sábado, 8 de março de 2014

A liberdade de ser plenamente mulher


Dia Internacional da Mulher, dia de um dos engodos do mundo moderno.

Criado no início do século XX por movimentos feministas ligados ao socialismo, a data tem o objetivo claro de comemorar a mulher que não é. Incapazes de conhecer e amar as qualidades especificamente femininas, que negam como construtos culturais ou instrumentos de opressão, louvam um ser reduzido, do qual vêem pouco mais do que a vagina, e que deveria se medir com um homem, também ele degradado e já castrado, em uma sociedade que não passa de um grande mercado homogeneizador de vidas. 

Poucas coisas são tão doentiamente misóginas quanto o espírito por detrás do Dia Internacional da Mulher. 

 A mulher -- que não é uma condição de desejo e não se caracteriza só por uma diferença no órgão sexual, mas antes é uma diferença qualitativa que se espraia por todas as fibras do ser feminino, em todos os seus nuances, determinando a totalidade de suas expressões e elementos -- não precisa de um dia. Todos os dias são dela também. 

Todos os dias são da mulher verdadeira, que compreende que tem valor em si mesma, em sua própria especificidade e diferença em relação ao homem. Que não tem complexo de inferioridade capaz de fazê-la menosprezar estas especificidades e esquecer do quanto elas a marcam em todos os momentos e situações. 

Todos os momentos são momentos da verdadeira mulher, aquela mulher que não sofre de uma ausência de ambição tão grande a ponto de fazer de um homem castrado e aburguesado uma régua para si própria.

Porque qualquer mulher real é muito superior e realizada do que um homem castrado. E se nenhuma mulher jamais seria um homem verdadeiro, tampouco um homem verdadeiro algum dia seria como uma mulher. 

Pois 'direito de voto' não é qualidade nem masculina nem feminina, não os realiza nem valoriza em nada. Direito de participar, se integrar e ser massacrado pelo ethos da sociedade de trabalho tampouco é qualidade masculina ou feminina, não nos realiza nem valoriza em nada. Direito de matar fetos não nos realiza nem valoriza em nada. 

Dê valor a si própria naquilo que nenhum homem jamais poderá se medir com vocês, realize-se enquanto mulher.

sexta-feira, 7 de março de 2014

As grandes rivalidades de Roger Federer: Lleyton Hewitt e a temporada de 2004

Lleyton Hewitt foi um furacão quando surgiu no circuito. O jogador mais jovem a chegar ao posto de número um do mundo, com somente vinte anos, campeão no US Open de 2001, em cima de ninguém menos que Pete Sampras, e em Wimbledon 2002; o sujeito que antecipou o estilo de jogo de muita movimentação e defesa no fundo de quadra que anos depois faria as carreiras de Nadal e Djoko era o homem a ser batido nos primeiros anos da década passada. 

Hewitt se viu frente a frente com Roger Federer na final do US Open de 2004. O suíço já havia vencido Wimbledon no ano anterior e alcançado o número um do ranking pouco depois de vencer o Australian Open de 2004. Vinha de mais um título no All England Club nesse mesmo ano. Uma final entre dois gigantes que marcaram, de modo diferente mas com qualidade, aquela década do tênis. Até 2003, Hewitt dominava amplamente o confronto contra o suíço, tendo vencido sete dos primeiros nove jogos. Mas aquela temporada marcaria uma mudança significativa na história da rivalidade. Roger já havia vencido o australiano em Wimbledon, e chegava à final como o novo favorito.

O jogo foi um dos maiores estupros da história das finais de Slams. Federer atropelou por três sets a zero. O primeiro e o terceiro set foram vencidos com pneus! O primeiro durou apenas dezoito minutos [!!]. Ainda naquele ano os dois voltariam a se enfrentar duas vezes na Masters Cup [atual ATP Finals], incluindo a final do torneio, e o resultado também foi favorável ao Leão da Montanha.

 Uma lenda começava a ser escrita.

O Neoplatonismo e o Deus dos Filósofos, ou: uma perspectiva sobre a questão do Filioque

Há uma forte tendência dentro das diferentes comunidades autodenominadas cristãs de empreenderem um diálogo que as aproximem em alguma medida, seja na ação política conjunta, na defesa dos mesmos valores morais ou no entendimento de suas distâncias teológicas. Não vou entrar cá na questão do movimento ecumenista, que, evidentemente, é uma das forças propulsoras deste tipo de diálogo, mas que tem tantos problemas eclesiológicos e acaba caindo em deturpações tão evidentes das doutrinas das religiões envolvidas que se torna, de uma perspectiva ortodoxa, uma das heresias mais perigosas dos últimos tempos. Apesar do problema do ecumenismo, porém, a busca por diálogo não é, per si, um demérito. Ela pode explicitar as diferenças religiosas entre os interlocutores, mostrando-lhes as razões teológicas para a existência das dita cujas e proporcionando aos não ortodoxos uma visão mais clara daquilo que os separa da Igreja. Para que a união tão desejada por muitos possa ser alcançada em qualquer grau apreciável, é necessário colocar na conversa justamente as distâncias, em vez de simplesmente mascará-las e empurrá-las para debaixo do tapete.

Uma das mais antigas e conhecidas 'discordâncias' entre cristãos ortodoxos e católico-romanos está na cláusula Filioque. Os dois primeiros Concílio Ecumênicos elaboraram um Credo, um conjunto sintético de pontos de fé que deve ser declarado por todo cristão, e que é inclusive proclamado por eles em toda Divina Liturgia antes que possam participar da Eucaristia, e cuja alteração foi terminantemente proibida pelos mesmos Santos Sínodos. Nestes princípios fundamentais de fé se encontra a afirmação Trinitária de que o Filho é gerado pelo Pai antes de todos os séculos. Quanto ao Espírito, é dito que Ele procede do Pai. [1]

No entanto, Santo Agostinho, em obras teológicas em que buscava explicar ou descrever a Trindade, acabava fazendo o Espírito proceder tanto do Pai quanto do Filho. A divisão linguística que existia no Império -- e que já afetava o próprio Bispo de Hipona, que desconhecia grego, o que o tornava ignorante em relação às principais obras teológicas e ascéticas dos demais Santos -- e que se acentuou nos séculos seguintes, fez com que o Ocidente repousasse cada vez mais na autoridade e nos escritos agostinianos. Já no século VI, o III Concílio de Toledo, realizado para marcar a conversão do povo visigodo do arianismo para a Ortodoxia, e sob liderança tanto do Rei Recaredo como também de São Leandro de Sevilha, introduzia no Credo o termo Filioque para se referir à processão do Espírito: ''Creio no Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho...'' [2] As invasões germânicas e o futuro Império Carolíngeo, que se pretendia uma nova Roma, ao instrumentalizaram a teologia agostiniana em sua busca por legitimidade, acabaram por tornar o problema ainda mais explícito e transformá-lo em uma das razões para a proclamação, ou antes o reconhecimento, da divisão entre os cristãos e do Cisma do Ocidente.

As tentativas de aproximação entre os cristãos, principalmente aquelas motivadas por agendas ecumenistas, tentaram minimizar essa diferença, quase que encarando-a como uma questiúncula que só se sustentaria por ressentimentos e outras aversões mútuas. A própria Igreja Católica-Romana, quando de seus esforços na criação do uniatismo -- uma forma arcaica de empresa ecumenista -- reconheceu que não havia problema algum com o Credo sem o Filioque, e que os orientais que entrasse em comunhão com o papado poderiam manter seus ofícios litúrgicos sem o acréscimo do termo. Concomitante  a isso, houve todo um esforço teológico para explicar essa adição e interpretá-la de modo condizente à proibição de alteração estabelecida nos Concílios Ecumênicos, bem como ajustá-la a uma visão que fosse palatável para os ortodoxos.

Uma das formas que este esforço católico-romano tomou foi elencar uma série de versículos neotestamentários que sustentariam a alegação de que o Espírito procederia tanto do Pai quanto do Filho. No entanto, o verbo usado no Credo para se referir à origem da Terceira Hipóstase da Santíssima Trindade ocorre uma só vez no Novo Testamento, em João 15:26: ἐκπορεύεται. [3]A palavra se refere à origem eterna da Terceira Pessoa Divina, enquanto as demais passagens, em geral, se referem ao envio do Espírito ao mundo. Há aqui uma distinção entre a dimensão teológica, em sentido estrito, retratada no Credo, e que diz respeito à Trindade em si mesma, e a dimensão econômica, que diz respeito às diferentes relações que Deus pode ter com as criaturas, terreno em que se situa não só a Criação Divina como também a ''história da redenção''.

