terça-feira, 21 de abril de 2026

QUEM TEM MEDO DO PAGANISMO?, ou: os limpinhos e o vale dos leprosos


Uma das maiores estranhezas do protestantismo/evangelicalismo é seu temor descabido a tudo que considere ''pagão''.


Eles usam o termo em um sentido que foge um tanto do cristianismo mais tradicional. Para a Igreja, ''pagão'' é aquele que não foi batizado em Cristo, e por isso ainda vivia como o ''velho homem'', sem um coração novo.


Isso significa que toda pessoa pode ganhar um sentido novo na vida com o Batismo e a recepção na Igreja. É uma ideia que tornou possível a expansão do cristianismo por diversas culturas, e se tornou indissociável de seu universalismo.


Mas a sensibilidade evangélica redimensionou o paganismo segundo algumas ideias judaicas sobre os gentios. O judaísmo é uma religiosidade de exclusivismo étnico, eleição nacional, e pureza ritual e legal. Para algumas de suas vertentes mais poderosas, o gentio é parte de um povo que não tem vínculo jurídico com Deus, não pertence à ancestralidade escolhida, e não foi purificado pelo cumprimento das obrigações legais e ritualísticas. Por isso, tudo nele ameaça ''infectar'' e ''macular'' Israel, que tem de criar um cordão de isolamento, quase sanitário.


Assim, muitos judeus identificavam os elementos de sua cultura como revelações do Alto com o escopo de torná-los radicalmente diferentes dos povos ao seu redor, de modo que sua eleição fosse plenamente reconhecível e pudesse ser reproduzida no tempo. A cultura alheia, não sendo revelada pelo Alto, estava misturada ao erro, à ignorância e ao cramulhão.



Como se tratava de uma religião étnica, essa tensão se coadunava com a convivência entre as demais nações ao mesmo tempo que possibilitava a sobrevivência e continuidade dos judeus como grupo nacional distinto.


Mas quando essa abordagem se torna dominante em uma religiosidade universalista como o cristianismo se cria um problema: a identificação de determinada cultura com Revelação Divina, em detrimento das demais que não passariam de "obras do demonho''.


Para ser justo, essa é uma tendência implícita no cristianismo desde o início, já que há também continuidades com a espiritualidade judaica. Mas o evangelicalismo, ao radicalizar o princípio do Sola Scriptura e demonizar o conceito de tradição, abre uma caixa de Pandora de extremismo e exclusivismo.


Se dado costume, festa, rito ou elemento qualquer não pode ser justificado pela leitura das Escrituras, muitos evangélicos concluem que se trata de ''paganismo'' e que conciliar com ele leva ao risco de "contaminação". Como os costumes descritos nas Escrituras são basicamente os judaicos e serviam exatamente ao propósito de diferenciação étnica em relação aos cananeus e outras nações do Mediterrâneo Oriental, cria-se um nó difícil de desatar.

A resposta mais comum seria diferenciar aquilo que é essencial à Revelação daquilo que é costumeiro e contingente, além de frisar as rupturas ocorridas a partir da Encarnação do Senhor, vendo todo o Antigo Testamento como Pedagogia Divina cujo sentido se realiza em Cristo. É o que fez, em diversos graus, todo o cristianismo ao longo de mais de um milênio.


Mas a retórica evangélica contra as Igrejas tradicionais depende de acusá-las a partir da leitura das Escrituras, apontando aquilo que se afastava da ''pureza'' do cristianismo primitivo. Daí a adoção de uma perspectiva cada vez mais judaizante e a denúncia de infiltração "pagã".


Um exemplo é o Natal, em que os cristãos comemoram a Encarnação de Deus. Basta que evangélicos descubram que nesse dia muitos povos pagãos celebram alguma festa solsticial para usarem o argumento como "prova" de que as Igrejas tradicionais nada mais são do que reedições do paganismo.


Não adianta avisar que esses cristãos não estão nem aí para o solstício, que eles festejam o mistério do Deus que se faz homem na Pessoa de Jesus Cristo. A simples coincidência com festivais "pagãos" ameaça "contaminar", "macular", "corromper" a pureza do "povo santo". Uma Igreja tradicional verá com alegria que um ''pagão'' que comemorava o solstício agora comemore a Natividade do Senhor. Um evangélico torce o nariz porque o melhor é esquecer que os solstícios existem ou encará-los sem qualquer sentido religioso [o que leva a uma dessacralização da natureza, mas isso é outro papo].


