sábado, 4 de abril de 2026

OS LIMITES DA "RENOVATIO IMPERII" TRUMPISTA


Não há um grande plano por trás das intenções de Trump. A guerra contra o Irã não foi um passo calculado, parte de uma estratégia maior. Não se pode nem chamá-lo de traidor da própria Pátria, ou considerá-lo um aceleracionista que, por alguma crença qualquer, deseja impulsionar o declínio do Império ianque.


A verdade é que Trump não sabia o que estava fazendo. Ele percebeu de modo equivocado a situação, foi enganado por assessores sionistas, falcões de Washington, e desmiolados do nacionalismo evangélico.


Se fosse um aceleracionista, não daria tantos e tantos sinais de que deseja sair do imbróglio. As ameaças, o bombardeio de complexos petroquímicos, o ataque desenfreado a alvos civis, bem como a extensão de prazos [a quantas anda agora a contagem de dias que ele deu ao Irã, alguém lembra?], a insistência na busca de intermediários, a busca por responsabilizar a OTAN, a mudança de objetivos estratégicos em meio a campanha; tudo isso, repito, apontam um governante afobado, doido para colocar fim ao pesadelo.


Trump percebeu que cometeu um erro político grave.


O mesmo se aplica à tese de que suas ações se explicam apenas por conta da chantagem dos Arquivos Epstein. Não que seja impossível em algum grau, afinal a rede de espionagem de Epstein servia exatamente a esses propósitos. Mas é simplista reduzir Trump a um boneco de ventríloquo, agindo contra seus interesses, projetos e vontade. E não se adequaria ao cenário de busca desenfreada por sair do atoleiro.


O erro tem consequências, nem todas elas previstas pelo agente que tomou as decisões que desencadearam o processo. O capital político de Trump vai ser abalado, mas vai alimentar ainda mais a direita radical ianque. A responsabilização do lobby sionista está a pleno vapor. A base do MAGA já tem toda a narrativa em mãos para explicar a situação e usá-la a seu favor.


Além disso, o erro de Trump vai acelerar a debaclé do poder estadunidense, e agora naquela vantagem que era até então incontrastável. Quando se olhava para os EUA, eram nítidos os problemas econômicos, sociais, políticos e ideológicos. Mas não se podia contestar sua imensa superioridade militar.


Esse é o maior legado do conflito atual: expor para o mundo os limites do potencial bélico dos EUA, cujas doutrinas são inadequadas para um conflito assimétrico, despreparadas para a era dos drones, e com gargalos imensos no custo e na produção de seus poderosos artefatos de destruição.


Os EUA teria de reajustar sua pesadíssima máquina militar para os novos tempos, mas isso demanda tempo e desgaste político. Mexer no setor é como atiçar o maior dos vespeiros. O complexo industrial-militar ianque é trespassado não só por todo o tipo de interesse político e econômico, envolvendo máfias pesadas com articulações profundas com o aparato do Estado, mas também com esquemas bilionários de corrupção que, certamente, envolvem redes transnacionais.


Ainda que se consiga mover esse Iceberg sem ser engolido por ele, o reajuste implicaria em um redimensionamento da abrangência imperial. Os EUA teria de cortar alguns dedos para manter as mãos.


Quando da eleição de Trump, publiquei em meu blog artigo explicando que os EUA entrava em seu período cesarista, de concentração interna de poderes e abandono de boa parte das aparências democráticas e liberais, e ao mesmo tempo de expansionismo imperialismo bruto para compensar a decadência de suas próprias bases materiais de atuação.


Para continuar a analogia com o Império Romano, é como se a Renovatio Imperii tivesse batido no teto. Depois das migrações germânicas, que demoliram o poder romano no Mediterrâneo Ocidental, as elites imperiais desenvolveram um projeto de restauração territorial [e ideológica] em um novo período expansionista ao longo do século VI, nos reinados de Justino I e Justiniano I. Ao longo de três gerações, os romanos reconquistaram o norte da África, a Itália e recolocaram os pés na Península Ibérica. Mas o projeto foi impactado pela invasão da Itália pelos lombardos, e a crescente independência dos eslavos nos Bálcãs no último terço daquele século.


O "teto" da Renovatio anunciou a crise que iria estourar décadas mais tardes, um período de retração que só foi estabilizado quando o Império mudou de base, de identidade e de meios de intervenção. O Império Romano do século IX ["Império Bizantino"] se organizava em torno de um núcleo territorial mais enxuto [não mais todo o Mediterrâneo], com recursos fiscais e comerciais muito mais exíguos, apostando na sofisticação diplomática e na capacidade de influência civilizacional e religiosa mais do que no expansionismo militar "universal".


Em um médio prazo, e dentro dos limites da analogia, a derrota estratégica no Irã será para os EUA como a catastrófica chegada dos exércitos de Alboíno à Itália em 568, e a fundação do Regnum Langobardorum de Pávia. Trombetas apocalípticas, anunciando o fim do sonho de estabilizar de novo o Mediterrâneo como o mare nostrum romano.