domingo, 15 de dezembro de 2024

A PRESENÇA DA VIRGEM MARIA NA IGREJA ''PRIMITIVA''

 "A virgindade de Maria, o parto, e também a morte do Senhor foram escondidos do príncipe deste mundo: três mistérios proclamados em voz alta, mas realizados no silêncio de Deus."

Santo Inácio de Antioquia, Epístola aos Efésios, cerca de 110/120 da Era Cristã

Imagem do início do século III, de mulher tirando água em um poço, na Igreja síria de Dura-Europos, tem sido recentemente identificada como a mais antiga representação da Anunciação. No Proto-Evangelho de São Tiago [meados do século II], a Virgem Maria sabe da Encarnação do Verbo quando vai pegar água, simbolismo associado à Fonte da Vida e da Imortalidade


Protestantes e evangélicos argumentam, em geral, que não há evidências da importância da Virgem Maria na Igreja ''primitiva''. Sempre fico estupefato com esses argumentos. Temos poucos dados sobre os primeiros tempos de Igreja, pelo menos no campo histórico. Os primeiros escritos cristãos datam dos anos 50. Mas se Igreja dita primitiva é aquela apostólica ou, de modo mais flexível, aquela que produziu os escritos hoje canônicos, então temos de esticar a corda até as primeiras décadas do século II, período em que os historiadores consideram que ainda estavam sendo produzidas algumas das obras que hoje constam no Novo Testamento. [Para a datação das obras hoje canônicas leia As Epístolas na Igreja Primitiva e Dos Evangelhos, canônicos ou não]



Ora, nesse período temos também escritos que não são hoje canônicos, como as epístolas de São Clemente de Roma e de São Barnabé, as sete epístolas autênticas de Santo Inácio de Antioquia, os registros de São Papias de Hierápolis, a Didaché, as citações do Evangelho[s] dos Hebreus e do Proto-Evangelho de São Tiago, o Pastor de Hermas, a Apologia de Santo Aristides de Atenas, a epístola de São Policarpo de Esmirna, a epístola para Diogneto. E escritos de não cristãos, como Tácito e Flávio Josefo.


Se Igreja ''primitiva'' é aquela que estava produzindo os escritos hoje canônicos, todas esses escritos listados são testemunhas desse mesmo período, que se estende ao primeiro terço do século II.

Anunciação com a Virgem Maria buscando água no poço, agora tal como no Pseudo-Evangelho de São Mateus, apócrifo do século VII que copiava o Proto-Evangelho de São Tiago. Afresco do século XII na Basílica de São Marco, Veneza, Itália



A presença da Virgem Maria é marcante nos escritos hoje canônicos. Ela é protagonista de um capítulo inteiro do Evangelho de São Mateus e de dois do Evangelho de São Lucas. O mesmo autor de São Lucas faz questão de citá-la no início dos Atos de Apóstolos. Mesmo sem incluir uma narrativa da Natividade do Senhor, São João Teólogo também a cita em pelo menos duas passagens importantes de seu Evangelho: no Milagre das Bodas de Caná e aos pés da cruz, quando o Senhor a deixa sob guarda do Discípulo Amado. Ela também é citada, junto com os 'irmãos do Senhor', no Evangelho de São Marcos.


Não vou me estender sobre outras passagens, em que ela é retratada junto de outras mulheres e acompanhando a Missão Pública de Cristo. E tampouco de passagens polêmicas ou muito rápidas, como a menção a uma mulher em epístola paulina, a possível menção em epístola joanina, ou a Mulher vestida de Sol no Apocalipse de São João.


É seguro afirmar, portanto, que a Virgem Maria consta de TODOS os Evangelhos canônicos e também dos Atos dos Apóstolos. Em alguns mais rapidamente, em outros de forma mais detida e como protagonista de episódios de imensa relevância.

Salus Populi Romani, ícone da Protetora do Povo Romano data do século V, e se encontra hoje no Vaticano



Estas citações a tornam muito mais presente nos escritos canônicos do que, por exemplo, São Tiago o Justo, que é mencionado por São Paulo como uma das colunas da Igreja [ao lado de São Pedro e São João] e que tem papel relevante em Atos dos Apóstolos. E, no entanto, todos reconhecem a importância imensa que São Tiago Adelphotheos tinha na Igreja dita primitiva. Ele também é citado, por exemplo no Evangelho dos Hebreus e em Flávio Josefo.


Nos escritos não canônicos, a Virgem Maria é citada por São Inácio de Antioquia [escrevendo por volta dos anos 110], Santo Aristide de Atenas [por volta de 120] e pelo autor da epístola a Diogneto [também por volta de 120]. O Proto-Evangelho de São Tiago, que citei bastante ontem por conta do filme Mary, lançado pela Netflix, é uma obra dedicada basicamente a ela [leia O Proto-Evangelho de São Tiago e o escândalo].


N'O Evangelho dos Hebreus [que pode se referir a mais de uma obra] temos a menção talvez mais impressionante. Não temos nenhuma cópia dessa obra, apenas citações feitas por Padres da Igreja. Em uma delas, de São Cirilo de Jerusalém, lemos:

"Está escrito no Evangelho dos Hebreus:

"Quando Cristo quis descer à terra para os homens, o Bom Pai convocou um poderoso poder no céu, chamado Miguel, e confiou Cristo aos cuidados dele. E o poder veio ao mundo e foi chamado Maria, e Cristo esteve por sete meses em seu seio."

Ícone miraculoso de Panagia Gerontissa, no Mosteiro de Pantokrator, no Monte Athos



A passagem é heterodoxa, mas dado que é obra atribuída ao primeiro quarto do século II, proveniente de comunidade judaica no Egito, é testemunha óbvia das especulações, crenças e declarações cristãs a respeito da Virgem Maria. Ela é também muito interessante à luz do que tenho escrito sobre a tradição enoquiana [leia A Rebelião de Azazel e Gênesis, as Rebelião Angélicas e Enoque] , as crenças cananeias [leia Os Gigantes nas Escrituras e na História], o Concílio Divino [leia O Judaísmo não era Monoteísta e Iahweh e El]. Dizer, como muitos protestantes, que não há evidência da importância da Mãe de Deus na Igreja Primitiva é puro wishful thinking.


