segunda-feira, 6 de julho de 2026

ENTRE O VIRALATISMO E O PACHEQUISMO: QUAL O PROBLEMA DA SELEÇÃO BRASILEIRA?

"Em 58, na véspera de Brasil x Rússia, entrei na redação. Tiro o paletó, arregaço as mangas e pergunto a um companheiro: "Quem ganha amanhã?" Vira-se para mim, mascando um pau de fósforo. Responde: -- "Ganha a Rússia, porque o brasileiro não tem caráter. Eis a opinião dos brasileiros sobre os outros brasileiros -- não temos caráter. [...] Essa falta de autoestima tem sido a vergonha, sim, tem sido a desventura de todo um povo."


Nelson Rodrigues, 20/06/1970

Declarar que a Seleção tem capacidades para vencer se tornou sinônimo de 'pachequismo'. O normal, para boa parte da torcida, é afirmar que NÃO há qualquer possibilidade de vitória.


A derrota passa a ser esperada, até desejada, e vista como um alívio, até por confirmar o viés inicialmente derrotista.

Muitas vezes, essa abordagem está ligada também a uma postura ácida em relação às perspectivas do país, às vezes até ao desejo de que a Seleção espelhe o diagnóstico de mediocridade, perfídia e desesperança que enxergam na ideia de Brasil.

Essas associações são possíveis por conta do peso que a Seleção tem no imaginário nacional e do próprio papel do futebol na política e cultura global. Para aqueles com uma visão negativa do Brasil, a Seleção sempre foi empecilho. Difícil explicar como uma sociedade tão sem horizontes conseguiu gerar um futebol tão rico, vencedor e admirável.

Essa Copa mostrou o predomínio quase que total do ethos derrotista por parte do torcedor comum, de um modo que, talvez, não fosse visto desde a Era pré-Pelé, em que Nelson Rodrigues denunciava o "complexo de vira-latas" na alma nacional.

A abordagem sempre esteve lá, mas agora ela é hegemônica. Não se resume a criticar estruturas corruptas das instituições esportivas, a administração periclitante dos clubes, a falta de organização, ou a defasagem tática [como em 2014/18]. O que se diz é ainda mais impactante: o Brasil não teria jogadores para vencer a Copa do Mundo.

Essa é uma crença impressionante quando se trata de Seleção brasileira, historicamente considerada uma superpotência no mundo da bola. Uma análise do elenco da Seleção por meio do valor de mercado a torna ainda mais significativa.

O escrete de 2026 está entre os seis mais valiosos da Copa [praticamente empatado com a quinta posição, a Alemanha]. O valor aumentaria muito se Estevão, Wesley, Rodrygo, João Pedro, Militão participassem do Mundial [quatro deles não foram por lesões, e um deles foi preterido em prol de Neymar].

Com esses "reforços", o valor do elenco subiria mais uns 200 milhões de euros, passaria Portugal, empataria com o terceiro colocado [a Espanha], ficando apenas abaixo da França e da Inglaterra.

É surpreendente dizer que um elenco tão valioso no mercado global da bola "não tem chances de vencer a Copa do Mundo". A Argentina, atual Campeã, tem elenco de menor valor no mercado global. Marrocos 'vale' menos da metade que o escrete brasileiro.

Alguns diriam que o mercado "superestima'' o elenco brasileiro, mas é um mau argumento. O atleta "vale" o que o mercado está disposto a pagar por ele. A avaliação não se fundamenta em caridade, mas em ferrenha, competente, e permanente análise de desempenho, que se ajusta e regula constantemente. Erra aqui e ali, mas indiscriminadamente, sem olhar bandeiras.

O elenco brasileiro é um dos mais valiosos do planeta porque é percebido no mundo como um dos melhores. Não como o "melhor", mas como capaz de figurar entre os três/cinco mais qualificados.

Objetivamente, portanto, o Brasil tem jogadores com qualidade para vencer a Copa do Mundo. Não falta também comissão técnica, já que somos geridos por um dos grandes treinadores do mundo. É possível criticar Ancelotti de várias maneiras, mas não dá pra sustentar que ele não conhece futebol, e que não seja capaz de montar equipes vencedoras.

Isso leva a percepção da torcida para outro rumo. Se temos elenco para figurar entre os principais candidatos, por que o torcedor brasileiro se abraçou à desconstrução simbólica da Seleção? Mais ainda, há saída para uma Seleção que foi desconstruída simbolicamente por seus próprios torcedores?

A destruição simbólica da Seleção é plenamente compatível com gosto por futebol. As pessoas podem se identificar com este ou aquele clube, por diversas razões e afetos, e ao mesmo tempo desejar o fim do 'mito' do futebol brasileiro.

Esse embate de perspectivas não é novo.

