segunda-feira, 19 de outubro de 2026

OS LIMITES DO UDENISMO À DIREITA E À ESQUERDA, ou: como a nova direita desaguou em Flávio Bolsonaro

"Uma péssima notícia para os udenistas: Flávio Bolsonaro é a Alerj no poder."





Não deixa de ser engraçado ver a direita tão mobilizada para eleger Flávio Bolsonaro. Esse campo ressurgiu em 2014/15 carregando o mesmo "udenismo" de décadas passadas: um forte sentimento moralista e anti-corrupção contra políticos cleptomaníacos entricheirados no Estado.




O udenismo é o elo que amarrava a velha e a nova direita, um veículo permanente do inconformismo tanto da classe média tradicional quanto de uma classe média surgida da industrialização.

Se formos mais a fundo, o udenismo atravessa também outros campos políticos: o próprio PT se baseava nesse pathos. Nos anos 1980 e 1990, a legenda cresceu com o discurso da ética na política, da mudança de práticas, do partido de trabalhadores não só limpo como militante contra as chagas de uma elite patrimonialista. A leitura petista trazia as marcas da sociologia de Raimundo Faoro.



O petismo se desvencilhou do udenismo por conta dos escândalos do primeiro mandato de Lula. O Mensalão jogou por terra a imagem do "partido da ética", e a turma da estrelinha nunca mais recuperou a aura. Eles perderam o apoio da classe média udenista com culpa burguesa [uma fatia esquerdista da classe média], do proletariado ascendente, e adquiriu feições muito mais populistas, outra ironia histórica.

Voltando à direita, o lavajatismo nada mais era que um udenismo de toga, herdeiro de certa postura 'tenentista'. Não há símbolo maior dessa ala do que espíritas [kardecistas] acreditando que Sérgio Moro era reencarnação de Emanuel.



Acontece que o udenismo não é a totalidade da direita, e é mais eficiente para destruir estruturas e desestabilizar governos do que para se consolidar de forma programática e propositiva. É muito difícil ao udenismo sobreviver à experiência do poder, que é sempre realizada em adequação com elites que são a coluna vertebral das hierarquias sociais, e com instituições seculares que são os fundamentos da nação organizada.

Se é possível evocar dois outros símbolos da insuficiência do udenismo, lembremos de Jânio Quadros e Collor. O primeiro era a "vassourinha" que limparia o Brasil da roubalheira e das imoralidades, fosse criando o ponto para funcionários públicos ou proibindo biquínis nas praias. Durou meses no poder, e foi tão exótico e delirante que hoje ficamos surpresos com o tamanho do mito criado em torno de algo com tão pouca substância, como era o político Jânio Quadros.



Já Fernando Collor trazia outras marcas. Era herdeiro de uma antiga oligarquia política, e um dos grandes oradores do país. Existia algo de messiânico em torno de sua figura, trabalhada nos detalhes para ser misto de juventude, heroísmo, coragem. Collor era o "caçador de marajás" e o ungido do então "todo poderoso" Roberto Marinho. Mas não teria vicejado caso não tivesse uma verve populista vibrante. Obviamente, seu governo se esfacelou por falta de base parlamentar, o mesmo problema que angustiava Jânio e o levou à tentativa de um golpe bonapartista.

O udenismo não é páreo para o populismo. Uso este último termo de forma técnica, e não pejorativa, me referindo a lideranças carismáticas que mobilizam as massas em torno de uma abordagem maniqueísta da sociedade e encarnam pessoalmente todo uma confluência de elementos da cultura e história política das classes que representam.



O udenismo pode até se associar ao populismo, mas não sobrevive contra ele, uma lição que a realidade ensinou ao PT -- e quem não se deixou convencer abandonou o barco em prol de novos purismos [o PSOL, por exemplo]. O partido da estrelinha há tempos gravita em torno do fenômeno populista do lulismo.

Pois bem, a nova direita, que nasceu impulsionada pela udenismo, mergulhou no bolsonarismo. Jair nunca foi um personagem udenista, ele é membro do baixo clero, e construiu sua carreira como um tipo de 'sindicalista' ou representante corporativo dos baixos escalões do Exército. Era o sujeito que defendia os direitos e as remunerações de cabos, sargentos e tenentes, que até os anos 1990 eram muito baixas.



Mas os udenistas se abraçaram a Jair na tentativa de influenciá-lo. Não foram os únicos, os generais-políticos, os intervencionistas, as olavetes, e até mesmo Paulo Guedes imaginaram a mesma coisa. Depositaram as fichas em um fenômeno muito antigo da política brasileira, representado por uma personagem oriundo do velho nacionalismo anti-trabalhista do regime civil militar.

E aí chegamos a Flávio, que entrou na política por inspiração do pai, e reproduzindo o mesmíssimo viés ideológico, mas com temperamento e carreira muito distintas. Flávio é não só um homem marcadamente do "centrão", e herdeiro de uma nova oligarquia política, como alavancou seu eleitorado em torno das polícias militares, especialmente o fenômeno das milícias no Rio de Janeiro.





