sábado, 11 de janeiro de 2025

Dugin, o novo Olavo?, ou: O Ocidente como salvação da Quarta Teoria Política

 "O ontem do Ocidente preparou o hoje do Ocidente como um Ocidente Global. Os valores ocidentais de ontem, incluindo o cristianismo ocidental, prepararam os valores hipermodernos de hoje. Pode-se rejeitar esse último passo, mas o passo precedente, que vai na mesma direção, não pode ser considerado uma alternativa séria."


Dugin, "Os EUA e a Nova Ordem Mundial, um debate entre Alexander Dugin e Olavo de Carvalho"




Há anos Alexander Dugin tem mitigado suas teses para adequá-las ao trumpismo e à ascensão chinesa. As reticências em relação à nova superpotência e a preferência por um polo geopolítico extremo-oriental centrado no Japão tiveram de ser deixadas de lado por causa da dependência cada vez maior da Rússia em relação a Xi Jinping.


Já a primeira eleição de Trump forçou uma modificação radical em sua Quarta Teoria Política, que agora desvinculava um suposto Liberalismo 1.0, representado pelas novas forças hegemônicas no Partido Republicano, de um Liberalismo 2.0 que ele clamava ser ''inimigo de qualquer liberdade'' e que identificava com o Partido Democrata na figura de Biden.

Esta semana, Dugin deu um passo além. Depois de vociferar por anos que o Ocidente era não só uma civilização de trevas mas o próprio Anticristo em marcha, o ideólogo cindiu o conceito a fim de acomodar a aliança Trump/Musk. O russo escreveu em sua conta do X:

"De um ponto de vista russo, parece [existir] algo como o "Ocidente coletivo". O comportamento do Ocidente (EUA, UE, OTANlândia) durante a época de Obama, neocons e Biden, e a maioria dos líderes da União Europeia confirmam isto. Mas agora a figura mudou drasticamente. Existe o Ocidente e o Ocidente. O Ocidente número 1 é o do monstro globalista liberal. Mas surgiu o Ocidente número 2. O Ocidente-MAGA. Há portanto duas entidades, não somente uma. E assim o termo "Ocidente" não é mais correto. Ocidente-MAGA vs Ocidente-Monstro. Mas este monstro tem de ter outro nome. Starmer-Macron-Trudeau-Scholz são partes do monstro, mas apenas órgãos, apenas sua interface. As estruturas de Soros são seu sistema nervoso. Mas há algo ainda mais sinistro e horrível por trás da cortina. Algo que mantém unidos todos os elementos do Ocidente-Monstro. E tem tem de ter seu próprio nome."


["From Russian point of view it seemed something like “collective West”. Behaviour of the West (US, EU, Natoland) during Obama, neocons, Biden epoch and most of EU leaders confirmed that. But now whole picture is drastically changed.There is the West and the West. West number one is that of globalist liberal monster. But there appears West number two. MAGA-West.Hence the are two identity not just one. So the name “West” is not correct one any more. MAGA-West vs Monster-West. But this monster should have another name. Starmer-Macron-Trudeau-Scholz are parts of monster but just organs, just interface. Structures of Soros is nervous system. But there should be something more sinister and horrible behind the curtain. Something that holds all the elements of Monster-West together. It has to have proper name. "

Fonte: https://x.com/AGDugin/status/1876897209611944323]

Desse modo, o movimento trumpista [Make America Great Again] e Ellon Musk já não podem mais ser considerados como a civilização do Anticristo. Trata-se de um Ocidente em guerra contra o próprio Anticristo, o Monstro sem nome de Dugin. As teses do filósofo se aproximam da percepção defendida por Olavo de Carvalho há cerca de vinte anos. O brasileiro via os EUA como uma trincheira de guerra cultural e também apostava no imperialismo ianque como salvaguarda do Ocidente verdadeiro. Dugin expôs aquilo que pensa ser a natureza do ''Ocidente-MAGA":

"As políticas do MAGA no cenário internacional tal como ganham forma exatamente agora na campanha de Musk contra o governantes globalistas na União Europeia confirmam objetivamente a criação de uma ordem mundial multipolar. Claro que a ideia é reorganizar a hegemonia ocidental em uma base diferente. Mas desta a vez a base é a identidade ocidental -- com os EUA no centro, e Europa e Austrália como satélites. O núcleo da civilização branco moderno, majoritariamente cristão, desenvolvido tecnologicamente. Todo o restante é periferia de menor importância. A Rússia é esquecida (não é mais o inimigo número 1). A Índia substitui a China. A China, o mundo islâmico, a África e a América Latina são dor de cabeça. Eles devem ser neutralizados de algum modo, reduzidos a seus âmbitos históricos. A imigração no Ocidente deveria ser regulada e controlada com assimilação e integração a partir da aceitação da identidade ocidental. O Ocidente para os ocidentais e aqueles que sinceramente partilham de seus valores. Esta estratégia se opõe quase em tudo aos liberais e aos globalistas. Ela leva, talvez a despeito de seus arquitetos e construtores, à multipolaridade -- os não ocidentais começam a reorganizar suas próprias civilizações. O trumpismo em Relações Internacionais é a reorganização da hegemonia ocidental com fundamento no liberalismo de direita e na identidade ocidental. Mas a preocupação principal é a América, a doutrina Monroe, a expansão meridiana e a consolidação da Europa inscrita na zona direta de influência americana. É a nova versão do realismo ofensivo, um tipo de imperialismo americano. Objetivamente, facilita a formação de outros polos civilizacionais que não estão incluídos no núcleo ocidental. Algo como o sugerido por Huntington."

[fonte: https://alexanderdugin.substack.com/p/the-trumpism-in-ir-is-reorganisation]



Em termos geopolíticos, a abordagem é condizente com algumas das alternativas construídas por Dugin em suas publicações geopolíticas mais recentes. No livro "Eurasian Mission" [2014], o ideólogo russo já mostrava seu apreço por esta solução:

"Os planos eurasianos para o futuro presumem a divisão do planeta em quatro cinturões geográficos verticais, ou zonas meridianas, do Norte ao Sul. Ambos os continentes americanos vão formar um espaço comum orientado e controlado pelos EUA segundo a arquitetura da Doutrina Monroe. Esta é a zona meridiana Atlântica. Em adição, três outras zonas estão planejadas. Elas são as seguintes: Euro-África, com a União Europeia em seu centro; a zona Rússia-Ásia Central; a zona do Pacífico. É no interior destas zonas que se darão a divisão do trabalho e a criação de áreas de desenvolvimento e corredores de crescimento. Cada um destes cinturões (zonas meridianas) contrabalança a outra, e todas elas justam contrabalançam a zona meridiana. No futuro, estes cinturões serão o fundamento sobre o qual vai ser construído um modelo multipolar de mundo: vão existir mais de dois pólos, mas seu número será muito menor do que o número de Estados-Nações. O modelo eurasiano propõe que sejam quatro.

