sexta-feira, 17 de julho de 2026

A FINAL DA COPA DO MUNDO E O RETORNO ÀS RAÍZES


A Argentina vence porque pratica um futebol que respeita suas raízes? O Brasil perdeu porque abandonou sua "essência"?

Uma das tendências mais comuns em derrotas de Seleções campeãs é o debate sobre a perda de uma identidade que era garantidora de sua outrora qualidade. O debate se dá no plano do imaginário, do mito, sem apego aos fatos e aos processos de desenvolvimento do futebol.

O que ele expressa, antes de tudo, é um impulso arcaísta que pode ser usado para manter a autoestima de determinada escola enquanto ela fica distanciada das épocas de glória. Afinal, se perdemos sem nossa "essência", somos nós de fato que perdemos?



A escola sul-americana dos anos 1920 desenvolveu um estilo que visava se contrapor ao futebol inglês: trocas de passes curtos, envolvendo a defesa adversária por meio da circulação da bola, de tabelas, de triangulações. Exigia uma técnica refinada, um domínio preciso da pelota.

Os escoceses foram seus predecessores no século XIX, e a escola danubiana -- nascida no Império Austríaco, e que se estendeu por terras tchecas, eslovacas, e húngaras -- lhe deu continuidade.

Na América do Sul, no entanto, havia uma particularidade: o drible, a finta, o malabarismo com a bola, que inventava jogadas que deixavam o público estupefato. Essa criatividade apresentou ao mundo o 'peixinho', a 'bicicleta', o 'toque de calcanhar' etc.

O grande rival do Uruguai bicampeão olímpico era a vizinha Argentina, medalhista de prata em Amsterdã. O Uruguai voltou a prevalecer na final da primeira Copa, em 1930, com uma goleada de 4 a 2.



Foram duas as explicações propostas para o predomínio da Celeste. Primeiro, a suposta garra charrúa, característica distintiva permitia aos uruguais jogar com mais raça que os 'hermanos'. A segunda, menos laudatória, era o apego da Celeste à disciplina tática. Os uruguaios eram as "formigas", e os argentinos eram as "cigarras".

O futebol argentino caótico em relação ao do vizinho. "La Nuestra", como passou a ser conhecido, era uma forma de atuar que privilegiava a estética sobre a organização. O jogador tinha de entreter o púbico e também se divertir em uma competição voltada para o ataque e para o craque.

"La Nuestra" não era, portanto, um dado sistema tático, uma determinada disposição dos atletas em campo, nem mesmo se confundia com o ímpeto de garra que muitos hoje associam aos argentinos. Era colocar a beleza e o "jogar bem" acima do "esquema".



A derrota na final de 1930 foi o primeiro grande trauma do futebol argentino. A adoção do profissionalismo foi acelerada também por causa da consciência da derrota. Ao longo dos anos 1930 e 1940, o futebol dos hermanos se isolou do cenário internacional. Foi o auge de "La Nuestra", cujo prestígio a levou a ser exportada para outros cantos da América do Sul -- como a Colômbia.

O isolamento produziu também um mito de superioridade destruído quando a albiceleste voltou a disputar uma Copa, na Suécia 1958. Eles perderam na estreia por 3 a 1 para a Alemanha Ocidental, então campeã. No terceiro jogo da fase de grupos, o Desastre: uma sova de 6 a 1 diante da Tchecoslováquia.

A catástrofe levou a uma ampla reflexão e reformulação no futebol argentino. Eles passaram a importar modelos europeus de treinamento e de organização tática. Tentaram jogar com líberos, se modernizar, ampliar a disciplina, e adotaram um estilo mais defensivo. Criou-se no país um complexo de inferioridade física em relação a Europa: o atleta argentino seria franzino demais para a força do futebol dos anos 1960/70.



O futebol de clubes sentiu o impacto com o surgimento do Estudiantes de Zubeldía, voltado para a vitória a todo custo, incluindo a violência e e o abuso da 'picardia' [o jogo mental com o qual os argentinos visavam abalar psicologicamente os adversários]. A mídia do país qualificou essa fase de ''antifutebol'', que apesar disso teve continuidade, em maior ou menor grau, nos gramados do país.

E então mais um trauma: a desclassificaçao nas Eliminatórias para 1970. Os hermanos ficaram de fora daquela que, para muitos, é a maior Copa da História por perderem a vaga para o Peru.

Esse novo desastre levou a uma polarização em torno de duas ideias, cada uma delas personificada por um treinador. Menotti defendia um futebol técnico, de posse de bola por meias, com pontas, voltado para o ataque, que fosse expressão cultural da história argentina, ainda que modernizado pelas inovações que o Brasil e a Holanda trouxeram ao jogo. Foi desse modo que a Argentina levantou o caneco em 1978.