Esta confusão entre economia e teologia propriamente ditas está expressa também na busca por enfatizar os Padres que, ao longo da História cristã, afirmaram que o Espírito foi enviado ao mundo pelo Pai através do Filho, formulação encontrada por exemplo em São Máximo o Confessor, São Gregório Taumaturgo, São Basílio o Grande e outros. No entanto, em todas estas citações os Padres falavam do envio temporal do Espírito ao mundo, e não de sua origem eterna. Esta reinterpretação católica-romana da cláusula Filioque, cada vez mais em voga -- embora tenha origens já na Idade Média Central -- não altera essa mistura dos domínios econômico e teológico, antes a estabelece definitivamente no Credo. [4]

Os ortodoxos, por sua vez, possuem uma série de objeções ao Filioque. Não só criticam a mudança do Credo, infringindo uma proibição estabelecida em Concílio Ecumênico, como descrevem as dificuldades e mudanças de entendimento de Deus que esta aparentemente pequena alteração promove. Não só há a confusão entre as esferas da Economia e da Teologia, como também um possível rebaixamento do status do Espírito Santo, que se torna assim a única Hipóstase que não seria causa eterna de nenhuma outra. Mas a principal crítica diz respeito às consequências para a correta compreensão da unidade da Trindade. Os Santos Padres sempre afirmaram que esta última era sustentada pela Monarquia do Pai. A Hipóstase do Pai seria a origem eterna das demais, e nela a Trindade teria a Sua recapitulação. Os católico-romanos, ao afirmarem que o Espírito tem Sua origem no Pai e no Filho, tenderam a deslocar a fonte da unidade da Trindade para aquilo que há de comum nas Hipóstases, o que na teologia deles quer dizer a Ousia Divina. Assim, a Hipóstase do Pai deixa de possuir seu caráter distintivo como fonte e origem da Divindade e das demais Hipóstases, e a Natureza comum passa a ser ressaltada sobre as distinções hipostáticas, que, a partir de então, tenderiam a ser descritas a partir de relações no interior desta mesma natureza.

Os católico-romanos tem buscado minimizar esta questão, reafirmando que o Pai é Causa Única no interior da Trindade, mas não conseguem escapar das conclusões óbvias de sua teologia trinitária nem mesmo no catecismo [5]. Mais ainda, esta concepção católica-romana, que tem raiz em Santo Agostinho e foi reforçada pela leitura de Tomás de Aquino, se associa, coerentemente, com uma série de outras assunções ligadas à visão deles de Deus, e que a distanciam consideravelmente da exposição Ortodoxa. Como pretendo tratar em posts futuros, a visão trinitária agostiniana-tomista também está ligada à perda da distinção entre Natureza e Energia divinas, à ênfase em Deus como uma essência absolutamente simples e inteligível, ao mau entendimento da teologia dos Nomes Divinos apresentada por São Dionísio Areopagita, e tem consequências na compreensão agostiniana-tomista da participação em Deus e da visão beatífica, bastante distanciada da noção ortodoxa de theosis, bem como gera problemas para a apreciação da sinergia entre homem e Deus, o que esteve na base da noção agostiniana de Predestinação, uma distorção que mais tarde seria maximizada em movimentos reformados surgidos no ambiente ocidental.

Por outro lado, os ortodoxos muitas vezes interpretaram estas distâncias teológicas como resultado de uma excessiva influência neoplatônica em Santo Agostinho e ao abandono de uma visão patrística fundamentada antes nas Sagradas Escrituras. Sem pretender negar que a teologia dos Padres é fundamentalmente experimental, fruto da participação nas energias incriadas, e fortemente ancorada nos textos sagrados, penso que não se pode negar o uso que fizeram de vários conceitos e perspectivas discutidas pelos neoplatônicos e outras correntes filosóficas do entorno helenista. Isto posto, a história do próprio neoplatonismo bem como a síntese tomista a partir de Aristóteles parecem indicar que, neste campo específico, a diferença se deve principalmente ao recorte que o Santo Bispo de Hipona realiza em certas alegações metafísicas presentes nos principais autores neoplatônicos. Esta ruptura dos elementos principais e fundamentais do ponto de vista neoplatônico acabou afetando a teologia agostiniana, aproximando-a de uma leitura restrita de Platão e preparando sua associação com a ontologia ainda mais restrita de Aristóteles.

Por paradoxal que possa parecer, a cegueira para certa dimensão da metafísica neoplatônica fez com que a teologia agostiniana-tomista afirmasse cada vez mais o Deus dos filósofos e cada vez menos o Deus de Abraão, Isaque e Jacó.

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[1] Πιστεύομεν εἰς ἕνα Θεόν, Πατέρα, Παντοκράτορα, ποιητὴν οὐρανοῦ καὶ γῆς, ὁρατῶν τε πάντων καὶ ἀοράτων. Καὶ εἰς ἕνα Κύριον Ἰησοῦν Χριστόν, τὸν Υἱὸν τοῦ Θεοῦ τὸν μονογενῆ, τὸν ἐκ τοῦ Πατρὸς γεννηθέντα πρὸ πάντων τῶν αἰώνων· φῶς ἐκ φωτός, Θεὸν ἀληθινὸν ἐκ Θεοῦ ἀληθινοῦ, γεννηθέντα οὐ ποιηθέντα, ὁμοούσιον τῷ Πατρί, δι οὗ τὰ πάντα ἐγένετο. Τὸν δι ἡμᾶς τοὺς ἀνθρώπους καὶ διὰ τὴν ἡμετέραν σωτηρίαν κατελθόντα ἐκ τῶν οὐρανῶν καὶ σαρκωθέντα ἐκ Πνεύματος Ἁγίου καὶ Μαρίας τῆς Παρθένου καὶ ἐνανθρωπήσαντα. Σταυρωθέντα τε ὑπὲρ ἡμῶν ἐπὶ Ποντίου Πιλάτου, καὶ παθόντα καὶ ταφέντα. Καὶ ἀναστάντα τῇ τρίτῃ ἡμέρα κατὰ τὰς Γραφάς. Καὶ ἀνελθόντα εἰς τοὺς οὐρανοὺς καὶ καθεζόμενον ἐκ δεξιῶν τοῦ Πατρός. Καὶ πάλιν ἐρχόμενον μετὰ δόξης κρῖναι ζῶντας καὶ νεκρούς, οὗ τῆς βασιλείας οὐκ ἔσται τέλος. Καὶ εἰς τὸ Πνεῦμα τὸ Ἅγιον, τὸ κύριον, τὸ ζωοποιόν, τὸ ἐκ τοῦ Πατρὸς ἐκπορευόμενον, τὸ σὺν Πατρὶ καὶ Υἱῷ συμπροσκυνούμενον καὶ συνδοξαζόμενον, τὸ λαλῆσαν διὰ τῶν προφητῶν. Εἰς μίαν, Ἁγίαν, Καθολικὴν καὶ Ἀποστολικὴν Ἐκκλησίαν. Ὁμολογῶ ἓν βάπτισμα εἰς ἄφεσιν ἁμαρτιῶν. Προσδοκῶ ἀνάστασιν νεκρῶν. Καὶ ζωὴν τοῦ μέλλοντος αἰῶνος. Ἀμήν.


[2] Et in Spiritum Sanctum: Dóminum et vivificántem: Qui ex Patre Filióque procédit.

[3] Οταν ἔλθῃ ὁ παράκλητος ὃν ἐγὼ πέμψω ὑμῖν παρὰ τοῦ πατρός, τὸ πνεῦμα τῆς ἀληθείας ὃ παρὰ τοῦ πατρὸς ἐκπορεύεται, ἐκεῖνος μαρτυρήσει περὶ ἐμοῦ

[4] Muito diferente é o tratamento dado à origem do Espírito em outros escritos teológicos dos Santos Padres, em que se mantém a relação entre a Segunda e a Terceira Hipóstase Divinas com a imagem do raio e da radiação divina. O Espírito, como radiação divina, está sempre acompanhado do raio divino, o Filho, e, inclusive, repousa nele [outra imagem usada é a do óleo, o Espírito, ungindo a Pessoa do Rei, o Filho], interação que manifesta a uma só vez tanto o Filho quanto o Espírito. No entanto, estas formulações estão muito distantes do Filioque. Elas são encontradas tanto entre os Capadócios, quanto em São João Damasceno e São Gregório de Chipre, que mantém firmemente, no entanto, que a origem e existência eterna tanto da radiação [Espírito] quanto do raio [Filho] divinos na imagem usada se devem, unicamente, ao Pai.

