domingo, 24 de dezembro de 2017

A diferença entre conservadorismo e tradição, ou: O Progressismo liberal destruiu Guerra nas Estrelas? Parte IV

''O Império, seus pais, a Resistência, os Sith, os Jedi...deixe o passado morrer. Mate-o, se for necessário. É a única maneira de se tornar aquilo que você está destinado a ser''

Kylo Ren




Luke avisa a Yoda e Obi-Wan que não mataria o próprio pai, frase que os mestres encaram como uma vitória do Imperador. O Padawan sabia mais do que os Anciãos



Ao longo da argumentação que venho tecendo, dei razão ao cerne da crítica conservadora a Guerra nas Estrelas: a franquia é de fato um instrumento de divulgação da sensibilidade progressista [por vezes uso também o termo liberal, embora nem todos os conservadores possam concordar com ele]. Ainda que não traga um discurso explícito e militante que reduza a obra a um mero marketing ideológico, a moldura ou arquitetura em que se desenvolvem as histórias está incrustada e formatada pela mentalidade progressista. Mas divisei também pelo menos quatro erros crassos na crítica mencionada: i) Ela não enfatiza que pode ser aplicada de modo geral a todo produto de Hollywood voltado para o grande público; ii) Ela dá a impressão de que o liberalismo passou a permear Guerra nas Estrelas apenas na nova trilogia, quando na verdade já está presente desde seus primórdios e em todo o seu desenvolvimento; iii) não percebe que, assim como nos outros filmes da saga, os lançamentos recentes tampouco se reduzem ao progressismo, e é possível separar neles os elementos mais profundos ou reinterpretar a obra a partir de um olhar menos limitado; iv) a própria crítica conservadora está cerceada por restrições que a impedem de apreciar algumas das maiores qualidades dos novos filmes.









Yoda ensina que o medo leva ao ''lado escuro'' da Força; de modo similar, também faz com que a crítica conservadora caia em algumas forçações de barra e leituras enviesadas do enredo e das cenas d'Os Últimos Jedi. Um exemplo é a sugestão de Mateus Diniz, feita neste texto com que dialogo e que torno fio condutor das minhas postagens, de que a relação entre Holdo e Leia está impregnada pela sensibilidade gay. Ora, o filme aponta a ligação entre duas guerreiras e amigas que se conheciam há muito tempo, batalharam juntas contra o mesmo oponente, e se despedem na certeza que de uma delas vai ao encontro da morte. Não há qualquer laivo erótico ou implicação outra nas cenas. Outra sugestão é a de que no próximo filme o personagem de Oscar Isaac será retratado como homossexual. Não digo que seja impossível, afinal a pauta de defesa pelos direitos gay é elemento importante da militância liberal de Hollywood. Mas é imensamente improvável: primeiro porque, quando se trata de produtos destinados a um grande mercado, a implementação dessa agenda se dá de modo bastante sutil e marginal, e isso já há meio século. [não sejam ingênuos para não perceberem as insinuações por trás dos trejeitos de ''mordomo'' de C-3PO]. Segundo, tudo indica que o novo líder da Resistência vai viver uma história romântica com Rey.








As decisões equivocadas do impulsivo Dameron provocam consequências catastróficas: um líder em formação aprendendo com os próprios erros




Esse tipo de forçação impede os conservadores de notarem uma das mensagens mais poderosas d'Os Últimos Jedi, problema que pode ser exemplificado com as análises que alguns fizeram em cima dos arcos de Poe Dameron e Luke: O Episódio VIII nos revela um membro importante da Resistência ao mesmo tempo corajoso e impulsivo, incapaz do pensamento estratégico necessário a uma liderança confiável. Como resultado, todos os seus planos e decisões acabam conduzindo ao desastre. Há quem diga, com certa razão, que a maior parte das mortes de rebeldes é provocada pela imperícia do sujeito.O arco de Dameron se coaduna bem com a intenção de Rian Johnson de dobrar as expectativas dos fãs, levando-os a situações bastante familiares e consagradas apenas para resolvê-las de modo inesperado -- lembro mais uma vez aqui a frase de Skywalker para Rey, ''isso não vai se passar do modo como você imagina''. A bravura cega do piloto faz com que a Resistência perca toda a sua frota de bombardeiros em troca da destruição de apenas um encouraçado da Primeira Ordem. Depois conduz a um plano mirabolante -- porém arquiconhecido dos que acompanham a franquia -- de invasão de uma gigantesca nave inimiga para sabotá-la por dentro, quase provocando a destruição total dos Rebeldes --  que só não ocorre por causa, agora sim , do heroísmo da Comandante contra a qual Poe havia se amotinado. Como lhe diz Leia, ''Holdo estava mais preocupada em proteger a fagulha [da rebelião/esperança] do que em ser vista como heroi''.






Para os conservadores, a cena se tornou reveladora da intenção de Hollywood usar Guerra nas Estrelas para defender a subordinação dos homens às mulheres. As virtudes masculinas de Dameron, segundo eles, não seriam suficientes para proteger a Resistência. As duas mulheres na liderança, Leia e Holdo, é que possuiriam o domínio emocional necessário à função. O problema dessa abordagem é que, embora as cenas afirmem de fato o protagonismo feminino -- tema já tratado em postagem anterior --, o roteiro não mostra Poe fracassando por ser homem, e sim por ser um jovem temerário. A imaturidade de Poe é que lhe fazia pensar que sabia mais do que aqueles que ocupavam posições mais elevadas. Ele não conseguia ver os motivos, a estratégia, por detrás das ações dos mais experientes. Eis aqui um tema recorrente em Hollywood, as novas gerações seriam portadoras de uma verdade que a antiga não é capaz de divisar por causa de seu apego a modelos ultrapassados. Rian Johnson subverte essa noção. A mensagem é tão nítida que, após o sacrifício de Holdo, Poe se torna o líder que nasceu para ser, sem no entanto perder nada de sua virilidade. Ele se torna capaz de abortar uma missão suicida contra o aríete/estrela da morte no terceiro ato do filme. Nos momentos finais, demonstra a habilidade -- antes de Leia, frise-se -- de compreender as intenções de Luke -- um homem que, naquele momento, unia heroísmo e estratégia em prol de um bem maior -- e salvar o que restava dos rebeldes. A nova posição de Poe Dameron é confirmada pela própria Leia, que diz aos seus subordinados, ''por que estão olhando para mim? Sigam-no!'', e reforçada por uma das frases de Luke em diálogo com Kylo: ''a Resistência se revigorou hoje'', frase acompanhada pela aparição do rosto de Dameron na tela. O garoto imaturo havia se tornado um homem.





