segunda-feira, 22 de março de 2021

DAS MENTIRAS QUE OLAVETES CONTAM, ou: a balela de que as ideias de Dugin teriam sido condenadas como heréticas pelo Patriarcado de Moscou

 ''Todo o universo de idéias do professor Dugin é um reflexo do drama estrutural, interior da Igreja Ortodoxa.''

Olavo de Carvalho



Dugin lendo ofício em uma Igreja Russa



Alguns discípulos de Olavo de Carvalho decidiram espalhar uma mentira infame entre cristãos ortodoxos, a de que existiria uma condenação formal do Patriarcado de Moscou às ideias de Alexandr Dugin. [1]


Pra manter a invencionice, se utilizam de um texto retirado do livro "Новые религиозные организации России деструктивного, оккультного и неоязыческого характера'' [''Novas organizações religiosas na Rússia e de natureza destrutiva, ocultista e neopagã''], que é um dos oito volumes de uma verdadeira ''enciclopédia'' chamada ''Новые религиозные организации России деструктивного и оккультного характера'' ["Novas organizações religiosas russas de natureza destrutiva e oculta"].



As duas primeiras edições foram publicadas em 1997 como um guia pelo Departamento Missionário do Patriarcado de Moscou, sem no entanto implicar qualquer pronunciamento oficial sobre os diferentes tópicos e movimentos citados por seu autor, de quem falaremos mais adiante. A terceira edição, muito mais ampliada, foi publicada, por sua vez, pela Editora Peregrino entre 1999 e 2002.



O compilador da obra é Igor Vladislavovich Ponkin, que tem certa presença acadêmica e política, e pesquisa movimentos não-cristãos surgidos a partir dos anos 1990.



Ponkin não é nem nunca foi funcionário ou voz oficial do Patriarcado. Em evento acadêmico realizado no fim de 2002, o Padre Andrey Igorevich Khvylya-Olinte, que é também teólogo e doutor em Direito, e exercia chefia no próprio Departamento Missionário, declarou que ''[H]á várias pessoas que se declaram funcionários do Departamento Missionário Sinodal, entre elas Igor Vladislavovich Ponkin, que possui muitos pseudônimos - entre eles "Karelin" e "I. Kulikov ". Ele também não é funcionário do Departamento Missionário Sinodal. Peço a todos que estejam atentos às reivindicações arbitrárias dessas pessoas de serem membros do Departamento Missionário Sinodal" [2].



Além do texto não fornecer a posição da Igreja, seu compilador foi DESAUTORIZADO por figuras com posição formal no Departamento, e que possuem benção do Patriarcado para levar a efeito seus estudos sobre movimentos religiosos. 


A própria ''enciclopédia'' em questão foi analisada ao longo dos anos 2000 por acadêmicos e por figuras vinculadas ao Departamento Missionário, recebendo diversas e sólidas críticas, incluindo aí o teólogo e prestigiado acadêmico Alexander Leonidovich Dvorkin, esse sim premiado pelo Patriarcado e um dos maiores militantes contra o surgimento e crescimento de cultos perigosos [de uma perspectiva ortodoxa] na Rússia. Dentre outras coisas, Dvorkin disse que o livro' de Ponkin "contém muitos erros, dados não verificados e não confiáveis e estatísticas absolutamente fantásticas''. Além disso, continua ele, haveria uma simpatia preocupante com seitas neopentecostais, que, misteriosamente, parecem não ser consideradas perigosas. O que talvez explique uma das abordagens de Ponkin que vamos analisar mais abaixo.



A conclusão é inescapável: Qualquer um que diga que tal texto e o livro do qual ele saiu significa uma posição oficial do Patriarcado de Moscou está mentindo na cara dura. Infelizmente, uma tradução permanece publicada em um ou outro blog de cristãos ortodoxos, certamente por influência de Fábio L. Leite e amigos olavetes.



O objetivo da manutenção dessa mentira é, evidentemente, político. Olavo de Carvalho, ele mesmo um OCULTISTA que se diz católico-romano mas frequenta igrejolas pentecostais buscando curas pra hérnia, que defende uma união entre o Vaticano e a Maçonaria estaduninense, e que possui uma visão de mundo moldada por Fritjof Schuon, sob influência de quem converteu [''reverteu''] toda a família ao Islamismo. Desse sim Fábio Leite gosta.


Olavo, como qualquer pessoa sensata sabe, é agente de desinformação do Estado norte-americano. Mora na Virgínia, milita em prol do neoconservadorismo ianque e do liberalismo econômico, e defende a destruição do Brasil e a administração de nosso território pelos EUA.


O ''guru da Virgínia'' considera a Igreja Ortodoxa, e particularmente o Patriarcado de Moscou, como uma extensão ''da KGB" [sic]. E já declarouy que todas as paróquias cristãs ortodoxas no Brasil estão sob controle de tariqas muçulmanas.



Os delírios não param por aí. O homem que dizem ter escapado de um manicômio sem alta médica depois de tentar viajar por dimensões espaço-temporais com uma barca egípcia, tem não só Alexandr Dugin como inimigo, como o considera uma mera consequência do verdadeiro mal que se esconde no Oriente: para Olavo, o imperialismo russo [sic] e o globalismo são consequência direta da teologia ortodoxa. Por trás do ''eurasianismo'' e de todos os males possíveis e imagináveis que a Rússia espalharia pelo mundo, estaria o erro teológico fundamental: os ensinamentos da Igreja Ortodoxa.

 

Ou seja, Fábio Leite e companhia, incluindo todos aqueles que divulgam a versão mentirosa da suposta condenação de Dugin pelo Patriarcado de Moscou, tem um problemão: para seu guru e mestre, o verdadeiro problema das ideias de Dugin é que elas são moldadas demais pela mentalidade da Igreja.

 


Assim, pra Olavo o problema não é Dugin, e sim a Ortodoxia. Já perguntei a Fábio L. Leite a razão de ele se dizer cristão ortodoxo e ao mesmo tempo concordar com a leitura que seu guru faz da Igreja, mas ele nunca deu qualquer justificativa sólida. Talvez porque seu tempo esteja ocupado demais defendendo Sara Winter, outra olavete histriônica, vinculada ao neonazismo e à bozóloucura, e cuja história se associa à militância em prol de causas geopolíticas afins com os EUA. [3]


Desfeita a artimanha, resta, para aqueles que queiram perder o seu precioso tempo, olhar o texto que eles divulgam. Não é à toa que pessoas simpáticas a Olavo de Carvalho tenham simpatia pela peça. Ela não tem qualquer intenção de propor uma análise honesta. É um conjunto de recortes de pronunciamentos de Dugin em diferentes âmbitos, de conferências políticas a manuais de história da religião, todos eles lançados nos anos 1990, antes da proposta da Quarta Teoria Política. Esses recortes são tratados da forma mais desonesta possível, como é típico na erística reproduzida por olavetes.


Temos ali as mesmas estratégias de "debate’’ que tanto enganam incautos: uma série de distorções, giros argumentativos, denúncias, citações descontextualizadas, muitas das quais demonstram a ignorância do autor sobre os temas tratados. Vou citar apenas alguns exemplos:

 

1. Logo no início do texto é dito que "GUÉNON constitui uma autoridade incontestável para A. DUGIN.'' É uma tentativa de construir um espantalho: Se Guénon é autoridade incontestável para Dugin, e sendo Guénon um muçulmano sufi, logo as ideias de Dugin se desviam da Igreja. Só que Dugin tem críticas a idéias de Guénon, como a da existência de um núcleo esotérico comum a todas as religiões. Além disso, se possuir influência de Guénon é um "demérito’’ pra alguém, então todas as obras e textos de Olavo de Carvalho deveriam ser jogados fora. Olavo chega a PLAGIAR argumentos de Guénon em livros seus, como n’O Jardim das Aflições, confiando no desconhecimento das obras do metafísico francês.