Se os protestantes quiserem deixar de fora, arbitrariamente, obras das primeiras décadas do século II, vão ter de justificar a datação dos canônicos por métodos que são pouco seguros no campo da historiografia atual. Em geral, vão ter de remontar também à Tradição da Igreja. Mas isso tampouco é boa ideia para quem pretenda negar a importância da Virgem Maria.


Ícone de Theotokos Platytera, ''Mais Ampla/Maior que os Céus"


sábado, 14 de dezembro de 2024

MARIA [2024], de J.D. Caruso, ou: O PROTO-EVANGELHO DE SÃO TIAGO E O ESCÂNDALO

E a menina atingiu a idade de três anos; e Joaquim disse: “Chamai as filhas dos Hebreus, as impolutas; e levantem [cada uma] uma tocha; e que [as tochas] ardendo fiquem posicionadas, para que a menina não se volte para trás e o seu coração fique cativo, longe do templo do Senhor”. E fizeram assim, até que chegaram ao templo do Senhor. E o sacerdote recebeu-a; e, beijando-a, abençoou-a e disse: “O Senhor engrandeceu o teu nome entre todas as gerações. Através de ti, até os dias derradeiros, o Senhor mostrará o Seu resgate aos filhos de Israel”.

Proto-Evangelho de São Tiago




A Netflix acertou comercialmente ao lançar Mary [2024] nas semanas que antecedem o Natal. O filme se tornou líder de audiência em meia centena de países, sinalizando que sucessos como a série independente The Chosen terão de fato repercussões nos grandes conglomerados da indústria cultural. Dessa vez, há possibilidade de uma conquista real de espaço, impulsionada por uma demanda reprimida formada por uma confluência entre sensibilidades evangélicas e católica-romanas. Ou seja, em vez de usar a religião como propaganda de pautas identitárias e progressistas, as produções podem se dedicar a contar histórias fundamentadas na perspectiva das grandes religiões.


O contexto parece favorável, já que estamos em meio a um refluxo acentuado da maré woke cuja hegemonia no establishment era uma barreira contra a presença de uma abordagem cristã nos grandes estúdios, que se tornaram um dos cavalos de batalha da esquerda contra os valores considerados formativos do Ocidente. Não fosse a aliança das grandes multinacionais e do sistema partidário com a pretensa revolução woke, o movimento atual teria ocorrido há vinte anos, com Passion of Christ [2004], de Mel Gibson.


Não vou me ater ao ponto de vista cinematográfico. Ainda que tenha qualidades, como a fotografia e Anthony Hopkins no papel de Herodes, o filme é medíocre. O ritmo tem problemas, o texto é fraco, os personagens são, em larga escala, caricaturas ambulantes, a produção deixa a desejar. Mas, assim como no caso de The Chosen, não é esse o lado mais importante, e sim a guerra cultural que se dá em torno da obra. Afinal, não estamos falando exatamente de uma rendição da Netflix ao cristianismo, e sim de uma concessão. 




Ainda que D.J. Caruso esteja longe da ousadia de Mel Gibson, progressistas não perderam tempo em criticar Mary por seu suposto conservadorismo. A historiadora Juliana Cavalcanti, por exemplo, criticou o filme em uma live recente [clique para ver] por supostamente reforçar estereótipos de gênero consolidados na Igreja Católica. Ou seja, os acenos dos produtores para os liberais com a justificativa de atrair ''jovens'' não comovem a historiadora, que não considera a película feminista o suficiente de modo a servir ao propósito de fazer com que mulheres encontrem espaço na estrutura eclesiástica. Veneração à Mãe de Deus? Para quê se podemos ter uma mulher como ''Bispo"? 


Vou adotar a posição francamente contrária: o filme não é tradicionalista o suficiente para que eu possa elogiá-lo como gostaria. 


A isca que Caruso lança aos religiosos é o Evangelho de São Tiago, mais conhecido como "Proto-Evangelho de São Tiago", texto atribuído a São Tiago o Justo, chamado de Adelphotheos [Irmão do Senhor] na Tradição Ortodoxa, e descrito em Epístola paulina como um dos três pilares da Igreja de Jerusalém. Os produtores garantem que este Evangelho é a fonte principal da obra, cujo enredo se desenvolve entre os pedidos dos pais de Maria por um filho e a apresentação do Deus Menino no Templo de Jerusalém. 


O Proto-Evangelho causa uma série de constrangimentos em certa sensibilidade evangélica contemporânea e também entre os pesquisadores laicos. O consenso é de que cópias já circulavam entre os cristãos em meados do século II [por volta do ano 150], momento em que os quatro evangelhos hoje canônicos ainda se consolidavam entre os cristãos e em que o cânone estava longe de estar fechado [leia Dos Evangelhos, canônicos ou não]. As tradições em torno do texto remontam, portanto, ainda ao primeiro século de existência do Cristianismo, em que os Gloriosos Apóstolos ou seus discípulos mais imediatos ainda estavam vivos. 


"As tradições compiladas na obra atribuída a São Tiago compõem, no entanto, a versão oficial na Igreja Ortodoxa. Há consenso de que são antiquíssimas, já que o texto foi escrito entre 110 e 140. Ele é mais uma prova irrefutável que a devoção à Santíssima Virgem Maria e seu status entre os cristãos estava presente nas mesmas gerações que decidiam pela composição do Novo Testamento. É possível provocar ainda mais neste ponto já que, para a pesquisa acadêmica, alguns dos textos que viriam a compor o cânone cristão foram escritas na mesma época que os Evangelhos dos Hebreus [que podiam ser três textos diferentes] e o Proto-Evangelho de São Tiago. Enfim, muitos elementos da Mariologia já eram comuns em comunidades cristãs de forte influência judaica."




Pois bem, essa obra demonstra a importância que a figura da Panagia tinha na Igreja Primitiva. Diferente da fantasia evangélica de que a Mariologia ganhou importância apenas com o abraço do Império Romano à Igreja e a uma suposta ''paganização'' dos cristãos, o Proto-Evangelho é a demonstração cabal de que a Mãe de Cristo era venerada e considerada fundamental desde os primórdios. Se os evangélicos quiserem um dia voltar de fato à "Igreja Primitiva'' e Apostólica, devem retornar, antes de tudo, à Virgem Maria. 