[fonte: https://andreluizvbtr.blogspot.com/2022/05/dugin-depois-de-foundations-ou.html]


Em 2017, primeiro ano do primeiro mandato de Trump, Alexander Dugin escrevia em "Rise of the Fourth Polytical Theory":

"Se três “Grandes Espaços” estão aptos para uma expansão, de modo a se tornarem “Impérios”, “Reichs”, então a expansão americana, que clama atualmente um escopo universal e global, terá de se contrair. Para que os EUA retornem à versão original da “Doutrina Monroe”, para que se torne de novo um “Grande Espaço” e um “Império”, é sua influência deve ser apreciavelmente diminuída. Esta análise demonstra que a teoria dos “Grandes Espaços”, de Carl Schmitt, como expressão gráfica de todas as construções da Quarta Teoria Política, é a plataforma mais segura para um mundo multipolar, o anti-globalismo, o anti-americanismo e a luta de libertação nacional da dominação global americana.

[fonte: fonte: https://andreluizvbtr.blogspot.com/2022/05/dugin-depois-de-foundations-ou.html]


A "expansão meridiana" como a afirmação de um império americano mais restrito e calcado na Doutrina Monroe e na influência na "Europa atlantista'' é uma agenda inscrita na militância de Dugin há pelo menos dez anos. Seria possível voltar até mais no tempo para flagrá-la em sua proposta de ''mundo quadripolar".

Daí se entende a comemoração efusiva do intelectual russo com a vitória de Trump no fim do ano passado. Em 6 de novembro de 2024, Dugin declarava que o resultado das eleições norte-americanas era a vitória final da multipolaridade, o que não deixa de ser irônico para um evoliano anti-democrata que identificava a América com os infernos:

"Então vencemos. Isso é decisivo. O mundo jamais será o mesmo de novo. Os globalistas perderam seu combate final. O futuro finalmente está aberto. Estou realmente feliz."

[So we have won. That is decisive. The world will be never ever like before. Globalists have lost their final combat. The future is finally open. I am really happy.]



Dugin repete mais uma vez que o novo mundo multipolar de potências imperialistas coloca fim à era dos Estados Nacionais. É verdade que distintas civilizações tem o direito às suas próprias articulações culturais e identidades, mas a soberania de fato pertence só aos polos geopolíticos. Em 7 de janeiro, o russo publicava no X:

"A Ucrânia está totalmente esquecida agora. O mundo em que estamos entrando agora não reconhece nem o Canadá nem a Ucrânia. O mundo multipolar, só existem verdadeiramente grandes poderes soberanos."

[fonte: https://x.com/AGDugin/status/1876753078583500885]

Para além do sabor olavético e das semelhanças com a perspectiva do ex-chanceler Ernesto Araújo, a perspectiva duginista tem consequências óbvias para os países que estão fora da ''festa'' das grandes potências militares. Eles deixam de ter, Brasil incluído, ''direito'' ao reconhecimento de sua soberania nacional. Na multipolaridade de Dugin, a Ucrânia e o Canadá só tem direito à existência como quintal de alguma grande potência. Para os demais povos americanos, as propostas de Dugin representam não só Doutrina Monroe, mas também Big Stick. Para ele não há problema algum, é apenas a consequência exata de sua agenda, em que a Rússia se vê livre da pressão atlantista e com carta branca para reconstruir seu espaço geopolítico imediato.

Como escrevi ao longo dos últimos três anos, a agenda duginista é uma tentativa de recuperar o mundo anterior à Primeira Guerra Mundial. Quando o ideólogo fala de combater o ''liberalismo 2.0" e o "Ocidente-Monstro", pretende apenas recuperar a ordem liberal moderna dos grandes impérios oitocentistas que competiam sem freios pelo domínio dos demais povos. Está tudo bem, desde que seja tudo feito em nome da "Tradição" e não do ''progressismo''.

Este mundo seria uma derrota para o globalismo, avisa Dugin. Mas é um mundo satisfatório para o Brasil e demais nações do Sul Global? A multipolaridade de Dugin é liberdade para o Império russo, mas para a América Latina é a nova forma de um velho aguilhão.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

AINDA ESTOU AQUI [2024]

 

Em novembro passado, escrevi no meu Facebook sobre "Ainda estou aqui", filme que proporcionou à Fernanda Torres o Globo de Ouro de melhor de atriz. Recupero o texto.


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Assisti "Ainda estou aqui'' e vai ter spoiler na postagem.

O filme é uma aula de reconstituição de época, cinematografia, direção e também de atuação [não só de Fernanda Torres, mas também de Selton Mello].

O contexto político está subentendido mas nunca passa à frente do drama do desparecimento de Rubens Paiva e das consequências que ocasiona para a família e amigos. É como se o Paraíso, representado de forma magnífica pela vida idílica e rica no Leblon, e pela adolescência no fim dos anos 1960, é como se o Paraíso, dizia eu, fosse perdido pouco a pouco.

Essa vida perfeita e fascinante tem sempre o perigo da ditadura rondando, mas ao longe, um eco distante do caos que reina fora daquele círculo, mas que pode encostar no Éden de uma hora para outra, como na blitz policial nos primeiros minutos. E quando esse caos se torna presente de vez, o filme transita de forma imediata e admirável para o medo, a tensão, a incerteza, como um castelo de areia que vai se desfazendo diante das primeiras marolas.

Só não dou nota 10 porque os produtores não resistiram a dois epílogos que serviram de defesa da Justiça de transição, comissão da verdade e punição para os envolvidos na repressão, com a típica justificativa de que a condenação consolidaria na ''memória coletiva'' ou pública alguma forma de respeito aos direitos individuais: mas como se vê pela Indústria do Holocausto, que é basicamente a inspiração para essas propostas de ''passar ditaduras a limpo a fim de consolidar uma sociedade democrática'', o tiro está sempre pronto pra sair pela culatra.

O filme deveria terminar, na minha opinião, com a venda do casarão no Rio e a mudança para Sampa. Seria adequado e diria tudo que realmente importava dizer, muito bem retratado pela reação de uma das filhas do casal Rubens/Eunice, que toma consciência naquele momento que jamais veria o pai novamente.

Enfim, corram para as salas de cinema. Aliás, há tempos que não as via tão cheias para um filme. Matei saudade.


