terça-feira, 8 de outubro de 2019

Coringa, parte II -- Somos todos Palhaços





3. "Até hoje, eu sequer sabia que existia. Mas eu existo e..."



É importante ressaltar, porém, que Phillips não ''sociologiza'' o Coringa em nenhum momento. Não são esses problemas sociais que por si só vão levar à transformação assustadora de um ser fragilizado da hierarquia social no Palhaço Assassino. As condições sociais são gatilhos para a emergência do arquétipo, mas apenas de forma indireta. De certa maneira, mas em um nível muito poderoso, o Palhaço já estava lá, tanto na escura e corrompida Gotham como no fundo da mente de Arthur.


Isso fica nítido nos trejeitos efeminados que Phoenix solta quando em momentos de descontração seu personagem se permite uma crítica mordaz ou um humor que só ele enxerga. E de forma ainda mais clara nos passos que ensaia. Sozinho, diante da TV, Arthur começa a dançar com a arma que Randall lhe deu.


Ele expõe sua magreza patológica, mas nos tímidos movimentos já se nota a possibilidade de um ritmo próprio. Arthur fala sozinho, em uma cena em que podemos observar ''de fora'' um de seus delírios: ''Você é um bom dançarino, Arthur'', ''Eu sei'', ''Sabe quem não é um bom dançarino?'', ''Ele!" E então subitamente atira na parede, na direção da imagem que não sabe dançar bem. O disparo o retira do mundo da fantasia, e ele se assusta, inventando uma mentira para a mãe [''estou vendo um filme de guerra''].


Alguns viram na cena a prova de que Arthur, no início, não era violento, mas ela significa justamente o contrário. No fim do filme, essas possibilidades contidas no personagem se realizam inteiramente no Coringa: ''eles não sabiam cantar e dançar'', diz o palhaço no programa de Murray quando confessa que matou os três executivos no Metrô. ''Eles são horríveis, vocês são todos horríveis''. O juízo não é apenas moral, é estético. Eles não são engraçados, não são como Chaplin escorregando pela tela -- um momento de embevecimento de Arthur no cinema em que tenta conversar com Thomas Wayne.

Em larga medida, o Coringa surge quando Arthur se recusa a seguir o critério de humor, de beleza, de moralidade e qualquer outro que a sociedade lhe impõe. “Vocês querem decidir o que é certo ou errado, assim como querem decidir o que é engraçado ou não, Murray. Cansei de fingir que não acho divertido a morte desses três.” Mas antes de matar o pai no arco psicanalítico do personagem, o Coringa vai matar a mãe. Estou me adiantando, porém: O que ressalto é que o símbolo do Palhaço já estava lá, preparando o espaço de sua aparição pessoal e social.

Nada apontaria isso de maneira mais óbvia que o fato de que Fleck comete seus primeiros homicídios, aqueles a que ele se refere nos parágrafos acima, antes mesmo de parar de tomar os remédios para sua doença mental. [Os serviços sociais são cortados pela política de austeridade da Prefeitura.] 

Claro que há importantes gatilhos sociais. Ele acabava de ser demitido porque a arma que Randall lhe deu cai de sua roupa de palhaço durante apresentação em um hospital infantil. Desnorteado, Fleck volta para casa em um metrô vazio, no meio da madrugada, e em seu vagão, três burgueses de terno, evidentemente embriagados, molestam verbalmente uma mulher de véu, possivelmente uma imigrante muçulmana.

As tensões étnicas tão presentes em Taxi Driver também estão referenciadas por Phillips. Alguns dos crimes, inclusive, são inspirados em ocorrências reais em Nova Iorque do início dos anos 1980. No entanto, a história que o diretor pretende contar não é sobre conflitos inter-étnicos. Taxi Driver, repito, foi lançado duas gerações atrás. A questão principal é de classe, ou antes, sobre a alienação cada vez mais completa entre as elites burguesas, que se entendem como sustentáculo moral e civilizatório de Gotham, e a população de todas as etnias. 

Quando a psiquiatra do serviço social, que é negra, anuncia para Fleck que o programa será cortado, e por isso ele vai ficar sem medicação e atendimento, acrescenta: “Eles não estão nem aí pra pessoas como você, Arthur; e não estão nem aí pra pessoas como eu também”. Justificava assim a relação burocrática que possuía com seu paciente, e que foi objeto de crítica de Fleck: “você não escuta o que digo, não é verdade? Sempre faz as mesmas perguntas, se tenho ou não pensamentos negativos...Tudo o que tenho são pensamentos negativos!

Quando Arthur mata os executivos no metrô, ele está, no começo, apenas se defendendo. A mulher molestada dá um olhar para ele, como quem pede ajuda, e ele cai no riso, aquela gargalhada psicótica que não consegue conter, e que manifesta toda sua angústia naquela noite em que perdeu o emprego que tanto amava. A moça aproveita a confusão dos três molestadores para sair do metrô, mas o desolado Arthur vira alvo dos burgueses bêbedos. Eles não reconhecem as risadas como fruto de uma doença mental e agridem o palhaço. Mas Fleck tem uma arma, e dispara contra um, contra o segundo, e depois, já de modo planejado, corre atrás do terceiro e o mata pelas costas.

Depois do crime, Arthur foge desesperadamente e se tranca em um dos banheiros de seu prédio caindo aos pedaços. É então que, isolado, e de modo quase que surpreendente, ele começa a dar novos passos de sua dança. Algo muda para sempre. Ele percebe que está vivo, que é algo ou alguém. Ele descobre autoconsciência e confiança, talvez pela primeira vez em sua vida. 