Rey é mais uma representação dos fãs esperando mais do mesmo, Luke ''pegaria uma espada de laser e sairia pela galáxia detonando sozinho a Primeira Ordem''





A mesma mensagem é passada no relacionamento entre Rey e Luke, reforçando que não se está discutindo nenhuma ''guerra dos sexos''. Nesses últimos dias, acompanhei pela Internet leituras que viram nas ações de Skywalker sintomas de covardia e depressão. Alguns chegaram a dizer que Rey deu ''uma lição de moral'' no Mestre Jedi. Confesso ter percebido diferente: embora demonstre pesar pela perda de Ben Solo, a questão que envolve Luke na Ilha Sagrada é mais ampla do que seus próprios dramas de consciência. Ele não quer ser o professor de Rey porque entende que os Jedi devem acabar, que seus métodos são falhos e que, no fim das contas, o orgulho da Ordem é um dos motores do conflito cósmico. Ele oferece a Rey três lições: a primeira, de que a Força é um poder originário que não pertence a ninguém, e que portanto é vaidade vincular o lado luminoso à existência histórica dos Jedi; a segunda, é a de que o legado dos Jedi é o fracasso, que eles não conseguiram escapar do ego e de suas consequências, retratadas no filme como a sombra que passa pela mente de Luke em relação a Kylo e que leva à luta entre mestre e discípulo; a terceira não é dada, pois Rey, passando por cima dos conselhos do Mestre e achando que havia visto algo que ele não havia sido capaz de ver, abandona a Ilha.






Rey não me parece ter condições de ''dar lições de moral'' em Luke tampouco. A todo momento ela se mostra presa na necessidade de encontrar seus pais, quer vivenciar uma mentira, a de que vem de uma linhagem importante e marcada pela nobreza -- fragilidade que vai ser explorada por Kylo mais à frente. A todo momento se mostra impermeável ao que lhe está sendo ensinado: Assim como R2-D2, Chewbacca e boa parte dos fãs, a protagonista fica atônita, tentando argumentar com Luke sobre seus motivos, que ela não conhece e ainda assim repudia. Rey deseja a repetição de temas passados, e sai frustrada sempre que isso lhe é negado. O sabre de luz que estende a Luke é jogado fora com desprezo. No início, ela se recusa a crer que o Mestre havia falhado com Kylo, o ''monstro''. Depois, sua carência a leva a uma ligação com o adversário que a impede de acreditar que o parricida tivera sido totalmente consumido pelo ''lado sombrio'', como Luke lhe havia contado. Ela concordava agora que Luke havia falhado, mas porque não havia percebido, como ela supostamente conseguira, que Ben Solo ainda não havia feito sua escolha, que existia conflito no coração do vilão. Deixando de lado os conselhos daquele que queria por mestre, Rey decide emular a ''lenda'' de Luke -- que deixara de lado as sugestões de Yoda e Obi-Wan a respeito da necessidade de matar Vader --, e se entrega ao inimigo para ''convertê-lo'' à luz. Mais uma vez Rian Johnson constrói sua narrativa em cima das expectativas dos fãs de longa data, mas dessa vez as coisas não ocorrem como eles e a protagonista pensavam:  Ben Solo está de fato morto, como Luke havia entendido desde o início. A história não se repete, a não ser como farsa. Rey havia sido manipulada pelo ''lado sombrio'' ao não confiar no que lhe dizia Skywalker.





Rey pensa ter visto algo que Luke não foi capaz de ver e emula o Mestre ao se entregar para o inimigo visando convertê-lo para a Luz: os jovens estão sempre um passo atrás ao esperarem a repetição de modelos passados






O núcleo da narrativa, detalhado por Yoda diante da Árvore Sagrada em chamas, e depois pelo próprio Luke em seu encontro com Leia, é que os mais velhos, os antigos mestres, devem ser ouvidos, inclusive por causa de seus fracassos. Temos aqui um filme que ambiciona, por um lado, levar Guerra nas Estrelas a uma nova geração -- ponto a que voltarei mais tarde --, e para isso rompe gradualmente com os antigos personagens e com a família Skywalker, as principais marcas das trilogias anteriores. Por outro lado, os jovens devem se afirmar sem que o passado seja totalmente esquecido. Enquanto Kylo pede por uma ''emancipação'' total com suas raízes, os herois afirmam a continuidade de seus elementos essenciais, ainda que essa continuidade não seja retratada por um desesperador e vazio ''eterno retorno''. Diferente do que diz Mateus Diniz, o roteiro não se trata de inversão dos papéis entre mestres e discípulos, uma quebra da autoridade tradicional -- uma crítica que cairia melhor aos filmes da primeira trilogia, afinal Luke se transforma em lenda na medida em que se nega a fazer aquilo que lhe é  sugerido por Obi Wan e Yoda, a saber, abandonar seus amigos ao sofrimento nas mãos de Vader até que tenha poder suficiente para matar o próprio pai -- e sim da valorização da transmissão de conhecimento mesmo quando as instituições mais conhecidas para a realização dessa passagem -- a família, simbolizada aqui pelo sangue Skywalker, e o sistema discipular jedi, figurado pela relação mestre e padawan -- estejam à beira do colapso e do esvanecimento. De modo contrário ao que pensa a crítica conservadora, é a primeira trilogia que traz jovens mais sábios do que os anciãos; e é o episódio atual que sente necessidade de mostrar aos jovens o verdadeiro sentido da tradição discipular.