Nelson Rodrigues escreveu que a vitória na Suécia tinha mudado o modo do brasileiro comum se entender. Escrevia ele que a humildade tinha sentido para os "césares industriais dos Estados Unidos". Já o escrete nos fazia a caridade de dar mania de grandeza a um país de paus de arara: "sentimos que o brasileiro deixava de ser um vira-latas entre os homens, e o Brasil um vira-latas entre as nações."

Em maio de 1958, poucos dias antes de começar a Copa da Suécia, Nelson escrevia que a derroa de 1950 gerou uma chaga e humilhação nacional que "nada, absolutamente nada podia curar". O brasileiro não conseguia acreditar na Seleção, não conseguia acreditar em si mesmo. Acrescentava que "gostaríamos de acreditar na seleção", mas éramos impedidos pelo "pânico de uma nova e irremediável desilusão."

O diagnóstico que Nelson Rodrigues fazia da alma brasileira é que o nosso problema era o de nos considerarmos inferiores aos demais. Era o "complexo de vira-latas". Explicava ele: "Dizer que nos julgamos os 'maiores' é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Porque, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade." Do mesmo modo, tínhamos perdido a decisão de 1950 porque Obdúlio Varela, líder da Celeste Olímpica, tinha nos tratado "a pontapés, como vira-latas".

Nesse sentido, o grande problema da Seleção não era técnico, tático, físico, estrutural etc. "É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer que não é um vira-latas".

Os escritos imortais de Nelson são uma amostra de que esse embate já estava colocado desde a gênese do futebol enquanto esporte de massas, e que a Seleção tem um papel central nele.

Mas se após o tricampeonato no México, parecia consolidar de vez a imagem da superioridade, agora vivemos em um cenário inverso. É difícil ver um horizonte de mudança de chave. O futebol brasileiro, incluindo sua torcida, nunca foi tão vira-lata. E talvez não exista saída para este buraco, já que em 1958 foi necessário um Pelé capaz de vencer três de quatro Copas disputadas para convencer a nação que éramos capazes.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

TOP 10 SELEÇÕES DA HISTÓRIA -- 8 ) INGLATERRA, e o violento esporte bretão



A Inglaterra inventou o jogo moderno. Consolidou as regras, popularizou o esporte, o levou para todos os continentes, criou a cultura de clubes. Foi vanguarda do profissionalismo, dos grandes públicos, e símbolo máximo do "violento esporte bretão" por pelo menos meio século.


É importante destacar a influência escocesa na criação da "Pirâmide", a tática de 2-3-5 que transformou o futebol em um esporte verdadeiramente coletivo, e substituiu a formação tática mais comum até então [1-2-7 ou 1-1-8], que empilhava atacantes.




Mas foram os ingleses que adaptaram esse esquema na seleção e o tornaram hegemônico até o fim dos anos 1920, década em que uma das grandes revoluções táticas ocorreu no Arsenal: o WM, que conquistou o mundo por vinte anos, até ser substituído pelo 4-2-4 húngaro/brasileiro.


O domínio inglês se expressava nas Olimpíadas, maior competição internacional de seleções. A Grã-Bretanha venceu três dos quatro primeiros torneios olímpicos. A maior parte da equipe britânica era formada por jogadores amadores ingleses [que adotou o profissionalismo ainda em 1885].



Depois de 1920, os ingleses deixaram de disputar as Olimpíadas. Tampouco se filiaram à FIFA quando ela foi formada. Deram uma banana para as primeiras Copas do Mundo, e continuaram a se considerar os maiorais do planeta.


Adotaram no mundo do futebol a mesma postura geopolítica que marcou o século XIX inglês, um tipo de ''esplêndido isolamento".




É bastante discutível que fossem de fato os melhores nos anos 1930, mas não havia dúvida que Inglaterra ainda era o símbolo máximo do esporte. As escolas sul-americana e danubiana nasceram como tentativas de responder ao futebol inglês [[anos 1920/30].

Depois da II GM, a Inglaterra descobriu que não era mais o "país do futebol". O calor do Brasil serviu de desculpa para o vexame na Copa de 1950, a primeira que disputaram, em que perderam partida famosa para os EUA em pleno Estádio Independência, em Minas Gerais.




Mas a primeira derrota em casa do 'english team' diante de uma seleção do continente europeu foi avassaladora: a Hungria de Puskas e Hidegukti enfiou 6 a 3 em pleno Wembley. Depois se seguiu o 7 a 1 da partida de volta em Budapeste.


É possível dizer que foi o 7 a 1 dos ingleses, o momento em que reconheceram que estavam inferiorizados técnica e taticamente diante do continente europeu, e quiçá do mundo: a Inglaterra foi eliminada nas quartas de final da Copa de 1954 pela Celeste Olímpica.



Mas seria tolice dizer que o futebol da Inglaterra afundou nesse período. Eles se adaptaram, e fizeram campanhas fortes nos anos 1960 na tentativa de retomar a coroa. As seleções inglesas dos anos 1960 eram excepcionais.