Evidente que essa postura só pode ser mantida a ferro e fogo onde grassa a mais profunda ignorância sobre a história religiosa e as interações culturais. Por isso, muitos evangélicos se chocam ao descobrir que muitos das festas, ritos e elementos religiosos do Israel bíblico não eram nenhuma novidade no Mediterrâneo Oriental antigo, e podem ser descritos ou como 'apropriações' ou uma cultura compartilhada com os povos cananeus.


Recentemente, li um evangélico assoberbado porque avisaram que a festa judaica do Pentecostes [shavuot] era em origem um festival da colheita -- portanto camponês, e que seguia o calendário 'natural' agrícola -- similar ao que se comemorava em diversos povos da região.


Na imaginação dele, aquelas festas e ritos descritos no Antigo Testamento eram fruto de uma Revelação Divina completamente diferente de tudo o que existia no mundo, e especialmente da região em que os hebreus viveram.


Ele não pode conceber que quando Jacó ergue uma coluna de pedra no local em que vivencia uma teofania [Gênesis 28], estava fazendo uma massebah, um santuário memorial [que podia ou não ser alvo de culto contínuo] em dedicação a uma divindade. Estava agindo como qualquer cananeu da região, replicando uma prática, vejam só, "pagã".


A própria imagem usada por Jacó, com um sonho em que via uma escada ligando Terra e Céu, por meio da qual transitavam Elohim [deuses ou filhos de El] também é comum aos povos cananeus e mesopotâmicos [na verdade, é um símbolo religioso universal]. Do mesmo modo, a concepção do Trono Divino como uma Tenda erguida sobre uma Montanha, a noção do lugar de convivência com Deus como um jardim de delícias etc. são imagens típicas de toda a cultura religiosa cananeia [e se tornaram modelos para a construção do Tabernáculo e para o Templo de Jerusalém].


De modo impressionante, o Pentateuco é um compêndio de símbolos, imagens, conceitos e elementos religiosos pagãos, como qualquer pessoa minimamente instruída reconhece facilmente. A Revelação do Sinai não é uma "criação ex nihilo". Isso não nega as especificidades da religião judaica, mas mostra que ela compartilhava e partia de linguagem e expressões [inclusive cultuais] comuns a diversos outros povos.


A Igreja dita ''primitiva'', e de modo geral o cristianismo do primeiro milênio, que surge e se desenvolve em cidades fortemente cosmopolitas [Roma, Alexandria, Antioquia, Éfeso, Constantinopla etc.], tinha noção dessas similaridades, e por isso evitou demonizar completamente a cultura e a espiritualidade alheia, tentando discernir nelas o que eram "sementes do Verbo".


Pareceria ridículo dizer que não se pode comemorar a Natividade de Cristo em um solstício [na verdade, parece ridículo afirmar que Cristo não poderia nascer em um Solstício], só porque se tratava de uma elemento da ordem natural celebrado por culturas pagãs. Afinal, Deus é criador da Natureza, então algo nela reflete a própria Divindade. Também parece ridículo alegar que nenhum elemento religioso, filosófico, simbólico, cultual pagão possa ser mobilizado de forma cristã, já que não faltam exemplos nas Escrituras em que isso foi feito para a construção do Judaísmo, e que o próprio homem é ícone de Deus.


Enfim, aquilo que é pagão é transfigurado pelo Batismo. Não enviado para um "vale dos leprosos" pra manter a ilusão de que somos ''limpinhos".


Evangélicos mais cultos tendem a reconhecer isso, mas como é da *tradição* protestante usar a denúncia da "paganização" como arma retórica, eles percebem também a fragilidade em que ficam se admitirem por completo os complexos laços da espiritualidade humana.


A Boa Nova é a Encarnação do Verbo, a Redenção, e a Ressurreição, com a abertura do Reino dos Céus para todos os homens. Não é a invenção de uma religião a partir do nada.

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