sexta-feira, 8 de novembro de 2019

SOBRE MALANDROS E MANÉS, ou: o delírio do nacionalista que confunde sapos com príncipes


''Udenismo de macacão'', essa era a ideologia que Leonel Brizola dizia ser o norte do ''sapo barbudo'': ''Lula e Fernando Henrique se acotovelam para ver quem implementa o mesmo programa neoliberal''

Curioso como alguns nacionalistas se deixaram enganar por meia dúzia de palavras pronunciadas por Lulla-lá quando saiu da prisão. É como se ele nunca tivesse feito algo similar antes, falado mal da Globo, do capitalismo, do entreguismo, dos liberais, das elites etc.
Como se fosse a primeira vez que fingisse ser um patriota, fazer parte de uma tradição nacional-popular -- quem lembra da visita ao túmulo de Getúlio, em São Borja? -- ou mesmo representar qualquer perigo para o sistema hegemônico.
Ora, cartas de boas intenções não servem de nada diante da longa biografia do sujeito.
Estamos falando de um político que destruiu a indústria brasileira, inventou uma tal de ''nova classe média'' que nada mais era do que uma economia de shopping para as classes populares, se uniu a Edir Macedo e a Henrique Meirelles, se abraçava com o Partido Democrata dos Estados Unidos, e promovia o pós-modernismo com unhas e dentes.
Lembro a esses cândidos nacionalistas do programa de governo que Haddad soltou ano passado. O PT prometia fazer o contrário de quase tudo o que havia realizado nos 13 anos em que esteve no Palácio do Planalto. Bastou ir para o segundo turno para o novo Fernando da USP começar a rasgar o documento apresentado nos debates do turno inicial e chamar o tal ''mercado'' pra conversar.
Papel aceita qualquer merda. Pelegos como Lulla-lá são capazes de dizer qualquer coisa para chegarem lá. E o critério do nacionalismo popular brasileiro para julgar quem era um verdadeiro líder sempre passou pelo problema incontornável de saber se o político estava com o povo ou era, na verdade, um traíra disfarçado.
Lulla-lá nunca passou nesse critério. É o oposto, foi reprovado com louvor, se é que podemos dizer assim.
Impressiona que alguns nacionalistas se deixem enganar por sentimentalismo barato, espetáculos, e dois arrotos e meio dados pelo sapo barbudo. Um sorrisinho e eles já saem beijando qualquer batráquio como se príncipe fosse.
Tomem tenência. Como já dizia o filósofo: malandro é malandro, e mané é mané.

sábado, 2 de novembro de 2019

SOBRE O SUS, ou: O que Paulo Guedes quer dizer com ''quebrar não o teto de gastos, mas o piso?''

Sempre que vem à tona discussões sobre o teto de gastos do Estado, que ameaça paralisar e destruir os serviços públicos já a partir do ano que vem, o Ministro da Economia Paulo Guedes vem com a ladainha de que é necessário ''quebrar não o teto, mas o piso''.

O que ele quer dizer com isso? Que o Orçamento deve ser inteiramente desvinculado, isto é, deve-se pôr fim àquele patamar mínimo de grana que a Constituição exige que seja usado em algumas áreas, incluindo aí Educação e Saúde.

"Quebrar o piso'' significa que o Estado vai poder investir cada vez menos nessas áreas sempre que a Banca exigir o pagamento de mais juros extorsivos daquela dívida que ninguém sabe como foi construída e que ninguém sabe quem são os credores -- porque o Banco Central os mantém em segredo e a ''politicalhada'' não permite nenhuma auditoria.

É um ataque direto a direitos sociais pactuados, como a expansão do Sistema Único de Saúde. Sem o SUS, a maioria esmagadora da população ficaria sem os atendimentos não apenas prioritários, do dia dia, mas também tratamento sofisticados para casos melindrosos.

A máfia dos planos de saúde, que vem sendo promovida desde o governo Fernando Henrique Cardoso, cobra cada vez mais caro para serviços cada vez piores, sem o ônus de assumir uma visão republicana para a saúde: perspectiva que exige que todos os cidadãos possuam o mesmo atendimento do sistema, independente de renda ou qualquer outro fator.

Para os cartéis que lucram com saúde alheia, se você não tem direito de pagar, então que sofra com o problema ou morra.

Paulo Guedes quer destruir os recursos que a Constituição obriga que sejam destinados a áreas como a Saúde Pública. O psicopata acredita, no fim das contas, que saúde é bem negociável: é serviço só pra quem puder pagar


O SUS tem inúmeros problemas, principalmente em regiões metropolitanas e no Nordeste/Norte do país, mas eles são exagerados pela propaganda liberaloide que quer fortalecer as máfias que avançam sobre os serviços que deveriam ser garantidos pelo Estado.