Kylo Ren vê na ruptura total com o passado o caminho para se realizar todo o seu potencial: a visão é criticada ao longo de todo o filme, mas ''não do modo como você imagina''





Resta responder a uma pergunta: qual é a real fonte das críticas conservadoras, e também daquelas de fãs da primeira e segunda trilogias, aos novos desenvolvimentos da saga implementados por Abrams e Johnson? Tratarei desse problema na parte final dessa série de postagens.









[continua]
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sábado, 23 de dezembro de 2017

O Diamante Negro, o bruto Poder que vem de baixo, ou: O progressismo liberal destruiu Guerra nas Estrelas? Parte III

''Temos um heroi de volta nos Estados Unidos hoje porque temos um novo candidato para Presidência dos Estados Unidos, Barack Obama...Para todos nós que possuímos sonhos e esperança, [Obama] é um heroi.''

George Lucas

George Lucas possui conhecimentos de mitologia e história antiga, que usou para construir sua Saga, mas é possível também perceber sua sensibilidade liberal e social democrata em toda a narrativa


Este texto é o terceiro de uma série de postagens que se iniciou aqui e continuou aqui. Neles, debato as críticas que conservadores e direitistas em geral fazem ao progressismo [liberal, embora nem todos possam concordar com o uso desse último termo] que teria tomado conta da franquia Guerra nas Estrelas agora que ela se encontra sob a batuta dos estúdios Disney. Como fio condutor, dialogo com este texto de Mateus Diniz, que tem nítido sabor ''olavético''. Na postagem de ontem, busquei mostrar que o protagonismo feminino tão criticado na trilogia atual já estava intencionado e executado na saga desde seus primórdios. Agora, pretendo avançar na discussão de outros aspectos político-sociais  presentes no Episódio VIII.






Um dos pontos que mais tem chamado a atenção dos críticos ao arcabouço liberal em que ''Os Últimos Jedi'' estaria mergulhado é o caráter multi-étnico dos personagens do filme. Temos importantes personagens brancos, mas também orientais e negros. Mateus Diniz chega a citar a presença de um [possível] relacionamento inter-racial entre Finn e Rose [n'O Despertar da Força, Finn havia se enamorado por Rey]. Também nota que a relação entre Phasma, que agora sabemos ser uma mulher branca, e Finn evoca uma crítica ao racismo. Phasma diz para seu rival que ele ''sempre havia sido escória''. Posicionado em um plano mais elevado que sua antagonista, o novo heroi da Resistência responde sorrindo, ''escória rebelde''.






Não vou ''problematizar'' a interpretação da cena entre a líder Stormtrooper e seu antigo subordinado. Digamos que ela tem de fato um caráter de luta racial. Nesse sentido, Guerra nas Estrelas estaria fazendo de forma extremamente tímida uma metáfora que já era bem mais explícita em filmes de ficção científica meio século atrás, como é o caso d'O Planeta dos Macacos. Não me parece nada realmente ousado. Tampouco me parece inovadora a busca por ''representatividade'' étnica, para usar uma palavra bastante em voga em meios progressistas. Na verdade, essa discussão é mais uma que remonta à primeira trilogia de Guerra nas Estrelas, quando para responder às críticas de que sua galáxia era demasiadamente branca, George Lucas criou o personagem de Lando Calrissian, vivido por Billy Dee Williams. O mercenário/empresário nada mais era do que um Han Solo menos carismático, cujo papel se estica por dois filmes da primeira trilogia, e que muitos fãs querem ver de novo no próximo episódio.






Muitos fãs se escandalizaram com um stormtrooper negro, mas a diversidade étnico-racial já é tema de Guerra nas Estrelas desde os primórdios


Lando Calrissian não é uma exceção, e eu não preciso sequer citar os importantes atores negros que, como dizer, não aparecem nas telas em sua negritude humana mas que são inesquecíveis: a voz de Darth Vader, por exemplo, é de James Earl Jones. Assim como temos uma atriz negra, Lupita Nyong’o, por trás de Maz Kanata na atual trilogia, também tínhamos Ahmed Best como modelo para Jar Jar Binks e Femi Taylor como a escrava Oola, a dançarina acorrentada ao trono de Jabba. Outros personagens negros aparecem na segunda trilogia, como o comandante das tropas voluntárias de Naboo, o capitão Panaka vivido por Hugh Quarshie. Por fim, Lucas retratou negros na instituição mais significativa e quiçá mais importante do governo da galáxia, o Conselho Jedi: o Mestre Windu, um dos mais poderosos cavaleiros da Ordem, e interpretado na ''prequência'' por Samuel Jackson.





O Conselho Jedi, instituição mais importante da República, é composto por Mestres de raças, espécies e mundos diferentes





Diante de todos esses exemplos, a real questão a ser colocada é: por que os conservadores e direitistas ficaram tão sensíveis com a escolha de John Boyega como um stormtrooper desertor? É óbvio que a busca pela diversidade racial não foi inventada do nada por Abrams e Johnson, ela é um elemento bastante antigo e com o qual todos os fãs cresceram. Os atuais personagens orientais dão continuidade a essa tendência, não trazem nenhum salto qualitativo, assim como a presença de três ou quatro mulheres em posição de liderança também não transforma significativamente uma saga que já mostrava desde o início uma ou duas com esse mesmo perfil. Seria perspicaz olhar para o panorama político mais geral a fim de compreender que o cosmopolitismo liberal sempre foi tema caro a Guerra nas Estrelas. Vamos elevar aqui a crítica conservadora de Mateus Diniz a uma dimensão na qual ele não ousou chegar por causa, talvez, dos limites de sua própria ideologia.