Em 1962, foram barrados nas quartas de final pela Seleção brasileira liderada por um Garrincha endiabrado. Em 1966, conquistaram seu título em casa, maior glória do futebol inglês -- a polêmica da final é típica de rivalidade futebolística, mas não eclipsa a qualidade daquela equipe, que quatro anos depois fez jogo muito equilibrado com o famoso escrete de 1970.




A crise se abateu forte sobre a Inglaterra na década de 1970, quando fracassou nas Eliminatórias de duas Copas consecutivas. Só voltou a disputar o Mundial quando o número de vagas aumentou para 24 seleções. Fez boas campanhas nos anos 1980, sempre entre as oito primeiras. O quarto lugar de 1990 é até hoje seu melhor resultado depois do troféu de 1966.



O fracasso em 1994 abalou de vez o prestígio do futebol inglês. Seu retorno ao Mundial se deu, mais uma vez, com o inchaço da competição -- agora para 32 seleções. Mas a Inglaterra não virou uma nulidade. Sempre capaz de montar boas equipes, chegou de novos às semifinais em 2018, e se mantém na seleta elite do esporte.


Os ingleses estão em sua 17ª Copa. Tem um título, chegaram 3 vezes entre os quatro primeiros, e doze vezes entre os oito melhores. Enfrentaram o Brasil quatro vezes em Copas e com uma curiosidade. Sempre que jogou com os ingleses, a Seleção brasileira foi campeão. Foram 3 vitórias [Quartas de Final de 1962, Fase de Grupos de 1970, e Quartas de Final de 2002] e um empate [o primeiro 0 a 0 da história das Copas, na Fase de Grupos de 1958].




O título de 1966, as três medalhas olímpicas, o domínio do esporte por longo período, seu papel no desenvolvimento e na difusão de jogo, e jogadores históricos ao longo do tempo garantem à Inglaterra à oitava posição de maior seleção da Historia.



sábado, 27 de junho de 2026

TOP 10 SELEÇÕES DA HISTÓRIA -- 9) HOLANDA, o Futebol Total

 AS DEZ MAIORES SELEÇÕES DE TODOS OS TEMPOS


Os principais critérios são desempenho em Copas do Mundo, títulos, grandes jogadores, seleções inesquecíveis, domínio de alguma época, e papel no desenvolvimento do jogo e de outras gerações.



9º lugar: HOLANDA, o Futebol Total


O profissionalismo só chegou na Holanda na década de 1950, mudando sobremaneira um futebol que era até então anglófilo no estilo e na tática, e elitista nos modos. Junto com o profissionalismo, a influência da escola do Danúbio [clique] levou a uma síntese entre o apreço pelo futebol baseado em passes curtos e posse de bola, potência física, e disciplina rígida no comportamento dentro e fora de campo.



Essa mescla entre romantismo e força passou pela batuta dos técnicos Jack Reynolds, Rinus Mitchel e Ernst Happel; e teve como laboratório o Ajax e, em menor medida, o Feyenoord. Em campo, seu grande realizador foi o gênio de Johann Cruyff.



Ao sistema danubiano, que preconizava troca de posições constantes entre os atacantes, os holandeses acrescentaram a mudança entre jogadores de linhas diferentes. Laterais viraram pontas, pontas viravam volantes. O vanguardismo superou o 4-2-4 dominante. A formação 3-4-3 praticamente se tornou uma marca registrada da escola holandesa.




Mas nenhuma novidade foi tão impactante quanto a pressão sobre o homem da bola. Usando com perfeição a regra do impedimento, os holandeses encurtavam o campo por meio de uma marcação pressão extraordinária e que revolucionou o jogo. Se tratava, no fim das contas, de manipular o espaço, diminuindo ou ampliando o campo com a subida da linha defensiva.




Cruyff diria mais tarde que a estratégia se devia ao ceticismo holandês quanto às próprias capacidades técnicas. Eles achavam impossível enfrentar brasileiros e argentinos em espaços maiores. Na perspectiva brasileira, a montoeira de defensores correndo para fazer um abafa sobre o adversário com a bola parecia uma "tática de pelada" e uma "linha burra". Mas era o início de uma transformação profunda no jogo que conduziria ao chamado 'jogo de posição' através de um gradual desenvolvimento cujo fio de Ariadne passou pelo trabalho de Cruyff no Barcelona.




O esquadrão que apresentou o novo futebol na Copa ficou conhecido como "Carrossel Holandês". Ou pelo epíteto mais impactante de "Laranja Mecânica". No mundo da tática, era o "totaalvoetbal" [futebol total], que exigia grande inteligência tática e conhecimento do jogo dos onze em campo, e uma capacidade física ímpar.



Capacidade física, é bom lembrar, que esteve sob suspeita de uso de substâncias ilícitas, mais tarde confirmadas em biografia de Salo Muller, o massagista do Ajax nos anos áureos do início dos anos 1970 -- equipe que foi a base para o famoso escrete de 1974.