Os planos de saúde costumam ter problemas de atendimento semelhantes ou muito piores, com as raríssimas exceções daqueles que podem pagar um valor absurdo por mês para conseguir tratamento, segundo uma lógica implacável e criminosa do mercado.

De todo modo, em muitas regiões, na maioria delas afinal, o SUS é o esteio da prevenção e do atendimento de saúde da população. E em diversos casos, com qualidade invejável para diversos países.

Abaixo, deixo um relato feito em um grupo de discussões do Yahoo, ainda no final da década passada. O autor, cujo nome vou resguardar por ter perdido um pouco contato com ele, era liberal, seguidor de Olavo de Carvalho, francamente pró-ianque e pró-sionista, declaradamente conservador, e odiava com todas as forças o PT e as esquerdas. No entanto, ele é médico também e trabalhou no SUS.

A Saúde Pública precisa de mais dinheiro, não de menos. O discurso de Paulo Guedes é típico daqueles bilionários que não estão nem aí se 99% da população não poderiam pagar um tratamento decente quando o bicho pegar. É um discurso ''norte-americano'', que pensa que quem merece usufruir da ''boa vida'' é quem tem dinheiro, já que acreditam que ''ter grana'' é mera questão de mérito, se fazendo cegos para as diversas relações de poder que formatam as hierarquias sociais, os conflitos entre grupos num mesmo território ou sociedade, e as oportunidades pessoais.

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O SUS não é uniformemente ruim, a gestão é municipalizada e pode apresentar qualidade bastante interessante. Trabalhei em locais onde a iniciativa privada mal existe, tal a qualidade do serviço público.

Onde trabalho, hoje, os PSFs são novos, amplos, confortáveis, bem equipados com direito a ar condicionado e TV Lcd, meus meninos fazem a vacinação num deles, enfermeiras são nossas conhecidas e o MP juntamente com o Conselho Municipal de Saúde acompanham toda e qualquer queixa em relação à qualidade de serviço com muito rigor.

Poucas clínicas particulares oferecem o conforto e comodidade do ambulatório que nos servem, consultas são agendadas até por telefone, não há filas e nem macas no corredor. Respeitando o protocolo de urgência, em meia hora o paciente tem sua situação definida e encaminhada. Regulamos o SAMU numa área de mais de vinte municípios e estamos recebendo uma UPA, um tomógrafo e um aparelho de radioscopia.

Formamos a primeira turma de auxiliares e técnicos de enfermagem bancado pelo SUS e prefeituras da região. Não posso reclamar do meu salário, não faço jornada dupla, trabalho muito, mas em um só serviço. Isto só acontece porque as pessoas envolvidas são dedicadas e se imbuíram da missão de fazer, mesmo subfinanciado, a excelente idéia do SUS funcionar.

É o melhor convênio, mais auditado, que mais liberdade dá ao profissional e o menos burocrático de todos. Paga pouco, mas pontualmente. A defesa do SUS e o fortalecimento dele é um imperativo de todo cidadão que quer ver um sistema único no mundo na qualidade da concepção institucional vingar.

O SUS, melhorando, significa que o país tb melhora.

Em cidades maiores, acredito que a demanda crescente e a qualidade sofrível de serviço em municípios que não atentam para a responsabilidade de organizar O sistema, sobrecarregam esses serviços e fazem o cobertor curto, além de uma gestão perdulária com os parcos recursos.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Integralismo: O nacionalismo dos que prostituem a Pátria

Notem a publicação do líder da FIB: ''EM FAVOR de Jair Bolsonaro!"

Existe um movimento putrefato no Brasil, que gosta de posar de nacionalista mas sempre esteve do lado anti-popular e entreguista em toda nossa história. É o integralismo. 

Recentemente, alguns dos adeptos dessa ideologia morta mas cujo velório continua infestando algumas cidades de um cheiro nauseabundo resolveram criticar Vargas. Mas a essa altura, até as pedrinhas portuguesas do Calçadão de Copacabana sabem a motivação dos ataques não passa de um complexo de de cu doído pelo movimento de Plínio Sagrado ter sido defenestrado após a tentativa de golpe contra o Presidente, em 1938.

Antes disso, Plínio não via problema em apoiar Getúlio. Dias antes do golpe do Estado Novo, o líder integralista fez um acordo com o Presidente, aceitou a oferta do Ministério da Educação no futuro regime, e colocou dezenas de milhares de seguidores pra desfilar em frente ao Palácio do Guanabara em apoio a Vargas. 

Os próprios Diários de Getúlio confirmam o encontro dom Plínio e o acordo de entregar o Ministério citado aos integralistas. A aliança tática foi matéria também d'O Correio da Manhã, em 5 de novembro, que deu conta da Operação Negrão de Lima. Ora, sem esse apoio, que é hoje um dado incontornável só negado mesmo por desculpas esfarrapadas de integralistas, a implantação do Estado Novo teria sido muito mais difícil.

