quarta-feira, 8 de abril de 2026

NETANYAHU É A ALMA DO SIONISMO, ou: O Terrorismo sionista ao longo da História

Benjamin Netanyahu, que muitos judeus ortodoxos acreditam ser o precursor do Messias.

Muitos se agarram ao wishful thinking de que o problema de Israel se resume a Benjamin Netanyahu, como se o atual Primeiro Ministro fosse um desvio da história israelense. Mas "Bibi" é o telos inevitável do movimento sionista. Ele estava inscrito nessa ideologia desde o início, de modo que suas políticas são quase que a manifestação nua e crua do que Israel é por trás de todos os adornos e máscaras.


Muitos enchem a boca para falar da "democracia israelense", comparando-a positivamente em relação aos seus vizinhos e inimigos. Mas o partido ''eleito democraticamente'' em Israel é o Likud.


Não que a esquerda sionista seja muito melhor. Ela foi a força predominante no Estado judeu até meados dos anos 1970. E foi responsável por episódios como a limpeza étnica na primeira guerra árabe-israelense, em 1948 [chamada pelos árabes de Nakba, ''A Catástrofe"], e por casos de terrorismo como o Lavon Affair [a Operação Susana]. Foi responsável também pelas ocupações ilegais dos territórios palestinos e árabes após a Guerra dos Seis Dias.


Mas a esquerda sionista deixou de ser dominante em Israel. No fim dos anos 1970, a direita chegou ao poder, e progressivamente foi eclipsando os antigos trabalhistas. O processo se consolidou de vez com o fracasso das negociações de paz com a OLP, que atravessaram os anos 1990. Nos últimos vinte e cinco, trinta anos, o Likud domina o governo israelense, modelando suas políticas e exibindo de modo triunfante as marcas mais características do sionismo.


Começo pela foto abaixo. É Menachen Begin, Primeiro-Ministro de Israel entre 1977 e 1983, o homem que desbancou os Trabalhistas no Estado Judeu e representou a ascensão da atual direita. A história política de Begin está entrelaçada com a do Likud. E se inicia com o Revisionismo Sionista, de Jabotinsky, a ala oposicionista aos socialistas entre os anos 1920 e 1940.


Menachen Begin, símbolo da ascensão da direita sionista



Jabotinsky era ultra-nacionalista e defendia que o Mandato Britânico inteiro na Palestina deveria ser convertido em território do Estado de Israel, incluindo aí a Transjordânia [atual Jordânia]. Para impor sua visão, fundou e liderou uma milícia paramilitar chamada Irgun, que realizava uma série de atentados terroristas contra os ingleses e os árabes.


O Irgun teve participação importante na repressão da Revolta Árabe-Palestina entre 1936 e 1939, e alguns de seus atentados terroristas alcançaram infâmia internacional, como o Domingo Sangrento, em que pelo menos 10 civis árabes foram assassinadoss. O grupo comemorava o evento como uma ''Revolta Macabeia'', se referindo ao levante liderado por Judas Macabeu contra o governo selêucida no século II a.C.


Outro atentado de triste memória foi a bomba plantada em um mercado popular em Haifa, que matou 18 árabes, dentre eles seis mulheres e três crianças. São só alguns exemplos, já que as atividades do Irgun se estenderam até 1948, quando foi integrado às IDF [Forças Armadas Israelenses].

Jabotinsky, o ultra-nacionalista cujos sonhos de um Grande Israel são compatíveis com o sionismo religioso 



Pois bem, Menachen Begin entrou para o Irgun em 1942, tornou-se o principal comandante da milícia dois anos depois, e com a integração de seus quadros na IDF, fundou um partido político para dar continuidade ao legado do Movimento Revisionista de Jabotinsky, o Herud, ao qual voltarei mais adiante.


Antes disso, é necessário mencionar uma dissidência nascida no Irgun em 1940. Durante a Segunda Guerra Mundial, o grupo decidiu colaborar com os britânicos. O raciocínio era que a colaboração no esforço de guerra seria recompensada com um Estado judeu depois que o conflito terminasse.


Mas nem todos concordaram com o argumento. Um membro de nome Avraham Stern escolheu trilhar caminho próprio, e fundou uma nova milícia paramilitar chamada Lohamei Herut Israel ["Guerreiros pela Liberdade de Israel"], mais conhecida pelo acrônimo Lehi.


O Lehi implementou uma complexa política visando se aproximar do eixo nazi-fascista durante a II GM. Segundo eles, as restrições impostas pelo Mandato Britânico à compra de terras e imigração judaica faziam dos ingleses os inimigos do povo judeu. Os nazistas seriam apenas antissemitas, mas não seus inimigos. Eles poderiam ser manipulados. Stern tentou criar um acordo com os nazistas: O Lehi os ajudaria contra os ingleses e os alemães criariam um Estado Judeu após o fim da guerra. Todo mundo sairia ganhando, já que a limpeza étnica que os nazistas planejavam para os judeus, acreditava Stern, terminaria com a expulsão de todos eles para o novo Estado Sionista.


Desse modo, o Lehi se engajou em uma série de atos terroristas contra os britânicos. Sua principal inspiração era o IRA [O Exército Revolucionário Iraniano]. Aliás, o Lehi se declarava oficialmente terrorista em suas publicações oficias, como o famoso artigo Terror, em que se lê: "Nem a ética ou tradição judaica desqualificam o terrorismo como meio de combate. [...] Mas, primeiro e antes de tudo, o terrorismo é para nós parte da batalha política conduzida nas atuais circunstâncias".


Os atos de terrorismo do Lehi não se davam apenas na Palestina, eles alcançavam a Europa também.

