sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

O Protagonismo Feminino naquela Galáxia distante, ou: O Progressismo Liberal destruiu Guerra nas Estrelas? Parte II

 "Bem, no primeiro filme, Luke era uma menina…Então a menina foi dividida em gêmeos. Assim, a menina estava de verdade lá, e é Luke quem foi introduzido. Em último caso, quando se pensa sobre isso, o Episódio IV é na verdade sobre a Princesa Leia. É a história dela. Ela que é verdadeiramente o tema do filme. Ela é quem tem a missão, quem lidera seu povo, e quem precisa de ajuda para fazer com que isso tudo seja realizado. Mas a história é contada do ponto de vista de Luke, porque no fim é ele quem vai confrontar seu pai. [...] A verdade é que são Leia e Padmé quem instigam a coisa toda, ainda que tudo seja contado do ponto de vista de Anakin e Luke. Embora o drama seja a queda de Anakin para o lado sombrio e sua redenção por Luke, o baluarte de tudo está em Padmé e Leia – elas tem o problema político pra resolver, ou seja, tem de liderar a Rebelião, de trazer paz à Galáxia, e todo esse tipo de coisa – elas é quem fazem isso."



George Lucas
A Princesa Leia, líder da Resistência, e que condecora os herois no final primeiro filme da franquia, foi um marco do protagonismo feminino no cinema



Esse texto é uma continuação da postagem anterior, que pode ser lida aqui, e que pretende discutir a abordagem conservadora-liberal e algo olavética que foi realizada nessa página a respeito d'Os Últimos Jedi.




Eu havia apontado que, em meio aos acertos de sua análise, Mateus Diniz caiu em alguns becos sem saída muito importantes. Há uma lacuna no artigo que pode dar a impressão de que o progressismo liberal está por trás apenas de Guerra nas Estrelas e não da indústria cinematográfica americana em geral. Pior ainda, fortalece um discurso de que houve um desvirtuamento dos novos filmes, que a saga estava isenta desse compromisso ideológico antes e que só agora, ao passar para as mãos da Disney, foi permeada pela sensibilidade liberal.




Vou problematizar alguns dos exemplos dados pelo autor sobre as pautas progressistas n'Os Últimos Jedi, apontando também que esse teor ideológico estava presente na franquia desde seus primórdios. Vou argumentar também que hoje, assim como em 1977, é  possível criticar ao mesmo tempo a mentalidade liberal que emoldura a história e desvincular esse arcabouço de outros elementos da obra -- e que permitem que a apreciemos de outro patamar. Por fim, pretendo alertar meus poucos leitores para o perigo do ''lado sombrio'' do conservadorismo.




Uma das facetas mais celebradas por Hollywood atualmente é o grau a que tem chegado o protagonismo feminino nos filmes dessa década. Hoje em dia, ninguém se escandaliza mais com o fato de que o filme da Mulher Maravilha, estrelado pela modelo israelense Gal Gadot, tenha bilheteria maior do que o Homem de Aço do britânico Henry Cavill. É notável, inclusive, que para além do fato de que se trata de uma história sobre uma heroína que foi criada para ser um ícone feminista, Mulher Maravilha traga, intencionalmente, uma serie de piadas e diálogos que expressam fases e tópicos presentes naquele movimento político ideológico: a ideia de que homens são dispensáveis para o prazer sexual feminino; piadas com o falo; críticas ao machismo da cúpula militar britânica; desprezo pelo papel feminino expresso na profissão de secretária etc.




O protagonismo de Leia, ao mesmo tempo líder político-militar e veículo de poderes da Força, tem sua continuidade na principal personagem da nova trilogia: Rey
"Os Últimos Jedi'' não caminha de modo tão forte assim na agenda feminista. Mas não há como negar que o filme afirma de maneira forte a existência de liderança feminina. A jornada Jedi é realizada por uma mulher, Rey, e o comando da Resistência repousa nas mãos de Leia. Temos a presença de mulheres em papéis chave, como Rose e a Comandante Holdo. As funções exercidas por elas não são exatamente um tema, um problema a ser tratado na história: são parte do cenário, uma característica natural, uma normalidade daquele universo. Se um conservador pensa que essa sugestão é um perigo ao patriarcalismo, então tem todos os motivos para denunciá-lo e apontá-lo como um instrumento progressista empurrado de modo um tanto implícito -- ''subliminar'' diria Mateus Diniz -- à audiência de Guerra nas Estrelas. Repito, à audiência de Guerra nas Estrelas, não somente d'Os Últimos Jedi.




Pois essa abordagem está presente na franquia desde seu primeiro filme. A Princesa Leia se tornou um ícone da onda feminista dos anos 1970 só rivalizado pela série da Mulher Maravilha estrelada por Lynda Carter, e boa parte das militantes da causa, muitas das quais cresceram com a primeira trilogia, a viam exatamente dessa maneira [1]. Leia não é uma mulher frágil que será resgatada por um heroi com uma espada. Ela já era a principal líder da rebelião. Logo quando apresentada a Luke e Solo, a Princesa [2] toma a frente do resgaste, que critica a todo instante por sua absoluta falta de estratégia. Ela coloca Han em seu lugar de subordinado [antes de perceber de que se trata um líder nato n'O Império contra-ataca] de modo tão veemente quanto Holdo faz com Poe Dameron no episódio que se encontra nas telas.