Guerra nas Estrelas é o sonho de qualquer globalista. Ali, a aldeia global não é realizada em um planeta, mas em toda a galáxia. Todos aqueles trilhões de seres se submetem a um governo único e às mesmas instituições liberais: um Senado galáctico, uma espécie de parlamentarismo universal, em que todos os sistemas tem voz. Temos a realização da paz kantiana tão desejada por iluministas e advogados do otimismo antropológico. Guerra nas Estrelas é a defesa de uma ONU que deu certo e uma apologia à democracia. Essa galáxia é extremamente cosmopolita: não são apenas as diferentes raças que convivem, mas seres de diferentes espécies e mundos tem acesso a todas as atividades do governo e da economia baseados fundamentalmente no mérito individual. Pior ainda, essa galáxia é capitalista, e seu governo se dedica, principalmente, à segurança e à regulação das atividades econômicas, principalmente o comércio.



O Senado da Galáxia: o globalismo liberal abraça toda a galáxia, envolvendo-a em universalismo, meritocracia e cosmopolitismo



Alguém pode recordar que Lucas se fundamentou em teorias políticas clássicas, que remontam a Platão e Aristóteles, pretendendo mostrar como uma democracia pode se corromper e degenerar. A  luta entre liberdade e tirania seria antiga, se manifestaria em toda a História. Correto, desde que não se esqueça que ele possuía também referências muito mais recentes na construção de seu universo. George Lucas afirmou claramente em mais de uma entrevista que se inspirou na administração Nixon e na Guerra do Vietnam para compor sua batalha ideológica sideral. E para quem ainda tem algumas dúvidas, eis que o maestro da franquia diz com todas as letras que ''Anakin Skywalker é um jovem promissor que vai para o lado sombrio por causa de um político mais velho e se torna Darth Vader. George Bush é Darth Vader. Cheney é o Imperador.'' Nada mais explícito do que o terceiro ato d'A Vingança do Sith, que coloca uma frase de George Bush na boca de Anakin/Vader enquanto Obi Wan grita que ''defende a democracia''. Se o criador da franquia realmente pensa que esse embate entre tirania e democracia se perde nas brumas do tempo, ele claramente pensa também que o lado da luz está com os Democratas.



Anakin se torna Darth vader n'A Vingança do Sith, e em seu diálogo com Obi Wan reproduz uma fala de George Bush



Evidente que é possível reinterpretar essas mensagens à vontade, e o ''Universo Expandido'' e a imaginação dos fãs estão aí pra se apropriarem como queiram da obra. Os próprios conservadores e Republicanos fizeram isso muitas vezes, alegando que o Império era na verdade o totalitarismo soviético, que a Força era uma metáfora para os valores judaico-cristãos -- e Reagan não hesitou em dar o nome de ''Guerra nas Estrelas'' ao projeto de escudo de mísseis que os Estados Unidos começavam a implementar nos anos 1980. Porém, o caráter progressista, liberal, cosmopolita, globalista e vinculado à sensibilidade do Partido Democrata americano é óbvio demais na Saga. O que a Disney faz é dar continuidade a essa abordagem transformando a Primeira Ordem e o General Hux, comandante de seu exército, em alegorias para os nazistas. Assim como os jovens pilotando caças X-Wings, não posso imaginar nada mais, como dizer, americano. E Guerra nas Estrelas é isso, desde o início é uma ode aos valores americanos triunfantes no pós Segunda Guerra Mundial.



Luke Skywalker em momento Top Gun, realizando o sonho do jovem camponês de pilotar um caça em defesa da liberdade



A apresentação da Primeira Ordem com traços nazistas também serve ao objetivo da nova trilogia em dissociar a história da família Skywalker. Quando Lucas decidiu n'O Império contra ataca que Vader era pai de Luke e Leia, deu início a uma leitura que transformou a sensibilidade à Força cada vez mais numa possibilidade de casta ou aristocrática. Não me entendam mal: não estou concordando com as críticas de fãs que pensam que Rey jamais poderia realizar grandes feitos sem um treinamento rígido com um Mestre. Elas erram o alvo, esquecem que o próprio Luke não passou mais do que alguns dias convivendo com Yoda antes de enfrentar o próprio pai; e que, tendo conversado algumas horas apenas com o Mestre Kenobi, foi capaz de pulverizar a Estrela da Morte sem necessidade do computador de bordo de seu caça. A ''aristocratização'' da sensibilidade à Força estava no apelo ao sangue Skywalker, mais tarde reforçado com o conceito de midi-chlorians. Essa aristocratização nunca se consolidou de modo integral, pois existiam outras linhagens capazes de gerar seres poderosos como Yoda, Windu, Palpatine e Obi Wan; e porque Anakin, o ''escolhido'', havia nascido sem pai, gerado do sangue de uma escrava. Mas esse olhar era forte o bastante para que muitos fãs vissem nos desenvolvimentos da nova trilogia a suprema blasfêmia, para eles, da ''plebeização'' da Força.



