quarta-feira, 19 de março de 2014

O cristianismo e a escravidão; ou: a Verdade que liberta

Em fóruns e comunidades de debates religiosos é muito comum que ateus e agnósticos utilizem as leis e comentários sobre a escravidão nas Sagradas Escrituras, bem como a história das diversas sociedades cristãs, para defenderem que a religião e a moral são inteiramente contingentes e relativas. Alguns costumam partir da ideia geral de que a escravidão é imoral per si; dado que as sociedades judaica e cristã a permitiam, não poderiam ser expressões de uma moral supra-humana, emanada de Deus, concluem. Outros usam esses exemplos apenas para defender que a moralidade é mutável, simples fruto de interações sociais condicionadas. Há aqueles também que, pensando mostrar que a moral pode ser explicada principalmente pelo contexto histórico, visam problematizar os posicionamentos cristãos sobre dilemas morais contemporâneos, como a questão do aborto ou dos direitos homossexuais. Geralmente citam versículos do Pentateuco que regulavam as relações escravistas entre os antigos hebreus, ou ainda a Epístola de São Paulo aos Efésios em que o Apóstolo dos Gentios pede aos cativos para que obedeçam ao senhor como quem obedece a Cristo. 

Fora algumas imprecisões históricas e confusões óbvias sobre a doutrina cristã, está também implícito neste discurso uma percepção errônea sobre os propósitos da Igreja. Os equívocos começam quando se diz que São Paulo Apóstolo defendeu a escravidão tal como praticada no mundo romano. Na verdade, nos escritos neotestamentários é muito evidente que os cristãos não consideravam existir nenhuma diferença de status ontológico entre sujeitos livres e escravizados. Diferente do ponto de vista greco-romano, para o qual o escravo era um ser naturalmente inferior e passível muitas vezes de ser tratado como uma coisa, na mentalidade cristã a escravidão era anti-natural, uma degradação da condição de um  homem que se encontrava preso por uma relação social que era fruto do pecado [1]. A maneira como os Santos Padres encaravam essa condição era marcada pelos seguintes pontos: a) Os homens eram todos feitos à imagem de Deus; b) a escravidão não fazia parte dos Planos de Deus, mas era consequência do pecado original; c) a libertação de escravos era um ato virtuoso. A essa lista poderia ser acrescentado um item a mais, que é justamente aquele que, no fundo, incomoda os críticos: a Igreja nunca foi exatamente abolicionista. Os santos entendiam perfeitamente que a escravidão estava associada às necessidades das civilizações mediterrâneas e sabiam que seu fim repentino representaria nada mais nada menos que o puro caos [2]. No entanto, é incorreto dizer que a maneira com os cristãos viam a questão em nada influenciou o curso do escravismo. Há historiadores que afirmam que o esvanecimento da escravatura durante o período medieval do Ocidente deveu muito à exigência da Igreja de que o escravo fosse encarado como plenamente humano [3].

Uma confusão comum é quanto à questão das leis hebraicas. A ''acusação'' de que estas leis são relativas não se distancia tanto assim do que afirma a Igreja. Elas foram dadas por Deus como uma preparação para a vinda de Cristo, mas, assim como os ritos do Templo, eram sinais cujo sentido se revelariam por inteiro na Igreja. Neste sentido, é verdade que o Antigo Testamento regula e civiliza costumes que são, em larga escala, frutos da natureza decaída do homem e de um contexto cultural específico. Não há nada ali que torne estas leis e ritos por si mesmos 'eternos', 'absolutos', 'imutáveis' nem tampouco obrigatórios para os demais povos nem muito menos para os cristãos. Ainda que não possam ser inteiramente dissociadas da religião, as normais sociais não são, elas mesmas, o que há de essencial na via espiritual. É claro que a ordenação da coletividade é importante, pois a sociedade deve servir como um espelho que reflita em alguma medida o sentido e os princípios de ordem espiritual, permitindo que os indivíduos que dela fazem parte deles participem em sua existência cotidiana. Mas o Novo Testamento não contém textos que lidem diretamente com esta questão, mas que se colocam em uma dimensão superior e mais interna, focada na relação pessoal entre homem e Deus [4].

E é neste ponto que se dá a maior imprecisão das críticas realizadas. Elas buscam 'medir' a religião e a Igreja por sua capacidade de promover uma vida confortável, próspera e 'humana', uma forma possível de utopia social. Mas este nunca foi o propósito fundamental da fé -- até por que é impossível, dada a própria transitoriedade mundana. O âmbito em que a Igreja diz atuar é o espiritual. Isto fica muito claro em Jo 8:31 a 34. Cristo dizia a alguns judeus para que permanecessem em Sua palavra, acrescentando ''conhecereis a verdade e a verdade vos libertará''. Eles retrucaram que nunca haviam sido escravos para que precisassem ser colocados em liberdade. Cristo respondeu-lhes que ''todo aquele que peca é escravo do pecado''. 

 Não se trata de trazer para o homem uma liberdade jurídica apenas, na forma da lei. Afinal, o sujeito pode ser livre assim [e é melhor que seja, afinal é mais condizente com aquilo que contemporaneamente se costumou chamar de ''dignidade humana'' [5], como ensinaram os Santos Padres desde o início], mas ao mesmo tempo pode continuar estulto, obscurecido por suas paixões, atado a seus desejos e ignorância, escravo da corrupção e da morte. Este é o tema que ocupa o Novo Testamento inteiro, e não a política, economia, ou assuntos afins nos quais a modernidade fragmenta a dimensão moral e social. Quando São Paulo diz que os escravos e senhores devem se relacionar assim e assado, não está dando ''aval'' ou ''aprovação'' a esta relação social específica, e sim ensinando como os homens, ainda que mergulhados neste contexto,  poderiam usá-lo como forma de ascese e busca da verdadeira libertação. Neste sentido, que de um ponto de vista espiritual é o que realmente importa, um escravo podia ser verdadeiramente uma pessoa livre, enquanto os senhores podiam continuar verdadeiramente escravos. A própria Epístola aos Efésios, trazida pelos críticos à discussão, deixa isso pra lá de claro, ao continuar ''Senhores, procedei também assim com os servos. Deixai as ameaças. E tende em conta que o Senhor está no céu, Senhor tanto deles como vosso, que não faz distinção de pessoas.[...]Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal (espalhadas) nos ares.''

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[1] É necessário esclarecer que o modelo greco-romano de escravidão não era o único existente no Mundo Mediterrâneo nem muito menos na História. Existiam formas de trabalho compulsório bastante diferenciadas, a maior parte, inclusive, apartada da esfera da produção. Na verdade, a escravidão em Roma também foi principalmente doméstica no início, o cativo participando, assim como outros dependentes sociais, de uma forma de família ampliada cujo centro era o Pater. A diferença e poder deste último bem como a falta de liberdade implicada nas relações familiares era tão grande que o Pai da família podia vender a mulher e os filhos como escravos.

[2] Existiram exceções, no entanto, entre monges, ascetas e em pelo menos um Santo Padre, São Gregório de Nyssa, encarado por alguns historiadores como um exemplo de discurso abolicionista em plena Antiguidade.

[3] Régine Pernoud, historiadora francesa especialista em Idade Média, que foi curadora do Museu de Reims, do museus de História de França, fundadora do Centro Jeanne D'Arc e curadora dos Arquivos Nacionais de seu país, além de premiada pela Academia francesa pelo conjunto de sua obra, e também especialista em estudos sobre a condição da mulher na Idade Média : ''Seria ainda necessário assinalar a influência exercida pela doutrina eclesiástica no regime de trabalho: o direito romano apenas conhecia, nos contratos de arrendamento ou de venda, a lei da oferta e da procura, enquanto o direito canônico e depois dele o direito consuetudinário submetem a vontade dos contratantes às exigências da moral e à consideração da dignidade humana. Isto devia ter uma profunda influência nos regulamentos dos mestres, que proibiam à mulher os trabalhos demasiado fatigantes para ela, a tapeçaria de tear alto, por exemplo; o resultado foram todas aquelas precauções de que se rodeavam os contratos de aprendizagem e o direito de visita concedito aos jurados, tendo por fim controlar as condições de trabalho de artesão e a aplicação dos estatutos. Sobretudo, é preciso apontar como muito revelador o facto de ter alargado ao sábado de tarde o repouso de domingo, no momento em que a atividade econômica se amplifica com o renascimento do grande comércio e o desenvolvimento da indústria. Uma revolução mais profunda tinha de ser introduzida pelas mesmas doutrinas no concernente à escravatura. Notemos que a Igreja não se ergueu contra a instituição propriamente dita de escravatura, necessidade econômica das civilizações antigas. Mas lutou para que o escravo, tratado até então como uma coisa, fosse daí em diante considerado como um homem e possuísse direitos próprios da dignidade humana: uma vez obtido este resultado, a escravatura encontrava-se praticamente abolida; a evolução foi facilitada pelos costumes germânicos que conheciam um modo de servidão muito suavizado; o conjunto deu lugar à servidão medieval, que respeitava os direitos do ser humano e apenas introduzia como restrição à sua lliberdade, a ligação à gleba. É curioso constatar que o facto paradoxal do reaparecimento da escravatura no século XVI, em plena civilização cristã, coincide com o retorno geral ao direito romano nos costumes. Numerosas concepções próprias das leis canônicas passam assim para o direito consuetudinário. O modo como a Idade Média encara a Justiça é, deste ponto de vista, muito revelador, porque a noção de igualdade espiritual dos seres humanos, estranha às leis antigas, aí se manifesta geralmente. É neste sentido que foram introduzidas, na continuaçaõ dos tempos, diversas reformas, por exemplo no que respeita à legislação dos bastardos, tratados mais favoravelmente pelo direito eclesiástico do que pelo direito civil, porque eles não são considerados responsáveis pela culpa à qual devem a vida. Em direito canônico, uma pena infligida tem como fim, não à vingança da injúria ou a reparação para com a sociedade, mas a emenda do culpado, este conceito, também ele inteiramente novo, não deixou de modificar o direito consuetudinário.'' Mudanças econômicas, políticas e sociais também permitiram a emergência da servidão e a proliferação em muitos lugares de colonos e camponeses livres.

