Aviso aos navegantes: O novo mandato do lulopetismo não expressa uma conquista do Brasil, sua vitória eleitoral não protege a democracia, não representa os interesses dos trabalhadores, e será incapaz de defender a soberania nacional.
Consciência do Eu
'O fim honroso é o que não pode ser retirado a um homem.'
segunda-feira, 26 de outubro de 2026
A VITÓRIA DE LULA NÃO É A VITÓRIA DO BRASIL, ou: Quem vota em Lula, vota em Bolsonaro; e vice-versa
Antes que me confundam, votei e pedi voto nulo no segundo turno. No primeiro, fui de Rui Costa Pimenta [do PCO]. Minhas declarações foram públicas, estão em postagens publicadas em pelo menos duas redes sociais, e em duas lives nas três últimas semanas.
Nesse blog, há um texto em que contesto o apoio da direita a Flávio, dizendo que um governo dele seria parecido com o poder da Alerj [Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro], um exemplo notório de Narco-Estado.
Fiz oposição ferrenha a Jair Bolsonaro. Eu o chamava de Bozó e Mentecapto-Mor, apelidava seu governo de Reino dos Bozós. Pedi impeachment ainda em 2019. Desde 2020 avisava que ele articulava um golpe de Estado, mas que falharia porque o Exército não compraria sua briga, uma análise que se mostrou acertada. Minha avaliação do 08 de janeiro de 2023, publicada no mesmo dia dos acontecimentos, era de que se tratava de um evento golpista e que os envolvidos tinham de ser presos, incluindo o próprio Bolsonaro.
Flávio teria minha oposição caso tivesse vencido as eleições. Mas quem venceu foi Lula, que é Governo desde 2023, e cujo partido domina a Nova República desde 2002. Nesse período, o PT só perdeu uma eleição presidencial, em 2018, e por cálculo do próprio Lula, que preferia entregar o poder a Bolsonaro do que perder a hegemonia do campo de esquerda.
Não há qualquer sentido, portanto, em se considerar oposição aos rumos do país na última geração, se declarar contrário ao neoliberalismo, à americanização da política brasileira, à polarização ideológica copiada do modelo ianque, à financeirização da economia, ao avanço do crime organizado, ao cartel bancário etc. , e comemorar a vitória de Lula em 2026.
Nem mesmo a cartada de defesa da democracia é minimamente crível. O adversário de Lula tinha por principal "arma" a vitória nas eleições para o Congresso, não o Exército, as polícias, as milícias, ou qualquer outra instância capaz de articular um Golpe de Estado.
Pelo contrário, é Lula quem se encontra no poder, ele é quem fez uso explícito da máquina pública na reta final de campanha, quem contava com apoio da grande mídia liberal [Organizações Globo, UOL, Estadão etc.], e se fazia defensor de um modelo de governo que dá poderes excepcionais ao Supremo Tribunal Federal, cujos Ministros estão às voltas com denúncias de corrupção, fazem as vezes de articuladores partidários, e se dizem tutores da democracia, intervindo às claras no processo político.
Outra cartada possível dos defensores de Lula é a defesa da soberania nacional. O bolsonarismo sempre foi um patriotismo de goela. Em 2018, avaliei que o núcleo duro dentro do castelo de poder bolsonarista eram agentes filo-americanos e sionistas.
Minha avaliação não mudou esse ano, e dias atrás critiquei movimentos nacionalistas, como os russófilos da NR e seus aliados, que se abraçavam a Flávio desconsiderando que ele era o representante do sionismo no Brasil. O apoio de Trump, o artífice de uma nova Doutrina Monroe, dá a medida do quanto o bolsonarismo é um pseudo-nacionalismo.
Mas Lula não é muito melhor. Seu governo tornou as universidades públicas em cópias pioradas da USP, meros elos de correntes que grassam na esquerda californiana. Sua militância cristaliza o domínio ideológico do identitarismo estadunidense em uma parte imensa da juventude, e é usada para moldar o arcabouço jurídico e criminalizar opiniões e posicionamentos contrários.
Os apoios que Lula busca para derrotar o bolsonarismo são correntes ou alas do establishment político ianque e da UE: o social-liberalismo do Partido Democrata, a Social Democracia europeia. Lula e Bolsonaro não passam de dois modos diferentes de se associar ao imperialismo e à hegemonia ideológica dos EUA.
Críticos do bolsonarismo apontavam ainda outras características de seu movimento, como a flexibilização das leis trabalhistas, o fiscalismo, os perigos para a Previdência. Por razões óbvias, todos esses argumentos podem ser usados igualmente contra Lula, cuja biografia está entrelaçada com a consolidação de mecanismos de austeridade fiscal, de independência [de fato] do Banco Central, e de reformas previdenciárias.
Na mesma campanha em que Lula criticava retoricamente o anúncio de um "tesouraço" por Flávio, sua equipe econômica se reunia com próceres do "mercado financeiro" para estipular reformas e programas de rigoroso ajuste fiscal, que incluem revisões das despesas obrigatórias, de vinculações e indexações constitucionais, e de reforma administrativa.