Jair Bolsonaro não é, ele próprio, oriundo desse círculo. Podemos até vinculá-lo aos porões do regime civil-militar, toda aquela podridão que fazia cm que escalões médios das Forças Armadas chamassem Ustra, um torturador de mulheres, de ''heroi anticomunista". Mas a carreira partidária de Bolsonaro se fundamentava nos votos de militares subalternos: era um voto corporativista, de representação de categoria, obedecendo a uma lógica econômica e marcadamente de "classe profissional". Não era voto ideológico, ainda que o pouco apreço de Bolsonaro pelo regime democrático fosse conhecido desde seu primeiro mandato em Brasília.

A proximidade do bolsonarismo com o fenômeno rasteiro, criminoso e degradante das milícias vem a partir da ascensão de Flávio. Este sim um parlamentar sem biografia no Exército, mas que surfou o caos de segurança pública fluminense durante os anos de Sérgio Cabral.



Flávio conquista a vaga de deputado estadual na mesma eleição que entregou o primeiro mandato de Presidente a Lula. Foi carregado para a Alerj pelo nome do pai, muito forte entre ativos e inativos do Exército: a cidade do Rio de Janeiro concentra um quarto dos militares do Exército de todo o país. Mas elaborou uma estratégia de "complementaridade" do legado familiar, investindo na construção de uma base eleitoral entre as polícias. Vem daí suas iniciativas de condecoração de Adriano da Nóbrega e sua aproximação com o que mais tarde se tornou o submundo das milícias cariocas.

Não significa que Flávio seja ele próprio miliciano, óbvio que não, e sim que se tornou representante de uma categoria de segurança fortemente corrompida pelo fenômeno das milícias, com os quais ele tentou compactuar durante seus três primeiros mandatos, e para os quais arrastou em certa medida o pai.



Ainda que Flávio tenha afastado sua imagem desse meio, principalmente depois que Jair alcançou projeção nacional como aríete do antipetismo e do anti-identitarismo, esse passado está marcado em sua testa, e é boa parte de sua biografia político-eleitoral. Além disso, ele é também o sujeito dos "pequenos esquemas", dos "rolos" típicos da Alerj e do baixo clero do Centrão. Não há qualquer coluna vertebral ideológica própria que não seja parasitismo do carisma muito mais genuíno do pai.

Sérgio Moro e Deltan Dallagnol apoiam Flávio Bolsonaro para Presidente. No caso, é por sobrevivência política e hipocrisia óbvia, pois é impossível que eles não saibam quem é Flávio, o menos ideológico e mais carreirista dos filhos de Bolsonaro.

Mas e o eleitorado udenista? Talvez esteja fazendo como o eleitor intervencionista, ou mesmo o liberal. Quieto, algo envergonhado, constrangido: e ainda assim cravando 22 nas urnas por conta do antipetismo.


quarta-feira, 22 de julho de 2026

O ODISSEU DE NOLAN E O CRISTIANISMO, ou: os horizontes da Odisseia de Nolan



Há quem diga que a abordagem que Nolan faz de Odisseu o aproxima de uma perspectiva cristã. Eu discordo bastante dessa interpretação do filme. Não é porque alguém sente culpa ou remorso, ou se mostra traumatizada pelo próprio passado, que está adotando só por isso uma posição cristã.


As consequências da Guerra de Tróia já eram avaliadas de modo crítico pelos próprios gregos. É uma complexidade presente já na poesia homérica. A Ilíada é uma celebração guerreira, mas termina com um funeral. A Odisseia retrata Aquiles, principal herói aqueu em Tróia, como uma sombra que se lamenta de seu destino no Hades. O próprio Odisseu adquire glória não por causa da força e destreza militar, mas da Métis e da Eusebeia, como comentei no texto anterior. [clique para ler]


Os mitos sobre os heróis que retornavam do conflito também trazem diversas 'condenações' à hybris ou à desmedida dos protagonistas. Basta notar o que acontece com Ajax, o Menor, por ter estuprado uma sacerdotisa de Atena no santuário da deusa durante o saque a Tróia. O cenário é obviamente similar a um dos traumas sofridos por Odisseu, a violação do templo deusa Atena e a decapitação de uma de suas sacerdotisas.



Tanto na filosofia quanto na tragédia grega posterior há, ao mesmo tempo, admiração pelos feitos guerreiros e uma visão trágica sobre a corrupção e a degradação trazida pelo conflito. Eurípedes e Sófocles se concentram, mais das vezes, no sofrimento dos vencidos, mostrando estupros, infanticídios, escravidão. E também enfatizam as consequências nos vencedores, como a locura de Ajax, o Maior; ou a covardia cometida por Neoptólemo, filho de Aquiles, contra o Rei e ancião Príamo.


O suicídio de Ajax, o Maior, pela vergonha de destruir rebanhos ao confundi-los com inimigos, loucura enviada a ele por Atena como punição por sua hybris, é um dos maiores e mais profundos dramas gregos. Inclusive pela recusa de Odisseu de rir do ridículo do herói, "hoje ele, amanhã sou eu".