Publicado originalmente em:
https://www.facebook.com/constantor/posts/pfbid076M9U3h6MoynJXuStBP5KgpvtmspGGZ1zpZRf9UEzW3xFEJcfGeBy4AYxF2JDJXcl

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Nosferatu [2024] e A Bruxa [2015], o terror sobrenatural de Eggers contra a fragilidade do racionalismo

 


No fim de 2023, escrevi no meu Facebook sobre o filme 'A Bruxa' [The Witch], a estreia de Robert Eggers em 2015. [Reproduzo o texto no fim dessa postagem.] O intuito era apontar a incapacidade de muitos críticos de perceberem que o filme era sobre...bruxaria! Preferiam psicologizar os temas, tratá-los como alegorias contra uma sociedade patriarcal, misógina, repressora e supersticiosa. 


Ainda que o filme tangencie isso tudo, a pegada é terror sobrenatural. A feiticeira está mesmo lá na floresta, ela de fato sequestra o bebê e o mata em um ritual para reforçar seus poderes mágicos, a protagonista verdadeiramente estava em um processo de pacto com o cramulhão. As viseiras ideológicas não permitiam, no entanto, que estas pessoas notassem o minucioso trabalho de reconstrução histórica de Eggers e seu talento para nos transportar para um mundo em que bruxas existem. 


Pois bem, assisti ontem 'Nosferatu' [2024], do mesmo diretor, que já disse alhures que seu sonho de infância era fazer um remake do clássico imortal de Murnau, lançado no auge do cinema mudo, ainda em 2022. [E que gerou outro filmaço no fim dos anos 1970, dessa vez dirigido por Herzog, e protagonizado por Klaus Kinske e Isabelle Adjani]. O tamanho do desafio tinha tudo para fazer o sonho se tornar um pesadelo. Eggers conseguiu, no entanto, transformar o clássico em um filme seu, e um filme seu em uma síntese do terror gótico e das crenças medievais e modernas no vampirismo, antes  das idealizações juvenis do século XX. 



Mais ainda, ele aproveita para criticar explicitamente a mentalidade modernosa, iluminista e cientificista que aliena o ocidental do sagrado, das forças psíquicas e espirituais, e o torna presa fácil de um mundo cuja existência ele se recusa a admitir. O diretor mira justamente nas pessoas que assistem um filme sobre bruxaria sem conseguir ver a bruxa que é assunto principal da trama. Nas palavra de Von Franz [William Defoe vivendo o 'Van Helsing' da vez], a ciência tanto nos iluminou quanto nos cegou para estas forças cósmicas. Aliásd, o personagem que tipifica o racionalismo da Europa oitocentista é punido pela perda de toda sua família.


Tenho um texto sobre o assunto nesse blog [leia Sobre o Vampirismo] e recomendo a leitura para aqueles que desejam vislumbrar os fundamentos da história [re]contada por Eggers. O diretor se focou no 'folclore' das populações do período e complementou tudo com leitura esotérica e ocultista o suficiente para realizar seu sonho de criança. De todas as versões de Nosferatu/Drácula, esta é disparada a que melhor capta o esqueleto que sustenta o famoso conto de um entidade atraída dos confins de uma Europa distante temporal e geograficamente do Ocidente nascente. 


Afinal, os ''oceanos de tempo'' atravessados pelo nosferatu, citados por Coppola em seu 'Drácula, de Bram Stoker' [1992], não passam, no fundo, de uma viagem do interior da Romênia para alguma cidade portuária alemã. Diferente de Coppola, no entanto, o vampiro não tem qualquer laço afetivo e emocional por Ellen Hutter [nossa 'Mina', vivida por Lily-Rose Depp]. O próprio Conde Orlok afirma a certa altura que ''não passa de um apetite'' invocado pela força psíquica de uma adolescente que, sem conseguir lidar com seus dons preternaturais, sofrendo com a distância do pai, e com o erotismo à flor da pele, se envolve com um íncubo. O tema da possessão demoníaca permeia o filme, e a atuação de Depp impressiona na fisicalidade e nas transformações ocasionadas pelos ataques sobrenaturais e histéricos, pelos transes, pela epilepsia e pelas neuroses. Longe de ser uma vítima, ela é antes a 'feiticeira' que invocou um gigante até então preso no Hades. 



De modo similar, os costumes e ritos de ciganos e de religiosos romenos são retratados com fidedignidade capaz de gerar assombro no espectador. E também as práticas ocultistas de uma burguesia em busca de imortalidade, tipificadas aqui pelo bizarro Herr Knock [vivido por Simon McBurney]. Sigilos e círculos esotéricos, o envolvimento com feitiçaria que leva à transformação em vampiro após a morte, o papel de virgens no processo de caça ao monstro, o misticismo cristão-ortodoxo, e a ideia de pacto satânico [com ecos também de bruxaria. Está tudo lá. 


E Bill Skargard constrói o Orlok/Drácula mais terrífico já visto. Tudo nele remete a algo profano, corrupto e demoníaco, formados pela conjunção de uma voz aberrante, vinda de algum lugar do inferno, entrecortada com soluços e uma respiração difícil, e o corpanzil de dois metros se movimentando com dificuldade em uma figura montada em muita pesquisa sobre os nobres romenos do século XV.  De resto, a experiência imersiva de mundos históricos apresentados de forma impressionante, e com sutilezas, como o castelo tcheco usado no filme de Herzog. Os aspectos técnicos são um dos pontos altos, principalmente a cinematografia e o ritmo. Aliás, a tensão não cai em momento algum, o espectador está sempre desconfortável diante do conto de horror.


Vai ter gente reclamando que o filme não dialoga com  as pessoas do nosso tempo. O que não passa de mais uma bobagem iluminista. Por trás da máscara de racionalização, todos nós continuamos, ao fim e ao cabo, com medo do escuro.




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Abaixo, texto de novembro de 2023.



Revi ontem 'A Bruxa' [The Witch], filme de estreia de Robert Eggers, lançado em 2015. E aí resolvi olhar algumas análises e fiquei surpreso com resistência de boa parte das críticas a enxergar o óbvio. O que vi de nêgo virando do avesso a obra pra encaixotá-la em noções feministas, desprezo pela crença em bruxaria, e discurso anti-religioso não está no gibi.

Em um dos canais, um sujeito com nítidas crenças ocultistas fazia uma salada para defender que a bruxa da floresta não passava de uma criação da imaginação de fanáticos cristãos, mas que se torna um foco de parasitismo psíquico capaz de atuar de modo autônomo em relação às neuras e traumas que a geraram. Isso é ocultismo de segunda série primária; mas pior ainda porque desdito pelo próprio filme.

Existe muito papo sociologizante, e o tema tem seu espaço, claro. Muitos focam só nas questões de gênero, na repressão sufocante do puritanismo, e se apegam demasiadamente ao terror psicológico da obra.