Para aqueles que desejariam contra-argumentar só com a quantidade à mão, dizendo que nos novos filmes o número de mulheres na posição de liderança se multiplicou, lembro que, apesar disso, ele não ''mudou de nível''. A figura de Leia era muito mais impactante em 1977 do que a presença de 3 ou 4 mulheres entre os personagens principais atualmente. Estamos falando de um filme lançado há quarenta anos, quando os Estados Unidos acabavam de sair de um período em que a classe média ianque reduziu o papel feminino à propaganda da cozinha americana, lotada de eletrodomésticos, trincheira das mulheres em famílias que viviam em subúrbios conformistas [notem o sucesso de séries como ''A Feiticeira'' ou ''Jeannie é um Gênio'']. Imaginem o potencial estrondoso dessa personagem em uma América do Sul de então.




Ainda sobre este ponto, Mateus Matos argumenta que o feminismo também pode ser percebido na presença exclusiva de homens no ''lado sombrio'', enquanto as principais personagens femininas aparecem sempre do lado da Resistência, do lado ''do bem''. Concordo que esse é o caso, discordo mais uma vez que seja novidade. Podemos dizer o mesmo das outras duas trilogias: dentre os principais personagens, as mulheres estão representadas quase que exclusivamente do lado reto e justo, como a Comandante Mon Mothma na Aliança Rebelde [presente tanto n'O Retorno de Jedi, quanto n'A Vingança do Sith e ''Rogue One'']. Do lado sombrio sempre abundaram figuras masculinas: Darth Sidious, Darth Vader, Darth Maul, Conde Dooku, Snoke, Kylo Ren, Tarkin e outros. E, àqueles que se apegam ao fato de que a principal representante do lado luminoso é agora uma mulher, respondo que em alguns dos rascunhos feitos por George Lucas quando da criação de Guerra nas Estrelas esse era justamente o caso de Luke, que seria uma jovem apaixonada por Han Solo [3]O personagem principal da série foi dividido em dois, um homem que emulava um jovem Rei Arthur, e uma princesa, sua contra-parte e mais tarde irmã gêmea. Eis a demonstração inequívoca de que o criador da Saga sempre esteve antenado com a agenda feminista, ainda que apenas como expressão dos valores que partilha como cineasta ianque. Não foi a Disney que inoculou esse discurso na obra. 


A Comandante Holdo não era uma das principais lideranças da Resistência, mas é alçada a essa posição após Leia e Akbar terem sido atingidos em um ataque da Primeira Ordem


Somos colocados aqui diante daquelas alternativas citadas na postagem anterior. Ou jogamos toda a saga fora a partir de um purismo conservador e anti-liberal, ou, assim como fizemos com o filme original, nos permitimos separar o joio do trigo, mantendo os elementos da narrativa que superam essa ideologia, e reinterpretando todos os demais que lhe estão ligados. Eis aqui um ponto importante. Os fãs que cresceram com as trilogias anteriores não se cansaram de reler Guerra nas Estrelas. Nada há de esquisito nisso: Desde o momento em que publicizada por um autor, a obra não mais lhe pertence por inteiro. Ela será interpretada e reinterpretada por outros, continuamente. Quanto mais ampla e universal for, mais e mais leituras vai ser capaz de gerar. O que os fãs chamam de ''Universo Expandido'' nada mais é do que um conjunto imenso de releituras em cima de releituras, e muitos chegam ao ponto de acreditar, ingenuamente, que sua interpretação é aquela intencionada por George Lucas desde o princípio [4]. Esse é o caso da mitologia construída em cima dos Sith. Até hoje lembro do meu espanto quando o irmão de uma antiga namorada me disse, logo depois d'Ameaça Fantasma, que considerava Darth Maul mais poderoso do que os Jedi. Ele revelava uma admiração pelo grupo de adeptos do ''lado sombrio'' que só se intensificaria naquela nova geração de fãs, alguns dos quais os elevaram até a verdadeiros herois, em vez de se identificarem com os ''dogmáticos'' Jedi. É claro que não era essa a intenção de George Lucas, que sempre viu nos Sith agentes perturbados, veículos da destruição e da ira, mergulhados em uma paixão da qual os estoicos Jedi estavam a salvo.




Nada de mal há nessas apropriações e releituras, repito, é assim mesmo que funciona a repercussão de grandes obras. Elas são fecundas. E também pode ser fecundo o protagonismo feminino em Guerra nas Estrelas. Assim como nos filmes antigos, a trilogia da Disney não traz nenhuma militância contra os arranjos familiares enraizados na relação entre homens e mulheres. Não se prega nos filmes uma revolução de costumes. A afirmação da liderança feminina é dada em outros âmbitos. A de Rey, inclusive, se desenrola em um cenário místico e esotérico. Nos momentos de crise, no terreno da busca espiritual e no da metafísica o papel das mulheres não é mera reprodução das formalidades sociais, por mais que essas últimas possuam justificativas na natureza dos sexos. Em mais de uma corrente espiritualista e esoterica, a mulher é a expressão de uma face da divindade, quando não a representação do próprio Absoluto, passível de ser iniciada e realizada enquanto mestre. O que torna apropriado o papel de Rey em um momento em que a Saga se prepara para deixar de lado o ''dogmatismo'' Jedi, marcado por um conjunto de adeptos masculinos e celibatários. O protagonismo feminino não é um problema em si, ele é também solução, um princípio que é sempre atuante, ainda que por trás dos panos, e que em muitos casos deve ser explicitado e realizado.





