quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

UM RANKING DE CONQUISTAS NO FUTEBOL PELO GRANDES CLUBES BRASILEIROS -- Parte I: critérios gerais e o problema dos Estaduais

 




DO RANKING

 

O atual ranking nasceu de uma brincadeira e é um entretenimento de um apaixonado por futebol. Mas o lado lúdico não impede a objetividade dos critérios que adotei e que vou expor rapidamente. Antes, porém, é necessário esclarecer aquilo que a lista abaixo não pretende nem foi planejada para ser.

Em primeiro lugar, ela não é uma hierarquia entre os clubes brasileiros. Não visa demonstrar que um clubes é maior do que o outro. As instituições listadas são multi-esportivas. Clubes como São Paulo, Vasco da Gama e Flamengo se orgulham de sua história no Remo, no Basquete, na Natação, no Atletismo, na Ginástica Olímpica, no Judô, no Futebol de Salão, no Voleibol etc. O futebol é o esporte mais importante, mas ainda assim só um recorte do que essas instituições representam no esporte brasileiro.

Além disso, é impossível reduzir esse mundo particular que é o futebol a um conjunto de taças empilhadas em salas de memória. Cada um dos clubes listados teve esquadrões e ídolos cuja magnitude e relevância histórica e desportiva transcendem em muito os resultados. Como “medir” o orgulho botafoguense ou palmeirense por contemplarem, anos a fio, as estripulias de Garrincha na ponta direita ou os passes milimétricos de Ademir da Guia? Qual o peso dos elásticos de um Rivelino no auge em Fla-Flus disputados em um Maracanã, ainda maior estádio do mundo, com públicos que excediam os números de habitantes da maioria esmagadora dos municípios brasileiros? Ou ainda o orgulho de ter sido base para seleções brasileiras vitoriosas em um tempo em que o vínculo entre o torcedor brasileiro e a equipe canarinho era profundo e visceral?

Há mágicas sem as quais o futebol não teria a vitalidade que conhecemos, e que não podem ser captadas no placar de um jogo ou na classificação final de uma tabela.

Poucas coisas são tão difíceis de mensurar quanto a grandeza de um clube que é objeto de paixão e de senso de identidade de milhões de fãs. Não se trata de retórica vã ou de uma postura politicamente correta, mas do humilde reconhecimento de que a palavra final sobre uma agremiação está em sua capacidade de causar emoções nas massas.

A lista abaixo, portanto, é apenas um comparativo possível entre salas de troféus do futebol. Não uma abordagem do significado e do tamanho das instituições que estão em posse dessas conquistas.





DOS CRITÉRIOS GERAIS

 

O desenvolvimento do futebol foi complexo em nosso país, que tem dimensões continentais e cuja infraestrutura só permitiu conexões e comunicações rápidas entre seus principais centros após o processo de industrialização entre os anos 1940 e 1970. 

Houve um tempo em que os campeonatos carioca e paulista eram tudo ou quase tudo. Nos últimos quarenta anos, no entanto, esses dois colossos históricos foram gradualmente desconstruídos em prol da afirmação de campeonatos nacionais em um vínculo cada vez mais estreito com a televisão, que finalmente chegava à maioria dos lares brasileiros no fim da década de 1980.

Não faltam polêmicas nessa trajetória, dificultando sobremaneira a comparação de torneios de épocas tão distintas. Um Carioca nos anos 1950 tinha um peso completamente diferente do atual. Que dirá comparar ao longo do tempo torneios de natureza e abrangência diversa, alguns deles já extintos. 

O Brasil tem quatro grandes centros de ponta do futebol – Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre –e outros cuja força intermediária foram se afirmando aos poucos. Qualquer mudança mínima de posicionamento nas polêmicas e quanto ao peso devido a cada torneio pode ser suficiente para alterar substancialmente um ranking como o proposto.

E, no entanto, é necessário se posicionar para que a brincadeira siga adiante. A primeira decisão que tomei é fazer do campeonato brasileiro criado em 1971 a principal referência para o sistema de classificação. Ele será pontuado com 100 pontos.

Dizer que o campeonato brasileiro foi criado em 1971, e não em 1967 ou 1959,  já se trata de outra tomada de posição de enorme relevância para uma lista deste tipo. Os demais torneios nacionais serão pontuados tendo por referência sua relação com o Brasileiro: se são Copas ou campeonatos nacionais de clubes, se fizeram ou não parte do processo de elaboração do Brasileirão, ou se são meros torneios nacionais complementares e de dimensão bem menor.

A pontuação de um torneio está associada a: 1) seu peso técnico; 2) prestígio; 3) abrangência geográfica; 4) importância histórica; 5) repercussão nacional. Todos estes cinco fatores foram pesados na hora de conferir número de pontos a uma competição. Por exemplo: alguns deles tinham acentuada dificuldade técnica quanto prestamos atenção aos clubes participantes, mas prestígio menor, o que levava as equipes a disputá-los de modo secundário, ou como formas de preparação para outros torneios mais desejados.

Contexto histórico é tudo, portanto.

Os vice-campeonatos recebem pontuação para valorizar as equipes que sempre estão presentes nas decisões, sinal de que realizam grandes campanhas com consistência. Mas o vice vale um décimo do valor do troféu. Se a conquista do Brasileiro representa 100 pontos, o vice recebe 10. Quando for necessário para escapar de decimais, a pontuação do vice será arredondada para cima [mas há exceções a essa regra]. Nem todo torneio recebe pontuação para o vice campeonato, caso dos títulos decididos em uma única partida.

O rebaixamento para divisões inferiores do campeonato nacional de clubes é despontuado. Trata-se de uma forma de retratar o desapontamento e o desprestígio que um clube acaba por sofrer ao passar pelo descenso. Para ressaltar ainda mais a importância do Brasileiro, pontuei a participação do clube em cada edição da divisão principal. Para a maior parte dos clubes, fazer parte da elite do Brasileiro é um privilégio, uma oportunidade rara e um imenso motivo de orgulho. 





DO PROBLEMA DOS ESTADUAIS

 

Os estaduais foram divididos em quatro grupos. 