Aconteceu algo engraçado”, diz à sua psiquiatra, “ouvi uma música no rádio, de um palhaço chamado Carnaval. Esse era o nome que eu tenho como palhaço!” “Até o dia de hoje”, continua, “eu sequer sabia que existia. Mas eu existo! E as pessoas começaram a perceber isso!” A partir daí, o filme deixa de lado os tons esverdeados em torno do protagonista. Ele começa a ganhar cores, inicialmente de uma aura amarelo-ouro.



4. ''...e as pessoas estão começando a perceber!"



O contato com o Arquétipo tira Arthur do mundo de miragens em que ele rastejava. Seu novo senso de existência é tão forte que ele bate na porta de uma vizinha com quem interagiu apenas uma vez no elevador, e a beija, começando um affair que desemboca em um dos momentos mais tensos da obra. O novo senso de realidade é a do mundo do Coringa, não um cotidiano marcado por fugas românticas. Mas esse novo estado de super-excitação fantasiosa é também o último obstáculo para a incorporação completa do Palhaço.

E como a cidade passa também a perceber a existência d’O Coringa, ela também muda e se prepara para essa incorporação. A reação aos assassinatos no metrô evoluem de um modo inesperado para o establishment. A população se ressente da burguesia, do sistema. Em Taxi Driver, Travis enxergava na cidade um esgoto sombrio, em que párias andavam de um lado para o outro, quebrando hidrantes para fazer piscinas no asfalto, e mergulhados num clima de prostituição sistêmica. Ele ansiava pela “chuva que varreria aquele lixo”. Em Gotham, os homicídios dos executivos são as nuvens da tempestade que a população de Gotham contempla nos céus. A limpeza vai começar a partir de cima.

Thomas Wayne, o magnata que empregava as vítimas, se torna expressão dessa elite apartada inteiramente da realidade social dos cidadãos de Gotham. Para ele, o homicida nada mais é do que um covarde que se esconde por trás de uma máscara. Os homens assassinados eram “bons e honestos”, embora ele, Wayne, confesse que não os conhecia pessoalmente. No fim, eles eram de sua família, pois a Corporação Wayne “era uma família”. O ato de violência só podia ter como causa a inveja que os fracassados sentiam de homens como eles, que haviam realizado o sonho americano e “feito alguma coisa de suas vidas”.

Thomas está disposto a concorrer para Prefeito, com o intuito de ajudar a cidade. Gotham havia perdido seu rumo, como indicava a aprovação de grande parte da população aos homicídios. A inveja dos fracassados estava causando aquela disfunção social e todos os seus problemas. E enquanto aquilo acontecesse, os bem sucedidos, os que realizaram o sonho, somente podiam ver os invejosos homicidas ou apoiadores de homicidas e da luta de classes como verdadeiros “palhaços”.

Thomas Wayne é o típico membro da oligarquia financeira e industrial que, a pretexto de ajudar a sociedade, só consegue despejar na população revoltada com o sistema uma montanha de clichês e preconceitos de classe. Ele é como se fosse de outra espécie. A sua insensibilidade é repulsiva: encara seus executivos como “membros da família”, embora não os conhecesse, mas não responde às cartas de Penny Fleck, que havia trabalhado no interior de sua mansão, em seus círculos mais íntimos. Ela não era merecedora do epíteto de “boa”, “honesta”, e definitivamente não era encarada como parte da família.

O cinismo do mega-empresário despertou a população de Gotham, que organizou protestos contra o “filantropo”. Usando máscaras de palhaços, eles saíam às ruas gritando contra o sistema, contra a elite. “Somos todos Palhaços”, “Vá se foder, Wayne!”, “Morte aos Ricos!” Os jornais retratam o misterioso assassino como um vigilante, como um justiceiro, e perguntam se o ódio aos milionários é a nova moda. Arthur está consciente de toda essa dinâmica, e sorri quando sua aparente namorada diz que o assassino é um herói que livrou Gotham de três calhordas. “Agora, só falta mais um milhão”, diz ela.

No entanto, o Coringa não encarnaria sem que os afetos e complexos que seguravam Arthur nas relações humanas desmoronassem de vez. 

Coringa, parte I -- O temor do encontro e da emergência d'O Coringa






1. O temor e tremor de alguns críticos



Os méritos artísticos de Coringa [Joker, 2019], de Todd Phillips, são evidentes. É uma obra prima que não pode ser reduzida à atuação magistral de Joaquin Phoenix, provavelmente o melhor trabalho do ator e que já o coloca como um dos grandes favoritos no circuito de premiações daqui até o próximo Oscar.


E, no entanto, após sair consagrado do Festival de Veneza, o filme dividiu os críticos na América do Norte, que, em geral, buscam reduzi-lo a uma obra mediana levada nas costas por uma interpretação colossal.


Li dezenas de análises sobre Coringa, e aquelas que em algum grau desmereciam o filme podem ser classificadas, por alto, em duas categorias, mas que desaguam ambas no mesmo incômodo, como vou explicar.


Na primeira, estão os que batem na direção por se basear demasiadamente, segundo dizem, em Scorsese, mais especialmente em Taxi Driver e O Rei da Comédia. Nessa linha de raciocínio, Phillips levou pra tela uma versão minorada da cinematografia e dos recursos de seu ídolo, e o melhor é ficar com o original, que trabalharia de forma muito mais inteligente os temas polêmicos que carrega para a tela grande.


Estas considerações são inconsistentes. Fazer de Scorsese uma referência para uma obra escura, violenta, disruptiva e com uma vigorosa crítica social está longe de um equívoco. A homenagem é consciente, sincera e explícita. O próprio Robert De Niro, ator principal de Taxi Drive e o Rei da Comédia, faz o papel de um apresentador e humorista que é um exemplo e um modelo a ser seguido pelo personagem de Phoenix.


E ainda assim, nada há em Coringa que o torne uma mera cópia desses dois filmes. Pelo contrário, a assinatura de Todd Phillips é tonitruante. O estudo de personalidades desajustadas e castradas pelas conveniências sociais, o niilismo latente, e a explosão viril de anarquia já estavam presentes em Se beber, não case [Hangover], pelo menos para  aqueles que conseguiram compreender o filme, uma das melhores comédias dos últimos vinte anos.