 

2. O texto aponta que “As primeiras pesquisas religiosas de A. DUGIN datam do início dos anos 90 do século passado’’, e logo depois considera essas pesquisas iniciais como parâmetro de análise. Por quê? Qual o sentido disso? Se analisasse os escritos do Bem Aventurado Santo Agostinho por esse mesmo critério, o autor o chamaria de maniqueísta. Se analisasse os escritos de Olavo por esse mesmo critério, concluiria que ele era um astrólogo perenialista vinculado a cultos obscuros dos irmãos Shah.

 


3.  O autor também "acusa"  Dugin de reconhecer  a primazia do não ser”. Ele não nos dá nenhuma justificativa para o escândalo. Provavelmente porque confunde esse conceito com a ideia de "Nada’’. Mas o próprio Guénon esclarece que se trata de algo completamente distinto. O "não-ser’’ é aquilo que está para além do que a teologia escolástica chamou de "Ser". É a Realidade Absoluta e Inominável, absolutamente transcendente e que não pode ser contida por qualquer manifestação. O conceito não traz nenhum problema para os cristão ortodoxos, apenas para a teologia ocidental derivada do tomismo.

 

4.  O autor admite que a obra “O Fim do Mundo. Escatologia e Tradição’’, de 1998, é proposta por Dugin como um “manual de história”. Mas por algum motivo maluco, acrescenta que, por possuir posições pessoais do sociólogo, tem de ser lida como obra de "caráter dogmático". A absurdidade e desonestidade é gritante. E ressalto: o manual de história data de 1998, vinte e três anos atrás. O que fazia Olavo de Carvalho em 1998? Já tinha saído da tariqa? Já tinha parado de se definir religiosamente como um "cristão-muçulmano-hindu-judeu’’? Aliás, o que escrevia Olavo de Carvalho sobre os EUA em 1998? Muitos de seus discípulos mais fanáticos ficariam surpresos.

 

5.   Outro escândalo é com a declaração de que “O Cristianismo não substituiu, mas elevou e consolidou a fé antiga pré-cristã.’’ Se fica ofendido com frases como essa, o que o autor pensaria de São Justino Mártir e de São Clemente de Alexandria? Tudo que é verdade na história espiritual da homem é também cristão. As sementes do Verbo foram jogadas para todos os lados. Não há problema algum na consideração feita por Dugin.

 

6.   O autor implica com os diálogos empreendidos por Dugin com muçulmanos. Imagino que ficaria também doente com algumas posições de São Gregório Palamas quando capturado por muçulmanos, e que vão muito além de tudo o que Dugin tenha dito sobre o tema. Mas o verdadeiro flagrante do que está por trás do autor se dá quando analisa frases a respeito de Crowley. Segundo ele, "DUGIN culpa o próprio cristianismo pelo aparecimento das concepções anti-cristãs de A. Crowley’’. É verdade, Dugin responsabiliza mesmo o esvaziamento espiritual do "cristianismo ocidental'' como cenário perfeito para a proliferação de pessoas como Crowley. O autor quer tomar as dores de católico-romanos e anglicanos, estas sim heresias de acordo com a perspectiva cristã-ortodoxa. Parece que Dvorkin não estava tão errado ao apontar as simpatias de Ponkin pelo protestantismo.

 

Enfim, muito mais coisa poderia ser citada, mas a essa altura já deve estar evidente que o texto é uma piada de mau gosto do qual nada, absolutamente nada se aproveita. Além disso, a Quarta Teoria Política foi desenvolvida mais de uma década depois.


A grande questão que resta é a seguinte: Por que alguns cristãos ortodoxos colocam sua fé em segundo lugar quando se trata de defender os projetos de Olavo de Carvalho? Para agradar ao líder da seita, eles trabalham até mesmo com o Pai da Mentira pra desinformar membros da Igreja. 


Nunca é demais lembrar: Dugin é nosso irmão de fé. Já Olavo de Carvalho, o liberalismo ianque, Bozó, Sara Winter e gente semelhante defendem publicamente posições verdadeiramente incompatíveis com a Ortodoxia.


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[1] https://vidaortodoxa.blogspot.com/2014/06/patriarcado-de-moscou-condena-dugin.html

[2] https://iriney.ru/main/dokumentyi/rukovodstvo-missionerskogo-otdela-razoblachaet-samozvanczev.html

[3] ''Olavo tem declarações publicadas em livro dizendo que a Igreja Ortodoxa possui erros em seus ensinamentos, esses erros estando na origem do ''imperialismo russo''.