O primeiro deles é o de maior peso, e inclui os campeonatos carioca e paulista. Foram nesses dois centros que o futebol se desenvolveu primeiro no Brasil. Foram neles também que as massas foram conquistadas e que se deu o processo de profissionalização do esporte. Os campeonatos carioca e paulista só perderam prestígio e relevância técnica a partir dos anos 1990, quando a nacionalização das principais competições, processo associado à exploração do mercado aberto pelo televisionamento e pelo consumo das faixas de renda B e C, se tornou irrefreável.

Para dar conta da ascensão, auge e queda desses estaduais, alterei a pontuação de acordo com o período histórico. 

Até 1936, foi atribuído ao campeão paulista 20 pontos e ao carioca 15. A data se justifica como marco da profissionalização e da superação dos cismas dos grandes clubes, que até então se dividiam constantemente em Ligas diferentes. Assumir a profissionalização foi também assumir que era necessário dinheiro e proximidade com o público nos estádios. E assim as principais equipes tinham de jogar umas contra as outras, criando uma dependência mútua.

Nesse primeiro período, o Paulista recebe mais pontos que o Carioca, o que pode surpreender a muitos. Mas nos anos 1910 e durante boa parte dos anos 1920 era consenso que o nível dos times paulistas era superior ao do Distrito Federal, e a diferença de pontos tenta dar conta dessa realidade histórica.

Mas a profissionalização fez com que o futebol do Rio de Janeiro assumisse a dianteira. O então Distrito Federal era a maior cidade do país, a rigor a única metrópole brasileira, e tinha mais condições de explorar o público urbano que lotava São Januário e depois o Maracanã. Além disso, a centralidade da grande mídia no Rio tornou o Carioca o primeiro torneio de repercussão nacional. As rádios veiculavam as notícias e os jogos das equipes do Rio para todo o país, inclusive para São Paulo, criando torcidas nacionalizadas. Sampa só sofreria processo parecido a partir dos anos 1990, em outro contexto e com outra mídia, a TV.

O nível técnico do Carioca também se tornou superior ao do Paulista. Nos anos 1940, o campeonato de São Paulo se tornou cenário de jogadores “aposentados” no Rio, caso de Leônidas, Domingos da Guia e Zizinho. Assim, entre 1936 e 1960, o campeão carioca passa a receber 40 pontos, enquanto o paulista recebe 30.

A industrialização e o crescimento demográfico de São Paulo logo fez com que a cidade desbancasse o Rio de Janeiro como metrópole mais populosa. No censo de 1960, o Rio perdia o posto de maior cidade brasileira, que ostentava há um século. Logo depois, também perderia a posição de Distrito Federal. No cenário do futebol, o nível técnico das equipes paulistas voltou a se equiparar às cariocas na segunda metade dos anos 1950. Essa paridade técnica duraria até o fim dos anos 1980, embora a visibilidade e a repercussão nacional do Carioca continuasse maior que a do Paulista durante todo o período. Entre 1961 e 1970, tanto o Paulista quanto o Carioca recebem 40 pontos.

Em 1971 se inaugura o Campeonato Brasileiro, o primeiro nacional de clubes independente das classificações dos estaduais. Foi também a primeira competição na história a desbancar o Carioca e o Paulista da posição de torneios mais desejados pelos próprios grandes das respectivas metrópoles. Foi a primeira minoração vivida pelos dois torneios estaduais modelo, que agora dividiam o ano com o Brasileiro, cujo status suplantou até mesmo o do Carioca no imaginário do torcedor. Mas ainda estava distante o tempo em que esses dois torneios entrariam em declínio. Entre 1971 e 1991, os campeões carioca e paulista recebem 30 pontos.

Em 1992, o fechamento provisório do Maracanã escancarou a diferença de estrutura e capacidade financeira entre o estadual de São Paulo e o do Rio de Janeiro. Sampa era uma metrópole com população 80% maior que a fluminense, o que justificou sua classificação pelo IBGE como “Grande Metrópole Nacional”, passando o Rio ao status de Metrópole Nacional ao lado de Brasília. A TV, que entrou nos lares das classes populares de todo o país ao longo dos anos 1980, levou o campeonato paulista para todos cantos do país, iniciando de modo rápido a nacionalização das torcidas do estado. Houve também uma defasagem técnica entre as competições dos dois centros, com um esvaziamento considerável dos clubes pequenos cariocas quando comparados à vitalidade do interior paulista.

Outro torneio nacional foi criado, a Copa do Brasil, e junto com o Campeonato Brasileiro, impulsionados cada vez mais pelas cotas de TV, geravam muito mais dividendos que os antigos estaduais, que entravam num processo de decadência do qual nunca mais escaparam. Entre 1992 e 2002, o Paulista leva 25 pontos, o Carioca fica com 20.

O Campeonato Brasileiro passou a ser disputado em pontos corridos a partir de 2003. A competição se estendeu por cerca de 8 meses do ano, diminuindo consideravelmente o tempo de disputa dos estaduais. O Paulista leva 20 pontos entre 2003 e 2011, e o campeão do Rio leva 15.


Com o fim do Clube dos 13 e a consolidação da TV fechada e, mais tarde, do streaming, a nacionalização do futebol brasileiro se acentuou. As competições nacionais passaram a receber cotas e patrocínios muitas vezes superiores aos estaduais. O sucesso da Copa do Brasil tornou essas cotas acessíveis a praticamente todos os clubes médios e pequenos do país. Os antigos portentos Carioca e Paulista se tornaram pouco mais que torneios preparatórios para as competições nacionais. Eles ainda mantém sua relevância histórica e alimentam as rivalidades dos clubes de maior torcida e tradição, e por isso recebem 12 pontos no caso do Paulista e 10 no caso do Carioca.

O segundo grupo de estaduais inclui Rio Grande do Sul e Minas Gerais. A profissionalização e a capacidade de mercado de Porto Alegre e Belo Horizonte se consolidaram depois de Rio e Sampa, e nunca foram suficientes para sustentar o mesmo número de clubes de sucesso no cenário nacional. Até 1960, os estaduais gaúcho e mineiro recebem 10 pontos. 