Na próxima postagem vou dar continuidade a essa abordagem, mostrando como Guerra nas Estrelas pode ser criticado em sua mentalidade progressista, usando para este fim os demais exemplos dados por Mateus Diniz, e outros mais ainda; e o modo como hoje, assim como no passado, a Saga pode ser desvinculada dos efeitos mais deletérios dessa mentalidade e relida em outro nível. De modo menos explícito, estarei criticando os próprios limites do repúdio conservador ao progressismo. Vou abordar agora outros aspectos, como a política, as relações inter-étnicas e a hierarquia entre mestre e discípulo naquela galáxia [não] tão distante.


[continua]



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[1] Leia era e continua sendo um ícone feminista e Uma heroína feminista . O seguinte artigo trata da polêmica envolvida n'O Retorno de Jedi, quando Leia é retratada como uma escrava sexual quando capturada por Jabba. Claro que nem todas as feministas se satisfazem com Guerra nas Estrelas, elas gostariam que a Saga avançasse ainda mais nesse ponto, mas esse impulso faz parte da natureza do próprio progressismo.

[2] Na trilogia atual, Leia abandona o seu epíteto de Princesa e passa a ser chamada de ''General''. Em uma das primeiras cenas d'O Despertar da Força vemos um velho combatente, representando as gerações anteriores, dialogando com Pode Dameron e afirmando que ''Leia é general para você, mas para mim continua sendo da Realeza''. Leia é uma nobre por função social em seu planeta -- o primeiro a ser destruído pela Estrela da Morte, mas uma líder militar na Rebelião e na Resistência. O papel de Princesa, porém, tem também traços arquetípicos, ou antes simbólicos e míticos.

[3] Uma princesa chamada Luke?

[4] Alguns fãs crêem piamente que todo o desenrolar do universo de Guerra nas Estrelas já estava elaborado por George Lucas desde o princípio. Os fãs da segunda geração, inclusive, se abraçam à ideia de que Anakin Skywalker sempre havia sido o protagonista principal da franquia, que desde sempre era o ''escolhido'' na história, o messias que traria ''equilíbrio'' para a Força. Ora, muitos desses e outros conceitos provavelmente foram criados depois: aqui. Na verdade, parece que quando do lançamento do filme original, em 1977, George Lucas não havia se decidido sequer que Darth Vader era de fato pai de Luke, e que o heroi era irmão de Leia. Esse ponto não é fundamental para a minha argumentação, mas adianta algo de que tratarei mais tarde, a tendência de uma geração de fãs de perceber a sua perspectiva ou experiência de uma obra como a essência última e acabada da dita cuja. 

O progressismo liberal destruiu Guerra nas Estrelas?


''A idéia de desistir da democracia, que muitas vezes, em época de crise, você nota no decorrer da história, seja com Júlio César, Napoleão ou Adolf Hitler. Você vê essas democracias sob forte pressão, em uma situação de crise, abrindo mão de parte da liberdade que elas têm e do sistema de controle, em favor de alguém com uma forte autoridade para ajudá-los através da crise"

George Lucas explicando em que ideias e eventos se baseou para construir o personagem de Palpatine




O novo trio de herois do Universo de Guerra nas Estrelas, destinado pela Força a substituir Luke, Leia e Solo

Pretendo discutir o seguinte texto, que tem sabor olavetico e conservador: [https://medium.com/@mateusmatosdiniz/the-last-jedi-como-o-progressismo-destruiu-star-wars-27e79d575748]



O autor coloca questões interessantes sobre Guerra nas Estrelas. Ele argumenta que a franquia se tornou instrumento de propaganda de pautas do progressismo liberal [por ser olavete, talvez o autor preferisse retirar o adjetivo 'liberal' que vou usar à vontade daqui por diante]. Essas propagandas não seriam bem propagandas, mas antes sugestões ''subliminares''. Não há uma discurso articulado, explícito, militante que defenda essas pautas nos filmes, segundo o articulista. Mas eles apresentam como normais situações ligadas a essas pautas, e cuja apresentação acaba modelando a percepção e a mentalidade das novas gerações, que passam a associar essas situações com heroísmo, sacrifício, retidão, e se tornam simpáticas com os personagens que as veiculam. O panorama geral delineado está correto. O que não impede que esteja também permeado de equívocos que vou discutir abaixo.



Em primeiro lugar, a análise do autor não serve a Guerra nas Estrelas de forma particular, ela se estende a todo o universo cinematográfico nascido de Hollywood. Desde pelo menos o início da Guerra Fria nos anos 1940, mas provavelmente até antes, o cinema se tornou cavalo de batalha da guerra cultural ianque, que visa promover seus modelos e hegemonia através da idealização do ''american way of life''. Não só o cinema é ponta de lança nessa 'cruzada', mas todo o universo pop, que inclui também novelas, séries, HQs etc. Isso quer dizer que, praticamente todo ''pipocão'' de Hollywood traz, em algum grau, a influência do progressismo liberal, veiculando as pautas que lhe são mais caras em determinado momento.


Essa influência pode ser algumas vezes militante, explícita e tonitroante. O filme é, algumas vezes, peça de propaganda ianque, como Rambo II. Na maioria das vezes, no entanto, ela é sugestiva, indireta, apresentada antes de tudo como o arcabouço de normalidade em que a história e os personagens se desenvolvem, como lembra bem o autor do texto. Não é sequer necessário fazer do filme mero instrumento de propaganda, basta atentar para o fato de que os produtores, os diretores, roteiristas e atores estão, em sua maioria, mergulhados na mentalidade progressista liberal. Mais uma vez dou méritos ao autor por demonstrar esse ponto citando entrevistas de Daisy Ridley, Jeremy Shada e Rian Johnson, em que são defendidas agendas da militância afro, feminista e “gayzista”. Mas o ponto também estaria demonstrado caso fossem citadas entrevistas de mais de 95% dos profissionais envolvidos com Hollywood. Claro que esta mentalidade se refletiria nas obras, mesmo que os dito cujos não se interessassem em propagandeá-la de modo mais ou menos implícito.