[5] Podemos ler no site do Vaticano: ''248 - A tradição oriental exprime, antes de mais, o carácter de origem primeira do Pai em relação ao Espírito. Ao confessar o Espírito como «saído do Pai» (Jo 15, 26), afirma que Ele procede do Pai pelo Filho (58). A tradição ocidental exprime, sobretudo, a comunhão consubstancial entre o Pai e o Filho, ao dizer que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho (Filioque). E di-lo «de maneira legítima e razoável» (59), «porque a ordem eterna das pessoas divinas na sua comunhão consubstancial implica que o Pai seja a origem primeira do Espírito, enquanto «princípio sem princípio» (60), mas também que, enquanto Pai do Filho Único, seja com Ele «o princípio único de que procede o Espírito Santo» (61). Esta legítima complementaridade, se não for exagerada, não afecta a identidade da fé na realidade do mesmo mistério confessado.''
http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p1s2c1_198-421_po.html


quarta-feira, 5 de março de 2014

O Brasil não é mulato nem o Nordeste é Salvador; ou: o Brasil Ibérico, caboclo e indígena e a política de cotas





Recentemente, houve uma polêmica em torno da escolha dos brancos Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert como apresentadores do sorteio da Copa, deixando de lado os mulatos Camila Pitanga e Lázaro Ramos. O imbróglio revela a um só tempo a força do movimento negro e o preconceito e discriminação a que todos os cidadãos brasileiros que não são afrodescendentes podem sofrer nesses tempos de politicamente correto e de imitação das neuras estadunidenses nesse lado de cá do hemisfério. Esta discriminação assume um aspecto ainda mais feroz porque não se restringe ao campo jurídico, não diz respeito apenas ao estabelecimento de leis que dificultam a vida de indivíduos de etnias diversas, mas porque estabelece um discurso de classificação racial alheio à realidade do país, importado dos conflitos raciais da América do Norte, e que apaga da memória oficial ou menospreza elementos cruciais da formação nacional.

Um promotor, ao opinar sobre o a escolha realizada no sorteio, afirmou que os atores mulatos ''representam melhor a composição étnico racial do povo brasileiro.''[1]Onde, mizifio? Segundo o censo do IBGE, mais da metade da população desse país que o promotor citado desconhece se declara branca [2]. Esse pessoal não pode ser representado por causa de quê? Lá na festa da FIFA escolheram Olodum, Maragareth Menezes, Alcione, Vanessa da Mata, Alexandre Pires para que apresentassem a música brasileira. Ninguém buscou representar o som regional do Centro Oeste ou do Sul do país, por exemplo. Não vejo ninguém querendo abrir investigação por causa disso. 

Se a desculpa pela preeminência de figuras negras entre os artistas selecionados se dá por causa da realização do sorteio em Salvador, não custa lembrar que a população cabocla é tão ou mais significativa no Centro Oeste, Norte e Nordeste do país do que a de pretos e mulatos. O IBGE usa cinco classificações étnico/raciais nas estatísticas oficiais: brancos, amarelos, negros, indígenas e...pardos. Os pardos incluem todos os mestiços, que são tradicionalmente designados no país com termos diferentes para se fazer referência à sua ascendência: mulatos, caboclos, cafuzos. No Sudeste, o mestiço predominante é o mulato, e assim também ocorre em algumas cidades de Goiás e em Recife e Salvador -- estas últimas foram capitais nordestinas muito marcadas pela importação de africanos. Mas nas demais regiões brasileiras -- Sul, Norte, Centro-Oeste e Nordeste --, um dos tipos mestiços mais comuns, quando não o dominante, é o caboclo. Toda essa massa é escondida pelas pesquisas oficiais de cor do brasileiro porque são empurrados para o rótulo de ''pardos'', e este, por sua vez, é sinonimizado nas políticas públicas e na mídia com a figura do afrodescendente. Será que ainda se ensina nas escolas do Sudeste que grande parte dos mestiços desse país não tem ascendência africana? Pra essa gente, só se é brasileiro típico se você possuir algum pé na África, pouco importando se este gene africano é minoritário, irrelevante ou inexistente no fenótipo ou cultura de setenta por cento da população desse país [3]




O problema se torna ainda mais nítido quando se sabe que boa parte dos autodenominados brancos no Brasil são mestiços e, principalmente, caboclos. Para a Cultura Amazônica, nordestina [o típico nordestino do sertão, da caatinga], campeira e pecuarista, do peão e do pequeno agricultor do interior, da viola, do catolicismo arraigado, as marcas do africanismo são ou pequenas ou subordinadas a outros elementos étnicos [4]. E ainda assim o IBGE, a mídia, e as políticas públicas oficiais as impõem a todo este contingente populacional que se espraia pela maior parte do território nacional. 

No fundo, a importação dos dilemas do movimento negro estadunidense para estas regiões da América provocaram, para além de consequências positivas cá e acolá para pretos e mulatos, mais um ciclo de dominação do Brasil costeiro e voltado para USA e Europa sobre o Brasil profundo, e um afastamento em relação a muito do que nos une e aproxima dos vizinhos sul-americanos, que possuem uma herança fortemente indígena em sua constituição cultural e racial. [5]


o podemos nos esquecer também que, se é verdade que não somos herdeiros culturais e raciais dos vikings, também é verdade que fomos colonizados por um povo branco e europeu [com pitadas cá e lá doutros povos também brancos e europeus], que estabeleceu nestas florestas o cerne daquilo que em nós é civilização. Fingir que essa matriz civilizacional portuguesa, branca e católica-romana não existe é se tornar cego para a própria realidade que chamamos Brasil, que é, pra falar o óbvio ululante, herdeira da interiorização pela América Portuguesa de noções e esquemas de poder e sociedade metropolitanos.

E aqui se insere a questão da política de cotas que tomou conta do país. Sou contra cotas baseadas no critério de raça por vários motivos, sendo o principal deles a apropriação das dita cujas por movimentos organizados, de matiz africanista, importados do estrangeiro, e que moldam não só o debate racial, como são também racistas, se não sempre em teoria, quase sempre na prática, o que tem consequência deletérias para diversos grupos étnicos brasileiros, que somem de vista em um verdadeiro ''apagão histórico-racial'', além de impulsionar uma ''americanização'' da forma como a sociedade brasileira se percebe. Não falo do muxoxo de loiros da Barra da Tijuca, mas da sacanagem feita com caboclos e indígenas e do sufocamenteo do Brasil, esse país ibérico. Last but no least, a abordagem racialista muitas vezes distorce o verdadeiro problema, que é a imensa concentração de renda do país, e que seria melhor combatido com uma sistemas de cotas fundamentadas em critérios sócio-econômicos.



O Brasil parece querer provar ao mundo que, com o tempo, é possível conhecer cada vez menos de si mesmo.




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[3] ''Resumidamente, eis as conclusões do grupo de geneticistas: a quase totalidade dos genes dos brancos brasileiros de hoje herdados por via paterna vieram de portugueses; já no que respeita ao que foi recebido pela linhagem materna, 60% veio de índias e negras. O trabalho será publicado na edição de abril da revista Ciência HojePara Sérgio Pena, a surpresa maior foi encontrar tamanha contribuição ancestralidade indígena na população branca. "Todo mundo no Brasil já aceita o fato de que nós somos mestiços, mas não com índios", diz. [...] Entre os homens não houve grande surpresa. Nada menos do que 98% dos haplótipos encontrados por Sérgio Pena e seus colaboradores (Denise Carvalho-Silva, Juliana Alves-Silva, Vânia Prado e Fabrício Santos) são atribuíveis a uma origem européia, particularmente a portugueses (que possuem uma fisionomia genética própria por conta da influência moura, ou norte-africana). A comparação foi estabelecida com auxílio de uma amostra de 93 homens portugueses, fornecida pelo geneticista Jorge Rocha, da Universidade do Porto. [...] Bem diferente é o panorama da genealogia colonial oferecido pelas linhagens maternas, ou seja, pelos polimorfismos do mtDNA. Nesse caso, a distribuição é bem mais uniforme: 39% de contribuição européia, 33% de indígena e 28% de africanas.'' http://www.online.unisanta.br/2000/04-01/ciencia3.htm.  
Ver também: http://www.icb.ufmg.br/labs/lbem/pdf/retrato.pdf