Mas é justamente o namoro com a explosão de uma força só temporariamente reprimida, com a insanidade mascarada por uma normalidade ela mesmo doentia, e o apreço ao niilismo anárquico que torna boa parte de Hollywood desgostosa com o diretor. É aqui que esse tipo de crítica que se diz artística revela seu verdadeiro dissabor, que é político.


Essa segunda categoria de crítica se foca no suposto ''perigo'' da película. E ela parte tanto da direita, que sentiu certo apoio a um ódio à riqueza e ao capitalismo, quanto principalmente da esquerda, que percebeu uma defesa do populismo que hoje se tornou campo político importante na Europa, e a glorificação da violência como solução dos conflitos pessoais e sociais.


Nesse sentido, a comparação com a recepção de Laranja Mecânica [A Clockwork Orange] é inevitável. Kubrick também foi acusado de um ''sadismo pornográfico'' e sem sentido, de louvar a psicopatia de Alex, seu protagonista, e acabou censurado nos Estados Unidos e em outros países. Os críticos também avisaram que seu filme poderia inspirar crimes de gangues, assim como hoje dizem que Phillips pode justificar os incel.


Ora, varrê-los para debaixo do tapete, ou para mais fundo ainda na Deep Web, não resolve nem explica a existência dos Incel. Repudiar Coringa por essa ameaça enquanto se aplaude Taxi Driver aponta que o móvel do juízo negativo é a segurança, ou falta dela, proporcionada pelo tempo, ou por uma época em que o consenso liberal nunca foi tão contestado e nunca se sentiu tão ameaçado e frágil. De Niro vestiu o figurino do taxista Travis duas gerações atrás, enquanto Coringa é um fenômeno de massa palpável agora, nesse exato momento. Em ambos os casos, os dois protagonistas tornam-se heróis da sociedade retratada nos filmes.


Coringa consegue mergulhar em estratos mais profundos do que o clássico de Scorsese, o que se torna possível pela complexidade e profundidade do personagem principal, um verdadeiro arquétipo do caos, um profeta do Apocalipse. Esse é o perigo que, instintivamente, parte da crítica sente na obra de Phillips: ela expressa genuinamente todo o temor e tremor que o arquétipo em questão é capaz de causar.



2. O Coringa, a pessoa de Fleck e a cidade de Gotham



Por trás de seu estudo de personagem, do sabor psicológico, do mergulho nos distúrbios mentais, e até do aparente solipsismo, Joker narra um encontro. O desajustado Arthur Fleck, que não se conhecia e que caminha derrotado pelas ruas sem distinguir de todo fantasia e realidade, tem por complemento Gotham, suja, inabitável, marcada pelo completo abandono social, exploração, desigualdade, degeneração e corrupção das relações sociais e pessoais. No início, a cidade detesta o protagonista, e na mesma medida ele não consegue desenvolver nenhum vínculo significativo com a vida ao seu redor.


O primeiro ato nos mergulha em uma atmosfera de depressão. Arthur Fleck trabalha como palhaço para uma empresa pequena de entretenimento, e sonha em construir seu próprio show de comédia stand-up. Ele mora em um prédio caindo aos pedaços, em algum bairro imundo de uma cidade que se decompõe, cuidando da mãe, que é inteiramente dependente e não possui contato com nenhuma outra pessoa.


Penny Fleck, que chama o filho pelo apelido de ''Happy'' [Feliz] passa o tempo assistindo aos noticiários e enviando cartas pedindo ajuda a Thomas Wayne, o miliardário para quem trabalhou na mansão da família trinta anos atrás. O momento mais “terno” entre mãe e filho é quando se unem para ver toda noite o show do apresentador, comediante e entrevistador Murray Franklin [Robet De Niro], que a imaginação super-excitada de Arthur torna um modelo, o pai que ele nunca conheceu mas gostaria de ter tido.


Arthur tem problemas neurológicos, chegou a ser internado por um tempo no sanatório Arkham, e toma mais de sete remédios para doenças mentais. Sua dificuldade de distinguir imaginação e fato se tornam explícitas na pergunta que faz à psiquiatra com quem conversa no serviço social: ''sou eu, ou as coisas estão ficando mais loucas lá fora?'' A médica concorda que o clima está tenso.


Um dos aspectos mais marcantes do vilão das HQ se torna no filme um distúrbio neurológico. Arthur Fleck tem ataques de gargalhadas sempre que se sente agoniado, pressionado, tenso. Ele tenta, mas não consegue controlar o riso, que lhe causa dor, problemas de auto-estima. A risada não é signo de um prazer sádico, mas de trauma, doença e sofrimento. Arthur carrega um cartão explicando aos incomodados com seus surtos de riso que se trata de uma disfunção psicótica.


Esse pária arrasta sua magreza claudicante pelas ruas, como um derrotado. Ele tenta a todo custo se ajustar aos ensinamentos de sua mãe, ''coloque um sorriso no rosto e leve alegria aos demais'', e carrega um ar de ingenuidade. Essa vulnerabilidade o torna objeto de abuso até de seus aparentes amigos no trabalho, como Randall, que lhe dá alguma proteção, e o chama de ''meu garoto'', numa insinuação de que exige ou já exigiu favores sexuais de Arthur.


A frustração e solidão ganham cores escuras no filme. As roupas surradas de Fleck indicam a natureza cinzenta de sua existência, se casando com os conflitos e a corrupção das relações humanas de Gotham. Enquanto trabalha na rua como palhaço, ele é atacado por uma gangue juvenil de latinos. Randall, seu suposto protetor e amigo, lhe dá uma arma, ''sem que ninguém precise ficar sabendo'', ainda que ele conheça os problemas mentais de Arthur, e lhe pedindo um ''pagamento'' depois. Apesar de vítima da violência urbana, seu patrão desconta de seu salário o cartaz perdido durante a surra nas mãos dos trombadinhas.