Mas não percebem ou preferem não perceber que 'A Bruxa' não é só um terror psicológico, e sim um terror sobrenatural. Esses dois aspectos não estão separados, nem muito menos compartimentalizados.

Para não admitirem essa simplicidade, dão voltas e voltas argumentativas, torcem e distorcem o enredo e as cenas, como se o filme mantivesse o tempo todo uma ambiguidade sobre a realidade ou não da Bruxaria e do diabo. Ora, Eggers explora elementos importantes da relação entre os personagens, dos entrelaçamentos entre fé e dúvida, das rivalidades e desconfianças crescentes no interior da família, bem como dos aspectos culturais e históricos envolvidos. Mas a sutileza está em mostrar, desde o início, que tudo isso é joguete nas mãos do capiroto.

O diretor e roteirista estudou a fundo os julgamentos de bruxaria nos EUA e Inglaterra nos séculos XVI e XVII -- auge do fenômeno de "caça às bruxas" que tomou conta da Europa, e momento histórico em que se consolidou a imagem tipicamente europeia de bruxa que nos chegou, de forma matizada, a partir do folclore oitocentista redescoberto e reelaborado.

A derrocada da família tem início com o banimento da colônia em que viviam, motivada por orgulho e rigorismo religioso. Segue com o sequestro do bebê pela bruxa da floresta. As cena seguintes são tenebrosas e seguem à risca as crenças que o alvorecer da Era Moderna tinha sobre a bruxaria. A bruxa, na forma de uma velha nua, arranca o pênis do bebê, canibaliza a criança, se unta com seu sangue, faz unguentos e fabrica uma vara/vassoura com a qual pode voar. O diabo se manifesta em forma de lebre, de corvo e, principalmente, como um bode preto [Black Phillip], que se comunica com Mercy e Jonas, casal de gêmeos ainda na primeira infância, e os ensina uma música blasfema que revela a real natureza do animal. No fim da obra, o cramulhão toma sua forma mais perigosa, a humana, quando então sacramenta o pacto com Thomasin através do sexo.

Por fim, muitos que conseguem enxergar os elementos sobrenaturais do filme mantém, ainda assim, a opinião de que, apesar disso tudo, Thomasin é uma vítima da misoginia e do fanatismo religioso da época. Ela teria se tornado uma bruxa apenas no fim do filme, quando já não tinha qualquer alternativa.

Mas isto é falso. Ainda que toda a família seja afetada e influenciada pelo Mão-Peluda, e ainda que até mesmo Katherine, a mãe e dona da casa, conceda em ser parasitada por demônios -- momento em que William, vivido pelo excelente Ralph Ineson, deixa de ser de fato a cabeça daquele lar, e pode ser, então, assassinado pelo cramulhão --, Thomasin É A BRUXA desde o início, ainda que aja inconscientemente e lute contra a descoberta ou a revelação de seu próprio papel na trama.

Mas só saca inteiramente este último ponto quem não foi consumido por ocultismo de segunda série primária.


domingo, 15 de dezembro de 2024

A PRESENÇA DA VIRGEM MARIA NA IGREJA ''PRIMITIVA''

 "A virgindade de Maria, o parto, e também a morte do Senhor foram escondidos do príncipe deste mundo: três mistérios proclamados em voz alta, mas realizados no silêncio de Deus."

Santo Inácio de Antioquia, Epístola aos Efésios, cerca de 110/120 da Era Cristã

Imagem do início do século III, de mulher tirando água em um poço, na Igreja síria de Dura-Europos, tem sido recentemente identificada como a mais antiga representação da Anunciação. No Proto-Evangelho de São Tiago [meados do século II], a Virgem Maria sabe da Encarnação do Verbo quando vai pegar água, simbolismo associado à Fonte da Vida e da Imortalidade


Protestantes e evangélicos argumentam, em geral, que não há evidências da importância da Virgem Maria na Igreja ''primitiva''. Sempre fico estupefato com esses argumentos. Temos poucos dados sobre os primeiros tempos de Igreja, pelo menos no campo histórico. Os primeiros escritos cristãos datam dos anos 50. Mas se Igreja dita primitiva é aquela apostólica ou, de modo mais flexível, aquela que produziu os escritos hoje canônicos, então temos de esticar a corda até as primeiras décadas do século II, período em que os historiadores consideram que ainda estavam sendo produzidas algumas das obras que hoje constam no Novo Testamento. [Para a datação das obras hoje canônicas leia As Epístolas na Igreja Primitiva e Dos Evangelhos, canônicos ou não]



Ora, nesse período temos também escritos que não são hoje canônicos, como as epístolas de São Clemente de Roma e de São Barnabé, as sete epístolas autênticas de Santo Inácio de Antioquia, os registros de São Papias de Hierápolis, a Didaché, as citações do Evangelho[s] dos Hebreus e do Proto-Evangelho de São Tiago, o Pastor de Hermas, a Apologia de Santo Aristides de Atenas, a epístola de São Policarpo de Esmirna, a epístola para Diogneto. E escritos de não cristãos, como Tácito e Flávio Josefo.


Se Igreja ''primitiva'' é aquela que estava produzindo os escritos hoje canônicos, todas esses escritos listados são testemunhas desse mesmo período, que se estende ao primeiro terço do século II.

Anunciação com a Virgem Maria buscando água no poço, agora tal como no Pseudo-Evangelho de São Mateus, apócrifo do século VII que copiava o Proto-Evangelho de São Tiago. Afresco do século XII na Basílica de São Marco, Veneza, Itália



A presença da Virgem Maria é marcante nos escritos hoje canônicos. Ela é protagonista de um capítulo inteiro do Evangelho de São Mateus e de dois do Evangelho de São Lucas. O mesmo autor de São Lucas faz questão de citá-la no início dos Atos de Apóstolos. Mesmo sem incluir uma narrativa da Natividade do Senhor, São João Teólogo também a cita em pelo menos duas passagens importantes de seu Evangelho: no Milagre das Bodas de Caná e aos pés da cruz, quando o Senhor a deixa sob guarda do Discípulo Amado. Ela também é citada, junto com os 'irmãos do Senhor', no Evangelho de São Marcos.


Não vou me estender sobre outras passagens, em que ela é retratada junto de outras mulheres e acompanhando a Missão Pública de Cristo. E tampouco de passagens polêmicas ou muito rápidas, como a menção a uma mulher em epístola paulina, a possível menção em epístola joanina, ou a Mulher vestida de Sol no Apocalipse de São João.