O PT explorou o verde-amarelo nessas eleições, como se sua militância não tivesse execrado as cores nacionais nos últimos anos, chegando a sugerir mudanças no uniforme da seleção brasileira. Colocou também sua militância para cantar o Hino da Independência na Avenida Paulista, como se seus seguidores não copiassem as pautas do beatiful people de Nova Iorque e San Francisco.
Lula derrubou sua última diferença notável parar o bolsonarismo. Agora também pode ser chamado de "patriota de goela".
Não existirá qualquer saída para a pseudo-polarização que permite o domínio do cartel bancário enquanto os brasileiros, incluindo aqueles que pedem continuamente a superação dessa dicotomia em prol de um projeto de união e de desenvolvimento nacional soberano nos âmbitos econômico e cultural, decidirem se abraçar a um dos lados na hora das eleições.
Como denuncio há anos, lulopetismo e bolsonarismo se retroalimentam. Não existe possibilidade de votar num deles contra o outro. Quem vota em um, está votando também no outro, ainda que fantasie algo diferente.
Nessas eleições, O lulismo levou o Executivo, o Norte e o Nordeste. O bolsonarismo é a força dominante no Legislativo, e no Centro-Sul. Lula se rodeou de Janja, André Janones, Ana Elisa, Flávio Dino, Zanin, Alckmin. O bolsonarismo tem Nikolas, Pavanato, Tarcísio, André Mendonça, Michelle.
E o Brasil? O Brasil perdeu de novo.
segunda-feira, 19 de outubro de 2026
OS LIMITES DO UDENISMO À DIREITA E À ESQUERDA, ou: como a nova direita desaguou em Flávio Bolsonaro
"Uma péssima notícia para os udenistas: Flávio Bolsonaro é a Alerj no poder."
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Não deixa de ser engraçado ver a direita tão mobilizada para eleger Flávio Bolsonaro. Esse campo ressurgiu em 2014/15 carregando o mesmo "udenismo" de décadas passadas: um forte sentimento moralista e anti-corrupção contra políticos cleptomaníacos entricheirados no Estado.
O udenismo é o elo que amarrava a velha e a nova direita, um veículo permanente do inconformismo tanto da classe média tradicional quanto de uma classe média surgida da industrialização.
Se formos mais a fundo, o udenismo atravessa também outros campos políticos: o próprio PT se baseava nesse pathos. Nos anos 1980 e 1990, a legenda cresceu com o discurso da ética na política, da mudança de práticas, do partido de trabalhadores não só limpo como militante contra as chagas de uma elite patrimonialista. A leitura petista trazia as marcas da sociologia de Raimundo Faoro.
O petismo se desvencilhou do udenismo por conta dos escândalos do primeiro mandato de Lula. O Mensalão jogou por terra a imagem do "partido da ética", e a turma da estrelinha nunca mais recuperou a aura. Eles perderam o apoio da classe média udenista com culpa burguesa [uma fatia esquerdista da classe média], do proletariado ascendente, e adquiriu feições muito mais populistas, outra ironia histórica.
Voltando à direita, o lavajatismo nada mais era que um udenismo de toga, herdeiro de certa postura 'tenentista'. Não há símbolo maior dessa ala do que espíritas [kardecistas] acreditando que Sérgio Moro era reencarnação de Emanuel.
Acontece que o udenismo não é a totalidade da direita, e é mais eficiente para destruir estruturas e desestabilizar governos do que para se consolidar de forma programática e propositiva. É muito difícil ao udenismo sobreviver à experiência do poder, que é sempre realizada em adequação com elites que são a coluna vertebral das hierarquias sociais, e com instituições seculares que são os fundamentos da nação organizada.
Se é possível evocar dois outros símbolos da insuficiência do udenismo, lembremos de Jânio Quadros e Collor. O primeiro era a "vassourinha" que limparia o Brasil da roubalheira e das imoralidades, fosse criando o ponto para funcionários públicos ou proibindo biquínis nas praias. Durou meses no poder, e foi tão exótico e delirante que hoje ficamos surpresos com o tamanho do mito criado em torno de algo com tão pouca substância, como era o político Jânio Quadros.
Já Fernando Collor trazia outras marcas. Era herdeiro de uma antiga oligarquia política, e um dos grandes oradores do país. Existia algo de messiânico em torno de sua figura, trabalhada nos detalhes para ser misto de juventude, heroísmo, coragem. Collor era o "caçador de marajás" e o ungido do então "todo poderoso" Roberto Marinho. Mas não teria vicejado caso não tivesse uma verve populista vibrante. Obviamente, seu governo se esfacelou por falta de base parlamentar, o mesmo problema que angustiava Jânio e o levou à tentativa de um golpe bonapartista.
O udenismo não é páreo para o populismo. Uso este último termo de forma técnica, e não pejorativa, me referindo a lideranças carismáticas que mobilizam as massas em torno de uma abordagem maniqueísta da sociedade e encarnam pessoalmente todo uma confluência de elementos da cultura e história política das classes que representam.