Os russos seriam imperialistas porque a Ortodoxia seria uma Religião Imperial e o verdadeiro agente histórico por trás do ''eurasianismo''. O grande perigo vindo da Rússia não seria Alexandr Dugin, que não passaria de um instrumento do erro teológico da Igreja Ortodoxa.
Eis a prova nas declarações do próprio Olavo:
''10. O verdadeiro agente histórico por trás do eurasismo
Um exemplo de força histórica que transcende infinitamente as fronteiras e a duração de Estados e Impérios é a Igreja Ortodoxa, da qual o prof. Dugin se diz um crente. Foi ela que deu unidade e conteúdo cultural ao império de Kiev. Sobreviveu a ele quando o centro de poder moscovita instaurou um novo império. Sobreviveu à queda desse império e às seis décadas de terror que se seguiram, e saiu incólume ao ponto de poder inspirar ao prof. Dugin um novo projeto imperial russo. As sucessivas formações nacionais e estatais que apareceram e desapareceram do mapa russo ao longo dessa história são apenas sombras que o corpo gigantesco da Igreja Ortodoxa projeta sobre o mundo oriental, conservando sua unidade de propósitos enquanto as forças políticas surgem e se desfazem no ar como bolhas de sabão. Prof. Dugin: olhe para a sua Igreja, e saberá o que é um agente histórico. As unidades geopolíticas nascem da iniciativa dos agentes históricos e só parecem agir por si próprias porque os agentes genuínos, além de discretos por natureza, atuam num ritmo de fundo, mais lento do que a própria formação e dissolução das unidades geopolíticas.
A força da Igreja Ortodoxa como agente histórico penetrou fundo no cérebro do próprio prof. Dugin, moldando a sua noção “holista” do império teocrático. [...] O projeto eurasiano é o único caminho para a Igreja Ortodoxa se ela não quiser permanecer confinada aos limites da nação russa, fracassando em sua declarada missão como religião universal. Enquanto isso, a Igreja Católica Romana pode se expandir confortavelmente para as últimas fronteiras do Paraguai e da China sem necessidade de carregar um Império em suas costas. E isso é o que acontece de fato, enquanto a Igreja Ortodoxa, através do professor Dugin, está ainda procurando por uma saída para o mundo e não vê outros meios de encontrá-la senão se constituindo em um Império Mundial. Todo o universo de idéias do professor Dugin é um reflexo do drama estrutural, interior da Igreja Ortodoxa. Toda a conversa sobre fronteiras geopolíticas é apenas um arranjo estratégico para tentar, mais uma vez, realizar o impossível sonho de um grande e portentoso agente histórico que, ao escolher ser um religião imperial, se condena ou a permanecer presa em fronteiras nacionais ou dar início a uma guerra mundial.''
Na avaliação de Olavo, a solução está na Igreja Católica-Romana, sendo a Ortodoxia um equívoco de consequências catastróficas [globalismo, império teocrático universal etc.]
Não preciso acrescentar que o mesmo pseudo-filósofo declarou que TODAS as paróquias ortodoxas no Brasil são meros tentáculos e disfarces de tariqas muçulmanas.
Como um ortodoxo pode conciliar sua lealdade a Olavo de Carvalho ao pensamento do sujeito sobre a Igreja Ortodoxa é algo que caberia a Fábio Leite responder e explicar.
Além de olavete, Fábio é também amigo de Sara Winter, uma maluca que resolveu criar um acampamento potencialmente terrorista em Brasília e está sendo investigada pelo STF por ameaças ao Ministro Alexandre de Moraes.
Winter declarou que sua intenção é ''ucranizar'' o Brasil, e que tomou a iniciativa do acampamento por causa de Olavo de Carvalho. A Ucrânia foi um país fracionado por guerras civis impulsionadas pela OTAN.
Não à toa, as recentes operações da PF contra os disseminadores de Fake News tem levado Fábio a uma intensa atividade nas redes sociais, protestando contra a terrível ''arbitrariedade'' do ato e um tal ''golpe'' do STF.
Tudo indica que as ligações de Fábio Leite com Olavo de Carvalho são íntimas demais. Transcendem uma inspiração ideológica, são discipulares. Ele pode ser visto tranquilamente como um representante da seita olavética na Ortodoxia. Talvez até um infiltrado, caso se resolva mexer nesse vespeiro. O que seria um perigo, já que ele é formado num seminário e pode ser ordenado.
Não seria estranho que um seminarista ortodoxo fosse ao mesmo tempo discípulo de um pseudo-guru que acredita que a Rússia é culpada pela tragédia do imperialismo/globalismo e que coloca a responsabilidade desse crime na agência histórica e nas doutrinas da Igreja ortodoxa.
Olavo passou pela tariqa de F. Schuon, que infiltrava seguidores seus em diversas religiões a fim de influenciá-las. A seita possuiria a ''verdade'', e seus adeptos tratariam de ler as doutrinas das instituições religiosas segundo essa ''luz''.
Um possível padre cristão ortodoxo com lealdades nebulosas com um pseudo guru ocultista com ideias fortemente anti-ortodoxas seria problemático para o crescimento da Ortodoxia em nosso país. Como fiéis da Igreja, precisamos estar atentos pra isso.''



quarta-feira, 10 de março de 2021

Lula e o mito do paraíso perdido

 O mito mais estapafúrdio difundido em certo círculos do sistema político-partidário não é o fanatismo em torno de chavões e rompantes toscos de Bozó. E sim a narrativa esdrúxula de um suposto paraíso perdido do governo Lula.



O primeiro mandato do PT, entre 2002 e 2006, foi quase que uma continuação das políticas macro-econômicas de Fernando Henrique Cardoso. Para ser justo com o sapo barbudo, temos de admitir que ele foi muito melhor que seu rival uspiano. Existiram de fato diversos itens em seu governo que o tornavam bem superior a tudo que se viu na destruição nacional empreendida pelo PSDB.

A maior virtude foi conseguir enterrar a ALCA. Conduzida com mão de ferro por diplomatas do nível de um Celso Amorim, o Brasil rompeu com a subserviência ao unilateralismo ianque e se tornou líder na construção de mecanismos multilaterais que poderiam apontar, futuramente, para uma multipolaridade: os Brics, a aposta no Mercosul, os investimentos nos vizinhos, os diálogos da UNASUL. Houve também dedicação ao programa nuclear e à defesa do país.

Mas todas essas iniciativas, por melhores que fossem, sofriam uma restrição muito forte: a base industrial cada vez menor. E nosso processo de desindustrialização era alavancado justamente pela política macroeconômica neoliberal a que Lula sempre esteve abraçado.

É verdade que ele buscou apoiar, principalmente em seu segundo mandato, a construção civil. Mais uma vez, por mais que a existência de políticas industriais seja preferível a política industrial nenhuma, as do governo Lula foram evidentemente insuficientes.



E ele deu sorte. A partir de 2005, as commodities viveram um boom no mercado internacional, permitindo aliviar as contas públicas e dar ao petista a oportunidade de sustentar políticas de transferência de renda que impulsionaram o consumo da ''Ralé" como nunca visto depois do primeiro Plano Cruzado. O país cresceu a um ritmo que não conhecia desde o fim dos anos 1970.

Mas era um crescimento ilusório. Não havia aumento da produtividade, a indústria não participou da festa. Os setores que se expandiram eram os de serviços de baixa qualificação. Aquilo que alguns economistas apontaram como ''economia de shopping''.

Mas o PT vendeu a miragem como símbolo da formação de uma ''nova classe média''. Essa ''Ralé'' e essa classe popular periclitante, que dava ''rolê em shoppings'', e que trabalhava como lojistas, cabelereiros e garçons, seriam a marca da ascensão popular e da nova sociedade igualitária que o PT estaria criando. O próprio critério da divisão das classes em faixas de renda já denunciava toda a ideologia nacional-consumista que estava por trás do olhar petista. Para mostrar que acreditava de fato na estupidez, o PT decidiu realizar um acordo com as principais lideranças evangélicas, abandonando a antiga base católica-romana que foi um dos esteios de construção do partido.

Sim, a força política da IURD e de Silas Malafaia se consolidou no governo Lula. Foi ele quem abriu as portas dos palácios do governo para essa gente. A teologia da prosperidade era a versão religiosa do nacional-consumismo petista. Nesse sentido, o PT caía na esparrela propagandeada por Mangabeira Unger.



Entusiasmado por ter descoberto que a revolução viria do consumo, Lula deu entrevistas dizendo que o brasileiro deveria parar de esperar que a indústria se recuperasse. Que o agronegócio, vendendo carne e soja, poderia sustentar a prosperidade do país e os rolêzinhos em shoppings. Poucas declarações foram tão ridículas e patéticas.

Do mesmo modo, os mecanismos de transferência de renda e os empregos precários em um comércio de baixa qualificação não possuíam base para alterar em nada a estrutura perversa de propriedade e renda. Quem mais perdeu na brincadeira foi a baixa classe média e as classes populares mais estabelecidas, açoitadas pela inflação de serviços que se originava por causa de um consumo desenfreado sem base produtiva real. A concentração de propriedade nas classes mais abastadas continuou, fortalecidas pela financeirização dos agentes econômicos, que atingiu não só a pequena burguesia, mas mesmo as indústrias, que, afinal, tinham de sobreviver de alguma forma.



Pouco adiantou também construir universidades a rodo pelo país afora. Sem emprego para absorver a mão de obra que saía dessas instituições, tudo o que se conseguia era aumentar o número de desempregados de diploma nas mãos e acentuar a perda de cérebros para outros países.

As pequenas mudanças de rumo econômico no segundo mandato, com a adoção de políticas anticíclicas de matiz keynesiano, não alteraram em nada o quadro geral. O Brasil dependia cada vez mais da exportação de matérias primas e do agronegócio, sua economia se tornava refém do rentismo [financeirização] e de um poderoso cartel de bancos, os mecanismos de financiamento do Estado eram viciados e uma bomba a explodir a curto prazo, o consumismo não possuía base produtiva real, a desigualdade de propriedade e renda estava intacta.

