domingo, 27 de outubro de 2024

O que há de bom na Astrologia?, ou: os Padres da Igreja eram olavetes e ocultistas?

 "A capacidade de unir os Reinos do Céu e da Terra permaneceu a chave para o mistério teológico dos ícones e permitiu-lhes resistir às mais severas tempestades teológicas, psicológicas e emocionais."


Padre Andreas Andrepoulos





Estes dias, eu disse no Twitter [hoje chamado X] que a "Astrologia como técnica ''preditiva'' de eventos e, pior de tudo, de ações humanas, não passa de piada de salão. O sentido desta ciência é estabelecer um mapa do cosmos baseado em certas premissas hierofânicas e analógicas que regem a interdependência entre os planos da realidade. A astrologia é uma das formas possíveis de conhecer um universo que é todo ele símbolo e espelho. Como tal, ela se apóia em uma cosmologia fundamentada em um abordagem holista das noções de relação e causalidade. São ciências típicas do que se convencionou chamar de ''mistérios menores''.


Minha declaração sobre a astrologia causou estupor -- sincero ou fingido, não sei -- em algumas pessoas, que a vincularam à figura do Olavo de Carvalho e a práticas ocultistas. Este tipo de reação escandalizada vinda de certas figuras envolvidas direta ou indiretamente com a política não é nada incomum, e surgem de ímpeto polemista misturado com um conjunto de preconceitos contra religiosos e espiritualistas em geral. O ímpeto polemista está em vincular tudo o que não se gosta a um rótulo que serve de 'xingamento' e 'demonização' do interlocutor: Assim, a esquerda chama de fascista tudo que não é espelho; a direita chama de comunista tudo a que ela se opõe; russófilos duginistas se veem em uma guerra santa contra o olavetismo; e há olavetes que imaginam o Brasil invadido e dominado por Alexandr Dugin. Este tipo de rotulação maniqueísta se dá em um campo erístico sem qualquer seriedade, e assim eu não preciso me ocupar dele. As críticas que fiz a Olavo de Carvalho nos últimos quinze anos falam por si só.


Já o conjunto de preconceitos bebe de fontes materialistas e seculares, e carrega sua própria dose de alienação e hipocrisia, já que os movimentos seculares em geral foram impulsionados por sujeitos mergulhados em crenças e práticas espiritualistas, algumas delas ligadas ao que se convencionou chamar de ''ocultismo''. Como apontou Jason A. Josephson-Storm, em "Myth of Disenchantment. Magic, Modernity and the birth of Human Sciences", longe de varridas da vida pública, as crenças e práticas espirituais continuam norma entre governantes, empresários, cientistas e populações do mundo contemporâneo. Apesar do discurso 'oficial', o mundo continua encantado pra maioria esmagadora da civilização que se abraçou fanaticamente ao secularismo. Da Enciclopédia dos Iluministas, que considerava a Magia uma ciência, passando por revolucionários que conspiravam em lojas Maçônicas, e até mesmo a filósofos como Adorno, a elite política e intelectual do Ocidente se abraça à ideia similares ao ''sobrenatural".


A minha postagem também pode causar ojeriza em determinada sensibilidade religiosa. Mas nesse caso se trata do choque entre espiritualidades que se consideram mutuamente exclusivas. Quando um religioso condena como superstição a espiritualidade X ou Y, ele não pretende que suas próprias práticas religiosas caiam sob o mesmo epíteto. Superstição, evidentemente, é a religião do outro, e esse tipo de embate é perfeitamente natural e compreensível. Mas tampouco podem ser consideradas reflexões sérias caso não superem o nível do ''estranhamento'' puro e simples.


Isto posto, vou esmiuçar um pouco mais a postagem que fiz no X e mostrar porque o suposto escândalo não passa de ignorância e/ou hipocrisia. O texto não visa debater a ciência contemporânea, assunto que me interessa de forma bem marginal. Tenho uma abordagem instrumentalista da ciência contemporânea: a considero a melhor que existe para o que se propõe. Mas aquilo a que ela se propõe me parece bastante insuficiente para o coração humano.