[4] O que é diferente de dizer que esta dimensão social e jurídica estava ausente em princípio e prática das primeiras comunidades cristãs. 

[5] Uma ideia que se diferencia da visão tradicional de homem por se fundamentar em aspectos genéricos do indivíduo, ligados à razão instrumental e à esfera sentimental e passional. Os Santos Padres colocavam a unidade do homem no fato de ser um microtheos, feito à imagem de Deus. Já o mundo clássico, de índole fortemente aristocrática, diferenciava o herói e seus descendentes e similares do homem tido por ordinário.

terça-feira, 18 de março de 2014

Putin cruza o Rubicão

Demétrio Magnoli, doutor em geografia e especialista em política internacional, um dos intelectuais a quem respeito por seu conhecimento sobre a História recente e sobre as dinâmicas internas da política estadunidense, publicou na Folha de São Paulo deste sábado, dia 15 de março, um artigo em que analisa a crise ucraniana [1]. Partindo da constatação da inextrincável ligação histórica entre Moscou e Kiev e usando como linha de raciocínio a reação de Angela Merkel, chanceler alemã, para quem Vladimir Putin vive ''em um outro mundo'', o geógrafo confunde descrição dos fatos com uma mera tomada de posição de sua parte. 

Segundo Magnoli, Putin está fora da realidade, pois estaria propondo a continuidade do Império Russo e preso a uma perspectiva de História feita pelo alto, pela ação das elites politicas e dos governantes. É desse modo que ele visa explicar os acontecimentos em Kiev, que puseram fim ao governo de Viktor Yanukovich, uma grande rebelião popular, do ''povo'' e outras agências históricas, que fariam das tentativas de revertê-los algo como usar os dedos para conter a água que sai das rachaduras de uma represa prestes a desabar. Nesse sentido, continua o geógrafo, as alegação de que foi a intervenção do Ocidente o elemento determinante na crise ucraniana seriam pouco mais que uma teoria da conspiração, desenvolvida na Rússia após o fim da Guerra Fria e que não seria capaz de ler corretamente o ''mundo real'' [2]. O mundo real, fica claro no texto em seu último parágrafo, é aquele em que os países da Europa desaguam na União Europeia, a Rússia abandona sua identidade e papel imperial, assimila a democracia e instituições liberais, e se inclina de vez para a civilização ocidental, assim descobrindo seu papel no admirável mundo novo. O ''mundo de Putin'', uma nova tentativa de resgatar o antigo Império dos Czares, que teve uma continuidade com o bolchevismo, estaria se desfazendo a olhos vistos. Ainda que mantivesse a Crimeia, a Ucrânia estaria de vez nas mãos da Europa.

O artigo expressa não só a perspectiva de um intelectual próximo à esquerda democrata estadunidense, como também suas típicas expectativas após o fim da Guerra Fria. O desmoronamento da União Soviética abriu algumas possibilidades no futuro da Rússia, ou antes, tornou mais agudas possibilidades que já se colocavam, de maneiras diferentes, desde o início do século XVIII. A primeira delas, preconizada por Magnoli, é se aproximar de vez da Europa, associando-se à civilização ocidental como uma de suas partes constituintes. A ocidentalização russa teve início com o reinado de Pedro o Grande, que adotando modelos absolutistas e uma certa forma embrionária de ''despotismo esclarecido'', aproximou o Império das linhas gerais de desenvolvimento que ocorriam no Velho Mundo. Foi a partir deste período que a elite política do país adotou de forma mais contundente os costumes ocidentais, em um processo que, conforme já disseram alguns, os tornariam cada vez menos russos aos olhos da população do Império. Os partidários da ocidentalização vêem nos resquícios desse passado imperial o empecilho para o fim almejado. O país deveria abandonar este peso e se redefinir como Estado Nacional, o que nunca foi, e, quem sabe, vir a colaborar de modo mais próximo com a União Europeia, tomando o lado da civilização ocidental nos problemas a serem enfrentados neste século XXI [3]. 

Mas esse futuro não está ainda escrito nem determinado. Dentro do país também existem forças que advogam e agem em prol de outras possibilidades, também elas herdeiras do século XVIII. São aqueles que afirmam que a Rússia é uma civilização própria, irredutível ao Ocidente, embora tampouco possa ser tida como oriental. Herdeiros dos eslavófilos oitocentistas e dos intelectuais que, exilados por causa da revolução bolchevique, construíram um movimento denominado de eurasianismo nos anos 1920, elas vêem não só como reticência o avanço da OTAN pelo leste europeu como defendem abertamente a manutenção de seu espaço geopolítico, em continuidade com a noção de Grande Rússia que Magnoli gostaria que fosse abandonada. Vladimir Putin representa a vitória dessas forças na política interna [4]. Seus elogios à antiga União Soviética, cujo fim ele definiu como ''a maior catástrofe geopolítica do século XX", seu esforço para unir em torno da ideia russa as forças mais representativas da história do país -- incluindo aí os saudosos do passado comunista e os saudosos do passado czarista --, seu apoio ao aumento de influência da Igreja Ortodoxa na sociedade, os limites que impõe à atuação de ONGs e igrejas evangélicas no território, suas intervenções convictas na Geórgia durante a crise da Ossétia e da Abhkázia, e o seu projeto alfandegário de ''união eurasiana'', além do apoio a governos simpáticos à Rússia no entorno imediato do país, deixa evidente a escolha de linha de ação adotada pelo grupo que o presidente representa. Não é possível ler os conflitos internos da Rússia e sua contraposição às ações geopolíticas estadunidenses na Síria e agora na Ucrânia sem levar em conta esse cenário e essa decisão do grupo governante sobre qual deve ser o futuro do país.

Ontem à noite li a notícia de que Vladimir Putin assinou um decreto reconhecendo a Crimeia como um Estado soberano [5]. Ele mostrou assim seu total desassombro em relação às ameaças de sanções dos Estados Unidos e da União Europeia, bem como à propaganda negativa que a mídia ocidental realiza contra ele. O presidente está dizendo que a Crimeia será anexada, independente do que pensam estas potências. Enquanto isso, novas mobilizações populares fazem grandes manifestações em outras regiões do leste e sul da Ucrânia, exigindo o direito de realizar referendos semelhantes e assim também optar pela secessão, e, quem sabe, pela adesão à Federação Russa [6]. Magnoli diz que esses movimentos são ''minoritários'', embora o referendo da Crimeia tenha sido vencido pelas forças pró-russas com mais de noventa e seis por cento de votos. Ele diz também que a ação na Crimeia representa nada mais do que o fim do ''mundo de Putin'', o mundo em que uma Rússia como poder geopolítico diferenciado do ocidental era possível. Mas eu vejo diferente: a ação de Putin reafirma a identidade imperial não apenas no interior do país mas também nas populações russas que vivem hoje fora de seu território. Fortalece definitivamente o projeto eurasiano, do qual o presidente agora não pode mais se afastar já que associado irreversivelmente ao seu governo. E coloca os Estados Unidos e União Europeia em um beco sem saída: suas ameaças econômicas não tiram o sono do velho urso. Só lhes resta a intervenção militar, quem sabe usando como instrumento o governo títere que construíram em Kiev, ou então a humilhação da completa desmoralização em âmbito internacional. 