O Grupo Lehi, considerado terrorista na Europa



Não devemos exagerar as divergências entre Irgun e Lehi. Logo depois do fim da II Guerra Mundial, ambos se uniram em uma estratégia conjunta para forçar os britânicos a entregar o Mandato na Palestina e fundar um Estado Judeu. Não só se coordenaram, mas contaram também com o apoio da Haganah, milícia sob controle dos socialistas sionistas. Os três grupos foram os pilares do Movimento de Resistência Judaica, que se abraçou de vez ao terrorismo, incluindo o atentado ao Hotel Rei Davi, em 1946, que matou mais de 90 civis dentre ingleses, judeus e árabes.


Lehi e Irgun também se envolveram em um episódio vexaminoso durante a primeira guerra árabe-israelense, que os sionistas chamam de "Guerra de Independência". Em meio à Nakba, provocaram o massacre da aldeia Deir Assain, que ficava próxima à Jerusalém. Dos quase 600 moradores palestinos, cerca de 200 foram assassinados, a maior parte em suas próprias casas.


A foto abaixo ajuda a entender a influência do Lehi em Israel. Trata-se de Yitzhak Shamir, Primeiro-Ministro de Israel em 1983/84, e depois de novo entre 1986 e 1992. Shamir fez parte do Irgun, e rompeu com o grupo junto de Stern. Quando este foi fuzilado em 1942, Shamir assumiu a liderança do Lehi. Com o fim do grupo, entrou para o Mossad [serviço de inteligência israelense] em meados dos anos 1950. No fim dos anos 1960, entrou para o partido Herud, que mencionei anteriormente, e que era liderado por Menachen Begin, antiga liderança do Irgun.

Yitzhak Shamir, o Irgun e o Mossad no poder


Alguns membros do Grupo Lehi foram condenados pela Justiça de Israel no início dos anos 1950 depois que assassinaram o Conde sueco Folke Bernadotte, um herói na libertação dos judeus de campos de concentração durante o Holocausto. Mas todos foram perdoados pela Justiça. Israel criou desde os anos 1980 a condecoração Lehi, conferida a israelenses por coragem e bravura em guerra.


Voltando ao Herud: quando de sua fundação muitos judeus progressistas da Diáspora se pronunciaram contra o novo partido em carta coletiva, datada de 1948, assinada por Albert Einstein e Hannah Arendt dentre outros. Na carta pública, o Herud é denunciado como um partido extremista com claros vínculos nazi-fascistas.


Mas isso não foi suficiente para barrar o partido. Durante algum tempo ele foi marginal na política israelense, dominada pela esquerda sionista. Mas o Herud conseguiu um crescimento expressivo quando montou uma coalizão com o Partido Liberal. O Gahal, ainda liderado por Begin, obteve uma expansão significativa de cadeiras no Knesset a partir do fim do anos 1960.


Na ocasião, Israel já passara a ocupar os territórios palestinos e árabes como consequência da vitória na Guerra dos Seis Dias. Enquanto a esquerda sionista pretendia trocar as terras por acordos de paz e reconhecimento mútuo com os governos árabes, a direita em torno do Herud proclamava abertamente que Israel deveria consolidar a posse dessas terras a partir de uma política de assentamento de colonos, principalmente na Cisjordânia.


O Herud se associou com pequenos movimentos conservadores e centristas em 1973, ano do trauma da Guerra do Yom Kippur, e fundou o Likud, nascido primeiramente como uma aliança de partidos sob liderança de Begin. O Likud era o centro do Movimento Grande Israel , cujo nome dispensa comentários. Em 1977, com o descrédito da esquerda sionista por causa dos impasses militares, e da condenação do sionismo pela ONU [1975], o partido finalmente conquista o governo.

O massacre dos palestinos em Shantila, o Líbano de ontem é o Líbano de hoje


Uma vez no poder, Menachen Begin conduziu o Acordo de Camp David com o Egito de Sadat, pacificando as relações com o maior país árabe. Em decorrência disso, ganhou o Nobel da Paz. Parece que concederam o prêmio cedo demais, pois dois anos depois Begin atacou o reator nuclear iraquiano, e em 1982 invadiu o Líbano para expulsar do país a OLP, dando início a uma ocupação militar que ficou marcada pelos massacres de Sabra e Shantila, e pela derrota nas mãos de um partido shia surgido para expulsá-lo da terra dos cedros, o Hezbollah.


Apesar de desmoralizado, a "Doutrina Begin", de ataques preventivos contra seus inimigos, se internalizou de vez em Israel.


São essas as figuras que modelaram o maior partido de direita de Israel, o Likud, que vence eleições seguidamente desde meados dos anos 1990. O Likud se aproveitou de mudanças demográficas importantes em Israel, da aliança com os EUA, e do crescimento do sionismo religioso impulsionado por judeus ortodoxos para demolir os Acordos de Oslo, aumentar exponencialmente a política de assentamentos na Cisjordânia, reivindicar Jerusalém como capital israelense, e promover a divisão da liderança palestina a fim de obstaculizar para sempre a criação do Estado Palestino.


Faz parte desta estratégia ampliar o reconhecimento e os acordos de paz com Estados árabes [Acordos de Abraão] para isolar o movimento palestino, e voltar o foco internacional contra o Irã, que comanda um arco de poder xiita no Iraque, Líbano e Síria.

O genocídio em Gaza não foi um acidente, não é um desvio. Sua sombra sempre esteve lá.



Portanto, o governo israelense atual se trata de um partido central da direita sionista, cujo DNA está no ultra-nacionalismo expansionista, no supremacismo étnico, e no terrorismo do Revisionismo Sionista, do Irgun, do Lehi.


