quarta-feira, 8 de abril de 2026

NETANYAHU É A ALMA DO SIONISMO, ou: O Terrorismo sionista ao longo da História

Benjamin Netanyahu, que muitos judeus ortodoxos acreditam ser o precursor do Messias.

Muitos se agarram ao wishful thinking de que o problema de Israel se resume a Benjamin Netanyahu, como se o atual Primeiro Ministro fosse um desvio da história israelense. Mas "Bibi" é o telos inevitável do movimento sionista. Ele estava inscrito nessa ideologia desde o início, de modo que suas políticas são quase que a manifestação nua e crua do que Israel é por trás de todos os adornos e máscaras.


Muitos enchem a boca para falar da "democracia israelense", comparando-a positivamente em relação aos seus vizinhos e inimigos. Mas o partido ''eleito democraticamente'' em Israel é o Likud.


Não que a esquerda sionista seja muito melhor. Ela foi a força predominante no Estado judeu até meados dos anos 1970. E foi responsável por episódios como a limpeza étnica na primeira guerra árabe-israelense, em 1948 [chamada pelos árabes de Nakba, ''A Catástrofe"], e por casos de terrorismo como o Lavon Affair [a Operação Susana]. Foi responsável também pelas ocupações ilegais dos territórios palestinos e árabes após a Guerra dos Seis Dias.


Mas a esquerda sionista deixou de ser dominante em Israel. No fim dos anos 1970, a direita chegou ao poder, e progressivamente foi eclipsando os antigos trabalhistas. O processo se consolidou de vez com o fracasso das negociações de paz com a OLP, que atravessaram os anos 1990. Nos últimos vinte e cinco, trinta anos, o Likud domina o governo israelense, modelando suas políticas e exibindo de modo triunfante as marcas mais características do sionismo.


Começo pela foto abaixo. É Menachen Begin, Primeiro-Ministro de Israel entre 1977 e 1983, o homem que desbancou os Trabalhistas no Estado Judeu e representou a ascensão da atual direita. A história política de Begin está entrelaçada com a do Likud. E se inicia com o Revisionismo Sionista, de Jabotinsky, a ala oposicionista aos socialistas entre os anos 1920 e 1940.


Menachen Begin, símbolo da ascensão da direita sionista



Jabotinsky era ultra-nacionalista e defendia que o Mandato Britânico inteiro na Palestina deveria ser convertido em território do Estado de Israel, incluindo aí a Transjordânia [atual Jordânia]. Para impor sua visão, fundou e liderou uma milícia paramilitar chamada Irgun, que realizava uma série de atentados terroristas contra os ingleses e os árabes.


O Irgun teve participação importante na repressão da Revolta Árabe-Palestina entre 1936 e 1939, e alguns de seus atentados terroristas alcançaram infâmia internacional, como o Domingo Sangrento, em que pelo menos 10 civis árabes foram assassinadoss. O grupo comemorava o evento como uma ''Revolta Macabeia'', se referindo ao levante liderado por Judas Macabeu contra o governo selêucida no século II a.C.


Outro atentado de triste memória foi a bomba plantada em um mercado popular em Haifa, que matou 18 árabes, dentre eles seis mulheres e três crianças. São só alguns exemplos, já que as atividades do Irgun se estenderam até 1948, quando foi integrado às IDF [Forças Armadas Israelenses].

Jabotinsky, o ultra-nacionalista cujos sonhos de um Grande Israel são compatíveis com o sionismo religioso 



Pois bem, Menachen Begin entrou para o Irgun em 1942, tornou-se o principal comandante da milícia dois anos depois, e com a integração de seus quadros na IDF, fundou um partido político para dar continuidade ao legado do Movimento Revisionista de Jabotinsky, o Herud, ao qual voltarei mais adiante.