Diferente do que diz Magnoli, não é a primeira vez que Kiev estaria sob domínio ocidental, se voltando para a Europa. Ela já viveu assim durante o domínio católico-romano da Polônia e Lituânia, e também no apoio dado aos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. A novidade é a nova expansão do Império Russo e a incapacidade ocidental de pará-la, a inutilidade de seus esforços para que seus pedidos sejam, até mesmo,  levados a sério -- o artigo do geógrafo brasileiro reclama que o governo russo está ''explodindo as pontes de diálogo''. A verdade é que, quando Vladimir Putin assinou na noite de ontem seu decreto reconhecendo os resultados do referendo da Crimeia, ele atravessou o Rubicão. Não há mais volta possível. Seja qual for a ação adotada pelos Estados Unidos a partir de agora, a decisão soberana da Rússia representa o alvorecer de uma nova ordem internacional, ainda que a ferro e fogo [7]. As expectativas e desejos da esquerda democrata, fundas na mentalidade e nas esperanças de Demétrio Magnoli, não permitiram que ele percebesse o momento. Ele preferiu fechar os olhos para as possibilidades do mundo real.


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[1] O mundo de Putin

[2] Magnoli não poderia estar desinformado sobre as extensas provas de intervenção ocidental nos acontecimentos em Kiev. Leiam algumas delas aqui: 40 anos jogados fora . A participação ocidental, inclusive com ajuda a partidos neonazistas ucranianos, partidários de uma russofobia desmedida, também podem ser vistos em Violência patrocinada pelos Estados Unidos e Os neonazistas e o governo de Kiev .

[3] Por outro lado, ainda que a ocidentalização da Rússia ocorra plenamente, dificilmente ela seria admitida na União Europeia. Mesmo que seu território fosse diminuído pela nova conformação do país como um Estado Nacional, seu gigantismo impediria sua adesão ao bloco continental, cuja viabilidade é mantida por um equilíbrio muito delicado entre Alemanha e França.

[4] O movimento eurasiano tem em Aleksandr Dugin, filósofo e geopolítico, um de seus maiores representantes na Rússia. Ele se tornou, nos últimos anos, um dos conselheiros de Vladimir Putin, e suas análises tem praticamente antecipado as ações do presidente russo diante da crise ucraniana. Sobre o eurasianismo: A ideia eurasiana



[7] É bom ficar atento para o veredicto chinês em relação ao referendo da Crimeia. Muitos ocidentais apostam que a China teme abrir precedente secessionistas que poderiam vir a afetá-la no futuro. No entanto, o caso de reanexação da Crimeia pela Rússia também favorece o projeto geopolítico chinês, igualmente ''imperial'', de recuperar todos os territórios que perdeu com as intervenções ocidentais que ocorreram no país a partir do século XIX.

sexta-feira, 14 de março de 2014

As Grandes Rivalidade de Roger Federer -- Marat Safin




Marat Safin se tornou número um do mundo com apenas vinte anos, o jogador mais jovem a conseguir o feito até então [recorde depois batido pelo australiano Lleyton Hewitt]. Naquele ano de 2000 ele se tornou também o primeiro russo a conquistar o US Open, e de maneira espetacular, em sets diretos em uma vitória em cima de um dos maiores nomes do esporte, o estadunidense Pete Sampras, que acabava de ganhar seu décimo terceiro major em Wimbledon, tornando-se o maior colecionador de Grand Slams ao ultrapassar a legendária marca de doze torneios do australiano Roy Emerson, construída ainda nos anos 1960. Não custa nada lembrar que a quadra de New York era rápida e que Sampras era o rei do saque e voleio. Foi então que o ídolo americano afirmou que Safin ''seria número um por quanto tempo ele quisesse''. 

Mas ''querer'' não era palavra do dicionário de Safin. O alto, habilidoso e forte jogador nunca conseguiu se concentrar muito tempo no circuito ou sacrificar a juventude em busca do condicionamento atlético necessário aos grandes campeões. Houve época em que se dizia que ele treinava apenas uma vez por semana, e muitos diziam vê-lo perambulando bêbedo pelo circuito nas noites anteriores a jogos importantes. O resultado foi uma carreira inconstante, mas, ainda assim, repleta de grandes momentos. Alguns deles vividos contra Roger Federer. 

Os dois gigantes fizeram algumas partidas decisivas no Australian Open [de 2004 e 2005] e na Masters Cup [2004], além de outros belos jogos. O head to head é francamente favorável ao suíço, com dez vitórias em doze confrontos. Mas pelo menos uma vitória de Marat foi tremendamente significativa, a da semifinal do Australian Open de 2005, uma partida de altíssimo nível técnico na qual bateu Federer em cinco sets para seguir até a final e levantar o segundo major de sua carreira. 

No entanto, a batalha mais importante foi a do ano anterior. Safin possuía já um major e assim também Federer. Frente a frente, disputaram ponto a ponto o título em Sidney, jogo que terminou com incontestável vitória do suíço por três sets a zero. O ''Leão da Montanha'' começava ali a ascensão que o levaria ao topo do ranking da ATP menos de dois meses depois, posto que ocuparia por mais de quatro anos ininterruptos. 

Após uma partida festiva contra Pete Sampras em 2011, perguntaram ao russo na coletiva quais haviam sido os melhores tenistas do planeta. Ele não titubeou, ''Borg, Sampras e Nadal''. O jornalista estranhou e perguntou, ''e Federer?'' Marat Safin sorriu e continuou, ''Achava que sua pergunta era sobre tenistas do planeta Terra.''

quinta-feira, 13 de março de 2014

A conspiração mundial da KGB contra Olavo de Carvalho; ou: atirem meu 'masbaha' em um rio da Virgínia

Olavo dá mostras de desconhecimento da teoria geopolítica de Aleksandr Dugin, aquela que, em recente artigo publicado no Diário do Comércio, dá a entender que conhece ''há quinze anos''. Ao corrigi-lo, Tony Pedroza foi temporariamente bloqueado da página do filósofo. 



Mês passado explodiu uma querela entre filósofo Olavo de Carvalho e os donos do blog Prometheo Liberto [1]. A pendenga se arrastou por diversos textos e semanas, abordando tópicos da vida intelectual, política e religiosa do escritor brasileiro. Acompanhei a maior parte da briga de longe, meio que desinteressado, embora atinasse para a repercussão crescente do causo, que chegou ao auge quando os autores da página jogaram no ventilador não só a participação do Olavo na tariqa de Schuon, fato propagandeado por ele mesmo, como também forneceram evidências de sua reversão ao Islã durante o período [2]. 

 De minha parte, penso que o sujeito tem o direito de adentrar ou largar o Islã quando quiser, não há nada que o desabone ou ao seu pensamento só por causa disso. Mas Olavo não parece pensar assim; mostrando-se bastante incomodado com as revelações que vinham à tona, procurou negá-las a todo custo, incluindo na empreitada uma boa dose de cara de pau e distorção consciente de parágrafos de René Guénon e da língua inglesa [3].  Não deve ser fácil pra alguém que alimenta durante anos boa parte de seu séquito de seguidores com uma islamofobia filo-americana e neoconservadora ter de explicar que já se chamou Sidi Muhammad, uma dificuldade que só aumenta na medida em que o 'detalhe biográfico' é voluntariamente mantido em segredo anos a fio. Nesse ínterim, a página do Olavo no facebook aparentemente foi atacada por hackers por duas vezes, sendo temporariamente suspensa da rede [4].

A estratégia do Olavo para sair dessa bananosa não foi original: com ajuda de alunos, denunciou uma conspiração que teria por objetivo destruir sua reputação. A conspiração, segundo sua versão, teria partido de uma reação tardia de Aleksandr Dugin, líder do eurasianismo russo, e/ou de seus seguidores a uma suposta derrota em um debate ocorrido há dois anos com o filósofo brasileiro [5], que contribuiu muito para um maior conhecimento do trabalho e pensamento deste último entre conservadores estadunidenses e brasileiros. Dugin, com apoio do Estado Russo e da antiga KGB, almejaria adentrar o campo intelectual do Brasil; seu maior obstáculo, diante de uma classe média e acadêmica carente, seria o vigor do pensamento do filósofo, que deveria então ser eliminado do debate público [6]. A explicação do que vinha ocorrendo é tão neurótica que custa a crer que alguém poderia levá-la a sério por mais de meio segundo. Mas a seita olavética sempre surpreende em sua capacidade de se alienar.