Não impressiona que chamem os palestinos de ‘’animais’’, promovam deslocamento forçado de civis, se abracem à limpeza étnica, e bombardeiem residências, escolas e hospitais.


Esse é o sionismo nu e cru desde suas origens. Sua encarnação histórica poderia ser Ben Gurion, mas é na verdade Benjamin Netanyahu.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

OS PIROMANÍACOS E O FIM DO NOSSO MUNDO

"Quem é o escravo fiel e sensato, que o senhor pôs à frente da sua criadagem para que lhes desse de comer à hora própria? Feliz é aquele escravo a quem o Senhor, chegando, encontrará procedendo assim. Em verdade vos digo que o porá à frente de todos os seus bens. Mas se o mau escravo disser no seu próprio coração, 'o meu senhor está demorando', e começar a bater nos seus colegas escravos, a comer e a beber com os embriagados, virá o senhor desse escravo no dia em que ele não o espera e à hora que ele desconhece; e ira cortá-lo ao meio e dar-lhe um lugar com os hipócritas. Ali haverá choro e ranger de dentes."

Evangelho de Nosso Senhor, Deus e Salvador Jesus Cristo segundo o Glorioso Apóstolo e Evangelista São Mateus, capítulo 24, versículos 45 a 51



O piloto do F-15 abatido era uma isca para os dois lados. Não sei se foi de fato resgatado, e se falamos só de um ou dois pilotos. Mas é quase que irrelevante para a dinâmica da guerra. O evento proporcionou aos EUA a tentativa de infiltrar tropas especiais no Irã com apoio do poder aéreo. Eis seu caráter mais fundamental, e também seu maior fracasso.


O Irã mobilizou a população e o sistema de defesa contra a operação "de resgaste". Há denúncias de que os ianques abriram fogo contra a população civil, e que bombardearam suas próprias tropas em solo. O fato nu e cru é que tiveram a dimensão do quão custosa seria uma invasão desse tipo.

Definitivamente, não veríamos nada parecido com uma nova Venezuela.

Os ianques podem insistir, mas aí estamos falando de meses e meses de conflito, que impactariam a economia mundial, levando-a ao colapso, demoliria o MAGA, e levaria à derrota nas midterms.

Como Trump é muito mal aconselhado, é possível que enverede por essa estrada. Mas há outros cenário possíveis, todos muito ruins em escala crescente. Tudo depende do poder dos Piromaníacos, cujo maior símbolo é Pete Hegseth e sua trupe de evangélicos aceleracionistas, cuja missão é tornar o mundo aprazível para o anticristo, imaginando com isso forçar o retorno de Jesus.

Restam duas opções para Trump, além da invasão por terra. Ambas terminam em desastre, mas em níveis diferentes.

A primeira, é tornar público que aceita de alguma maneira as condições do Irã. Pelo menos a principal delas: o controle do Estreito de Ormuz. E que vai pressionar Israel para sair da guerra e do Líbano. Digo tornar público porque o Irã cortou todas as negociações mediadas com os EUA. Isso quer dizer que os ianques já não podem mais fingir que venceram, dar as costas fazendo alguma dancinha, e irem embora. Essa janela de oportunidade já se fechou há pelo menos uma semana.

Desnecessário detalhar o custo político de uma admissão tão grande de derrota. Seria desastroso para Trump internamente. Seria pior ainda para os EUA externamente. E, no entanto, essa seria a opção menos deletéria, menos traumática.

Se os Piromaníacos tiverem força o suficiente na Casa Branca, como parece que tem no Pentágono, não será essa a escolha imediata. Seria contar com uma racionalidade diferente daquela da Piromania apocalíptica dos aceleracionistas evangélicos. Mas retornarei a essa casa do tabuleiro, então é necessário tê-la em mente nos parágrafos abaixo. Vou chamá-la de OPÇÃO 1.

A segunda via é cumprir a promessa de "Choque e Pavor". Utilizar a capacidade que a Coalizão dos Piromaníacos ainda tem na região para destruir as usinas elétricas do Irã, seu complexo petroquímico, a infraestrutura crítica, pontes e estruturas civis de todos os tipos, a fim de passar o recado nu e cru de que "estamos levando vocês de volta à Idade da Pedra".

Óbvio que seria um abraço, para o mundo todo ver pela TV e redes sociais, a crimes de guerra bárbaros. Mas estamos falando do Ocidente, que assistiu o genocídio de Gaza sem fazer absolutamente nada, a não ser algumas lágrimas de crocodilo de intelectuais e jornalistas "progressistas" que juram serem capazes de civilizar o mundo.

Estamos falando de Israel, um país que já nasceu errado, roubando terras, associado ao imperialismo britânico, e praticando limpezas étnicas [Nakba]. Um país que tem uma condecoração homenageando o Grupo Lehi, organização considerada terrorista pelos britânicos e que tentou se aliar à Alemanha Nazista em plenos anos 1940. Um país que nesse exato momento está praticando mais uma limpeza étnica sem que o tal Ocidente, "campeão do humanitarismo", tenha coragem para fazer algo a respeito, a não ser meia dúzia de muxoxos acompanhados de ressalvas repugnantes.

Então, o Choque e Pavor é possível, ainda mais depois de um expurgo que deixou as Forças Armadas de quatro para Pete Hegseth, símbolo máximo da Piromania ianque.