Em meio a essa brincadeira, Lula deu voz no governo a todas as ONGs pós-modernas e identitáias liberais que destruíram a imagem da esquerda diante da população. Financiamento de paradas gays, abraço à ideologia de gênero, ''marchas das vadias'' que invadiam igrejas, tentativas de legalizar o abortismo por meio do STF: a parafernália completa da lacração encontrou terreno propício para proliferar no pântano petista.



É verdade que Lula não destruiu o Estado, como o funesto PSDB. Ele revalorizou o serviço público. Mas não o suficiente para retirar a Petrobrás da Bolsa de Nova Iorque, por exemplo, ou para reverter a política de terceirização dos quadros da empresa [os terceirizados eram maioria no fim da era Lulla-lá].

No terreno político, o petista tentou o mesmo que Bozó: não depender do Centrão. Não queria dar cargos em estatais pra todo aquele fisiologismo. Para sobreviver, inventou o mensalão, crime a que Bozó não esteve disposto. Depois que ''deu ruim'', fez também o mesmo que seu atual rival, se rendeu por completo às oligarquias parlamentares. A roubalheira que se sucedeu nos anos posteriores foi mera consequência desse arranjo. O Rio de Janeiro, governado por Cabral, Picciani, Eduardo Paes etc., todos com forte apoio lullista, sabe muito bem o que é isso.

Lula fez um governo muito melhor do que Fernando Henrique e Bozó. Mas isso porque está sendo comparado com dois dos piores governantes que já tivemos em nossa história. De modo geral, seus mandatos não passaram de uma grande perda de tempo. O Brasil perdeu tempo com Lula. Saímos de seu governo piores do que entramos, delirando com um inexistente potencial revolucionário do bolsa-família, dando postos chaves da política para Edir Macedo, acreditando em unicórnios e elefantes cor-de-rosa que nos tornariam uma potência mesmo sem indústria, copiando as políticas identitárias do partido democrata ianque, e criando um fosso difícil de ser superado entre a sensibilidade do partido governante e a população de valores conservadores.



Não há paraíso perdido nenhum. O governo Lula foi capítulo da Nova República, elo que, de Fernando Henrique, nos levou ao Reino dos Bozós. Seu sentido profundo é a camisa de força liberal que nos agrilhoa nas últimas quatro décadas.

Quem pensa qualquer coisa diferente disto, ou é liberal como Lula, ou está fantasiando em total desconexão com a realidade.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

O ''povo'' e o Logos na abordagem tradicionalista de Dugin

 


Na entrevista que concedeu ao podcast Pisando em Brasa, Aleksandr Dugin abordou sua visão de ''povo'' de uma maneira tradicionalista. Para explicá-lo, ele mobilizou conceitos presentes nas tradições aristotélica, hegeliana e socialista.

O ''povo'' não poderia ser entendido no âmbito do particular: não é um coletivo nem no sentido francês de nação [soma de indivíduos que escolhem assinar um contrato social] nem no sentido germânico [substrato étnico de um conjunto de indivíduos].
O ''povo'' seria uma ideia no sentido aristotélico do conceito: um universal ''encarnado'' nas substâncias individuais, até certo ponto como uma ''forma substancial'', e que faz desses particulares membros de uma mesma espécie.
Se é em parte ''forma substancial'', o ''povo'' não pode ser visto nem como substrato étnico [Dugin nega que esteja falando de etnia] nem como soma de indivíduos. Ele é o 'universal' específico que se conhece NOS particulares e singulares.
Dugin supera o conceito de nação em suas duas faces mais gerais, portanto.
O russo vai além e mobiliza o conceito de ''Geist'', ou Espírito, com que Hegel se referia à Razão por trás e ''acima'' de dada população [povo]. Se trata de uma Razão Superior àquela possuída pelos indivíduos na temporalidade cronológica, mas que move dada população [povo] para determinado fim histórico.
É fácil ver a conexão que Dugin faz com a angelologia de Corbin ou os Logoi de São Máximo Confessor e da tradição ascético-metafísica cristã.
O ''Geist'' de uma população [povo] é também o Anjo de Corbin, a pessoa por trás de todo indivíduo, e que existe em ATO nos céus e em POTÊNCIA a ser realizada na temporalidade. Mais uma vez, Platão se une a Aristóteles, já que agora a noção de povo é vista não somente por meio do conceito de substância [ousia] aristotélico, mas envolve certa autonomia do Anjo ou Logos, a Ideia por trás substância e que é o motor de sua realização. Mas o Anjo não é a Ideia platônica apenas como ''arquétipo'', como fica claro no terceiro modo com que o pensador russo expõe o tema.
Pra se referir à possível passagem da potência ao ato, o pensador russo mobiliza uma noção próxima a da ''causa final'' aristotélica. Se o Anjo é a causa exemplar de determinada população, e que faz dela um ''povo'' com uma dinâmica histórica, esse ''povo'' por sua vez só pode ser compreendido se vislumbrado como ''comunidade de destino''.
É aquela população que tem uma mesmo fim na história, conhecido pela contraposição a outros que ameaçam sua existência, e que para alcançar esse objetivo se fundamenta em um imaginário formado de elementos de sua história comum.
Quando o ''povo'' toma a decisão por realizar seu fim, seu destino [seu ''telos''], ele instrumentaliza esse imaginário comum e ''ativa seu espírito'' [palavras de Dugin], ou seja, seu GEIST [Espírito hegeliano que move uma população na história], seu ANJO [O verdadeiro ser do indivíduo, que existe em ato nos céus e em potência na temporalidade], seu LOGOS [a essência inscrita na Natureza pensada por Deus, segundo São Máximo Confessor, e que é tema na Noomaquia de Dugin].
Óbvio que a decisão tomada pelo ''povo'' não está [necessariamente] no âmbito liberal da democracia entendida como soma de votos individuais. Nem muito menos numa explosão as forças inconscientes e do substrato étnico. E sim no âmbito dessa Razão ou Espírito que aponta seu escopo histórico, no âmbito desse Eu Superior ou desse Anjo, ou ainda do Logoi que dá realidade a cada ser.

Não num mundo das ideias, mas encarnado em certos particulares que o expressam de maneira acurada na temporalidade, como ''exemplos perceptíveis'' daquela Ideia original, como realizações mais perfeitas desse Logos ou Anjo. Como ''grandes homens'', ''vanguardas'', ''organizações'' que se tornam espelhos que refletem esse Geist.

A perspectiva de Dugin é perfeitamente adequada a uma cosmologia e metafísica cristã-ortodoxa, ou aquilo que tem sido chamado de ''ontologia icônica''. Trata-se, em grande medida, de uma exposição cristã da economia e da soteriologia divina, aplicada ao terreno da antropologia, geopolítica, ciência política e meta-história.

A teologia do ícone está bastante associada ao Logoi que São Máximo Confessor, São Marcos Asceta, Evágrio do Ponto, São Diádoco da Foticéia, Santo Isaac o Sírio, São João Clímaco, Santo Hesíquio do Sinai dentre outros ensinavam estar inscritos na Natureza, não essa decaída e acessível pelos sentidos corpóreos, mas na Original, criada por Deus.