[4] http://www.youtube.com/watch?v=pjiNMoh7L5Q 
Ver também Darcy Ribeiro na obra ''O Povo Brasileiro'': ''Só assim se explica, de resto, o próprio fenótipo predominantemente brancóide de base indígena do vaqueiro nordestino, baiano e goiano. Tais características têm sido interpretadas, por vezes, como resultado de uma miscigenação continuada com grupos indígenas dos sertões. A hipótese parece historicamente insustentável em face da hostilidade que se desenvolveu sempre entre vaqueiros e índios, onde quer que se defrontassem. Disputando o domínio dos territórios tribais de caçadas para destiná-los ao pastoreio e lutando contra o índio para impedi-lo de substituir a caça que se tornara rara e arredia nos campos povoados pela nova e enorme caça que era o gato, os conflitos se tornavam inevitáveis. Acresce que a suposição é desnecessária, porque partindo de uns poucos mestiços tirados das povoações da costa --e aos quais não se acrescentou nenhum contingente imigratório branco ou negro -- teríamos, natural e necessariamente, pelo imperativo genético da permanência dos caracteres raciais, a perpetuação do fenótipo original. Tudo isso parece ser verdade. A antropologia, porém, nega a história, mostrando a cabeça chata enterrada nos ombros, que não pode vir do nada. É inevitável admitir que, roubando mulheres ou acolhendo índios nos criatórios, o fenótipo típico dos povos indígenas originais daqueles sertões se imprimiram na vaquejada e nos nordestinos em geral. 

[5] Vide a influência do nheengatu como língua geral da América Portuguesa até o século XVIII, e que está na base de boa parte do modo de falar do ''caipira'': ''Caipira é aquele que fala o dialeto caipira. É português, mas com palavras tupi e sotaque da língua brasileira. A língua brasileira é o nheengatu, que existiu no Brasil até ser proibida por Portugal, no século 18. Seu nome parece coisa de índio, e é. O nheengatu incorpora a fala dos índios tupi, que ocupavam o litoral brasileiro. Na verdade, até hoje, quem se refere ao Ibirapuera, fica jururu, come abacaxi ou se pendura num cipó está se expressando nessa língua. Há algum tempo, quando o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso usou a expressão "chega de nhémnhémnhém", estava falando puro nheengatu. No Brasil Colônia, era falada fluentemente em uma grande área do País, que ia de Santa Catarina ao Pará. A elite também se expressava por meio dela, embora não em todos os setores. Durante os processos, o juiz dispunha de um intérprete. "Tivemos uma língua brasileira até o século 18", diz o professor José de Souza Martins, do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia da USP. "Só os portugueses, que eram estrangeiros, falavam português." A língua foi criada no século 16 pelos jesuítas, destacando-se o Padre Anchieta. O fundador de São Paulo era lingüista. Para se entender com os nativos, classificou o tupi e criou uma gramática da língua geral. Ou seja, o nheengatu. "Uma língua de travessia, não é português, nem índio, eram ambas", diz Martins. O português, nesse caso, era o que hoje chamamos arcaico. Convidava-se uma dona para uma função, em vez de uma senhora para um baile. E dizia-se coisas como agardece (agradece), alevantá e inorância. Os índios tinham dificuldade em falar palavras portuguesas como os verbos no infinitivo. E também palavras com consoantes dobradas (rr) ou terminadas em consoante. Além disso, colocavam vogal entre consoantes. Mulher, colher e orelha viraram muié, cuié e oreia. De sua dificuldade com o "erre", vem o "pooorta", reflexivo, com a língua tocando o céu da boca. Martins esclarece que "o dialeto caipira não é um erro, é uma língua dialetal". Mais do que isso: "É uma invenção lingüística musical e social." Os brasileiros viviam muito bem com ela, até que, no reinado de d. José I (1750 a 1771), Portugal a proibiu. O veto veio em um decreto do primeiro-ministro, o Marquês de Pombal. Bania o ensino do nheengatu das escolas. A decisão foi acatada nas salas de aula, mas o povo continuou falando no dialeto caipira. O tempo acabou por impor o português, mas o dialeto puro resiste. Ainda é falado em alguns pontos da fronteira com o Paraguai. E, em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, a 860 quilômetros de Manaus, uma lei de 2002 tornou o nheengatu língua co-oficial do município. Na contramão do decreto do marquês, determina que seja incentivado seu ensino nas escolas, e o uso nos meios de comunicação (o tucano e o baniva também se tornaram línguas co-oficiais). E ficou o "caipirês" da roça. Por essas bandas, ensina Martins, a língua se multiplica. "Quando o novo aparece, o caipira inventa, a partir da matriz da palavra, algo que tem sentido para ele." Há certo tempo, Martins e um grupo de estudantes apresentaram questões a algumas pessoas. Perguntaram a um homem: "Você concorda ou não concorda?" O homem não entendeu. A pergunta foi sendo repetida, sem sucesso, até que um dos estudantes mudou a forma: "Você concorda ou disconcorda?" Deu certo.'' [http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,sotaque-vem-do-nheengatu-a-lingua-brasileira,160205,0.htm]

terça-feira, 4 de março de 2014

Estanislau, o cara; ou: Aqui se faz, aqui se paga




A vida parece repleta de caprichos, às vezes angustiantes, outras vezes deliciosos, mas sempre surpreendentes. Em janeiro de 2009 Federer estava próximo de conquistar seu décimo quarto Grand Slam, empatando a histórica marca alcançada por Pete Sampras. Ele enfrentaria Rafael Nadal na final do Australian Open, e tinha na plateia alguns mitos do tênis e sua mulher, Mirka, que já se encontrava grávida. 

Nadal era um tenista um pouco diferente do atual. Seu saque era bem pior, sua esquerda ainda mais frágil, seu jogo muito menos variado e ainda mais baseado em altos balões [que lhe valeram o apelido de ''baloeiro'']. No entanto, para aqueles que não o viram na época, seu preparo físico, velocidade e resistência orgânica e mental eram ainda superiores, na verdade os melhores que já vi. O touro do tênis em seu período mais animal, uma besta maníaca que corria como um ''siri'' para todos os lados de modo a pegar até pensamento. Ele conseguiu levar o jogo para o quinto set, em que faltaram pernas a Federer, e impedir a consagração do suíço naquele momento. Durante a premiação, Roger foi às lágrimas. Depous de mais de quatro anos de incontestável domínio do circuito, a ficha caiu: ele percebeu que já não mais dominava, soberano, os destinos do esporte dos reis. 

Cinco anos depois, o mesmo palco e circunstâncias um pouco parecidas. Agora era a vez de Rafael Nadal entrar na quadra em uma final de Australian Open buscando o décimo quarto major, o empate com aquela mítica marca alcançada pelo ''Pistol''. E Sampras compareceu. Foi convidado pela organização do evento para a entrega do troféu. Os diretores do torneio, provavelmente, não imaginavam que houvesse qualquer chance de Rafa perder o torneio. Ele é o atual número 1 do mundo, e vem da temporada mais vitoriosa de sua carreira, na qual conquistou nada mais, nada menos que doze títulos. Poderia alcançar também um feito só realizado por outros dois grandes jogadores, ambos australianos, Roy Emerson e Rod Laver, grandes heróis da década de 1960, o segundo deles um respeitável senhor que dá nome à principal quadra do complexo tenístico de Melbourne. Eles haviam conquistado cada um dos Grand Slams ao menos duas vezes. Nadal, que já possui 2 US Open, 2 Wimbledon e impressionantes 8 Roland Garros, lutava pelo segundo título do Australian Open.

Dizia eu, ninguém poderia imaginar um resultado diferente. Casas de apostas davam um favoritismo de cinco pra um para Nadal. Pra quem apostasse em vitória suíça em 3 sets, pagavam até dezessete vezes mais. Dava até pra trocar de imóvel numa dessas. É que seu adversário, da mesma pátria de Roger Federer, já havia jogado doze vezes contra o espanhol e perdido todas. Pior ainda, nunca havia vencido um set sequer contra o ''Touro Miúra''. Como é que ia vencer três num dia só? Wawrinka nunca havia vencido um torneio Master sequer na vida, como é que tiraria o major de Nadal, o grande momento de glória do décimo quarto slam daquele espanhol tão difícil de ser batido? Logo ele, Wawrinka, mais um tenista de backhand simples, aquele golpe que sofre tanto com o topspin descomunal que Nadal possui. 