Olavo escreveu um artigo em que descrevia uma história do desenvolvimento do eurasianismo no Brasil [7], com pitadas cômicas, como a afirmação de que as universidades brasileiras estariam bombando de ''duginistas'' [8]. A malícia se tornava ainda mais doentia quando, ao citar o debate ocorrido entre ambos, e publicado em livro, o brasileiro se referiu aos organizadores do dito cujo, Giuliano Morais e Ricardo Almeida, como ''duginistas em dúvidas''. Nenhum dos dois, evidentemente, participa ou participou de qualquer movimento ligado ao eurasianismo, ao nacional bolchevismo ou à 'Quarta Teoria Política'; pelo contrário, Ricardo Almeida é um aluno do Olavo e debatedor frequente nos círculos do filósofo brasileiro há anos. Giuliano Morais, por sua vez, já teceu críticas incisivas às ideias expostas por Dugin. Não foi a primeira vez que os dois sofreram acusações sem sentido e motivadas pela paranoia e vitimismo olavético. À época do debate eles também tiveram de enfrentar uma série de insinuações que, ao se mostrarem infundadas, tiveram por consequência um pedido público de desculpas do Olavo aos atingidos [9].

Paralelo a isso, um devoto da seita olavética, em uma caricatura estúpida de ''caça às bruxas'' que diz muito sobre boa parte do grupo que circunda o guru da Virgínia, criou uma lista com supostos partícipes da ''conspiração'' do Dugin. Alimentados pela paranoia do Olavo, as pessoas listadas passaram a ser chamadas de agentes da KGB, instrumentos conscientes ou inconscientes da futura hegemonia eurasiana na América do Sul. Um dos citados, o professor Dídimo Matos, pediu explicações do que estava acontecendo na própria página do Olavo de Carvalho. Bastou que lembrasse ao dito cujo o episódio de sua reversão ao Islã para que fosse bloqueado sem apelação.

Olavo vem temperando toda essa bazófia com reiteradas críticas à Igreja Ortodoxa, que, em postagem recente ele chamou de ''Igreja estatal russa'' [10]. Ainda nessa semana, tentou comparar as previsões do filósofo Soloviev -- que, deixemos claro, se converteu ao catolicismo-romano -- de que a Rússia passaria por um ''renascimento espiritual'' e cristianizaria o mundo, com as 'profecias de Fátima', que são interpretadas por ele de modo a significar que a Rússia espalharia o mal pelo Ocidente -- o que, claro, tornaria o eurasianismo e seus partidários em agentes não só da antiga KGB mas também do capeta [11].  Não é difícil imaginar o angélico papel que caberia ao Olavo nessa versão.


O episódio com Dídimo Matos mostra que todas estas atitudes maliciosas visam tão somente apelar as neuroses do conservadorismo direitista promovido pelo Olavo para jogar fumaça nos dados trazidos à tona no blog Prometheo Liberto, que desnudavam para qualquer pessoa razoável algumas das lealdades religiosas que o filósofo brasileiro possuiu em parte de sua vida. Olavo de Carvalho sabe muito bem que está mentindo sobre os fatos [12], pessoas, as obras e pensamento de Guénon e também sobre a Ortodoxia [13]. Muitos dos seguidores fanatizados que o cercam em veneração imbecilizada uivam em êxtase diante da erística do mestre, mas aqueles que possuem mais de dois neurônios são capazes de perceber facilmente o que está ocorrendo. Para estes, o Olavo expõe de modo cada vez mais nítido o seu modus operandi e destrói os últimos vestígios de respeitabilidade que ainda lhe restavam.

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[1] As postagens sobre o tema podem ser encontradas nas publicações de fevereiro e março: Prometheo Liberto

[2] Um exemplo: Agente Provocador Apanhado

[3] Só aí dei algum posicionamento público sobre os episódios, que até então não despertavam a minha atenção. Olavo fala sobre os significados possíveis do termo conversão neste capítulo: http://symbolos.com/098conversiones.htm . Em nenhum lugar o metafísico francês afirma que ''conversões'' são impossíveis, argumento usado pelo Olavo como forma de escapar às evidências elencadas por seus adversários. Guénon explica que a palavra pode ser usada para se referir a movimentos distintos: a) com um conteúdo realizativo, quando um sujeito 'converte seu coração a Deus', ou seja, reúne suas faculdades psíquicas até então fragmentadas e dispersas e integra-as com a faculdade noética, direcionando-a para as esferas superiores do ser, em um real retorno ao coração ou centro da pessoa humana; b) adoção por um indivíduo qualquer de uma outra tradição religiosa motivada por questões exotéricas, vinculadas ao proselitismo religioso e outras razões de ordem distintas da espiritualidade; c) adoção de uma outra tradição por um indivíduo que, por características próprias, ou por causa da mutilação da religião à qual pertencia, vê-se impedido de prosseguir em sua via iniciática e esotérica. Olavo afirmava que este último não seria propriamente uma conversão, mas isso não passa de jogo de palavras. Trata-se, evidentemente, da adoção integral de uma outra via espiritual, inclusive em seus aspectos religiosos, que serviriam de base para a realização. Por outro lado, quando foi divulgada uma correspondência entre Carvalho e Martin Lings, em que este último, figura importante na tariqa de Schuon, recomenda ao primeiro ''enter Islam'', Olavo buscou inocuamente discutir com o sentido óbvio da sugestão, depois da qual ele adotou um novo nome.

[4] Os autores do blog Prometheo Liberto acusaram o pensador brasileiro de apagar a própria página a fim de esconder as acusações que lhe eram feitas nela. Olavo de Carvalho caçoou da acusação, dizendo que para isso não era necessário apagar a página mas apenas os posts de seus adversários diretos. Fazia sentido. Mas a estratégia de construir uma ampla teoria da conspiração que envolveria não apenas debatedores de Facebook, mas intelectuais de porte internacional e até mesmo agências de inteligência de potências mundiais para explicar uma coisa irrelevante dessas dá o que pensar. Pelo menos fornece o motivo que faltava nas acusações de Carlos Velasco e torna mais crível uma suposta ação do filósofo brasileiro de derrubar a própria página. 

[5] Temos uma situação realmente inusitada. Olavo descreve Dugin como partícipe de um poder de escala global. E, ao mesmo tempo, em plena crise ucraniana, o geopolítico russo e conselheiro de Vladimir Putin, que no discurso olavético possuiria toda a KGB atrás de si e de suas teorias, ainda encontraria tempo para remoer supostos ressentimentos e arquitetar uma operação visando, ó perfídia, derrubar no Facebook o perfil de um obscuro intelectual brasileiro cuja repercussão no mundo político é irrisória no próprio país.

[6] Olavo supervaloriza seu papel na elite intelectual e acadêmica brasileira, desnecessário dizer; mas o ponto interessante é o caráter paradoxal desta valorização com sua afirmação de que esta mesma elite está dominada por intelectuais orgânicas gramscianos. Se Dugin e os eurasianistas quisessem disputar espaço nas universidades, não teriam de se acotovelar, por certo, com os discípulos do Olavo.

[7] http://www.dcomercio.com.br/2014/03/11/o-duguinismo-no-brasil

[8] Recentemente, um grupo de estudantes brasileiros se cotizou para permitir a vinda de Dugin ao Brasil a fim de que ele realizasse palestras em três ou quatro universidades. O dinheiro partiu do próprio bolso de uma ou duas dezenas de interessados, parte deles sem vínculos com as universidades e sem maiores ligações com o pensamento eurasiano ou a 'Quarta Teoria Política' para além da pura investigação intelectual que este tema e outros do mundo contemporâneo e das ciências humanas e filosofia lhes proporcionam. Alguns deles, inclusive, expressaram publicamente críticas às exposições que Dugin realizou no país, causo de Rodolfo Souza, que explicou que o geopolítico russo possuía limites em sua compreensão de Heidegger. Tudo muito distante do cenário pintado de ''centenas de militantes duginianos'' nas Universidades brasileiras.