Como se tocou que o integralismo não seria a base do novo governo, Salgado surtou. Pior ainda porque hoje há provas irrecorríveis de que o movimento, que se pavoneia de um nacionalismo inalcançável por quem não segue seus programas, recebia grana do governo fascista italiano. 

Essa informação foi confirmada por meio da análise da correspondência entre a embaixada no Rio e o governo italiano durante aquele período. Ela pode ser comprovada por despacho do embaixador Vicenzo Lojacano, em 8 de janeiro de 1938, presente hoje no Arquivo Histórico do Ministério das Relações Exteriores italiano: AI, dossiê 16, documento número 6. 



Ou seja, é documento oficial em que se pode ler o embaixador italiano no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, perguntando se, diante das circunstâncias, não seria melhor cortar a subvenção aos integralistas, em resposta a questionamento direto do Ministro da Itália.

A ''mesada'' é também comprovada por documento oficial do Ministério das Relações Exteriores da Itália, reproduzido em obra de Ricardo Seintefus, doutor pela Universidade de Genebra e ex-professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. [Abaixo, Ciano é o nome do Ministro.]


Pensem nisso: o pessoal da atual Frente Integralista Brasileira [FIB], que bate pezinho porque outros movimentos políticos dialogam, reinterpretam e aproveitam autores estrangeiros nas leituras que realizam sobre o Brasil, varrem pra debaixo do tapete o fato do guru Plínio Salgado ter recebido grana de um governo europeu até, pelo menos, janeiro de 1938.

Depois da implantação do Estado Novo, Mussolini resolveu cortar a bufunfa da Ação Integralista, por entender que Vargas estava mais próximo de sua perspectiva política. Daí a tentativa mambembe de assassinar a família do Presidente levada a efeito em maio por ''galinhas verdes'' inconformados.

A principal dificuldade do tal ''levante'' integralista, realizado em um ataque noturno contra o Palácio Guanabara, não foi a falta de armas. Aquele pessoal não foi afetado por nenhum suposto ''desarmamento'', crítica feita a Getúlio por alguns direitistas hipnotizados pelo discurso de Bolsonaro. 

O principal obstáculo é que, dos 150 voluntários para o ataque, só uns trinta apareceram nos locais combinados. Não à toa, os integralistas tinham fama de serem zé bundões em meios comunistas. Gente que, na hora 'h', fugia da raia.

Isso talvez explique como Getúlio, um homem já caminhando pra meia idade, pôde resistir durante horas e de arma em punho ao atentado contra sua vida e a de sua família -- a ajuda da polícia e do Exército tardou --, e com auxílio apenas de meia dúzia de três, já contando com as mulheres da casa.

No fim das contas, Bejo e Queiroz fuzilaram foi pouco naquela linha manhã em que uma dezena de inimigos fugidos e escondidos em cima de árvores e arbustos do Palácio foram perfilados no fundo do prédio.

Eu já disse algumas vezes que Vargas cometeu erros, alguns deles graves. Mas perto dessa gente mesquinha e ressentida, seu nome brilha ainda mais forte, mais poderoso, e de modo ainda mais evidente.


Mas essa não foi a única bola fora que o Integralismo deu em sua história. De maneira recorrente e sistemática, sem maiores pudores, eles estiveram do lado do imperialismo e do liberalismo em quase todos os instantes cruciais da história recente da República. Apoiaram, por exemplo, o Golpe de 1964, liderando por uma corrente americanófila e entreguista das Forças Armadas, e que se voltou inclusive contra militares nacionalistas nos anos seguintes, perseguindo-os, torturando-os e ''matando'' socialmente seus companheiros de armas.


A ação atual de integralistas não nega todo esse currículo desprezível. Victor Emanuel Vilela Barbuy, líder da FIB, subiu em palanque de Bozó na Avenida Paulista para discursar por uma chapa ultra-liberal, que nada faz senão destruir o Estado brasileiro e promover um amor doentio aos Estados Unidos e à entidade sionista de Israel. Deram também apoio ao PRTB por causa do general Mourão, o mesmo que é grau 33 da Maçonaria, e que disse, em palestra em Loja em Brasília, que o país deveria abandonar seu legado português, indígena e africano e emular a cultura norte-americana.

Mourão disse em palestra em Loja Maçônica que o Brasil deveria imitar a cultura dos EUA e que ''infelizmente o trabalhador só funciona sob chicote".

O que Gustavo Barroso, cujas obras alguns deles gostam de decorar, diriam desse apoio ao sionismo e à Grande Loja Inglesa? Vão dizer que estão combatendo o ''comunismo'' do Lula e Haddad? Aí o problema é de burrice crônica, daqueles que fazem a gravata de babador.