Mas aconteceu. Acontece. ''Stan the man'', ''Iron Stan''. Estanislau varreu Rafa da quadra no primeiro set e abriu uma quebra de vantagem no segundo. Foi quando o favorito sentiu uma contusão nas costas. O físico privilegiado, ao qual Nadal deve a maior parte de seu sucesso no tênis [e que tantas suspeitas levantam quanto ao uso de substâncias proibidas], incluindo aí aquela vitória de 2009 contra Federer, falhou diante do mundo, e impediu qualquer possível reação. 

No momento em que sentiu a contusão nas costas, a Rod Laver arena inteira duvidou. Rafa pediu atendimento médico no vestiário e, quando voltou, foi vaiado pela multidão. Ele merece a desconfiança da qual é alvo. Aqueles que acompanham sua carreira sabem que ele é capaz de pedir para ir ao banheiro no saque em que o adversário possui o match point, que ele encara os oponentes a fim de intimidá-los, que, seguindo a escola de Jimmy Connors, grita, fingindo garra e vibração, dando socos no ar enquanto pula, apenas para trazer o público juvenil para o seu lado e desconcentrar os rivais. Nadal simula contusões, tem dificuldades de dar crédito aos adversários quando perde, sempre está reclamando de algum problema que tornariam injustas suas derrotas. É o rei do ''migué'', da catimba e da auto-promoção. Não é à toa que recebeu o curioso apelido de ''drama queen''. 

No entanto, quando retornou à quadra ficou nítido que, dessa vez, o espanhol falava a verdade. Sua movimentação lateral e saque estavam comprometidos pela lesão na lombar. Nadal foi batido. Estanislau ainda titubeou na hora de sacramentar o título, duvidou, achou que estava sonhando, viajou na maionese, e entregou um set. [Eu o xinguei mais ali do que xinguei Nadal no momento do pedido de parada médica, exagerando nos dois casos.] Mas nada que impedisse o inevitável. A Suíça teve sua ''vingança'', embora da maneira mais improvável. Rafa também se emocionou na hora da premiação ao ver Sampras entregar o troféu do torneio não para ele, mas para Estanislau. 


E Estanislau é agora o tenista número um da Suíça. O número três do mundo. Um dos três únicos homens a bater Rafael Nadal numa final de major, ao lado de Federer e Djokovic. O primeiro sujeito, desde o distante ano de 1993, a vencer um Grand Slam batendo os números um e dois do ranking. Tudo isso aos vinte e oito anos e com um tênis clássico, de uma esquerda linda de levar lágrimas aos olhos de um Laver, de um Federer. De uma consistência e regularidade que nunca dantes havia apresentado. Com uma evolução em seu forehand, com uma maior diversidade de golpes [ele até usou slices, embora não tão bons, na semifinal contra o Berdych]. Iron Stan tem nervos de aço. Ninguém mais duvida, o resultado o prova, as fotos que correm o mundo revelam incontestavelmente: Estanislau é o cara.



segunda-feira, 3 de março de 2014

Casamento como via de união, ou: o caráter icônico do matrimônio cristão

Antes de começar a falar do sentido do casamento segundo a Ortodoxia convém esclarecer dois equívocos que vem se disseminando, inclusive em meios ortodoxos. Por causa do politicamente correto, ou então como forma de não desanimar leigos ou, quem sabe, até por verdadeira ignorância, pipocam aqui e ali afirmações de que não há hierarquia, no cristianismo, entre a vida celibatária, típica do monge, e a matrimonial. Isto é falso, os Santos Padres deixaram claro que o monacato trata-se de escolha por uma modo de existência superior, e o epíteto de ''via angélica'' por ele recebido expressa simbolicamente sua exaltada posição na fé Ortodoxa. A castidade é uma ascese que todo cristão deve levar à frente, seja ele casado ou solteiro, seja leigo ou sacerdote, viva no mundo ou em mosteiros, pois a luta cristã pode ser vista também como a reintegração do eros decaído e sua transfiguração em uma relação agápica em Deus e com Deus. O celibato, porém, é uma forma de castidade ou de via de reintegração pessoal que se inicia em um ponto mais elevado, aquele que reflete a androginia original adâmica, anterior à separação dos sexos, uma condição que, quando realizada, manifesta um aspecto do Reino, segundo as palavras do próprio Cristo, que ensinava que aqueles que o vivenciavam ''não se casavam nem se davam em casamento, mas vivem como os anjos do céu''. [1]

Outro equívoco, em um pólo contrário ao descrito acima, é o de pensar que o casamento nada mais é do que um estado voltado para a manutenção de certa relação entre os sexos com o objetivo da reprodução e perpetuação da família. É a perspectiva daqueles que nele vêem, fundamentalmente, uma dimensão social da existência sem maiores repercussões espirituais, senão somente aquelas implicadas no âmbito meramente moral. Afinal, pensam, se no Reino dos Céus não há mais casamento, segundo as palavras do Senhor, e se já no Éden Adão era um tipo de andrógino [2], que significado maior o casamento poderia ter senão o de gerar filhos no estado decaído? É importante frisar que não se trata aqui de negar que o casamento tenha também esta função já que após a Queda a reprodução humana tornou necessário o intercurso sexual. Mas o casamento cristão não visa oferecer uma legitimação religiosa, uma espécie de benção, para a operação dos homens nessa dimensão da natureza decaída apenas, como tampouco é uma concessão aos inaptos para a via celibatária, para aqueles que se consomem na luxúria, como se oferecesse a estes tão somente a função de perpetuação da vida 'natural'. O matrimônio cristão, pelo contrário, é um meio de transfigurar esta dimensão da reprodução 'natural' e social, inaugurada com o pecado ancestral, e de proporcionar meios para que os cônjuges superem essa esfera e nasçam em outra vida, em outra camada da realidade. [3]

O casamento se manifesta na ordem criada quando da separação dos sexos que, segundo muitos Padres, foi realizada por Deus em previsão do pecado ancestral. É possível também entender esta separação como reflexo no homem da comunhão de pessoas em uma só natureza que se dá em Deus: afinal, Eva era uma pessoa originada da pessoa e da carne de Adão, era uma outra hipóstase que comungava da mesma ousia. A separação dos sexos dividiu o homem em dois conjuntos psicossomáticos que são complementares em todos os sentidos, tanto em seus aspectos corporais, como também nos psicológicos, mentais e psíquicos [4]. O homem, porém, não permaneceu no estado edênico, situado entre a mortalidade e a imortalidade. O pecado ancestral desregrou as paixões dos nossos pais, dando origem a uma condição doentia que se perpetua ao longo das gerações. Como consequência, as faculdades psicossomáticas humanas tornaram-se desregradas. O Eros, que pode ser visto ou como uma das potências da psique, ou, de forma mais ampla, como uma faculdade síntese da alma, foi desvirtuado. Se no estado edênico ele fluía da mente para o corpo, passava agora a operar a partir deste último e autônomo em relação à Vontade, dando origem ao sensualismo e à luxúria, ao apego pelas coisas do mundo, à fragmentação e ''derramamento'' da psique, através dos sentidos, em um mundo agora objetificado. Associado a este processo, o homem foi revestido de ''vestes de pele'', sinal da animalidade e do corpo de carne [5].

A partir de então, homens e mulheres passaram a se buscar impulsionados pela memória da complementariedade original, a que, consciente ou inconscientemente, buscam por resgatar; pela necessidade de prazer sensorial e sentimental, manifestações típicas do novo estrato animal; e visando a reprodução da espécie e da sociedade, uma geração de novas hipóstases que reflete a Trindade Divina, mas agora manifesta por meio da perpetuação da vida animal [6]. O casamento,sobre o qual falava Senhor em sua resposta aos saduceus, que propuseram o suposto dilema que refutaria a possibilidade de ressurreição, atende a estes impulsos por meio da união sexual. E este é um ponto importante. Como vai ressaltar São João Crisóstomo, a cópula é condição sine qua non para a existência do casamento no mundo decaído. Ele faz notar as palavras de Cristo, que ensina que homem e mulher se tornam ''uma só carne''. Não se trata, portanto, de um união meramente fraternal, mas de uma comunhão a ser realizada fisicamente, por meio da conjunção erótica. É esta conjunção, transfigurada e sustentada pela graça sacramental recebida da Igreja e ligada a uma ascese de entrega mútua, que faz do matrimônio uma possibilidade de transcender a correnteza da mera perpetuação da vida mundana. [7]