As consequências seriam óbvias: o Irã cumpriria a promessa de fazer o mesmo com o GCC. O país já deu mostras nos últimos dias de que retaliaria à altura. Atacou usinas de energia, poços de petroleo, complexo petroquímico, indústrias químicas etc. É ingênuo imaginar que a Guarda Revolucionária entrou nessa sem a convicção de que precisaria ir às últimas consequências. Eles falam sério, e o erro crasso da cúpula ianque é não ter entendido isso de modo pleno. Ainda não entenderam que estão lidando com shias, que preferem o martírio à compactuarem com a injustiça. É claro que o nacionalismo persa quer que o país sobreviva, mas sem o elemento shia, é impossível entender o conflito. Desde os primeiros dias aviso que o Irã não vai deixar Israel vencer.

Enfim, essa via levaria a um choque econômico brutal, uma recessão que tem tudo para ser a maior do pós II Guerra Mundial, maior até que os choques de petróleo dos anos 1970. A ordem econômica global seria transformada, e os EUA e seus aliados [Europa Ocidental, Japão e Coreia do Sul] estariam no centro da debaclé.

O abismo se completaria pelo fato de que o Irã não se renderia, não reabriria Ormuz, e continuaria com sua capacidade balística operante. Ou seja, os EUA incendiaria o mundo, e não resolveria o problema. Estaria com o mesmo pepino nas mãos, e teria de voltar à Opção 1, aquela que implica em uma admissão de derrota.

Existe uma terceira vereda, praticamente um agravamento da segunda, que preferi não listar de início, mas que é importante mencionar, já que estamos lidando com psicopatas como Pete Hegseth e Benjamin Netanyahu. Ela consiste em provocar uma acidente nuclear na usina de Busherh.

Há sinais de que essa carta é considerada pela Coalizão dos `Piromaníacos. Dias atrás, Busherh foi atacada pela quarta vez, sofrendo um impacto direto, devidamente denunciado pelo Irã.

Um acidente desse tipo afetaria todo o Golfo, e levaria também à destruição econômica já descrita. Seria uma crime inominável, óbvio, mas estamos falando do país que tacou bomba atômica em Nagasaki e Hiroshima, e que usou o 'agente laranja' contra os vietnamitas.

Evidente que diante desse horror máximo, o Irã retaliaria em instalações nucleares israelenses, a essa altura todas mapeadas, a começar por Dimona, tornando a vida em Israel impossível, e espalhando o desastre radioativo para o Mediterrâneo Oriental e parte do Norte da África.

E depois disso tudo voltaríamos à primeira opção, porque a terra desceu ao Inferno, mas o Estreito estaria fechado, o Irã atirando mísseis, e o mundo financeiro comandado pelo dólar em cacos.

O capítulo final viria de uma possível reação sionista: o uso de bombas nucleares em resposta aos acidentes nucleares em seu território. Uma hipótese provável se chegarmos a esse ponto de não-retorno.

Bom, aí saberíamos se o Irã tem ou não a famosa bomba atômica. Se tiverem, vão dizimar todo o Oriente Médio. Se não tiverem, vão tornar a vida no Oriente Médio impossível de outras formas, ou escalando a retaliação em instalações nucleares, usando bombas sujas, ou detonando todas as usinas de dessalinização [há toda uma gama de possibilidades].

E depois do apocalipse, a opção número 1, que implicaria admitir a derrota ainda que de foram tácita, não teria mais sentido. E portanto a Coalizão dos Piromaníacos não precisaria tomá-la. A essa altura, saberíamos se Cristo retornaria, e caso aconteça, como o Senhor julgaria todos nós, incluindo a Coalizão dos Piromaníacos

sábado, 4 de abril de 2026

OS LIMITES DA "RENOVATIO IMPERII" TRUMPISTA


Não há um grande plano por trás das intenções de Trump. A guerra contra o Irã não foi um passo calculado, parte de uma estratégia maior. Não se pode nem chamá-lo de traidor da própria Pátria, ou considerá-lo um aceleracionista que, por alguma crença qualquer, deseja impulsionar o declínio do Império ianque.


A verdade é que Trump não sabia o que estava fazendo. Ele percebeu de modo equivocado a situação, foi enganado por assessores sionistas, falcões de Washington, e desmiolados do nacionalismo evangélico.


Se fosse um aceleracionista, não daria tantos e tantos sinais de que deseja sair do imbróglio. As ameaças, o bombardeio de complexos petroquímicos, o ataque desenfreado a alvos civis, bem como a extensão de prazos [a quantas anda agora a contagem de dias que ele deu ao Irã, alguém lembra?], a insistência na busca de intermediários, a busca por responsabilizar a OTAN, a mudança de objetivos estratégicos em meio a campanha; tudo isso, repito, apontam um governante afobado, doido para colocar fim ao pesadelo.


Trump percebeu que cometeu um erro político grave.


O mesmo se aplica à tese de que suas ações se explicam apenas por conta da chantagem dos Arquivos Epstein. Não que seja impossível em algum grau, afinal a rede de espionagem de Epstein servia exatamente a esses propósitos. Mas é simplista reduzir Trump a um boneco de ventríloquo, agindo contra seus interesses, projetos e vontade. E não se adequaria ao cenário de busca desenfreada por sair do atoleiro.


O erro tem consequências, nem todas elas previstas pelo agente que tomou as decisões que desencadearam o processo. O capital político de Trump vai ser abalado, mas vai alimentar ainda mais a direita radical ianque. A responsabilização do lobby sionista está a pleno vapor. A base do MAGA já tem toda a narrativa em mãos para explicar a situação e usá-la a seu favor.


Além disso, o erro de Trump vai acelerar a debaclé do poder estadunidense, e agora naquela vantagem que era até então incontrastável. Quando se olhava para os EUA, eram nítidos os problemas econômicos, sociais, políticos e ideológicos. Mas não se podia contestar sua imensa superioridade militar.