A Primeira Ordem como alegoria para o Nazismo: em Guerra nas Estrelas, o mal ancestral é sempre associado com os inimigos da sensibilidade democrata americana



E eles estão parcialmente corretos, a Disney está abandonado esse conceito e adotando uma perspectiva mais igualitária, que defende que a Força, esse poder originário, pode se manifestar em qualquer ponto do cosmos. Há uma ênfase maior no elemento presente no nascimento de Anakin de uma escrava, transformando os proscritos, os órfãos, os marginais, os indivíduos ligados às atividades mais baixas da República -- como sucateiros, agentes de limpeza e lixeiros -- nos novos protagonistas da galáxia. Essa linha de raciocínio prossegue no novo panorama político-social da saga. Em vez de perder tempo com um confronto superficial entre partidários da democracia e da ditadura, os novos filmes da Disney avançam como nunca antes críticas à elite econômica que lucra com ambos os lados. O decodificador/ladrão vivido por Benicio del Toro argumenta com Finn que essa elite vende armas tanto para a Resistência quanto para a Primeira Ordem, tanto para ''mocinhos'' quanto para os ''bandidos''. A guerra nada mais era do que uma ''máquina'' feita para engordar aqueles que são cínicos o suficiente para não atrelarem sua moral a um só dos lados. Rose, falando com a voz dos escravos, espoliados e oprimidos, ensina a Finn que ninguém fica tão rico naquela galáxia sem lucrar com a opressão, e revela seu sonho de ''colocar abaixo aquela cidade'' em que os ricos se divertiam, expressão de seu desejo de derribar a ordem social que escora a galáxia.






Esse desenvolvimento da nova trilogia nos traz a oportunidade de reler a saga para melhor, fazendo pó de todo o arcabouço superficial erguido sobre as disputas partidárias americanas. Mais do que democracia ou ditadura, trata-se da necessidade de uma revolução nascida das bases contra os parasitas que se divertem enquanto os dois lados políticos se matam. Esotericamente, aquele mundo caótico e corrupto vê a Força se manifestar a partir das castas mais inferiores, ou mesmo dos sem casta, dos marginais -- uma apreciação vetada à perspectiva conservadora de cores ''olavéticas''. Noto aqui que Mateus Diniz, incomodado por [finalmente] descobrir que havia diversidade étnica na franquia, não estendeu sua repulsa ao estereótipo nazi-fascista dos vilões. Mas bateu forte no caráter subversivo representado pela ascensão de uma Força que vem de baixo, onde supostamente se encontraria o ''lado sombrio'', debaixo da Ilha, para onde Rey foi diretamente conduzida na primeira lição que lhe ofertou Luke: esse poder bruto, o Diamante Negro [1]  -- possível futuro nome do próximo episódio -- cuja contemplação atenta foi capaz de levar temor ao coração do Mestre.

Rey e o poder que vem debaixo da Ilha: há rumores que o próximo episódio será batizado de ''Diamante Negro'', uma menção ao temível poder bruto mencionado por Mestre Luke





Na próxima postagem vou abordar o tema Tradição na nova trilogia, mostrando também como o espírito meramente conservador da maior parte das críticas atuais distorcem certas mensagens do filme, impedindo que se vislumbre todo o potencial e qualidade dos rumos atuais da Saga.









[continua]


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[1] Título do futuro episódio é revelado

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

O Protagonismo Feminino naquela Galáxia distante, ou: O Progressismo Liberal destruiu Guerra nas Estrelas? Parte II

 "Bem, no primeiro filme, Luke era uma menina…Então a menina foi dividida em gêmeos. Assim, a menina estava de verdade lá, e é Luke quem foi introduzido. Em último caso, quando se pensa sobre isso, o Episódio IV é na verdade sobre a Princesa Leia. É a história dela. Ela que é verdadeiramente o tema do filme. Ela é quem tem a missão, quem lidera seu povo, e quem precisa de ajuda para fazer com que isso tudo seja realizado. Mas a história é contada do ponto de vista de Luke, porque no fim é ele quem vai confrontar seu pai. [...] A verdade é que são Leia e Padmé quem instigam a coisa toda, ainda que tudo seja contado do ponto de vista de Anakin e Luke. Embora o drama seja a queda de Anakin para o lado sombrio e sua redenção por Luke, o baluarte de tudo está em Padmé e Leia – elas tem o problema político pra resolver, ou seja, tem de liderar a Rebelião, de trazer paz à Galáxia, e todo esse tipo de coisa – elas é quem fazem isso."



George Lucas
A Princesa Leia, líder da Resistência, e que condecora os herois no final primeiro filme da franquia, foi um marco do protagonismo feminino no cinema



Esse texto é uma continuação da postagem anterior, que pode ser lida aqui, e que pretende discutir a abordagem conservadora-liberal e algo olavética que foi realizada nessa página a respeito d'Os Últimos Jedi.




Eu havia apontado que, em meio aos acertos de sua análise, Mateus Diniz caiu em alguns becos sem saída muito importantes. Há uma lacuna no artigo que pode dar a impressão de que o progressismo liberal está por trás apenas de Guerra nas Estrelas e não da indústria cinematográfica americana em geral. Pior ainda, fortalece um discurso de que houve um desvirtuamento dos novos filmes, que a saga estava isenta desse compromisso ideológico antes e que só agora, ao passar para as mãos da Disney, foi permeada pela sensibilidade liberal.




Vou problematizar alguns dos exemplos dados pelo autor sobre as pautas progressistas n'Os Últimos Jedi, apontando também que esse teor ideológico estava presente na franquia desde seus primórdios. Vou argumentar também que hoje, assim como em 1977, é  possível criticar ao mesmo tempo a mentalidade liberal que emoldura a história e desvincular esse arcabouço de outros elementos da obra -- e que permitem que a apreciemos de outro patamar. Por fim, pretendo alertar meus poucos leitores para o perigo do ''lado sombrio'' do conservadorismo.