São Máximo Confessor chega a afirmar que Cristo ''encarnou'' na Natureza antes de se fazer carne na Virgem Maria. Os logoi dos seres corpóreos são a operação que Evágrio chamava de Sabedoria Divina, a ''arte do artista em sua obra''. Não é apenas um ''protótipo'', mas a ''vontade divina'' estabelecida para aquele ser, uma ''semente'' de sua realização escatológica. O ícone expressa não a imagem mas também a semelhança. O logos é a inscrição da intenção, do sentido e da vontade divina para dado existente. São ideias-vontades.

Daí a dinâmica e o movimento dessa perspectiva, já que a ideia ou essência de algo está na vontade divina estabelecida para esse algo. Essa vontade divina é um logos [palavra], no sentido usado na Criação, no Livro de Gênesis, seu 'nome', seu princípio e o fim para o qual tende, verdadeiro ''ponto de contato'' entre o ente e Deus.

O logos de um ser existente é conformado pela síntese ou conjunto de diversos outros logoi, que são partilhados com outros existentes. É a unificação e coesão desses logoi em um logos de um ser que mantém sua identidade no interior do todo. A unidade de todos os logoi está no Verbo Divino, assim como o Verbo Divino está inteiramente refletido no logos de cada ser.

Isto quer dizer que os logoi mais particulares são partilhados por logoi mais gerais, todos eles unificados no Logos Divino, em sua dimensão econômica, como revelação da vontade divina para a Criação. A Noomaquia de Dugin é meditação e aplicação da escatologia, cosmologia e metafísica cristã.


domingo, 3 de janeiro de 2021

O "Complexo de Israel'' não fica na Cidade Alta e em Vigário Geral

Bichos escrotos saiam dos esgotos
Bichos escrotos venham enfeitar
Meu lar
Meu jantar
Meu nobre paladar 

Titãs, ''Bichos Escrotos''



O Globo noticia que traficantes e milicianos estão se unindo para expandir o ''complexo de Israel'', um conjunto de três favelas dominadas por Peixão, do Terceiro Comando Puro [TCP], e que agora entrou em acordo com paramilitares do Quitungo.[1]

A reportagem simplifica um processo muito mais amplo e que já vem acontecendo há quinze anos. O Peixão é só espuma, o ''bonde de Jesus'' é um grupo pequeno do TCP que atraiu atenção midiática por perseguir religião afro-brasileiras em seus territórios. [o que sequer é novidade, já era feito por Fernandinho Guarabu em 2005, no Morro do Dendê, Ilha do Governador]. [2]
Ora, todo o crescimento desenfreado do TCP se inicia em 2004/05, e em função da aliança 5.3 -- acordo entre as milícias 5M e figuras do terceiro comando. Guarabu, que tomou o Morro do Dendê do Marcinho PQD [notem o apelido -- ele havia sido expulso do Exército por desviar armas pro Morro do Dendê], tinha vínculos com Batoré, um dos aliados do Capitão Adriano na formação do hoje famigerado ''Escritório do Crime''. Batoré foi expulso da PM por ser flagrado negociando armas com Guarabu, em 2005.
Os fundadores do Escritorio do Crime tinham vínculos, por sua vez, com as milícias de Jacarepaguá e, principalmente, com o Jogo do Bicho. O ''Capitão'' Adriano, por exemplo, estava associado com a contravenção antes mesmo de entrar pra PM -- o que me faz imaginar se o Bicho não impõe e patrocina carreiras no Exército e nas Polícias -- e também comandava pontos de bicho na Zona Norte do Rio sob égide de Luizinho Drummond.
Em 2008/09, tanto as milícias quanto o Comando Vermelho foram abalados. Eram anos da CPI das milícias, impulsionada pelo gabinete de Marcelo Freixo [e com forte atuação de Marielle], e que evitou uma aliança que se costurava entre as milícias de JPA e as milícias de Campo Grande, colocando na cadeia Natalino, Jerominho etc., que já tinha mandatos políticos no Rio desde aquela época. O Comando Vermelho foi sacudido pela expansão das UPPs, cujo principal símbolo foi a ocupação do Complexo Vermelho com ajuda logística do Exército. As UPPs sempre se voltaram prioritariamente para favelas dominadas pelo Comando Vermelho, justamente por causa da aliança que se costurava entre milícias, TCP, jogo do Bicho. A investida prejudicou as finanças dessa organização criminosa, que criou dívidas com fornecedores, e ficou mais frágil nas disputas de fronteira com o PCC.
[Uma disgressão: o tráfico de atacado, que comandava as rotas de drogas que passavam pelo Brasil rumo a Europa -- e que também alimentava o tráfico de varejo nas principais cidades brasileiras, onde se localiza a ponta do iceberg do crime, as facções de traficantes de favela -- eram dominadas por famílias de bicheiros ligadas ao aparato de repressão do Exército e da PM formado durante o regime militar. A partir da segunda metade do anos 1990 e nos anos 2000, outros atores passaram a disputar esse domínio, pelo menos no que diz respeito às rotas de drogas que vão para as grandes cidades. O grande símbolo dessa disputa foi a transformação de Fernandinho Beira Mar, do Comando Vermelho, em um dos principais ''matutos'' vinculados aos cartéis de drogas e armas colombiano e boliviano. Mais tarde, figuras do PCC também entraram no jogo. É possível que exista também um conflito entre famílias de bicheiros e matutos dessas organizações de varejo e presídios nesse nível do jogo da criminalidade, o das rotas de drogas e armas para as grandes metrópoles -- já que as rotas muito mais lucrativas que embarcam cocaína para a Europa parecem nunca ter deixado o controle da jogatinha, que se aliou a 'Ndrangeta na década passada. Mas esse é uma tema complexo.]
Essas organizações se rearticularam nessa época em torno de um inimigo comum, o Comando Vermelho. Isso está no plano discursivo, primeiramente. Em grandes cidades, como o Rio de Janeiro, o crime é territorializado. É o reflexo mais visível do ''Estado Paralelo'', que necessita de alguma legitimação diante dos moradores e uma justificativa moral para si mesmo. O domínio territorial ilegal é exercido para evitar um ''mal maior'', a expansão da criminalidade desordenada que leva insegurança aos ''homens de bem'', às ''boas famílias'', às ''comunidades'' etc. Daí essas organizações podem praticar ilegalidades ''controladas'' [rufianismo, extorsão, jogatina etc.] desde que mantenham as comunidades livres de roubos, confusões, visibilidade de drogados.
A aliança entre bicheiros, milícias, policiais, políticos, PCC, e agora o TCP foi feito em nome da ordem e dos ''homens de bem'' contra o mal maior representado pelo Comando Vermelho. [todos os lados desse conflito são facínoras, o que importa aqui é a compreensão do desenho dessa guerra, que implica numa expansão e articulação ampla do Narco-Estado].
As milícias se redimensionaram, permitindo também o ''tráfico controlado'' do TCP, assim como o TCP passou a permitir também a exploração de gatonets, transporte alternativo etc. E todos se comprometiam com a manutenção da jogatina do bicho em suas regiões. Outros negócios envolvem as já tradicionais atividades de extorsão de comerciantes, cobrança de taxas a moradores, cafetões, clínicas de aborto. E novos investimentos, como a lavagem de dinheiros em shoppings, comércio de rua, e, principalmente, mercado imobiliário. Tudo unido à corrupção policial, contrabando de fronteira, corrupção de juízes e apoio a representantes políticos.
Por isso se diz que as milícias são um fenômeno muito mais perigoso do que o tráfico de drogas per si, porque envolvem um novelo de acordos de braços muito mais amplos e raízes bem mais profundas do que a visibilidade do tráfico de varejo permite supor.
Claro que o panorama é bem mais complexo e movediço, porque a ponta repercute embates entre as principais famílias do crime organizado, cujas atividades criminosas possuem um largo espectro e áreas de intensa de disputa. O Escritório do Crime mesmo era usado na resolução de conflitos entre bicheiros [vide o assassinato de Marcos Falcon, presidente da Portela e narcomiliciano, por Batoré].
Voltando ao Peixão, famigerado ''bandido de Cristo'', ele iniciou o ''complexo de Israel'' ao tomar a Cidade Alta em 2016 usando um caveirão da Polícia Militar, alugado por um milhão de reais [3]. E expandiu o ''complexo de Israel'' com uso de drones e apoio logístico de policiais e milicianos. Existem vídeos apreendidos e que mostram traficantes armados do TCP dentro de caveirões da PM. O discurso evangélico desses traficantes é apenas a reprodução entre esses favelados da justificativa do ''mal feito contra o mal maior e em nome da família e dos bons costumes''.
A família Bozó é o exemplo mais conhecido de políticos vinculados a esse fenômeno, mas se eu tivesse de escolher um representante ainda mais ''perfeito'' do problema minha escolha recairia sobre Wilson Witzel. Ex-fuzileiro, ex-juiz, ligado à lavagem de dinheiro de bandidos como Mário Peixoto, vinculado ao Pastor Everaldo [igrejas evangélicos devem ser um dos ramos da lavagem de dinheiro nas grandes cidades, e como controlam comunidades e votos, tem grande papel na intermediação com a política], eleito com um discurso de ordem e de repressão policial que deixou de lado a imagem das UPPs e investia contra favelas do CV a fim de liberá-las para a expansão das narcomilícias. Detalhe: Witzel era sionista e chegou a impor projeto nas escolas públicas do Rio para fazer propaganda do sionismo. Tenho dois vídeos sobre o significado maior do governo de Wilson Witzel no Rio de Janeiro, um representante acabado do avanço do Narco-Estado. [4]
No cume dessa montanha de ignomínia estão os negócios dos bicheiros. Não se trata de ''maquininhas'' em padarias, apontadores em esquinas, ou 'termas' em Copacabana apenas. Isso é a ponta do iceberg. Também não se trata mais de apenas contrabando de armas para traficantes de grandes cidades. Nem só de tráfico de varejo. Tudo isso faz parte, porque gera dinheiro, mas não é só isso. Também não é só lavagem de dinheiro em igrejas evangélicas, comércio de rua, lojas de shopping, empresas de fachada em fronteiras, expansão de cadeias de rádio e TV, mercado imobiliário das principais metrópoles, ou criação de gado. Não é mais só controle de rotas de tráfico de atacado, embarcando drogas para a Europa em aliança com a 'Ndrangheta. Tem mais coisa aí. A jogatina hoje vive também de cassinos e bingos, clandestinos ou não, frequentados pela elite em toda a América do Sul. Nos anos 1990 e 2000, o Bicho se globalizou e passou a comandar o jogo e a prostituição clandestina em boa parte da Pátria Grande. As fortunas envolvidas são incomensuráveis, a lavagem de dinheiro envolvem esquemas internacionais tão complexos quanto aqueles bolados pelo sistema financeiro quando da Privataria tucana dos anos 1990.
Nesse processo, os bicheiros fizeram pacto com ramos judaicos da Bratva russa e com a Família Abergil -- um dos ramos da máfia israelense e com vínculos com organizações criminosas marroquinas. Dez anos atrás, já existiam dezenas de milhares de telefonemas interceptados dando conta de ligação entre os grandes bicheiros e estas máfias. Em todo esse tipo de relação existe participação de agências de inteligência, nas duas pontas da aliança, isso é óbvio [basta lembrar que a cúpula do Bicho se consolidou nacionalmente em torno do aparato repressivo do Exército e das Polícias -- esquadrões de morte, arapongas do regime militar, contrabandistas, discurso anticomunista etc.]. [5]
Quando dizemos que o Reino dos Bozós é expressão da emergência da esgotolândia ao poder, quando dizemos que a crise de legitimidade da década passada permitiu a ascensão ao poder daquilo que de pior existia na sociedade brasileira, e que esse era o verdadeiro telos da Nova República, não estamos usando uma metáfora qualquer pra causar impacto. Estamos sob o governo de baratas, ratos e vermes. Os Titãs, sem terem consciência disso, previram ainda nos anos 1980 o que iria acontecer: bichos escrotos saíram dos esgotos, e enfeitaram nosso lar, nosso jantar e nosso nobre paladar. _______________________________________ [1] https://extra.globo.com/casos-de-policia/traficantes-evangelicos-fecham-pacto-com-milicia-para-expandir-complexo-de-israel-24821015.html

