«Vede bem como os mortais acusam os deuses!
A partir de nós (dizem) existem os males, quando são eles,
pelas suas loucuras, que têm dores além do destino!"
Odisseia 1.32-34
Uma análise justa de "A Odisseia" [2026], de Christopher Nolan, tem de separar o "arrasa-quarteirão" dos méritos e deméritos da adaptação de uma obra fundacional. Hollywood provou que ainda sabe fazer um bom "pipocão". Mas o entretenimento não é suficiente para tirar do paladar o amargor da ausência de referências mais sólidas na releitura do mito. E aqui cabe falar antes de releitura do que de simples "adaptação".
Ainda que Hollywood tenha, por uma questão de sobrevivência do negócio, dado tímidos passos atrás no seu apoio desbragado à guerra cultural progressista, toda tentativa de dinamizar o "evento cinematográfico" e trazer de volta o público para as salas enfrenta a mesma desconfiança: Ninguém quer pagar ingressos caros para assistir um roteiro que não passa, no fundo, de um retalho de propaganda ideológica liberal.
Entretanto, os problemas dessa "adaptação" não se encontram propriamente nesse nível. Não estamos diante de um novo "Alexandre" [2004], de Oliver Stone. Claro que há propaganda liberal, seria impossível se livrar dela por inteiro no produto de um grande estúdio de Hollywood.
Elas incomodam mais pelo ridículo da situação, tão deslocadas parecem da ambiência "homérica", como os laivos feministas no pobre texto de Penélope [Anne Hathaway] e de uma irreconhecível Circe [Samantha Morton], retratada como uma idosa camponesa medieval ultrajada com a fama de "bruxa"; a critica à mentalidade sacrificial [e que respinga em certas teologias cristãs]; o raquítico Sinon vivido pelo homem trans Elliot Page; ou pela imensa forçada de barra de uma Helena negra [Lupita Nyong'o] em uma cultura aristocrática que tinha por ideal de beleza feminina a mulher alva, pálida, de pele menos tocada possível pelo sol.
[A "Helena de braços alvos", epíteto conhecido da Ilíada, e traduzida brilhantemente por Manoel Odorico Mendes como "Helena bracicândida", ressaltando a impressão de irradiação de luz da pele branca intocada que era o ideal de beleza aristocrática feminina da Grécia Arcaica.]
O filme dá munição para os que desejam vetá-lo a partir desses elementos. Mas o diretor os encara como periféricos, e sua reconstrução passa ao largo desse tipo de debate, bastando para tanto deixar de lado dois pressupostos fundamentais para os que se atém a esse tipo de crítica.
Nolan não pretende uma reconstrução histórica da civilização que gerou a Ilíada e a Odisseia; ou seja, a sociedade da 'Idade das Trevas' grega saudosa de seu passado 'micênico', e descrita de modo perspicaz no monumental "O Mundo de Ulisses", de Moses Finley. Tampouco se trata de uma transposição para a telona dos temas e valores da poesia homérica e da Grécia dos séculos VIII e VII a.C. O filme assume explicitamente que é uma releitura "ampliada" do clássico -- e o peso dado a tópicos da Eneida está longe de ser um acaso quanto a este ponto.
A favor de Nolan, é possível apontar que a releitura crítica da Odisseia faz parte da própria história grega, um mundo em que a ontologia divina, a cosmologia e a ordem humana estão imbricadas.
A poesia homérica trata do problema da restauração da ordem após a hybris heroica na Guerra de Troia. Do retorno [Nóstos] do Rei como reinstalação do mundo social legitimado pelos deuses. Odisseu é novo modelo heroico por sua capacidade de prevalecer pela métis, virtude que compartilha com a deusa Palas Atena, uma forma específica de inteligência estratégica e engenhosa, característica do navegador, do investigador e também do "trickster", marcado pela astúcia e trapaça.
Por outro lado, a sagacidade de Odisseu não obscurece sua natureza eminentemente guerreira, como se lê no banho de sangue que ele promove contra os pretendentes que parasitam e desonram seu palácio, e contra os servos que lhe foram infiéis; tampouco pode ser dissociada do fundamento religioso da epopeia.
O retorno do Rei é também uma reintegração à ordem do ser: Odisseu é expressão não só da Métis de Atenas, mas também da Eusebeia, a piedade que o move insistentemente para uma correta relação com os deuses. Seu retorno não é um drama pessoal de vingança, típico topos hollywoodiano, mas uma cura do miasma da hybris, uma punição aos que romperam com a xenia [a hospitalidade que simboliza Zeus], e uma manifestação da Justiça entre os homens.
Como heroi, ele navega por estados liminares sem esquecer quem é e qual seu lugar na hierarquia do Cosmos: Rei de Ítaca, marido de Penélope, pai de Telêmaco. A memória é o 'fio de Ariadne' que permite a conexão com a verdade instaurada e guardada pelos deuses.
Os gregos dos séculos posteriores discutiram a real natureza da métis de Odisseu. No contexto da polis, do surgimento da filosofia, dos embates sofísticos, e dos conflitos dos séculos V e IV a.C., eles focaram no impacto das consequências da guerra, capaz de degradar tanto vencedores quanto vencidos, e pensaram o mito na perspectiva da pedagogia e da arte do governo [Telemaquia]. A reinterpretação culminou com a abordagem metafisicamente pesada do neoplatonismo, em que a Odisseia se transforma em uma jornada iniciática da alma rumo ao Uno, leitura que foi cristianizada na Antiguidade Tardia e na Alta Idade Média, em que a ascensão mística ganha o sabor de uma peregrinação.