 
A Comandante Holdo assume a liderança da Resistência após ataque aos líderes que deixou Leia momentaneamente incapacitada: protagonismo feminino

Para quem não compartilha das pautas do progressismo liberal, só restaria duas soluções: ou se afastar completamente dos produtos de Hollywood e do universo pop em geral, denunciando-os e boicotando-os; ou adotando uma alternativa intermediária, que concilie denúncia e releitura das obras nos pontos e elementos em que não estejam totalmente vinculadas a estas pautas. Essa última solução é a mais comum: mesmo os críticos dos instrumentos de guerra cultural ianque consomem as obras, mas discernindo nelas aquilo que pode ser dissociado da mentalidade subjacente -- afinal, a maior parte dos filmes, repito, não pode ser reduzida à mera propaganda, o 'american way of life' e temas que o circundam aderem a eles mais como contexto, como moldura.


Mas o autor não parece seguir esse caminho, ele entende que Guerra nas Estrelas está tão comprometido com o liberalismo que foi destruído. Seria uma posição polêmica, e, até onde vejo, equivocada. Muita gente pensa dessa maneira, vê a saga como expressão dos valores e da geopolítica americanos, e portanto uma porcaria do começo ao fim. No entanto, há trocentos elementos naquela galáxia distante, grande parte deles analisados exaustivamente em livros, sites, artigos, teses etc., que apontam que a saga tem muito mais a dizer e mostrar que um servilismo ao Ocidente globalista.

 
Possíveis relações amorosas inter-étnicas em Guerra nas Estrelas: Rey parece ser objeto de amor de Finn, que por sua vez é objeto de amor de Rose
Eu penso que o erro do articulista é mais grave, no entanto. O que ele parece dizer é que Guerra nas Estrelas FOI destruído. Ou seja, a saga podia ser ''salva'' das garras do Ocidente antes, mas não agora. Agora ela é um instrumento de marketing cosmopolita. Ele cita alguns pontos d'Os Últimos Jedi e dos filmes da Disney que exemplificariam essa agenda: o caráter multi-étnico dos novos personagens, inclusive com a possibilidade de uma relação entre Finn [negro] e Rey [branca] ou entre o primeiro e Rose [asiática]; o protagonismo feminino tão a gosto do feminismo; a crítica ao racismo contra os negros representado na relação entre Finn e Phasma; a crítica ao machismo no descarte de Han Solo logo no primeiro filme da nova trilogia; a subversão entre a figura do mestre e do discípulo representada em um Luke covarde e em uma Rey corajosa; o abandono dos valores familiares com o descarte da necessidade da linhagem Skywalker; o apoio à revolução social dos pobres contra uma elite econômica expressa no arco de Finn e Rose no Cassino; etc.


Vou tratar destes pontos na continuação desse texto, mas antes quero pontuar aquilo que considero a principal fragilidade do artigo que discuto: supor que a Disney tenha inovado com Guerra nas Estrelas ao incluir, na moldura dos novos filmes, essas supostas sensibilidades progressistas. Ou seja, a falsa ideia de que o restante da Saga estava a salvo dessa moldura, ou que ela fosse menor ou menos fundamental do que apresentada nos novos filmes da franquia. Depois vou propor uma razão de outra ordem para que isso venha à tona mais fortemente agora e que pretende explicar o porquê essa análise tem o potencial de se tornar comum entre parte dos fãs da saga.



[continua]

domingo, 19 de novembro de 2017

Liga da Justiça e o fechamento do ciclo iniciado por Snyder

Everybody knows that the dice are loaded
Everybody rolls with their fingers crossed
Everybody knows the war is over
Everybody knows the good guys lost
Everybody knows the fight was fixed
The poor stay poor, the rich get rich
That's how it goes
Everybody knows

Leonard Cohen




Liga da Justiça fecha o arco iniciado por Zack Snyder com Man of Steel, de 2013. Foi um percurso atribulado, acompanhado por mudanças de visual, de tom e de construção de personagens

Temos aqui o fim do arco iniciado com Man of Steel há quatro anos. A construção do Universo Compartilhado da DC Comics esteve sob batuta de Snyder durante esse tempo, até que uma tragédia familiar o retirou da pós-produção desse terceiro filme, trazendo pra equipe Geoff Johns, roteirista de quadrinhos que alcançou grande projeção nos últimos anos, além de Joss Whedon, sucesso na rival Marvel Studios.


As mudanças levaram a refilmagens de última hora que deixaram marcas no novo longa -- umas positivas e outras negativas, algumas apenas curiosas. Dá pra perceber, ainda que nem de longe do modo tão abrupto quanto em Esquadrão Suicida, as alterações no tom do filme, deixando-o mais leve, menos filosófico e amargurado. 


As cenas iniciais dão conta da desesperança e luto que teriam tomado o planeta com a morte do Super-homem.
Violência, ódio contra estrangeiros e abandono à injustiça social regados a uma versão de ''Everybody Knows'', de Leonard Cohen; um grupo de terroristas religiosos que odeia o mundo moderno tentando explodir um museu. As cenas visam pensar a perda do maior herói do DC e ao mesmo tempo tratar de problemas contemporâneos, bem ao estilo Snyder. Mas essa linha não tem continuidade, é abandonada ao longo do roteiro, que evita qualquer profundidade maior que dificulte sua compreensão a um pré-adolescente.