Sentado mais uma vez no colo do capeta liberal, o que esses supostos ''nacionalistas'' tem a dizer? Que era tudo o ''mal menor''. Deve ser mesmo, porque pior do que está só se o integralismo chegasse ao poder. Mas pelo menos isso sabemos que não vai acontecer, já que a vocação perene dos ''galinhas verdes'' é ser instrumento útil e dócil do sistema que juram combater.







segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Neopentecostalismo como religiosidade brasileira


“Começaram aqueles programas de televisão deles, falando que a gente fazia acordo com o diabo, que fazia trabalho pra matar gente e eu achava até engraçado. Quando começaram as invasões, eu olhava aquilo nos jornais e me assustava, parecia que a história estava andando ao contrário pra gente, parecia que aquela época de perseguição, que os antigos falavam, estava voltando. Mas quando eu fiquei sabendo que eles usavam banho de erva, descarrego e tudo o mais, aí é que eu me assustei mesmo! O que era aquilo! O candomblé ficou um pouco sem chão mesmo depois que eles [a IURD] chegaram aqui, sabe.”


Candomblecista de Salvador, Bahia

A Igreja Universal do Reino de Deus se tornou referência dentro do universo neopentecostal brasileiro, e influência inegável do movimento conhecido como ''evangélico''. O peso da organização de Edir Macedo não pode ser medido pelo número de pessoas que se dizem fiéis da instituição, que alcançaram um auge por volta do ano 2000, com pouco mais de dois milhões de pessoas no censo declarando pertencimento à IURD, e caiu desde então. [No censo de 2010, eram 1,9 milhão de fiéis.]. 

Esses números aparentemente reduzidos na Igreja Universal em comparação com o poder econômico, político e a quantidade de templos que possui pelo país e na África apontam pra uma característica muito importante do neopentecostalismo e do movimento evangélico em geral: existe uma grande proporção de pessoas que usam os ''serviços religiosos'' de mais de uma igreja ou seita, girando por elas em busca de maior eficiência na solução de seus problemas ou pastores mais carismáticos. Essa ''transição perene'' entre instituições ajuda também a entender como Edir Macedo foi capaz de criar uma linguagem minimamente comum entre evangélicos, que é encontrada em graus variados e com diferentes matizes na maior parte dos pentecostais e até mesmo entre evangélicos de agremiações supostamente mais tradicionais. 

Quando se trata de ler a explosão neopentecostal no país, somos tentados a criar analogias frágeis com processos que se deram noutras sociedades. Daí a necessidade de se reforçar as singularidades dessa onda ''neopenteca'' aqui no Brasil. Não é possível entender a velocidade da ''conversão'' [palavrinha problemática] dos brasileiros às igrejas evangélicas sem perceber que há imensas linhas de continuidade entre esse tipo de religiosidade e as 'tradições religiosas' populares inscritas no catolicismo popular e nas religiões afro-ameríndias-brasileiras [candomblés, umbandas, juremas, encantados, ''espiritismos'' de modo geral]. 

Pra abordar esses elementos, vou usar a IURD como exemplo do movimento evangélico, ou mais especificamente neopentecostal, embora os ensinamentos e práticas da organização sejam mais ''radicais'' do que a maioria esmagadora de suas congêneres. Assim, é um modelo limite, e que se torna útil dado o peso que essa igreja possui no estabelecimento de um discurso e entendimento comum no universo evangélico brasileiro, facilitado pela circulação de fiéis a que me referi acima. 

Deixem-me pontuar o que o neopentecostalismo NÃO é:


1. Não se trata de um movimento iconoclasta em sentido estrito


Embora ataque as representações e objetos sacros de outras religiões, fazendo deles representações demoníacas e invocando todo o conjunto de interpretações bíblicas sobre a proibição de culto a imagens, os neopentecostais fazem uso abundante de mediadores com o sagrado na forma de itens ''abençoados'': óleos, água, papéis, sal grosso, flores, quantidade de terra etc., todos passíveis de serem veículos de algum tipo de poder espiritual. Essa prática, criticada em meios evangélicos mais ''tradicionais'' [assim entre aspas, explico depois], é ironizada em uma infinidade de memes pelas redes sociais, de modo que é bastante conhecida e também difundida. Trata-se não de destruir toda e qualquer representação do sagrado, e sim de superar os mediadores da religião ''inimiga'', identificada com o diabo.




2) Não se trata de uma expressão do protestantismo histórico

É quase que consenso interpretar o impacto sociológico do protestantismo histórico, particularmente o Reformado, como ponta de lança no processo de ascensão do racionalismo, do secularismo [dessacralização do mundo] e da formação do ethos do indivíduo moderno. O neopentecostalismo no Brasil não é racionalista, mas se fundamenta em experiências ''místicas'', ''extáticas''; não desmitologiza o mundo, mas sacraliza o mundano [o que, percebam, não significa elevar o mundano ao campo do sagrado, transformando-o em vivência ritualística e ascética; e sim levar a perspectiva mágica para todas as esferas da atividade mundana]; não forma uma ética de responsabilidade individual, mas de guerra espiritual em que um indivíduo naturalmente bom é assaltado externamente por forças maléficas [uma inversão considerável do que afirma o calvinismo]. 