É seguro afirmar, portanto, que a Virgem Maria consta de TODOS os Evangelhos canônicos e também dos Atos dos Apóstolos. Em alguns mais rapidamente, em outros de forma mais detida e como protagonista de episódios de imensa relevância.

Salus Populi Romani, ícone da Protetora do Povo Romano data do século V, e se encontra hoje no Vaticano



Estas citações a tornam muito mais presente nos escritos canônicos do que, por exemplo, São Tiago o Justo, que é mencionado por São Paulo como uma das colunas da Igreja [ao lado de São Pedro e São João] e que tem papel relevante em Atos dos Apóstolos. E, no entanto, todos reconhecem a importância imensa que São Tiago Adelphotheos tinha na Igreja dita primitiva. Ele também é citado, por exemplo no Evangelho dos Hebreus e em Flávio Josefo.


Nos escritos não canônicos, a Virgem Maria é citada por São Inácio de Antioquia [escrevendo por volta dos anos 110], Santo Aristide de Atenas [por volta de 120] e pelo autor da epístola a Diogneto [também por volta de 120]. O Proto-Evangelho de São Tiago, que citei bastante ontem por conta do filme Mary, lançado pela Netflix, é uma obra dedicada basicamente a ela [leia O Proto-Evangelho de São Tiago e o escândalo].


N'O Evangelho dos Hebreus [que pode se referir a mais de uma obra] temos a menção talvez mais impressionante. Não temos nenhuma cópia dessa obra, apenas citações feitas por Padres da Igreja. Em uma delas, de São Cirilo de Jerusalém, lemos:

"Está escrito no Evangelho dos Hebreus:

"Quando Cristo quis descer à terra para os homens, o Bom Pai convocou um poderoso poder no céu, chamado Miguel, e confiou Cristo aos cuidados dele. E o poder veio ao mundo e foi chamado Maria, e Cristo esteve por sete meses em seu seio."

Ícone miraculoso de Panagia Gerontissa, no Mosteiro de Pantokrator, no Monte Athos



A passagem é heterodoxa, mas dado que é obra atribuída ao primeiro quarto do século II, proveniente de comunidade judaica no Egito, é testemunha óbvia das especulações, crenças e declarações cristãs a respeito da Virgem Maria. Ela é também muito interessante à luz do que tenho escrito sobre a tradição enoquiana [leia A Rebelião de Azazel e Gênesis, as Rebelião Angélicas e Enoque] , as crenças cananeias [leia Os Gigantes nas Escrituras e na História], o Concílio Divino [leia O Judaísmo não era Monoteísta e Iahweh e El]. Dizer, como muitos protestantes, que não há evidência da importância da Mãe de Deus na Igreja Primitiva é puro wishful thinking.


Se os protestantes quiserem deixar de fora, arbitrariamente, obras das primeiras décadas do século II, vão ter de justificar a datação dos canônicos por métodos que são pouco seguros no campo da historiografia atual. Em geral, vão ter de remontar também à Tradição da Igreja. Mas isso tampouco é boa ideia para quem pretenda negar a importância da Virgem Maria.


Ícone de Theotokos Platytera, ''Mais Ampla/Maior que os Céus"


sábado, 14 de dezembro de 2024

MARIA [2024], de J.D. Caruso, ou: O PROTO-EVANGELHO DE SÃO TIAGO E O ESCÂNDALO

E a menina atingiu a idade de três anos; e Joaquim disse: “Chamai as filhas dos Hebreus, as impolutas; e levantem [cada uma] uma tocha; e que [as tochas] ardendo fiquem posicionadas, para que a menina não se volte para trás e o seu coração fique cativo, longe do templo do Senhor”. E fizeram assim, até que chegaram ao templo do Senhor. E o sacerdote recebeu-a; e, beijando-a, abençoou-a e disse: “O Senhor engrandeceu o teu nome entre todas as gerações. Através de ti, até os dias derradeiros, o Senhor mostrará o Seu resgate aos filhos de Israel”.

Proto-Evangelho de São Tiago




A Netflix acertou comercialmente ao lançar Mary [2024] nas semanas que antecedem o Natal. O filme se tornou líder de audiência em meia centena de países, sinalizando que sucessos como a série independente The Chosen terão de fato repercussões nos grandes conglomerados da indústria cultural. Dessa vez, há possibilidade de uma conquista real de espaço, impulsionada por uma demanda reprimida formada por uma confluência entre sensibilidades evangélicas e católica-romanas. Ou seja, em vez de usar a religião como propaganda de pautas identitárias e progressistas, as produções podem se dedicar a contar histórias fundamentadas na perspectiva das grandes religiões.


O contexto parece favorável, já que estamos em meio a um refluxo acentuado da maré woke cuja hegemonia no establishment era uma barreira contra a presença de uma abordagem cristã nos grandes estúdios, que se tornaram um dos cavalos de batalha da esquerda contra os valores considerados formativos do Ocidente. Não fosse a aliança das grandes multinacionais e do sistema partidário com a pretensa revolução woke, o movimento atual teria ocorrido há vinte anos, com Passion of Christ [2004], de Mel Gibson.


Não vou me ater ao ponto de vista cinematográfico. Ainda que tenha qualidades, como a fotografia e Anthony Hopkins no papel de Herodes, o filme é medíocre. O ritmo tem problemas, o texto é fraco, os personagens são, em larga escala, caricaturas ambulantes, a produção deixa a desejar. Mas, assim como no caso de The Chosen, não é esse o lado mais importante, e sim a guerra cultural que se dá em torno da obra. Afinal, não estamos falando exatamente de uma rendição da Netflix ao cristianismo, e sim de uma concessão. 




Ainda que D.J. Caruso esteja longe da ousadia de Mel Gibson, progressistas não perderam tempo em criticar Mary por seu suposto conservadorismo. A historiadora Juliana Cavalcanti, por exemplo, criticou o filme em uma live recente [clique para ver] por supostamente reforçar estereótipos de gênero consolidados na Igreja Católica. Ou seja, os acenos dos produtores para os liberais com a justificativa de atrair ''jovens'' não comovem a historiadora, que não considera a película feminista o suficiente de modo a servir ao propósito de fazer com que mulheres encontrem espaço na estrutura eclesiástica. Veneração à Mãe de Deus? Para quê se podemos ter uma mulher como ''Bispo"? 


Vou adotar a posição francamente contrária: o filme não é tradicionalista o suficiente para que eu possa elogiá-lo como gostaria. 


A isca que Caruso lança aos religiosos é o Evangelho de São Tiago, mais conhecido como "Proto-Evangelho de São Tiago", texto atribuído a São Tiago o Justo, chamado de Adelphotheos [Irmão do Senhor] na Tradição Ortodoxa, e descrito em Epístola paulina como um dos três pilares da Igreja de Jerusalém. Os produtores garantem que este Evangelho é a fonte principal da obra, cujo enredo se desenvolve entre os pedidos dos pais de Maria por um filho e a apresentação do Deus Menino no Templo de Jerusalém. 