[9] Giuliano Morais divulgou um esclarecimento sobre o causo. Retoricamente, Olavo fingiu pedir desculpas para logo depois taxá-lo de instrumento inconsciente nas mãos da KGB. Segue o esclarecimento de Giuliano Morais publicado em sua página do Facebook e que traz críticas ao conteúdo do artigo publicado pelo Olavo do 'Diário do Comércio'. Evidentemente, estas críticas foram ignoradas pelo pensador brasileiro, dando mostras do que realmente o motiva nesta questão: ''Como minha pessoa está envolvida no último artigo do Olavo, e tendo eu sido caracterizado como "Duguinista em crise de dúvida" eu me vejo na obrigação de responder, pois é uma imagem incorreta da minha pessoa. Compartilhem por gentileza: O Olavo está claramente forjando a criação de uma "História do Duguinismo" onde tudo se encaixa intencionalmente dentro de um esquema coerente. No entanto, a "História do Duguinismo" do Brasil, pelo menos até a ocasião do debate, era algo meramente acidental e coincidente. Esse foi o contexto do debate. O instrumental da coisa foi a mera existência e convivência dos dois debatedores no mesmo espaço virtual e a disseminação livre de informação na rede. A oportunidade apareceu e a conexão foi feita. Pode ser que após o debate, e após a vinda do Dugin ao Brasil, a história tenha tomado outros rumos e as conexões tenham se estabelecido estruturalmente. No entanto, eu sei quem trouxe o Dugin ao Brasil ( Dídimo Matos ), sei o contexto, e sei dos mirrados grupos (pelo menos ainda) sem relevância política que o "seguem" e é notório que, além do fato de que mantenho relações cordiais com algumas pessoas envolvidas, não tenho relações ideológicas com nada disso. Ademais, EU PROMOVI o debate por minha iniciativa, não fui contactado por ninguém, não houve nenhum esquema, não houve intenção oculta, nunca recebi um centavo pelo debate (a não ser uma singular cópia do livro do debate e um exemplar do livro "A Filosofia e Seu Inverso" enviado, seis meses depois, com votos de gentileza e agradecimento por parte do Olavo). Nem eu nem o Ricardo estivemos sequer presentes nos tais eventos posteriores promovidos por ocasião dos Encontros Evolianos (esses sim, um marco fundamental e não citado da cronologia objetiva do "fenômeno" e que nenhuma relação teve com o debate). Não há estatísticas seguras (aliás, não há nenhuma) sobre o crescimento relevante do duguinismo do Brasil que indique que haja centenas de seguidores comprometidos (no máximo há gente estudiosa e alguns idealistas jovens), de forma que esse artigo do Olavo é feito tendo como base impressões, medos, chutes e suspeitas tiradas da internet. É um artigo com pretensões a apresentar objetivamente um tema, ou analisar uma cronologia de um fenômeno, sem no entanto ter nenhum rigor ou dado relevante. O Olavo SABE que não sou duguinista e nem o Ricardo é. Essas questões foram todas debatidas por e-mail. Inclusive ele pediu desculpas publicamente por ter declarado também publicamente que eu e o Ricardo Almeida tinhamos conspirado contra ele (Na ocasião inclusive errou por outro lado, dizendo que tanto eu e o Ricardo éramos, ao invés de duguinistas, "alunos" dele, o que não é fato tampouco, ao menos no meu caso). O único dado factual substancial do artigo, no sentido da constituição de um cronologia da presença do Dugin no Brasil, seria o debate em si, e esse dado não é retratado corretamente, mas de forma distorcida convenientemente. Um indivíduo se diz um pensador que é dócil aos fatos, que é um "contemplador amoroso" da objetividade e faz tudo o contrário. Pega os fatos e impõe sua coerência à força para que eles façam sentido.''

[10] A Igreja Ortodoxa nada tem a ver com a política e ideologia eurasiana, que, inclusive, sofre muitas críticas de parte do clero russo. Tampouco as ideias de ''renascimento espiritual'' russo se ligam, na Ortodoxia, à figura de Soloviev, mas a profecias de Starets e santos, muitas das quais se cumpriram [como a queda do Czarismo, a apostasia de boa parte dos hierarcas e o terror soviético]. Esse renascimento, por sua vez, não deve ser encarado da mesma forma que os estadunidenses vêem seus ''reavivamentos religiosos'', nem ligados à ideia de que há, na Rússia, um ''destino manifesto'' de civilizar os demais povos do mundo. A Ortodoxia, não custa lembrar, não é o puritanismo calvinista que está na base dos Estados Unidos da América, que leva a alguns intelectuais e políticos por ele influenciado a verem na Rússia uma competidora pelo título de ''nação mais abençoada do mundo''. Muitos esclarecimentos pertinentes sobre este tema foram realizados no Facebook por Rafael Daher, que argumenta contra aqueles que confundem a Igreja como ideologias e movimentos político partidários de viés nacionalista: ''1. Primeiro foi dito que o Czar seria substituído por um poder maligno, chamado de "chicote" por São João de Kronstadt. Isso se daria como um castigo ao povo russo, pelo seu abandono ao legado ortodoxo. 2. Depois chegaria a hora da tirania. São João de Kronstadt e outros falaram em milhares de mortos, destruição das igrejas, perseguição aos monges, infiltração de hereges nos mais altos cargos da Igreja. Conforme profetizou Santo Ambrósio de Optina: "Então, meu filho, quando você ver nas igrejas o deboche dos atos Divinos, dos ensinamentos dos Santos, e da ordem estabelecida por Deus, saiba que os hereges já estarão presentes. Também fiquem atentos por um tempo, pois eles esconderão suas más intenções, ou poderão deformar a fé divina secretamente, para que tenham sucesso em ludibriar e enganar os inexperientes. Eles irão perseguir os pastores e os servos de Deus, pois o demônio que estará dirigindo a heresia não terá força para destruir a ordem Divina. Como lobos em pele de cordeiro, serão reconhecidos por suas vanglórias, amor pela cobiça e poder. Todos eles serão traidores, causarão ódio e malícia em todos os lugares, o Senhor disse que eles podem ser facilmente reconhecidos pelos seus frutos. Os verdadeiros servos do Senhor são mansos, amam o irmão e obedecem a Igreja (ordem, tradições). Nesta época, monges sofrerão grande perseguições dos hereges, e a vida monástica será ridicularizada. As famílias monásticas serão empobrecidas, e o número de monges cairá. Os que permanecer sofrerão violência. Estes inimigos da vida monástica, que terão apenas a aparência de piedade, lutarão para levar os monges para o seu lado, prometendo-os proteção e coisas mundanas (conforto), mas ameaçarão com o exílio aqueles que não se submeter a eles. Com essas ameaças, os fracos de coração serão humilhados (atormentados). [...] Mas nestes dias, infeliz do monge que tiver posses e riquezas, e daquele que, pela salvação de seu conforto, concordar se submeter aos hereges. Acalmarão suas consciências dizendo: salvamos o Mosteiro, e o Senhor nos perdoará. Desafortunados e cegos, eles nem mesmo pensarão que por suas heresias os hereges entrarão no Mosteiro, e que ele não será mais um santo Mosteiro, mas de suas paredes a graça de Deus partirá para sempre." 3. Depois disso, ocorreria a restauração da Santa Rússia. Quando o povo se tornar digno novamente de um novo Czar, através da renovação espiritual da Rússia, os "cacos do navio" serão novamente reunidos, a Rússia voltará ao seu caminho. Mas este período será muito breve. A volta do Czar e o renascimento espiritual da Rússia marcarão o início da batalha contra o anticristo, que já estará na terra e conseguirá. novamente, destruir o governo czarista e derrubar não só a Igreja Russa como boa parte da Igreja no mundo. Os pais da Igreja interpretam "as estrelas caindo dos céus" como o fim do episcopado válido no mundo, quando o Cristianismo resistirá apenas mais uma geração de leigos e padres, chegando assim ao juízo final. Portanto: Enquanto a 1 e a 2 já ocorreram, a 3 ainda está no "aguardo" de sua confirmação. Ninguém, nem o mais piedoso do ortodoxo russo, é obrigado a acreditar no cumprimento total das profecias. Entretanto, como muita coisa dita já se confirmou, é prudente analisar essa questão e analisar que há grande chance disso ocorrer. Mas não confundam essa restauração da Rússia com questões geopolíticas e planos políticos do atual governo russo. O cenário atual não corresponde nem à Rússia profetizada, como também não é uma negação de que a profecia é impossível de ser realizada.'' E também: ''É muito injusto ver condenações à Igreja Ortodoxa Russa por sua relação tanto com o Governo Provisório como com a URSS. Se alguns bispos se venderam tanto à URSS como à Igreja Católica Romana (caso do Bispo Nikodim, que virou católico em segredo, nos braços de um papa), a Rússia foi também terra de muitos mártires e confessores contra o regime comunista. Santo André de Ufa, Santo Agatângelo de Yaroslav, São Serafim Chichagov, Metropolita Vladimir de Kiev e tantos outro hierarcas, monges, leigos e padres testemunharam contra o comunismo e o poder soviético. A Rússia nunca foi apenas o poder do Czar, a URSS ou Vladimir Putin. A Rússia é muito mais complexa do que isso e muito mais ampla. Imaginar a Rússia como uma terra prometida ou uma terra danada não é justo, é preciso antes de qualquer ideologia apoiar aquilo que é bom e condenar o que é errado. E se querem saber de uma coisa, em 1969 o Patriarcado de Moscou chegou a permitir a comunhão de católicos romanos em suas igrejas, num acordo secreto afirmado com o Vaticano. [...] Então, antes de qualquer acusação contra a Rússia como um todo, é necessário lembrar que o próprio Ocidente também financiou o poder soviético, com o Kaiser da Alemanha, com a aproximação católica após a tomada de poder pelos bolcheviques. Lembrem-se que, quando há poder em jogo, as profecias, a fé e as posições espirituais são relegadas, pois todo homem, ortodoxo, católico ou ateu, são fracos diante das tentações. Aquele que deseja analisar a questão segundo um ponto de vista espiritual, deve levar em conta as posições e exemplos dos homens espirituais. Quem leva em conta apenas o jogo de poder e joga o resto pela janela faz justamente o jogo daqueles que tentam destruir todo legado espiritual do mundo. E assim é desde quando o Cristianismo deixou as catacumbas e passou a construir a civilização cristã. Peguem o exemplo dos combates contra as heresias nascidos no Oriente e no Ocidente, como o arianismo, nestorianismo, iconoclasmo, césaro-papismo e etc: veremos sempre o poder atentando contra os mártires e confessores, mas pela história também vemos qual lado saiu vencedor. E quando digo vencedor não é na questão do Império e da civilização, mas da confissão da fé correta, esta sim que permanece acima da existência de qualquer Império, nação ou sé.''