Se o protestantismo histórico foi força que modelou e preparou a consolidação da sociedade liberal-capitalista, o neopentecostalismo brasileiro corre em direção nitidamente contrária. Esse ponto, penso, joga por terra várias interpretações até bem recentes sobre o ''significado sociológico'' da expansão ''neopenteca'';



3) O neopentecostalismo não é mera expansão do movimento evangélico norte-americano ou estrangeiro


Se não pode ser lido como uma reiteração do protestantismo histórico e de seu impacto ''ocidentalizante'', tampouco o neopentecostalismo pode ser encarado como mera expansão do movimento evangélico norte-americano. Há continuidades com as ondas pentecostais que chegaram do estrangeiro, mas também radicalização e rupturas. 

O neopentecostalismo não é fundamentalista, por exemplo. Ora, o termo ''fundamentalismo'' pode ser lido de maneira genérica, como movimento intencional de influenciar em todos os campos da sociedade e subordiná-los à religião; ou de maneira mais estrita e histórica, como o movimento do início do século XX que pretendia se opor à teologia liberal crescente em meios protestantes com a revalorização da ideia de ''inerrância bíblica''. Nesse sentido, o ''fundamentalismo'' estaria também vinculado ao ''literalismo bíblico'': diferente da teologia liberal, que desmitologizava a religião, retirando dela todo o seu conteúdo histórico e metafísico, a reduzindo cada vez mais a alegorias morais e psicologizantes; o fundamentalismo e literalismo reafirmava esses aspectos ''tradicionais'' em um diálogo com a modernidade -- se queria antimoderno, embora partisse de uma leitura moderna do texto bíblico. 

Ora, o neopentecostalismo possui pelo menos duas distinções muito importantes em relação ao fundamentalismo: em primeiro lugar, não parte de um desejo da defesa da tradição contra uma novidade [como no caso da teologia liberal]; pelo contrário, ele se contrapõe justamente a uma tradição religiosa popular que encara mais do que desvirtuada, como francamente ''demoníaca'' [catolicismo popular e religiões afro-ameríndias-brasileiras]. Há muitos estudos que abordam esse aspecto do movimento evangélico, o de combate ao ''Exu-tradição''. Ou seja, não se trata de um movimento que critica a modernidade a partir de uma releitura da tradição. E sim de um movimento ''destradicionalizante'', pois a tradição herdada vem do diabo. 

Esse movimento ''destradicionalizante'' tem de ser matizado, porque a continuidade da tradição se dá noutro âmbito, como indiquei antes e voltarei a indicar nos próximos pontos. O importante por enquanto é notar a profunda ruptura com o fundamentalismo. 

Do mesmo modo, a fidelidade ''à palavra de Deus'' se dá de outra maneira. Não há uma forte tradição exegética no neopentecostalismo, a relação com o texto escrito passa longe disso. Na verdade, ocorre uma seleção de certas passagens bíblicas que são usadas muito mais como ''recursos'' de uma oralidade mágica. A ''palavra'' de Deus, que é ''poderosa'', é aquela falada, pronunciada por pastores e fiéis, e capaz de operar e atualizar poderes e ''contratos mágicos''. A Bíblia se torna, na verdade, ela própria outro objeto mágico. O vínculo neopentecostal com uma perspectiva mágica da palavra oral tem traços de continuidade com aspectos das religiosidades afro-brasileiras, inclusive, e não com a valorização da exegese da palavra escrita típica do ''literalismo''.


4. O neopentecostalismo rompe com o moralismo do pentecostalismo ''clássico''

4) O crescimento do neopentecostalismo não indica um fortalecimento do moralismo. A rigidez moral é muito mais típica do protestantismo histórico e das primeiras ondas pentecostais. A onda que explode no Brasil a partir do fim dos anos 1970 é marcada antes de tudo pelo arrefecimento do ascetismo e da disciplina moral que eram típicas desses movimentos que lhe antecederam. 

Na verdade, o pentecostalismo clássico, cujas duas primeiras ondas atingiram o país nos anos 1910/20 e depois 1950, possuíam um discurso de negação da cultura ao seu redor, criando uma cisão entre a vivência na igreja e a vivência no mundo. O neopentecostalismo, ou terceira onda pentecostal, que se inicia na segunda metade dos anos 1970, inverte essa questão, abraçando a cultura e a vida no mundo, mas dando-lhe um sentido belicista de combate aos ''encostos''. Dessa forma, o neopentecostal tende a abandonar os traços distintivos com os quais os chamados "crentes" eram diferenciados do restante da população. 