A historiadora Juliana Cavalcanti, que foi citada por mim, defende que os temas do Proto-Evangelho tem de ser entendidos como uma resposta aos ataques que judeus e outros pagãos faziam aos cristãos, e cita os debates de Orígenes com Celso e o Talmude. Os  exemplos dados pela pesquisadora são ruins já que o Proto-Evangelho é anterior tanto a Celso quanto ao Judaísmo Rabínico. Sua composição não está muito distante da Revolta de Bar Kochba. De todo modo, é verdade que a figura da Mãe de Deus era atacada pelos inimigos e críticos do cristianismo nascente. O que reforça a importância de Maria já nos primórdios da fé cristã, ao ponto do filósofo Celso reproduzir a difamação que muitos judeus faziam contra ela em suas obras de polêmica anti-cristã no último terço do século II. 


Mas o texto tampouco é confortável para os católico-romanos. Sua popularidade nos primeiros séculos era tamanha que boa parte de seus ensinamentos está em consonância com ritos, festas e hinos da Igreja Ortodoxa. Mas São Jerônimo tinha muitas reservas quanto a um aspecto particular do texto, o retrato de São José como um idoso viúvo que tinha outros filhos. O Bem Aventurado Bispo de Estridão preferia ver São José como um celibatário, e sua oposição ao texto fez com que ele praticamente sumisse entre os latinos por séculos. 



Tamanha era a influência da obra que ela acabou retornando de outra maneira. Três séculos depois começa a circular na Itália o Pseudo-Evangelho de São Mateus [também conhecido como "Evangelho da Natividade de Maria"], apócrifo que copiava o Proto-Evangelho de São Tiago, mas com as modificações que agradavam a São Jerônimo. São José era retratado agora como um jovem solteiro e celibatário, dando margem à composição da Santa Família que marca a espiritualidade católica-romana mas que está ausente da perspectiva ortodoxa, segundo a qual São José não é exatamente ''marido" de Theotokos, mas o escolhido para guardião e protetor da Panagia e de Seu Filho.


Pois bem, isca jogada, o enredo de Timothy Michael Hayes se desvia à vontade de suposta fonte com a intenção de agradar a gregos e troianos. Vemos Maria ainda criança com o coração partido por abandonar os pais. Mais tarde, ela mostra um espírito contestador em relação aos sacerdotes. Um jovem São José se apaixona por Maria quando a vê à beira de um rio, um evento armado pelo Arcanjo Gabriel, que tem seu momento de cupido. Por fim, os próprios pais da Virgem, São Joaquim e Sant'Ana, aceitam dar a mão da filha para São José.



Tópicos importantes, como a desconfiança da comunidade em relação à gravidez de Maria, são tratadas com a sutileza de passos de elefante: multidões fanáticas tentam invadir a casa em que ela vive para apedrejá-la, e São José tem de escutar piadas e zombarias de seus colegas de trabalho. A Virgem dá à luz em meio a dores do parto, o que obviamente foge inteiramente da concepção tradicional cristã, seja ela católica, ortodoxa ou luterana. Por fim, o Rei Herodes é retratado como um paranoico obsessivo fascinado por Maria e que a persegue de modo obstinado. O terceiro ato se concentra na fuga da família, em meio a incêndios, destruição, e muita coragem, quase que numa mistura de thriller e aventura. 


Tudo isto foge do misto de simplicidade e sacralidade do Proto-Evangelho de São Tiago, em que São Joaquim e Santa Ana são idosos que não poderiam de forma alguma ter filho se não por intervenção sobrenatural. A Panagia é criada até os três anos em um quarto adaptado como um santuário para que ela não fosse afetada por nada demasiadamente mundano. Sua apresentação ao Templo é uma procissão regida pela felicidade, e não pela dúvida e pela incerteza. A pequena Maria sobe os degraus do Templo, e dança diante do altar de Iahweh. Ela cresce com as mais rigorosas consecuções ascéticas enquanto é alimentada por um anjo. 




Diferente da história contada no filme, o texto mostra seu noivado sendo arranjado pelos próprios sacerdotes depois que a Virgem já estava órfã e próxima à menarca: já que a menstruação é considerada um fruto da queda, uma mulher não poderia continuar servindo no Templo. Um idoso e viúvo São José é escolhido por meio de uma consulta quase que oracular para ser o guardião da Virgem. Não há qualquer paixão ou romantismo envolvido, São José aceita a missão a contragosto e como dever que lhe foi designado por Deus. É verdade que a gravidez da Panagia desperta dúvidas no ancião, mas os sacerdotes desconfiam não de adultério, mas dos próprios noivos. Não há nenhuma turba tentando apedrejar Maria, mas uma ordália que o filme parece não se sentir confortável em retratar. Por fim, a manutenção da virgindade após o parto é confirmada por uma parteira.


Nessa perspectiva, o filme é pouquíssimo tradicional e bastante insuficiente para uma sensibilidade cristã. Na verdade, o foco cristão do filme é difuso, deixa a impressão de que não há um verdadeiro arco ou uma mensagem real destinada ao público principal da obra. Se a professora Juliana Cavalcanti deixa transparecer certa decepção porque a película não usa a imagem de Thetokos para defender a ordenação de mulheres ou para pregar uma revolução nos papéis de gênero, os cristãos podemos nos sentir ainda mais insatisfeitos com o temor e tremor dos produtores diante da própria fonte em que dizem se basear. 


Ainda aguardamos uma obra contemporânea que faça jus a Toda Santa e Pura Mãe de Deus. Para os demais, o aviso permanece: Ai daquele!



sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

FLA 2019 OU BOTA 2024?

 


A comparação entre o Flamengo de 2019 e o Botafogo de 2024 só se explica porque:


1. O Fla 2019 se tornou definitivamente na régua para o futebol brasileiro desse século. Toda equipe que se destacar será comparado a ele. Aconteceu também com o Galo 2021.


2. Os botafoguenses estão em êxtase. Nem o vexame contra o Pachuca é capaz de trazê-los ao planeta Terra.


Isto posto, o Flamengo de 2019 era nitidamente superior tanto em termos técnicos quanto táticos. Em termos de resultado, então, nem se compara. 


O nível geral do futebol brasileiro era mais fraco. Mas isso não se estendia a todos os adversários. O Santos de Sampaoli jogava um futebol tão moderno quanto o Flamengo, e até hoje é o vice-campeão com o maior número de pontos [74].