Uma das facetas mais celebradas por Hollywood atualmente é o grau a que tem chegado o protagonismo feminino nos filmes dessa década. Hoje em dia, ninguém se escandaliza mais com o fato de que o filme da Mulher Maravilha, estrelado pela modelo israelense Gal Gadot, tenha bilheteria maior do que o Homem de Aço do britânico Henry Cavill. É notável, inclusive, que para além do fato de que se trata de uma história sobre uma heroína que foi criada para ser um ícone feminista, Mulher Maravilha traga, intencionalmente, uma serie de piadas e diálogos que expressam fases e tópicos presentes naquele movimento político ideológico: a ideia de que homens são dispensáveis para o prazer sexual feminino; piadas com o falo; críticas ao machismo da cúpula militar britânica; desprezo pelo papel feminino expresso na profissão de secretária etc.




O protagonismo de Leia, ao mesmo tempo líder político-militar e veículo de poderes da Força, tem sua continuidade na principal personagem da nova trilogia: Rey
"Os Últimos Jedi'' não caminha de modo tão forte assim na agenda feminista. Mas não há como negar que o filme afirma de maneira forte a existência de liderança feminina. A jornada Jedi é realizada por uma mulher, Rey, e o comando da Resistência repousa nas mãos de Leia. Temos a presença de mulheres em papéis chave, como Rose e a Comandante Holdo. As funções exercidas por elas não são exatamente um tema, um problema a ser tratado na história: são parte do cenário, uma característica natural, uma normalidade daquele universo. Se um conservador pensa que essa sugestão é um perigo ao patriarcalismo, então tem todos os motivos para denunciá-lo e apontá-lo como um instrumento progressista empurrado de modo um tanto implícito -- ''subliminar'' diria Mateus Diniz -- à audiência de Guerra nas Estrelas. Repito, à audiência de Guerra nas Estrelas, não somente d'Os Últimos Jedi.




Pois essa abordagem está presente na franquia desde seu primeiro filme. A Princesa Leia se tornou um ícone da onda feminista dos anos 1970 só rivalizado pela série da Mulher Maravilha estrelada por Lynda Carter, e boa parte das militantes da causa, muitas das quais cresceram com a primeira trilogia, a viam exatamente dessa maneira [1]. Leia não é uma mulher frágil que será resgatada por um heroi com uma espada. Ela já era a principal líder da rebelião. Logo quando apresentada a Luke e Solo, a Princesa [2] toma a frente do resgaste, que critica a todo instante por sua absoluta falta de estratégia. Ela coloca Han em seu lugar de subordinado [antes de perceber de que se trata um líder nato n'O Império contra-ataca] de modo tão veemente quanto Holdo faz com Poe Dameron no episódio que se encontra nas telas.




Para aqueles que desejariam contra-argumentar só com a quantidade à mão, dizendo que nos novos filmes o número de mulheres na posição de liderança se multiplicou, lembro que, apesar disso, ele não ''mudou de nível''. A figura de Leia era muito mais impactante em 1977 do que a presença de 3 ou 4 mulheres entre os personagens principais atualmente. Estamos falando de um filme lançado há quarenta anos, quando os Estados Unidos acabavam de sair de um período em que a classe média ianque reduziu o papel feminino à propaganda da cozinha americana, lotada de eletrodomésticos, trincheira das mulheres em famílias que viviam em subúrbios conformistas [notem o sucesso de séries como ''A Feiticeira'' ou ''Jeannie é um Gênio'']. Imaginem o potencial estrondoso dessa personagem em uma América do Sul de então.




Ainda sobre este ponto, Mateus Matos argumenta que o feminismo também pode ser percebido na presença exclusiva de homens no ''lado sombrio'', enquanto as principais personagens femininas aparecem sempre do lado da Resistência, do lado ''do bem''. Concordo que esse é o caso, discordo mais uma vez que seja novidade. Podemos dizer o mesmo das outras duas trilogias: dentre os principais personagens, as mulheres estão representadas quase que exclusivamente do lado reto e justo, como a Comandante Mon Mothma na Aliança Rebelde [presente tanto n'O Retorno de Jedi, quanto n'A Vingança do Sith e ''Rogue One'']. Do lado sombrio sempre abundaram figuras masculinas: Darth Sidious, Darth Vader, Darth Maul, Conde Dooku, Snoke, Kylo Ren, Tarkin e outros. E, àqueles que se apegam ao fato de que a principal representante do lado luminoso é agora uma mulher, respondo que em alguns dos rascunhos feitos por George Lucas quando da criação de Guerra nas Estrelas esse era justamente o caso de Luke, que seria uma jovem apaixonada por Han Solo [3]O personagem principal da série foi dividido em dois, um homem que emulava um jovem Rei Arthur, e uma princesa, sua contra-parte e mais tarde irmã gêmea. Eis a demonstração inequívoca de que o criador da Saga sempre esteve antenado com a agenda feminista, ainda que apenas como expressão dos valores que partilha como cineasta ianque. Não foi a Disney que inoculou esse discurso na obra. 


A Comandante Holdo não era uma das principais lideranças da Resistência, mas é alçada a essa posição após Leia e Akbar terem sido atingidos em um ataque da Primeira Ordem


Somos colocados aqui diante daquelas alternativas citadas na postagem anterior. Ou jogamos toda a saga fora a partir de um purismo conservador e anti-liberal, ou, assim como fizemos com o filme original, nos permitimos separar o joio do trigo, mantendo os elementos da narrativa que superam essa ideologia, e reinterpretando todos os demais que lhe estão ligados. Eis aqui um ponto importante. Os fãs que cresceram com as trilogias anteriores não se cansaram de reler Guerra nas Estrelas. Nada há de esquisito nisso: Desde o momento em que publicizada por um autor, a obra não mais lhe pertence por inteiro. Ela será interpretada e reinterpretada por outros, continuamente. Quanto mais ampla e universal for, mais e mais leituras vai ser capaz de gerar. O que os fãs chamam de ''Universo Expandido'' nada mais é do que um conjunto imenso de releituras em cima de releituras, e muitos chegam ao ponto de acreditar, ingenuamente, que sua interpretação é aquela intencionada por George Lucas desde o princípio [4]. Esse é o caso da mitologia construída em cima dos Sith. Até hoje lembro do meu espanto quando o irmão de uma antiga namorada me disse, logo depois d'Ameaça Fantasma, que considerava Darth Maul mais poderoso do que os Jedi. Ele revelava uma admiração pelo grupo de adeptos do ''lado sombrio'' que só se intensificaria naquela nova geração de fãs, alguns dos quais os elevaram até a verdadeiros herois, em vez de se identificarem com os ''dogmáticos'' Jedi. É claro que não era essa a intenção de George Lucas, que sempre viu nos Sith agentes perturbados, veículos da destruição e da ira, mergulhados em uma paixão da qual os estoicos Jedi estavam a salvo.