Claro que a moralidade evangélica se adequa ao dualismo cristão: as próprias religiosidades afro fizeram isso no Brasil em graus diversos. Com o neopentecostalismo é a mesma coisa: é uma religiosidade com foco mágico e extático, focada em transes, sonhos proféticos, e numa escatologia de guerra espiritual a ser vivenciada em todos os aspectos da vida [mas de modo não ascético]. Os pontos ''morais'' com que os evangélicos costumam ser associados estão presentes com força nos praticantes de outras religiosidades cristãs ou influenciadas pela sociedade cristã, do catolicismo-romano à umbanda.


5. Neo-pentecostalismo como sistema mágico-religioso


O neopentecostalismo se expressa como um sistema mágico-religioso com mais ênfase nos aspectos mágicos do que nos religiosos. Não pretendo criar aqui uma dicotomia, que considero inexistente, entre magia e religião, mas sim pontuar uma distinção, ainda que analítica, entre o ato operativo, típico da magia, e o devocional, mais associado ao religioso. 

Há muitos estudos que lêem a prática de ''ofertas'' [na maior parte das vezes monetária] presente entre evangélicos a partir dos conceitos de ''dom e contra-dom'' proposto por Mauss. Trata-se de um sistema mágico de trocas que cria obrigações e vínculos entre os participantes. Esse aspecto existe já no catolicismo popular, se não na ideia de dízimo [que se secularizou nesse segmento religioso, perdendo suja dimensão mística de ''sacrifício''], certamente na prática difundida do ''voto'' e do ''pagamento de promessas''. Também se expressa de maneira muito típica nos ebós e despachos das tradições afro-brasileiras, que atualizam e operam vínculos simbólicos entre os elementos ofertados e as forças espirituais a que são dirigidas. 

Ora, uma das diferenças entre essas práticas e a ''oferta'' ''neopenteca'' é que nas religiosidades afro-brasileiras, e ainda mais fortemente no catolicismo romano, se ressalta a liberdade de Deus na concessão ou não da ''graça'' ou dádiva. No caso evangélico, a certeza da concessão da ''benção'' se expressa na antecipação da ''oferta'', atualizada pelo poder mágico da ''palavra'', que enfatiza o ''direito'' do fiel à prosperidade requisitada mais do que o favor da Divindade.

[há outra diferença crucial entre as tradições religiosas populares e o neopentecostalismo, que é a fetichização do dinheiro nesse último -- a oferta e a prosperidade são monetizadas de uma maneira que não tem paralelo no catolicismo-romano e nas religiões afro-brasileiras, e isso é um traço característico muito importante das diferenças entre os evangélicos atuais, nascidos numa sociedade de consumo de massas, e as demais religiosidades do país].




6) O neopentecostalismo não apenas demoniza a tradição popular mas também a reafirma


Voltando ao caráter ''destradicionalizante'' do neopentecostalismo, há de se notar que embora demonize e confronte a tradição religiosa popular, o neopentecostalismo a reafirma no campo metafísico e ritualístico. O discurso pratica uma inversão dessa tradição ao mesmo tempo que a prática a canibaliza e absorve. Os cultos neopentecostais, isso é já notório, se assemelham em muito a giras de exus, em que entidades associadas à umbanda e candomblé são invocadas, possuem os fiéis, são ''arguidas'' por pastores [que buscam identificar as entidades e forças que conformam a cabeça dos fiéis ''possuídos''], obrigadas a se confessarem como demônios e depois exorcizadas e substituídas pela ''possessão'' do Espírito Santo e de seus dons [esta sim legítima]. 

A teologia da prosperidade acaba tendo similaridades com o conceito de axé do candomblé/umbanda, tal como ressaltei no outro ponto, e a própria função do pastor como mediador do fluxo obrigatório de trocas que garante o milagre da prosperidade tem similaridades com o papel de intermediário exercido, por um lado, pelo 'pai-de-santo', e, por outro, pelo próprio exu [que é exorcizado e substituído nos rituais]. 

Elementos ritualísticos como flores, sal, vestimentas brancas, datas festivas etc. são continuamente reinterpretados, assimilados e ressignificados. As consultas com o 'pai de santo' também são repetidas, agora com as consultas e o aconselhamento com o pastor e com o ''ex-pai de encosto''. 

A próprias críticas às entidades do culto afro-brasileiro tem algum paralelo na interpretação de candomblecistas de que os 'orixás' e 'espíritos' presentes nos terreitos umbandistas são, na verdade, eguns ['orixás' não descem, 'exu' é um orixá, contato com os espíritos de mortos são vetados em terreiros em que se cultuam os orixás, e permeados de certos tabus, já que o contato com eguns pode trazer uma série de malefícios se realizados sem respeito às prescrições]. 

