Há quem diga que a abordagem que Nolan faz de Odisseu o aproxima de uma perspectiva cristã. Eu discordo bastante dessa interpretação do filme. Não é porque alguém sente culpa ou remorso, ou se mostra traumatizada pelo próprio passado, que está adotando só por isso uma posição cristã.
As consequências da Guerra de Tróia já eram avaliadas de modo crítico pelos próprios gregos. É uma complexidade presente já na poesia homérica. A Ilíada é uma celebração guerreira, mas termina com um funeral. A Odisseia retrata Aquiles, principal herói aqueu em Tróia, como uma sombra que se lamenta de seu destino no Hades. O próprio Odisseu adquire glória não por causa da força e destreza militar, mas da Métis e da Eusebeia, como comentei no texto anterior. [clique para ler]
Os mitos sobre os heróis que retornavam do conflito também trazem diversas 'condenações' à hybris ou à desmedida dos protagonistas. Basta notar o que acontece com Ajax, o Menor, por ter estuprado uma sacerdotisa de Atena no santuário da deusa durante o saque a Tróia. O cenário é obviamente similar a um dos traumas sofridos por Odisseu, a violação do templo deusa Atena e a decapitação de uma de suas sacerdotisas.
Tanto na filosofia quanto na tragédia grega posterior há, ao mesmo tempo, admiração pelos feitos guerreiros e uma visão trágica sobre a corrupção e a degradação trazida pelo conflito. Eurípedes e Sófocles se concentram, mais das vezes, no sofrimento dos vencidos, mostrando estupros, infanticídios, escravidão. E também enfatizam as consequências nos vencedores, como a locura de Ajax, o Maior; ou a covardia cometida por Neoptólemo, filho de Aquiles, contra o Rei e ancião Príamo.
O suicídio de Ajax, o Maior, pela vergonha de destruir rebanhos ao confundi-los com inimigos, loucura enviada a ele por Atena como punição por sua hybris, é um dos maiores e mais profundos dramas gregos. Inclusive pela recusa de Odisseu de rir do ridículo do herói, "hoje ele, amanhã sou eu".
Os romanos, que se consideravam descendentes dos troianos [por meio de Enéias], não condenam moralmente a trama do Cavalo, mas seguiram os passos dos gregos na reflexão sobre a natureza e os limites da Métis: quais os resultados de uma vitória que vem pela trapaça, quais os limites da mentira e da manipulação política? O próprio Odisseu -- e Sinon, que é encarregado de enganar diretamente os troianos -- é visto doutra maneira por eles.
E se a responsabilidade dos heróis e o custo indizível da guerra coloaram importantes questões para o pensamento grego, os romanos propuseram algumas respostas: o sofrimento desencadeado em Tróia estava submetido à Providência, os deuses tiraram daquilo tudo um bem ainda maior, que era a civilização romana. A resiliência de Eneias, sua pietas, o tornou instrumento da edificação de Roma. A ''piedade" para os romanos estava acima do Kleos [glória guerreira] de Aquiles e do Nóstos [Retorno legitimado pelos deuses] de Odisseu: era o senso de missão e de dever para com os deuses, a pátria, e a família, que só podia ser realizado com renúncia e sacrifício pessoal.
O Cristianismo não trouxe nenhuma novidade nesses tópicos ao ler Homero. Na verdade, seguiu passos condizentes com o neoplatonismo, cujo intuito era conciliar as críticas que Platão fazia aos mitos e aos épicos com a própria importância dessas obras para a cultura helenista. Daí a tendência de ver na Odisseia uma jornada mística e/ou iniciática da alma que retorna a Deus.
A singularidade de Nolan nesse campo é a redução do substrato metafísico que o sustenta, e a reelaboração da narrativa a partir de uma psicologia contemporânea. Os traumas e remorsos de Odisseu o incapacitam para ser quem ele [pensava] que era. Se a Odisseia é retorno, em Nolan não há retorno algum. Tampouco há ascensão mística, santidade, ou reintegração no Uno. Temos, isto sim, um indivíduo que se livra de seu mundo e pensa em se reconstruir em algum outro lugar.
As diferenças tem tudo a ver com o público e o tempo para o qual se dirige Nolan. Os gregos queriam perpetuar ou retornar ao mundo heróico. Os filósofos especulavam sobre a Justiça e a contemplação da Verdade. Os neoplatônicos queriam se unir ao Absoluto. Os cristãos pensavam ascender de poder em poder, de glória em glória, até a imortalização e deificação na Luz Divina.
A cultura estadunidense, que financia e consome Nolan, tem um noção diferente de 'heroísmo' e drama existencial humano. Para eles, a questão é encaminhar bem os filhos, e depois cumprir o ideal de mergulhar na estrada da esperança, da liberdade, do futuro, da independência, da possibilidade do recomeço, para esse mundão do futuro aberto à frente, em que tudo pode vir a ser.
Odisseu só quer pegar Penélope, colocar na garupa da moto, e encarar a Route 66.
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