Nada de mal há nessas apropriações e releituras, repito, é assim mesmo que funciona a repercussão de grandes obras. Elas são fecundas. E também pode ser fecundo o protagonismo feminino em Guerra nas Estrelas. Assim como nos filmes antigos, a trilogia da Disney não traz nenhuma militância contra os arranjos familiares enraizados na relação entre homens e mulheres. Não se prega nos filmes uma revolução de costumes. A afirmação da liderança feminina é dada em outros âmbitos. A de Rey, inclusive, se desenrola em um cenário místico e esotérico. Nos momentos de crise, no terreno da busca espiritual e no da metafísica o papel das mulheres não é mera reprodução das formalidades sociais, por mais que essas últimas possuam justificativas na natureza dos sexos. Em mais de uma corrente espiritualista e esoterica, a mulher é a expressão de uma face da divindade, quando não a representação do próprio Absoluto, passível de ser iniciada e realizada enquanto mestre. O que torna apropriado o papel de Rey em um momento em que a Saga se prepara para deixar de lado o ''dogmatismo'' Jedi, marcado por um conjunto de adeptos masculinos e celibatários. O protagonismo feminino não é um problema em si, ele é também solução, um princípio que é sempre atuante, ainda que por trás dos panos, e que em muitos casos deve ser explicitado e realizado.





Na próxima postagem vou dar continuidade a essa abordagem, mostrando como Guerra nas Estrelas pode ser criticado em sua mentalidade progressista, usando para este fim os demais exemplos dados por Mateus Diniz, e outros mais ainda; e o modo como hoje, assim como no passado, a Saga pode ser desvinculada dos efeitos mais deletérios dessa mentalidade e relida em outro nível. De modo menos explícito, estarei criticando os próprios limites do repúdio conservador ao progressismo. Vou abordar agora outros aspectos, como a política, as relações inter-étnicas e a hierarquia entre mestre e discípulo naquela galáxia [não] tão distante.


[continua]



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[1] Leia era e continua sendo um ícone feminista e Uma heroína feminista . O seguinte artigo trata da polêmica envolvida n'O Retorno de Jedi, quando Leia é retratada como uma escrava sexual quando capturada por Jabba. Claro que nem todas as feministas se satisfazem com Guerra nas Estrelas, elas gostariam que a Saga avançasse ainda mais nesse ponto, mas esse impulso faz parte da natureza do próprio progressismo.

[2] Na trilogia atual, Leia abandona o seu epíteto de Princesa e passa a ser chamada de ''General''. Em uma das primeiras cenas d'O Despertar da Força vemos um velho combatente, representando as gerações anteriores, dialogando com Pode Dameron e afirmando que ''Leia é general para você, mas para mim continua sendo da Realeza''. Leia é uma nobre por função social em seu planeta -- o primeiro a ser destruído pela Estrela da Morte, mas uma líder militar na Rebelião e na Resistência. O papel de Princesa, porém, tem também traços arquetípicos, ou antes simbólicos e míticos.

[3] Uma princesa chamada Luke?

[4] Alguns fãs crêem piamente que todo o desenrolar do universo de Guerra nas Estrelas já estava elaborado por George Lucas desde o princípio. Os fãs da segunda geração, inclusive, se abraçam à ideia de que Anakin Skywalker sempre havia sido o protagonista principal da franquia, que desde sempre era o ''escolhido'' na história, o messias que traria ''equilíbrio'' para a Força. Ora, muitos desses e outros conceitos provavelmente foram criados depois: aqui. Na verdade, parece que quando do lançamento do filme original, em 1977, George Lucas não havia se decidido sequer que Darth Vader era de fato pai de Luke, e que o heroi era irmão de Leia. Esse ponto não é fundamental para a minha argumentação, mas adianta algo de que tratarei mais tarde, a tendência de uma geração de fãs de perceber a sua perspectiva ou experiência de uma obra como a essência última e acabada da dita cuja. 

O progressismo liberal destruiu Guerra nas Estrelas?


''A idéia de desistir da democracia, que muitas vezes, em época de crise, você nota no decorrer da história, seja com Júlio César, Napoleão ou Adolf Hitler. Você vê essas democracias sob forte pressão, em uma situação de crise, abrindo mão de parte da liberdade que elas têm e do sistema de controle, em favor de alguém com uma forte autoridade para ajudá-los através da crise"

George Lucas explicando em que ideias e eventos se baseou para construir o personagem de Palpatine




O novo trio de herois do Universo de Guerra nas Estrelas, destinado pela Força a substituir Luke, Leia e Solo

Pretendo discutir o seguinte texto, que tem sabor olavetico e conservador: [https://medium.com/@mateusmatosdiniz/the-last-jedi-como-o-progressismo-destruiu-star-wars-27e79d575748]



O autor coloca questões interessantes sobre Guerra nas Estrelas. Ele argumenta que a franquia se tornou instrumento de propaganda de pautas do progressismo liberal [por ser olavete, talvez o autor preferisse retirar o adjetivo 'liberal' que vou usar à vontade daqui por diante]. Essas propagandas não seriam bem propagandas, mas antes sugestões ''subliminares''. Não há uma discurso articulado, explícito, militante que defenda essas pautas nos filmes, segundo o articulista. Mas eles apresentam como normais situações ligadas a essas pautas, e cuja apresentação acaba modelando a percepção e a mentalidade das novas gerações, que passam a associar essas situações com heroísmo, sacrifício, retidão, e se tornam simpáticas com os personagens que as veiculam. O panorama geral delineado está correto. O que não impede que esteja também permeado de equívocos que vou discutir abaixo.