Embora os pontos filosóficos abordados por Snyder não sejam varridos pra debaixo do tapete, a amplitude deles é reduzida para evitar o peso do drama: em vez do niilismo e da problematização do papel dos herois/deuses em um mundo pós-moderno, o cinza da vida se restringe aos distúrbios pessoais dos protagonistas. Batman encontra o sentido de sua atividade no homem que ajudou a matar, e tem de lidar com a culpa por sua cegueira enquanto procura remediar a situação propondo a formação de um grupo para substituir aquilo que ele próprio considera insubstituível. A ''filosofia de biscoito chinês'' que manteve Diana Prince sã após a morte de Steve Trevor -- ''você tem de seguir em frente'', disse o amado à deusa amazona -- é ironizada por Batman, que questiona a incapacidade do ícone feminista de exercer liderança e ser um farol de esperança tal como o Super-homem havia sido. 


Os personagens que estreiam no Universo da DC também trazem as suas sombras. Diferente do que os trailers fazem parecer, Arthur Curry não é um rebelde sem causa, mas um ''auto-exilado'', que ainda não lidou com o trauma de ter sido abandonado pela própria mãe e que mantém tênues vínculos com Atlântida. O Flash, alívio cômico do filme, traz o peso de um drama familiar cuja solução é o verdadeiro móvel de Allen. A apresentação de Victor tangencia o caráter soturno e melancólico dos filmes anteriores. 
A apresentação sombria de Victor Stone revela que Snyder possuía ideias diferentes sobre o filme, mas elas foram reorientadas e ajustadas a um filme aventuresco e infanto-juvenil


Mas todos os dramas apontados deixam de ser o foco da história quase tão rápido quanto são apresentados. Eles emergem apenas para fechar o ciclo de Snyder, pontas que se amarram para dar apoio a uma história leve, de heroísmo, engajamento, aventura, dando a impressão de que o filme que sairia da batuta do diretor de Batman v Superman teria um tom distinto do que a montagem que foi para as telas. Os remendos de última hora deixaram outros tantos sinais: os produtores tiveram de retirar o bigode de Henry Cavill apelando pra computação gráfica, alterando de modo perceptível a face do ator. O Lobo das Estepes se tornou um vilão genérico, um tanto mal desenhado e mal executado, com objetivos igualmente genéricos. Com a ausência de Snyder, o filme perdeu também em grandiosidade visual, não tem mais aquele quê de graphic novel. E a história das caixas maternas são referências óbvias demais ao Senhor dos Anéis.


Muitos vão apontar a Marvel como o modelo perseguido pela Warner, rindo-se daquilo que parece ser uma capitulação ao estúdio rival. Mas na minha opinião o filme emula, na verdade, as animações da própria Liga, que trazem o mesmo elã. E nesse sentido, uma vez comprada essa ideia, é diversão garantida. A visão combina com aquela já estabelecida dos heróis. A interação entre eles possui contornos próprios dependendo dos envolvidos e a química é perfeita e convincente. Os personagens secundários de Lois Lane, de Martha Kent e de Alfred funcionam ainda que apareçam pouco – e aqui cabem aplausos para a interpretação sempre cirúrgica de Jeremy Irons. O enredo é bem amarrado, com bom ritmo. A maior parte das piadas tem timing e contexto apropriado, muitas vezes fazendo referência aos quadrinhos e à história dos próprios protagonistas. Não há um excesso de subtramas, como se chegou a temer pela necessidade de contar para o público a origem do Aquaman, do Flash e do Cyborg.
Arthur Curry, o Aquaman, é a próxima aposta da Warner, que deve se fiar daqui por diante em filmes pontuais, focados em personagens singulares, mais do que em um grande universo compartilhado


Por fim, o Super-homem é um capítulo à parte. Aqui a Warner não tinha escolha senão recuperar um personagem cujo tratamento nos outros filmes foi por demais incompreendido. Se é verdade que faltou magnitude à ressurreição de Kal-El, o estúdio não teve ressalvas nem titubeou em levar pras telas o Super que todos queriam: senso de unidade da Liga, mais poderoso que todos os demais membros reunidos, arma sem a qual a derrota é iminente -- ressaltando assim a importância e o tamanho do personagem. E, claro, Clark aproveitou pra ter um papo de homem pra homem com Bruce Wayne em cena que levantou aplausos do cinema. 


O Super-homem retorna em mais de um sentido: o público finalmente vai ver o personagem todo poderoso e significativo com o qual se acostumou


Pra terminar, as cenas pós-créditos revelam que a Warner não vai se prender a obviedades na provável continuação da Liga da Justiça. Nada de Darkseid, mas ameaças mais clássicas e terrenas, que vão deixar o fã da DC com um sorriso no rosto. O mesmo sorriso que tive ao ver a corrida entre o Super-homem e o Flash pra saber quem é o mais rápido.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

São Miguel Arcanjo, o Guardião da Entrada

Lendo sobre tradições envolvendo São Miguel no Dia dos Finados, me deparei com o artigo que traduzi logo abaixo. Ele pertence a um blog de interpretação de ícones cristãos ortodoxos. Uma breve consideração antes de apresentar minha pobre e rápida tradução do texto, cujo link para o original apresento no fim. São Miguel Arcanjo, além de derrotar Satã e expulsá-lo dos Céus, possui uma ligação muito forte com os falecidos, tanto no catolicismo-romano quanto na Ortodoxia. Ele é representado como um anjo que realiza a pesagem das almas no juízo particular – que se sucede à morte do indivíduo – ou no Juízo Final. Entre os católico-romanos, existe a crença também de que protege, alivia as dores e até resgata as almas no “Purgatório” – ''local'' post-mortem cuja existência não é aceita por nós ortodoxos. De todo modo, há episódios interessantes sobre São Miguel na Santa Tradição, como a disputa entre ele e o diabo pelo corpo do Glorioso São Moisés após a morte do Profeta de Deus. Outro aspecto do Arcanjo é o seu papel apocalíptico de Senhor da Guerra, que cavalga durante os últimos tempos em um cavalo rubro voador e com uma aparência aterrorizante. Mas esse assunto fica pra outra postagem




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ANOTANDO NOMES E....