Com a criação dos primeiros torneios nacionais e o sucesso de Cruzeiro, Atlético Mineiro e, em um primeiro momento, do Internacional, a visibilidade desses centros se amplia. Em 1966, pela primeira vez a seleção brasileira deixa de ser um combinado entre os clubes de Rio e de São Paulo. Entre 1961 e 1991, estes estaduais recebem 15 pontos. Na década de 1992/2002, afetados pelo mesmo processo de esvaziamento e perda de relevância em comparação com as competições nacionais, eles voltam a receber 10 pontos. E após 2003, o campeão de RS e MG recebe 8 pontos.

O terceiro grupo é composto por centros de futebol historicamente secundários, mas que sempre foram capazes de colocar representantes nos torneios nacionais: os campeonatos de Paraná, Goiás, Santa Catarina, Bahia, Ceará e Pernambuco recebem 5 pontos. No grupo seguinte, os demais estaduais recebem 3 pontos.

Desse modo penso ter enfrentado a questão da diferença de peso entre os principais centros do futebol brasileiro bem como a alteração da importância dos próprios estaduais ao longo do tempo.

Os casos especiais continuam, no entanto, oferecendo desafios que não me dispus ainda a enfrentar. Essas dificuldades podem ser exemplificadas com a Taça Guanabara, torneio criado no Rio de Janeiro em 1965 e que era um dos maiores objetos de desejo dos clubes da cidade. A Taça Guanabara era considerada quase que como um estadual à parte, e sua conquista gerava comemorações efusivas na cidade até o fim dos anos 1990.

Desconsiderar o caso da Taça Guanabara é um desserviço histórico, mas sua excepcionalidade é também um nó difícil de desatar. Ela teria de ser comparada com outros Troféus secundários disputados nos demais centros, gerando uma celeuma enorme. Fica para um ranking futuro.





TORNEIOS ESTADUAIS


1. CARIOCA E PAULISTA


1.1 Até 1936: Carioca 15 p / Paulista 20 p

1.2 1937 a 1960: Carioca 40 p / Paulista 30 p

1.3 1961 a 1970: Carioca 40 p / Paulista 40 p

1.4 1971 a 1991: Carioca  30 p / Paulista 30 p

1.5 1992 a 2002: Carioca 20 p / Paulista 25 p

1.6 2003/2011: Carioca 15 p / Paulista 20 p

1.7 2012 em diante: Carioca 10 p / Paulista 12 p


2. MINAS GERAIS E RIO GRANDE DO SUL


2.1 Até 1960: 10 p

2.2 1961 a  1991: 15 p

2.3 1991 a 2002: 10 p

2.4 2003 em diante: 8 p


3. PR, SC, BA, PE, CE, GO

5 p


4. DEMAIS ESTADUAIS

3 p




quarta-feira, 14 de julho de 2021

O mito do ''Partido Militar" e da unidade monolitica nas Forças Armadas

 Sempre que cito possíveis cálculos políticos ou estratégias do grupo de generais que aderiu ao Reino dos Bozós, surge alguém com o queixo caído por não encontrar nas minhas postagens nenhuma menção ao tal 'partido militar', tal como pensado por muitos militantes e supostos analistas da esquerda.



Segundo essa perspectiva, o [des]governo é um 'regime militar' disfarçado. Os generais palacianos não representam uma ala dentro do Exército: eles seriam a prova que todo o Alto Comando, e talvez todo o alto oficialato, é bozólouco, entreguista e trabalha para a CIA.


É uma opinião que está no nível da crença na fada do dente. Mas é desse modo que boa parte da esquerda pinta a cúpula das Forças Armadas: como um bloco monolítico motivado por questões de classe [e por isso representante das altas burguesias] e que obedecem a um elo de comando cujo ápice está em Washington. Esse bloco não teria qualquer divergência interna relevante. Todos estão unidos na mesma posição político-ideológica, estratégia e praxis.


Boa parte da esquerda, com péssima formação em História e Ciências Humanas, enxerga dessa mesma maneira o regime civil-militar estabelecido em 1964. Primeiro, seria uma obra principalmente de militares, que se impuseram a uma sociedade civil e política francamente democrática. Segundo, obra da totalidade dos generais, todos eles pró-americanos e liberais.


Todas essas opiniões fantasiosas não resistem ao mínimo estudo. É verdade que, como corporação, as Forças Armadas, e especificamente o Exército, tem seus próprios valores, perspectivas e métodos de interação com o restante da sociedade. Mas nunca houve qualquer unidade ideológica ou política no seio delas. Nem mesmo se recortarmos o oficialato superior. Todas as ''aventuras'' dos militares no poder implicaram em ''quedas de braço'' internas, rachas e, depois retaliação dos derrotados. Até mesmo as eleições no Clube Militar, nos anos 1950, tinham por consequência expurgos.


Não vou me alongar, porque toda pessoa razoavelmente bem informada sabe que o golpe de 1964 foi a vitória de uma ala de generais sobre outras posições dentro da Força. E que levou a perseguições dentro da corporação militar. E que mesmo no decorrer do regime ocorreram rachas sobre temas bastante fundamentais. A abertura política [que alguns gostam de chamar de ''liberalização do regime''] foi obra de uma corrente específica, que no momento era dominante mas que sofreu intensa resistência.


Saber disso é bê-a-bá pra entender a atuação política dos militares no Brasil.


Algo similar ocorre no Reino dos Bozós. Em determinado momento, uma ala de generais, com forte peso do grupo que participou da ocupação do Haiti, decidiu usar Bozó para fazer com que as politicas públicas voltassem a ser pautadas por uma determinada ótica militar [com uma mistura de desenvolvimentismo, segurança nacional, anticomunismo etc.] Esse grupo não representa as FAs como um todo, e participaram do governo como generais da reserva. Houve racha dentro desse conjunto de 'aventureiros', alguns dos quais se arrependeram publicamente da participação no [des]governo: Está aí o general Santos Cruz que não me deixa mentir. Outro sinal de racha é o asco que o general Ramos tomou de Pazuzu.


Houve também distanciamento entre esse grupo de generais da reserva e outros da ativa, que sempre olharam com ceticismo essa aproximação com Bozó. Não é por outra razão, por exemplo, que Bozó tirou Pujol do Comando do Exército, já que ele era uma pedra em seu caminho. Pra quê mudar os Comandantes, gerando crise com os militares, se todo o generalato é bozólouco e doido pra cumprir as ordens do Planalto, como no delírio esquerdeiro? A resposta passa pela aceitação do óbvio: a existência de divergências fundamentais no interior das Forças Armadas.