A imagem no início deste texto traz Cristo no centro do Zodíaco. A representação se encontra no Mosteiro Dekoulou, na Grécia. As condenações dos Padres da Igreja a certas ciências e artes da Antiguidade [como a matemática ou o teatro] se baseavam em alguns critérios, se ligam a um dado contexto. No caso da Astrologia, há condenação explícita ao culto pagão que acompanhava a consulta divinatória e à própria noção que acompanhava a tentativa de predição, a saber, que as ações humanas eram governadas e determinadas pela natureza.


É uma crítica que os Padres fariam a qualquer determinismo, seja ele qual for. Serviria para boa parte das hipóteses da ciência atual, inclusive. Se aplicaria, com perfeição a todo o universo mecanicista divulgado pelos pensadores iluministas, que derribariam no século XVIII a cosmologia pré-moderna e consolidariam uma interpretação cientificista [no sentido oitocentista] do universo, do homem e da sociedade.


Muitos religiosos criticam a astrologia pelos motivos errados, mobilizando até argumentos de pensadores cientificistas contemporâneos sem entender que o ponto fulcral da condenação dos Padres é o culto idolátrico a forças naturais e a abolição da liberdade humana em nome de um determinismo cósmico, dois aspectos que foram reforçados pelo discurso secular que eclipsou o cristianismo no Ocidente. Voltarei a esse ponto depois já que o discurso científico atual pode ser usado também como um tipo novo de técnica divinatória, característica que levou à condenação da astrologia pelos Santos Padres.


Se o culto idolátrico e o determinismo são erros da astrologia, qual verdade pode existir por trás dela? Ora, todo cristão que lê as Escrituras Sagradas ou frequenta uma igreja será bombardeado por imagens que retratam o mundo pelas mesmas lentes da cosmologia que fundamentava a prática astrológica, e não as da prática científica contemporânea. Nas Escrituras e na Igreja, as águas de cima foram separadas das de baixo. Os Céus se ligam à Terra pela escada de Jacó. Cristo desce ao Hades para libertar Adão e todos os Justos, e depois ascende aos Céus à vista de todos. E um dia voltará à Terra nas nuvens do céus, também à vista de todos, para o Juízo Final.


A Cruz no meio dos quatro rios do Paraíso, a esfera celeste acima.


Os mesmos Padres que condenaram a astrologia diziam, repetindo São João Damasceno, que os céus tinham 'sete esferas' ou 'zonas' de 'natureza mais sutil', formando uma hierarquia. Cada uma dessas esferas hierárquicas era governada por um astro na seguinte ordem segundo sua distância para a terra, que está no centro do universo: Saturno, Júpiter, Marte, Sol, Vênus, Mercúrio e Lua. São João Damasceno também menciona os doze signos do Zodíaco, cada um deles formado por um conjunto de estrelas visitado pelo sol e pela lua em suas jornadas celestes.

Tudo isso pode ser lido em "A Fé Ortodoxa'', obra de imenso prestígio na Igreja. Nela se resume à perfeição, no Livro II, a relação precisa entre os Padres da Igreja e a astrologia:

"Estes são, então, os nomes dos doze signos e seus respectivos meses:

Áries, que recebe o sol no dia 21 de março.
Touro, no dia 23 de Abril.
Gêmeos, no dia 24 de maio.
Câncer, no dia 24 de Junho.
Virgem, no dia 25 de Julho.
Libra, no dia 25 de Setembro.
Escorpião, no dia 25 de Outubro.
Sagitário, no dia 25 de Novembro.
Capricórnio, no dia 25 de dezembro.
Aquário, no dia 25 de janeiro.
Peixes, no dia 24 de Fevereiro.

[...]

Ora, os gregos declaram que todos os nossos assuntos são controlados pelo nascer, pelo pôr e pela colisão destas estrelas, isto é, o Sol e a Lua: pois é com estes assuntos que a astrologia tem que lidar. Sustentamos, no entanto, que recebemos dos signos sinais de chuva e seca, frio e calor, umidade e secura, e dos vários ventos, e assim por diante, mas nenhum sinal de qualquer espécie quanto às nossas ações. Pois fomos criados com livre arbítrio pelo nosso Criador e somos mestres de nossas próprias ações. Na verdade, se nossas ações dependem do curso das estrelas, fazemos tudo por necessidade: e a necessidade exclui a virtude ou o vício. Mas se não possuímos virtude nem vício, não merecemos louvor ou punição, e Deus também se revelará injusto, pois dá coisas boas a alguns e aflige outros. Não, Ele não continuará mais a guiar ou prover Suas próprias criaturas se todas as coisas forem carregadas e arrastadas pelas garras da necessidade. E a faculdade da razão será supérflua para nós: pois se não somos senhores de nenhuma de nossas ações, a deliberação é bastante supérflua. A razão, na verdade, nos é concedida apenas para que possamos nos aconselhar e, portanto, toda razão implica liberdade de vontade.