Associado a esse contexto degradado, os ambientes internos em que Phoenix desenvolve seu personagem são pequenos, opressivos, com uma tonalidade esverdeada, bolorenta, que nos permite sentir o cheiro de mofo e a atmosfera sufocante. São nesses locais que Fleck tenta montar seu show, escrevendo anotações em um caderno que usa como diário e que testemunha seus problemas psicológicos. "O pior de se ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você aja como se não a tivesse'', escreve em uma tentativa de piada. Arthur não sabe exatamente o que faz as pessoas rirem, ainda que visite stand-ups para anotar e aprender, para buscar entender qual é, afinal, a graça.


É importante ressaltar, porém, que Phillips não ''sociologiza'' o Coringa em nenhum momento. Não são esses problemas sociais que por si só vão levar à transformação assustadora de um ser fragilizado da hierarquia social em um Palhaço Assassino. As condições sociais são gatilhos da emergência do arquétipo, mas indiretamente. De certa maneira, mas em um grau muito poderoso, o Palhaço já estava lá, tanto na escura e corrompida Gotham como no fundo da mente de Arthur.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

A Amazônia é brasileira, mas não como pensam Bozó e o Exército


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A percepção do governo Bozó sobre a Amazônia é exatamente aquela vendida pelas Forças Armadas desde sempre. Eles pensam que a história da colonização no território brasileiro é a da ''integração'' [forçada] dos povos indígenas, ocupação por eurodescendentes [eles se vêem como continuadores da colonização portuguesa] e exploração econômica.

Daí as críticas que Augusto Heleno fez na década passada à política indigenista, declarando que ia em sentido contrário à construção do país. O oficiais superiores do Exército não parecem perceber que, desse modo, confessam o caráter genocida e predatório que a presença luso-brasileira muitas vezes representou para os povos nativos.

Os generais dão assim razão a Aílton Krenak, que tem dito que a guerra contra os índios nunca parou um dia sequer no Brasil desde a chegada dos europeus. Que nesse momento mesmo os indígenas lutam pela sobrevivência física e cultural, e pela manutenção de suas terras ancestrais contra uma série de agressões, invasões e morticínios. ''Estamos em guerra", continua o ex-deputado.

O Exército se ressente que a Constituição de 1988 tenha dificultado esse processo de extermínio. Eles não conseguem enxergar qualquer outra solução para a soberania brasileira em que a floresta permaneça de pé. ''Projeto Bandeirantes'', de fato.

Daí que nessa visão, a política indigenista, o discurso preservacionista e a intervenção estrangeira sejam sinonimizados. A depredação para a exploração econômica, destruição das comunidades e culturas ancestrais é vinculada, no raciocínio dicotômico, ao nacionalismo.

Se é verdade que o imperialismo e os interesses econômicos internacionais podem se utilizar de ONGs ambientalistas, movimentos indígenas e preservacionismo como forma de intervenção política e econômica, é evidente também que muitas vezes a equação que se faz com esses elementos não fecha.

Historicamente, sempre existiram projetos econômicos de outros países na exploração dos recursos da região. As lembranças do projeto Jari e as tratativas de Rockfeller para a construção de empreendimentos industriais na Amazônia ainda estão muito vívidas. O próprio governo Jair Bozó quer vender terras a estrangeiros e permitir que mineradoras do Canadá, EUA e outras nações atuem em reservas indígenas, atraindo forte oposição dos povos nativos e de ambientalistas.

A demarcação de terras indígenas, com a utilização de nativos em tropas do Exército brasileiro, é uma solução engenhosa para a manutenção da nossa soberania na Amazônia. As terras indígenas pertencem à União, e são dadas como posse coletiva -- sem possibilidade de propriedade individual -- às comunidades ancestrais. O acordo não impede a exploração do subsolo pela União, desde que com consentimento dos habitantes do local e com a divisão com eles dos possíveis frutos da exploração.

É risível que o Exército pense a sério que a defesa do território brasileiro dependa de atividades econômicas caóticas e destruidoras deste mesmo território e dos povos que nele vivem. Muito mais inteligente seria exigir um investimento na indústria de monitoramento por satélites e tecnologia militar na fronteira. A visão dos generais, nesse e em outros campos, é míope, curta e rasteira.

A Amazônia é brasileira e sul-americana não porque temos direito a destruí-la antes que europeus, norte-americanos e chineses. Não se trata de uma competição pra saber quem achincalha primeiro o meio ambiente e mata os indígenas e seus complexos culturais.

A floresta é brasileira e sul-americana porque nosso processo civilizacional -- em grande parte herdeiro dos povos nativos cujo sangue e cultura vivem em nossos corpos e almas -- é capaz de guardá-la, conviver com ela e mantê-la e aos povos que ali interagem, de maneira orgânica e singular. Porque somos capazes de vê-la para além de uma mero conjunto de recursos materiais, fonte de lucro ou museu. Porque ela é elemento indissociável de nossa identidade.

Qualquer ''uso'' dos recursos amazônicos tem de obedecer estes princípios. Mesmo a consideração de que a biodiversidade da região é a maior do planeta e que ela pode gerar mais riqueza de pé do que detonada tem de se submeter aos parâmetros acima.

A Amazônia é nossa, sim, sempre foi. O que implica dizer que ela não é ocidental, e não agiremos nela como colonizadores, imperialistas e estrangeiros de toda ordem acabariam por fazer.


segunda-feira, 26 de agosto de 2019

As estripulias do Reino parte II -- Bozó e a grande mídia

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Já passou da hora dos opositores do Reino dos Bozós que reclamam recorrentemente que parte dos que elegeram o atual Presidente não acreditam nos erros, equívocos e bobagens que ele fala, ou nas medidas políticas que ele toma e que acabam sendo deletérias para as classes populares e para a soberania brasileira, saltarem do muxoxo para a reflexão.