O udenismo pode até se associar ao populismo, mas não sobrevive contra ele, uma lição que a realidade ensinou ao PT -- e quem não se deixou convencer abandonou o barco em prol de novos purismos [o PSOL, por exemplo]. O partido da estrelinha há tempos gravita em torno do fenômeno populista do lulismo.
Pois bem, a nova direita, que nasceu impulsionada pela udenismo, mergulhou no bolsonarismo. Jair nunca foi um personagem udenista, ele é membro do baixo clero, e construiu sua carreira como um tipo de 'sindicalista' ou representante corporativo dos baixos escalões do Exército. Era o sujeito que defendia os direitos e as remunerações de cabos, sargentos e tenentes, que até os anos 1990 eram muito baixas.
Mas os udenistas se abraçaram a Jair na tentativa de influenciá-lo. Não foram os únicos, os generais-políticos, os intervencionistas, as olavetes, e até mesmo Paulo Guedes imaginaram a mesma coisa. Depositaram as fichas em um fenômeno muito antigo da política brasileira, representado por uma personagem oriundo do velho nacionalismo anti-trabalhista do regime civil militar.
E aí chegamos a Flávio, que entrou na política por inspiração do pai, e reproduzindo o mesmíssimo viés ideológico, mas com temperamento e carreira muito distintas. Flávio é não só um homem marcadamente do "centrão", e herdeiro de uma nova oligarquia política, como alavancou seu eleitorado em torno das polícias militares, especialmente o fenômeno das milícias no Rio de Janeiro.
Jair Bolsonaro não é, ele próprio, oriundo desse círculo. Podemos até vinculá-lo aos porões do regime civil-militar, toda aquela podridão que fazia cm que escalões médios das Forças Armadas chamassem Ustra, um torturador de mulheres, de ''heroi anticomunista". Mas a carreira partidária de Bolsonaro se fundamentava nos votos de militares subalternos: era um voto corporativista, de representação de categoria, obedecendo a uma lógica econômica e marcadamente de "classe profissional". Não era voto ideológico, ainda que o pouco apreço de Bolsonaro pelo regime democrático fosse conhecido desde seu primeiro mandato em Brasília.
A proximidade do bolsonarismo com o fenômeno rasteiro, criminoso e degradante das milícias vem a partir da ascensão de Flávio. Este sim um parlamentar sem biografia no Exército, mas que surfou o caos de segurança pública fluminense durante os anos de Sérgio Cabral.
Flávio conquista a vaga de deputado estadual na mesma eleição que entregou o primeiro mandato de Presidente a Lula. Foi carregado para a Alerj pelo nome do pai, muito forte entre ativos e inativos do Exército: a cidade do Rio de Janeiro concentra um quarto dos militares do Exército de todo o país. Mas elaborou uma estratégia de "complementaridade" do legado familiar, investindo na construção de uma base eleitoral entre as polícias. Vem daí suas iniciativas de condecoração de Adriano da Nóbrega e sua aproximação com o que mais tarde se tornou o submundo das milícias cariocas.
Não significa que Flávio seja ele próprio miliciano, óbvio que não, e sim que se tornou representante de uma categoria de segurança fortemente corrompida pelo fenômeno das milícias, com os quais ele tentou compactuar durante seus três primeiros mandatos, e para os quais arrastou em certa medida o pai.
Ainda que Flávio tenha afastado sua imagem desse meio, principalmente depois que Jair alcançou projeção nacional como aríete do antipetismo e do anti-identitarismo, esse passado está marcado em sua testa, e é boa parte de sua biografia político-eleitoral. Além disso, ele é também o sujeito dos "pequenos esquemas", dos "rolos" típicos da Alerj e do baixo clero do Centrão. Não há qualquer coluna vertebral ideológica própria que não seja parasitismo do carisma muito mais genuíno do pai.
Sérgio Moro e Deltan Dallagnol apoiam Flávio Bolsonaro para Presidente. No caso, é por sobrevivência política e hipocrisia óbvia, pois é impossível que eles não saibam quem é Flávio, o menos ideológico e mais carreirista dos filhos de Bolsonaro.
Mas e o eleitorado udenista? Talvez esteja fazendo como o eleitor intervencionista, ou mesmo o liberal. Quieto, algo envergonhado, constrangido: e ainda assim cravando 22 nas urnas por conta do antipetismo.
quarta-feira, 22 de julho de 2026
O ODISSEU DE NOLAN E O CRISTIANISMO, ou: os horizontes da Odisseia de Nolan
Há quem diga que a abordagem que Nolan faz de Odisseu o aproxima de uma perspectiva cristã. Eu discordo bastante dessa interpretação do filme. Não é porque alguém sente culpa ou remorso, ou se mostra traumatizada pelo próprio passado, que está adotando só por isso uma posição cristã.