Esse é o maior legado do conflito atual: expor para o mundo os limites do potencial bélico dos EUA, cujas doutrinas são inadequadas para um conflito assimétrico, despreparadas para a era dos drones, e com gargalos imensos no custo e na produção de seus poderosos artefatos de destruição.


Os EUA teria de reajustar sua pesadíssima máquina militar para os novos tempos, mas isso demanda tempo e desgaste político. Mexer no setor é como atiçar o maior dos vespeiros. O complexo industrial-militar ianque é trespassado não só por todo o tipo de interesse político e econômico, envolvendo máfias pesadas com articulações profundas com o aparato do Estado, mas também com esquemas bilionários de corrupção que, certamente, envolvem redes transnacionais.


Ainda que se consiga mover esse Iceberg sem ser engolido por ele, o reajuste implicaria em um redimensionamento da abrangência imperial. Os EUA teria de cortar alguns dedos para manter as mãos.


Quando da eleição de Trump, publiquei em meu blog artigo explicando que os EUA entrava em seu período cesarista, de concentração interna de poderes e abandono de boa parte das aparências democráticas e liberais, e ao mesmo tempo de expansionismo imperialismo bruto para compensar a decadência de suas próprias bases materiais de atuação.


Para continuar a analogia com o Império Romano, é como se a Renovatio Imperii tivesse batido no teto. Depois das migrações germânicas, que demoliram o poder romano no Mediterrâneo Ocidental, as elites imperiais desenvolveram um projeto de restauração territorial [e ideológica] em um novo período expansionista ao longo do século VI, nos reinados de Justino I e Justiniano I. Ao longo de três gerações, os romanos reconquistaram o norte da África, a Itália e recolocaram os pés na Península Ibérica. Mas o projeto foi impactado pela invasão da Itália pelos lombardos, e a crescente independência dos eslavos nos Bálcãs no último terço daquele século.


O "teto" da Renovatio anunciou a crise que iria estourar décadas mais tardes, um período de retração que só foi estabilizado quando o Império mudou de base, de identidade e de meios de intervenção. O Império Romano do século IX ["Império Bizantino"] se organizava em torno de um núcleo territorial mais enxuto [não mais todo o Mediterrâneo], com recursos fiscais e comerciais muito mais exíguos, apostando na sofisticação diplomática e na capacidade de influência civilizacional e religiosa mais do que no expansionismo militar "universal".


Em um médio prazo, e dentro dos limites da analogia, a derrota estratégica no Irã será para os EUA como a catastrófica chegada dos exércitos de Alboíno à Itália em 568, e a fundação do Regnum Langobardorum de Pávia. Trombetas apocalípticas, anunciando o fim do sonho de estabilizar de novo o Mediterrâneo como o mare nostrum romano.

sábado, 21 de março de 2026

QUARTA SEMANA DE GUERRA: QUEM ESTÁ VENCENDO POR ENQUANTO?



A ciência da guerra a encara de forma tripartite, coordenando os aspectos tático, operacional e estratégico. Desde Clausewitz existem delimitações entre as táticas militares e a guerra enquanto fenômeno estratégico [de natureza política].


O soviético Aleksandr Svechin enfatizou a dimensão operacional [articulação das batalhas em uma campanha visando destruir a capacidade militar inimiga], mas a subordinou definitivamente à estratégia fazendo uma reformulação importante em Clausewitz.


O prussiano [e a maior parte da doutrina soviética até a II Guerra Mundial] concebia a guerra como ofensividade máxima e batalhas decisivas. Svechin apontou, a partir de uma leitura da I GM, que a estratégia variava de acordo com o tipo de conflito que o poder político escolhia.


E a escolha podia ser por uma guerra de desgaste.


Dizendo de modo simples, a vitória depende do tipo de combate escolhido. O país define quais são seus objetivos políticos. Depois o tipo de guerra que considera mais apropriado para conquistá-los, e por fim prepara a base econômico-social e militar-política para sustentar o esforço ao longo do vetor tempo [que ganha mais importância se a decisão for pelo atrito].



Nesse sentido, não adianta fazer campanhas magníficas [nível operacional] se elas estão desarticuladas com a escolha do tipo de confronto e com os objetivos políticos [estratégia]. A vitória depende desse contexto amplo, e não de uma continha boba sobre quem vence mais batalhas ou destrói mais tanques. Se a campanha não for estrategicamente útil, então ela perde sua razão de ser, já que é meio e não fim.


Se aplicarmos esses conceitos ao que ocorre no Oriente Médio, o cenário ianque é o seguinte [não vou falar agora dos objetivos israelenses, que são mais amplos]:


A estratégia definida era a queda da República Islâmica a partir da destruição do aparato repressivo, a revolta da população contra o regime, o estabelecimento de lideranças dóceis aos EUA, o domínio dos recursos petrolíferos do país. O tipo de guerra era maximamente ofensiva, conduzida pelo poder aéreo, e decidida rapidamente pela destruição moral do inimigo, e pela incapacitação de suas forças convencionais [força aérea e naval].


Os EUA realizou seus objetivos? A resposta é um sonoro ''NÃO''.


A estratégia fracassou de modo tão completo que deixou a liderança ianque baratinada, como se não tivesse escopos claros. Trump busca agora redefinir a estratégia no meio da campanha: não é mais mudar o regime, não é mais roubar seu petróleo, não é sequer ter domínio sobre Ormuz. É só evitar que o Irã tenha capacidade nuclear [coisa que podia fazer via diplomacia, segundo os jornais, e mantendo Ali Khamenei vivo], e destruir suas forças convencionais.