A Encarnação do Verbo não apenas restaura como deifica a natureza humana, permitindo que, na Igreja, o matrimônio, operando a partir da união sexual -- patamar em que se colocou o Eros em sua queda --, possa elevar o casal na esfera do ser. São João Crisóstomo ensinou que o casamento é uma via mística que leva o homem não apenas de volta ao estado edênico mas também à contemplação dos mistérios da própria Trindade, tanto em sua economia como também em seu aspecto propriamente teológico. O santo Arcebispo de Constantinopla repetia que o casamento ''é um grande mistério''. Por meio dele, o Eros pode ser reorientado, através do amor aos entes criados, para a união agápica com Deus. A união física e sacramental dos sexos leva não só à reconstituição da androginia edênica, mas reproduz na vida do casal a encarnação do Cristo. São João Crisóstomo ensina que Theotokos é, ao mesmo tempo, filha, esposa e mãe de Cristo. Filha porque criatura, esposa por causa do noivado celeste [8] com o qual se comprometeu em relação ao Senhor, e mãe porque o gerou em sua própria carne -- e aqui se vê em espelho a criação de Eva a partir de Adão. Já segundo São Máximo o Confessor, a Encarnação é um processo de descida do Verbo em que o nascimento histórico de Jesus Cristo pode ser descrito quase que como uma etapa. A manifestação formal do entes é, segundo o mesmo Padre, uma outra dimensão da ''Encarnação'' do Logos. E a primeira delas se dá ainda acima disto, na própria geração dos logoi das criaturas nas energias da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Esta dimensão encarnacional está intimamente ligada à sacramental, pois o casamento reproduz a união hipostática de Cristo com a natureza humana, por um lado, e, por outro, a união mística com a alma do fiel por meio do sacramento eucarístico. Ainda nessa linha, o casamento reflete a própria fundação da Igreja quando, na cruz, Cristo é lanceado no coração, do qual verte sangue e água [9]. Aqui temos mais um espelho, como no caso anteriormente citado da concepção de Cristo na Toda Santa e Pura Mãe de Deus, do nascimento de Eva do lado de Adão. Não é à toa que a eclesiologia é toda ela marcada pelo arquétipo matrimonial, através do qual Cristo é associado ao homem e a Igreja à mulher, de modo que o casamento reproduz em uma escala micro a Nova Criação, em que o Verbo reúne em torno de Si os diferentes entes, vivificando-os e deificando-os com Suas energias, um verdadeiro organismo teândrico. Sintetizando todas estas considerações, São João Crisóstomo vê na união matrimonial o ícone da própria economia divina. Assim como o Pai envia o Filho ao mundo [que, por outro lado, é uma expressão dos próprios logoi criados nas energias do Verbo] para se unir hipostaticamente à natureza humana, santificando-a e deificando-a no organismo teantrópico da Igreja; assim também o homem deixa a sua própria casa para se unir em carne a uma mulher, da qual será mística e moralmente a cabeça, santificando e deificando-a, e ela, assim unida ao seu marido, será para ele seu corpo através da obediência, ou seja, da ligação de sua vontade à vontade dele [10]

O caráter icônico do casamento permite que, por meio da união sexual, do sacramento e da ascese, homem e mulher contemplem e vivenciem, em sua relação e existência como casal, todas estas esferas de realização, chegando até mesmo, mais uma vez segundo São João Crisóstomo, no vislumbre da processão do Espírito a partir da Hipóstase do Pai, do qual a criação de Eva do lado de Adão seria também imagem [11], e a da geração do Filho a partir do Pai, da qual a relação do homem como cabeça da mulher seria a imagem [12]. Estamos cá muito longe daqueles que pensam que o casamento cristão, e sua dimensão sexual, foi instituído apenas para a geração de filhos, como se para isso fosse necessário qualquer sacramento. O casamento é, primordialmente, uma via de união.


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[1] Segundo São Teófono de Poltava, o Novo Recluso, ''é necessário, antes de tudo, estabelecer o entendimento correto do casamento em princípio, e só então examinar a questão de um ponto de vista prático. Há dois pontos de vista extremos a respeito dessa questão que são incorretos em princípio: aquele que considera o casamento como um mal e aquele que abole completamente a diferença de mérito entre o casamento e a virgindade. O primeiro extremo é encontrado em muitas seitas místicas, o segundo é uma opinião geralmente aceita no Ocidente protestante, a partir de onde tem penetrado na literatura ortodoxa. De acordo com este último ponto de vista, os modos de vida matrimonial e virginal são definidos simplesmente por características individuais de um homem, e nada especial ou exaltado é visto do caminho virginal em comparação ao estado marital. Em seu tempo, o Bem Aventurado Jerônimo refutou minuciosamente este ponto de vista em sua obra ''Dois livros contra Joviniano''. O ensinamento positivo da Igreja é belamente expresso por São Serafim nestas palavras: ''o casamento é bom, mas a virgindade é melhor!''[...]''

[2] O homem foi criado ''macho e fêmea'', ou seja, completo sexualmente. Andrógino aqui não significa, claro, alguma forma de hermafroditismo, até porque as características sexuais secundárias não existiam no estado edênico, e sim posse plena das energias e qualidades masculinas e femininas.

[3] Na concepção cristã, as duas funções mais básicas do casamento são, em ordem de importância, evitar a fornicação e a de gerar filhos. No entanto, estas funções não se opõem àquela mais alta, e que será exposta a seguir.

[4] Uma perspectiva muito diferente de movimentos contemporâneos que pensam que a única diferença natural entre homens e mulheres se daria nos órgão sexuais. Os Padres ensinam, inclusive, que no Éden os órgão sexuais não estavam ainda manifestos; o sexo transcende este aspecto, porém, ele se enraíza em todos as dimensões da vida individual, de modo que não é equivocado, em certa medida, falar de uma natureza masculina e uma natureza feminina.

[5] É ensinamento consensual dos Padres, com a exceção de Santo Agostinho, de que não havia cópula sexual no Paraíso. Somente a partir das ''vestes de pele'' que a reprodução humana se deu a partir destes parâmetros. O que não implica que não pudesse haver a geração de novas pessoas humanas no estado edênico. O meio pelo qual Eva foi criada não implicou cópula sexual, por exemplo. O modo de criação de Eva a partir do lado de Adão é uma imagem de grande poder e mistério, um ícone matrimonial que é tido por reflexo de realidades superiores, como veremos a seguir.

[6] Segundo São Simeão de Tessalônica, ''Deus não queria que nossa origem fosse irracional e da semente e impureza. Mas dado que nos tornamos mortais voluntariamente, Ele permitiu que a reprodução da raça se desse como a dos animais, para que soubéssemos a que ponto caímos''. 

[7] Desse modo, por mais meritório que possa ser uma união que se dê sem união sexual, ela não é, propriamente falando, um casamento. A idéia de ''casamento virginal'' é uma imagem da união entre Adão e Eva no Éden, e do noivado celeste e místico, que, por sua vez, é uma expressão da união entre Deus e Theotokos, mas não é a isto que o casamento propriamente dito se refere, como implicado nas palavras do próprio ofício da coroação: ''Una-os em uma só mente e os coroe em uma só carne''. 

[8] O Noivado Celeste é a aplicação do arquétipo do casamento à própria vida virginal. Desse modo, o princípio que rege o casamento está também presente no celibatário.

[9] Ensinamento de São João Damasceno.

[10] Aqui se encontra expresso o caráter ascético do casamento, sintetizado no ato do amor, em sua dimensão física e espiritual. Homem e mulher entregam sua vida um ao outro, como Cristo e Igreja se entregam um ao outro. A Igreja por meio da submissão de sua vontade, Cristo por meio da transmissão deificante de sua vida, seu sangue e sua divindade. No campo corporal, esta entrega é explicada por São João Crisóstomo pela noção de que o marido e mulher não tem mais posse de seu próprio corpo. O corpo do marido pertence à mulher, e o da mulher ao marido.

[11] Segundo os Padres, o sono profundo que Deus enviou sobre Adão quando da criação de Eva não é o sono tal como o conhecemos no mundo decaído. Santo Irineu de Lyon ensinava que este tipo de sono não existia no estado edênico. Na Septuaginta, a palavra hebraica é traduzida por ''êxtase'', com o duplo sentido de ausência de sentimentos e de sonho estático. Este sonho estático de Adão, também chamado de ''sonho profético'' segundo Santo Efraim o Sírio, foi, segundo Santo Agostinho, um tipo de transe que lhe permitiu contemplar a realidade de um ponto de vista mais elevado e profundo. Nesse estado, ele contemplou Eva dentro de si. Em virtude disto, tanto São Clemente de Alexandria quanto São Jerônimo chamam Adão de ''profeta''. Mas a palavra êxtase também é usada aí, segundo São Metódio do Olimpo, com o sentido de união sexual. A criação de Eva, a diferenciação dos sexos, foi, também, o primeiro ato sexual, de modo que ela é filha e esposa de Adão; de um modo similar, Theotokos será mãe e esposa de Cristo.