As consequências da Guerra de Tróia já eram avaliadas de modo crítico pelos próprios gregos. É uma complexidade presente já na poesia homérica. A Ilíada é uma celebração guerreira, mas termina com um funeral. A Odisseia retrata Aquiles, principal herói aqueu em Tróia, como uma sombra que se lamenta de seu destino no Hades. O próprio Odisseu adquire glória não por causa da força e destreza militar, mas da Métis e da Eusebeia, como comentei no texto anterior. [clique para ler]
Os mitos sobre os heróis que retornavam do conflito também trazem diversas 'condenações' à hybris ou à desmedida dos protagonistas. Basta notar o que acontece com Ajax, o Menor, por ter estuprado uma sacerdotisa de Atena no santuário da deusa durante o saque a Tróia. O cenário é obviamente similar a um dos traumas sofridos por Odisseu, a violação do templo deusa Atena e a decapitação de uma de suas sacerdotisas.
Tanto na filosofia quanto na tragédia grega posterior há, ao mesmo tempo, admiração pelos feitos guerreiros e uma visão trágica sobre a corrupção e a degradação trazida pelo conflito. Eurípedes e Sófocles se concentram, mais das vezes, no sofrimento dos vencidos, mostrando estupros, infanticídios, escravidão. E também enfatizam as consequências nos vencedores, como a locura de Ajax, o Maior; ou a covardia cometida por Neoptólemo, filho de Aquiles, contra o Rei e ancião Príamo.
O suicídio de Ajax, o Maior, pela vergonha de destruir rebanhos ao confundi-los com inimigos, loucura enviada a ele por Atena como punição por sua hybris, é um dos maiores e mais profundos dramas gregos. Inclusive pela recusa de Odisseu de rir do ridículo do herói, "hoje ele, amanhã sou eu".
Os romanos, que se consideravam descendentes dos troianos [por meio de Enéias], não condenam moralmente a trama do Cavalo, mas seguiram os passos dos gregos na reflexão sobre a natureza e os limites da Métis: quais os resultados de uma vitória que vem pela trapaça, quais os limites da mentira e da manipulação política? O próprio Odisseu -- e Sinon, que é encarregado de enganar diretamente os troianos -- é visto doutra maneira por eles.
E se a responsabilidade dos heróis e o custo indizível da guerra coloaram importantes questões para o pensamento grego, os romanos propuseram algumas respostas: o sofrimento desencadeado em Tróia estava submetido à Providência, os deuses tiraram daquilo tudo um bem ainda maior, que era a civilização romana. A resiliência de Eneias, sua pietas, o tornou instrumento da edificação de Roma. A ''piedade" para os romanos estava acima do Kleos [glória guerreira] de Aquiles e do Nóstos [Retorno legitimado pelos deuses] de Odisseu: era o senso de missão e de dever para com os deuses, a pátria, e a família, que só podia ser realizado com renúncia e sacrifício pessoal.
O Cristianismo não trouxe nenhuma novidade nesses tópicos ao ler Homero. Na verdade, seguiu passos condizentes com o neoplatonismo, cujo intuito era conciliar as críticas que Platão fazia aos mitos e aos épicos com a própria importância dessas obras para a cultura helenista. Daí a tendência de ver na Odisseia uma jornada mística e/ou iniciática da alma que retorna a Deus.
A singularidade de Nolan nesse campo é a redução do substrato metafísico que o sustenta, e a reelaboração da narrativa a partir de uma psicologia contemporânea. Os traumas e remorsos de Odisseu o incapacitam para ser quem ele [pensava] que era. Se a Odisseia é retorno, em Nolan não há retorno algum. Tampouco há ascensão mística, santidade, ou reintegração no Uno. Temos, isto sim, um indivíduo que se livra de seu mundo e pensa em se reconstruir em algum outro lugar.
As diferenças tem tudo a ver com o público e o tempo para o qual se dirige Nolan. Os gregos queriam perpetuar ou retornar ao mundo heróico. Os filósofos especulavam sobre a Justiça e a contemplação da Verdade. Os neoplatônicos queriam se unir ao Absoluto. Os cristãos pensavam ascender de poder em poder, de glória em glória, até a imortalização e deificação na Luz Divina.
A cultura estadunidense, que financia e consome Nolan, tem um noção diferente de 'heroísmo' e drama existencial humano. Para eles, a questão é encaminhar bem os filhos, e depois cumprir o ideal de mergulhar na estrada da esperança, da liberdade, do futuro, da independência, da possibilidade do recomeço, para esse mundão do futuro aberto à frente, em que tudo pode vir a ser.
Odisseu só quer pegar Penélope, colocar na garupa da moto, e encarar a Route 66.
terça-feira, 21 de julho de 2026
"A Odisseia" de Nolan: O Mito de cabeça pra baixo
«Vede bem como os mortais acusam os deuses!
A partir de nós (dizem) existem os males, quando são eles,
pelas suas loucuras, que têm dores além do destino!"
Odisseia 1.32-34
Uma análise justa de "A Odisseia" [2026], de Christopher Nolan, tem de separar o "arrasa-quarteirão" dos méritos e deméritos da adaptação de uma obra fundacional. Hollywood provou que ainda sabe fazer um bom "pipocão". Mas o entretenimento não é suficiente para tirar do paladar o amargor da ausência de referências mais sólidas na releitura do mito. E aqui cabe falar antes de releitura do que de simples "adaptação".