Na Libertadores, o Flamengo passou por Internacional e Grêmio. Este último com um placar e um domínio estrondoso. E o Grêmio 2019 era algumas vezes melhor que o Peñarol desse ano. O Flamengo precisou virar uma partida para cima do excepcional River Plate de Gallardo, um time de prateleira muito acima do Atlético Mineiro atual tanto em termos individuais quanto coletivos.


O desempenho no Mundial Interclubes também é um abismo. Os botafoguenses estão corretos em ressaltar o cansaço da viagem mas não em minimizar o baile tomado do Pachuca, uma equipe que só tinha três vitórias no semestre. Um time misto do Botafogo deveria ser capaz de superar a equipe mexicana mesmo nessas condições, e era isso que praticamente todos os analistas previam antes da bola rolar.  Mas assistimos o Pachuca melhor desde o início da partida, e já tinha três finalizações com 7 minutos de primeiro tempo. 


A graça do Mundial Interclubes é enfrentar o campeão europeu, qualquer coisa diferente é fiasco. O Botafogo fez um fiasco no Mundial, enquanto o Flamengo passou com autoridade pela semifinal e fez um jogo à altura com o Liverpool de Klopp, só decidido na prorrogação.


Comparações jogador a jogador são enganosas, mas eu escalaria mais ou menos assim:


Diego Alves

Rafinha

Rodrigo Caio

Pablo Marí

Filipe Luís

Marlon Freitas

Gérson

Éverton Ribeiro/Thiago Almada

Arrascaeta

Bruno Henrique/Luís Henrique

Gabigol

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

RANKING 2024

1. INTRODUÇÃO


Tempo de Botafogo? O Glorioso reafirma sua condição de clube grande e membro do tradicional G12


Momento de atualizar o Ranking do futebol brasileiro. Antes de explicar porque Botafogo, Fortaleza e Flamengo estiveram entre os grandes vitoriosos, e porque o Furacão foi o maior derrotado, uma breve introdução para recordar que uso dois sistemas de classificação. O primeiro leva em conta todos os torneios, incluindo os estaduais e regionais. É o RANKING HISTÓRICO, o mais completo de todos. Mas não o mais importante, já que o segundo sistema de classificação tende a ganhar cada vez mais peso com o passar do tempo.


Os estaduais vão perder ainda mais datas nos próximos dois anos, e o Brasileiro será disputado de meados de março a fins de dezembro. A Libertadores acaba de aumentar substancialmente a premiação em dinheiro. Nessas circunstâncias, em que os principais estaduais perdem prestígio e ganham ares de torneios preparatórios, o torcedor se acostuma aos poucos a comparar os clubes pelas conquistas nacionais e internacionais.


O RANKING DE TORNEIOS NACIONAIS E INTERNACIONAIS se concentra no que realmente importa para as gerações mais novas. A rigor, é uma classificação que leva em conta as competições posteriores a 1959, com algumas exceções. Nesta data, a seleção já era campeã mundial, o país já havia organizado uma Copa do Mundo, e construído o maior estádio de futebol da História. Não é portanto o ranking mais completo em termos históricos, mas com certeza é aquele de maior impacto para o século XXI. Proponho também dois recortes por curiosidade: um ranking só de competições de âmbito nacional, e um ranking só de competições de âmbito internacional. 


Importante frisar que a classificação não leva em conta só os títulos. O vice é pontuado na maior parte das competições. Participações na Libertadores e nas primeira e segunda divisões do Brasileiro também valem pontos. Já os rebaixamentos são penalizados.


Os critérios de pontuação estão expostos nos seguintes links:


i. Critérios Gerais

ii. Sobre os Nacionais e Internacionais

iii. Observações importantes


O Fortaleza foi um dos grandes vitoriosos da temporada e entrou no G20 do Ranking histórico


2. A TEMPORADA 2024


O Botafogo foi o grande protagonista a temporada, compensando com sobras as frustrações de sua torcida no final do ano passado. Há três anos, o botafoguense jamais imaginaria vivenciar um período tão vistoso da história do clube, capaz de fazer frente financeiramente às principais potências do país e de empilhar taças com autoridade. Como veremos, no entanto, a consequência principal da temporada de sonho do alvinegro carioca foi confirmá-lo como força do tradicional G12, posto que era contestado pelo Athletico Paranaense. Do outro lado da disputa, o Furacão teve um ano desastroso, que o fez recuar algumas 'casinhas' no esforço por ser reconhecido como novo membro do grupo dos Grandes do Brasil.


O Flamengo foi o clube que mais pontuou entre os líderes do ranking, mas não suficiente para causar alguma transformação aguda na disputa pelos primeiros lugares. É notável a capacidade demonstrada pelo Fortaleza para acompanhar as principais equipes. O Leão cearense, campeão de mais uma Copa do Nordeste, pontuou no mesmo nível que Fluminense e Palmeiras, e à frente do São Paulo, o que trouxe mudanças sensíveis na classificação geral. O Atlético Mineiro, ainda que decepcionante no Brasileiro, alcançou boa pontuação este ano por causa do título mineiro e dos vices da Copa do Brasil e da Libertadores. A corrida pelos pontos em 2024 terminou assim:


1. Botafogo: 265
2. Flamengo: 75
3. Atlético MG: 43
4. Palmeiras:37
5. Fluminense: 32
6. Fortaleza: 31
7. São Paulo: 25


O Flamengo foi o que mais pontuou entre os líderes do Ranking, impulsionado pelos títulos da Copa do Brasil e do Campeonato Carioca


3. O RANKING HISTÓRICO


RANKING HISTÓRICO, levando em conta todos os estaduais e regionais


O Flamengo aumentou sua vantagem no Ranking mais completo, e segue estável no primeiro lugar. Na verdade, o mesmo pode ser dito para todas as primeiras colocações. O Palmeiras também viu sua vantagem crescer em relação ao São Paulo, cuja vantagem para o Santos também subiu. O Santos evitou por mais um ano a ameaça corintiana, que desafia sua quarta posição. Já o Grêmio se vê em condições de tirar o sexto lugar do Cruzeiro já na próxima temporada.