O Proto-Evangelho causa uma série de constrangimentos em certa sensibilidade evangélica contemporânea e também entre os pesquisadores laicos. O consenso é de que cópias já circulavam entre os cristãos em meados do século II [por volta do ano 150], momento em que os quatro evangelhos hoje canônicos ainda se consolidavam entre os cristãos e em que o cânone estava longe de estar fechado [leia Dos Evangelhos, canônicos ou não]. As tradições em torno do texto remontam, portanto, ainda ao primeiro século de existência do Cristianismo, em que os Gloriosos Apóstolos ou seus discípulos mais imediatos ainda estavam vivos. 


"As tradições compiladas na obra atribuída a São Tiago compõem, no entanto, a versão oficial na Igreja Ortodoxa. Há consenso de que são antiquíssimas, já que o texto foi escrito entre 110 e 140. Ele é mais uma prova irrefutável que a devoção à Santíssima Virgem Maria e seu status entre os cristãos estava presente nas mesmas gerações que decidiam pela composição do Novo Testamento. É possível provocar ainda mais neste ponto já que, para a pesquisa acadêmica, alguns dos textos que viriam a compor o cânone cristão foram escritas na mesma época que os Evangelhos dos Hebreus [que podiam ser três textos diferentes] e o Proto-Evangelho de São Tiago. Enfim, muitos elementos da Mariologia já eram comuns em comunidades cristãs de forte influência judaica."




Pois bem, essa obra demonstra a importância que a figura da Panagia tinha na Igreja Primitiva. Diferente da fantasia evangélica de que a Mariologia ganhou importância apenas com o abraço do Império Romano à Igreja e a uma suposta ''paganização'' dos cristãos, o Proto-Evangelho é a demonstração cabal de que a Mãe de Cristo era venerada e considerada fundamental desde os primórdios. Se os evangélicos quiserem um dia voltar de fato à "Igreja Primitiva'' e Apostólica, devem retornar, antes de tudo, à Virgem Maria. 


A historiadora Juliana Cavalcanti, que foi citada por mim, defende que os temas do Proto-Evangelho tem de ser entendidos como uma resposta aos ataques que judeus e outros pagãos faziam aos cristãos, e cita os debates de Orígenes com Celso e o Talmude. Os  exemplos dados pela pesquisadora são ruins já que o Proto-Evangelho é anterior tanto a Celso quanto ao Judaísmo Rabínico. Sua composição não está muito distante da Revolta de Bar Kochba. De todo modo, é verdade que a figura da Mãe de Deus era atacada pelos inimigos e críticos do cristianismo nascente. O que reforça a importância de Maria já nos primórdios da fé cristã, ao ponto do filósofo Celso reproduzir a difamação que muitos judeus faziam contra ela em suas obras de polêmica anti-cristã no último terço do século II. 


Mas o texto tampouco é confortável para os católico-romanos. Sua popularidade nos primeiros séculos era tamanha que boa parte de seus ensinamentos está em consonância com ritos, festas e hinos da Igreja Ortodoxa. Mas São Jerônimo tinha muitas reservas quanto a um aspecto particular do texto, o retrato de São José como um idoso viúvo que tinha outros filhos. O Bem Aventurado Bispo de Estridão preferia ver São José como um celibatário, e sua oposição ao texto fez com que ele praticamente sumisse entre os latinos por séculos. 



Tamanha era a influência da obra que ela acabou retornando de outra maneira. Três séculos depois começa a circular na Itália o Pseudo-Evangelho de São Mateus [também conhecido como "Evangelho da Natividade de Maria"], apócrifo que copiava o Proto-Evangelho de São Tiago, mas com as modificações que agradavam a São Jerônimo. São José era retratado agora como um jovem solteiro e celibatário, dando margem à composição da Santa Família que marca a espiritualidade católica-romana mas que está ausente da perspectiva ortodoxa, segundo a qual São José não é exatamente ''marido" de Theotokos, mas o escolhido para guardião e protetor da Panagia e de Seu Filho.


Pois bem, isca jogada, o enredo de Timothy Michael Hayes se desvia à vontade de suposta fonte com a intenção de agradar a gregos e troianos. Vemos Maria ainda criança com o coração partido por abandonar os pais. Mais tarde, ela mostra um espírito contestador em relação aos sacerdotes. Um jovem São José se apaixona por Maria quando a vê à beira de um rio, um evento armado pelo Arcanjo Gabriel, que tem seu momento de cupido. Por fim, os próprios pais da Virgem, São Joaquim e Sant'Ana, aceitam dar a mão da filha para São José.



Tópicos importantes, como a desconfiança da comunidade em relação à gravidez de Maria, são tratadas com a sutileza de passos de elefante: multidões fanáticas tentam invadir a casa em que ela vive para apedrejá-la, e São José tem de escutar piadas e zombarias de seus colegas de trabalho. A Virgem dá à luz em meio a dores do parto, o que obviamente foge inteiramente da concepção tradicional cristã, seja ela católica, ortodoxa ou luterana. Por fim, o Rei Herodes é retratado como um paranoico obsessivo fascinado por Maria e que a persegue de modo obstinado. O terceiro ato se concentra na fuga da família, em meio a incêndios, destruição, e muita coragem, quase que numa mistura de thriller e aventura. 


Tudo isto foge do misto de simplicidade e sacralidade do Proto-Evangelho de São Tiago, em que São Joaquim e Santa Ana são idosos que não poderiam de forma alguma ter filho se não por intervenção sobrenatural. A Panagia é criada até os três anos em um quarto adaptado como um santuário para que ela não fosse afetada por nada demasiadamente mundano. Sua apresentação ao Templo é uma procissão regida pela felicidade, e não pela dúvida e pela incerteza. A pequena Maria sobe os degraus do Templo, e dança diante do altar de Iahweh. Ela cresce com as mais rigorosas consecuções ascéticas enquanto é alimentada por um anjo. 




Diferente da história contada no filme, o texto mostra seu noivado sendo arranjado pelos próprios sacerdotes depois que a Virgem já estava órfã e próxima à menarca: já que a menstruação é considerada um fruto da queda, uma mulher não poderia continuar servindo no Templo. Um idoso e viúvo São José é escolhido por meio de uma consulta quase que oracular para ser o guardião da Virgem. Não há qualquer paixão ou romantismo envolvido, São José aceita a missão a contragosto e como dever que lhe foi designado por Deus. É verdade que a gravidez da Panagia desperta dúvidas no ancião, mas os sacerdotes desconfiam não de adultério, mas dos próprios noivos. Não há nenhuma turba tentando apedrejar Maria, mas uma ordália que o filme parece não se sentir confortável em retratar. Por fim, a manutenção da virgindade após o parto é confirmada por uma parteira.


