “não há uma interpretação conclusiva que elimine todas as dificuldades.” ["Papal Primacy: From its Origins to the Present".]
No fim das contas, Santo Irineu de Lyon parece apontar o caráter especial da preservação da tradição da Igreja de Roma, dado algum caráter singular [origem em São Pedro e São Paulo, posição central na oikumene cristã] e à presença eventual nela de cristãos de todas as partes do Império.
Não bastasse os problemas da tradução, que obstaculizam retirar do trecho qualquer coisa semelhante ao Vaticano I, há também o contexto. Não se pode recortar o parágrafo sem ter atenção ao tema tratado pelo autor e a conclusão a que ele conduz. Vale destacar dois pontos:
i. Santo Irineu não trata da organização jurisdicional da Igreja. Sua intenção é refutar as supostas "tradições gnósticas", oriundas de "ensinamentos secretos" e experiências particulares, contrapondo-as à verdadeira tradição apostólica resguardada nas Igrejas fundadas pelos Apóstolos e governadas por seus sucessores [os Bispos]. A passagem apresenta Roma como um lugar privilegiado para testemunhar essa tradição, não como "centro decisório doutrinal";
ii. Alguns parágrafos depois, o mesmo Santo Irineu de Lyon sugere o que fazer em caso de controvérsia sobre a tradição apostólica:
Quid autem si neque apostoli quidem scripturas reliquissent nobis? Nonne oportebat ordinem sequi traditionis, quam tradiderunt his quibus committebant ecclesias? [...] Quid si qua de modica quaestione disceptatio esset, nonne oporteret in antiquissimas recurrere ecclesias, in quibus apostoli conversati sunt, et ab eis de praesenti quaestione sumere quod certum et re liquidum est?
["Mas e se os próprios apóstolos não nos tivessem deixado nenhuma escritura? Não teria sido necessário seguir a ordem da tradição que eles transmitiram àqueles a quem confiaram as igrejas? [...] E se houvesse uma controvérsia sobre alguma questão menor, não deveríamos recorrer às igrejas mais antigas, nas quais os apóstolos atuaram, e extrair delas, a respeito da questão em pauta, o que é certo e claro?"]
Se os apologetas romanos estivessem corretos, Santo Irineu teria perdido uma excelente oportunidade de proclamar a autoridade decisória final do Bispo de Roma. No entanto, diante de qualquer controvérsia, por menor que seja, ele recomenda que se recorra às igrejas em que os Apóstolos conviveram, no plural e sem especificar alguma acima das demais.
Ressalto que o texto é bastante favorável a Roma. Ele aponta, de fato, que essa Igreja era vista de forma especial e com primazia já no fim do século II. O que decepciona alguns apologetas romanos é que ela seja insuficiente para mostrar indícios da monarquia papal hiper-absolutista da "Pastor Eterno".
Isso nos leva também à ação de Santo Irineu de Lyon na pendenga quarto-decimana por volta dos anos 190. A maior parte do mundo cristão comemorava a Páscoa em um domingo, dia da Ressurreição. Mas havia Igrejas, especialmente as da Ásia Menor, que seguindo uma tradição associada aos Gloriosos Apóstolos São João e São Felipe, a comemoravam sempre no 14 de Nissan.
Alguns apologetas romanos, desejosos de defender a jurisdição universal do Bispo de Roma ainda no século II, citam a História da Igreja de Eusébio de Cesareia:
Ὁ δὲ Βίκτωρ, τῆς Ῥωμαίων ἐκκλησίας προεστώς, παραχρῆμα τὰς μὲν Ἀσίας ἁπάσας ἐκκλησίας, ἅμα ταῖς ὁμόροις, ὡς ἑτεροδοξούσας, ἀποτέμνειν ἐπειρᾶτο τῆς κοινῆς ἑνώσεως· καὶ γραφὰς προτιθεὶς, ἀκοινωνήτους πάντας ἄρδην τοὺς ἐκεῖσε ἀποφαίνει ἀδελφούς.
["Vitor, o chefe da Igreja Romana, imediatamente tentou cortar de uma só vez da comunhão comum todas as igrejas da Ásia e as vizinhas, por serem heterodoxas, e, ao mesmo tempo, escreveu cartas declarando que todos os irmãos que viviam lá estavam fora da comunhão"]
O problema, evidentemente, está no recorte feito na obra de Eusébio. Segundo o historiador, a divergência quanto a data da celebração da Páscoa suscitou uma tentativa de uniformização. "Por conseguinte, realizaram-se sínodos e assembléias de bispos para tratar do assunto; e todos, de comum acordo, publicaram por carta um decreto eclesiástico para todos os fiéis, declarando que o mistério da ressurreição do Senhor dentre os mortos não fosse jamais celebrado senão no domingo e que somente neste dia se encerrariam os jejuns relativos à Páscoa."