Sustentamos assim que as estrelas não são as causas nem a origem dos eventos nem da destruição do que é perecível. São antes sinais de chuvas e mudanças de ar. Mas, talvez, alguém possa dizer que, embora não sejam as causas das guerras, são sinais delas. E, na verdade, a qualidade do ar produzido pelo sol, pela lua e pelas estrelas produz de várias maneiras diferentes temperamentos, hábitos e disposições. Mas os hábitos estão entre as coisas que temos em nossas mãos, pois é a razão que os governa, dirige e muda."

Desse modo, não é o ''mapa dos cosmos'' fornecido pelos astrólogos/astrônomos -- e nesse ponto da conversa convém lembrar que a distinção entre astrologia e astronomia não existia nos tempos pré-modernos -- que é criticado pela Igreja. Não é sequer a ideia de que há influência dessas esferas celestes nos eventos e atos humanos [como guerras]. São João Damasceno aceita esta visão com uma postura que escandalizaria quem se indignou com minha postagem. Ele apenas ressalta que esta influência não pode implicar em determinismo, destino, necessidade natural. Nem em ''culto idolátrico'', pois os astros são inanimados [não são deuses] e estão sob governo da Vontade Divina.


Seria São João Damasceno um Olavo de Carvalho da Antiguidade? Seria ele um ocultista em pleno século VII e VIII? Não me parece crível. Com pequenas variações, considerações similares podem ser encontradas em São Dionísio Areopagita, São João Crisóstomo, São Máximo Confessor etc. Este último vai até além ao ensinar que a Divina Liturgia [que os ocidentais chamam de Santa Missa] é uma cosmologia em ação, uma Mistagogia -- é desnecessário lembrar que a própria arquitetura das Igrejas é projetada para refletir o cosmos e a história sagradas. Segundo São Máximo, todos os seres existentes são unificados pelo Logos Divino, e a própria Natureza era uma forma de encarnação do Logos. O homem é a imagem acabada desta cosmologia: "Não é o homem que é parte do Cosmos, mas todas as partes do Cosmos são partes do homem. O homem não é um microcosmo em um Macrocosmo, e tampouco é moldado no interior de um macrocosmo, mas ele é o verdadeiro cosmos, já que ele dá unidade e sentido completo a todas as partes da criação."

Esta cosmografia perdurou na Cristandade Latina e é crucial para entender o cristianismo no todo e em partes, como a magnífica obra de Dante Alighieri pode servir de exemplo acabado. Etienne Gilson e Philotheus Boehner descrevem assim parte da filosofia de Santo Anselmo da Cantuária:

"Como a própria palavra 'mundus', derivada de 'motus' (explicação etimológica!), dá a entender, o mundo está em perpétuo movimento. É redondo como uma bola e comparável a um ovo. Na beirada externa há uma casca, o céu, que envolve o mundo inteiro. Debaixo dela situa-se, à semelhança da clara do ovo, o éter puro, que serve de envoltório para o ar em movimento, exatamente como a clara encerra a gema. Na parte mais central, correspondente ao germe, está a Terra. No centro da terra situa-se o Inferno. Repleto de fogo e enxofre, sua forma dilata-se na parte inferior e estreita-se na superior. A região mais central chama-se Érebo, e é habitada por dragões e serpentes que vomitam fogo. Há lugares que exalam vapores nauseabundos; são conhecidas sob o nome geral de Aqueronte. [...] Todas essas descrições eram entendidas muito realisticamente; representam o primeiro esboço do plano do inferno elaborado por Dante. [...] O fogo é o mais nobre dos elementos. Dentro dele se escalonam as esferas dos sete planetas. Os nomes destes provêm dos movimentos irregulares a que estão sujeitos. O firmamento arrasta-os com enorme velocidade de Leste a Oeste, em sentido contrário, portanto, ao seu curso natural. [...]A revolução das sete esferas dá origem a sons maviosíssimos, cuja harmoniosa consonância produz a mais admirável das melodias. Contudo, esta harmonia das esferas não chega aos nossos ouvidos, por originar-se para além do ar, que é o único meio em que nós percebemos os sons. Ademais, ela é demasiadamente forte para ser percebida pelo ouvido humano. A escala da música celeste vai da Terra ao Firmamento, e supõe-se que nossa escala foi inventada a exemplo dela. Entre a Terra e o Firmamento há sete tons, assim distribuídos: um tom inteiro da Terra à Lua; meio tom da Lua a Mercúrio; meio tom de Mercúrio a Vênus; três tons de Vênus ao Sol; um tom inteiro do Sol a Marte; meio tom de Marte a Júpiter; meio tom de Júpiter a Saturno; e três meios tons de Saturno ao Círculo do Zodíaco. [...] Da Terra ao Céu, pois, sete tons e mais nove ''consonâncias''; a estas correspondem as nove musas dos filósofos. As "consonâncias" são inatas na própria natureza humana. Acima do fogo encontra-se a oitava esfera, o Céu, que dista 109.375 milhas da Terra. [...] O Céu superior chama-se Firmamento, em razão da firmeza de sua estrutura, situada no meio das águas [....] Como se vê dentro desse esboço, o universo medieval caracteriza-se por sua continuidade, sua coesão singular e seu simbolismo religioso. É um imenso globo material com dois pólos espirituais: a matéria superior vai até o céu dos espíritos bem-aventurados, e a inferior até o inferno dos espíritos condenados. Às nove penas do inferno correspondem as nove bem-aventuranças do céu. Nós, homens, ocupamos um posto intermediário entre estes dois pólos, até que a separação final dos bons e dos maus venha incorporar-nos definitivamente a um ou outro."

É possível dizer, como fazem teólogos católico-romanos, que a Revelação Divina não versa prioritariamente sobre o mundo natural. Que estas descrições são símbolos cujo cerne é uma mensagem espiritual. O que implica, no fim das contas, que a imagem de mundo ofertada pelos padrões científicos atuais é verdadeira em seu próprio âmbito. E eu não disse, em lugar algum, que não é, ou que ela não cumpra seus objetivos, e que não ofereça um ''mapa" adequado ao propósito do empreendimento científico atual, que é o de prever fenômenos com precisão matemática e o de gerar tecnologias de controle do mundo perceptível.


Possível representação do Cosmos de Dante Alighieri



A capacidade de predição de fenômenos segundo uma causalidade natural precisa e matematizável está no coração da ciência contemporânea. "Deus não joga dados", na crítica que Einstein fez a certas interpretações da Quântica. Einstein expressava assim o determinismo férreo e 'naturalista' da ciência usada para demolir aquilo que podemos chamar de cosmovisão tradicional. Um determinismo naturalista que seria condenado segundo os critérios usados pelos Padres para denunciar a prática astrológica [mas não a influência das esferas celestes, dos elementos, dos ventos, dos demônios e anjos].


A questão não é discutir inocuamente se a descrição de mundo realizada pelos métodos científicos atuais é ou não verdadeira em seu próprio âmbito. E sim entender que as imagens fornecidas pela Igreja, pelas Escrituras Sagradas, pela Tradição cristã vem de outra cosmologia, que reflete uma metafísica e uma antropologia bem distintas. E só segundo estas últimas faz sentido falar dos anjos em pé sobre os quatro cantos da terra, ou dos Doze Apóstolos enviados para os confins do mundo. A imaginação, a narrativa, a escatologia e a prática cristãs estão todas permeadas por esse ''mapa do universo'' e pela relação entre seus componentes. Como diz Hilário Franco Júnior:

"Naquele mundo no qual todas as coisas eram passíveis de ser vistas como hierofanias, isto é, como algo a mais do que pareciam à primeira vista, uma cosmologia simbólica impunha-se com naturalidade. O universo era interpretado como um imenso conjunto de símbolos. Sabe-se que na origem o termo grego symbolon designava cada uma das metades de um objeto que fora dividido pra que sua junção funcionasse como uma senha, daí o sentido literal de ''sinal que faz reconhecer". Logo, não pode ser confundido com o signo, que é apenas um substituto ou representação de algo, sem ter semelhança estrutural com a coisa que representa. Da mesma forma que o signo, a alegoria também é uma convenção. O símbolo, pelo contrário, é um produto psíquico espontâneo, que exprime algo que não poderia se formulado com precisão nem compreendido de outra maneira. Portanto, "a função do símbolo é religar o alto e o baixo, criar entre o divino e o humano uma comunicação tal que eles se unam um ao outro" [Davy, 1997]. É o encontro de duas realidades numa só, ou melhor, expressão da única realidade sob outra forma. O símbolo é inferior à realidade simbolizada, mas por intermédio daquele o homem se aproxima desta, restabelecendo a unidade primordial. [...] Há uma lógica simbólica que fornece a chave para o entendimento da mensagem, sem anular o significado potencialmente diverso de cada símbolo: a mentalidade simbólica persegue a unidade do múltiplo. O papel do símbolo é projetar o indivíduo no Além, romper os limites de tempo e lugar, fundir o microcosmo (homem) e (universo). Daí o símbolo ser uma hierofania, revelar uma realidade sagrada para quem tiver sensibilidade para decodificá-lo. Não se requer para tanto uma operação consciente, intelectual, mas automática, inconsciente. Nas palavras do pseudo Dioniso Areopagita (quer dizer, atribuídas a este discípulo de São Paulo, mas na verdade escritas na Síria por volta do ano 500), cuja obra exerceu grande influência ao longo da Idade Média, "o sensível é reflexo do inteligível". [...] De acordo com esta visão simbólica do universo, o próprio homem é um símbolo. A relação do homem com a natureza não é de sujeito e objeto, porque ele se encontra integrado no mundo exterior; para a Idade Média ''não existem fronteiras nítidas entre o indivíduo e o mundo" [Gurevitch, 1990]. Segundo a concepção vinda da Antiguidade e aceita por quase toda a Idade Média, o homem é um microcosmo, não apenas um fragmento do Todo, mas uma réplica dele em ponto menor: sua carne é feita de terra, seu sangue de água, seu fôlego de ar, seu calor de fogo, ou seja, nele se encontram os quatro elementos constitutivos do mundo. Mais ainda, cada parte de seu corpo corresponde a uma parte do universo: a cabeça ao céu, o peito ao ar, o ventre ao mar, as pernas à terra, os ossos às pedras, as veias aos galhos de árvores, os cabelos às ervas, os sentidos aos animais. As etapas de sua vida são seis, como os dias da Criação: infância, adolescência, juventude, maturidade, velhice, decrepitude. Em suma, pela mentalidade simbólica, "o homem não se sente um fragmento impermeável, mas um cosmos vivo abeto a todos os outros cosmos vivos que o rodeiam, [por isso] não se reduz à existência fragmentada e alienada do homem civilizado do nosso tempo" [Eliade]."


Anselmo da Cantuária tinha uma explicação cosmológica para as Musas, associando-as ao movimento harmônico das esferas celestes


Enfim, os cristãos citados aqui, todos eles figuras de extrema relevância nessa religião, criticavam a astrologia no que ela tem de determinista e de técnica preditiva. Mas aceitavam sua cosmologia subjacente, a estrutura que rege a relação entre os diferentes seres e elementos do cosmos, e a associavam diretamente a uma dada antropologia e psicologia. Obviamente, eles nunca ouviram falar de Olavo de Carvalho ou do Ocultismo contemporâneo, que causam um Grande Medo em alguns temperamentos. Eram apenas estudiosos das ciências e ideias pré-modernas, que se refletem nas Escrituras Sagradas, nos ritos, imagens, e ensinamentos do Cristianismo.