Nessa perspectiva, o filme é pouquíssimo tradicional e bastante insuficiente para uma sensibilidade cristã. Na verdade, o foco cristão do filme é difuso, deixa a impressão de que não há um verdadeiro arco ou uma mensagem real destinada ao público principal da obra. Se a professora Juliana Cavalcanti deixa transparecer certa decepção porque a película não usa a imagem de Thetokos para defender a ordenação de mulheres ou para pregar uma revolução nos papéis de gênero, os cristãos podemos nos sentir ainda mais insatisfeitos com o temor e tremor dos produtores diante da própria fonte em que dizem se basear. 


Ainda aguardamos uma obra contemporânea que faça jus a Toda Santa e Pura Mãe de Deus. Para os demais, o aviso permanece: Ai daquele!



sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

FLA 2019 OU BOTA 2024?

 


A comparação entre o Flamengo de 2019 e o Botafogo de 2024 só se explica porque:


1. O Fla 2019 se tornou definitivamente na régua para o futebol brasileiro desse século. Toda equipe que se destacar será comparado a ele. Aconteceu também com o Galo 2021.


2. Os botafoguenses estão em êxtase. Nem o vexame contra o Pachuca é capaz de trazê-los ao planeta Terra.


Isto posto, o Flamengo de 2019 era nitidamente superior tanto em termos técnicos quanto táticos. Em termos de resultado, então, nem se compara. 


O nível geral do futebol brasileiro era mais fraco. Mas isso não se estendia a todos os adversários. O Santos de Sampaoli jogava um futebol tão moderno quanto o Flamengo, e até hoje é o vice-campeão com o maior número de pontos [74].


Na Libertadores, o Flamengo passou por Internacional e Grêmio. Este último com um placar e um domínio estrondoso. E o Grêmio 2019 era algumas vezes melhor que o Peñarol desse ano. O Flamengo precisou virar uma partida para cima do excepcional River Plate de Gallardo, um time de prateleira muito acima do Atlético Mineiro atual tanto em termos individuais quanto coletivos.


O desempenho no Mundial Interclubes também é um abismo. Os botafoguenses estão corretos em ressaltar o cansaço da viagem mas não em minimizar o baile tomado do Pachuca, uma equipe que só tinha três vitórias no semestre. Um time misto do Botafogo deveria ser capaz de superar a equipe mexicana mesmo nessas condições, e era isso que praticamente todos os analistas previam antes da bola rolar.  Mas assistimos o Pachuca melhor desde o início da partida, e já tinha três finalizações com 7 minutos de primeiro tempo. 


A graça do Mundial Interclubes é enfrentar o campeão europeu, qualquer coisa diferente é fiasco. O Botafogo fez um fiasco no Mundial, enquanto o Flamengo passou com autoridade pela semifinal e fez um jogo à altura com o Liverpool de Klopp, só decidido na prorrogação.


Comparações jogador a jogador são enganosas, mas eu escalaria mais ou menos assim:


Diego Alves

Rafinha

Rodrigo Caio

Pablo Marí

Filipe Luís

Marlon Freitas

Gérson

Éverton Ribeiro/Thiago Almada

Arrascaeta

Bruno Henrique/Luís Henrique

Gabigol

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

RANKING 2024

1. INTRODUÇÃO


Tempo de Botafogo? O Glorioso reafirma sua condição de clube grande e membro do tradicional G12


Momento de atualizar o Ranking do futebol brasileiro. Antes de explicar porque Botafogo, Fortaleza e Flamengo estiveram entre os grandes vitoriosos, e porque o Furacão foi o maior derrotado, uma breve introdução para recordar que uso dois sistemas de classificação. O primeiro leva em conta todos os torneios, incluindo os estaduais e regionais. É o RANKING HISTÓRICO, o mais completo de todos. Mas não o mais importante, já que o segundo sistema de classificação tende a ganhar cada vez mais peso com o passar do tempo.


Os estaduais vão perder ainda mais datas nos próximos dois anos, e o Brasileiro será disputado de meados de março a fins de dezembro. A Libertadores acaba de aumentar substancialmente a premiação em dinheiro. Nessas circunstâncias, em que os principais estaduais perdem prestígio e ganham ares de torneios preparatórios, o torcedor se acostuma aos poucos a comparar os clubes pelas conquistas nacionais e internacionais.


O RANKING DE TORNEIOS NACIONAIS E INTERNACIONAIS se concentra no que realmente importa para as gerações mais novas. A rigor, é uma classificação que leva em conta as competições posteriores a 1959, com algumas exceções. Nesta data, a seleção já era campeã mundial, o país já havia organizado uma Copa do Mundo, e construído o maior estádio de futebol da História. Não é portanto o ranking mais completo em termos históricos, mas com certeza é aquele de maior impacto para o século XXI. Proponho também dois recortes por curiosidade: um ranking só de competições de âmbito nacional, e um ranking só de competições de âmbito internacional. 


Importante frisar que a classificação não leva em conta só os títulos. O vice é pontuado na maior parte das competições. Participações na Libertadores e nas primeira e segunda divisões do Brasileiro também valem pontos. Já os rebaixamentos são penalizados.


Os critérios de pontuação estão expostos nos seguintes links:


i. Critérios Gerais

ii. Sobre os Nacionais e Internacionais

iii. Observações importantes


O Fortaleza foi um dos grandes vitoriosos da temporada e entrou no G20 do Ranking histórico


2. A TEMPORADA 2024


O Botafogo foi o grande protagonista a temporada, compensando com sobras as frustrações de sua torcida no final do ano passado. Há três anos, o botafoguense jamais imaginaria vivenciar um período tão vistoso da história do clube, capaz de fazer frente financeiramente às principais potências do país e de empilhar taças com autoridade. Como veremos, no entanto, a consequência principal da temporada de sonho do alvinegro carioca foi confirmá-lo como força do tradicional G12, posto que era contestado pelo Athletico Paranaense. Do outro lado da disputa, o Furacão teve um ano desastroso, que o fez recuar algumas 'casinhas' no esforço por ser reconhecido como novo membro do grupo dos Grandes do Brasil.