As principais mudanças se deram fora dos dez primeiros lugares. O Botafogo reverteu o abismo que o distanciava dos demais participantes do G12. Mas o Glorioso teria de repetir ano que vem a pontuação de 2024 se quisesse de fato reivindicar o décimo primeiro lugar do Galo. A novidade é a presença do Fortaleza, que chega ao 19º lugar, logo abaixo do Vozão, seu maior rival. O Ceará tem agora dois representantes no RANKING HISTÓRICO, consequências visível do desenvolvimento do futebol do estado. No Nordeste, só a Bahia tem o mesmo número de representantes.


Apesar das dificuldades no Brasileiro, o Fluminense levantou mais um troféu internacional, a Recopa Sul-Americana


4. O RANKING SOMA NACIONAL/INTERNACIONAL


Tenho apontado a existência de um BIG 3 no futebol brasileiro, o GRANDE TRIO de clubes que dominam o ranking que soma os títulos e o desempenho em competições nacionais e internacionais -- a classificação, repito, que considero a mais importante para as gerações mais novas de torcedores e que, aposto, vai ganhar ainda mais relevância com a nova etapa de desenvolvimento do nosso esporte. 


RANKING SOMA NACIONAL/INTERNACIONAL, com o Botafogo retornando ao G12


Apesar do Palmeiras ocupar a primeira posição pelo segundo ano consecutivo, apenas 50 pontos o separam do terceiro colocado, que é o Flamengo. A distância do rubro-negro carioca para o São Paulo, segundo colocado, é irrelevante, de apenas um ponto. Podemos dizer que estes três clube estão na mesma toada de conquistas, e que ganham de forma mais acentuada que os demais. Eles são os únicos com mais de 2 mil pontos neste ranking -- na verdade, cada um deles tem mais de 2400 pontos. 


A distância do GRANDE TRIO para o Santos, que ocupa a quarta posição, é de cerca de 500 pontos, o equivalente a cinco campeonatos brasileiros. O Santos, por sua vez, está confortavelmente à frente do Corinthians. Há outra maneira de ver a questão: entre os cinco primeiros colocados, só o Flamengo não é paulista. O Mais Querido é o intruso em um futebol dominado, principalmente, pelas forças do estado mais rico do país. 


A torcida do Santos protestou, mas o título da série B garante o retorno do Santos à elite do futebol brasileiro e o mantém mais facilmente na quarta posição do principal Ranking


Há uma disputa entre dois grandes do Rio de Janeiro. O Fluminense ameaça o lugar do Vasco da Gama entre os dez primeiros do Ranking. E também aqui é possível notar a ressurreição do Botafogo, que tinha sido superado pelo Furacão no G12 nesse sistema de classificação. O Glorioso não só reconquistou seu posto com a pontuação de 2024, como também criou uma distância considerável para o rubro negro paranaense. O Athletico Paranaense teve um ano tão ruim que foi o único neste G20 a ter a pontuação diminuída, fruto de seu rebaixamento para a série B.



5. O RANKING NACIONAL E O RANKING INTERNACIONAL


O Palmeiras lidera o recorte nacional apesar do ano sem títulos de expressão


Restam os dois recortes, o de competições de âmbito nacional e o de competições de âmbito internacional. No primeiro caso, o Palmeiras segue confortável na liderança, ainda que o Flamengo tenha se aproximado. O Mais Querido, por sua vez, colocou mais de 250 pontos de diferença para o Corinthians, e não tem como ser ultrapassado pelos próximos dois anos. O São Paulo consolidou a ultrapassagem que fez ao Cruzeiro no ano passado. 


O ano do Atlético Mineiro foi de derrotas duras em finais importantes, mas sua pontuação no ranking este ano foi a terceira melhor do país


A diferença de pontos entre o Grêmio [7º colocado] e o Fluminense [11º]  é muito pequena e pode ser alterada rapidamente ao longo de uma temporada. É bem provável que este grupo intermediário apresente mudanças em 2025. Por fim, o Botafogo afastou a ameaça de ser superado pelo Athletico PR nesse ranking. E o Bahia abriu disputa com o Sport pelo posto de clube nordestino mais vitorioso em âmbito nacional.


O Fluminense superou o Vasco da Gama no recorte internacional


A soberania do São Paulo no Ranking Internacional é simplesmente indiscutível. O tricolor paulista tem cerca de 350 pontos de diferença para o Santos. Isso dá mais de duas Libertadores da América. A liderança são-paulina não seria ameaçada nem no caso altamente improvável de vitória do Flamengo [3º lugar] na Copa do Mundo de Clubes, que será disputada pela primeira vez em junho, e cuja pontuação no RANKING ANDRÉ deve ser de 250 ou 300 pontos [a ver]. 


O Fluminense, que conquistou a Recopa e disputou mais uma Libertadores, roubou o lugar do Vasco entre os dez primeiros. E o Botafogo, que mais que dobrou seu número de pontos neste recorte, superou o Athletico Paranaense e retornou ao G12. Importante notar também o crescimento do Fortaleza, cuja classificação para a próxima Libertadores garante ultrapassagem sobre o Guarani na próxima edição do Ranking.


O Athletico Paranaense está entre os grandes derrotados de 2024 e foi rebaixado para a Série B em pleno ano de comemoração do Centenário do clube

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

IAHWEH E EL, ou: Semelhanças e diferenças entre as tradições israelita e cananéia


O Anjo do Grande Concílio



Em O Judaísmo não era Monoteísta, escrevi que os israelitas não se adaptavam ao conceito moderno de Monoteísmo até, pelo menos, a emergência e consolidação do "Rabinismo'', a partir do século III da Era Cristã. Ora, isso não quer dizer que praticassem exatamente a mesma religião das demais populações cananéias [e greco-romanas]. Da mesma forma que existia um fundo comum de crenças, também podemos citar divergências significativas. Neste texto, vou explorar convergências e dissimilaridades entre estas tradições, como também algumas das polêmicas acadêmicas.