Na entrada de dois templos budistas japoneses frequentemente se encontram duas divindades guardiãs. Abaixo um par que data do período Kamakura (século XIII e início do século XIV).





Sempre lembro dessas divindades guardiãs quando vejo os dois anjos pintados na entrada das Igrejas Ortodoxas em países eslavos. Eles são os “Ангелы Господни, записывающие имена входящих в храм” – os “Anjos do Senhor, Registrando os nomes daqueles que entram na Igreja’’.

Quando estão os dois juntos (algumas vezes só um está presente), o anjo na esquerda da entrada (nos países eslavos) é o Arcanjo Miguel (Mikhail), tal como visto aqui na Igreja de São Simeão o Recebedor de Deus, no Mosteiro Zverin em Novgorod:






Ele carrega ameaçadoramente uma espada em sua mão direita, e um pergaminho em sua esquerda.

No ‘’Manual do Pintor’’ (Hermineia) grego de Dionysios de Fourna, podemos ler:

Dentro da porta do templo, à direita, o Arcanjo Miguel; Ele carrega uma espada e um pergaminho com estas palavras: ‘Sou um soldado de Cristo, e armado com uma espada. Aqueles que entram com temor, eu os defendo, os guardo, protejo-os e velo por eles; mas aqueles que entram com um coração impuro, os golpeio sem misericórdia com essa espada.’’

Às vezes, nas Igrejas eslavas, está escrito no pergaminho de Miguel:
Простираю меч мой на приходящих в чистый дом Божий с нечистыми сердцами.
"Estendo minha espada sobre aqueles que entram na casa pura de Deus com coração impuro."

De novo, nas Igrejas eslavas Gabriel (Gavriil) geralmente está no lado direito da entrada, apesar de Dionysios de Fourna escrever:

"À esquerda, Gabriel segura um pergaminho, e escreve essas palavras com um junco: ‘Registro a disposição interna daqueles que aqui entram; cuido dos bons, mas prontamente faço os maus perecerem".



Aqui uma versão muito mais recente dos dois Arcanjos, tais como vistos na Igreja de São Cirilo, em Kiev, Ucrânia.

Miguel à esquerda:





E Gabriel à direita:


Como mencionado antes, algumas igrejas tem um só anjo anotando, que é às vezes conhecido simplesmente como o Ангел храма – Anjo Khrama – ‘’Anjo da Igreja’’. Se acredita que este anjo se torna o protetor de uma igreja quando ela é consagrada, e permanece em serviço até a Segunda Vinda [de Cristo]. Esse anjo pode ser representado em pé ou sentado, registrando em seu pergaminho os nomes daqueles que entram na igreja, de modo que possa dar seu relatório sobre eles no Juízo Final.

Agora, claro que há uma relação aqui com a imagem padrão do Anjo da Guarda em ícones, que segue cada pessoa durante a vida e registra seus feitos.




Fonte: https://russianicons.wordpress.com/2017/08/14/taking-names-and/

terça-feira, 31 de outubro de 2017

O DIA DAS BRUXAS, ou: BENTO CARNEIRO, AQUELE QUE TEME UM SABÁ BRASILEIRO





Tenho quarenta anos de idade, sou de uma época que Halloween era nome de um filme de terror. Mas hoje, como parte da americanização forçada pelo mercado e comprada por parte das classes médias urbanas, já se imitam, aqui e ali e em algumas metrópoles brasileiras, os festejos presentes na maior parte dos EUA. Claro que esses festejos não tem raízes na nossa cultura, e por isso eles não passam de espuma, coisa de uma geração e que logo vai passar, mais ou menos como a moda de fazer ''festas americanas'' na minha época de garoto.

[Pra quem tem menos de trinta anos e portanto não sabe o que é uma ''festa americana'': pré-adolescentes se reuniam no início da noite na casa de um deles. Meninos levavam um refrigerante, meninas levavam doces ou salgados. Escutavam umas músicas estrangeiras, dançavam, riam, talvez paquerassem. Dez da noite a maioria estava indo pra casa. Vou voltar a isso depois, mas notem que a estrutura da festa poderia ser vista por alguns como um verdadeiro sabá, um encontro demoníaco de bruxas e demonhos].

Quer dizer, ao mesmo tempo que estou me lixando pro Halloween tenho convicção de que ele não ameaça em nada a cultura brasileira, assim como a Black Friday também não ameaça [ela não tem como igualar o aniversário do Guanabara entre nós]. Só aviso pros que me lêem que é bobo, ridículo, é ''pagar muito mico'' ficar com esse provincianismo de comemorar uma festa estrangeira sem vínculo algum com nossas festividades populares.