[11] As aparições de Fátima são contestadas no próprio ambiente católico-romano. Desnecessário dizer que não fazem parte da fé ortodoxa. Há também vários detalhes escabrosos ligados a essas aparições e que retiram muito da credibilidade das dita cujas, ainda que de uma perspectiva católica-romana. Leiam os dados e documentos citados em: As Aparições de Betty Boop I e As Aparições de Betty Boop II .


[12] Seria necessário uma outra postagem para falar dos erros que o Olavo comete no seu retrato do eurasianismo e de seu impacto no Brasil, tal como constam do artigo publicado no jornal virtual. Fica aqui no entanto um episódio que mostra que o filósofo brasileiro não conhece tanto as teorias de Dugin como dá a entender para seus seguidores. Tony Pedroza teve de corrigir uma má avaliação e simplificação feita pelo brasileiro em cima de certos aspectos da geopolítica do russo, recebendo como resposta um bloqueio temporário. A imagem dando conta do ocorrido consta do corpo desta postagem.

[13] Aquela que é chamada hoje de ''Igreja estatal russa'' era vista, pelo Olavo, como um exemplo de resistência cristã ao comunismo, ainda maior do que o do próprio catolicismo-romano, tal como ele afirma na aula 10 de sua ''História Essencial da Filosofia'': ''[...]Esta maior flexibilidade [doutrinária] e o relativo isolamento com que a Igreja permaneceu do poder estatal permitiram que, muito mais tarde, a Igreja Oriental sobrevivesse melhor ao impacto do mundo moderno do que a Igreja Ocidental. Viajando pelo que sobrou do mundo comunista, você vê que aquele pessoal é muito mais religioso do que qualquer católico. Mas muito mais! Na Romênia eu estava, certa vez, jantando com quatro jornalistas, e era sexta feira. Eu nem lembrei que era sexta feira, pedi um bife. Elas disseram, 'não, nós não comemos carne às sextas feiras'. Vocês já viram jornalista preocupado com isso no Brasil? [risos] É impensável! Jornalista preocupado em não comer carne às sextas feiras não existe, são as pessoas mais indiferentes à religião que existem! Das quatro meninas, nenhuma comeu carne.'' Ouçam a partir de 1h e 13 minutos: em: Aula sobre Santo Agostinho

segunda-feira, 10 de março de 2014

O Justiçamento do Aterro ainda sem solução; ou: o elitismo necessário

Durante algum tempo, evitei fazer qualquer comentário sobre o ladrão adolescente que foi pego no Flamengo, levou uma surra e foi preso a um poste com uma tranca de bicicleta. Mas a questão gerou tamanha polêmica nas redes sociais, repercussões fora dela e continua tão quente e ideologizada que tomei a decisão de escrever algumas linhas. O que me espanta é a utilização do episódio específico para as mais disparatadas acusações partidárias. Estas acusações são, sem mais nem menos, provocadas por: a) uma idealização do pobre; b) um ódio preconceituoso contra a classe média. 

Aqueles que querem entender o ocorrido para além da mera retórica política, basta que se dirijam ao youtube e façam uma busca com os termos ''ladrão apanha'': serão inundados por um mar de vídeos nos quais algum assaltante contumaz, pego em flagrante, é surrado por populares. Vão encontrar vídeos de pretos, mulatos, caboclos, indígenas, brancos, cafuzos apanhando, em todas as regiões do país. De forma muito comum, as vítimas são amarradas a cercas, muros e postes. Alguns recebem apenas alguns tapas e humilhação pública antes de serem deixados para a polícia, outros são linchados de modo brutal. Os agressores pertencem, geralmente, às classes populares e baixa-classe média. 

[Certa feita, enquanto eu transitava pela cidade em um ônibus, dois rapazes conversavam próximo a mim. Falavam alto, de modo que não era possível deixar de escutá-los. Um deles contava como reconheceu um sujeito que o havia assaltado quando saltava do ônibus bem no bairro em que morava. Imediatamente chamou uns conhecidos, continuava ele, amarrou o meliante num poste e o humilhou, bateu e o fez devolver o dinheiro.]

O que há de comum em todos estes episódios? Primeiro, um sistema de valores popular que despreza alguns tipos de crime, dentre eles o de estupro e o de roubo. Neste último causo, o popular sente imenso desprezo e ira pelo ladrão que rouba de pobres e remediados, mais ainda se o faz perto de algum bairro residencial. [a mentalidade popular perdoa o assaltante de bancos, mas dificilmente aquele que se volta contra quem tem de suar debaixo do sol para garantir sua sobrevivência. Na minha memória distante, lembro de uma entrevista com um lavrador muito simples do interior do Brasil, em um programa cujo nome não me recordo, no qual, em determinado momento, respondendo a uma questão qualquer sobre seu filho, ele diz que ele ''podia fazer tudo, menos roubar [sic]''.] Segundo, expressões de ''justiçamentos populares'' associado a um mecanismo de busca por bodes expiatórios, em que, por diversos motivos, determinado grupo explode e faz do criminoso um bode expiatório para todas as suas mágoas, vingando-se nele com raiva incontida, agressividade assustadora e violência explosiva 
[1]. Isso é um dado sociológico e de psicologia de massas, e, como tal, é muito comum no país, tanto em áreas rurais quanto urbanas. Em geral, estes fatos não causam comoção maior na mídia e entre o beatiful people. [2]

A reação diante do acontecimento dessa semana no Rio de Janeiro foi bem diferente. O fato tem, realmente, algumas características interessantes que explicam essa reação, embora não sejam, até onde entendo, aquelas que estão sendo costumeiramente denunciadas por aí. Foi um justiçamento que ocorreu no Aterro do Flamengo, zona nobre da Cidade Maravilhosa, vitrine da 'civilização brasileira' -- que se encontra pertinho de eventos que atraíram ainda mais os olhos do mundo para o país e para sua 'capital cultural' -- e praticado, provavelmente, por indivíduos de classe média. Isso foi o suficiente para qualificar o ato de ''bárbaro'', de uma expressão de ''ódio de classe'' e até mesmo de racismo, com chamadas em horário nobre e intimidação a jornalistas que o descreveram tal como é: um dos sintomas óbvios da ineficiência do Estado no cumprimento de uma de suas funções básicas, a saber, garantir a segurança pública. [3]

O que o episódio torna patente são as visões distorcidas e aplicações mal feitas do princípio da Justiça à organização social. Por um lado, há uma velha idealização do pobre, do miserável, que seria, enquanto indivíduo, portador de alguma virtude por causa de sua situação de desvantagem econômica e social. O crime cometido por eles seria a expressão de uma forma de justiça social, uma vingança contra o sistema, legitimada por suas necessidades materiais e pela marginalização que sofrem. O pobre que rouba é quase um rebelde que traz 'igualdade', que equilibra um sistema desarmônico. Ainda que muitos não expressem diretamente estas crenças com todas as letras [alguns assim fazem], no fundo ela está presente, incrustada na alma, arraigada na consciência de boa parte da esquerda. [4] É óbvio que a injustiça social, a desigualdade, a marginalização etc. é aviltante, e que, além disso, é elemento importante na explicação do crime. Claro também que a extrema necessidade torna não só supérflua como até ridícula a aplicação de alguma sanção a uma crime de pouca monta [pense em um esfomeado que afana uma laranja num supermercado]. Mas isso está muito longe de tornar a atividade do roubo em uma ação moralmente correta ou legalmente tolerável. Podemos elencar Padres e mais Padres da Igreja que falavam contra a desigualdade social, a tirania dos ricos, o egoísmo daqueles que tem posses, sempre se colocando a favor da caridade, da partilha das riquezas e da assistência ao pobre. Mas nunca encontraremos nenhum deles dizendo que ser ladrão é uma alternativa cristã para os miseráveis. E olha que era ainda mais difícil ser miserável nos séculos passados do que no Rio de Janeiro do século XXI.