'Partido militar' só faz referência a uma realidade bem mais restrita do que alguns pretendem abarcar com o conceito: a existência de correntes, de alas, dentro da própria corporação. Não existe 'partido militar', e sim 'partidoS', incluindo aqueles generais que pensam que o Exército não deve ter partido nenhum.


Alguns políticos percebem isso muito bem, e não por outra coisa Ciro Gomes faz a distinção entre um 'Exército de Caxias' e a turma abobada que caiu no conto do vigário bozólouco e que agora não sabe como sair da enrascada em que se meteu.


Porque é óbvio que eles se desiludiram em algum grau e em algum nível, e perceberam que não conseguiriam tutelar o [des]governo. Evidente que eles sabem que o Reino fez água, e que correm o risco de morrerem afogados na medida em que a popularidade de Bozó desce a ladeira e surgem escândalos de corrupção que envolvem oficiais que participam dos Ministérios e Secretarias. Claro que toda essa situação acentua ainda mais a própria divergência interna, com generais apontando para colegas e lançando um severo, ''eu te disse!"


Eis aí o momento do grupo de generais de pijama que achou que podia 'pautar' o Reino dos Bozós e o Brasil.

terça-feira, 8 de junho de 2021

O Flamengo é a esperança contra a ''espanholização'' do futebol brasileiro

Matéria do GE [Globo Esporte], em 2018, tentava explicar a hegemonia paulista a partir dos anos 2000. Naquele ano, o futebol de São Paulo seria campeão de novo.


Tem se tornado comum entre rivais a reclamação de que a arrumação nas contas do Flamengo e a ascensão do clube rubro-negro nos últimos três ou quatro anos "espanholiza'' o futebol brasileiro. O muxoxo não passa de uma distorção completa dos fatos ocorridos nos últimos trinta anos.


Como é repetida insistentemente, parte da geração mais nova, que não tem a perspectiva histórica correta, acaba embarcando nessa furada. Aliás, divulgar mentiras absurdas e escabrosas sobre o Flamengo é recorrente na torcida arco-íris, embora geralmente não seja por má intenção.

Entre 1971 e 2000, nos 30 primeiros campeonatos brasileiros, os clubes paulistas levantaram 11 títulos [36%] contra 11 dos cariocas [36%] e 8 [28%] das equipes das demais federações estaduais. Não havia nenhum estado que pudesse bater no peito e dizer que dominava o futebol brasileiro. [1]

Entre 2001 e 2018, no entanto, os paulistas ganharam 11 dos 18 campeonatos brasileiros disputados. Ou seja, cerca de 62% de todos os torneios. Os cariocas tiveram sua participação reduzida para 3 [16%]. As outras federações tiveram a fatia reduzida para 22%. [Se esticarmos até 2020, já incluindo a ascensão do Flamengo, as proporções ficam em 55% pra São Paulo, 25% pro Rio, 20% pras demais federações].

Se analisarmos os números década a década, notamos o mesmo processo de concentração em torno dos clubes paulistas. Na década de 1970, São Paulo venceu 4 brasileiros, contra 2 dos cariocas e 4 das demais federações. Na de 1980, a vantagem foi toda carioca: 5 taças contra 2 dos paulistas. As demais federações levaram 3 [ou 4, dependendo de como se considere 1987]. Nos anos 1990, São Paulo conquista 5 taças, contra 4 do Rio e apenas 1 das demais federações. Apesar da vantagem paulista nos anos 1990 e da dificuldade das demais UFs acompanharem o ''eixo'', a hegemonia paulista ainda não se realizara.

Mas na primeira década do novo século, São Paulo leva SEIS campeonatos brasileiros, cinco deles CONSECUTIVOS. O Rio fica com apenas 2. As outras unidades da Federação com 2 também. Entre 2011 e 2018, São Paulo levanta 5 dos 8 troféus, contra 1 do Rio e 2 das demais UFs.

É evidente para qualquer um que analise os números com a mínima honestidade que a ''espanholização'' vem acontecendo sim: ela é a imensa, inédita, e aparentemente irrefreável concentração de recursos nos clubes paulistas.

Isso não afetou apenas o Rio. O Rio Grande do Sul não vence um Brasileirão desde 1996, há vinte e cinco anos! Minas Gerais conseguiu conquistar brasileiros mas a um preço que só agora se torna claro: a destruição financeira do Cruzeiro, que já está há dois anos na segunda divisão e sem perspectivas concretas de melhoras.

Quando um torcedor afirma que "o Flamengo ameaça espanholizar o futebol brasileiro'', a única reação possível é o sorriso irônico. Como assim? É justamente o contrário. O Flamengo é o único clube com capacidade de, pelas próprias forças, fazer frente à hegemonia e concentração de recursos em torno do futebol paulista.

Como 'naturalizam' uma superioridade que só foi imposta recentemente, os torcedores dos grandes clubes de São Paulo não percebem essa obviedade. Ganham quatro ou cinco brasileiros seguidos e acham ''normal''. O Flamengo ganha dois, e o futebol brasileiro está seriamente ameaçado pela concentração econômica. Só pode ser piada.

Eis a missão histórica do Flamengo na próximas décadas. Colocar limites à ''espanholização'' provocada nas últimas três décadas. Só nós podemos fazê-lo. Porque só nós temos condições de enfrentar a máquina de dinheiro do maior estado do país. ____________________________________

[1] Na década passada, a CBF reconheceu a Taça Brasil e o "Robertão" como títulos equivalentes ao campeonato brasileiro. Não pretendo entrar nessa polêmica agora, mas convém reconhecer que, independente da natureza desses torneios, eles eram encarados de maneira secundária pelas equipes do Rio de Janeiro e de São Paulo, que tinham como principal objeto de desejo seus respectivas campeonatos estaduais. Para os clubes do ''eixo'', essa realidade só muda a partir de meados dos anos 1970, quando o Campeonato Brasileiro ''pega no breu''.

segunda-feira, 22 de março de 2021

DAS MENTIRAS QUE OLAVETES CONTAM, ou: a balela de que as ideias de Dugin teriam sido condenadas como heréticas pelo Patriarcado de Moscou

 ''Todo o universo de idéias do professor Dugin é um reflexo do drama estrutural, interior da Igreja Ortodoxa.''