Em primeiro lugar, a análise do autor não serve a Guerra nas Estrelas de forma particular, ela se estende a todo o universo cinematográfico nascido de Hollywood. Desde pelo menos o início da Guerra Fria nos anos 1940, mas provavelmente até antes, o cinema se tornou cavalo de batalha da guerra cultural ianque, que visa promover seus modelos e hegemonia através da idealização do ''american way of life''. Não só o cinema é ponta de lança nessa 'cruzada', mas todo o universo pop, que inclui também novelas, séries, HQs etc. Isso quer dizer que, praticamente todo ''pipocão'' de Hollywood traz, em algum grau, a influência do progressismo liberal, veiculando as pautas que lhe são mais caras em determinado momento.


Essa influência pode ser algumas vezes militante, explícita e tonitroante. O filme é, algumas vezes, peça de propaganda ianque, como Rambo II. Na maioria das vezes, no entanto, ela é sugestiva, indireta, apresentada antes de tudo como o arcabouço de normalidade em que a história e os personagens se desenvolvem, como lembra bem o autor do texto. Não é sequer necessário fazer do filme mero instrumento de propaganda, basta atentar para o fato de que os produtores, os diretores, roteiristas e atores estão, em sua maioria, mergulhados na mentalidade progressista liberal. Mais uma vez dou méritos ao autor por demonstrar esse ponto citando entrevistas de Daisy Ridley, Jeremy Shada e Rian Johnson, em que são defendidas agendas da militância afro, feminista e “gayzista”. Mas o ponto também estaria demonstrado caso fossem citadas entrevistas de mais de 95% dos profissionais envolvidos com Hollywood. Claro que esta mentalidade se refletiria nas obras, mesmo que os dito cujos não se interessassem em propagandeá-la de modo mais ou menos implícito.

 
A Comandante Holdo assume a liderança da Resistência após ataque aos líderes que deixou Leia momentaneamente incapacitada: protagonismo feminino

Para quem não compartilha das pautas do progressismo liberal, só restaria duas soluções: ou se afastar completamente dos produtos de Hollywood e do universo pop em geral, denunciando-os e boicotando-os; ou adotando uma alternativa intermediária, que concilie denúncia e releitura das obras nos pontos e elementos em que não estejam totalmente vinculadas a estas pautas. Essa última solução é a mais comum: mesmo os críticos dos instrumentos de guerra cultural ianque consomem as obras, mas discernindo nelas aquilo que pode ser dissociado da mentalidade subjacente -- afinal, a maior parte dos filmes, repito, não pode ser reduzida à mera propaganda, o 'american way of life' e temas que o circundam aderem a eles mais como contexto, como moldura.


Mas o autor não parece seguir esse caminho, ele entende que Guerra nas Estrelas está tão comprometido com o liberalismo que foi destruído. Seria uma posição polêmica, e, até onde vejo, equivocada. Muita gente pensa dessa maneira, vê a saga como expressão dos valores e da geopolítica americanos, e portanto uma porcaria do começo ao fim. No entanto, há trocentos elementos naquela galáxia distante, grande parte deles analisados exaustivamente em livros, sites, artigos, teses etc., que apontam que a saga tem muito mais a dizer e mostrar que um servilismo ao Ocidente globalista.

 
Possíveis relações amorosas inter-étnicas em Guerra nas Estrelas: Rey parece ser objeto de amor de Finn, que por sua vez é objeto de amor de Rose
Eu penso que o erro do articulista é mais grave, no entanto. O que ele parece dizer é que Guerra nas Estrelas FOI destruído. Ou seja, a saga podia ser ''salva'' das garras do Ocidente antes, mas não agora. Agora ela é um instrumento de marketing cosmopolita. Ele cita alguns pontos d'Os Últimos Jedi e dos filmes da Disney que exemplificariam essa agenda: o caráter multi-étnico dos novos personagens, inclusive com a possibilidade de uma relação entre Finn [negro] e Rey [branca] ou entre o primeiro e Rose [asiática]; o protagonismo feminino tão a gosto do feminismo; a crítica ao racismo contra os negros representado na relação entre Finn e Phasma; a crítica ao machismo no descarte de Han Solo logo no primeiro filme da nova trilogia; a subversão entre a figura do mestre e do discípulo representada em um Luke covarde e em uma Rey corajosa; o abandono dos valores familiares com o descarte da necessidade da linhagem Skywalker; o apoio à revolução social dos pobres contra uma elite econômica expressa no arco de Finn e Rose no Cassino; etc.


Vou tratar destes pontos na continuação desse texto, mas antes quero pontuar aquilo que considero a principal fragilidade do artigo que discuto: supor que a Disney tenha inovado com Guerra nas Estrelas ao incluir, na moldura dos novos filmes, essas supostas sensibilidades progressistas. Ou seja, a falsa ideia de que o restante da Saga estava a salvo dessa moldura, ou que ela fosse menor ou menos fundamental do que apresentada nos novos filmes da franquia. Depois vou propor uma razão de outra ordem para que isso venha à tona mais fortemente agora e que pretende explicar o porquê essa análise tem o potencial de se tornar comum entre parte dos fãs da saga.



[continua]