Por outro lado, mas também expressando esse sentimento desvirtuado de Justiça, está a noção, também não claramente exposta mas igualmente entranhada na psique de alguns, de que a classe média tem de engolir calada os crimes cometidos contra ela por este 'pobre-justiceiro-equilibrador-do-sistema'. Afinal, ela está do lado dos algozes nesta história. Pode até se aceitar, pensam, que um grupo de pobres reaja e faça justiçamento contra outros pobres. Mas a classe média, ora bolas? No entanto, a classe média é um grupo de cidadãos, em sua maior parte igualmente honesta e trabalhadora, que tem também direito a segurança, de sair e retornar à sua casa sem que seus bens sejam tomados, ou sem que passem por constrangimentos, violência, humilhações e intimidações. E que, obviamente, explode em ira e vingança quando é aviltada, tal como qualquer pobre do mais necessitado subúrbio ou favela. 

As classes populares entendem e praticam mal a Justiça quando de seus justiçamentos. A classe média também. Os movimentos político-partidários que buscam ideologizar tais explosões de ira e tal procura por bodes expiatórios idem. A verdade é que a Justiça não é popular, não importa o que algumas ideologias digam. O povo costuma ser bárbaro, a massa certamente o é. E a barbárie se faz acompanhar, no campo social, da violência e do desmesuramento. Toda sociedade tem de possuir uma elite preparada para a aplicação da justiça. A ordem civilizada pode prescindir de uma série de coisas, mas nunca de juízes qualificados e de um Estado capaz de impor uma ordem. E uma ordem que seja válida para miseráveis, remediados e ricos. Sem isso, não adianta falar de 'justiça social', 'direitos humanos', 'distribuição de riqueza' etc. Nada mais serão senão expressões para o caos. [5] Se há uma ideia que é afetada por atos similares ao Justiçamento do Aterro é a de que há uma ''justiça de classe'' ou ''do povo''. Ou uma elite, com critérios adequados de formação e seleção [que evidentemente passam longe tanto de cortes econômicos quanto de ideologias classistas], atuando em uma Ordem legítima e eficaz, tem o poder de julgar, ou então estamos à beira da selvageria.

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[1] Se olharmos para além das aparências, o princípio do 'justiçamento' e do 'bode expiatório' encontra outra expressão no linchamento moral e midiático de acusados de crimes de grande repercussão. O advento de grandes redes de comunicação de massa fez com que o fenômeno deixasse de se manifestar de modo localizado e regional, a partir de uma ação direta de determinada comunidade, para se tornar um fenômeno de cadeia nacional. No início da década de 1990, lembro de um exemplo típico. Uma criança, que estudava em uma pequena escola particular de primeiro segmento de ensino fundamental [naquela época, o antigo ''primário''], chegou em casa reclamando de dores para seus pais, e teria dito a eles que teriam sido causadas por abusos sexuais dos direitos e professores. A notícia foi divulgada pelo Jornal Nacional, da Rede Globo, então em seu auge de influência e apelo às massas, como fato líquido e certo. No dia seguinte, uma massa enfurecida de pais e responsáveis destruiu completamente o colégio, não deixando pedra sobre pedra. Um dia depois a TV noticiava que a criança havia mentido. Um episódio que deixa claro que tecnologia e ''informação'' não é necessariamente sinônimo de civilização, pelo contrário.

[2] Depois do caso no Aterro do Flamengo, no entanto, a mídia viu um grande filão na exploração deste tipo de fato. Mas poucas são as análises críticas que lidem com o cerne do problema. 

[3] A 'terceirização' do Justiçamento, com a contratação de valentões, pistoleiros e inclusive criminosos para fazerem uma 'limpa' em regiões pouco seguras, também tem sido usada para acusações de classe, mas ela é também comum em favelas e regiões pobres, não escapando da estrutura de valores e psicologia de massa que leva, per si, ao apoio a justiceiros.

[4] Pouco tempo depois que a vítima foi quase que transformada por alguns em uma espécie de 'mártir' de uma sociedade injusta, racista e desigual, foi noticiado também que o pequeno ladrão usou os mesmos mecanismos de justiçamento, bode expiatório e humilhação pública contra outros menores.

[5] ''Nada justifica a ação de justiceiros, as punições impostas por grupos à margem das leis ou os ‘julgamentos’ paralelos. Estas são as práticas de que lançam mão as quadrilhas de milicianos, traficantes e as gangues que se aproveitam do medo e da insegurança para angariar algum poder e perpetrar ações violentas. Os ‘playboys’ que prenderam um adolescente de 15 anos a um poste com uma tranca de bicicleta, na madrugada do último domingo, na Zona Sul do Rio, rebaixaram-se ao nível dos criminosos que supostamente tentam combater. Registros da Polícia Civil aos quais o site de VEJA teve acesso mostram que a vítima da gangue, apenas cinco dias antes, tinha comandado uma surra contra outro menor, um colega do abrigo Central Carioca, da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social. Ou seja, decidiu, por conta própria, uma punição a alguém que estava em desvantagem - exatamente como fizeram os homens que o perseguiram. A surra foi registrada no último dia 28 de janeiro.'' 
http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/adolescente-preso-a-poste-no-rio-surrou-colega-em-abrigo-de-menores

sábado, 8 de março de 2014

O uso de substâncias psicoativas como suporte para a experiencia mística segundo a perspectiva de um ortodoxo

De vez em quando recebo, em minhas participações em uma ou outra rede social, algum pedido de esclarecimento de minha posição, como ortodoxo, sobre algum tema socialmente polêmico. Embora os temas trazidos não se coloquem sempre no mesmo campo, surgem quase sempre associados à noção de pecado, na forma de questões tais como ''se beber é pecado'', ''se passar batom é pecado'', ''se falar palavrão é pecado'', e, assunto deste post, se ''fumar maconha [ou usar drogas] é pecado''. 

Eu tenho muita dificuldade de raciocinar com uma tábua de mandamentos debaixo do braço, seja por causa do meu temperamento, seja porque aprendi que, embora listas de regras possam ter alguma utilidade em certo ponto do contato do homem com a vida religiosa, elas acabam se tornando insuficientes no fim das contas. O apego a listas de mandamentos e normas traz em si o grande perigo do moralismo, um desvio muito comum no cristianismo ocidental, principalmente a partir do pietismo protestante, e que é quase que um antítese da verdadeira vida moral [1].

O moralismo é a busca pela adequação da vida religiosa a um sistema de normas tido por ético, e de natureza comportamental, a ser aplicado às mais diversas situações da vida individual e social, de modo que aqueles que o seguem possam avaliar o que seria uma vida virtuosa tanto para si mesmos quanto para os demais. Um dos grandes problema com a abordagem moralista é que ela mascara a vida interior das pessoas a partir de regras convencionais e de comportamento que são, por natureza, socialmente mediadas . A consequência deste tipo de mentalidade e prática não é a santidade mas a proliferação de atitudes hipócritas ligadas ao medo e à necessidade de auto-justificação [2]. O propósito da Ortodoxia não é, o que pode ser uma surpresa para muitos mergulhados na perspectiva do cristianismo ocidental, levar a este tipo de 'vida virtuosa', e sim à participação na natureza divina, uma transformação de ordem ontológica [3]. 

É neste sentido que se deve entender a noção de pecado. Ela não é a falha frente a uma regra, mas sim  a ''perda do alvo'', é agir a partir de uma ruptura com Deus [4]. E se o homem quiser se manter não apenas unido a Deus como vivenciar um grau ainda maior de união a ponto de se tornar semelhante a Ele, deve ter atenção para os seguintes pontos: 

a) retirar o olho do coração [5] da contemplação de Deus leva à perda do discernimento e ao apego às coisas do mundo;

b) um dos mais importantes elementos da ascese ortodoxa para que o olho da alma esteja sempre desperto é a prática da vigilância e da oração, ou seja, o afastamento da mente de todo pensamento deletério capaz de perturbar o diálogo permanente com Deus [6]; 

c) o desenvolvimento de más paixões, o desvio dos poderes da alma e do corpo para propósitos hedonistas, desloca a vida do ser humano do amor a Deus para o desejo daquilo que é contingente.