1. Iahweh é El?

Um desses debates se dá em torno da identificação entre Iahweh e o Deus Altíssimo cananeu [El]. Há quem alegue uma disjunção entre as duas divindades nos tempos do Primeiro Templo. É o caso, por exemplo, de Margaret Barker, que imagina Iahweh como um dos Filhos de Deus para os quais as nações foram divididas por El; Iahweh seria apenas o deus designado para o povo de Israel. Sem entrar na complexa teologia desenvolvida por esta autora, outros pesquisadores sugeriram que o Salmo 82 [81 na Septuaginta], em conjunção com Deuteronômio 32, flagra o momento do Judaísmo pós-exílico em que se consolida um Monoteísmo entre os judeus, ou seja, em que a existência de todas as demais divindades passa a ser negada:

"Salmo [referente] a Asaf
Deus esteve de pé na reunião de deuses,
No meio, Ele julga deuses.
"Até quando dais injustiça como julgamento?
E [até quando] recebeis rostos de pecadores?"
Julgai órfão e mendigo
Um humilde e pobre retificai!
Libertai um pobre e um mendigo!
Salvai-o da mão de um pecador!
Não souberam nem compreenderam;
Na escuridão caminham.
Serão sacudidos todos os alicerces da terra.
Eu disse: "Sois deuses
E todos filhos do Altíssimo.
Porém como seres humanos morreis
E tombai como um dos regentes."
Levanta-te, Ó Deus! Julga toda a terra!
Porque Tu terás herança entre todas as nações!"


Mas a ideia de que Iahweh está pedindo a El um juízo contra seus irmãos distorce a fraseologia da passagem tanto em hebraico quanto em grego. O Deus sentado no concílio é o próprio Iahweh ["Levanta-te ó Deus!"], e é ele quem pronuncia a sentença. Assim também, em Deuteronômio 32 [um material que todos os pesquisadores consideram não só pré-exílico, mas bastante antigo, remontando ao fim do segundo milênio antes de Cristo], é o próprio Iahweh quem faz a partilha das nações entre os demais deuses, reservando para si o povo de Israel. No fim do capítulo se lê na Septuaginta, que neste caso é versão mais consistente do que o Texto Massorético:

"εὐφράνθητε, οὐρανοί, ἅμα αὐτῷ, καὶ προσκυνησάτωσαν αὐτῷ υἱοὶ θεοῦ· εὐφράνθητε, ἔθνη, μετὰ τοῦ λαοῦ αὐτοῦ, καὶ ἐνισχυσάτωσαν αὐτῷ πάντες ἄγγελοι θεοῦ· ὅτι τὸ αἷμα τῶν υἱῶν αὐτοῦ ἐκδικᾶται, καὶ ἐκδικήσει, καὶ ἀνταποδώσει δίκην τοῖς ἐχθροῖς· καὶ τοῖς μισοῦσιν ἀνταποδώσει, καὶ ἐκκαθαριεῖ Κύριος τὴν γῆν τοῦ λαοῦ αὐτοῦ."

["Louvai, ó Céus, junto com Ele, e O adorem todos os filhos de Deus; Louvai, ó nações, junto com Seu povo; e que todos os anjos de Deus estejam fortes com Ele; porque Ele vingará o sangue dos seus servos; Se vingará de Seus adversários e purificará a terra de seu povo."]


Além disso, existem outros textos pré-exílicos que revelam a identificação entre Iahweh e El, como o próprio capítulo citado de Deuteronômio é testemunha:

"É assim que agradeceis ao Senhor, povo frívolo e insensato? Não é ele teu Pai, teu Criador, que te fez e te estabeleceu?"


Eu poderia dar exemplos semelhantes em Gênesis. A troca de epítetos entre El e Iahweh é comum destes os textos mais primitivos da Torah. O consenso forte na historiografia é de que a ''fusão'' entre os dois deuses já estava dada, pelo menos, desde o século IX a.C., e provavelmente até antes, um período que abarca a redação dos documentos escriturísticos mais antigos. O que deixa boa parte das teses de Margaret Barker e similares em maus lençóis. 




2. A Deusa Mãe e os Filhos de Deus

O Concílio Divino fazia parte das crenças judaicas tanto no Primeiro quanto no Segundo Templo. E era formado por seres celestiais chamados "filhos de Deus". Entre os cananeus, era a família de El, o deus supremo, que tinha voz ativa no concílio. A família era gerada pela união entre Ele e Athirat/Asherá, e estes seres tinham uma natureza similar a do Altíssimo, simbolizada pelo caráter celeste e régio que todos carregavam. O Cosmos era governado pelo Casal Real, e seus filhos eram os príncipes que administravam todos os demais elementos, esferas e regiões. À parte do Conselho existiam ''deuses mensageiros'' sem caráter régio e sem participação ativa nas reuniões divinas. 

A particularidade e a polêmica aqui é que a Deusa Mãe some entre os israelitas. Não há qualquer menção a uma consorte de Iahweh nos textos canônicos, incluindo os pré-exílicos mais antigos. Existem sim controvérsias em relação a inscrições encontradas no deserto do Sinai, em Kuntillet 'Ajrud, que poderiam indicar que alguns grupos judaicos acreditavam em uma deusa-consorte. Mas esses dados são escassos e estão longe de conclusivos. Não se sabe se a asherá era uma hipóstase de Iahweh e se o termo se refere a um objeto de culto mais do que a uma entidade divina. A própria menção a asherás em versículos escriturísticos levanta uma pluralidade de hipóteses, sem que se tenha chegado a conclusões sólidas. 

Enfim, sabe-se que israelitas praticaram cultos a outros deuses até mesmo no Templo, rompendo a exigência de monolatria que caracterizava sua tradição espiritual; e é possível, ainda que não seguro, que dentre as entidades cultuadas estivesse até mesmo Asherá.  Mas daí não se implica, num salto, uma esposa divina para Iahweh. E é este último ponto que nunca foi demonstrado e para o qual não há sustentação nos 'redatores' dos livros bíblicos. Encontramos menção ao Concílio Divino e outros aspectos da religiosidade cananeia, como os combates com os Monstros aquáticos e o papel do Vice-Regente, em textos tanto de natureza pré quanto pós-exílica. Mas o tema da Deusa-Mãe está flagrantemente ausente do braço principal da espiritualidade que desaguou nos escritos sagrados no Primeiro Templo. 

Vou me reportar, porém, a um aspecto interessante dessa discussão: a figura da Gebirah, a Rainha-Mãe na Corte do Rei israelita:

"E ele disse-lhe: "Fala ao rei Salomão, pois ele não te virará a cara; e ele dar-me-á Abisaque, a somanita, como esposa." E Bersabé disse: "Muito bem. Intercederei por ti junto ao rei." E Bersabé foi ter com o rei Salomão, para lhe falar a respeito de Adonias. E o rei levantou-se para a cumprimentar e beijou-a; e enquanto ele se sentava no trono, um trono foi colocado para a mãe do rei; e ela sentou-se à sua direita. E ela disse-lhe: "Peço-te um pequeno favor, não desvies o teu rosto.'' E o rei disse-lhe: "Faz o teu pedido, minha mãe, pois não to recusarei."