Os romanos, que se consideravam descendentes dos troianos [por meio de Enéias], não condenam moralmente a trama do Cavalo, mas seguiram os passos dos gregos na reflexão sobre a natureza e os limites da Métis: quais os resultados de uma vitória que vem pela trapaça, quais os limites da mentira e da manipulação política? O próprio Odisseu -- e Sinon, que é encarregado de enganar diretamente os troianos -- é visto doutra maneira por eles.


E se a responsabilidade dos heróis e o custo indizível da guerra coloaram importantes questões para o pensamento grego, os romanos propuseram algumas respostas: o sofrimento desencadeado em Tróia estava submetido à Providência, os deuses tiraram daquilo tudo um bem ainda maior, que era a civilização romana. A resiliência de Eneias, sua pietas, o tornou instrumento da edificação de Roma. A ''piedade" para os romanos estava acima do Kleos [glória guerreira] de Aquiles e do Nóstos [Retorno legitimado pelos deuses] de Odisseu: era o senso de missão e de dever para com os deuses, a pátria, e a família, que só podia ser realizado com renúncia e sacrifício pessoal.



O Cristianismo não trouxe nenhuma novidade nesses tópicos ao ler Homero. Na verdade, seguiu passos condizentes com o neoplatonismo, cujo intuito era conciliar as críticas que Platão fazia aos mitos e aos épicos com a própria importância dessas obras para a cultura helenista. Daí a tendência de ver na Odisseia uma jornada mística e/ou iniciática da alma que retorna a Deus.


A singularidade de Nolan nesse campo é a redução do substrato metafísico que o sustenta, e a reelaboração da narrativa a partir de uma psicologia contemporânea. Os traumas e remorsos de Odisseu o incapacitam para ser quem ele [pensava] que era. Se a Odisseia é retorno, em Nolan não há retorno algum. Tampouco há ascensão mística, santidade, ou reintegração no Uno. Temos, isto sim, um indivíduo que se livra de seu mundo e pensa em se reconstruir em algum outro lugar.




As diferenças tem tudo a ver com o público e o tempo para o qual se dirige Nolan. Os gregos queriam perpetuar ou retornar ao mundo heróico. Os filósofos especulavam sobre a Justiça e a contemplação da Verdade. Os neoplatônicos queriam se unir ao Absoluto. Os cristãos pensavam ascender de poder em poder, de glória em glória, até a imortalização e deificação na Luz Divina.



A cultura estadunidense, que financia e consome Nolan, tem um noção diferente de 'heroísmo' e drama existencial humano. Para eles, a questão é encaminhar bem os filhos, e depois cumprir o ideal de mergulhar na estrada da esperança, da liberdade, do futuro, da independência, da possibilidade do recomeço, para esse mundão do futuro aberto à frente, em que tudo pode vir a ser.


Odisseu só quer pegar Penélope, colocar na garupa da moto, e encarar a Route 66.


terça-feira, 21 de julho de 2026

"A Odisseia" de Nolan: O Mito de cabeça pra baixo

 «Vede bem como os mortais acusam os deuses! 
A partir de nós (dizem) existem os males, quando são eles, 
pelas suas loucuras, que têm dores além do destino!"

Odisseia 1.32-34




Uma análise justa de "A Odisseia" [2026], de Christopher Nolan, tem de separar o "arrasa-quarteirão" dos méritos e deméritos da adaptação de uma obra fundacional. Hollywood provou que ainda sabe fazer um bom "pipocão". Mas o entretenimento não é suficiente para tirar do paladar o amargor da ausência de referências mais sólidas na releitura do mito. E aqui cabe falar antes de releitura do que de simples "adaptação".


Ainda que Hollywood tenha, por uma questão de sobrevivência do negócio, dado tímidos passos atrás no seu apoio desbragado à guerra cultural progressista, toda tentativa de dinamizar o "evento cinematográfico" e trazer de volta o público para as salas enfrenta a mesma desconfiança: Ninguém quer pagar ingressos caros para assistir um roteiro que não passa, no fundo, de um retalho de propaganda ideológica liberal.




Entretanto, os problemas dessa "adaptação" não se encontram propriamente nesse nível. Não estamos diante de um novo "Alexandre" [2004], de Oliver Stone. Claro que há propaganda liberal, seria impossível se livrar dela por inteiro no produto de um grande estúdio de Hollywood.

Elas incomodam mais pelo ridículo da situação, tão deslocadas parecem da ambiência "homérica", como os laivos feministas no pobre texto de Penélope [Anne Hathaway] e de uma irreconhecível Circe [Samantha Morton], retratada como uma idosa camponesa medieval ultrajada com a fama de "bruxa"; a critica à mentalidade sacrificial [e que respinga em certas teologias cristãs]; o raquítico Sinon vivido pelo homem trans Elliot Page; ou pela imensa forçada de barra de uma Helena negra [Lupita Nyong'o] em uma cultura aristocrática que tinha por ideal de beleza feminina a mulher alva, pálida, de pele menos tocada possível pelo sol.

[A "Helena de braços alvos", epíteto conhecido da Ilíada, e traduzida brilhantemente por Manoel Odorico Mendes como "Helena bracicândida", ressaltando a impressão de irradiação de luz da pele branca intocada que era o ideal de beleza aristocrática feminina da Grécia Arcaica.]