No dia seguinte à final da Copa América, fui a uma farmácia perto de onde moro. Enquanto pagava minhas compras, vi dois jovens conversando. Um deles dizia ter lido um sujeito que compareceu ao jogo e disse que era mentira que Bozó tivesse sido vaiado, que era ''invenção da Globo''.

Como chegamos a esse ponto?

Desde 2013 estamos passando pelo colapso da Nova República, pactuada entre 1984 e 1994. Os principais pilares desse arranjo foram sacudidos por crises, as intermediações das autoridades e o povo estão em frangalhos por diversos motivos.

Um desses pilares é a credibilidade da grande mídia. Durante décadas, vários setores do campo político brasileiro denunciaram, de maneira precisa, a venalidade da imprensa e seu papel de caixa de ressonância do liberalismo e do entreguismo.

Todos sabíamos do papel que grupos como o Abril, a Globo, e as cadeias de jornais e rádios possuíam no nosso país. O povo percebia a função de ''partido da elite'' dessa mídia, embora tivesse suas próprias queixas, como a de que ''as novelas da Globo só tem porcaria'' -- queixas que o beatiful people esquerdeiro e cosmopolita das classes médias de culpa burguesa não podiam fazer.

Quando chegou ao poder, os petistas tiveram a oportunidade de combater o grande monstro do ''partido da elite'', aprovando medidas de regulação da mídia. Em vez disso, preferiram pactuar com ele, achando que podiam controlá-lo por meio de uma suposta dependência de jornais e redes de TV de verbas de publicidade governamentais e de renegociações de dívidas antigas.

A miopia é evidente, já que o poder da grande imprensa se exerce por meios sutis muitas vezes, atuando no imaginário, em sensibilidades que não se esgotam com a literalidade da notícia veiculada. Além disso, a descrença no aparato midiático já estava consolidada na visão da população, e a pactuação com esse quarto poder da democracia liberal-burguesa só poderia ser lida por ela como sendo um acordo com o diabo.

O PT pensou que podia aproveitar o avanço da tecnologia das informações e o advento da Internet para criar seu próprio espaço de propaganda: uma profusão de sites e páginas na web e nas principais redes sociais que divulgassem e defendessem as figuras e políticas do governo.

A seita lulista não percebia que estava tão somente lidando com bolhas de classe média, falando para os seus, sem conseguir se enraizar no povão ou atingi-lo com suas narrativas. A popularização de aplicativos de mensagens criou o terreno favorável para que contra-discursos hegemônicos percorressem nichos cada vez maiores das classes populares com uma velocidade que não mais pode ser acompanhada pelos veículos de mídia tradicionais.

Claro que todo esse contexto tem similaridades com o que ocorre na Europa e nos Estados Unidos, que está vinculado à radicalização da sociedade do espetáculo e da pós-verdade. Mas no Brasil trouxe características próprias, na medida que os grandes grupos da imprensa venal nunca foram considerados como balizas de verdade jornalística.

O lixo político da sociedade brasileira saiu na frente nesse novo jogo, colocando em campo instrumentos de disparos de mensagens financiados por empresários pilantras e aplicando tecnologias de contra-informação vanguardistas desenvolvidas em ambientes militares.

Mais importante ainda, isso deu a Jair Bozó a oportunidade de sustentar narrativas em suas redes de informação ao mesmo tempo em que posava de campeão numa guerra contra a Grande Mídia, o partido do establishment. Seu conflito contra a imprensa venal é um meio de manutenção de sua credibilidade em sua base política mais fanatizada. Dá a essa massa um sinal de que seu candidato e líder não saiu do prumo, não contemporizou com os poderes estabelecidos.

Brizola faria o mesmo.

domingo, 25 de agosto de 2019

As estripulias do Reino parte I -- Introdução: atravessaram a música


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Boa parte dos cada vez mais escassos defensores do atual governo ainda não perceberam que Bozó não é um porta-voz das hostes neoliberais. Não em sentido estrito. Ele é no máximo um escudo ou instrumento usado, com muita má vontade, pelo ''mercado'' financeiro e pelos poderes apátridas que resolveram nos agrilhoar à geopolítica ianque.


Antes, o neoliberalismo usava Fernando Henrique Cardoso e Lulla-lá como instrumentos para governar o Brasil. Eles não conseguem fazer um presidente próprio, e tem de lidar com aquilo que sai das urnas, da melhor forma possível. 


Assim como o PSDB e o PT, Jair Bozó trouxe seus próprios problemas para os neoliberais. Mas são problemas de uma ordem diferente e em um diferente período histórico da política nacional.


A Nova República era o cenário bastante propício pra agência entreguista dos rentistas e parasitas. Mas ela se tornou insuficiente diante do agravamento das disputas geopolíticas, do fim do unilateralismo dos EUA, da ascensão chinesa e russa.


A função da Operação Lava Jato era proporcionar o contexto e o instrumento para a derrocada das elites políticas e de suas instituições, para o fim da Nova República, e para um realinhamento total do nosso país à guerra de hegemonia travada pelos Estados Unidos. Para isso, deveria contribuir para a formação de um novo consenso social, um novo imaginário liberal, e a emergência de uma ''nova geração'' político-partidária -- que tal como os audios trocados por Sarney, Sergio Machado, Romero Jucá e Renan Calheiros apontavam, teria a figura pública de uma ''casta pura'' --, graduada em universidades estadunidenses, com perfil de subcelebridades, de juventude esclarecida e ocidentalizada etc.