Antes disso, é necessário mencionar uma dissidência nascida no Irgun em 1940. Durante a Segunda Guerra Mundial, o grupo decidiu colaborar com os britânicos. O raciocínio era que a colaboração no esforço de guerra seria recompensada com um Estado judeu depois que o conflito terminasse.


Mas nem todos concordaram com o argumento. Um membro de nome Avraham Stern escolheu trilhar caminho próprio, e fundou uma nova milícia paramilitar chamada Lohamei Herut Israel ["Guerreiros pela Liberdade de Israel"], mais conhecida pelo acrônimo Lehi.


O Lehi implementou uma complexa política visando se aproximar do eixo nazi-fascista durante a II GM. Segundo eles, as restrições impostas pelo Mandato Britânico à compra de terras e imigração judaica faziam dos ingleses os inimigos do povo judeu. Os nazistas seriam apenas antissemitas, mas não seus inimigos. Eles poderiam ser manipulados. Stern tentou criar um acordo com os nazistas: O Lehi os ajudaria contra os ingleses e os alemães criariam um Estado Judeu após o fim da guerra. Todo mundo sairia ganhando, já que a limpeza étnica que os nazistas planejavam para os judeus, acreditava Stern, terminaria com a expulsão de todos eles para o novo Estado Sionista.


Desse modo, o Lehi se engajou em uma série de atos terroristas contra os britânicos. Sua principal inspiração era o IRA [O Exército Revolucionário Iraniano]. Aliás, o Lehi se declarava oficialmente terrorista em suas publicações oficias, como o famoso artigo Terror, em que se lê: "Nem a ética ou tradição judaica desqualificam o terrorismo como meio de combate. [...] Mas, primeiro e antes de tudo, o terrorismo é para nós parte da batalha política conduzida nas atuais circunstâncias".


Os atos de terrorismo do Lehi não se davam apenas na Palestina, eles alcançavam a Europa também.

O Grupo Lehi, considerado terrorista na Europa



Não devemos exagerar as divergências entre Irgun e Lehi. Logo depois do fim da II Guerra Mundial, ambos se uniram em uma estratégia conjunta para forçar os britânicos a entregar o Mandato na Palestina e fundar um Estado Judeu. Não só se coordenaram, mas contaram também com o apoio da Haganah, milícia sob controle dos socialistas sionistas. Os três grupos foram os pilares do Movimento de Resistência Judaica, que se abraçou de vez ao terrorismo, incluindo o atentado ao Hotel Rei Davi, em 1946, que matou mais de 90 civis dentre ingleses, judeus e árabes.


Lehi e Irgun também se envolveram em um episódio vexaminoso durante a primeira guerra árabe-israelense, que os sionistas chamam de "Guerra de Independência". Em meio à Nakba, provocaram o massacre da aldeia Deir Assain, que ficava próxima à Jerusalém. Dos quase 600 moradores palestinos, cerca de 200 foram assassinados, a maior parte em suas próprias casas.


A foto abaixo ajuda a entender a influência do Lehi em Israel. Trata-se de Yitzhak Shamir, Primeiro-Ministro de Israel em 1983/84, e depois de novo entre 1986 e 1992. Shamir fez parte do Irgun, e rompeu com o grupo junto de Stern. Quando este foi fuzilado em 1942, Shamir assumiu a liderança do Lehi. Com o fim do grupo, entrou para o Mossad [serviço de inteligência israelense] em meados dos anos 1950. No fim dos anos 1960, entrou para o partido Herud, que mencionei anteriormente, e que era liderado por Menachen Begin, antiga liderança do Irgun.

Yitzhak Shamir, o Irgun e o Mossad no poder


Alguns membros do Grupo Lehi foram condenados pela Justiça de Israel no início dos anos 1950 depois que assassinaram o Conde sueco Folke Bernadotte, um herói na libertação dos judeus de campos de concentração durante o Holocausto. Mas todos foram perdoados pela Justiça. Israel criou desde os anos 1980 a condecoração Lehi, conferida a israelenses por coragem e bravura em guerra.