[2] ''Guarabu passou a frequentar a Assembleia de Deus Ministério Monte Sinai em 2006 e se converteu. A partir daí, quem andasse de branco pela favela era “convidado a sair”. A situação se repete na Serrinha, ocupada pela mesma facção criminosa.'' https://oglobo.globo.com/rio/traficantes-proibem-candomble-ate-roupa-branca-em-favelas-9892892

[3] https://extra.globo.com/casos-de-policia/pm-investiga-se-policiais-colocaram-bandidos-em-caveirao-para-retomar-cidade-alta-21308066.html

[4] https://www.youtube.com/watch?v=alLeXijdgtI e https://www.youtube.com/watch?v=y1vWNfxlOtA&t=362s

[5] ''A ligação com a Bratva e a Abergil teria sido feita pelo israelense Yoram El Al. Ligado à máfia de Israel, ele é apontado como principal elo entre os bicheiros do Rio e os mafiosos Meir Zloff, Tal Amir, Genrich Birman e Vitaly Okorov (russo de origem judaica). Todos têm extensas fichas criminais, que incluem envolvimento em contrabando de componentes eletrônicos e pedras preciosas, lavagem de dinheiro e até tráfico de mulheres para prostituição. Yoram foi o primeiro do grupo a chegar ao Brasil, em 2006. Já tinha contra si na época mandados de prisão expedidos nos Estados Unidos e no Uruguai, sob a acusação de operar ilegalmente remessas de dinheiro para contas off-shore.
A aliança dos estrangeiros com contraventores do Rio vem sendo monitorada há quase dois anos pela PF, que nesse período reuniu 21 mil gravações de telefonemas entre Yoram, Meir Zloff, Tal Amir e Haylton Carlos Escafura, filho de Piruinha, além de outras pessoas envolvidas no esquema. A investigação, iniciada a partir de um atentado a bomba sofrido pelo contraventor Rogério Andrade, em abril de 2010, indica que o explosivo plástico usado no crime — que resultou na morte do filho do bicheiro — foi trazido para o país por Tal Amir. A apuração do atentado foi transferida para a Divisão de Homicídios, da Polícia Civil. A partir daí, a PF concentrou sua investigação na aliança das quadrilhas israelense e russa com os contraventores do Rio.'' https://www.defesanet.com.br/seguranca/noticia/3929/-Bicheiros-do-Rio-se-unem-a-mafias-russa-e-israelense/?fbclid=IwAR3p_VyqKkuIoIiRvySExWdSnYAHtjAIflvgItdDczfgTaJvkfH6uABk4W4

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Da Vida Prática e da Gnose

 Dias atrás, descrevi, em linhas gerais, a psicologia de Tomás de Aquino, mais especificamente aquela ligada à 'parte sensitiva' da alma, que partilhamos com os animais [perfeitos], e ao Intelecto/Vontade, bem como as ligações dessas faculdades com a teologia moral e a uma metafísica fortemente aristotélica.