Seja como for, o "futebol total" foi também um experimento paradoxal de rigidez no controle do comportamento dos jogadores que se chocava com a liberalidade e a revolução adolescente que ocorria em Amsterdã no fim dos anos 1960, sacudida pela contracultura do movimento Provo.



Esse experimento seria impossível sem o cultivo da técnica refinada que era característica da forma dos holandeses encararem o futebol. Mesmo quando nao conseguia mais replicar com eficácia a revolução que se viu no Mundial da Alemanha Ocidental, a Holanda não parou de revelar grandes gerações de jogadores.



Depois do famoso time dos anos 1970, os holandeses formaram uma equipe com Marco Van Basten, Gullit e Rjikaard, que desfilaram pelos gramados italianos. A geração decepcionou em Copas, mas foi responsável pela maior conquista do futebol do país, a Euro de 1988. Logo depois, surgiu o time de Koeman, Seedorf, Davids, Bergkamp e dos irmãos De Boer. Um pouco mais tarde, Sjneider e Robben levariam a Holanda a mais uma final de Copa seguido por um terceiro lugar.




Ainda que tenha ficado ausente de algumas Copas [1982, 1986, 2002, 2018], a Holanda jamais voltou a ser uma seleção menor. O impacto no desenvolvimento do jogo, suas três finais, e jogadores históricos são suficientes para colocá-la entre as 10 maiores de todos os tempos.
Alguns reivindicariam uma posição até mais elevada para os holandeses. Mas falta a eles uma história relevante antes dos anos 1970 [tiveram duas participações apagadas nas Copas de 1934 e 1938, e só] e um título em Copa do Mundo.



A Holanda está em sua 12ª Copa. Tem 3 vice-campeonatos, e ficou 5 vezes entre os quatro primeiros. Tem um título europeu, e três medalhas de bronze olímpicas. As ideias de sua escola tiveram continuidade no Barcelona, no técnico Pepe Guardiola, e se tornaram hegemônicas no início do século XXI.

O Brasil enfrentou a Holanda 5 vezes em Copas do Mundo, três deles confrontos que entraram para a história do evento [1974, 1994 e 1998]. O Brasil perdeu três vezes: na segunda fase de grupos de 1974, nas quartas de final de 2010, e na disputa de 3º lugar de 2014. Tivemos um empate seguido de vitória nos pênaltis na semifinal de 1998. E uma vitória nas quartas de final de 1994.


quinta-feira, 4 de junho de 2026

TOP 10 SELEÇÕES DA HISTÓRIA -- 10) HUNGRIA, a jóia da Escola do Danúbio

 AS DEZ MAIORES SELEÇÕES DE TODOS OS TEMPOS



Os principais critérios são desempenho em Copas do Mundo, títulos, grandes jogadores, seleções inesquecíveis, domínio de alguma época, e papel no desenvolvimento do jogo e de outras gerações.


O jogo que realizou o sonho da Escola do Danúbio, a superação da escola britânica



10) HUNGRIA -- A escola do Danúbio elevada à perfeição



Alguns podem perguntar, com justiça, como uma seleção que não se classifica para a Copa do Mundo há quarenta anos [ou 10 edições consecutivas] pode ser classificada como uma das maiores da história.

A Hungria tem nove participações em Copas, a última delas em 1986. É menos que Bélgica [14], Suécia [12], Suíça [11], EUA [11] e Coreia do Sul [11], dentre outras. E o mesmo número que Polônia [9] e Chile [9]. E ainda assim não é exagero dizer que o impacto da Hungria no futebol é maior o que o de todas essas seleções somadas.

Era uma vez o tradicional Império Austro-Húngaro, que tinha em Viena, Praga e Budapeste centros cosmopolitas em que intelectuais de toda a Europa se reuniam em cafés para discutir arte, ciência, contracultura, e política nos anos 1920/30.


O revolucionário Jimmy Hogan: futebol coletivo e de passes curtos


E também para falar a sério sobre futebol, propondo formas de superar o paradigma inglês de jogo físico e lançamentos longos. Em poucos lugares se discutiu tática de modo tão sério e profícuo como nesse ambiente.

O estilo de futebol que surgiu nos anos 1930 ficou conhecido como ''escola do Danúbio", que enfatizava técnica refinada no controle da bola, passes curtos, movimentação constante, e jogo coletivo. Seus grandes difusores foram o inglês Jimmy Hogan e o austríaco Hugo Meils, e um de seus símbolos a seleção austríaca liderada por Mathias Sindelar [o famoso Wunderteam].


Hugo Meils, estrategista por trás do Wunderteam austríaco


A 'escola do Danúbio' tinha ligações diretas com concepções políticas, principalmente com judeus progressistas de tendências socialistas. Com a desagregação do Império, tanto a Tchecoslováquia quanto a Hungria deram continuidade no vínculo entre a escola e o comunismo.

Sua perfeição foi realizada pelo Aranycsapat ["Esquadrão de Ouro"] húngaro, que assombrou o mundo de fins dos anos 1940 até a Revolução Húngara de 1956.