[3 Reinados/1 Reis 2:17 a 20]



Neste episódio, o Rei Salomão acaba por não atender o pedido de sua mãe por entender que fazia parte de uma conspiração de seu irmão Adonias para usurpar o trono. A cena reproduz no terreno histórico mitos de disputa pela realeza entre os deuses do Concílio, como vou me referir em outra oportunidade. O ponto principal, no entanto, é o arranjo da Corte salomônica, considerada uma imitação em escala menor do Concílio Divino, com um trono à direita para que a mãe do Monarca exercesse o papel de conselheira e intercessora. 

A figura da Gebirah não se esgota nesta passagem. Após a divisão do Reino, os livros históricos das Escrituras tem o curioso costume de mencionar o nome da mãe cada Rei de Judá, o que não ocorre no caso dos Monarcas de Israel. Alguns exemplos:

"Roboão adormeceu com os seus pais e foi sepultado com eles na cidade de Davi. Sua mãe chamava-se Naama, a amonita. Seu filhão Abião sucedeu-lhe no trono." [3 Reinados/1 Reis 14:31]

"No décimo oitavo ano do reinado de Jeroboão, filho de Nabat, Abião tornou-se rei de Judá. Reinou três anos em Jerusalém. Sua mãe chamava-se Maaca, filha de Absalão." [3 Reinados/1 Reis 15:1 e 2]

"No vigésimo ano de Jeroboão, rei de Israel, Asa tornou-se rei de Judá, e reinou quarenta e um anos em Jerusalém. Sua mãe chamava-se Maaca, filha de Absalão." [3 Reinados/1 Reis 15:9 e 10]

"No quarto ano de Acab, rei de Israel, Josafá, filho de Asa, tornou-se rei de Judá. Tinha trinta e cinco anos quando começou a reinar, e reinou vinte e cinco anos em Jerusalém. Sua mãe chamava-se Azuba, filha de Salai''. [3 Reinados/1 Reis 22:41 e 42]

"No décimo segundo ano de Jorão, filho de Acab, rei de Israel, Ocozias, filho de Jorão, tornou-se rei de Judá. Ocozias tinha vinte e dois anos quando começou a reinar, e reinou um ano em Jerusalém. Sua mãe chamava-se Atalia, e era filha (neta) de Amri, rei de Israel." [4 Reinados/2 Reis 8:25 e 26]

"Joás tinha sete anos quando subiu ao trono. Começou a reinar no sétimo ano de Jeú e reinou durante quarenta anos em Jerusalém. Sua mãe chamava-se Sébia, e era natural de Bersabéia." [4 Reinados/2 Reis 12:1]


Muitos católicos consideram a tradição de nomear a mãe do Rei de Jerusalém, cidade associada a Davi e às expectativas messiânicas, como indicação de que a função da Gebirah era um tipo, um símbolo, da Toda Santa e Pura Virgem Maria, considerada Rainha das Hierarquias Angélicas. O argumento se fundamenta, dentre outras coisas, no papel do Monarca davídico como representante do Vice-Regente de El

Seja como for, a ausência de uma Deusa-consorte de Iahweh implica que os filhos de Deus não são descendentes diretos do Altíssimo. Eles são criaturas tanto quanto os homens e os demais seres. Seu caráter celeste e filiação está vinculada não à sua natureza, mas ao domínio que exercem em áreas do cosmos sob autoridade do Criador. E também a um status de sacralidade e/ou santidade que entre os israelitas será cada vez mais estendido a certos seres humanos. A entrada de homens no Concílio Divino é um tema que vai ganhar espaço no Judaísmo ao longo dos séculos, mas estava presente desde as origens. A filiação divina é afirmada em relação a Israel como um todo, ao rei em particular, e cada vez mais aos ''santos''. A ênfase nessa ideia será maximizada na tradição enoquiana e também no Cristianismo, em que os ''santos'', ''filhos de Deus'' também, substituem seres celestes rebeldes no Concílio Divino.

"Moisés subiu com Aarão, Nadab e Abiú, e setenta anciãos de Israel. E eles viram o lugar em que se encontrava o Deus de Israel. E sob seus pés havia como que um lajeado de safiras transparentes, tão límpido quanto o próprio céu. Sobre os eleitos dos Israelitas, Deus não estendeu sua mão. Entraram no lugar de Deus, e comeram e beberam."

[Êxodo 24:9 a 11]



3. Monolatria

A singularidade de Iahweh como Deus criador e soberano global se associa à exigência de culto único a esta divindade. Os israelitas não eram monoteístas, mas intolerantes quanto a adoração a qualquer outra deidade. Os escritos pré-exílicos compartilham com os cananeus a ideia de que o Deus único é incomparável e que sua autoridade é incontestável, declarações que algumas vezes foram vistas como profissão de fé monoteísta, mas cujo sentido está na exaltação na superioridade do Altíssimo. 

Não bastava aos israelitas serem monólatras, eles também tinham de se recusar terminantemente à idolatria, cujo conceito é hoje em dia pouco compreendido por grande parte dos cristãos. Sumérios, acadianos, egípcios, cananeus, gregos, romanos, fenícios e outras populações acreditavam que era possível criar uma hipóstase -- um ponto focal de manifestação e interação com o mundo material, um 'corpo' -- para uma deidade por meio de certas técnicas e ritos. Desse modo, uma estatueta, imagem ou outro objeto cúltico se tornava ''morada'', ''habitação'' daquela divindade específica, um meio pelo qual era possível ''tratar'', ''negociar'' com ela, e até certo ponto manipulá-la. 

Esta operação mágico-religiosa era terminantemente proibida no Judaísmo não só em relação a qualquer entidade espiritual, incluindo as celestes, mas também ao próprio Iahweh. A monolatria exigia adoração apenas ao Altíssimo, mas esta adoração não podia ser acompanhada pela tentativa de dialogar com Ele a partir de ídolos construídos de forma mágico-operativa. Iahweh exigia subordinação absoluta à Sua Vontade, era a Divindade com a qual nenhum ''comércio'' era possível, cujo Nome era inescrutável, que não podia ser controlada ou objetificada. Era ele quem escolhia as condições, o lugar e o modo com que ele se manifestaria a seus fiéis. 