Ainda que Hollywood tenha, por uma questão de sobrevivência do negócio, dado tímidos passos atrás no seu apoio desbragado à guerra cultural progressista, toda tentativa de dinamizar o "evento cinematográfico" e trazer de volta o público para as salas enfrenta a mesma desconfiança: Ninguém quer pagar ingressos caros para assistir um roteiro que não passa, no fundo, de um retalho de propaganda ideológica liberal.
Entretanto, os problemas dessa "adaptação" não se encontram propriamente nesse nível. Não estamos diante de um novo "Alexandre" [2004], de Oliver Stone. Claro que há propaganda liberal, seria impossível se livrar dela por inteiro no produto de um grande estúdio de Hollywood.
Elas incomodam mais pelo ridículo da situação, tão deslocadas parecem da ambiência "homérica", como os laivos feministas no pobre texto de Penélope [Anne Hathaway] e de uma irreconhecível Circe [Samantha Morton], retratada como uma idosa camponesa medieval ultrajada com a fama de "bruxa"; a critica à mentalidade sacrificial [e que respinga em certas teologias cristãs]; o raquítico Sinon vivido pelo homem trans Elliot Page; ou pela imensa forçada de barra de uma Helena negra [Lupita Nyong'o] em uma cultura aristocrática que tinha por ideal de beleza feminina a mulher alva, pálida, de pele menos tocada possível pelo sol.
[A "Helena de braços alvos", epíteto conhecido da Ilíada, e traduzida brilhantemente por Manoel Odorico Mendes como "Helena bracicândida", ressaltando a impressão de irradiação de luz da pele branca intocada que era o ideal de beleza aristocrática feminina da Grécia Arcaica.]
O filme dá munição para os que desejam vetá-lo a partir desses elementos. Mas o diretor os encara como periféricos, e sua reconstrução passa ao largo desse tipo de debate, bastando para tanto deixar de lado dois pressupostos fundamentais para os que se atém a esse tipo de crítica.
Nolan não pretende uma reconstrução histórica da civilização que gerou a Ilíada e a Odisseia; ou seja, a sociedade da 'Idade das Trevas' grega saudosa de seu passado 'micênico', e descrita de modo perspicaz no monumental "O Mundo de Ulisses", de Moses Finley. Tampouco se trata de uma transposição para a telona dos temas e valores da poesia homérica e da Grécia dos séculos VIII e VII a.C. O filme assume explicitamente que é uma releitura "ampliada" do clássico -- e o peso dado a tópicos da Eneida está longe de ser um acaso quanto a este ponto.
A favor de Nolan, é possível apontar que a releitura crítica da Odisseia faz parte da própria história grega, um mundo em que a ontologia divina, a cosmologia e a ordem humana estão imbricadas.
A poesia homérica trata do problema da restauração da ordem após a hybris heroica na Guerra de Troia. Do retorno [Nóstos] do Rei como reinstalação do mundo social legitimado pelos deuses. Odisseu é novo modelo heroico por sua capacidade de prevalecer pela métis, virtude que compartilha com a deusa Palas Atena, uma forma específica de inteligência estratégica e engenhosa, característica do navegador, do investigador e também do "trickster", marcado pela astúcia e trapaça.
Por outro lado, a sagacidade de Odisseu não obscurece sua natureza eminentemente guerreira, como se lê no banho de sangue que ele promove contra os pretendentes que parasitam e desonram seu palácio, e contra os servos que lhe foram infiéis; tampouco pode ser dissociada do fundamento religioso da epopeia.
O retorno do Rei é também uma reintegração à ordem do ser: Odisseu é expressão não só da Métis de Atenas, mas também da Eusebeia, a piedade que o move insistentemente para uma correta relação com os deuses. Seu retorno não é um drama pessoal de vingança, típico topos hollywoodiano, mas uma cura do miasma da hybris, uma punição aos que romperam com a xenia [a hospitalidade que simboliza Zeus], e uma manifestação da Justiça entre os homens.
Como heroi, ele navega por estados liminares sem esquecer quem é e qual seu lugar na hierarquia do Cosmos: Rei de Ítaca, marido de Penélope, pai de Telêmaco. A memória é o 'fio de Ariadne' que permite a conexão com a verdade instaurada e guardada pelos deuses.
Os gregos dos séculos posteriores discutiram a real natureza da métis de Odisseu. No contexto da polis, do surgimento da filosofia, dos embates sofísticos, e dos conflitos dos séculos V e IV a.C., eles focaram no impacto das consequências da guerra, capaz de degradar tanto vencedores quanto vencidos, e pensaram o mito na perspectiva da pedagogia e da arte do governo [Telemaquia]. A reinterpretação culminou com a abordagem metafisicamente pesada do neoplatonismo, em que a Odisseia se transforma em uma jornada iniciática da alma rumo ao Uno, leitura que foi cristianizada na Antiguidade Tardia e na Alta Idade Média, em que a ascensão mística ganha o sabor de uma peregrinação.