Aproveito a deixa para falar agora de um psicologia ascética mais vinculada à antropologia cristã-ortodoxa.
Tomás de Aquino manteve a tripartição da alma herdada da tradição platônica e isso também permanece na Filocalia e demais escritos dos Padres do Deserto. Podemos dizer, então, que a alma humana possui uma parte estritamente erótica ou desejante [epitumeia] -- que Tomás vinculava à ''alma vegetativa''; uma parte irascível [tímica] -- que Tomás vinculava à ''alma animal''; e a parte superior, ou o Nous -- e que ele reduzia, como expliquei, à capacidade racional, diferente da Ortodoxia.
Essa alma tripartite pode ser abordada em duas categorias mais gerais: Tomás a dividia em Intelecto e partes irracionais [já que ele reduzia o Intelecto à razão]; os Padres do Deserto a tratavam como Nous [Intelecto no sentido de potência de intuição espiritual, ou de essência da alma] e partes passionais [epitumeia e timo].
No ascetismo ortodoxos, cada uma dessas partes possui suas faculdades, que, depois da queda, passaram a operar segundo os ''prazeres da carne'', de modo desordenado, decaído, e 'objetificando' o mundo em caracteres sensíveis. A operação adâmica, ou natural no sentido original do termo -- como natureza antes da queda, natureza saída das mãos de Deus -- é chamada de virtude. Mas a operação desordenada e doentia é chamada de ''paixão'' [em sentido genérico] ou 'logismoi' [nas obras de Evágrio].
O primeiro estágio do ascetismo ortodoxo, chamado de ''vida prática'', é fazer com que as faculdades psíquicas deixem de operar segundo a carne e voltem a operar segundo o Espírito. Dizendo de outra maneira, é fazer com que as operações das partes passionais da alma [ou seja, o desejo/eros/epitumeia e o temperamento/Ira/timo] saiam do estado apaixonado e retornem à virtude.
[O tratamento mais direto do Nous vem em um estágio mais avançado, o de gnóstico, embora as fronteiras entre eles não sejam tão rígidas quanto uma exposição ''esquemática'' pode dar a entender.]
Existem oito faculdades mais gerais das partes passionais da alma, e portanto oito paixões mais gerais também. No ascetismo ortodoxo, estas oito paixões [logismoi] são foco do ataque de demônios específicos. Ou seja, de inteligências angélicas decaídas e rebeladas que 'operam' energeticamente [''ergon''] no âmbito de uma dessas faculdades.

De modo que, a tipologia das faculdades da alma é também uma tipologia das paixões [e de suas virtudes, que são o estado natural de 'funcionamento' delas], e também uma demonologia.
Antes de apresentar a tipologia das paixões, é bom lembrar que ela nada tem a ver com a tomista, segundo a qual o eros e o temperamento podiam se encontrar ou não moderados pela razão. Dependendo do caso, geravam ou os vícios ou as virtudes correspondentes a essa moderação, sendo o estado equilibrado da alma chamado de Justiça e Prudência. Na Ortodoxia, o caso nada tem a ver com o raciocínio ou a capacidade de abstração, e o ascetismo se dá dentro de um contexto de batalha contra os demônios correspondentes a cada âmbito de operação de uma das faculdades da alma. Outras diferenças vão ficar claras conforme o modelo for apresentado.
A origem primeira das faculdades passionais do homem é ''amor-próprio''. Embora não desenvolva essa ideia, Evágrio a afirma textualmente no Skemmata: "O primeiro de todos os 'logismoi' é o pensamento do 'amor-próprio' [philautia], do qual vem os Oito''.
A Filáucia não tem um sentido negativo, e pode ser entendido aqui no mesmo tom de Aristóteles ou Sêneca [o primeiro dizia que todo amor que o sujeito pode ter pelos outros é extensão do seu amor por si mesmo]; está ligada à consciência do eu, gerada pelo deleite do sujeito com a descoberta de sua própria beleza. Eu o vincularia àquilo que Freud chamou de ''narcisismo primário'' -- e que difere do complexo narcísico, que ele exemplificou por meio do mito de Narciso, também usado pela filosofia clássica para se referir à queda da Filáucia no egoísmo, arrogância e idiotia.
Mas eu não vou muito mais longe nisso.
Evágrio do Ponto costuma classificar as Oito Paixões [Logismoi] mais gerais segundo a ligação de cada uma delas com as operações da parte 'erótica' ou 'irascível' da alma: aquelas são ''paixões do corpo''. O segundo conjunto, as ''paixões da alma''. Nessa abordagem, não é correto dizer, como os tomistas, que todas as paixões tenham raízes no corpo enquanto tal, embora todos os oito logismoi estejam ligados aos prazeres da carne [por oposição aos prazeres espirituais, pois a gnose gera também uma forma de deleite ou gôzo].
As paixões do corpo são a Gula [Gastrimargia] e a Luxúria [Porneia]. As paixões da alma são a Avareza [Philargyria], Tristeza [Lypia], Ira [Orge], Acídia [Akedia], Vanglória [Kenodoxia] e Orgulho [Hiperefania].
As paixões são movidas da seguinte forma: as representações mentais [noema] de objetos sensíveis aparecem no fluxo de consciência. É um processo natural e involuntário, seja qual for sua origem [que podem ser três: a recepção emocionada de uma percepção sensorial; a reminiscência de uma percepção sensorial apaixonada e que está 'estocada' na memória; a sugestão demoníaca, sendo que esta última pode atuar também por meio das duas anteriores.]

Enfim, trata-se de processo involuntário. Mas na medida em que o sujeito aceite a representação mental em sua consciência e a sustente por um ato de vontade [ou omissão], e dialogue com ela [dianoia, discurso interior], a partir daí há pecado e as faculdades da alma já estão em operação de modo equivocado [paixão]. De modo que o combate às paixões depende, antes de tudo, de vigilância da consciência e de uma guerra mental. [Sendo curto e grosso, a partir do momento que se dialoga com o logismoi, já era, o pecado vem.]
As paixões tem vínculos umas com as outras [assim, por exemplo, a tristeza, que está relacionada à parte irascível da alma, pode estar vinculada ao desejo de algo que se perdeu -- uma paixão do eros -- e pode levar à Ira. Ou pode ser causada, quem sabe, por uma vanglória frustrada]. Existem métodos apropriados para combater cada uma dessas paixões e os demônios que as instigam.
Mas, de modo bastante geral, podemos dizer que as paixões do corpo são diminuídas com jejum, trabalho corporal e solitude. As paixões da alma respondem principalmente à salmodia, à longanimidade e à caridade. As paixões em geral são tratadas por leitura das Escrituras, vigílias e oração.
Quando o homem conquista as paixões, permitindo que floresçam as virtudes em cada faculdade das partes passionais da alma, atinge o estado que Evágrio chamava de impassibilidade [apatheia]. Nem todos os Padres do Deserto chamavam esse estado de impassibilidade. Alguns deles, como São Diódoco de Foticeia e São João da Escada, usam o termo apenas para a restauração final da imagem de Deus alcançada na theosis, num patamar muito mais avançado do que a da 'vida prática'. Essa diferença se dá porque a 'apatheia' plena jamais é alcançada antes da Teologia/Visão de Deus, ou seja, da deificação [theosis].
A virtude síntese da apatheia é a caridade, ou amor espiritual. É esse amor espiritual que atualiza o Nous, a parte superior da alma, que possui capacidade de conhecimento direto da realidade.