[12]Figura do Princípio hierárquico e da articulação das diferentes qualidades em torno da Vontade/Intelecto, ou do 'Eu'.



domingo, 2 de março de 2014

Sobre o fim do indivíduo e da liberdade

Na pólis grega, a esfera privada do homem, associada às famílias e 'clãs', era considerada quase que com uma expressão da vida animal, um terreno gerado pelas necessidades vitais de reprodução e sobrevivência, comuns a todos os homens, em que não havia justiça nem liberdade possível. Era uma dimensão da vida determinada pela violência e pela autoridade, exercida por um patriarca com poderes quase ilimitados sobre os seus e que, apesar disso, não era considerado livre no exercício dessa função. Somente alguns poderiam transcender esta esfera de modo a adentrarem um novo modo de existência, associado à vida política e à companhia de seus pares para o tratamento de temas ligados ao bem comum. 

Bem comum, e não vida comum. Esta última era ordinária, nada possuía de especial, impulsionada que era pela natureza mais baixa, mais passional, decorrente de uma ordem que se impunha aos homens. Somente aqueles capazes de vencer nessa esfera poderiam ascender a uma dimensão onde era possível tratar da Justiça, através das leis que regiam a vida cidadã da cidade, e do Bem, sendo capazes, segundo Arendt, de exercerem ação verdadeira. Nesta esfera não existia a autoridade, mas uma liberdade que tomava a forma extrema da igualdade entre os cidadãos, cujo instrumento era a do discurso persuasivo. Mais ainda, só aí  era possível falar de real individualidade, singularidade, alcançada por aqueles que se destacavam na política pelo discurso e em meio aos seus pares. Esta perspectiva estava evidentemente associada à possibilidade do heroísmo, profundamente arraigada na mentalidade grega desde priscas eras. A cidadania esteve sempre associada aos guerreiros e à virtude da coragem. O cidadão, o guerreiro que havia sido vitorioso na esfera privada, não apenas havia ultrapassado a mera luta pela sobrevivência, mas devia, por isto mesmo e como marca dessa real superação, ser uma desapegado da própria vida. Nesta condição participava da comunidade política e da Ecclesia. É nesta clave de sacralidade e via heroica que se entende o apego dos cidadãos gregos pela liberdade. Ela era o salto de uma sacralidade natural, e que continuava praticamente intocável, para outra sacralidade, de natureza fortemente aristocrática, que se expressava por meio da comunidade política de guerreiros-cidadãos aptos a aplicar a palavra com outro grau de eficácia, e que possuíam plena consciência que sua igualdade repousava em um mundo necessariamente desigual.

Retirados do contexto que lhe conferiam sentido, certos conceitos desse modo peculiar de organização nada podiam senão gerar distorções, falsidades e anacronismos. A liberdade no mundo contemporâneo não era um espaço dos que, ultrapassando o mundo legítimo do exercício da autoridade e violência, se posicionavam em nível a ele transcendente, mas era pensada como um locus de proteção contra a intervenção do Estado, cuja estrutura ainda refletia uma forma aristocrática contra a qual as novas forças, de natureza e visão predominante vaysha, e moldados pelo naturalismo e mecanicismo modernos, se insurgiam, visando a sua derrubada. O modo de levar à frente a rebelião contra essa noção hierárquica foi a bandeira de uma igualdade que só poderia ser fundamentada naquilo que havia de mais geral entre os homens, justamente a vida comum da esfera da sobrevivência e reprodução sociais, principalmente em seu âmbito econômico, também tipicamente associada, em suas dimensões mais profundas, à casta vaysha. A própria noção de indivíduo, que já vinha sendo transformada nos séculos anteriores, foi nivelada com a de um ente racional movido para a satisfação de seus interesses próprios, e o logos foi tornado em uma razão instrumental e abstratizante cuja função foi apropriada pelos donos do Estado. Os mitos de fundação do Estado, por sua vez, legitimavam as novas concepções, tornando-o em uma associação deste novo tipo de indivíduo, e, portanto, instrumento da administração e proteção destes seus interesses. 

O mundo que emergiu destes novos elementos não reabilitou a liberdade nem tampouco a política, mas a submergiu no campo social-comportamental, que funciona a partir de máscaras e papéis funcionais e associativos, tornando a esfera do ''aparato político'' e da ''burocracia'' na administração coercitiva de um grande oikos. A vida privada anterior invadiu e substituiu o espaço público, se confundindo com ele, associando-o com a obediência a autoridades constituídas e associadas a um tipo de monólogo técnico-científico ligado à satisfação daquilo que no homem mais o aproxima da existência animal. Era a imposição do homo economicus e a invasão das paixões na esfera ''política'', cuja função agora é regulamentá-las. O outro pólo desse mundo social que quase a tudo penetra foi aquele gerado no mundo moderno e apurado cada vez mais no decorrer dos séculos: o da intimidade subjetivista com o qual alguns filósofos iluministas, idealistas e românticos confundiram a possibilidade de singularidade, individualidade e integração da personalidade humana, e para a qual foi empurrada a anterior ideia de bem. Uma pseudo-identidade que, em seu caráter desintegrador, funciona apenas para parir desejos que alimentarão ainda mais o mundo social, adestrador e normatizador de comportamentos.

Na perspectiva aristocrática, heroica e sacra da Grécia Clássica, o mundo contemporâneo que nascia e crescia seria descrito tão somente como uma manifestação bárbara, como uma grande comunidade de escravos. A civilização nascente, em um processo descrito por Norbert Elias, se tornou definitivamente a anti-civilização. Quando Gramsci afirmou que o indivíduo começou a morrer com o mundo clássico e que a civilização contemporânea fez nascer o homem-massa, cujo triunfo seria condição sine qua non para o socialismo, nada mais fazia senão descrever a nova realidade com perspicácia muito maior que as ficções do individualismo liberal.




sábado, 1 de março de 2014

A Ucrânia é uma Rússia

Acabo de ler notícia da BBC dando conta que o presidente Vladimir Putin pediu permissão ao Parlamento para usar tropas na crise ucraniana, de modo a preservar vidas de cidadãos russos. [http://www.bbc.com/news/world-europe-26400035] Eu tinha certeza de que a Rússia interviria no vizinho de alguma maneira, a fim de desestabilizar qualquer governo pró-OTAN que lá se estabelecesse. Mas não estava tão certo se ocorreria uma interferência direta. Para isso seria necessária ainda mais coragem do que aquela demonstrada no causo da Geórgia, mais especificamente Ossétia e Abkhazia. Bom, coragem não parece faltar ao presidente russo, pra alguma coisa lhe serve ter origem na KGB. A justificativa que está sendo usada pela Rússia, por sua vez, era bastante óbvia. Mais de vinte milhões de russos vivem nos países do antigo entorno soviético, e na Crimeia, uma das regiões mais ricas da Ucrânia, são inclusive maioria. As explicações oficiais para a intervenção na Geórgia também partiram daí. 


Mas o que está ocorrendo na Ucrânia?



A Ucrânia é hoje, em vários sentidos, o centro do mundo. A situação é bastante complexa por um lado e de uma simplicidade meridiana por outro. Temos um presidente eleito cujo governo de merda e corrupto criou uma tremenda insatisfação popular. A população está nas ruas exigindo, em parte, mudanças no governo, e em parte, uma mudança do próprio governo. Esta população se divide em filo-liberais, forças ocidentalizantes, partidários da União Europeia, russófobos, russos étnicos e filo-russos, partidários da herança eslava, uniatas, ortodoxos que pretendem uma separação do Patriarcado de Moscou, ortodoxos fiéis à Igreja, anti-ocidentais, socialistas, nacionalistas de todos os tipos incluindo movimentos de terceira posição que sonham com algum tipo de isolacionismo e autonomia ucraniano. Mas, de fato, todo este caos, com ou sem a intenção de seus diversos agentes, não passa do cenário para uma disputa geopolítica pelo destino da Ucrânia e pelo controle da Eurásia. Os Estados Unidos e seu braço armado, a OTAN, pretendem, com ou sem a União Europeia, manter e aprofundar sua hegemonia, expandindo-se para o leste, criando mais um Estado títere em uma região vital em termos políticos, se possível expulsando de vez a presença militar russa da Crimeia e dando um xeque mate no país em termos geoestratégicos. A Rússia, que nasceu de fato em Kiev, visa sobreviver ao cerco, sendo vital para isso sustentar sua presença política, militar e demográfica em seu entorno histórico direto, ou seja, pelo menos no leste industrializado da Ucrânia, região que possui armas nucleares, milhões de russos étnicos e um frota de navios estacionada próxima a Sebastopol. Não há ''futuro autônomo'' para a Ucrânia sem que se leve em conta estes dois pólos, e quem pensa que há está apenas se iludindo. Ou o país cai no colo do Oeste, tornando-se títere de tropas que apontarão mísseis para a Rússia a partir de uma posição estratégica em pleno coração eurasiático, ou o país manterá os laços históricos que o unem à civilização russa, sendo a vanguarda de resistência à expansão da OTAN. A terceira opção é a divisão do país entre os dois lados após uma sangrenta guerra civil com intervenção maciça, ainda que nem sempre direta, de países estrangeiros. Ou seja, balcanização da região.