Eusébio continua, citando alguns exemplos de concílios regionais discutindo o problema: Corinto, Jerusalém, Cesareia, Roma etc. O foco é mostrar o "mecanismo" de aferição da tradição apostólica e da decisão sobre a data da Páscoa: ainda não tínhamos um Concílio Ecumênico, que só seria possível com a convocação de um Imperador, mas a Igreja encaminhou sínodos locais para decidir a questão.
Daí surge a dissensão da Ásia Menor, que se recusa a abandonar a tradição herdada do 14 de Nissan. É nesse contexto que Eusébio descreve a tentativa de São Vítor, Bispo de Roma, de romper a comunhão com as Igrejas da região.
É significativa a reação suscitada pela ação de São Vítor. Segundo Eusébio, Καὶ αἱ τῶν πολλῶν ἐπισκόπων φωναὶ παρεῖσαν, ἐπιπληττόντων αὐτῷ σφοδρότερον. ["E as vozes de muitos bispos se fizeram ouvir, repreendendo-o com ainda mais veemência."]
Logo depois, ele cita a oposição de Santo Irineu de Lyon: Ἰρηναῖος δέ τις, ὀνόματι μὲν εἰρηνοποιός, τῷ δὲ τρόπῳ τοιοῦτος ὤν, ἐπιστολὰς ὑπὲρ τῆς εἰρήνης τῶν ἐκκλησιῶν προϊστάμενος, πολλὰ μὲν καὶ ἄλλα προσήκοντα διελέγχετο τὸν Βίκτορα, μὴ δεῖν ὅλας θεοῦ ἐκκλησίας ἀποτέμνειν παραδόσεως ἀρχαίου ἔθει χρωμένας.
["E certo Irineu, que era pacificador tanto no nome quanto no caráter, escrevendo cartas em favor da paz das igrejas, censurava Vítor também em muitas outras coisas apropriadas, dizendo que não se devia cortar igrejas inteiras de Deus por seguirem um costume de antiga tradição.”]
A admoestação de Santo Irineu continua, descrevendo como muitos cristãos oriundos da Ásia Menor viviam em Roma sem, no entanto, seguirem a prática dominical. E relembrando o episódio do encontro de Santo Aniceto de Roma e São Policarpo de Esmirna, que tinham consciência da divergência e nem por isso se "excomungaram" mutuamente por causa dela.
O episódio revela de fato que São Vítor pretendia falar em nome da unidade da Igreja, e pensava exercer prerrogativas próprias e exclusivas, como um tipo de centro da comunhão cristã. Mas tudo em meio a uma Igreja cujos procedimentos e decisões são fortemente ancorados na colegialidade e no consenso eclesiástico, e não por escolha unilateral de um monarca absoluto que exige obediência irrestrita.
Não é como se o Bispo de Roma tivesse acordado num dia e decidido impor à Igreja uma prática qualquer existente em Roma sob pena de excomunhão de quem discordasse. Houve sínodos em todo o Império para definir ou averiguar a tradição apostólica normativa, aquela que se praticava em [quase] todo lugar.
Diante da divergência da Ásia Menor, São Vítor agiu de modo punitivo, supondo que seria seguido pelas demais Igrejas [certamente por conta da Primazia romana]. Estava errado, pois foi admoestado, sintomaticamente, não só pelo Oriente, mas também pelos Bispo "ocidentais".
Outro fator importante: em nenhum momento se afirma que o Bispo de Roma preside diretamente algo mais que a Igreja de Roma. Eusébio sempre se refere a ele como líder de sua igreja, em meio a outros líderes de Igrejas. Santo Irineu de Lyon idem.
Estamos há anos luz das declarações da "Pastor Eterno", segundo a qual o Papa de Roma exerce uma jurisdição universal, suprema, imediata, ordinária e plena sobre a fé, disciplina e costumes; e à qual todos os fiéis e clero tem de se subordinar. Estamos muito distantes da Sé Romana que, segundo o Vaticano I, é juíza de todos, mas cujos juízos não podem ser julgados por ninguém.
Mais uma vez, o episódio narrado é favorável à Igreja de Roma. Demonstra que ela exercia de fato uma Primazia no período, e um papel de articulação e talvez de representação supra-regional. O que não se retira daí é a Monarquia hiper-absolutista, e sim um tipo de autoridade exercido sob a colegialidade e com prerrogativas delimitadas pela sinodalidade.
Para um romano que se escore em Newman, isso já seria suficiente. Já para os apologistas que desejam, a todo custo, projetar no cristianismo antigo o Papado Imperial da Idade Média ou ainda as definições da Pastor eterno, a disputa traz mais problemas que soluções.