Nolan dialoga com algumas dessas chaves hermenêuticas, mas adotando uma antropologia e cosmologia bem diferente. Não encontramos uma história sobre a Justiça, a reintegração ao Absoluto, o regresso à Pátria Celeste, ou a realização metafísica. É verdade que adaptação flerta com a tragégia grega e com Virgílio ao ver a Guerra de Troia como uma catástrofe, e no questionamento do estratagema do Cavalo de Troia, que permitiu a vitória aquéia e imortalizou o heroísmo de Odisseu, mas que os romanos percebiam sob o signo de um ardil moralmente dúbio.
Assim, na reprodução da viagem ao Hades, Sinon confronta Odisseu por ter sido reduzido a um mero instrumento nas tramas e mentiras do heroi. Em certa medida, há também menção ao foco romano na Providência dos deuses, que causam sofrimento visando uma glória maior -- que em Virgílio significa a fundação de Roma a partir da carnificina e da destruição em Troia. O Odisseu de Nolan também se reconcilia com a "mão dos deuses" no último terço da obra, e reivindica o direito de aplicar a Métis no episódio da escolha entre o Redemoinho Caríbdis e o Monstro Cila.
Aliás, é um erro dizer que Nolan adota uma postura 'agnóstica' quanto aos deuses. Eles estão no filme, e intervém na história a partir de símbolos. Trovões manifestam a vontade de Zeus para Calipso, tempestades no Mar indicam a punição de Poseidon, e a destruição da tripulação prova a fúria de Hélio. "Por que os deuses não falam claramente?", se pergunta o personagem de Matt Damon para obter a resposta da suposta Atena: "Há algo mais claro que um Raio, que uma Colheita favorável, que a Morte?"
Do mesmo modo, a imaginação mitológica não é eliminada: as sombras no Hades expressam o escândalo do destino humano e são evocadas por um sacrifício; Circe usa feitiços para transformar seres humanos em animais; o vidente Tirésias desvela as possibilidades futuras para Odisseu; há ciclopes que pastoreiam ovelhas e devoram homens; há sereias que seduzem e destroem com o canto.
E, no entanto, a presença desses elementos é diminuída radicalmente para ceder ao drama existencial humano, é simplificada e condensada ao máximo a fim de passar a um segundo ou terceiro plano. A única antropomorfização de uma divindade se demonstra, no fim das contas, uma projeção do remorso sentido pelo protagonista.
Aqui se encontra a chave hermenêutica para o filme de Nolan, e que torna sua leitura uma ruptura brusca com o sentido tradicional da obra. O interesse do cineasta está na psicologização de Odisseu. Os herois tem responsabilidade na tragédia da guerra e da crise civilizacional, como na abordagem grega, romana e cristã. É um caos provocado pela hybris dos gregos, e não pela invasão de povos estrangeiros -- e assim Nolan usa o debate historiográfico sobre o fim da "Idade do Bronze" pela chegada dos "povos do mar" como sinalização das questões políticas da sociedade ocidental atual.
O ponto fundamental, no entanto, é que esses elementos são lidos a partir de uma antropologia e cosmologia moderna, são traumas que fragmentam e inviabilizam a identidade do protagonista.
Para Nolan, não há retorno possível. Nem para Ítaca, nem para a Ordem Justa, nem para o Uno, nem para Deus. Depois do que viu e fez, Odisseu já não pode ser mais o mesmo, nem há um universo que permita sua ascensão a estados superiores. A métis jamais será encarada novamente sob o signo da dádiva e da participação divina, mas também como maldição que não traz nem real sobrevivência nem uma possível restauração, é antes instrumento na ruptura de um "pacto" civilizacional. A memória não é o liame entre os homens e a verdade inscrita no ser, mas fardo pesado cuja dor se quer entorpecer com a flor de lótus. Odisseu assume que merece o exílio, e mais do que isso, o deseja, o vê como alternativa viável.
Daí a necessidade premente de modificar o final da obra. Assim como em Dante, o protagonista escolhe navegar para o Oeste. A brutal diferença é que na interpretação dantesca a decisão é um erro, expressão da mesma hybris que desafiou os deuses e foi causa da calamidade: Ao violar os Portais de Hércules, Odisseu é fulminado por não respeitar os limites da natureza humana.
O filme inverte essa perspectiva. O heroi não vai repousar na Pátria, nem terrena nem Celeste, nem no mundo fundamentado pelo divino, nem na Contemplação do Belo, nem na Reintegração ao Absoluto. A História pode continuar sem ele, pois sua identidade não foi [re]descoberta nem realizada. Ela será reconstruída na partilha do desconhecido com uma pessoa amada, única honra possível aos mortos.
É possível forçar a mão e ver algo da melancolia e tristeza diante de um mundo que se esvazia, como na partida dos elfos e de Frodo em Tolkien. Mas o tom predominante é da abertura dos indivíduos para o futuro à sua frente, em que mergulham não para se encontrar, mas para se refazer em outras circunstâncias. Nada mais moderno, nada mais anti-homérico.
Por fim, e para não dizer que não falei em flores, "A Odisseia" tem de ser colocado em seu devido lugar: um filme hollywoodiano, e como tal capaz de trazer momentos memoráveis na reconstrução do Hades, na sequência da trama do Cavalo de Troia, no horror na caverna de Polifemo. Há também mau gosto, no caso da representação dos lestrigões, de Circe, e de Agamênon. E traz defeitos típicos do cinema de Nolan: parco desenvolvimento dos personagens, tendência ao 'naturalismo' e à racionalização.
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