A Ucrânia é, histórica e culturalmente, uma Rússia. Foi lá que nasceu, no século X, o primeiro Estado russo, a Rus' de Kiev, que se expandiu para Oeste e leste organizando em torno de si as etnias da região, fossem ou não eslavas. A partir do século XII, Kiev sofreu concorrência de outros principados russos, e, depois, todos eles foram invadidos e dominados pela Horda Dourada. Depois que esta foi expulsa, a Ucrânia sofreu conquista ocidental, germânico-polonesa, da qual se viu livre pelas vitórias russas. Raramente o país foi autônomo ou possuiu fronteiras definidas. Sua religião, seu alfabeto, seus costumes, seu folclore, sua visão de mundo são tão russos quanto os dos demais russos. Falar, portanto, de ''opressão russa'' nesse causo é totalmente dissonante com a realidade. Milhões de russos que vivem na Ucrânia, e milhões de ucranianos, ainda que não russos, desejam manter vínculos com sua herança histórica e a aliança estreita com a civilização russa. A novidade aí está na existência daqueles que pretendam uma ruptura e transformação profunda nessa herança e vínculos, redefinindo a identidade ucraniana através de uma ''russofobia'' totalmente ridícula. Os soviéticos sacanearam a Ucrânia? Também não foram bonzinhos para os russos, e Stalin era georgiano. O que os soviéticos tinham, na verdade, era justamente aquilo que os russófobos querem perpetuar, uma busca por romper com a raiz do próprio país e se ajustarem a esquemas de pensamento e vida nascidos e exportados pela Europa.


Em tempo: antes que me acusem, não sou contra uma Ucrânia independente. Só tenho a plena consciência de que isso é incompatível com a ocidentalização do país e sua submissão à OTAN. 

O ''Baby Federer'' não é o Federer, mas também já não é mais bebê

Grigor Dimitrov sempre foi um sujeito intrigante. Ainda juvenil o cara recebeu o apelido de ''Baby Federer'' por causa de um treinador que, numa tremenda propaganda, afirmou que ele era mais talentoso do que Roger na mesma idade. Claro que as expectativas em cima do rapaz estouraram; afinal, ele tem muita mão mesmo e um estilo clássico que em tudo, até mesmo na preparação do saque e na postura de recepção do serviço adversário, lembra o do suíço. Mas no circuito não basta parecer, tem de ser. E o garoto se destacava mais pelo sucesso fora das quadras do que por resultados convincentes. Todo o carisma que o jovem tenista búlgaro demonstrava entre musas do esporte -- mal saído das fraldas, o sujeito conquistou o coração de Serena Williams e, depois, o de ninguém menos que Maria Sharapova, com quem mantém um relacionamento sério e de quem já ganhou até carro do ano -- se transformava em uma tremenda falta de, como dizer, testosterona nos jogos que valiam alguma coisa. O rapaz não tinha resistência física, chegava a ter cãibras em jogos de três sets. Pior ainda, quando topava com um ''cachorrão'' do circuito tremia na hora 'h', aquela que separa os meninos dos homens, a hora da onça beber água e de fechar sets e jogos. Nestes momentos, ele conseguia fazer duas, três e até quatro duplas faltas no game decisivo. Apesar da ira que me causava nas ocasiões, eu gostava de ver jogos do sujeito. Porque o filho da mãe joga bonito em um tempo em que o tênis, por vários motivos, vem se tornando atlético demais e plástico de menos. 

Ano passado, apesar das amareladas, o búlgaro aprontou pra cima de gente graúda. Quase tirou Rafael Nadal do Master de Monte-Carlo, e eliminou ninguém menos que Novak Djokovic de Madri. Não é pouca coisa, já que se tratam dos dois jogadores dominantes em quadras de saibro, superfície em que são jogados os tais torneios. Finalmente, lá pro fim do ano, aos vinte e dois anos, ''Baby Federer'', que a essa hora todos sabemos que não é um Roger 2.0, conquistou seu primeiro título. E o que parecia auspicioso para a temporada de 2014 está se tornando realidade diante dos olhos de todos. Dimitrov começou o ano com tudo, complicando a vida de Nadal no Australian Open. E hoje, senhoras e senhores, mostrou pro circuito carteira de identidade e gritou ''mulheres, cheguei!'' Não para as tenistas, que, afinal, parecem simpatizar com ele de todo modo. Mas para as peludinhas que quicam pelas quadras, rápidas e faceiras, enquanto os tenistas se torcem e contorcem atrás delas. O jogo de hoje contra Andy Murray em Acapulco mostrou definitivamente que o ''namorado de Sharapova'' está pronto pra vencer qualquer um. 

Não é à toa que fiquei acordado até agora pra conferir essa peleja da madrugada. Não me arrependi. Murray está voando. A capacidade de defesa que ele vem demonstrando no fundo da quadra só tem paralelo hoje em Djokovic, e parece maior até do que a de Rafael Nadal. São estilos de defesa diferentes, por certo, pois tanto o sérvio quanto o espanhol correm mais de lado, mostrando um jogo de pernas melhor, enquanto o britânico parece ter mesmo é um motor no traseiro que o faz correr de um lado pro outro como se fosse o Usain Bolt. Mais ainda, o saque do Murray e a intensidade nas trocas da linha de base estão um colosso. Lá pro décimo game do segundo set, as estatísticas mostravam que ele havia vencido todos os pontos jogados com o segundo saque e mais de noventa por cento daqueles que jogou com o primeiro. Incrível? Pois é, e Dimitrov venceu esse set! Não preciso dizer mais nada, ou preciso? Preciso. Pelo menos tenho de chamar a atenção pra uma questão. Aquele tenista que demonstrava pouca resistência física quando tinha pela frente aquele o estilo tão atual de tenista top que corre como um louco e troca trinta bolas por ponto parece ter desaparecido também. A cereja do bolo foi ter visto hoje que Murray cansou antes de Dimitrov, sentiu mais a intensidade da batalha que o búlgaro. Pontaço de Roger Rasheed, a quem o [gordo] Tsonga dispensou justamente por ser um treinador que coloca o pupilo em forma e o faz correr pra cima de todas as bolas.

ps.: E o Federer, o primeiro e único, ressuscitou. O terrível ano passado...passou. Venceu Djokovic em Dubai elevando o nível de seu jogo com o decorrer da partida e vai decidir mais um título em sua vitoriosa carreira. Se confirmar, se torna, sozinho, o terceiro maior vencedor de torneios da ATP, atrás apenas de Ivan Lendl e do recordista Jimmy Connors. O estilo que Federer vem colocando em quadra também está bem diferente do da temporada anterior, quando tentou se fixar mais na linha de base. Roger está agressivo, partindo pro ataque, o que nos permite ver todo o maravilhoso arsenal de que ele dispõe. Está subindo muito à rede, bem diferente da temporada de grama do ano passado, e inclusive usando e abusando do chip and charge. E sem deixar de lado a impressionante capacidade de variação e de improviso que possui. A nova raquete também tem ajudado muito, melhorando a potência de seus golpes. E o saque, definitivamente, voltou, sinal de que os problemas nas costas resolveram dar uma trégua por enquanto. Nem tudo são flores, claro: a devolução de saque na esquerda ainda tem de melhorar muito. Mas assistir seus jogos tem sido um maravilha. E o estilo ofensivo que Federer adotou, provavelmente visando o título de Wimbledon, tem também um dedo de seu novo treinador, o grande Stefan Edberg, uma parceria que parece ter muito mais 'liga' do que a de Boris Becker e Novak Djokovic.

Na foto,  Dimitrov no maior love com Sharapova.