Pois bem, em que medida e situação o uso da maconha e outras drogas é condizente com este telos de participação na vida divina e com a ascese a ele necessária? Ainda que imaginemos uma sociedade em que a droga social não seja o álcool mas algum subproduto, por exemplo, da cannabis sativa, ou seja, em que o uso da maconha seja socialmente aceitável, o ato de acender um baseado seria possível sem comprometer os pontos que elenquei? A resposta para mim é simples, estas substâncias são concentradas a um ponto de turbarem a consciência da pessoa que as usa e de evitarem que ela mantenha-se orante e vigilante. Se é assim, por que alguém a usaria a não ser por um apego, por uma paixão, a sensações transitórias ou por alterações psicológicas geradoras de dependência e que são expressões de uma desordem psicossomática?

Bom, nem todos usam 'drogas' por simples paixão e sensualismo. Fosse assim, os saddhus da Índia só visariam mesmo alimentar paixões, quando estamos ali diante de um caso de ascese e prática espiritualmente motivada. Desse modo, há na nossa sociedade pessoas que se envolvem com as chamadas 'plantas de poder' e drogas sintéticas na busca por uma experiência real em uma sociedade vazia de Tradição. Há outras, por outro lado, que nascem, são criadas ou pertencem justamente a religiosidades que usam substâncias psicoativas como suporte de práticas espirituais -- muito comun, por exemplo, na Índia, na Ásia, entre indígenas americanos e outras espiritualidades de raiz xamânica. A intenção por trás destes causos é, mais das vezes, muito diferente do uso recreativo/psicopatológico de drogas, sejam elas lícitas ou ilícitas [e nesta minha resposta estou deixando de lado a questão jurídica]. É possível que estas drogas, usadas nestes contextos, possam proporcionar ao sujeito um vislumbre de que a realidade é muito mais do que aparenta, possa provocar insights, descobertas psíquicas e de estratos da personalidade e do mundo até então desconhecidos. Eu mesmo, que já usei uma ou outra 'planta de poder', afirmo com segurança que elas podem ser usadas como apoio ou desveladoras da experiência mística. Mas, com esta mesma segurança, posso ir além e dizer também: 

1) tais apoios são incapazes de, per si, provocarem qualquer realização espiritual ou união com o sagrado, que dirá a deificação; 

2) sem ajuda de alguém experimentado e qualificado, elas representam um absurdo perigo psíquico e espiritual para aqueles que dela fazem uso, jogando-os em contato com dimensões e planos dos quais não se tem nem sombra de domínio; 

3) mesmo nas religiosidades xamânicas, é comum que se as tenha por etapas do aprendizado espiritual, devendo ser deixadas de lado assim que se consiga caminhar sem elas. 

Para simplificar, citemos Castañeda, um nome muito famoso nestas bandas. Independente da veracidade dos causos e personagens de suas obras, aqueles que acabaram por se envolver com o uso destas substâncias motivados por leituras semelhantes devem ir além dos primeiros livros. Assim notarão que naquele universo xamânico por ele descrito, a droga foi usada só no começo do contato entre o autor e seu ''guru'' indígena, Don Juan. E o motivo do uso é deixado claro por este último: Castañeda era muito burro. Estava tão permeado de uma mentalidade tacanha, materialista e, principalmente, descritiva, objetivante e racionalista, que era necessário uma ruptura existencial que, em pessoas com fortes tendências espirituais e não tão desvirtuadas, ocorre sem uso necessário de substâncias psicoativas, embora também de um modo que pode ser psicológica e psiquicamente traumático. O peyote e similares não eram fundamentais. E, pelos perigos envolvidos, podem ser substituídos por coisa bem melhor, mesmo em gente burra. 


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[1] O pietismo é um fenômeno que tem sua origem no século XVII quando os movimentos reformados desviaram sua atenção primordial dos debates teológicos com os quais se digladiavam entre si e com os católico-romanos para o campo da ''piedade ativa'' [praxis pietatis]. A partir daí, a leitura da vida cristã por parte dos pietistas vai deixar de lado a ideia da ascese como combate às paixões visando uma participação ativa na vida divina através de uma sinergia fundamentada na comunhão da Igreja enquanto corpo místico, e substituí-la por uma vivência ética individual e social marcada pela emotividade na oração e pela ''imitação de virtudes'' e boas obras, que supostamente revelariam um ''progresso moral'' que poderia ser objetiva e socialmente demonstrado por critérios comportamentais. Nascia definitivamente o ''homem de bem'' no interior das comunidades autodenominadas de cristãs.

[2] O Pe. John Romanides afirmava que ''a tradição bíblica tal como preservada pelos Santos Padres não pode ser identificada ou reduzida a um sistema de preceitos morais ou de ética cristã. Ela é antes um ascetismo terapêutico[...]. Tomar a superfície deste ascetismo, desvinculado de seu coração e núcleo, e aplicá-lo a um sistema de preceitos morais para a ética individual e social é produzir uma sociedade de puritanos hipócritas que acreditam possuir um direito especial ao amor divino por causa de sua moralidade, predestinação ou ambos. [...] Ninguém pode cumprir os mandamentos a menos que tenha purificado e iluminado sua faculdade noética e alcançado o início da glorificação.''

[3] O Arquimandrita George, do Mosteiro de São Gregório, no Monte Athos, chega a dizer na obra ''Theosis, the true purpose of human life'', que o moralismo é um dos maiores obstáculos à consecução da deificação, pois a vida de ''progressão moral'' seria centrada no homem, não na Graça, e, portanto, não apenas limitada como incapaz de satisfazer a busca do homem por Deus.

[4] A palavra harmatia significa originalmente ''estranhamento com Deus'', ''fracasso em atingir o próprio destino'' ou ''falha com a própria meta''. Sendo o objetivo da vida humana a união com as energias divinas, qualquer ato em dissonância com isso cai na categoria de 'pecado', um desvio do via.

[5] ''Olho do coração'' é uma forma de se referir à faculdade noética, ou nous, imagem de Deus na alma e capaz de um conhecimento intuitivo e unitivo com as realidades espirituais. Com a queda e a fragmentação da psique, o Nous se identifica cada vez mais com a mente, a razão, a imaginação e os sentidos, em um processo de fragmentação e obscurecimento.

[6] Aspecto da ascese ortodoxa vinculada à purificação dos logismoi, que são pensamentos, imagens e representações que se colocam diante da mente e podem direcioná-la de modo apegado para as coisas do mundo, desorientando as energias da psique.



A liberdade de ser plenamente mulher


Dia Internacional da Mulher, dia de um dos engodos do mundo moderno.

Criado no início do século XX por movimentos feministas ligados ao socialismo, a data tem o objetivo claro de comemorar a mulher que não é. Incapazes de conhecer e amar as qualidades especificamente femininas, que negam como construtos culturais ou instrumentos de opressão, louvam um ser reduzido, do qual vêem pouco mais do que a vagina, e que deveria se medir com um homem, também ele degradado e já castrado, em uma sociedade que não passa de um grande mercado homogeneizador de vidas. 

Poucas coisas são tão doentiamente misóginas quanto o espírito por detrás do Dia Internacional da Mulher. 

 A mulher -- que não é uma condição de desejo e não se caracteriza só por uma diferença no órgão sexual, mas antes é uma diferença qualitativa que se espraia por todas as fibras do ser feminino, em todos os seus nuances, determinando a totalidade de suas expressões e elementos -- não precisa de um dia. Todos os dias são dela também. 

Todos os dias são da mulher verdadeira, que compreende que tem valor em si mesma, em sua própria especificidade e diferença em relação ao homem. Que não tem complexo de inferioridade capaz de fazê-la menosprezar estas especificidades e esquecer do quanto elas a marcam em todos os momentos e situações. 

Todos os momentos são momentos da verdadeira mulher, aquela mulher que não sofre de uma ausência de ambição tão grande a ponto de fazer de um homem castrado e aburguesado uma régua para si própria.

Porque qualquer mulher real é muito superior e realizada do que um homem castrado. E se nenhuma mulher jamais seria um homem verdadeiro, tampouco um homem verdadeiro algum dia seria como uma mulher. 

Pois 'direito de voto' não é qualidade nem masculina nem feminina, não os realiza nem valoriza em nada. Direito de participar, se integrar e ser massacrado pelo ethos da sociedade de trabalho tampouco é qualidade masculina ou feminina, não nos realiza nem valoriza em nada. Direito de matar fetos não nos realiza nem valoriza em nada. 

Dê valor a si própria naquilo que nenhum homem jamais poderá se medir com vocês, realize-se enquanto mulher.