Toda essa transformação se apoiaria em tendências e projetos já enraizados e consolidados na mentalidade de certos grupos e classes brasileiros: o lacerdismo moralista anti-corrupção, a ideologia patrimonialista, a teoria da dependência, o cosmopolitismo identitário pós-moderno.


 Mas foi aí que deu ruim.


Em vez de dar lugar a uma nova geração de políticos com perfil do Luciano Huck, da Tabata Amaral, João Amoedo e do Kim Kataguiri -- sonhos mirabolantes dos entreguistas da Pátria para reduzir de vez o Brasil a uma colônia atlantista --, o que acabou surgindo foi o Reino dos Bozós.


Antes que os MBL e os NOVO da vida conseguissem angariar capital político, eis que surge como um raio o Bozó e sua trupe de lunáticos. Eles atravessaram a música que estava sendo tocada, para desagrado dos poderes que estavam com a batuta na mão. O processo social é indomável, não se controla ânimos populares e agentes políticos em um país complexo como o Brasil, pelo menos não tão facilmente.


E eis que em vez de um governo de Marina Silva ou Geraldo Alckmin, o plano de derrocada da Nova República teve de lidar com Jair e seus pimpolhos: Carluxo, Dudu e Flávio.


Ainda assim, alguns dos principais poderes que uniram pela derrocada da Nova República resolveram embarcar na aventura. ''Só tem tu, vai tu mesmo''. Pra falar a verdade, esses poderes nunca fazem uma aposta única, e podemos estar certos que Bozó era uma alternativa contemplada desde o início. Mas era a última das possibilidades, como se fosse aquela carta na manga se tudo o mais falhasse. E só pôde se apresentar assim pelo aval dado por Paulo Guedes, e depois por Serginho do Mal.



Daí que o Reino se tornou veículo das agências de inteligência estadunidenses, submetido à influência do agente de informação ianque-sionista Olavo de Carvalho. Serginho do Mal, maior representante do lacerdismo tenentista jurídico alimentado pela NSA também se juntou ao Brancaleone do Rio de Janeiro em sua cruzada anti-comunista.



Só que os neoliberais do ''mercado financeiro'' não conseguiram um acordo de fato com a trupe de lunáticos. Não foi por falta de tentativa, claro, mas lá pra meios de abril já tinham visto que não ia funcionar.


Eles tiveram de escanteá-lo e trocar figurinhas com o eixo construído em torno de Paulo Guedes e Rodrigo Maia. De modo que continuaram governando, assim como governam em toda a Nova República. 


O governo é tocado no dia a dia por uma versão mais radical dos partidários da mesma ideologia que nos destrói desde Fernando Collor de Mello. Todo o fracasso da Nova República tem de ser colocado na conta desse verdadeiro núcleo de poder neoliberal. Mas a verdade é que esse centro econômico-financeiro-entreguista teve de se articular com outros representantes, e não com o ocupante do trono.


Porque Bozó está, na verdade, vinculado ao pior lixo da sociedade brasileira. Ele é a cara das milícias, das igrejolas envolvidas com fisiologismo politiqueiro e lavagem de dinheiro, dos grileiros, dos madeireiros e garimpos ilegais, dos médios empresários que burlam as leis trabalhistas e sonegam impostos, contrabandistas, fraudadores de toda espécie, e de corporações de policiais que formam esquadrões da morte.

Eis aí a base e alma política real de Jair Bozó.


As forças apátridas estão com um gosto de cabo de guarda chuva na boca. Elas não esperavam que, ao tentarem destruir os alicerces da Nova República, teriam que se ver com o esgoto da Pátria. Coisas da nossa terra, que não é para amadores e que faz do próprio excremento arma contra aqueles que a invadem.











terça-feira, 13 de agosto de 2019

Mais sujo que pau de galinheiro




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Por motivos inexplicados, Serginho do Mal impediu que a Força Tarefa apreendesse os celulares de Eduardo Cunha quando ele foi preso. O ''malvado preferido'' da nova direita brazuca não gozava mais de imunidade parlamentar, e era comum a apreensão de celulares pela República de Curitiba. Mas o chefão de todo o aparato estatal paralelo que havia se montado em Curitiba disse uma nã-nã-ni-nã-não quando o Procurador Purgante, também conhecido como Dallagnol, avisou que iria proceder, se é que me entendem.
Enfim, Serginho do Mal conhece seus amigos, e aplica a lei segundo as conveniências políticas. Orientou a investigação de suspeitos na lista da Odebretch para os trinta por cento que o apeteciam, segundo os vazamentos. Protegeu Fernando Henrique Cardoso de qualquer mácula. E agora, sabemos que também estendeu sua toga para esconder alguma coisa cabulosa que pudesse ser encontrada nos celulares do ''Malvadão''.
Os procedimentos contra Deltan voltaram a ser desengavetados, debatidos e apurados no CNMP. Quando uma peça chave da Lava Jato cair nas malhas das sanções devidas, toda a muralha ao redor vai ceder. Ou antes, o casco do navio vai ceder de modo irreversível.
Os ratos já começaram a perceber que as bombas e os esforços dos marujos não conseguem evitar que a água se acumule e pese sobre a embarcação. E como era de se esperar, os roedores começaram a, ehr, vazar. Dias Toffoli seguiu a linha imposta por Mendes em entrevistas recentes, e avisou à Lava Jato que ela não é uma instituição e que tudo de bom que há nela vem do STF. O que implica que há coisas ruins na operação, que vem da força tarefa e que nada tem a ver com a institucionalidade. Ou seja, a banana vai estourar nas mãos dos procuradores de primeira instância, principalmente.
Dodge entendeu o recado, e já defende a Operação com trocentos ''poréns''. Quando a Procuradora Geral precisa avisar que os membros da força tarefa tem de atuar na ''legalidade'', é que a barra tá mais suja do que pau de galinheiro.
O rato mais importante a pular fora do navio condenado é Jair Bozó. O chefão perdeu o respeito por Serginho do Mal, retirou suas prerrogativas, o tornou um enfeite, mero adorno de seu Reinado da Estupidez. O chefão do Reino reduziu Moro a um ''jogador de seu time''. Ora, jogadores estão aí pra serem substituídos de acordo com o andamento da partida. E para os lacerdistas mais fanáticos, o presidente não esconde mais que Moro perdeu -- como dizer? -- ''superpoderes''. No jargão típico dos bozós, isso acontece quando o sujeito já não tem mais caneta, conforme declarou Jair a respeito de Serginho.
Ruim para o partido lavajatista, mas ruim também para o Reino, que sai ainda mais fraco desse afastamento. Se Moro não aceitar seu novo papel de bobo da corte, e ele não parece ter inteligência nem humor suficiente pra cumprir a função que Jair lhe concede, tem de pegar a caneta quebrada e voltar pra casa, esperando nova chance política nas eleições do ano que vem. Ele teria de procurar uma maneira digna de sair por cima do imbróglio. Só que vem perdendo oportunidades.