O filme dá munição para os que desejam vetá-lo a partir desses elementos. Mas o diretor os encara como periféricos, e sua reconstrução passa ao largo desse tipo de debate, bastando para tanto deixar de lado dois pressupostos fundamentais para os que se atém a esse tipo de crítica.

Nolan não pretende uma reconstrução histórica da civilização que gerou a Ilíada e a Odisseia; ou seja, a sociedade da 'Idade das Trevas' grega saudosa de seu passado 'micênico', e descrita de modo perspicaz no monumental "O Mundo de Ulisses", de Moses Finley. Tampouco se trata de uma transposição para a telona dos temas e valores da poesia homérica e da Grécia dos séculos VIII e VII a.C. O filme assume explicitamente que é uma releitura "ampliada" do clássico -- e o peso dado a tópicos da Eneida está longe de ser um acaso quanto a este ponto.



A favor de Nolan, é possível apontar que a releitura crítica da Odisseia faz parte da própria história grega, um mundo em que a ontologia divina, a cosmologia e a ordem humana estão imbricadas.

A poesia homérica trata do problema da restauração da ordem após a hybris heroica na Guerra de Troia. Do retorno [Nóstos] do Rei como reinstalação do mundo social legitimado pelos deuses. Odisseu é novo modelo heroico por sua capacidade de prevalecer pela métis, virtude que compartilha com a deusa Palas Atena, uma forma específica de inteligência estratégica e engenhosa, característica do navegador, do investigador e também do "trickster", marcado pela astúcia e trapaça.

Por outro lado, a sagacidade de Odisseu não obscurece sua natureza eminentemente guerreira, como se lê no banho de sangue que ele promove contra os pretendentes que parasitam e desonram seu palácio, e contra os servos que lhe foram infiéis; tampouco pode ser dissociada do fundamento religioso da epopeia.



O retorno do Rei é também uma reintegração à ordem do ser: Odisseu é expressão não só da Métis de Atenas, mas também da Eusebeia, a piedade que o move insistentemente para uma correta relação com os deuses. Seu retorno não é um drama pessoal de vingança, típico topos hollywoodiano, mas uma cura do miasma da hybris, uma punição aos que romperam com a xenia [a hospitalidade que simboliza Zeus], e uma manifestação da Justiça entre os homens.

Como heroi, ele navega por estados liminares sem esquecer quem é e qual seu lugar na hierarquia do Cosmos: Rei de Ítaca, marido de Penélope, pai de Telêmaco. A memória é o 'fio de Ariadne' que permite a conexão com a verdade instaurada e guardada pelos deuses.

Os gregos dos séculos posteriores discutiram a real natureza da métis de Odisseu. No contexto da polis, do surgimento da filosofia, dos embates sofísticos, e dos conflitos dos séculos V e IV a.C., eles focaram no impacto das consequências da guerra, capaz de degradar tanto vencedores quanto vencidos, e pensaram o mito na perspectiva da pedagogia e da arte do governo [Telemaquia]. A reinterpretação culminou com a abordagem metafisicamente pesada do neoplatonismo, em que a Odisseia se transforma em uma jornada iniciática da alma rumo ao Uno, leitura que foi cristianizada na Antiguidade Tardia e na Alta Idade Média, em que a ascensão mística ganha o sabor de uma peregrinação.




Nolan dialoga com algumas dessas chaves hermenêuticas, mas adotando uma antropologia e cosmologia bem diferente. Não encontramos uma história sobre a Justiça, a reintegração ao Absoluto, o regresso à Pátria Celeste, ou a realização metafísica. É verdade que adaptação flerta com a tragégia grega e com Virgílio ao ver a Guerra de Troia como uma catástrofe, e no questionamento do estratagema do Cavalo de Troia, que permitiu a vitória aquéia e imortalizou o heroísmo de Odisseu, mas que os romanos percebiam sob o signo de um ardil moralmente dúbio.

Assim, na reprodução da viagem ao Hades, Sinon confronta Odisseu por ter sido reduzido a um mero instrumento nas tramas e mentiras do heroi. Em certa medida, há também menção ao foco romano na Providência dos deuses, que causam sofrimento visando uma glória maior -- que em Virgílio significa a fundação de Roma a partir da carnificina e da destruição em Troia. O Odisseu de Nolan também se reconcilia com a "mão dos deuses" no último terço da obra, e reivindica o direito de aplicar a Métis no episódio da escolha entre o Redemoinho Caríbdis e o Monstro Cila.




Aliás, é um erro dizer que Nolan adota uma postura 'agnóstica' quanto aos deuses. Eles estão no filme, e intervém na história a partir de símbolos. Trovões manifestam a vontade de Zeus para Calipso, tempestades no Mar indicam a punição de Poseidon, e a destruição da tripulação prova a fúria de Hélio. "Por que os deuses não falam claramente?", se pergunta o personagem de Matt Damon para obter a resposta da suposta Atena: "Há algo mais claro que um Raio, que uma Colheita favorável, que a Morte?"