O Flamengo foi o clube que mais pontuou entre os líderes do ranking, mas não suficiente para causar alguma transformação aguda na disputa pelos primeiros lugares. É notável a capacidade demonstrada pelo Fortaleza para acompanhar as principais equipes. O Leão cearense, campeão de mais uma Copa do Nordeste, pontuou no mesmo nível que Fluminense e Palmeiras, e à frente do São Paulo, o que trouxe mudanças sensíveis na classificação geral. O Atlético Mineiro, ainda que decepcionante no Brasileiro, alcançou boa pontuação este ano por causa do título mineiro e dos vices da Copa do Brasil e da Libertadores. A corrida pelos pontos em 2024 terminou assim:


1. Botafogo: 265
2. Flamengo: 75
3. Atlético MG: 43
4. Palmeiras:37
5. Fluminense: 32
6. Fortaleza: 31
7. São Paulo: 25


O Flamengo foi o que mais pontuou entre os líderes do Ranking, impulsionado pelos títulos da Copa do Brasil e do Campeonato Carioca


3. O RANKING HISTÓRICO


RANKING HISTÓRICO, levando em conta todos os estaduais e regionais


O Flamengo aumentou sua vantagem no Ranking mais completo, e segue estável no primeiro lugar. Na verdade, o mesmo pode ser dito para todas as primeiras colocações. O Palmeiras também viu sua vantagem crescer em relação ao São Paulo, cuja vantagem para o Santos também subiu. O Santos evitou por mais um ano a ameaça corintiana, que desafia sua quarta posição. Já o Grêmio se vê em condições de tirar o sexto lugar do Cruzeiro já na próxima temporada.


As principais mudanças se deram fora dos dez primeiros lugares. O Botafogo reverteu o abismo que o distanciava dos demais participantes do G12. Mas o Glorioso teria de repetir ano que vem a pontuação de 2024 se quisesse de fato reivindicar o décimo primeiro lugar do Galo. A novidade é a presença do Fortaleza, que chega ao 19º lugar, logo abaixo do Vozão, seu maior rival. O Ceará tem agora dois representantes no RANKING HISTÓRICO, consequências visível do desenvolvimento do futebol do estado. No Nordeste, só a Bahia tem o mesmo número de representantes.


Apesar das dificuldades no Brasileiro, o Fluminense levantou mais um troféu internacional, a Recopa Sul-Americana


4. O RANKING SOMA NACIONAL/INTERNACIONAL


Tenho apontado a existência de um BIG 3 no futebol brasileiro, o GRANDE TRIO de clubes que dominam o ranking que soma os títulos e o desempenho em competições nacionais e internacionais -- a classificação, repito, que considero a mais importante para as gerações mais novas de torcedores e que, aposto, vai ganhar ainda mais relevância com a nova etapa de desenvolvimento do nosso esporte. 


RANKING SOMA NACIONAL/INTERNACIONAL, com o Botafogo retornando ao G12


Apesar do Palmeiras ocupar a primeira posição pelo segundo ano consecutivo, apenas 50 pontos o separam do terceiro colocado, que é o Flamengo. A distância do rubro-negro carioca para o São Paulo, segundo colocado, é irrelevante, de apenas um ponto. Podemos dizer que estes três clube estão na mesma toada de conquistas, e que ganham de forma mais acentuada que os demais. Eles são os únicos com mais de 2 mil pontos neste ranking -- na verdade, cada um deles tem mais de 2400 pontos. 


A distância do GRANDE TRIO para o Santos, que ocupa a quarta posição, é de cerca de 500 pontos, o equivalente a cinco campeonatos brasileiros. O Santos, por sua vez, está confortavelmente à frente do Corinthians. Há outra maneira de ver a questão: entre os cinco primeiros colocados, só o Flamengo não é paulista. O Mais Querido é o intruso em um futebol dominado, principalmente, pelas forças do estado mais rico do país. 


A torcida do Santos protestou, mas o título da série B garante o retorno do Santos à elite do futebol brasileiro e o mantém mais facilmente na quarta posição do principal Ranking


Há uma disputa entre dois grandes do Rio de Janeiro. O Fluminense ameaça o lugar do Vasco da Gama entre os dez primeiros do Ranking. E também aqui é possível notar a ressurreição do Botafogo, que tinha sido superado pelo Furacão no G12 nesse sistema de classificação. O Glorioso não só reconquistou seu posto com a pontuação de 2024, como também criou uma distância considerável para o rubro negro paranaense. O Athletico Paranaense teve um ano tão ruim que foi o único neste G20 a ter a pontuação diminuída, fruto de seu rebaixamento para a série B.



5. O RANKING NACIONAL E O RANKING INTERNACIONAL


O Palmeiras lidera o recorte nacional apesar do ano sem títulos de expressão


Restam os dois recortes, o de competições de âmbito nacional e o de competições de âmbito internacional. No primeiro caso, o Palmeiras segue confortável na liderança, ainda que o Flamengo tenha se aproximado. O Mais Querido, por sua vez, colocou mais de 250 pontos de diferença para o Corinthians, e não tem como ser ultrapassado pelos próximos dois anos. O São Paulo consolidou a ultrapassagem que fez ao Cruzeiro no ano passado. 


O ano do Atlético Mineiro foi de derrotas duras em finais importantes, mas sua pontuação no ranking este ano foi a terceira melhor do país


A diferença de pontos entre o Grêmio [7º colocado] e o Fluminense [11º]  é muito pequena e pode ser alterada rapidamente ao longo de uma temporada. É bem provável que este grupo intermediário apresente mudanças em 2025. Por fim, o Botafogo afastou a ameaça de ser superado pelo Athletico PR nesse ranking. E o Bahia abriu disputa com o Sport pelo posto de clube nordestino mais vitorioso em âmbito nacional.


O Fluminense superou o Vasco da Gama no recorte internacional


A soberania do São Paulo no Ranking Internacional é simplesmente indiscutível. O tricolor paulista tem cerca de 350 pontos de diferença para o Santos. Isso dá mais de duas Libertadores da América. A liderança são-paulina não seria ameaçada nem no caso altamente improvável de vitória do Flamengo [3º lugar] na Copa do Mundo de Clubes, que será disputada pela primeira vez em junho, e cuja pontuação no RANKING ANDRÉ deve ser de 250 ou 300 pontos [a ver]. 


O Fluminense, que conquistou a Recopa e disputou mais uma Libertadores, roubou o lugar do Vasco entre os dez primeiros. E o Botafogo, que mais que dobrou seu número de pontos neste recorte, superou o Athletico Paranaense e retornou ao G12. Importante notar também o crescimento do Fortaleza, cuja classificação para a próxima Libertadores garante ultrapassagem sobre o Guarani na próxima edição do Ranking.


O Athletico Paranaense está entre os grandes derrotados de 2024 e foi rebaixado para a Série B em pleno ano de comemoração do Centenário do clube