terça-feira, 10 de março de 2026

O Poder Espiritual na História do Irã, ou: O Imam, o Rei e os Juristas-Clérigos

 Eu sou Ismāʿīl, vim ao mundo;

caminho sobre a terra como no céu;
os que não sabem me conhecerão:
eu sou ʿAlī, ʿAlī sou eu!

Eu sou a verdade divina; venho de Deus.
Sou um dos Doze Imames.
Os quatro cantos da terra eu ocupo.
Sou o mesmo que a onipotência de ʿAlī.

Muḥammad Muṣṭafā, selo dos profetas, chegou...

Meus imames Jaʿfar al-Ṣādiq e ʿAlī Mūsā al-Riḍā vieram.

[...]

O Eleito vestiu mil e uma vestes

e percorreu a terra.

Prostra-te! ...

Adão vestiu novas roupas;
Deus veio! Deus veio!

Eu sou idêntico a Deus...

Vem, olha agora para a verdade divina, ó homem cego e errante:

Eu sou a Causa Primeira Absoluta em movimento sobre a qual os homens falam!

Poemas do Xá Ismail



O conflito do Irã é bom para pensar uma das fragilidades mais evidentes dos estudos históricos, a minimização da agência de organizações religiosas.


Em geral, a religião é tratada como um subtema da História das Ideias, como expressão de fatores mais profundos de ordem social e econômica, discurso ideológico, ou como arcabouço cultural que exerce influência quase que em um plano inconsciente.


Mas a história contemporânea é incompreensível sem a agência programática de instituições espiritualistas, mesmo quando ela se dá de forma discreta. Estudar as revoluções burguesas e liberais sem levar em conta o espiritualismo e ocultismo europeu é perda de tempo. O secularismo é um discurso público voltado para as massas, elaborado em larga escala por elites religiosas/ocultistas que se sentem no dever de conduzir a sociedade.


O mesmo se dá com o Irã e sua particular conformação político-institucional. Ela não pode ser reduzida a uma ditadura pessoal, como muitos da mídia e o governo Trump imaginavam, nem suas origens se encontram em debates filosóficos universitários do século passado.


As raízes do poder shia no Irã remontam à intersecção entre ordens sufis tardo-medievais, a devoção aos Imames no Iraque, Pérsia e Centro da Ásia, e as tribos turcomanas que exerciam poder local com a gradual fragmentação do Império Mongol. As extensas redes de fiéis, seguidores e clientes das turuk rapidamente passaram por um processo de militarização, entrelaçamento com práticas e crenças xamânicas da Ásia Central, e finalmente com o desenvolvimento de um messianismo militante que, sob impulso dos Ghulat [os "exagerados", que acreditavam em formas de metempsicose e viam o Imam como "encarnação divina"], deificavam líderes carismáticos.



A mais bem sucedida organização do tipo é a tariqa Safavi, fundada em Ardabil no século XIII, mas reformulada por Haydar Safavi, que dizia ser descendente de Ali, em uma forma de gnosticismo armado fundamentado no fanatismo militante dos Qizilbash, confederações de tribos disciplinada segundo uma rígida crença messiânica.


Essa organização chega ao poder com Ismail I, um jovem de catorze anos que era venerado como Deus pelos Qizilbash. A nova monarquia se baseava fundamentalmente na sacralidade do Xá [o Monarca], considerado descendente de Ali e representante ["Sombra de Deus"] de Muhammad al-Madhi, o Imam Oculto.


O novo Estado passou por um processo de institucionalização e burocratização ao longo do século XVI, consolidando o poder de um clero que foi fundamental na conversão da população ao xiismo [até o início do século XVII, a Pérsia ainda era majoritariamente sunni]. Os Qizilbash foram domesticados, as turuk sufis explicitamente perseguidas. Na Era Moderna, o Islã contava com dois grandes Estados, cada um deles legitimado pelas correntes sunni e shia, o Califado Otomano e o Xá Persa.



Com o tempo, o poder dos ulemás cresceu sob o impacto das ideias metafísicas e jurídicas das escolas de Hillal e de Isfahan, que articulavam formas complexas de aristotelismo, neoplatonismo, e gnosticismo. Os conceitos de ijtihad e taqlid lhes dava direito de estabelecer definições religiosas vinculantes sobre temas importantes, em vez de se basearem apenas na tradição de decisões anteriores. Os ulemás logo reivindicaram o papel de intérpretes autorizados da lei divina, competindo com o Xá pela representação do Imam Oculto. Ocorria também uma hierarquização do clero, primeiro com a figura religiosa-militar do Sadr, criada pelo próprio Ismail I, em um processo de fortalecimento que vai desembocar no Marja al-Taqlid, o grande jurista, cujas fatwas vinculam toda a comunidade religiosa.


Esse desenvolvimento teve idas e vindas, mas a balança pendeu decisivamente para os juristas-clérigos com o fim dos Reis Safávidas no início do século XVIII. Depois do governo do Xá Nadir, e as guerras subsequentes, emergiu uma Dinastia que já não podia reivindicar descendência de Ali ibn Talib. O governante agora fazia o papel de um poder temporal cuja legitimação era a de guardião do xiismo duodecimano, não mais de voz na terra do Imam Oculto.


Embora a história seja mais longa e complexa do que a acima, a doutrina da Wilayat al-Faqih [no fundo, o governo do jurista], elaborada por Khomeini, pode ser vista como o desenlace dessa disputa nas condições específicas do século XX, em que se discutia restrições ao poder do Rei/Xá. Na ausência do Mahdi, e até seu retorno, o Estado é tutelado pelos mujtahid [o jurista-clérigo], em uma pirâmide de poder que culmina no Líder Supremo, agora não mais apenas intérprete da Lei, mas governante e delegado do Imam.

O Irã é um caso singular de articulação e disputa entre uma autoridade espiritual que se pretende poder temporal, e um poder temporal que tem origem na autoridade espiritual, mas modelado por um gnoscitismo militante oriundo de ordens místicas que permanecem nas sombras não tanto em função da sua discrição, mas da cegueira de autodeclarados especialistas cuja função é a de estudar as formações políticas. A História do Poder é, no fundo, a História da Religião.



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