Essa redefinição já é uma primeira confissão de derrota para quem saiba colocar os pingos nos 'is'. E mesmo essa consecução limitada depende que os EUA consiga manter uma guerra de desgaste no Oriente Médio [já que a ofensiva fracassou]. Daí a necessidade de uma leitura sobre os fatores econômicos, psicológicos [morais], políticos e logísticos que tornariam os ianques aptos para o feito. E há boas razões pra duvidar.


Já o Irã definiu como objetivos a manutenção da integridade territorial, a sobrevivência do regime, e um status quo pós conflito que garanta a cessação das agressões ianques sionistas por tempo suficiente para que consiga se reindustrializar e rearmar. Para tanto escolheu uma guerra de atrito que depende de: i. evitar a supremacia aérea adversária; ii. controlar o Estreito de Ormuz; iii. ditar os termos da escalada militar.


O país está realizando seus objetivos? A resposta é um sonoro 'SIM' seguido de uma observação importante: vem cumprindo com brilhantismo.



O Irã sabia que precisaria de um consenso interno forte o suficiente para uma guerra de desgaste. O nacionalismo persa, o xiismo, o anti-imperialismo proporcionam esse consenso, ajudado pelos erros dos inimigos [assassinato de Khamenei e outras figuras; declarações desastrosas sobre roubo de petróleo, incentivo a conflitos étnicos e civis etc.].


Sabia que boa parte de sua infraestrutura industrial e convencional estaria a mercê do bombardeio ianque-sionista, principalmente nas primeiras fases do conflito, daí abandonar determinadas forças convencionais em prol da proteção de sua capacidade de agressão e a concentração da produção bélica em unidades ocultas em cavernas, túneis, bunkers em áreas de difícil acesso para a artilharia inimigo. A essa altura, quem acredita a sério na propaganda ianque e sionista sobre escassez de lançadores e mísseis na Guarda Revolucionária?


Sabe que para ditar a escalada militar depende da contínua capacidade de seus mísseis, de que seu inimigo não tenha dúvida da disposição iraniana para a retaliar na mesma medida, do poder de desestabilizar e ameaçar os vizinhos, e da manutenção de seu controle sobre o Estreito de Ormuz.




A partir daí, explora com maestria as limitações logísticas, econômicas e políticas do adversário -- incluindo as restrições ianque-sionistas em suas defesas aéreas --, se preparando para um esforço de muitos meses, que inclui o destemor por atraí-los para um combate naval em torno do Estreito e para um combate terrestre no Oriente Médio.


O cenário pode mudar, e os EUA conseguir uma ruptura decisiva que altere o veredito que vem sendo construído? Evidente, estamos falando da maior potência econômica e militar já vista. O conflito definitivamente ainda não terminou.


Mas com tudo o que aconteceu até o momento, com os horizontes criados até aqui, não há como avaliar de outra maneira.


NESTE MOMENTO, o correto é dizer que o Irã está vencendo a guerra.


terça-feira, 10 de março de 2026

O Poder Espiritual na História do Irã, ou: O Imam, o Rei e os Juristas-Clérigos

 Eu sou Ismāʿīl, vim ao mundo;

caminho sobre a terra como no céu;
os que não sabem me conhecerão:
eu sou ʿAlī, ʿAlī sou eu!

Eu sou a verdade divina; venho de Deus.
Sou um dos Doze Imames.
Os quatro cantos da terra eu ocupo.
Sou o mesmo que a onipotência de ʿAlī.

Muḥammad Muṣṭafā, selo dos profetas, chegou...

Meus imames Jaʿfar al-Ṣādiq e ʿAlī Mūsā al-Riḍā vieram.

[...]

O Eleito vestiu mil e uma vestes

e percorreu a terra.

Prostra-te! ...

Adão vestiu novas roupas;
Deus veio! Deus veio!

Eu sou idêntico a Deus...

Vem, olha agora para a verdade divina, ó homem cego e errante:

Eu sou a Causa Primeira Absoluta em movimento sobre a qual os homens falam!

Poemas do Xá Ismail



O conflito do Irã é bom para pensar uma das fragilidades mais evidentes dos estudos históricos, a minimização da agência de organizações religiosas.


Em geral, a religião é tratada como um subtema da História das Ideias, como expressão de fatores mais profundos de ordem social e econômica, discurso ideológico, ou como arcabouço cultural que exerce influência quase que em um plano inconsciente.


Mas a história contemporânea é incompreensível sem a agência programática de instituições espiritualistas, mesmo quando ela se dá de forma discreta. Estudar as revoluções burguesas e liberais sem levar em conta o espiritualismo e ocultismo europeu é perda de tempo. O secularismo é um discurso público voltado para as massas, elaborado em larga escala por elites religiosas/ocultistas que se sentem no dever de conduzir a sociedade.


O mesmo se dá com o Irã e sua particular conformação político-institucional. Ela não pode ser reduzida a uma ditadura pessoal, como muitos da mídia e o governo Trump imaginavam, nem suas origens se encontram em debates filosóficos universitários do século passado.


As raízes do poder shia no Irã remontam à intersecção entre ordens sufis tardo-medievais, a devoção aos Imames no Iraque, Pérsia e Centro da Ásia, e as tribos turcomanas que exerciam poder local com a gradual fragmentação do Império Mongol. As extensas redes de fiéis, seguidores e clientes das turuk rapidamente passaram por um processo de militarização, entrelaçamento com práticas e crenças xamânicas da Ásia Central, e finalmente com o desenvolvimento de um messianismo militante que, sob impulso dos Ghulat [os "exagerados", que acreditavam em formas de metempsicose e viam o Imam como "encarnação divina"], deificavam líderes carismáticos.