Em resumo, a identidade ''neopenteca'' reafirma e depende da identidade dos cultos que confronta. Há um jogo de espelhos, de inversões e de reatualizações da própria tradição popular que complica até mesmo o uso estrito da palavra ''conversão''.


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Fontes: 1)Vágner Gonçalves da Silva
2) Bruno Reinhardt

terça-feira, 8 de outubro de 2019

O Coringa, parte III -- A Plenitude do Êxtase




5. O assassinato da Mãe, da Amante e do Pai


No entanto, o Coringa não encarnaria sem que os afetos e complexos que seguravam Arthur nas relações humanas desmoronassem de vez. Voltando de um encontro com sua suposta namorada, ele lê, escondido, mais uma carta que sua mãe endereçava a Wayne. Segundo o texto, ele era filho de uma relação amorosa de Penny e o patrão. Quando confrontada, a mãe lhe diz que o empresário não assumiu a paternidade por causa das aparências, e que a obrigou a “assinar uns papéis”.

Arthur parte em uma jornada para conversar com seu suposto pai. Ele vai até a mansão Wayne, onde conhece Bruce, um menino que não sorri, e é expulso por Alfred, que lhe avisa que nunca ocorreu nada entre Penny e Thomas. Em seguida, o protagonista aproveita um protesto anti-sistema para invadir um cinema em que o miliardário assiste um filme de Chaplin e o segue até o banheiro.

Thomas Wayne lhe conta que sua mãe é “louca”, que ele nunca foi para cama com ela, e que ele, Arthur, foi adotado. Penny, continua o empresário, havia sido internada no Arkham durante um tempo, e sofria de delírios paranóides. Quando Arthur perde o controle e começa a rir, recebe um soco do seu interlocutor: “Como você pode achar isso engraçado!?” Mas ele não achava. Ao tentar conhecer seu pai, ele percebeu que desconhecia completamente sua mãe.

Penny sofre um derrame quando entrevistada por dois policiais a respeito dos homicídios no metrô. Para descobrir a verdade, Arthur ruma até o asilo Arkham, quando não apenas confirma as palavras do empresário, mas também descobre que sua mãe havia sido internada por permitir que seu filho adotivo fosse espancado por um namorado violento e abusivo. 

Mas ele não chorava”, dizia a mãe no relatório médico, “sempre foi uma criança tão feliz [Happy]”, justifica, em uma das cenas mais trágicas da película. A polícia havia encontrado a criança em um apartamento imundo, amarrada a um radiador de carro, com hematomas e ferimentos na cabeça.

Foi ali que o Coringa encarnou de vez na pessoa de Arthur? Difícil saber. 

A tensão do filme é crescente, a trilha sonora impacta cada vez mais, e Phoenix adquire uma figura ainda mais perturbadora. Ele vai para o apartamento da namorada, buscando algum consolo, quando percebemos que todo o affair entre os dois não passou de imaginação. A vizinha mal o conhecia.

O Coringa toma conta quando Arthur passa a noite na geladeira, como se buscando um novo útero? Ou quando descobre que a imagem paterna que acalentou por toda a vida, Murray Franklin, o apresentador, passa em seu programa um vídeo da apresentação amadora do show de Stand-up de Arthur, debochando da falta de talento e dos problemas mentais do novato? 

Ou, pior ainda, quando uma funcionária da emissora liga para ele, dizendo que o vídeo passado no programa gerou muita reação do público, e ele estava convidado para uma entrevista no programa de Murray, que terminava toda noite com a frase: “Lembre-se: Isto é a Vida”?

Quando foi que Fleck saiu de cena pra dar espaço inteiramente ao Arquétipo? 

Teria sido no apartamento da vizinha, suposta namorada, quando simula um tiro na própria cabeça? Ou na decisão de sufocar a mãe com um travesseiro no hospital? “Happy?! Eu nunca fui feliz um minuto sequer da minha vida desgraçada. Eu achava que minha vida era uma tragédia, mas agora percebo que ela é uma comédia do caralho!

Ou ainda no instante em que finalmente mata Murray com um disparo na cabeça durante a entrevista ao vivo? 

Naquele show, em que ele fez questão de revelar que sentia graça do que os demais consideravam repugnante, e não via beleza nenhuma no que os outros consideravam ou normal ou divertido: “Eu matei os executivos porque eles eram horríveis!”, escancara no programa ao vivo. “Você está buscando justificativa para ter matado três pessoas!”, protesta Murray. “Eles eram horríveis. Por que vocês se importam com eles? Só porque Thomas Wayne chorou por eles na TV? Se fosse eu, vocês pulariam sobre meu cadáver como se eu não estivesse ali!

Você é horrível, Murray! Você me trouxe no seu programa pra debochar de mim.