Mas se tem uma coisa que me incomoda nessa história é ouvir que o Halloween não deve ser comemorado porque se trata de uma ''festa pagã''. E aí se iniciam lamentos, ranger de dentes, um ''bate pé'' sem fim entremeados com pseudo-história dos druidas, de sacrifícios humanos ao Deus da Morte e outras bobagens copiadas inteiramente da histeria evangélica americana e adornada com mitos academicistas do século XIX. Até entendo que alguns grupos de jovens, desejando ''balançar o esqueleto'', copiem modinhas de outro país. Mas copiar a satanização que grupos religiosos desse país fazem dessa festa aí é um pouco demais pra minha cabeça.

Então, voltando à ''festa americana'' dos anos 1980, deixa eu esclarecer de vez: o Halloween não é a nova versão de um ritual satânico de origens pagãs. Não, por favor, não me fale de celtas e de Samhaim, essas aí são referências distantes de festivais camponeses obscuros, sobre os quais se sabe pouquíssimo até na Academia, dos quais não se tem a certeza nem mesmo da data. Qualquer coisa que saia muito disso é uma mentira que estão te vendendo. Festivais como esse existem no mundo todo, pois a vida em cidade era rara até ontem. E assim como hoje comemoramos em casas, salões, boates, avenidas, até ontem comemorávamos no campo, nas vilas, nas aldeias, nos pastos, seguindo os costumes da vida rural. Praticamente todos os festejos com mais de um século de existência tem algum vínculo com a vida, os costumes e a mentalidade do homem do campo. O que pensam que a festa junina ou o Dia de Reis são, afinal?

Isso posto, os vínculos do Halloween com festivais pagãos celtas são frágeis, frutos principalmente de achismos e de saltos de ideologia, daqueles que acham que toda festa cristã é necessariamente cópia mal intencionada do paganismo pra engabelar as pobres almas; e de saltos de fé, que unem neopagãos e evangélicos na crença de que seus deuses ou anti-deuses estão lhes aparecendo em todo lugar. E, com certeza, os costumes atuais do Halloween não tem nada a ver com o Samhaim -- nem as abóboras, nem os doces, nem as pilherias infantis, muito menos as fantasias de Yoda.

Todas as evidências concretas que temos sobre a data se referem aos três dias de comemoração cristã que se estendem de 31 de outubro a 02 de novembro. O próprio nome ''Halloween'' tem origem na véspera da Festa de Todos os Santos. E foi estabelecida em Roma para toda a Europa que hoje chamamos de ocidental, não só para as Ilhas Britânicas, pra tentar unificar festas de comemoração de santos e mártires [ou de ancestrais em geral] que ocorriam em datas diversas nas regiões da Cristandade [na Irlanda, costumava ser no dia 20 de abril, e espero que eu não esteja decepcionando vocês aqui...]. Não sei se ainda reparam, mas estamos em época festiva cristã, vamos ter um feriado nacional no dia 2 de novembro -- e antes do aprofundamento da secularização da sociedade brasileira, o dia primeiro de novembro costumava ser ponto facultativo também, essa sim uma tradição que deveríamos recapturar.

Não caiam portanto nessa de satanizar o Halloween, fazendo associações absurdas entre costumes nascidos há um ou dois séculos e cultos de deuses esquecidos de povos mortos de outros continentes. Isso é consequência da ''protestantização'' da mentalidade geral, a mesma que jura de pé juntos que o Natal é uma forma de cultuar o deus sol e que a árvore de Natal é oriunda de um culto germânico pagão. Além de alegações falsas no âmbito histórico, são bobas no campo do estudo das culturas.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

A grande obra ainda a completar, ou: o sentido da Era Vargas

Getúlio inaugura a política de massas no país
Mais do que nacional desenvolvimentismo, o que define a Era Vargas é a integração popular nas diversas esferas da vida da Pátria.

De todas as observações que já foram feitas a respeito de Getúlio, essa é a que consiste em verdadeiro eixo explicativo da formação política, da trajetória e do projeto do ''Pai dos pobres''.

Antes de 1930, o Brasil era uma República construída para as Oligarquias rurais, que visavam criar uma caricatura dos ''Estados Unidos do Brasil'' conformada com a divisão internacional do trabalho, e manter uma hierarquia social excludente, herdeira do escravismo.

Vargas rompeu com essa visão sem ter dó dos fetiches liberais das elites parasitárias: derrubou as oligarquias, derrotou os paulistas numa guerra civil, impôs uma Constituição, fechou os parlamentos, e, em vez de ''democracia burguesa'', prometeu gradual e cada vez maior participação popular no mundo da política, na sociedade, na identidade que o país construía, e nos dividendos econômicos.

As Forças Armadas, grandes parceiras de Vargas na maior parte de seu governo, eram as verdadeiras impulsionadoras do Nacional Desenvolvimentismo, do plano de um Brasil Industrial. Tanto é assim que essa linha teve continuidade sob o regime dos generais durante o fim dos anos 1960 e toda a década de 1970.

O que as FFAA não possuíam, antes temiam, como o restante das elites brasileiras, era essa força integradora, esse ''monstro da lagoa negra'' que Getúlio trazia à tona. Era a política de massas, a política de valorização do salário mínimo, a ampliação dos direitos sociais, a extensão da legislação trabalhista ao campo, a reforma agrária.

Foi contra esse aspecto da política varguista que o golpe de 1954 foi desferido. O manifesto dos coronéis tem esse contexto, o de escândalo em torno do aumento do salário mínimo. O golpe de 1964 idem, a histeria militar contra a ''insubordinação'' dentro da hierarquia do Exército, e, claro, da estrutura social nacional.