Caso ele consiga encontrar a janela para saltar do barco antes de Bozó retirar sua última pata de vez, o Reino também será sacudido. Romper com o lacerdismo da classe média tem preço, e ele costuma ser alto. E não é como se Jair não tivesse nada a esconder.

Ruim para eles, bom para o Brasil.

sábado, 10 de agosto de 2019

Nota sobre a eficácia do assassinato político como instrumento revolucionário


Fazendo uma análise meramente histórica e crítica, os assassinatos de gente do alto escalão político não são sinônimo de Revolução, que envolve elementos e forças que vão muito mais fundo na transformação e regeneração social, cultural e política de um país.

Podem ter efeitos até anti-revolucionários, ainda que sejam meritórios em determinado âmbito.

O atentado à vida de Prudente de Moraes foi justificado em certa instância: era uma reação ao massacre de Canudos. Mas fracassou e acabou sendo usado pra que o presidente impusesse o Estado de Sítio e consolidasse o núcleo político da República Velha.

Mesmo quando bem sucedidos, podem dar margem para o sistema que visam combater, que vai poder usar as armas da propaganda contra o ''terror político'' e o ataque a símbolos da nação.

Na verdade, a tática do assassinato político é muito comum em meios anarquistas, e de resultado revolucionário pífio ao longo da história. O que sacode as fímbrias de um sistema são estratégias de espectro muito mais amplo.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

VINA GUERRERO E O ASSASSINATO DA DINASTIA DOS BOZÓS

''Isto é: Ainda acha que o presidente deveria ser fuzilado?
Bolsonaro: Eu não errei em falar isso naquele local, naquela oportunidade e naquele momento. E acho que tenho o direito de falar. Eu não xinguei o presidente, nem disse que ele não conhece o pai dele. Acho que o fuzilamento é uma coisa até honrosa para certas pessoas.''


Entrevista à Revista ''Isto é Gente'', publicada em maior de 2000



O jornalista Vina Guerrero defendeu a Revolução ou o Impeachment como meios de parar a barbárie de Bolsonaro. Mas o jornalista cometeu um excesso retórico contra a família do governante.


Uma grande polêmica se instaurou ontem, primeiro em redes sociais, depois na grande mídia, e finalmente no PDT e no próprio governo Bolsonaro. O jornalista Vina Guerrero publicou em seu canal no Youtube vídeo em que criticava em tons fortes o atual governo, suas políticas e as declarações recentes do Presidente da República.


Em certo trecho, Guerrero perde a calma, e diz que os brasileiros não poderiam mais suportar um Presidente como Jair, que merecia ser assassinado ao lado de seus filhos.


Sejamos claros: o excesso de Guerrero foi um erro. Por mais que Jair Bozó propague o ódio e tenha instigado, ele próprio, a violência moral e física, ponto a que voltarei mais adiante, não nos cabe defender agressões contra as autoridades públicas. Tampouco contra um Presidente eleito segundo as regras de um jogo que a sociedade aceita como a melhor forma de resolução de conflitos, e que está formalizado na nossa Constituição e códigos legais.


O equívoco de Guerrero, no entanto, não passa de um arroubo retórico levado a termo por emoção. Acompanho seus vídeos há alguns meses. O histórico de seu canal evidencia que se trata de pessoa que preza pelo debate, pelas disputas eleitorais e pela democracia. Quem conhece seu trabalho de base testemunha seu esforço para ajudar a população mais pobre, ouvir suas demandas e levá-las a órgãos de participação política competentes. É um patriota exercendo sua cidadania.


Já as reações ao vídeo devem ser objeto de muito maior preocupação. Um desabafo em um canal cujo alcance não passa de poucos milhares de pessoas, e cujos vídeos tem, em média, apenas centenas de visualizações, foi reproduzido fora de contexto por milícias virtuais em redes sociais. Tornou-se um dos assuntos mais comentados em um dia em que uma juíza lava-jatista tentou transferir Lula de Curitiba para um presídio em São Paulo em reação às informações da imprensa que dão provas do projeto de poder e das ilegalidades por trás de toda a operação. Tornou-se escândalo no mesmo dia em que se descobriu que a força-tarefa da República de Curitiba usava senadores da República como laranjas para investirem contra Ministros do Supremo Tribunal Federal.


Sérgio Moro, que a essa altura todos sabemos ser o verdadeiro chefe da Lava-Jato, não perdeu tempo e abriu uma investigação contra o youtuber, ameaçando de enquadrá-lo na Lei de Segurança Nacional. O mesmo Ministro da Justiça que não consegue explicar as irregularidades cometidas quando magistrado; que publicou uma portaria inconstitucional que permitia rito sumário para expulsão de estrangeiros e que se suspeita ter como alvo um jornalista que o incomoda; que teve acesso a informações sigilosas de inquéritos da Polícia Federal e as utilizou, como um mafioso, para oferecer uma forma de “proteção” a autoridades públicas.