Já Bilardo, antítese de Menotti, queria pragmatismo, adequação aos adversários, um poder ofensivo que gravitasse em torno de um "segundo atacante/ponta-de-lança" sustentado por um poderoso sistema defensivo. Foi um dos pioneiros do 3-5-2, que ele próprio transformava em um 5-3-2 por meio do reposicionamento dos alas. Foi desse modo que a Argentina venceu a Copa de 1986.

Entre a final da Copa de 1986 e o início do Mundial de 1990, a Argentina jogou 31 vezes, e saiu de campo apenas com seis vitórias. Passou pela fase de grupos na Itália como um dos melhores terceiros colocados, após derrota vexatória para Camarões na estreia, e um lance polêmico em que Maradona usou a mão para evitar um gol no enfrentamento contra a União Soviética. A Argentina se viu diante do Brasil nas oitavas-de-final, e avançou em um daqueles jogos que se devem ao "sobrenatural de Almeida". Mal passou do meio campo, recebeu uma saraivada de golpes, e quatro bolas nas traves, mas decidiu a partida em um contra-ataque raro de Maradona e Cannigia no fim do segundo tempo.



Nas QF e SF, a estratégia argentina era arrastar o jogo, atuar por uma bola ou por um lance de Maradona, e confiar na disputa de penaltis, em que se destacava soberbamente o goleiro Goycochea, que ganhou a posição quando o titular Pumpido quebrou uma das pernas ainda na primeira fase. A Argentina tinha um jogador que era comparado então a Pelé, mas seu grande heroi na Copa era um goleiro pegador de pênaltis. Nada mais distante de ''La Nuestra", não apenas em execução, mas também em espírito.

Depois, o grande desafio era se adaptar a um mundo sem Maradona. A primeira tentativa colapsou em mais um trauma: a goleada implacável de 5 a 0 imposta pela Colômbia em pleno Monumental de Nunez, nas Eliminatórias para os EUA 1994. A albiceleste disputou a a repescagem contra a frágil Austrália. Maradona voltou à Seleção, que teve bons momentos nos EUA, apenas para que as ilusões se desfizessem com o teste que revelou o doping de Diego.

Como recuperar os anos de vitória? A epopeia argentina passou pela disciplina espartana de Passarela, que proibiu, dentre outras coisas, cabelos longos na Seleção. [Quando o craque Redondo cortou as madeixas, foi acusada de hipocrisia por Maradona.] Depois, a revolução tática do impetuoso Bielsa, o "Louco", um dos defensores do 3-4-3 e dos esquemas coletivos rígidos, em que os jogadores eram peças de um jogo de xadrez em que o protagonista era, na verdade, o técnico. Tão radical era Bielsa que ele não encontrava espaço em seus esquemas para a exuberância de um Riquelme.



Todas essas tentativas terminaram em fracasso e numa freguesia crescente diante da Seleção brasileira.

O surgimento de Messi transformou, por muito tempo, o sonho de um novo Maradona em um novo tipo de pesadelo: os hermanos tinham o melhor jogador do século, mas invariavelmente perdiam, fosse com Bielsa, fosse com um jogo de posição "guardiolista" [Sampaoli]. Nenhum sistema, método, estilo, ou forma de jogar parecia resolver o problema crônico: 36 anos sem Mundial, 28 anos sem uma mísera Copa América.

Scaloni promoveu um retorno às raízes? Ressuscitou "La Nuestra"? Na verdade, a Argentina de 2022 era pragmática e flexível. Mudou a escalação sete vezes em sete jogos para se adaptar aos adversários. Se testou na superação do fracasso da estreia, uma derrota de 2 a 1 para a Arábia Saudita. Avançou tendo 5 penaltis a favor no tempo regulamentar em 7 partidas, e prevalecendo em duas disputas por pênaltis nos quatro mata-matas que enfrentou. Não era "La Nuestra", e sim adaptação, vontade de vencer, e as circunstâncias.



A equipe atual chega a mais uma final no mesmo espírito. Não realiza transições porque Messi não as suportaria. Concentra o jogo no corredor central porque faltam jogadores de qualidade que atuem pelas pontas [Scaloni tentou algo no sentido com Simeone no jogo contra a Inglaterra mas com resultados muito pequenos]. Prefere trocas de passes em torno de Messi porque é a forma que tem para potencializá-lo.

É um modelo tático irrepetível por qualquer outra equipe, e que dá enormes desvantagens à própria albiceleste [como se viu nos jogos contra Egito, Suíça e Inglaterra]. Mas a Argentina sempre encontra um modo de sair vitoriosa, nem que seja em meio a polêmicas. É um time com espírito vencedor.

A História do futebol argentino não é a da ''manutenção das raízes'', mas da contínua reinvenção depois de derrotas e períodos traumáticos, e da adaptação aos tempos com o objetivo de chegar à vitória. Se há algo de estável no futebol dos vizinhos é a perene qualidade de seus jogadores e seu apreço à vitória, não um sistema tático ou estilo de jogo específico.


Nenhum comentário:

Postar um comentário