Olavo de Carvalho



Dugin lendo ofício em uma Igreja Russa



Alguns discípulos de Olavo de Carvalho decidiram espalhar uma mentira infame entre cristãos ortodoxos, a de que existiria uma condenação formal do Patriarcado de Moscou às ideias de Alexandr Dugin. [1]


Pra manter a invencionice, se utilizam de um texto retirado do livro "Новые религиозные организации России деструктивного, оккультного и неоязыческого характера'' [''Novas organizações religiosas na Rússia e de natureza destrutiva, ocultista e neopagã''], que é um dos oito volumes de uma verdadeira ''enciclopédia'' chamada ''Новые религиозные организации России деструктивного и оккультного характера'' ["Novas organizações religiosas russas de natureza destrutiva e oculta"].



As duas primeiras edições foram publicadas em 1997 como um guia pelo Departamento Missionário do Patriarcado de Moscou, sem no entanto implicar qualquer pronunciamento oficial sobre os diferentes tópicos e movimentos citados por seu autor, de quem falaremos mais adiante. A terceira edição, muito mais ampliada, foi publicada, por sua vez, pela Editora Peregrino entre 1999 e 2002.



O compilador da obra é Igor Vladislavovich Ponkin, que tem certa presença acadêmica e política, e pesquisa movimentos não-cristãos surgidos a partir dos anos 1990.



Ponkin não é nem nunca foi funcionário ou voz oficial do Patriarcado. Em evento acadêmico realizado no fim de 2002, o Padre Andrey Igorevich Khvylya-Olinte, que é também teólogo e doutor em Direito, e exercia chefia no próprio Departamento Missionário, declarou que ''[H]á várias pessoas que se declaram funcionários do Departamento Missionário Sinodal, entre elas Igor Vladislavovich Ponkin, que possui muitos pseudônimos - entre eles "Karelin" e "I. Kulikov ". Ele também não é funcionário do Departamento Missionário Sinodal. Peço a todos que estejam atentos às reivindicações arbitrárias dessas pessoas de serem membros do Departamento Missionário Sinodal" [2].



Além do texto não fornecer a posição da Igreja, seu compilador foi DESAUTORIZADO por figuras com posição formal no Departamento, e que possuem benção do Patriarcado para levar a efeito seus estudos sobre movimentos religiosos. 


A própria ''enciclopédia'' em questão foi analisada ao longo dos anos 2000 por acadêmicos e por figuras vinculadas ao Departamento Missionário, recebendo diversas e sólidas críticas, incluindo aí o teólogo e prestigiado acadêmico Alexander Leonidovich Dvorkin, esse sim premiado pelo Patriarcado e um dos maiores militantes contra o surgimento e crescimento de cultos perigosos [de uma perspectiva ortodoxa] na Rússia. Dentre outras coisas, Dvorkin disse que o livro' de Ponkin "contém muitos erros, dados não verificados e não confiáveis e estatísticas absolutamente fantásticas''. Além disso, continua ele, haveria uma simpatia preocupante com seitas neopentecostais, que, misteriosamente, parecem não ser consideradas perigosas. O que talvez explique uma das abordagens de Ponkin que vamos analisar mais abaixo.



A conclusão é inescapável: Qualquer um que diga que tal texto e o livro do qual ele saiu significa uma posição oficial do Patriarcado de Moscou está mentindo na cara dura. Infelizmente, uma tradução permanece publicada em um ou outro blog de cristãos ortodoxos, certamente por influência de Fábio L. Leite e amigos olavetes.



O objetivo da manutenção dessa mentira é, evidentemente, político. Olavo de Carvalho, ele mesmo um OCULTISTA que se diz católico-romano mas frequenta igrejolas pentecostais buscando curas pra hérnia, que defende uma união entre o Vaticano e a Maçonaria estaduninense, e que possui uma visão de mundo moldada por Fritjof Schuon, sob influência de quem converteu [''reverteu''] toda a família ao Islamismo. Desse sim Fábio Leite gosta.


Olavo, como qualquer pessoa sensata sabe, é agente de desinformação do Estado norte-americano. Mora na Virgínia, milita em prol do neoconservadorismo ianque e do liberalismo econômico, e defende a destruição do Brasil e a administração de nosso território pelos EUA.


O ''guru da Virgínia'' considera a Igreja Ortodoxa, e particularmente o Patriarcado de Moscou, como uma extensão ''da KGB" [sic]. E já declarouy que todas as paróquias cristãs ortodoxas no Brasil estão sob controle de tariqas muçulmanas.



Os delírios não param por aí. O homem que dizem ter escapado de um manicômio sem alta médica depois de tentar viajar por dimensões espaço-temporais com uma barca egípcia, tem não só Alexandr Dugin como inimigo, como o considera uma mera consequência do verdadeiro mal que se esconde no Oriente: para Olavo, o imperialismo russo [sic] e o globalismo são consequência direta da teologia ortodoxa. Por trás do ''eurasianismo'' e de todos os males possíveis e imagináveis que a Rússia espalharia pelo mundo, estaria o erro teológico fundamental: os ensinamentos da Igreja Ortodoxa.

 

Ou seja, Fábio Leite e companhia, incluindo todos aqueles que divulgam a versão mentirosa da suposta condenação de Dugin pelo Patriarcado de Moscou, tem um problemão: para seu guru e mestre, o verdadeiro problema das ideias de Dugin é que elas são moldadas demais pela mentalidade da Igreja.

 


Assim, pra Olavo o problema não é Dugin, e sim a Ortodoxia. Já perguntei a Fábio L. Leite a razão de ele se dizer cristão ortodoxo e ao mesmo tempo concordar com a leitura que seu guru faz da Igreja, mas ele nunca deu qualquer justificativa sólida. Talvez porque seu tempo esteja ocupado demais defendendo Sara Winter, outra olavete histriônica, vinculada ao neonazismo e à bozóloucura, e cuja história se associa à militância em prol de causas geopolíticas afins com os EUA. [3]


Desfeita a artimanha, resta, para aqueles que queiram perder o seu precioso tempo, olhar o texto que eles divulgam. Não é à toa que pessoas simpáticas a Olavo de Carvalho tenham simpatia pela peça. Ela não tem qualquer intenção de propor uma análise honesta. É um conjunto de recortes de pronunciamentos de Dugin em diferentes âmbitos, de conferências políticas a manuais de história da religião, todos eles lançados nos anos 1990, antes da proposta da Quarta Teoria Política. Esses recortes são tratados da forma mais desonesta possível, como é típico na erística reproduzida por olavetes.