Nolan dialoga com algumas dessas chaves hermenêuticas, mas adotando uma antropologia e cosmologia bem diferente. Não encontramos uma história sobre a Justiça, a reintegração ao Absoluto, o regresso à Pátria Celeste, ou a realização metafísica. É verdade que adaptação flerta com a tragégia grega e com Virgílio ao ver a Guerra de Troia como uma catástrofe, e no questionamento do estratagema do Cavalo de Troia, que permitiu a vitória aquéia e imortalizou o heroísmo de Odisseu, mas que os romanos percebiam sob o signo de um ardil moralmente dúbio.
Assim, na reprodução da viagem ao Hades, Sinon confronta Odisseu por ter sido reduzido a um mero instrumento nas tramas e mentiras do heroi. Em certa medida, há também menção ao foco romano na Providência dos deuses, que causam sofrimento visando uma glória maior -- que em Virgílio significa a fundação de Roma a partir da carnificina e da destruição em Troia. O Odisseu de Nolan também se reconcilia com a "mão dos deuses" no último terço da obra, e reivindica o direito de aplicar a Métis no episódio da escolha entre o Redemoinho Caríbdis e o Monstro Cila.
Aliás, é um erro dizer que Nolan adota uma postura 'agnóstica' quanto aos deuses. Eles estão no filme, e intervém na história a partir de símbolos. Trovões manifestam a vontade de Zeus para Calipso, tempestades no Mar indicam a punição de Poseidon, e a destruição da tripulação prova a fúria de Hélio. "Por que os deuses não falam claramente?", se pergunta o personagem de Matt Damon para obter a resposta da suposta Atena: "Há algo mais claro que um Raio, que uma Colheita favorável, que a Morte?"
Do mesmo modo, a imaginação mitológica não é eliminada: as sombras no Hades expressam o escândalo do destino humano e são evocadas por um sacrifício; Circe usa feitiços para transformar seres humanos em animais; o vidente Tirésias desvela as possibilidades futuras para Odisseu; há ciclopes que pastoreiam ovelhas e devoram homens; há sereias que seduzem e destroem com o canto.
E, no entanto, a presença desses elementos é diminuída radicalmente para ceder ao drama existencial humano, é simplificada e condensada ao máximo a fim de passar a um segundo ou terceiro plano. A única antropomorfização de uma divindade se demonstra, no fim das contas, uma projeção do remorso sentido pelo protagonista.
Aqui se encontra a chave hermenêutica para o filme de Nolan, e que torna sua leitura uma ruptura brusca com o sentido tradicional da obra. O interesse do cineasta está na psicologização de Odisseu. Os herois tem responsabilidade na tragédia da guerra e da crise civilizacional, como na abordagem grega, romana e cristã. É um caos provocado pela hybris dos gregos, e não pela invasão de povos estrangeiros -- e assim Nolan usa o debate historiográfico sobre o fim da "Idade do Bronze" pela chegada dos "povos do mar" como sinalização das questões políticas da sociedade ocidental atual.
O ponto fundamental, no entanto, é que esses elementos são lidos a partir de uma antropologia e cosmologia moderna, são traumas que fragmentam e inviabilizam a identidade do protagonista.
Para Nolan, não há retorno possível. Nem para Ítaca, nem para a Ordem Justa, nem para o Uno, nem para Deus. Depois do que viu e fez, Odisseu já não pode ser mais o mesmo, nem há um universo que permita sua ascensão a estados superiores. A métis jamais será encarada novamente sob o signo da dádiva e da participação divina, mas também como maldição que não traz nem real sobrevivência nem uma possível restauração, é antes instrumento na ruptura de um "pacto" civilizacional. A memória não é o liame entre os homens e a verdade inscrita no ser, mas fardo pesado cuja dor se quer entorpecer com a flor de lótus. Odisseu assume que merece o exílio, e mais do que isso, o deseja, o vê como alternativa viável.
Daí a necessidade premente de modificar o final da obra. Assim como em Dante, o protagonista escolhe navegar para o Oeste. A brutal diferença é que na interpretação dantesca a decisão é um erro, expressão da mesma hybris que desafiou os deuses e foi causa da calamidade: Ao violar os Portais de Hércules, Odisseu é fulminado por não respeitar os limites da natureza humana.
O filme inverte essa perspectiva. O heroi não vai repousar na Pátria, nem terrena nem Celeste, nem no mundo fundamentado pelo divino, nem na Contemplação do Belo, nem na Reintegração ao Absoluto. A História pode continuar sem ele, pois sua identidade não foi [re]descoberta nem realizada. Ela será reconstruída na partilha do desconhecido com uma pessoa amada, única honra possível aos mortos.
É possível forçar a mão e ver algo da melancolia e tristeza diante de um mundo que se esvazia, como na partida dos elfos e de Frodo em Tolkien. Mas o tom predominante é da abertura dos indivíduos para o futuro à sua frente, em que mergulham não para se encontrar, mas para se refazer em outras circunstâncias. Nada mais moderno, nada mais anti-homérico.