Alguns podem achar um tédio ou desperdício de tempo se ater a abstrações deste tipo. Afinal, os jornais não providenciam apenas ''horóscopos'', eles entretém o público com as informações do dia no campo político, econômico, esportivo, gastronômico, internacional, cultural etc. Mas eu avisei na postagem do X: não é um assunto para todo mundo. É chamado de ''mistérios menores", diz respeito a um nicho de pessoas com um tipo especifico de disposição. Aparentemente, Deus não é um progressista: ele distribuiu vocações e dons de maneira muito desigual entre os homens.



quinta-feira, 24 de outubro de 2024

RIO PODE SE ISOLAR COMO A CIDADE BRASILEIRA COM O MAIOR NÚMERO DE CAMPEÕES DA LIBERTADORES


Os botafoguenses tem toda a razão de estarem orgulhosos e delirantes. É a primeira vez que o clube consegue um real destaque na Libertadores, praticamente garantindo seu lugar na final de 2024 após uma goleada histórica sobre o Peñarol.


Times pequenos como o São Caetano e o Bragantino chegaram na final da Libertadores, era estranho que o Botafogo nunca tivesse realizado o feito. E ao mesmo tempo era também demonstração da incrível derrocada do clube e que simbolizava, em determinado grau, a minoração pela qual passou o futebol carioca após os anos 1980.


Depois de sua era de ouro, o clube teve alguns bons momentos, mas que não passavam de ''voos de galinha'' sem base sólida que sinalizasse um futuro melhor. Foi assim com o dinheiro investido pelo bicheiro Emil Pinheiro, entre 1989 e 1992. O time da estrela solitária foi bicampeão carioca, título ainda muito relevante na época, rompendo um jejum de mais de vinte anos, e ainda chegou à final do Brasileiro de 1992.


Um padrão similar se repetiu sob a gestão de Carlos Augusto Montenegro -- empresário bem sucedido que fez do Ibope referência de instituto de pesquisa e que soube se aproveitar bem da quase paridade entre real e dólar no primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso. O clube produziu ídolos históricos, como Túlio Maravilha e Vágner, foi campeão brasileiro em 1995, Carioca em 1997, e chegou à decisão da Copa do Brasil 1999.


Mas eram voos curtos e insatisfatórios e o Botafogo se apequenava a olhos vistos ano após ano. As tentativas de reverter o quadro pouco repercutiam no âmbito nacional. O clube virou chacota dos demais membros do ''G-12" e sua própria presença entre os grandes passou a ser contestada, e com bons argumentos, diante da ascensão do Athletico PR, muito mais bem sucedido que o alvinegro carioca neste século. A torcida do alvinegro enfrentava um processo rápido de ''desnacionalização''.


Antes de ser vendido a Textor, o destino do Botafogo parecia ser a irrelevância. Rebaixamentos se sucediam, a dívida era impagável, e os atletas preferiam jogar em clubes regionais e ascendentes do interior de Sao Paulo, do Sul e do Nordeste. A SAF oxigenou momentaneamente o clube. Quer dizer, isso se Textor não for o Emil Pinheiro desta nova geração, algo que ainda não está claro. Até lá, os botafoguenses curtem o momento, que parecia ser um sonho inexequível há três anos.


Pro Rio de Janeiro é, obviamente, uma ótima notícia. Podemos nos isolar como a cidade brasileira com o maior número de clubes campeões continentais -- dividimos a primeira posição com os paulistanos desde o ano passado. A liderança continua com Buenos Aires, que tem cinco clubes campeões da Libertadores. Mas dentro do país, o Rio está prestes a ostentar uma marca quase impossível de ser alcançada.

Nada mal para uma geração que ouviu algumas vezes que "o futebol carioca acabou". Ainda não, ainda não...

terça-feira, 22 de outubro de 2024

Paul Di'Anno e a morte do Heavy Metal

 "Nasci em um cenário/De raiva e ganância/De dominação e perseguição/Minha mãe era uma rainha/Meu pai eu nunca vi/Eu não deveria ter existido/E agora passo meu tempo/Procurando por aí/Por um homem em que nenhum lugar pode ser encontrado/Até encontrá-lo/Nunca vou parar de buscar/Vou encontrar esse cara/Vou viajar o mundo todo/Porque sou filho da ira/E estou chegando pra te pegar"

Wrathchild, Iron Maiden


A repercussão da morte de Paul Di'Anno dá a dimensão da importância cultural que o Iron Maiden teve para a classe média ocidental nas duas últimas gerações. Que é um grupo basilar para o fenômeno hoje decadente do Heavy Metal todos sabem, mas me refiro à identidade desse grupo social pra lá de cosmopolita.