A mais bem sucedida organização do tipo é a tariqa Safavi, fundada em Ardabil no século XIII, mas reformulada por Haydar Safavi, que dizia ser descendente de Ali, em uma forma de gnosticismo armado fundamentado no fanatismo militante dos Qizilbash, confederações de tribos disciplinada segundo uma rígida crença messiânica.


Essa organização chega ao poder com Ismail I, um jovem de catorze anos que era venerado como Deus pelos Qizilbash. A nova monarquia se baseava fundamentalmente na sacralidade do Xá [o Monarca], considerado descendente de Ali e representante ["Sombra de Deus"] de Muhammad al-Madhi, o Imam Oculto.


O novo Estado passou por um processo de institucionalização e burocratização ao longo do século XVI, consolidando o poder de um clero que foi fundamental na conversão da população ao xiismo [até o início do século XVII, a Pérsia ainda era majoritariamente sunni]. Os Qizilbash foram domesticados, as turuk sufis explicitamente perseguidas. Na Era Moderna, o Islã contava com dois grandes Estados, cada um deles legitimado pelas correntes sunni e shia, o Califado Otomano e o Xá Persa.



Com o tempo, o poder dos ulemás cresceu sob o impacto das ideias metafísicas e jurídicas das escolas de Hillal e de Isfahan, que articulavam formas complexas de aristotelismo, neoplatonismo, e gnosticismo. Os conceitos de ijtihad e taqlid lhes dava direito de estabelecer definições religiosas vinculantes sobre temas importantes, em vez de se basearem apenas na tradição de decisões anteriores. Os ulemás logo reivindicaram o papel de intérpretes autorizados da lei divina, competindo com o Xá pela representação do Imam Oculto. Ocorria também uma hierarquização do clero, primeiro com a figura religiosa-militar do Sadr, criada pelo próprio Ismail I, em um processo de fortalecimento que vai desembocar no Marja al-Taqlid, o grande jurista, cujas fatwas vinculam toda a comunidade religiosa.


Esse desenvolvimento teve idas e vindas, mas a balança pendeu decisivamente para os juristas-clérigos com o fim dos Reis Safávidas no início do século XVIII. Depois do governo do Xá Nadir, e as guerras subsequentes, emergiu uma Dinastia que já não podia reivindicar descendência de Ali ibn Talib. O governante agora fazia o papel de um poder temporal cuja legitimação era a de guardião do xiismo duodecimano, não mais de voz na terra do Imam Oculto.


Embora a história seja mais longa e complexa do que a acima, a doutrina da Wilayat al-Faqih [no fundo, o governo do jurista], elaborada por Khomeini, pode ser vista como o desenlace dessa disputa nas condições específicas do século XX, em que se discutia restrições ao poder do Rei/Xá. Na ausência do Mahdi, e até seu retorno, o Estado é tutelado pelos mujtahid [o jurista-clérigo], em uma pirâmide de poder que culmina no Líder Supremo, agora não mais apenas intérprete da Lei, mas governante e delegado do Imam.

O Irã é um caso singular de articulação e disputa entre uma autoridade espiritual que se pretende poder temporal, e um poder temporal que tem origem na autoridade espiritual, mas modelado por um gnoscitismo militante oriundo de ordens místicas que permanecem nas sombras não tanto em função da sua discrição, mas da cegueira de autodeclarados especialistas cuja função é a de estudar as formações políticas. A História do Poder é, no fundo, a História da Religião.



domingo, 8 de março de 2026

O MITO PROTESTANTE DO "CÂNON DE SÃO JERÔNIMO"


Para justificar a novidade de seu Cânon, os evangélicos reivindicam São Jerônimo, muitos deles jurando que a tradução da Vulgata desse Santo Padre coincidia com o que eles pensavam das Escrituras.


Começando do princípio: As Escrituras Sagradas usadas pelos cristãos era a Septuaginta, que circulava em mais de uma versão. A Septuaginta não coincidia com o Cânon que os Rabinos consolidariam nos séculos II e III da Era Cristã, ela incluía outros textos, mais tarde chamados no Ocidente de "deuterocanônicos". Já os livros comuns à versão rabínica constavam na Septuaginta com variações muito importantes. Livros como o de Jeremias, Daniel, Ester são mais amplos em grego, e há divergências fundamentais, por exemplo, em obras da importância de Isaías.


As primeiras traduções da Septuaginta para o latim foram feitas ainda no século II. São conhecidas como "Vetus Latina", e circulavam em diferentes edições. Na verdade, a "Vetus Latina" é um conjunto de versões traduzidas diretamente da Septuaginta. Essas traduções se consolidaram nas leituras litúrgicas das Igrejas ''Ocidentais" a partir do século II.


O projeto de tradução conhecido como Vulgata era em princípio uma revisão dos Evangelhos. No fim do século IV, São Jerônimo começou esse trabalho corrigindo a Vetus Latina de acordo com o texto grego. Essa revisão abarcou APENAS os Evangelhos. Não incluiu Atos dos Apostolos, as cartas paulinas, as cartas católicas, ou Apocalipse. Gradualmente a iniciativa foi ampliada para o Velho Testamento. São Jerônimo se mudou para Belém para ter acesso a textos hebraicos que considerava mais confiáveis.


Entre os séculos II e V, a Igreja debateu qual seria a lista canônica fixa do NT e do VT. Cada Padre tinha sua posição a respeito. São Jerônimo também tinha sua opinião. Ele preferia seguir o cânon rabínico [Hebraica Veritas], mas com alguns nuances [que vou apontar mais adiante.]