Por fim, e para não dizer que não falei em flores, "A Odisseia" tem de ser colocado em seu devido lugar: um filme hollywoodiano, e como tal capaz de trazer momentos memoráveis na reconstrução do Hades, na sequência da trama do Cavalo de Troia, no horror na caverna de Polifemo. Há também mau gosto, no caso da representação dos lestrigões, de Circe, e de Agamênon. E traz defeitos típicos do cinema de Nolan: parco desenvolvimento dos personagens, tendência ao 'naturalismo' e à racionalização.
sexta-feira, 17 de julho de 2026
A FINAL DA COPA DO MUNDO E O RETORNO ÀS RAÍZES
A Argentina vence porque pratica um futebol que respeita suas raízes? O Brasil perdeu porque abandonou sua "essência"?
Uma das tendências mais comuns em derrotas de Seleções campeãs é o debate sobre a perda de uma identidade que era garantidora de sua outrora qualidade. O debate se dá no plano do imaginário, do mito, sem apego aos fatos e aos processos de desenvolvimento do futebol.
O que ele expressa, antes de tudo, é um impulso arcaísta que pode ser usado para manter a autoestima de determinada escola enquanto ela fica distanciada das épocas de glória. Afinal, se perdemos sem nossa "essência", somos nós de fato que perdemos?
A escola sul-americana dos anos 1920 desenvolveu um estilo que visava se contrapor ao futebol inglês: trocas de passes curtos, envolvendo a defesa adversária por meio da circulação da bola, de tabelas, de triangulações. Exigia uma técnica refinada, um domínio preciso da pelota.
Os escoceses foram seus predecessores no século XIX, e a escola danubiana -- nascida no Império Austríaco, e que se estendeu por terras tchecas, eslovacas, e húngaras -- lhe deu continuidade.
Na América do Sul, no entanto, havia uma particularidade: o drible, a finta, o malabarismo com a bola, que inventava jogadas que deixavam o público estupefato. Essa criatividade apresentou ao mundo o 'peixinho', a 'bicicleta', o 'toque de calcanhar' etc.
O grande rival do Uruguai bicampeão olímpico era a vizinha Argentina, medalhista de prata em Amsterdã. O Uruguai voltou a prevalecer na final da primeira Copa, em 1930, com uma goleada de 4 a 2.
Foram duas as explicações propostas para o predomínio da Celeste. Primeiro, a suposta garra charrúa, característica distintiva permitia aos uruguais jogar com mais raça que os 'hermanos'. A segunda, menos laudatória, era o apego da Celeste à disciplina tática. Os uruguaios eram as "formigas", e os argentinos eram as "cigarras".
O futebol argentino caótico em relação ao do vizinho. "La Nuestra", como passou a ser conhecido, era uma forma de atuar que privilegiava a estética sobre a organização. O jogador tinha de entreter o púbico e também se divertir em uma competição voltada para o ataque e para o craque.
"La Nuestra" não era, portanto, um dado sistema tático, uma determinada disposição dos atletas em campo, nem mesmo se confundia com o ímpeto de garra que muitos hoje associam aos argentinos. Era colocar a beleza e o "jogar bem" acima do "esquema".
A derrota na final de 1930 foi o primeiro grande trauma do futebol argentino. A adoção do profissionalismo foi acelerada também por causa da consciência da derrota. Ao longo dos anos 1930 e 1940, o futebol dos hermanos se isolou do cenário internacional. Foi o auge de "La Nuestra", cujo prestígio a levou a ser exportada para outros cantos da América do Sul -- como a Colômbia.
O isolamento produziu também um mito de superioridade destruído quando a albiceleste voltou a disputar uma Copa, na Suécia 1958. Eles perderam na estreia por 3 a 1 para a Alemanha Ocidental, então campeã. No terceiro jogo da fase de grupos, o Desastre: uma sova de 6 a 1 diante da Tchecoslováquia.
A catástrofe levou a uma ampla reflexão e reformulação no futebol argentino. Eles passaram a importar modelos europeus de treinamento e de organização tática. Tentaram jogar com líberos, se modernizar, ampliar a disciplina, e adotaram um estilo mais defensivo. Criou-se no país um complexo de inferioridade física em relação a Europa: o atleta argentino seria franzino demais para a força do futebol dos anos 1960/70.
O futebol de clubes sentiu o impacto com o surgimento do Estudiantes de Zubeldía, voltado para a vitória a todo custo, incluindo a violência e e o abuso da 'picardia' [o jogo mental com o qual os argentinos visavam abalar psicologicamente os adversários]. A mídia do país qualificou essa fase de ''antifutebol'', que apesar disso teve continuidade, em maior ou menor grau, nos gramados do país.
E então mais um trauma: a desclassificaçao nas Eliminatórias para 1970. Os hermanos ficaram de fora daquela que, para muitos, é a maior Copa da História por perderem a vaga para o Peru.
Esse novo desastre levou a uma polarização em torno de duas ideias, cada uma delas personificada por um treinador. Menotti defendia um futebol técnico, de posse de bola por meias, com pontas, voltado para o ataque, que fosse expressão cultural da história argentina, ainda que modernizado pelas inovações que o Brasil e a Holanda trouxeram ao jogo. Foi desse modo que a Argentina levantou o caneco em 1978.