Do mesmo modo, a imaginação mitológica não é eliminada: as sombras no Hades expressam o escândalo do destino humano e são evocadas por um sacrifício; Circe usa feitiços para transformar seres humanos em animais; o vidente Tirésias desvela as possibilidades futuras para Odisseu; há ciclopes que pastoreiam ovelhas e devoram homens; há sereias que seduzem e destroem com o canto.

E, no entanto, a presença desses elementos é diminuída radicalmente para ceder ao drama existencial humano, é simplificada e condensada ao máximo a fim de passar a um segundo ou terceiro plano. A única antropomorfização de uma divindade se demonstra, no fim das contas, uma projeção do remorso sentido pelo protagonista.

Aqui se encontra a chave hermenêutica para o filme de Nolan, e que torna sua leitura uma ruptura brusca com o sentido tradicional da obra. O interesse do cineasta está na psicologização de Odisseu. Os herois tem responsabilidade na tragédia da guerra e da crise civilizacional, como na abordagem grega, romana e cristã. É um caos provocado pela hybris dos gregos, e não pela invasão de povos estrangeiros -- e assim Nolan usa o debate historiográfico sobre o fim da "Idade do Bronze" pela chegada dos "povos do mar" como sinalização das questões políticas da sociedade ocidental atual.




O ponto fundamental, no entanto, é que esses elementos são lidos a partir de uma antropologia e cosmologia moderna, são traumas que fragmentam e inviabilizam a identidade do protagonista.

Para Nolan, não há retorno possível. Nem para Ítaca, nem para a Ordem Justa, nem para o Uno, nem para Deus. Depois do que viu e fez, Odisseu já não pode ser mais o mesmo, nem há um universo que permita sua ascensão a estados superiores. A métis jamais será encarada novamente sob o signo da dádiva e da participação divina, mas também como maldição que não traz nem real sobrevivência nem uma possível restauração, é antes instrumento na ruptura de um "pacto" civilizacional. A memória não é o liame entre os homens e a verdade inscrita no ser, mas fardo pesado cuja dor se quer entorpecer com a flor de lótus. Odisseu assume que merece o exílio, e mais do que isso, o deseja, o vê como alternativa viável.

Daí a necessidade premente de modificar o final da obra. Assim como em Dante, o protagonista escolhe navegar para o Oeste. A brutal diferença é que na interpretação dantesca a decisão é um erro, expressão da mesma hybris que desafiou os deuses e foi causa da calamidade: Ao violar os Portais de Hércules, Odisseu é fulminado por não respeitar os limites da natureza humana.



O filme inverte essa perspectiva. O heroi não vai repousar na Pátria, nem terrena nem Celeste, nem no mundo fundamentado pelo divino, nem na Contemplação do Belo, nem na Reintegração ao Absoluto. A História pode continuar sem ele, pois sua identidade não foi [re]descoberta nem realizada. Ela será reconstruída na partilha do desconhecido com uma pessoa amada, única honra possível aos mortos.

É possível forçar a mão e ver algo da melancolia e tristeza diante de um mundo que se esvazia, como na partida dos elfos e de Frodo em Tolkien. Mas o tom predominante é da abertura dos indivíduos para o futuro à sua frente, em que mergulham não para se encontrar, mas para se refazer em outras circunstâncias. Nada mais moderno, nada mais anti-homérico.



Por fim, e para não dizer que não falei em flores, "A Odisseia" tem de ser colocado em seu devido lugar: um filme hollywoodiano, e como tal capaz de trazer momentos memoráveis na reconstrução do Hades, na sequência da trama do Cavalo de Troia, no horror na caverna de Polifemo. Há também mau gosto, no caso da representação dos lestrigões, de Circe, e de Agamênon. E traz defeitos típicos do cinema de Nolan: parco desenvolvimento dos personagens, tendência ao 'naturalismo' e à racionalização.

Não é um evento cinematográfico espetacular, como vendido pela propaganda, mas merece a ida ao cinema. Já como "adaptação", ou melhor, releitura de Homero, é sofrível, expressão de todos os limites da sensibilidade contemporânea para lidar com temas verdadeiramente Universais.


sexta-feira, 17 de julho de 2026

A FINAL DA COPA DO MUNDO E O RETORNO ÀS RAÍZES


A Argentina vence porque pratica um futebol que respeita suas raízes? O Brasil perdeu porque abandonou sua "essência"?

Uma das tendências mais comuns em derrotas de Seleções campeãs é o debate sobre a perda de uma identidade que era garantidora de sua outrora qualidade. O debate se dá no plano do imaginário, do mito, sem apego aos fatos e aos processos de desenvolvimento do futebol.

O que ele expressa, antes de tudo, é um impulso arcaísta que pode ser usado para manter a autoestima de determinada escola enquanto ela fica distanciada das épocas de glória. Afinal, se perdemos sem nossa "essência", somos nós de fato que perdemos?



A escola sul-americana dos anos 1920 desenvolveu um estilo que visava se contrapor ao futebol inglês: trocas de passes curtos, envolvendo a defesa adversária por meio da circulação da bola, de tabelas, de triangulações. Exigia uma técnica refinada, um domínio preciso da pelota.