É o momento de recordar que Tomás de Aquino, seguindo Aristóteles, dizia que a alma sensitiva possuía cinco sentidos exteriores [paladar, olfato, tato, audição e visão] e quatro interiores [senso comum, fantasia, poder estimativo e poder memorativo] [1]. Isso está correto. Mas nas obras dos Padres do Deserto, o Nous tem também ''sentidos espirituais''.
Esses sentidos espirituais são análogos aos sentidos corpóreos. É possível dizer que há uma percepção espiritual auditiva, outra visual, outra olfativa e assim por diante. Não se trata efetivamente de 'percepção sensorial', mas é análoga a ela. [Evágrio, por exemplo, ao descrever o modo como os demônios instigam as paixões, ensina que cada um deles tem um ''odor característico'', ou seja, uma energia ou ergon -- operação -- que pode ser percebido pelo asceta como um ''odor'']. São Serafim de Platina tratou mais detidamente desse assunto em uma de suas obras.
Enfim, assim que o asceta alcança um grau suficiente de impassibilidade, e na medida mesma da impassibilidade que conquista, se inicia uma nova etapa de sua ascensão, que é a da gnose. A contemplação ou Gnose se inicia pela Segunda Contemplação Natural, que é um nível inferior da intuição espiritual. Nesse nível, o gnóstico contempla os logoi [razões ou Ideias, em um sentido platônico] dos objetos corpóreos.
Tratei desse tema quando abordei a diferença entre a Visão Beatífica e a Deificação. Santo Agostinho dizia que os logoi de todas as coisas criadas podiam ser vistos na Mente de Deus [Tomás de Aquino depois vai entender isso como contemplação da essência divina, algo que não penso estar implicado na abordagem agostiniana].

Mas segundo Evágrio, os logoi dos entes corpóreos estão inscrito na Natureza Original, assim como a arte de um artista pode ser vislumbrada em suas obras. Esses logoi são a Sabedoria Divina [Sofia], uma operação do Logos no nível da Natureza [não da natureza decaída, mas aquela saída das mãos de Deus].
Pois bem, a segunda contemplação natural vai iluminando o Nous do gnóstico [a gnose é a alteração na mente gerada pela contemplação unitiva com os logoi, com a arte do grande artista, ou com a sabedoria divina, e portanto causa uma transformação na mente do asceta]. Os sentidos espirituais são aguçados e apurados na medida mesma dessa iluminação. E vão preparando o gnóstico para uma outra transformação, quando então se torna capaz da primeira contemplação natural.
Antes disso, convém dizer o seguinte: existem também demônios que tentam desviar o gnóstico no campo da contemplação natural. A atividade demoníaca [e a tipologia dos demônios] não cessa com a cura das partes passionais da alma, com a superação dos Oito Logismoi, com a consecução da impassibilidade.

Existem ''tentações'' e ''vícios'' noéticos, no sentido estrito do termo, ou seja, demônios que atacam diretamente a atividade intuitiva-espiritual do Nous. É o que na tradição athonita se chama de ''Delusão'', uma gnose demoníaca, e que está na origem dos heresiarcas [já que todo gnóstico é um professor]. De modo que, se a guerra na 'vida prática' é contra o vício, e portanto se encontra em um âmbito moral; na vida gnóstica, a guerra é contra a falsidade e em nome da Verdade.
Outro dia falo da Primeira Contemplação Natural, que é a gnose dos Poderes Angélicos [e demoníacos mais elevados, já que demonhos são anjos também], tanto de seus 'corpos' quanto de seus logoi.

Lembrando que a Contemplação Natural não é o fim último do gnóstico. Acima da Primeira Contemplação Natural está a Teologia em sentido estrito, ou seja, a Visão de Deus, também chamada de ''gnose essencial''. _________________________________________________________

[1] A análise das operações da alma em Tomás de Aquino tem nuances importantes que levam a confusões quando comparada com a descrição da psique em obras ortodoxas ou em outros tratados sobre a vida espiritual.
Falemos de algumas.
Tomás encara a alma como ''forma do corpo'', com rigor aristotélico. O Intelecto -- que os Santos costumam chamar de Nous -- seria um poder da alma. E a pessoa se refere ao composto alma e corpo.
Ora, na Ortodoxia a abordagem é um tanto mais platônica. A alma não é exatamente a forma do corpo, mas seu governante interior -- que em certo sentido também é prisioneiro. O corpo é instrumento da alma mais do que sua ''matéria'' somente. Além disso, Santa Macrina afirmava que o Nous não é só o nome de um poder da alma, mas da própria essência da psique.
[Tenho um amigo que costuma dizer que a pessoa é como uma cebola, e é por aí.]
O Nous como essência da psique é a própria pessoa humana, ainda que os vínculos com o corpo sejam fundamentais sob dada perspectiva.
Tomás de Aquino segue a divisão tripartite da alma encontrada em Platão, mas a 'complexifica' seguind os passos de Aristóteles. Nada de errado nisso, a psicologia aristotélica é mesmo mais elaborada. O Doutor Angélico usa a divisão vegetativa/sensitiva/intelectual.
A alma sensitiva tem cinco faculdades exteriores e quatro interiores. Os cinco exteriores são os sentidos corporais: visão, audição, tato, paladar e olfato. Os interiores dizem respeito a:
1) O senso comum -- que organiza as sensações corpóreas em uma percepção unificada. Assim, se vejo uma galinha, sinto seu cheiro, e escuto seu cacarejo, não tenho percepções dissociadas. Cada sentido captou parte da realidade, mas o senso comum as tornou uma percepção unificada;
2) A fantasia -- muitas vezes chamada de 'imaginação', e que se presta a muitos mal entendidos. No tomismo, a fantasia é um 'estoque' das imagens percebidas. Um depósito das sensações perceptuais unificadas pelo senso comum. Ela não é um poder 'combinatório' de imagens, nem muito menos capaz de acessar ou guardar o universal. A fantasia, tal como entendida aqui, é operação da alma sensível, partilhada com os animais perfeitos, não está no âmbito racional nem muito menos noético.
3) O poder estimativo-- modo por meio do qual os animais tem capacidade de 'estimar', instintivamente, algo em termos de utilidade e desejo. Pensem num tico-tico construindo o próprio ninho, um macaco usando uma vara pra capturar formigas, ou num rato sabendo que a sombra do predador é perigosa. No homem, Tomás de Aquino o chama de ''juízo particular'', porque se dá também pela comparação entre imagens particulares.
4) O poder ''memorativo'' -- também chamado comumente de ''memória'' e que também se presta a confusões. No caso, é também um estoque ou depósito de avaliações do poder estimativo ou de juízos particulares [no caso do homem]. Está vinculado ao senso de passado, e no homem é acessado como reminiscência. O poder memorativo não deve ser confundido com a atividade intelectual que Tomás chama de memória, e que é capaz de guardar conceitos objetivos e subjetivos, e portanto lida com abstrações e universais.