Mas isso não significa que existia um "Cânon de São Jerônimo". No fim do século IV, justamente na época em que ele começou seu trabalho de revisão e tradução, Concílios realizados no Norte da África definiram uma lista canônica oficial para todas as Igrejas que deles participaram. Nos anos 390, a lista canônica das Igrejas do Ocidente [incluindo Roma] e do Norte da África [incluindo Alexandria] seguiam a Septuaginta e se afastava dos Rabinos.



Ou seja, a posição de São Jerônimo foi "derrotada" nos Concílios de Hipona, Cartago etc. Ele não se rebelou contra a decisão. Apesar de ter defendido a "Hebraica Veritas", O Bispo de Estridão aceitou o Sínodo e a prática litúrgica herdada da Septuaginta.

A prova disso é que ele incluiu todos esses livros na Vulgata, cuja tradução chegou ao fim por volta de 405 [mais de dez anos posterior ao Concílio de Cartago], e que citava os "deuterocanônicos" em comentários e cartas posteriores, os apresentando com o linguajar de Escrituras inspiradas.

Mas e os livros traduzidos por São Jerônimo na Vulgata, eles batem com o Cânon veterotestamentário dos protestantes?

NÃO.

É verdade que o trabalho de São Jerônimo comparava a Septuaginta com outras versões em grego, com versões da Vetus Latina, e com textos hebraicos. E que em larga medida usou manuscritos hebraicos em sua tradução do Pentateuco, Profetas, Livros Históricos e Sapienciais. Mas há exceções notáveis!

1) São Jerônimo revisou/traduziu os Salmos três vezes. A primeira, ainda em Roma, era apenas uma revisão da Vetus Latina, corrigindo-a segundo o grego [Septuaginta]. A segunda, nos anos iniciais da década de 390, quando ele já se encontrava em Belém, foi uma nova tradução a partir da Septuaginta, e que foi chamada de "Saltério Galicano". Foi esta tradução que predominou na Vulgata! A terceira versão de São Jerônimo, "Saltério segundo o Hebraico", nao foi adotada nem na Vulgata nem na prática litúrgica! Portanto, apesar de preferir o hebraico, a Vulgata de São Jerônimo transmitiu o Saltério a partir da Septuaginta [que tem distinções importantes em relação à versão massorética, tanto no texto quanto na contagem dos Salmos].

2) Há diferenças de texto e tamanho da versão em hebraico do Livro de Daniel para as versões que circulavam em grego [incluindo a Septuaginta]. Muitos chamam isso hoje de "adições a Daniel", como o Livro de Susana, Bel e o Dragão, a Oração de Azarias, o Cântico dos Três Jovens. Na verdade, eram partes integrantes da versão grega usada liturgicamente pelos cristãos. São Jerônimo decidiu traduzir a versão grega de Teodócio, que é ampliada, e não a hebraica [mais curta e que segue a versão rabínica].

3) São Jerônimo traduziu também o Livro de Tobias e Judite [dois "deuterocanônicos"] do aramaico.

4) São Jerônimo não traduziu mas revisou os demais "deuterocanônicos", ajustando o texto da Vetus Latina ao da Septuaginta.




Portanto, o trabalho de São Jerônimo seguia o Cânon estabelecido nos Concílios norte-africanos. Não existia um "cânon de São Jerônimo", e sim uma posição desse Padre no debate que ocorria.

As traduções proporcionadas por São Jerônimo tampouco se adequam inteiramente aos textos rabínicos. Se é verdade que preferia as versões hebraicas à grega, é VERDADE TAMBÉM que São Jerônimo sempre se subordinou antes ao USO LITÚRGICO do que às suas preferências pessoais. Daí o Saltério e o Livro de Daniel seguirem as versões gregas.

Por fim, a Vulgata de São Jerônimo não se tornou de uma hora para outra o texto comum das Igrejas do Ocidente. Ela continuou coexistindo com versões da Vetus Latina, algumas delas muito mais usadas em certas regiões. O prestígio e a difusão da Vulgata cresceu aos poucos, e de maneira desigual. Só se pode afirmar que ela ganhou predominância definitiva a partir do final do século VIII, já no período Carolíngeo, quando o texto passou por revisões que o uniformizaram. Mesmo assim, versões da Vetus Latina persistiram até o início do segundo milênio.

Tanto a Vulgata quanto a Vetus Latina circulavam segundo a lista canônica definida nos Concílios norte-africanos do século IV. É verdade que alguns poucos manuscritos apresentavam variações [oração a Manassés, por exemplo]. Mas NÃO se seguiu o cânon rabínico definido nos séculos II e III depois de Cristo. Não havia nenhum "Cânon de São Jerônimo".

Fim da mitologia protestante.


ps.: as discussões sobre o Cânon voltaram a esquentar no Ocidente com os movimentos de Reforma, no século XV. Muitos protestantes alegam que o "cânon não estava fechado porque os romanos estavam discutindo os livros antes de Trento". Sim, porque o movimento reformista começou DENTRO da Igreja Romana. Esse processo levou a uma ruptura, um cisma. Os reformadores, como Lutero, saíram de DENTRO da Igreja Romana. Se separaram dela e fundaram seus próprios movimentos. Daí porque Roma sentiu necessidade de "dogmatizar" seu cânon, primeiro em Florença-Ferrara, depois em Trento, como reação aos reformistas. Isso não significa que não existisse um cânon anterior definido por concílios e expresso no uso litúrgico comum.

pps.: As listas definidas nos concílios regionais, incluindo os norte-africanos, foram recebidas oficialmente no VI Concílio Ecumênico, mais especificamente nos cânones definidos em Trullo.