Temos ali as mesmas estratégias de "debate’’ que tanto enganam incautos: uma série de distorções, giros argumentativos, denúncias, citações descontextualizadas, muitas das quais demonstram a ignorância do autor sobre os temas tratados. Vou citar apenas alguns exemplos:

 

1. Logo no início do texto é dito que "GUÉNON constitui uma autoridade incontestável para A. DUGIN.'' É uma tentativa de construir um espantalho: Se Guénon é autoridade incontestável para Dugin, e sendo Guénon um muçulmano sufi, logo as ideias de Dugin se desviam da Igreja. Só que Dugin tem críticas a idéias de Guénon, como a da existência de um núcleo esotérico comum a todas as religiões. Além disso, se possuir influência de Guénon é um "demérito’’ pra alguém, então todas as obras e textos de Olavo de Carvalho deveriam ser jogados fora. Olavo chega a PLAGIAR argumentos de Guénon em livros seus, como n’O Jardim das Aflições, confiando no desconhecimento das obras do metafísico francês.

 

2. O texto aponta que “As primeiras pesquisas religiosas de A. DUGIN datam do início dos anos 90 do século passado’’, e logo depois considera essas pesquisas iniciais como parâmetro de análise. Por quê? Qual o sentido disso? Se analisasse os escritos do Bem Aventurado Santo Agostinho por esse mesmo critério, o autor o chamaria de maniqueísta. Se analisasse os escritos de Olavo por esse mesmo critério, concluiria que ele era um astrólogo perenialista vinculado a cultos obscuros dos irmãos Shah.

 


3.  O autor também "acusa"  Dugin de reconhecer  a primazia do não ser”. Ele não nos dá nenhuma justificativa para o escândalo. Provavelmente porque confunde esse conceito com a ideia de "Nada’’. Mas o próprio Guénon esclarece que se trata de algo completamente distinto. O "não-ser’’ é aquilo que está para além do que a teologia escolástica chamou de "Ser". É a Realidade Absoluta e Inominável, absolutamente transcendente e que não pode ser contida por qualquer manifestação. O conceito não traz nenhum problema para os cristão ortodoxos, apenas para a teologia ocidental derivada do tomismo.

 

4.  O autor admite que a obra “O Fim do Mundo. Escatologia e Tradição’’, de 1998, é proposta por Dugin como um “manual de história”. Mas por algum motivo maluco, acrescenta que, por possuir posições pessoais do sociólogo, tem de ser lida como obra de "caráter dogmático". A absurdidade e desonestidade é gritante. E ressalto: o manual de história data de 1998, vinte e três anos atrás. O que fazia Olavo de Carvalho em 1998? Já tinha saído da tariqa? Já tinha parado de se definir religiosamente como um "cristão-muçulmano-hindu-judeu’’? Aliás, o que escrevia Olavo de Carvalho sobre os EUA em 1998? Muitos de seus discípulos mais fanáticos ficariam surpresos.

 

5.   Outro escândalo é com a declaração de que “O Cristianismo não substituiu, mas elevou e consolidou a fé antiga pré-cristã.’’ Se fica ofendido com frases como essa, o que o autor pensaria de São Justino Mártir e de São Clemente de Alexandria? Tudo que é verdade na história espiritual da homem é também cristão. As sementes do Verbo foram jogadas para todos os lados. Não há problema algum na consideração feita por Dugin.

 

6.   O autor implica com os diálogos empreendidos por Dugin com muçulmanos. Imagino que ficaria também doente com algumas posições de São Gregório Palamas quando capturado por muçulmanos, e que vão muito além de tudo o que Dugin tenha dito sobre o tema. Mas o verdadeiro flagrante do que está por trás do autor se dá quando analisa frases a respeito de Crowley. Segundo ele, "DUGIN culpa o próprio cristianismo pelo aparecimento das concepções anti-cristãs de A. Crowley’’. É verdade, Dugin responsabiliza mesmo o esvaziamento espiritual do "cristianismo ocidental'' como cenário perfeito para a proliferação de pessoas como Crowley. O autor quer tomar as dores de católico-romanos e anglicanos, estas sim heresias de acordo com a perspectiva cristã-ortodoxa. Parece que Dvorkin não estava tão errado ao apontar as simpatias de Ponkin pelo protestantismo.

 

Enfim, muito mais coisa poderia ser citada, mas a essa altura já deve estar evidente que o texto é uma piada de mau gosto do qual nada, absolutamente nada se aproveita. Além disso, a Quarta Teoria Política foi desenvolvida mais de uma década depois.


A grande questão que resta é a seguinte: Por que alguns cristãos ortodoxos colocam sua fé em segundo lugar quando se trata de defender os projetos de Olavo de Carvalho? Para agradar ao líder da seita, eles trabalham até mesmo com o Pai da Mentira pra desinformar membros da Igreja. 


Nunca é demais lembrar: Dugin é nosso irmão de fé. Já Olavo de Carvalho, o liberalismo ianque, Bozó, Sara Winter e gente semelhante defendem publicamente posições verdadeiramente incompatíveis com a Ortodoxia.


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[1] https://vidaortodoxa.blogspot.com/2014/06/patriarcado-de-moscou-condena-dugin.html

[2] https://iriney.ru/main/dokumentyi/rukovodstvo-missionerskogo-otdela-razoblachaet-samozvanczev.html

[3] ''Olavo tem declarações publicadas em livro dizendo que a Igreja Ortodoxa possui erros em seus ensinamentos, esses erros estando na origem do ''imperialismo russo''.