Os escoceses foram seus predecessores no século XIX, e a escola danubiana -- nascida no Império Austríaco, e que se estendeu por terras tchecas, eslovacas, e húngaras -- lhe deu continuidade.

Na América do Sul, no entanto, havia uma particularidade: o drible, a finta, o malabarismo com a bola, que inventava jogadas que deixavam o público estupefato. Essa criatividade apresentou ao mundo o 'peixinho', a 'bicicleta', o 'toque de calcanhar' etc.

O grande rival do Uruguai bicampeão olímpico era a vizinha Argentina, medalhista de prata em Amsterdã. O Uruguai voltou a prevalecer na final da primeira Copa, em 1930, com uma goleada de 4 a 2.



Foram duas as explicações propostas para o predomínio da Celeste. Primeiro, a suposta garra charrúa, característica distintiva permitia aos uruguais jogar com mais raça que os 'hermanos'. A segunda, menos laudatória, era o apego da Celeste à disciplina tática. Os uruguaios eram as "formigas", e os argentinos eram as "cigarras".

O futebol argentino caótico em relação ao do vizinho. "La Nuestra", como passou a ser conhecido, era uma forma de atuar que privilegiava a estética sobre a organização. O jogador tinha de entreter o púbico e também se divertir em uma competição voltada para o ataque e para o craque.

"La Nuestra" não era, portanto, um dado sistema tático, uma determinada disposição dos atletas em campo, nem mesmo se confundia com o ímpeto de garra que muitos hoje associam aos argentinos. Era colocar a beleza e o "jogar bem" acima do "esquema".



A derrota na final de 1930 foi o primeiro grande trauma do futebol argentino. A adoção do profissionalismo foi acelerada também por causa da consciência da derrota. Ao longo dos anos 1930 e 1940, o futebol dos hermanos se isolou do cenário internacional. Foi o auge de "La Nuestra", cujo prestígio a levou a ser exportada para outros cantos da América do Sul -- como a Colômbia.

O isolamento produziu também um mito de superioridade destruído quando a albiceleste voltou a disputar uma Copa, na Suécia 1958. Eles perderam na estreia por 3 a 1 para a Alemanha Ocidental, então campeã. No terceiro jogo da fase de grupos, o Desastre: uma sova de 6 a 1 diante da Tchecoslováquia.

A catástrofe levou a uma ampla reflexão e reformulação no futebol argentino. Eles passaram a importar modelos europeus de treinamento e de organização tática. Tentaram jogar com líberos, se modernizar, ampliar a disciplina, e adotaram um estilo mais defensivo. Criou-se no país um complexo de inferioridade física em relação a Europa: o atleta argentino seria franzino demais para a força do futebol dos anos 1960/70.



O futebol de clubes sentiu o impacto com o surgimento do Estudiantes de Zubeldía, voltado para a vitória a todo custo, incluindo a violência e e o abuso da 'picardia' [o jogo mental com o qual os argentinos visavam abalar psicologicamente os adversários]. A mídia do país qualificou essa fase de ''antifutebol'', que apesar disso teve continuidade, em maior ou menor grau, nos gramados do país.

E então mais um trauma: a desclassificaçao nas Eliminatórias para 1970. Os hermanos ficaram de fora daquela que, para muitos, é a maior Copa da História por perderem a vaga para o Peru.

Esse novo desastre levou a uma polarização em torno de duas ideias, cada uma delas personificada por um treinador. Menotti defendia um futebol técnico, de posse de bola por meias, com pontas, voltado para o ataque, que fosse expressão cultural da história argentina, ainda que modernizado pelas inovações que o Brasil e a Holanda trouxeram ao jogo. Foi desse modo que a Argentina levantou o caneco em 1978.



Já Bilardo, antítese de Menotti, queria pragmatismo, adequação aos adversários, um poder ofensivo que gravitasse em torno de um "segundo atacante/ponta-de-lança" sustentado por um poderoso sistema defensivo. Foi um dos pioneiros do 3-5-2, que ele próprio transformava em um 5-3-2 por meio do reposicionamento dos alas. Foi desse modo que a Argentina venceu a Copa de 1986.

Entre a final da Copa de 1986 e o início do Mundial de 1990, a Argentina jogou 31 vezes, e saiu de campo apenas com seis vitórias. Passou pela fase de grupos na Itália como um dos melhores terceiros colocados, após derrota vexatória para Camarões na estreia, e um lance polêmico em que Maradona usou a mão para evitar um gol no enfrentamento contra a União Soviética. A Argentina se viu diante do Brasil nas oitavas-de-final, e avançou em um daqueles jogos que se devem ao "sobrenatural de Almeida". Mal passou do meio campo, recebeu uma saraivada de golpes, e quatro bolas nas traves, mas decidiu a partida em um contra-ataque raro de Maradona e Cannigia no fim do segundo tempo.



Nas QF e SF, a estratégia argentina era arrastar o jogo, atuar por uma bola ou por um lance de Maradona, e confiar na disputa de penaltis, em que se destacava soberbamente o goleiro Goycochea, que ganhou a posição quando o titular Pumpido quebrou uma das pernas ainda na primeira fase. A Argentina tinha um jogador que era comparado então a Pelé, mas seu grande heroi na Copa era um goleiro pegador de pênaltis. Nada mais distante de ''La Nuestra", não apenas em execução, mas também em espírito.