Voltando ao Herud: quando de sua fundação muitos judeus progressistas da Diáspora se pronunciaram contra o novo partido em carta coletiva, datada de 1948, assinada por Albert Einstein e Hannah Arendt dentre outros. Na carta pública, o Herud é denunciado como um partido extremista com claros vínculos nazi-fascistas.


Mas isso não foi suficiente para barrar o partido. Durante algum tempo ele foi marginal na política israelense, dominada pela esquerda sionista. Mas o Herud conseguiu um crescimento expressivo quando montou uma coalizão com o Partido Liberal. O Gahal, ainda liderado por Begin, obteve uma expansão significativa de cadeiras no Knesset a partir do fim do anos 1960.


Na ocasião, Israel já passara a ocupar os territórios palestinos e árabes como consequência da vitória na Guerra dos Seis Dias. Enquanto a esquerda sionista pretendia trocar as terras por acordos de paz e reconhecimento mútuo com os governos árabes, a direita em torno do Herud proclamava abertamente que Israel deveria consolidar a posse dessas terras a partir de uma política de assentamento de colonos, principalmente na Cisjordânia.


O Herud se associou com pequenos movimentos conservadores e centristas em 1973, ano do trauma da Guerra do Yom Kippur, e fundou o Likud, nascido primeiramente como uma aliança de partidos sob liderança de Begin. O Likud era o centro do Movimento Grande Israel , cujo nome dispensa comentários. Em 1977, com o descrédito da esquerda sionista por causa dos impasses militares, e da condenação do sionismo pela ONU [1975], o partido finalmente conquista o governo.

O massacre dos palestinos em Shantila, o Líbano de ontem é o Líbano de hoje


Uma vez no poder, Menachen Begin conduziu o Acordo de Camp David com o Egito de Sadat, pacificando as relações com o maior país árabe. Em decorrência disso, ganhou o Nobel da Paz. Parece que concederam o prêmio cedo demais, pois dois anos depois Begin atacou o reator nuclear iraquiano, e em 1982 invadiu o Líbano para expulsar do país a OLP, dando início a uma ocupação militar que ficou marcada pelos massacres de Sabra e Shantila, e pela derrota nas mãos de um partido shia surgido para expulsá-lo da terra dos cedros, o Hezbollah.


Apesar de desmoralizado, a "Doutrina Begin", de ataques preventivos contra seus inimigos, se internalizou de vez em Israel.


São essas as figuras que modelaram o maior partido de direita de Israel, o Likud, que vence eleições seguidamente desde meados dos anos 1990. O Likud se aproveitou de mudanças demográficas importantes em Israel, da aliança com os EUA, e do crescimento do sionismo religioso impulsionado por judeus ortodoxos para demolir os Acordos de Oslo, aumentar exponencialmente a política de assentamentos na Cisjordânia, reivindicar Jerusalém como capital israelense, e promover a divisão da liderança palestina a fim de obstaculizar para sempre a criação do Estado Palestino.


Faz parte desta estratégia ampliar o reconhecimento e os acordos de paz com Estados árabes [Acordos de Abraão] para isolar o movimento palestino, e voltar o foco internacional contra o Irã, que comanda um arco de poder xiita no Iraque, Líbano e Síria.

O genocídio em Gaza não foi um acidente, não é um desvio. Sua sombra sempre esteve lá.



Portanto, o governo israelense atual se trata de um partido central da direita sionista, cujo DNA está no ultra-nacionalismo expansionista, no supremacismo étnico, e no terrorismo do Revisionismo Sionista, do Irgun, do Lehi.


Não impressiona que chamem os palestinos de ‘’animais’’, promovam deslocamento forçado de civis, se abracem à limpeza étnica, e bombardeiem residências, escolas e hospitais.


Esse é o sionismo nu e cru desde suas origens. Sua encarnação histórica poderia ser Ben Gurion, mas é na verdade Benjamin Netanyahu.

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