Vou tratar desse tema em uma postagem específica, mas existem dois episódios cruciais relacionados à Idolatria: a Torre de Babel, descrita em Gênesis, e o Bezerro de Ouro, descrito em Êxodo. Em ambos os casos, houve tentativa de se criar um ídolo do próprio Iahweh, uma tentativa de relacionamento religioso vetado com penas severas.

O pano de fundo das crenças cananeias colocava, no entanto, um desafio a mais para a monolatria: o Vice-Regente de El no Concílio dos deuses. Durante o segundo milênio a.C., Baal exercia esse papel sob autoridade de El. Isto quer dizer que existia uma segunda divindade, um filho do Altíssimo, que era responsável pelo governo no dia a dia, e que recebia o epíteto de Rei dos Reis. Como os israelitas lidavam com essa figura sem quebrar a regra rígida e definitiva de que não poderiam adorar nenhuma outro deus a não ser Iahweh?



4. O Segundo Iahweh

Tanto os mitos sumérios e acadianos, quanto as religiosidades greco-romanas trazem ''mitos de sucessão'', em que um Deus Celeste Primordial é destronado por um de seus filhos e se torna distante, inacessível. O usurpador passa a reinar como novo manda-chuva entre os deuses. Um exemplo é a geração olímpica liderada por Zeus tomando o poder de Cronos. Até o segundo terço do século XX, muitos pesquisadores liam a relação entre Baal e El por esse prisma. Mircea Eliade imaginava existir um mito de sucessão por meio do qual o Altíssimo seria sucedido por Baal, o novo Rei, em um esquema similar àquele sumério, em que um Deus guerreiro surge para derrotar o Caos Personificado [Chaoskampf] e se torna, a partir desta vitória, o novo Cosmocrata.

Esta perspectiva começou a mudar na medida em que as fontes da espiritualidade cananeia eram traduzidas e se tornavam mais acessíveis. O consenso é que, apesar de ter de provar seu mérito e derrotar irmãos ou monstros aquáticos e caóticos, Baal é entronizado pelo próprio El, que nunca perde sua autoridade final. Na verdade, entre os cananeus o Vice-Regente governava em nome do Altíssimo.

"Os dados sobre a vice-regência são retirados da religão ugarítica. Sob a autoridade de El, a função mais poderosa na burocracia divina de Ugarite era a de senhor dos deuses. Como os pesquisadores há muito reconheceram, é esta função, o direito de ser aquele que ''governa os deuses'', que é o foco do conflito entre Yamm, Baal e Mot no Ciclo de Baal. O contexto de autoridade suprema de El no panteão e a conclusão praticamente unânime da pesquisa moderna de que El não foi substituído por Baal da posição reclamada por este merecem consideração com relação à vice-regência e como pano de fundo para a adaptação monólatra desta vice-regência em Israel. [...] 

Neste mito, a derrota de Yamm [''mar''] leva à proclamação de Baal como rei dos deuses com aprovação de El. Os primeiros estudos sobre a realeza divina em Ugarite em geral viam esta luta como a deposição de El do posto de deus supremo. A pesquisa mais recente, entretanto, refutou esta visão em favor da concessão da realeza a Baal (incuindo o título de "rei dos deuses") sob a contínua autoridade de El. Baal continua aparecendo em subordinação intencional a El como seu vice-regente em textos fora do Ciclo de Baal..." [Heiser, 2004]


Existiam dois poderes no Céu segundo os cananeus, duas divindades distintas exercendo as funções de poder total sobre todos os deuses e sobre toda a terra: Baal mais ativo, cotidiano, e militarizado, descrito como aquele que reina sobre as forças e os monstros do caos, que derrota os inimigos escatológicos, e que "cavalga sobre as nuvens", reina sob a égide de seu pai ElA presença de dois soberanos no Céu traria problemas para a monolatria israelita não fosse uma adaptação sutil. O vice-regente era considerado como uma Hipóstase do Nome de Yahweh, uma extensão pessoal sua.

"Vou enviar meu anjo adiante de ti para te proteger no caminho e para te conduzir ao lugar que te preparei. Está de sobreaviso em sua presença, e ouve o que ele te diz. Não lhe resistas, pois ele não te perdoaria tua falta, porque meu nome está nele. Mas, se lhe obedecerem pontualmente, se fizeres tudo o que eu te disser, serei o inimigo dos teus inimigos, e o adversário dos teus adversários. Porque meu anjo marchará adiante de ti e te conduzirá contra os amorreus, os hiteus, os ferezeus, os cananeus, os heveus e os jebuseus, que exterminarei." [Exodo 23:20 a 23]


"E aconteceu que, quando Josué estava em Jericó -- e olhando para cima com os olhos --,viu um homem de pé diante dele; e a espada estava desembainhada na mão dele. E Josué, aproximando-se, disse-lhe: "És nosso ou um dos oponentes?" Este disse-lhe: "Eu sou comandante supremo da força do Senhor e agora estou aqui presente." E Josué caiu com o rosto no chão e disse-lhe: "Senhor, o que ordenas ao teu escravo?" E o comandante supremo diz a Josué: "Desata a sandália dos teus pés. Pois o lugar, em que estás, é sagrado." [Josué 5:13 a 15]

"Porque um menino nasceu para nós,
Um filho nos foi dado;
Ele cuja soberania estava no seu ombro;
E é chamado o nome dele
"Anjo do grande concílio".
Maravilhoso, conselheiro, Deus poderoso, potentado, príncipe da paz, Pai do mundo vindouro.
Pois eu trarei paz para os regentes"
[Isaías 9:5]

 
Tratarei deste assunto em uma postagem específica dada sua importância para o Cristianismo. Ressalto, porém, que o desenvolvimento da cristologia repousa, em grande parte, nesses temas míticos, místicos e simbólicos que remontam ao pano de fundo religioso cananeu. Os termos filosóficos com que se fez referência a este segundo Poder [Logos] se sobrepõem a essa estrutura religiosa mais arcaica que se faz presente desde o livro de Gênesis, como se flagra pelos escritos de São Justino Mártir sobre a visita de Iahweh a Abrão, por exemplo. Mas vou tratar desse tema de forma mais detida em um próximo texto.

O Anjo do Grande Concílio