Os "Magiares Mágicos" formavam uma estirpe de craques como poucas vezes se viu: Ferenc Puskas, Nandor Hidegkuti, Sandor Kocsis, József Boszik, Zoltán Czibor etc. Lendas atribuem a alguns desses jogadores mais de 1400 gols na carreira -- ainda que esses números prolíficos nunca tenham sido documentados de fato.

Gusztáv Sebes: o futebol a serviço do Partido



O arquiteto desse timaço foi Gusztáv Sebes, que elevou as ideias 'danubianas' ao status de interesse nacional do Partido Comunista da Hungria, associando um clube [o Honved] à seleção do país, e aplicando de modo sistemático sua famosa frase "todos defendem, todos atacam" em uma concepção de futebol caracterizada pela circulação rápida da bola.

Hidegkuti: o surgimento do meia-atacante e do 'falso 9'


A maior inovação foi o recuo do centroavante para a intermediária. Hidegkuti baixava para armar o time, e se tornar ao mesmo tempo o arco e a flecha da equipe. Era a criação do meia-atacante ou de uma versão mais primitiva do 'falso 9', que impactou severamente os esquemas então dominantes [a 'Pirâmide' e o WM] e preparou o caminho para o 4-2-4.

A revolução técnica, mental e tática do Aranycsapat foi consagrada pela demolição completa do mito da superioridade inglesa. Os Magiares Mágicos realizaram o feito sonhado pelos intelectuais que se encontravam nos cafés austríacos, e responsáveis pela primeira derrota do English Team em Wembley, o famoso 6 a 3 de 1953.

No jogo da volta do confronto internacional, na Hungria, os "Mágicos Magiares" enfiaram estrondosos 7 a 1 nos inventores do ''violento esporte bretão", a pior derrota da Inglaterra em toda a história. O mundo do futebol nunca mais seria o mesmo.

O lendário Ferenc Puskas


Até hoje se discute como foi possível aquela equipe perder a final da Copa de 1954 para a Alemanha Ocidental, time que ela derrotou na fase de grupos por 8 a 3, e sobre a qual tinha aberto dois gols de vantagem com apenas 20 minutos de peleja.

Seja como for, a seleção húngara marcou 27 gols em 5 partidas naquela Copa. É não só a maior goleadora da história dos mundiais mas detentora também de uma média imbatível de 5,4 gols por jogo. Para se ter uma ideia, o Uruguai campeão em 1950 teve média de 3,75 gols; o Brasil que levantou a taça em 1958 teve média de 2,67. A Hungria de 1954 é um ponto fora da curva.

Bella Guttmann treinando o São Paulo


O declínio começou com a repressão soviética em 1956, que levou a um êxodo de jogadores e treinadores húngaros. Por outro lado, o mundo se beneficiou dessa ''diáspora''. Parte dos atletas foi para o futebol espanhol, que gradualmente foi transformado por conceitos danubianos.

Que também tiveram acolhida na Holanda: muitos dos princípios do Aranycsapat foram reelaborados e aplicados no "futebol total" holandês dos anos 1970.

Essas duas linhas de desenvolvimento [a espanhola e a holandesa] se reencontraram na escola do Barcelona/espanhola, cujo principal representante é o técnico Guardiola, com sua ênfase na racionalização coletiva e sistemática do jogo a partir de um controle territorial centrado na troca curta de passes, na circulação rápida da bola, e do ''falso 9''.

A difusão também alcançou o Brasil. Primeiro em 1938, quando Dori Krushner treinou o Flamengo e apresentou o WM ao país, depois redimensionado na "Diagonal" do lendário treinador Flávio Costa; mais tarde, quando o técnico Bela Guttmann treinou o São Paulo em 1956, ajudando a consolidar o 4-2-4 [esquema desenvolvido de maneira independente no Brasil desde os princípios dos anos 1950].

Para completar, Guttmann descobriu Eusébio e o levou para o Benfica, armando a equipe que colocou fim à hegemonia europeia do Real Madrid de Di Stefano e Puskas.

A final da Copa de 1938



Os principais resultados da Hungria são as duas finais de Copa do Mundo em 1938 e 1954. Fizeram três Quartas de Final em 1934, 1962 e 1966. É o país com o maior número de medalhas de ouro olímpicas ao lado da Grã-Bretanha, com três conquistas em 1952, 1964 e 1968.

Os craques, os feitos, a revolução técnica e tática, a influência de meio mundo por uma linhagem contínua de desenvolvimentos da escola criada nos anos 1920/30, e as seleções inesquecíveis dão à Hungria um peso singular na história do futebol. Apesar da irrelevância a partir dos anos 1970, nenhum concorrente vai retirá-la do top 10 sem conquistar pelo menos uma Copa do Mundo.