Inclusive no âmbito identitário, em que Getúlio merece mais críticas, havia esse horizonte, essa estrela guia: o Brasil não devia ser uma imitação da civilização europeia, o Rio de Janeiro não era uma Paris dos trópicos, como desejavam as oligarquias da ''República Velha". A nação possuía uma identidade própria a ser construída a partir dos costumes e hábitos de suas camadas populares: boteco, mulatas, samba, ''jeitinho'', praia [no caso, o Rio foi o esteio dessa construção]. O erro homogeneizante desse projeto esconde seu acerto fundamental: o Brasil é seu povo.

O regime militar, nacional desenvolvimentista, e que em determinado momento incluiu até mesmo uma política externa independente, nunca conseguiu esse passo. O ''milagre'' foi construído em cima de brutal expropriação dos mais pobres, e o país se tornou um conjunto caótico de metrópoles favelizadas marcadas pela mais vergonhosa desigualdade de renda do planeta: do Império escravista ao Brasil das ''cidades partidas''.

O trabalhismo, que se apropriou legitimamente da imagem de Vargas, consolidado primeiro no PTB de Jango, e mais tarde no PDT de Brizola, deu continuidade a esse legado, e pariu ideias [''socialismo moreno'', ''o povo brasileiro''] e perigo para as elites parasitárias. Lula e o PT jamais, em momento nenhum, causaram nessas classes privilegiadas o temor e tremor que Leonel Brizola era capaz de levantar.

Infelizmente, Lula não aproveitou a oportunidade aberta por Brizola quando o velho gaúcho o levou ao túmulo de Vargas em São Borja. Ao contar a experiência, após a morte do líder do PDT, Lula mostrou que considerou a visita curiosa, pitoresca, extravagante, uma concessão a um movimento de lutas ultrapassado. Brizola não conseguiu alinhavar Lula na linhagem de luta pela soberania popular: apresentou o operário a Getúlio, mas o operário não o reconheceu. Quando percebi esse ar de zombaria de Lula, soube ali que seu movimento fracassaria no fim das contas.

É sumamente necessário que as lideranças do PDT levem Ciro Gomes a São Borja, que façam-no jurar diante do túmulo de Getúlio dar seguimento à sua obra de emancipação do povo brasileiro dos parasitas que o exploram e o mantém em estado servil. Os rumos da próxima geração de brasileiros dependem desse ato singelo, desse ritual de culto ancestral.

Nada, absolutamente nada, nem mesmo uma política nacional desenvolvimentista, vai conduzir o Brasil de novo ao seu rumo sem que esse ato seja realizado. E se o rito for devidamente cumprido, nem uma possível derrota eleitoral será capaz de apagar a sensação crescente de que um novo terremoto se abaterá sobre o mundo cinza dos traidores do país.

sábado, 3 de junho de 2017

Santo, Rei e Sacerdote

Hoje a Igreja comemora o Santo Imperador Constantino e sua mãe, a Santa Imperatriz Helena. Ambos recebem o epíteto de ''Igual aos Apóstolos''. São Constantino foi responsável pelo Édito de Milão, que 'descriminalizou' o cristianismo no Império. Também estabeleceu a perspectiva ortodoxa de que o Imperador possuía uma função similar às dos Bispos. Quem tem qualquer dúvida sobre isso por causa de alguma reminiscência católica-romana que permanece mesmo após a conversão, leia o que diz São Nicodemos Hagiorita nos seus Sinaxaria. Ele afirma que São Constantino era Rei e Bispo [ou seja, Rei e Sacerdote]. Nosso Bem Aventurado Pai cita o Dodekavivlos, do Patriarca Dositheo de Jerusalém, que defende que São Constantino era Bispo em 26 sentidos possíveis.

Foi por sua intervenção também que a palavra ''consubstancial'' foi acrescentada ao Credo, derrotando todo e qualquer subordinacionismo.

Um episódio muito importante da vida desse grande Santo, Rei e Sacerdote, foi a Batalha da Ponte Mílvia, realizada às portas de Roma contra o usurpador Maxêncio. Às vésperas da batalha, São Constantino recebeu uma visão [em sonho ou olhando para o céu, as versões não coincidem] de uma cruz com as iniciais X R [significando Cristo] e da frase ''in hoc signo vinces'' ['com este símbolo vencerás']. Constantino gravou o Chi-Ro nos escudos de seus soldados e o usou como lábaro, derrotando seu inimigo e iniciando sua caminhada para a unificação do Império sob seu comando.

A Batalha da Ponte Mílvia foi um exemplo de vitória de Cristo sobre os deuses romanos, no terreno mesmo em que estes últimos eram mais invocados pela cidade que governava o mundo, o da proteção de seus Exércitos nos campos de batalha.

A Batalha da Ponte Mílvia foi a refundação do Império, sua revitalização, e permitiu que ele sobrevivesse mais mil anos após a chegada dos germânicos, tempo necessário à conversão dos povos eslavos que começaram a entrar na órbita de Constantinopla -- fundada também por São Constantino -- dois ou três séculos depois.

Abaixo, afirmações do Santo Imperador para uma companhia de Bispos:

''Eu também sou um Bispo. Vocês são Bispos do homem interior. Eu sou Bispo do homem exterior e do homem interior. Do exterior, porque cuido de sua educação e do correto modo de vida. Não é sem propósito que carrego a espada. Do interior, porque sou colaborador de vocês na consolidação e crescimento da fé ortodoxa, estabelecido também na mesma fundação dos Profetas e dos Apóstolos'' [1]



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[1] Citado por Dositheo de Jerusalém no Dodekavivlos. Conferir a tradução para o inglês em: [http://www.johnsanidopoulos.com/2015/05/constantine-great-as-saint-bishop-and.html]