Os russos seriam imperialistas porque a Ortodoxia seria uma Religião Imperial e o verdadeiro agente histórico por trás do ''eurasianismo''. O grande perigo vindo da Rússia não seria Alexandr Dugin, que não passaria de um instrumento do erro teológico da Igreja Ortodoxa.
Eis a prova nas declarações do próprio Olavo:
''10. O verdadeiro agente histórico por trás do eurasismo
Um exemplo de força histórica que transcende infinitamente as fronteiras e a duração de Estados e Impérios é a Igreja Ortodoxa, da qual o prof. Dugin se diz um crente. Foi ela que deu unidade e conteúdo cultural ao império de Kiev. Sobreviveu a ele quando o centro de poder moscovita instaurou um novo império. Sobreviveu à queda desse império e às seis décadas de terror que se seguiram, e saiu incólume ao ponto de poder inspirar ao prof. Dugin um novo projeto imperial russo. As sucessivas formações nacionais e estatais que apareceram e desapareceram do mapa russo ao longo dessa história são apenas sombras que o corpo gigantesco da Igreja Ortodoxa projeta sobre o mundo oriental, conservando sua unidade de propósitos enquanto as forças políticas surgem e se desfazem no ar como bolhas de sabão. Prof. Dugin: olhe para a sua Igreja, e saberá o que é um agente histórico. As unidades geopolíticas nascem da iniciativa dos agentes históricos e só parecem agir por si próprias porque os agentes genuínos, além de discretos por natureza, atuam num ritmo de fundo, mais lento do que a própria formação e dissolução das unidades geopolíticas.
A força da Igreja Ortodoxa como agente histórico penetrou fundo no cérebro do próprio prof. Dugin, moldando a sua noção “holista” do império teocrático. [...] O projeto eurasiano é o único caminho para a Igreja Ortodoxa se ela não quiser permanecer confinada aos limites da nação russa, fracassando em sua declarada missão como religião universal. Enquanto isso, a Igreja Católica Romana pode se expandir confortavelmente para as últimas fronteiras do Paraguai e da China sem necessidade de carregar um Império em suas costas. E isso é o que acontece de fato, enquanto a Igreja Ortodoxa, através do professor Dugin, está ainda procurando por uma saída para o mundo e não vê outros meios de encontrá-la senão se constituindo em um Império Mundial. Todo o universo de idéias do professor Dugin é um reflexo do drama estrutural, interior da Igreja Ortodoxa. Toda a conversa sobre fronteiras geopolíticas é apenas um arranjo estratégico para tentar, mais uma vez, realizar o impossível sonho de um grande e portentoso agente histórico que, ao escolher ser um religião imperial, se condena ou a permanecer presa em fronteiras nacionais ou dar início a uma guerra mundial.''
Na avaliação de Olavo, a solução está na Igreja Católica-Romana, sendo a Ortodoxia um equívoco de consequências catastróficas [globalismo, império teocrático universal etc.]
Não preciso acrescentar que o mesmo pseudo-filósofo declarou que TODAS as paróquias ortodoxas no Brasil são meros tentáculos e disfarces de tariqas muçulmanas.
Como um ortodoxo pode conciliar sua lealdade a Olavo de Carvalho ao pensamento do sujeito sobre a Igreja Ortodoxa é algo que caberia a Fábio Leite responder e explicar.
Além de olavete, Fábio é também amigo de Sara Winter, uma maluca que resolveu criar um acampamento potencialmente terrorista em Brasília e está sendo investigada pelo STF por ameaças ao Ministro Alexandre de Moraes.
Winter declarou que sua intenção é ''ucranizar'' o Brasil, e que tomou a iniciativa do acampamento por causa de Olavo de Carvalho. A Ucrânia foi um país fracionado por guerras civis impulsionadas pela OTAN.
Não à toa, as recentes operações da PF contra os disseminadores de Fake News tem levado Fábio a uma intensa atividade nas redes sociais, protestando contra a terrível ''arbitrariedade'' do ato e um tal ''golpe'' do STF.
Tudo indica que as ligações de Fábio Leite com Olavo de Carvalho são íntimas demais. Transcendem uma inspiração ideológica, são discipulares. Ele pode ser visto tranquilamente como um representante da seita olavética na Ortodoxia. Talvez até um infiltrado, caso se resolva mexer nesse vespeiro. O que seria um perigo, já que ele é formado num seminário e pode ser ordenado.
Não seria estranho que um seminarista ortodoxo fosse ao mesmo tempo discípulo de um pseudo-guru que acredita que a Rússia é culpada pela tragédia do imperialismo/globalismo e que coloca a responsabilidade desse crime na agência histórica e nas doutrinas da Igreja ortodoxa.
Olavo passou pela tariqa de F. Schuon, que infiltrava seguidores seus em diversas religiões a fim de influenciá-las. A seita possuiria a ''verdade'', e seus adeptos tratariam de ler as doutrinas das instituições religiosas segundo essa ''luz''.
Um possível padre cristão ortodoxo com lealdades nebulosas com um pseudo guru ocultista com ideias fortemente anti-ortodoxas seria problemático para o crescimento da Ortodoxia em nosso país. Como fiéis da Igreja, precisamos estar atentos pra isso.''



quarta-feira, 10 de março de 2021

Lula e o mito do paraíso perdido

 O mito mais estapafúrdio difundido em certo círculos do sistema político-partidário não é o fanatismo em torno de chavões e rompantes toscos de Bozó. E sim a narrativa esdrúxula de um suposto paraíso perdido do governo Lula.



O primeiro mandato do PT, entre 2002 e 2006, foi quase que uma continuação das políticas macro-econômicas de Fernando Henrique Cardoso. Para ser justo com o sapo barbudo, temos de admitir que ele foi muito melhor que seu rival uspiano. Existiram de fato diversos itens em seu governo que o tornavam bem superior a tudo que se viu na destruição nacional empreendida pelo PSDB.

A maior virtude foi conseguir enterrar a ALCA. Conduzida com mão de ferro por diplomatas do nível de um Celso Amorim, o Brasil rompeu com a subserviência ao unilateralismo ianque e se tornou líder na construção de mecanismos multilaterais que poderiam apontar, futuramente, para uma multipolaridade: os Brics, a aposta no Mercosul, os investimentos nos vizinhos, os diálogos da UNASUL. Houve também dedicação ao programa nuclear e à defesa do país.