A incrível final da Copa de 1954


Curiosidade: O 'Esquadrão de Ouro' eliminou a seleção brasileira nas Quartas de Final da Copa de 1954. A peleja, que terminou 4 a 2, foi seguida de uma pancadaria que ficou conhecida como "A Batalha de Berna". A Hungria também derrotou o Brasil na fase de grupos da Copa de 1966, por 3 a 1. O Flamengo trouxe o Honved ao Brasil para uma exursão em 1957, ocasião em que o clube rubro-negro correu risco de punição pela FIFA, já que o time de Puskas se recusava voltar para a Hungria. Era o mundo da Guerra Fria.

Evaristo de Macedo e Puskas na excursão do Honved no Brasil

SANTO IRINEU DE LYON E A PRIMAZIA DE ROMA, ou: Roma entre o Cardeal Newman e a apologética



Ao longo do século XX, boa parte dos teólogos católico-romanos -- quiçá a maioria -- explicou a eclesiologia do Vaticano I como um desenvolvimento histórico-doutrinário segundo as teses do Cardeal John Henry Newman, reconhecido recentemente como Doutor da Igreja Romana.

Não vou elaborar sobre as ideias de Newman. Sua noção de desenvolvimento não é estritamente ortodoxa, e tem diferenças estruturais com a de São Vicente de Lérins ou, digamos, a de São Dumitru Staniloae.

O ponto, no entanto, é que boa parte da teologia romana passou a considerar que o Papado, tal como concebido hoje, surge ao longo de um processo mais ou menos longo, e que a primazia de Roma era exercida, no primeiro milênio, em meio a uma estrutura fortemente sinodal.

Esta percepção pode ser encontrada em obras e documentos de diversos níveis do catolicismo romano. Tanto em obras de História, como Dvornik e Schatz; quanto nas teológicas, como em Ratzinger [futuro Papa Bento XVI]; como também em documentos oficiais publicados no site do Vaticano e que servem ao diálogo ecumênico [o mais significativo é o Documento de Chietti, elaborado em conjunto por teólogos ortodoxos e romanos].

Os dogmas do Vaticano I sobre o Papado, proclamados em um período conturbado da história ocidental, podem ser resumidos como a afirmação de um combo articulado de ideias sobre a origem divina do primado do Bispo romano [por meio de São Pedro], sua soberania absoluta e suprema sobre toda a Igreja, sua jurisdição universal ordinária e imediata tanto na administração e disciplina e costumes, além da infalibilidade em questões de fé e moral.

As teses de Newman permitem aos romanos defender os dogmas do Vaticano I atenuando o ônus de explicar porque a Igreja não 'funcionava' nesses moldes eclesiológicos no primeiro milênio. Eles apontam aquilo que chamam de sementes ou princípios dessas doutrinas, e apelam para um desdobramento natural, que consideram orgânico, das potencialidades contidas naquelas raízes de acordo com as necessidades de uma História que está, continuam eles, sob o controle divino.

Essa abordagem é diferente da que costumamos ver em certos nichos apologéticos, que tentam demonstrar a monarquia hiper-absolutista do Vaticano I em tempos primitivos da Igreja apelando para recortes de textos ou episódios de conflito. Nesses casos, não se trata de buscar ''sementes'' ou ''princípios'', mas muitas vezes de encontrar algum dos dogmas da Pastor Eterno no século II ou III.


O exemplo mais comum está na famosa passagem de Santo Irineu de Lyon no Livro III de "Contra as Heresias":

Ad hanc enim ecclesiam, propter potiorem principalitatem, necesse est omnem convenire ecclesiam, hoc est eos qui sunt undique fideles, in qua semper ab his qui sunt undique conservata est ea quae est ab apostolis traditio.

["Pois, devido à sua primazia superior, é necessário que todas as igrejas se reúnam nesta igreja, ou seja, os fiéis de todas as partes, na qual a tradição transmitida pelos apóstolos sempre foi preservada por todos os fiéis de todas as partes."]

ou ainda:

["Pois a esta igreja, por causa de uma principalidade mais forte, é necessário que convirja toda a igreja, isto é, aqueles que são fiéis de toda parte, na qual sempre por estes que são de toda parte foi conservada a tradição que é dos apóstolos."]


A tradução mais comum e mais usada na apologética romana crava que, segundo Santo Irineu, todas as demais Igrejas deviam concordar [doutrinariamente] com Roma. O problema é que essa tradução é problemática e muito longe de ser consensual.

[As que coloquei acima são de programas online, como o DeepL ou o Polytranslator, mas a pendenga sobre as dificuldades da passagem são bem conhecidas e podem ser encontradas na obra do historiador católico-romanos Klaus Schatz.]

O texto original, em grego, se perdeu, e só temos a versão em latim. E é um latim ambíguo, que leva a problemas de compreensão. O que significa "propter potiorem principalitatem"? Autoridade, fundação original, posição, excelência, preeminência? Roma tinha essa qualidade por si mesma, ou derivada de algum outro fator? E que autoridade ou preeminência seria essa?