 
Sérgio Moro e Bolsonaro pretendem criar bodes expiatórios e perigos imaginários como meio de justificar o desapreço de ambos pelo devido processo legal

Não devemos esquecer que o Presidente da República está obcecado para encontrar uma “conspiração” comunista por trás da facada que recebeu de Adélio, um indivíduo que sofre de transtornos mentais segundo avaliação psiquiátrica. A tal conspiração nunca foi encontrada pela Polícia Federal, o que não impediu Bolsonaro de atacar a OAB por ter defendido o advogado de Adélio de uma tentativa de investigação de seu celular. Segundo ele, a OAB não quer que se solucione o atentado contra sua vida.


É nesse contexto de teorias conspiratórias e procura por bodes expiatórios que o atual governo, que prefiro chamar de Reino dos Bozós, não pensou duas vezes em atacar um jornalista que perdeu a calma e cometeu uma falha em um canal de Youtube a que pouquíssimos tem acesso e que, bem avaliado, não passa de uma mistura de exagero, desabafo e fanfarronice, ainda que um tanto irresponsável.


O cenário acima ajuda também a compreender o que leva um cidadão comum e defensor do ordenamento legal a esse tipo de lapso retórico. Vina Guerrero reagiu emotivamente a um Presidente que tem um longo histórico de pregação da violência como método de atuação política. É de conhecimento geral que Bolsonaro defendeu o fuzilamento do Presidente Fernando Henrique Cardoso no fim da década de 1990.


Nesse caso, não se tratava de uma resposta irrefletida. O então deputado defendeu repetidas vezes que FHC deveria ser assassinado. Afirmou com convicção em entrevistas ao vivo, em cerimônias na presença de oficiais militares, em conversas com parlamentares. O motivo seriam as privatizações que o governo do PSDB havia conduzido, muito parecidas com aquelas hoje defendidas apaixonadamente por Paulo Guedes e que contam com o apoio da família Bolsonaro.


O Congresso tentou abrir um processo disciplinar contra o tresloucado parlamentar, mas isso não o demoveu da ideia. Em entrevista para uma revista no ano 2000 ele voltou a dizer que não considerava que havia errado e que o fuzilamento era até uma honra "pra determinado tipo d pessoa". Chegou a descrever a forma como alguém poderia assassinar o Presidente, dando detalhes de como ele próprio poderia, se quisesse, levar a efeito uma “missão suicida”. Anos depois, no Programa de entrevistas de Jô Soares, Bolsonaro repetiu que sua fala era uma reação às privatizações, citando a Vale do Rio Doce, a CSN e outras medidas que considerava como “crimes”.Bozó nunca pediu desculpas.


Sua última justificativa é a de que o “fuzilamento” era uma “força de expressão”. Mas Fernando Henrique foi só uma das polêmicas mais famosas de seu currículo. O atual Presidente já disse defender a tortura. Acha um absurdo que se fale tanto sobre o assassinato da vereadora Marielle. Tem Brilhante Ustra, um araponga e torturador de porões, como leitura de cabeceira. Seu símbolo de campanha era fazer “arminhas” com as mãos, fingindo disparar contra adversários políticos. Declarou que o grande erro do regime militar foi não ter matado uns trinta mil indivíduos. Depois do primeiro turno nas eleições do ano passado, avisou para uma multidão na Avenida Paulista que baniria do país os “marginais vermelhos”. Em diferentes ocasiões mencionou que iria “fuzilar a petralhada”, sendo um exemplo sua campanha no Acre alguns meses atrás.


Bolsonaro se sentia protegido pela imunidade parlamentar e a justificava: “tenho o direito de falar”. Óbvio que ele se refere não ao princípio da liberdade de expressão, mas à proteção que o sistema legal supostamente lhe daria para defender os maiores absurdos, pra pregar o extermínio, o homicídio, estimular a violência policial e o conflito social. É necessário enfatizar que esse mesmo senhor justifica o regime militar e toda sua brutalidade de Estado por pensar que do outro lado havia o perigo comunista, que ameaçava tragar o país para o abismo. Por todos os exemplos que forneci acima, é razoável pensar que Bozó continua pensando exatamente da mesma maneira, o que torna ainda mais inquietante sua reação ao jornalista Vina Guerrero.

Bolsonaro tem um longo histórico de pregação de ódio, defendendo a tortura, o fuzilamento de adversários políticos e o fuzilamento de Presidentes da República


O bolsonarismo e seu governo, o Reino dos Bozós, é o verdadeiro perigo à segurança do país e de nosso povo. Foi ele que tornou possível que deputados defendessem que aqueles que “gostam de índio” devem se mudar para a Bolívia. Possibilitou que governadores de Estado sobrevoassem a população em helicópteros que executavam supostos criminosos sem apreço algum ao devido processo legal. O Reino dos Bozós depende da criação de bodes expiatórios cubanos, venezuelanos, soviéticos, russos, comunistas, petistas, esquerdistas para impor a barbárie. Devemos todos encarar a verdade de que se trata de um monstro que cresceu debaixo dos nossos narizes, e que agora não sabemos ao certo como pará-lo.


Embora eu não concorde com o conteúdo do exagero retórico do jornalista Vina Guerrero, compreendo seu sentimento. Em meio à sua emoção, havia uma frase cuja verdade é cristalina, irrefutável. Não podemos mais suportar que um “bosta” como Bolsonaro permaneça na Presidência da República. E é hora de termos coragem para fazermos o que já deveria ter sido feito há décadas, segundo o devido processo legal, esse mesmo que é ultrajado a cada instante por nossos atuais governantes.