Depois, o grande desafio era se adaptar a um mundo sem Maradona. A primeira tentativa colapsou em mais um trauma: a goleada implacável de 5 a 0 imposta pela Colômbia em pleno Monumental de Nunez, nas Eliminatórias para os EUA 1994. A albiceleste disputou a a repescagem contra a frágil Austrália. Maradona voltou à Seleção, que teve bons momentos nos EUA, apenas para que as ilusões se desfizessem com o teste que revelou o doping de Diego.

Como recuperar os anos de vitória? A epopeia argentina passou pela disciplina espartana de Passarela, que proibiu, dentre outras coisas, cabelos longos na Seleção. [Quando o craque Redondo cortou as madeixas, foi acusada de hipocrisia por Maradona.] Depois, a revolução tática do impetuoso Bielsa, o "Louco", um dos defensores do 3-4-3 e dos esquemas coletivos rígidos, em que os jogadores eram peças de um jogo de xadrez em que o protagonista era, na verdade, o técnico. Tão radical era Bielsa que ele não encontrava espaço em seus esquemas para a exuberância de um Riquelme.



Todas essas tentativas terminaram em fracasso e numa freguesia crescente diante da Seleção brasileira.

O surgimento de Messi transformou, por muito tempo, o sonho de um novo Maradona em um novo tipo de pesadelo: os hermanos tinham o melhor jogador do século, mas invariavelmente perdiam, fosse com Bielsa, fosse com um jogo de posição "guardiolista" [Sampaoli]. Nenhum sistema, método, estilo, ou forma de jogar parecia resolver o problema crônico: 36 anos sem Mundial, 28 anos sem uma mísera Copa América.

Scaloni promoveu um retorno às raízes? Ressuscitou "La Nuestra"? Na verdade, a Argentina de 2022 era pragmática e flexível. Mudou a escalação sete vezes em sete jogos para se adaptar aos adversários. Se testou na superação do fracasso da estreia, uma derrota de 2 a 1 para a Arábia Saudita. Avançou tendo 5 penaltis a favor no tempo regulamentar em 7 partidas, e prevalecendo em duas disputas por pênaltis nos quatro mata-matas que enfrentou. Não era "La Nuestra", e sim adaptação, vontade de vencer, e as circunstâncias.



A equipe atual chega a mais uma final no mesmo espírito. Não realiza transições porque Messi não as suportaria. Concentra o jogo no corredor central porque faltam jogadores de qualidade que atuem pelas pontas [Scaloni tentou algo no sentido com Simeone no jogo contra a Inglaterra mas com resultados muito pequenos]. Prefere trocas de passes em torno de Messi porque é a forma que tem para potencializá-lo.

É um modelo tático irrepetível por qualquer outra equipe, e que dá enormes desvantagens à própria albiceleste [como se viu nos jogos contra Egito, Suíça e Inglaterra]. Mas a Argentina sempre encontra um modo de sair vitoriosa, nem que seja em meio a polêmicas. É um time com espírito vencedor.

A História do futebol argentino não é a da ''manutenção das raízes'', mas da contínua reinvenção depois de derrotas e períodos traumáticos, e da adaptação aos tempos com o objetivo de chegar à vitória. Se há algo de estável no futebol dos vizinhos é a perene qualidade de seus jogadores e seu apreço à vitória, não um sistema tático ou estilo de jogo específico.


segunda-feira, 6 de julho de 2026

ENTRE O VIRALATISMO E O PACHEQUISMO: QUAL O PROBLEMA DA SELEÇÃO BRASILEIRA?

"Em 58, na véspera de Brasil x Rússia, entrei na redação. Tiro o paletó, arregaço as mangas e pergunto a um companheiro: "Quem ganha amanhã?" Vira-se para mim, mascando um pau de fósforo. Responde: -- "Ganha a Rússia, porque o brasileiro não tem caráter. Eis a opinião dos brasileiros sobre os outros brasileiros -- não temos caráter. [...] Essa falta de autoestima tem sido a vergonha, sim, tem sido a desventura de todo um povo."


Nelson Rodrigues, 20/06/1970

Declarar que a Seleção tem capacidades para vencer se tornou sinônimo de 'pachequismo'. O normal, para boa parte da torcida, é afirmar que NÃO há qualquer possibilidade de vitória.


A derrota passa a ser esperada, até desejada, e vista como um alívio, até por confirmar o viés inicialmente derrotista.

Muitas vezes, essa abordagem está ligada também a uma postura ácida em relação às perspectivas do país, às vezes até ao desejo de que a Seleção espelhe o diagnóstico de mediocridade, perfídia e desesperança que enxergam na ideia de Brasil.

Essas associações são possíveis por conta do peso que a Seleção tem no imaginário nacional e do próprio papel do futebol na política e cultura global. Para aqueles com uma visão negativa do Brasil, a Seleção sempre foi empecilho. Difícil explicar como uma sociedade tão sem horizontes conseguiu gerar um futebol tão rico, vencedor e admirável.