De modo similar o termo "convenire". A tradução mais direta indica "convergir, se reunir em torno de", e não "concordar". Além disso, o autor vincula a singularidade romana aos "fiéis de todos os lugares", lugares estes em que a "tradição foi preservada", dando a entender que a presença eventual deles na cidade era importante para o argumento.

É sintomático que o historiador católico-romano Klaus Schatz, conhecido defensor de uma eclesiologia monárquica bastante centralizadora, declare que “não há uma interpretação conclusiva que elimine todas as dificuldades.” ["Papal Primacy: From its Origins to the Present".]

No fim das contas, Santo Irineu de Lyon parece apontar o caráter especial da preservação da tradição da Igreja de Roma, dado algum caráter singular [origem em São Pedro e São Paulo, posição central na oikumene cristã] e à presença eventual nela de cristãos de todas as partes do Império.

Não bastasse os problemas da tradução, que obstaculizam retirar do trecho qualquer coisa semelhante ao Vaticano I, há também o contexto. Não se pode recortar o parágrafo sem ter atenção ao tema tratado pelo autor e a conclusão a que ele conduz. Vale destacar dois pontos:

i. Santo Irineu não trata da organização jurisdicional da Igreja. Sua intenção é refutar as supostas "tradições gnósticas", oriundas de "ensinamentos secretos" e experiências particulares, contrapondo-as à verdadeira tradição apostólica resguardada nas Igrejas fundadas pelos Apóstolos e governadas por seus sucessores [os Bispos]. A passagem apresenta Roma como um lugar privilegiado para testemunhar essa tradição, não como "centro decisório doutrinal";

ii. Alguns parágrafos depois, o mesmo Santo Irineu de Lyon sugere o que fazer em caso de controvérsia sobre a tradição apostólica:

Quid autem si neque apostoli quidem scripturas reliquissent nobis? Nonne oportebat ordinem sequi traditionis, quam tradiderunt his quibus committebant ecclesias? [...] Quid si qua de modica quaestione disceptatio esset, nonne oporteret in antiquissimas recurrere ecclesias, in quibus apostoli conversati sunt, et ab eis de praesenti quaestione sumere quod certum et re liquidum est?

["Mas e se os próprios apóstolos não nos tivessem deixado nenhuma escritura? Não teria sido necessário seguir a ordem da tradição que eles transmitiram àqueles a quem confiaram as igrejas? [...] E se houvesse uma controvérsia sobre alguma questão menor, não deveríamos recorrer às igrejas mais antigas, nas quais os apóstolos atuaram, e extrair delas, a respeito da questão em pauta, o que é certo e claro?"]


Se os apologetas romanos estivessem corretos, Santo Irineu teria perdido uma excelente oportunidade de proclamar a autoridade decisória final do Bispo de Roma. No entanto, diante de qualquer controvérsia, por menor que seja, ele recomenda que se recorra às igrejas em que os Apóstolos conviveram, no plural e sem especificar alguma acima das demais.

Ressalto que o texto é bastante favorável a Roma. Ele aponta, de fato, que essa Igreja era vista de forma especial e com primazia já no fim do século II. O que decepciona alguns apologetas romanos é que ela seja insuficiente para mostrar indícios da monarquia papal hiper-absolutista da "Pastor Eterno".


Isso nos leva também à ação de Santo Irineu de Lyon na pendenga quarto-decimana por volta dos anos 190. A maior parte do mundo cristão comemorava a Páscoa em um domingo, dia da Ressurreição. Mas havia Igrejas, especialmente as da Ásia Menor, que seguindo uma tradição associada aos Gloriosos Apóstolos São João e São Felipe, a comemoravam sempre no 14 de Nissan.

Alguns apologetas romanos, desejosos de defender a jurisdição universal do Bispo de Roma ainda no século II, citam a História da Igreja de Eusébio de Cesareia:

Ὁ δὲ Βίκτωρ, τῆς Ῥωμαίων ἐκκλησίας προεστώς, παραχρῆμα τὰς μὲν Ἀσίας ἁπάσας ἐκκλησίας, ἅμα ταῖς ὁμόροις, ὡς ἑτεροδοξούσας, ἀποτέμνειν ἐπειρᾶτο τῆς κοινῆς ἑνώσεως· καὶ γραφὰς προτιθεὶς, ἀκοινωνήτους πάντας ἄρδην τοὺς ἐκεῖσε ἀποφαίνει ἀδελφούς.

["Vitor, o chefe da Igreja Romana, imediatamente tentou cortar de uma só vez da comunhão comum todas as igrejas da Ásia e as vizinhas, por serem heterodoxas, e, ao mesmo tempo, escreveu cartas declarando que todos os irmãos que viviam lá estavam fora da comunhão"]

O problema, evidentemente, está no recorte feito na obra de Eusébio. Segundo o historiador, a divergência quanto a data da celebração da Páscoa suscitou uma tentativa de uniformização. "Por conseguinte, realizaram-se sínodos e assembléias de bispos para tratar do assunto; e todos, de comum acordo, publicaram por carta um decreto eclesiástico para todos os fiéis, declarando que o mistério da ressurreição do Senhor dentre os mortos não fosse jamais celebrado senão no domingo e que somente neste dia se encerrariam os jejuns relativos à Páscoa."