Já Bilardo, antítese de Menotti, queria pragmatismo, adequação aos adversários, um poder ofensivo que gravitasse em torno de um "segundo atacante/ponta-de-lança" sustentado por um poderoso sistema defensivo. Foi um dos pioneiros do 3-5-2, que ele próprio transformava em um 5-3-2 por meio do reposicionamento dos alas. Foi desse modo que a Argentina venceu a Copa de 1986.
Entre a final da Copa de 1986 e o início do Mundial de 1990, a Argentina jogou 31 vezes, e saiu de campo apenas com seis vitórias. Passou pela fase de grupos na Itália como um dos melhores terceiros colocados, após derrota vexatória para Camarões na estreia, e um lance polêmico em que Maradona usou a mão para evitar um gol no enfrentamento contra a União Soviética. A Argentina se viu diante do Brasil nas oitavas-de-final, e avançou em um daqueles jogos que se devem ao "sobrenatural de Almeida". Mal passou do meio campo, recebeu uma saraivada de golpes, e quatro bolas nas traves, mas decidiu a partida em um contra-ataque raro de Maradona e Cannigia no fim do segundo tempo.
Nas QF e SF, a estratégia argentina era arrastar o jogo, atuar por uma bola ou por um lance de Maradona, e confiar na disputa de penaltis, em que se destacava soberbamente o goleiro Goycochea, que ganhou a posição quando o titular Pumpido quebrou uma das pernas ainda na primeira fase. A Argentina tinha um jogador que era comparado então a Pelé, mas seu grande heroi na Copa era um goleiro pegador de pênaltis. Nada mais distante de ''La Nuestra", não apenas em execução, mas também em espírito.
Depois, o grande desafio era se adaptar a um mundo sem Maradona. A primeira tentativa colapsou em mais um trauma: a goleada implacável de 5 a 0 imposta pela Colômbia em pleno Monumental de Nunez, nas Eliminatórias para os EUA 1994. A albiceleste disputou a a repescagem contra a frágil Austrália. Maradona voltou à Seleção, que teve bons momentos nos EUA, apenas para que as ilusões se desfizessem com o teste que revelou o doping de Diego.
Como recuperar os anos de vitória? A epopeia argentina passou pela disciplina espartana de Passarela, que proibiu, dentre outras coisas, cabelos longos na Seleção. [Quando o craque Redondo cortou as madeixas, foi acusada de hipocrisia por Maradona.] Depois, a revolução tática do impetuoso Bielsa, o "Louco", um dos defensores do 3-4-3 e dos esquemas coletivos rígidos, em que os jogadores eram peças de um jogo de xadrez em que o protagonista era, na verdade, o técnico. Tão radical era Bielsa que ele não encontrava espaço em seus esquemas para a exuberância de um Riquelme.
Todas essas tentativas terminaram em fracasso e numa freguesia crescente diante da Seleção brasileira.
O surgimento de Messi transformou, por muito tempo, o sonho de um novo Maradona em um novo tipo de pesadelo: os hermanos tinham o melhor jogador do século, mas invariavelmente perdiam, fosse com Bielsa, fosse com um jogo de posição "guardiolista" [Sampaoli]. Nenhum sistema, método, estilo, ou forma de jogar parecia resolver o problema crônico: 36 anos sem Mundial, 28 anos sem uma mísera Copa América.
Scaloni promoveu um retorno às raízes? Ressuscitou "La Nuestra"? Na verdade, a Argentina de 2022 era pragmática e flexível. Mudou a escalação sete vezes em sete jogos para se adaptar aos adversários. Se testou na superação do fracasso da estreia, uma derrota de 2 a 1 para a Arábia Saudita. Avançou tendo 5 penaltis a favor no tempo regulamentar em 7 partidas, e prevalecendo em duas disputas por pênaltis nos quatro mata-matas que enfrentou. Não era "La Nuestra", e sim adaptação, vontade de vencer, e as circunstâncias.
A equipe atual chega a mais uma final no mesmo espírito. Não realiza transições porque Messi não as suportaria. Concentra o jogo no corredor central porque faltam jogadores de qualidade que atuem pelas pontas [Scaloni tentou algo no sentido com Simeone no jogo contra a Inglaterra mas com resultados muito pequenos]. Prefere trocas de passes em torno de Messi porque é a forma que tem para potencializá-lo.
É um modelo tático irrepetível por qualquer outra equipe, e que dá enormes desvantagens à própria albiceleste [como se viu nos jogos contra Egito, Suíça e Inglaterra]. Mas a Argentina sempre encontra um modo de sair vitoriosa, nem que seja em meio a polêmicas. É um time com espírito vencedor.
A História do futebol argentino não é a da ''manutenção das raízes'', mas da contínua reinvenção depois de derrotas e períodos traumáticos, e da adaptação aos tempos com o objetivo de chegar à vitória. Se há algo de estável no futebol dos vizinhos é a perene qualidade de seus jogadores e seu apreço à vitória, não um sistema tático ou estilo de jogo específico.
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