Mas todas essas iniciativas, por melhores que fossem, sofriam uma restrição muito forte: a base industrial cada vez menor. E nosso processo de desindustrialização era alavancado justamente pela política macroeconômica neoliberal a que Lula sempre esteve abraçado.

É verdade que ele buscou apoiar, principalmente em seu segundo mandato, a construção civil. Mais uma vez, por mais que a existência de políticas industriais seja preferível a política industrial nenhuma, as do governo Lula foram evidentemente insuficientes.



E ele deu sorte. A partir de 2005, as commodities viveram um boom no mercado internacional, permitindo aliviar as contas públicas e dar ao petista a oportunidade de sustentar políticas de transferência de renda que impulsionaram o consumo da ''Ralé" como nunca visto depois do primeiro Plano Cruzado. O país cresceu a um ritmo que não conhecia desde o fim dos anos 1970.

Mas era um crescimento ilusório. Não havia aumento da produtividade, a indústria não participou da festa. Os setores que se expandiram eram os de serviços de baixa qualificação. Aquilo que alguns economistas apontaram como ''economia de shopping''.

Mas o PT vendeu a miragem como símbolo da formação de uma ''nova classe média''. Essa ''Ralé'' e essa classe popular periclitante, que dava ''rolê em shoppings'', e que trabalhava como lojistas, cabelereiros e garçons, seriam a marca da ascensão popular e da nova sociedade igualitária que o PT estaria criando. O próprio critério da divisão das classes em faixas de renda já denunciava toda a ideologia nacional-consumista que estava por trás do olhar petista. Para mostrar que acreditava de fato na estupidez, o PT decidiu realizar um acordo com as principais lideranças evangélicas, abandonando a antiga base católica-romana que foi um dos esteios de construção do partido.

Sim, a força política da IURD e de Silas Malafaia se consolidou no governo Lula. Foi ele quem abriu as portas dos palácios do governo para essa gente. A teologia da prosperidade era a versão religiosa do nacional-consumismo petista. Nesse sentido, o PT caía na esparrela propagandeada por Mangabeira Unger.



Entusiasmado por ter descoberto que a revolução viria do consumo, Lula deu entrevistas dizendo que o brasileiro deveria parar de esperar que a indústria se recuperasse. Que o agronegócio, vendendo carne e soja, poderia sustentar a prosperidade do país e os rolêzinhos em shoppings. Poucas declarações foram tão ridículas e patéticas.

Do mesmo modo, os mecanismos de transferência de renda e os empregos precários em um comércio de baixa qualificação não possuíam base para alterar em nada a estrutura perversa de propriedade e renda. Quem mais perdeu na brincadeira foi a baixa classe média e as classes populares mais estabelecidas, açoitadas pela inflação de serviços que se originava por causa de um consumo desenfreado sem base produtiva real. A concentração de propriedade nas classes mais abastadas continuou, fortalecidas pela financeirização dos agentes econômicos, que atingiu não só a pequena burguesia, mas mesmo as indústrias, que, afinal, tinham de sobreviver de alguma forma.



Pouco adiantou também construir universidades a rodo pelo país afora. Sem emprego para absorver a mão de obra que saía dessas instituições, tudo o que se conseguia era aumentar o número de desempregados de diploma nas mãos e acentuar a perda de cérebros para outros países.

As pequenas mudanças de rumo econômico no segundo mandato, com a adoção de políticas anticíclicas de matiz keynesiano, não alteraram em nada o quadro geral. O Brasil dependia cada vez mais da exportação de matérias primas e do agronegócio, sua economia se tornava refém do rentismo [financeirização] e de um poderoso cartel de bancos, os mecanismos de financiamento do Estado eram viciados e uma bomba a explodir a curto prazo, o consumismo não possuía base produtiva real, a desigualdade de propriedade e renda estava intacta.

Em meio a essa brincadeira, Lula deu voz no governo a todas as ONGs pós-modernas e identitáias liberais que destruíram a imagem da esquerda diante da população. Financiamento de paradas gays, abraço à ideologia de gênero, ''marchas das vadias'' que invadiam igrejas, tentativas de legalizar o abortismo por meio do STF: a parafernália completa da lacração encontrou terreno propício para proliferar no pântano petista.



É verdade que Lula não destruiu o Estado, como o funesto PSDB. Ele revalorizou o serviço público. Mas não o suficiente para retirar a Petrobrás da Bolsa de Nova Iorque, por exemplo, ou para reverter a política de terceirização dos quadros da empresa [os terceirizados eram maioria no fim da era Lulla-lá].

No terreno político, o petista tentou o mesmo que Bozó: não depender do Centrão. Não queria dar cargos em estatais pra todo aquele fisiologismo. Para sobreviver, inventou o mensalão, crime a que Bozó não esteve disposto. Depois que ''deu ruim'', fez também o mesmo que seu atual rival, se rendeu por completo às oligarquias parlamentares. A roubalheira que se sucedeu nos anos posteriores foi mera consequência desse arranjo. O Rio de Janeiro, governado por Cabral, Picciani, Eduardo Paes etc., todos com forte apoio lullista, sabe muito bem o que é isso.

Lula fez um governo muito melhor do que Fernando Henrique e Bozó. Mas isso porque está sendo comparado com dois dos piores governantes que já tivemos em nossa história. De modo geral, seus mandatos não passaram de uma grande perda de tempo. O Brasil perdeu tempo com Lula. Saímos de seu governo piores do que entramos, delirando com um inexistente potencial revolucionário do bolsa-família, dando postos chaves da política para Edir Macedo, acreditando em unicórnios e elefantes cor-de-rosa que nos tornariam uma potência mesmo sem indústria, copiando as políticas identitárias do partido democrata ianque, e criando um fosso difícil de ser superado entre a sensibilidade do partido governante e a população de valores conservadores.



Não há paraíso perdido nenhum. O governo Lula foi capítulo da Nova República, elo que, de Fernando Henrique, nos levou ao Reino dos Bozós. Seu sentido profundo é a camisa de força liberal que nos agrilhoa nas últimas quatro décadas.

Quem pensa qualquer coisa diferente disto, ou é liberal como Lula, ou está fantasiando em total desconexão com a realidade.