Eusébio continua, citando alguns exemplos de concílios regionais discutindo o problema: Corinto, Jerusalém, Cesareia, Roma etc. O foco é mostrar o "mecanismo" de aferição da tradição apostólica e da decisão sobre a data da Páscoa: ainda não tínhamos um Concílio Ecumênico, que só seria possível com a convocação de um Imperador, mas a Igreja encaminhou sínodos locais para decidir a questão.

Daí surge a dissensão da Ásia Menor, que se recusa a abandonar a tradição herdada do 14 de Nissan. É nesse contexto que Eusébio descreve a tentativa de São Vítor, Bispo de Roma, de romper a comunhão com as Igrejas da região.

É significativa a reação suscitada pela ação de São Vítor. Segundo Eusébio, Καὶ αἱ τῶν πολλῶν ἐπισκόπων φωναὶ παρεῖσαν, ἐπιπληττόντων αὐτῷ σφοδρότερον. ["E as vozes de muitos bispos se fizeram ouvir, repreendendo-o com ainda mais veemência."]

Logo depois, ele cita a oposição de Santo Irineu de Lyon: Ἰρηναῖος δέ τις, ὀνόματι μὲν εἰρηνοποιός, τῷ δὲ τρόπῳ τοιοῦτος ὤν, ἐπιστολὰς ὑπὲρ τῆς εἰρήνης τῶν ἐκκλησιῶν προϊστάμενος, πολλὰ μὲν καὶ ἄλλα προσήκοντα διελέγχετο τὸν Βίκτορα, μὴ δεῖν ὅλας θεοῦ ἐκκλησίας ἀποτέμνειν παραδόσεως ἀρχαίου ἔθει χρωμένας.

["E certo Irineu, que era pacificador tanto no nome quanto no caráter, escrevendo cartas em favor da paz das igrejas, censurava Vítor também em muitas outras coisas apropriadas, dizendo que não se devia cortar igrejas inteiras de Deus por seguirem um costume de antiga tradição.”]

A admoestação de Santo Irineu continua, descrevendo como muitos cristãos oriundos da Ásia Menor viviam em Roma sem, no entanto, seguirem a prática dominical. E relembrando o episódio do encontro de Santo Aniceto de Roma e São Policarpo de Esmirna, que tinham consciência da divergência e nem por isso se "excomungaram" mutuamente por causa dela.

O episódio revela de fato que São Vítor pretendia falar em nome da unidade da Igreja, e pensava exercer prerrogativas próprias e exclusivas, como um tipo de centro da comunhão cristã. Mas tudo em meio a uma Igreja cujos procedimentos e decisões são fortemente ancorados na colegialidade e no consenso eclesiástico, e não por escolha unilateral de um monarca absoluto que exige obediência irrestrita.

Não é como se o Bispo de Roma tivesse acordado num dia e decidido impor à Igreja uma prática qualquer existente em Roma sob pena de excomunhão de quem discordasse. Houve sínodos em todo o Império para definir ou averiguar a tradição apostólica normativa, aquela que se praticava em [quase] todo lugar.

Diante da divergência da Ásia Menor, São Vítor agiu de modo punitivo, supondo que seria seguido pelas demais Igrejas [certamente por conta da Primazia romana]. Estava errado, pois foi admoestado, sintomaticamente, não só pelo Oriente, mas também pelos Bispo "ocidentais".

Outro fator importante: em nenhum momento se afirma que o Bispo de Roma preside diretamente algo mais que a Igreja de Roma. Eusébio sempre se refere a ele como líder de sua igreja, em meio a outros líderes de Igrejas. Santo Irineu de Lyon idem.

Estamos há anos luz das declarações da "Pastor Eterno", segundo a qual o Papa de Roma exerce uma jurisdição universal, suprema, imediata, ordinária e plena sobre a fé, disciplina e costumes; e à qual todos os fiéis e clero tem de se subordinar. Estamos muito distantes da Sé Romana que, segundo o Vaticano I, é juíza de todos, mas cujos juízos não podem ser julgados por ninguém.

Mais uma vez, o episódio narrado é favorável à Igreja de Roma. Demonstra que ela exercia de fato uma Primazia no período, e um papel de articulação e talvez de representação supra-regional. O que não se retira daí é a Monarquia hiper-absolutista, e sim um tipo de autoridade exercido sob a colegialidade e com prerrogativas delimitadas pela sinodalidade.

Para um romano que se escore em Newman, isso já seria suficiente. Já para os apologistas que desejam, a todo custo, projetar no cristianismo antigo o Papado Imperial da Idade Média ou ainda as definições da Pastor eterno, a disputa traz mais problemas que soluções.