6. Toma que é de Graça! O Coringa Reina



De todo modo, o Coringa já estava inteiramente presente quando dois colegas de trabalho visitam Arthur para lhe dar pêsames pela morte da mãe. Um deles é Randall, o outro um anão de nome Gary, que sempre foi motivo de piada para os ''colegas''. Já se preparando para o show de Murray Franklin, com  maquiagem parcialmente completa, e depois de ter se soltado em uma dança frenética que completava sua mudança física de um ser desengonçado e cambaleante para um Palhaço Bailarino, O Coringa mata Randall com uma tesoura. Em um dos momentos mais nervosos do filme, em que o público confunde comédia com horror, ele deixa Gary ir embora, e ainda o ajuda a destrancar a trava da porta, que o anão não alcançava.

O Coringa já estava inteiramente presente quando perseguido por dois policiais pelas ruas e pelo metrô, que estava lotado de pessoas que partiam para uma imensa manifestação contra a elite e o sistema. No metrô, acidentalmente um dos policiais atira em um dos protestantes, sendo linchado pela multidão.

Assim como Fleck, a cidade havia incorporado o Coringa. No momento em que ele pede para contar uma última piada a Murray e o apresentador nega, o Palhaço grita com um humor que só ele consegue discernir completamente: “Você sabe o que acontece quando um doente mental solitário é tratado por vocês como se fosse lixo? Vocês tem o que merecem!” E assassina o apresentador ao vivo, rindo, dançando e dizendo diante d câmera, “Lembrem-se: Isto é a Vida!

A cidade se amotina. Quebradeiras anarco-populares, carros virados, a polícia sendo enfrentada pelas ruas rebeladas. No meio da revolta, alguém com uma máscara de palhaço espera Thomas Wayne sair do cinema com a família, e mata o empresário e sua mulher em um beco escuro diante de seu filho, o pequeno Bruce. Antes de dar cabo do auto-intitulado “salvador de Gotham”, o amotinado grita as mesmas palavras que viu o Coringa dizer na TV: “Tome o que você merece!”, um verdadeiro ''Recebe, que é de graça!"

O Coringa reina pessoal e socialmente na icônica cena final, destinada a entrar para a história do cinema. Levado por um carro de polícia, o Palhaço contempla o caos que reina em Gotham e ri. Os policiais o repreendem, mas ele continua, dizendo que é tudo lindo. Repentinamente, uma ambulância roubada bate na viatura. Dela saem duas pessoas com máscaras de palhaços, desejando libertar o novo deus.

O palhaço é colocado no capô do carro de polícia, e em torno dele uma multidão de anarquistas populares e amotinados, combatendo as autoridades nas ruas, o incentivam a ficar de pé. O Coringa recobra os sentidos e se levanta, dançando para a multidão, e retoca sua maquiagem desfeita com o sangue que lhe sai pela boca.



7. Na dança do Palhaço Assassino, não há nenhuma Redenção



Para terminar esse texto, quero falar do delírio recorrente do protagonista. O caráter solipsista que o filme carrega em larga escala levanta uma série de questões sobre a veracidade de toda a história. Tudo aquilo aconteceu mesmo ou era só imaginação de Arthur Fleck? O que era verdade e o que era miragem psicótica?

Todd Phillips é competente o suficiente para manter essa questão em aberto. Mas dá uma pista que muitos interpretaram como um pequeno defeito da obra. Quando invade o apartamento da vizinha, a cena por si só já deixa claro que o namoro e os encontros entre os dois eram frutos da imaginação super-excitada de Fleck. No entanto, o diretor agrega uma cena de cerca de dez segundos, que reedita rapidamente as interações entre os dois, reforçando que ocorreram somente na cabeça de Arthur. Alguns encararam como uma explicação desnecessária, e que destoa do nível do filme.

Mas talvez seja o sinal dado por Phillips para que saibamos que o que vem mais para frente não era nenhuma fantasia. Ele explica um elemento da psicose neurótica do Coringa como forma de apontar que o restante era a realidade fatal, o domínio completo do Arquétipo, sem delusões, sem alienações, sem inclusive propósito.

O Coringa de Phoenix e Phillips não está buscando uma sociedade melhor, não tem uma mensagem, ainda que de caos [o personagem de Ledger, por sua vez, faz questão de ensinar que ''todas as coisas queimam'']. O filme não apresenta nenhum tipo de redenção, como n’O Cavaleiro das Trevas, em que no fim das contas os cidadãos de Gotham se recusam a se mostrar “doentes como você", na frase que o Batman de Bale diz para o Palhaço. 

Agora, a subversiva e atemorizante cena final vai em outra direção, ainda mais terrífica, para desespero do establishment.  N’O Coringa, o protagonista declara que não acredita em política nem veio pra fundar nenhum movimento: “Eu não acredito nisso! Eu não acredito em nada!”, ele ri. 

O Coringa age e mata por ser um bom dançarino. E quem não é? “Ele!” [tiro]. “Todas as pessoas são horríveis”. Tudo o mais é gatilho e circunstância.