Essa Copa mostrou o predomínio quase que total do ethos derrotista por parte do torcedor comum, de um modo que, talvez, não fosse visto desde a Era pré-Pelé, em que Nelson Rodrigues denunciava o "complexo de vira-latas" na alma nacional.

A abordagem sempre esteve lá, mas agora ela é hegemônica. Não se resume a criticar estruturas corruptas das instituições esportivas, a administração periclitante dos clubes, a falta de organização, ou a defasagem tática [como em 2014/18]. O que se diz é ainda mais impactante: o Brasil não teria jogadores para vencer a Copa do Mundo.

Essa é uma crença impressionante quando se trata de Seleção brasileira, historicamente considerada uma superpotência no mundo da bola. Uma análise do elenco da Seleção por meio do valor de mercado a torna ainda mais significativa.

O escrete de 2026 está entre os seis mais valiosos da Copa [praticamente empatado com a quinta posição, a Alemanha]. O valor aumentaria muito se Estevão, Wesley, Rodrygo, João Pedro, Militão participassem do Mundial [quatro deles não foram por lesões, e um deles foi preterido em prol de Neymar].

Com esses "reforços", o valor do elenco subiria mais uns 200 milhões de euros, passaria Portugal, empataria com o terceiro colocado [a Espanha], ficando apenas abaixo da França e da Inglaterra.

É surpreendente dizer que um elenco tão valioso no mercado global da bola "não tem chances de vencer a Copa do Mundo". A Argentina, atual Campeã, tem elenco de menor valor no mercado global. Marrocos 'vale' menos da metade que o escrete brasileiro.

Alguns diriam que o mercado "superestima'' o elenco brasileiro, mas é um mau argumento. O atleta "vale" o que o mercado está disposto a pagar por ele. A avaliação não se fundamenta em caridade, mas em ferrenha, competente, e permanente análise de desempenho, que se ajusta e regula constantemente. Erra aqui e ali, mas indiscriminadamente, sem olhar bandeiras.

O elenco brasileiro é um dos mais valiosos do planeta porque é percebido no mundo como um dos melhores. Não como o "melhor", mas como capaz de figurar entre os três/cinco mais qualificados.

Objetivamente, portanto, o Brasil tem jogadores com qualidade para vencer a Copa do Mundo. Não falta também comissão técnica, já que somos geridos por um dos grandes treinadores do mundo. É possível criticar Ancelotti de várias maneiras, mas não dá pra sustentar que ele não conhece futebol, e que não seja capaz de montar equipes vencedoras.

Isso leva a percepção da torcida para outro rumo. Se temos elenco para figurar entre os principais candidatos, por que o torcedor brasileiro se abraçou à desconstrução simbólica da Seleção? Mais ainda, há saída para uma Seleção que foi desconstruída simbolicamente por seus próprios torcedores?

A destruição simbólica da Seleção é plenamente compatível com gosto por futebol. As pessoas podem se identificar com este ou aquele clube, por diversas razões e afetos, e ao mesmo tempo desejar o fim do 'mito' do futebol brasileiro.

Esse embate de perspectivas não é novo.

Nelson Rodrigues escreveu que a vitória na Suécia tinha mudado o modo do brasileiro comum se entender. Escrevia ele que a humildade tinha sentido para os "césares industriais dos Estados Unidos". Já o escrete nos fazia a caridade de dar mania de grandeza a um país de paus de arara: "sentimos que o brasileiro deixava de ser um vira-latas entre os homens, e o Brasil um vira-latas entre as nações."

Em maio de 1958, poucos dias antes de começar a Copa da Suécia, Nelson escrevia que a derroa de 1950 gerou uma chaga e humilhação nacional que "nada, absolutamente nada podia curar". O brasileiro não conseguia acreditar na Seleção, não conseguia acreditar em si mesmo. Acrescentava que "gostaríamos de acreditar na seleção", mas éramos impedidos pelo "pânico de uma nova e irremediável desilusão."

O diagnóstico que Nelson Rodrigues fazia da alma brasileira é que o nosso problema era o de nos considerarmos inferiores aos demais. Era o "complexo de vira-latas". Explicava ele: "Dizer que nos julgamos os 'maiores' é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Porque, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade." Do mesmo modo, tínhamos perdido a decisão de 1950 porque Obdúlio Varela, líder da Celeste Olímpica, tinha nos tratado "a pontapés, como vira-latas".

Nesse sentido, o grande problema da Seleção não era técnico, tático, físico, estrutural etc. "É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer que não é um vira-latas".

Os escritos imortais de Nelson são uma amostra de que esse embate já estava colocado desde a gênese do futebol enquanto esporte de massas, e que a Seleção tem um papel central nele.

Mas se após o tricampeonato no México, parecia consolidar de vez a imagem da superioridade, agora vivemos em um cenário inverso. É difícil ver um horizonte de mudança de chave. O futebol brasileiro, incluindo sua torcida, nunca foi tão vira-lata. E talvez não exista saída para este buraco, já que em 1958 foi necessário um Pelé capaz de vencer três de quatro Copas disputadas para convencer a nação que éramos capazes.