É surpreendente por dois motivos: o Maiden não tocou nas rádios na maior parte de sua carreira. Quando chegou lá, e alcançou algum sucesso com a MTV, já estávamos quase em meados dos anos 1990 e Bruce Dickinson já era vocalista da banda há mais de uma década. E Paul não era preferido nem pelos fãs dos anos 1980, quando a new wave of british heavy metal estava fora do circuito mais popular da indústria. [Nesse ponto, sempre fiz parte de uma minoria das minorias, pois sempre achei o Di'Anno melhor.]

Não é incomum que uma banda extravase em muito sua importância musical e se torne marca de uma geração, mas é engraçado que tenha ocorrido justamente com o Maiden. Quando eu escutava à vera, na virada dos anos 1980 pros 90, ela ainda não estava ''normalizada'' para o grande público brasileiro. Isso só aconteceu com o álbum Fear of the Dark. Algo semelhante acontecia com o Metallica na época.

Em termos musicais, o Iron Maiden é bastante precário, ainda que muitos furos acima do nicho em que se desenvolveu. Mesmo para quem, como eu, valoriza o popular, é difícil perceber ali qualquer elemento artístico mais elevado ou duradouro. E eles sempre tiveram o bom senso e o mérito de não se levarem muito a sério. Havia um certo humor britânico em tudo o que a banda fazia, mesmo quando lidavam com abordagens temáticas interessantes. As canções são melodicamente muito superiores ao gênero, mas muitas vezes são óbvias colagens de riffs e solos, de modo bem pouco criativo. Quando decidiram incrementar a fórmula que repetiam álbum depois de álbum, os fãs mais fiéis reclamaram histericamente.



O fenômeno do metal é tão superficial e raso quanto o grupo social que o abraçou, os adolescentes dos anos 1980 e 1990 da pequena burguesia da era de ouro do capitalismo [e dos Estados de bem Estar Social] e de horizontes mentais conservadores [o headbanger típico é um reacionário] que povoa as cidades grandes e médias dos cinturões das metrópoles. Este grupo social está hoje na meia idade. Quem frequentava shows do Maiden nos últimos anos notava que o público típico era de quarentões levando os filhos.

A morte de Paul Di'Anno pode, portanto, ser um dos primeiros obituários de todo um gênero cuja precariedade já não possibilita que expresse mais os anseios dessa classe média frustrada e entediada. Até porque ela não vive mais naquele mundo construído pela social-democracia dos anos 1960 e 1970. Os que pretendiam explorar os meandros do Metal fugiram para ramos bem específicos e de difusão ainda mais diminuta e que se tornaram  cada dia mais experimentais, até que começaram a se esgotar também há quinze anos. Os demais se renderam à música eletrônica ou a alguma expressão do imenso conjunto do hip hop ianque.

Para os saudosistas e fãs mais velhos fica a homenagem a Di'Anno. considero Killers o melhor álbum da banda, o momento em que o Maiden estava tinindo, nas pontas dos casos, e com a melhor formação de sua história. Não vou dizer ''up the irons'' porque, a essa altura, isso soa bem ridículo.


terça-feira, 15 de outubro de 2024

Jessé Souza contra o Racismo Primordial, ou: do perene ódio progressista ao Cristianismo

"É necessário demonstrar que o racismo primordial se produz primeiro em termos religiosos e depois em termos científicos, sem qualquer solução de continuidade. Estou aqui propondo uma definição ampliada de racismo que possa abranger toda forma de hierarquia construída entre ''humanos superiores'' e ''humanos inferiores''. Como o racismo racial é ''apenas'' uma das formas possíveis por meio das quais isso se constrói, é necessário que nos dediquemos a buscar as formas mais elementares, abstratas e universais que regem a gramática de toda desigualdade hierárquica"

Jessé Souza, "A Guerra contra o Brasil"


Jessé de Souza deu entrevista ao Globo em que inclui uma avaliação precisa da decadência da esquerda. O abraço ao identitarismo a afastou das classes populares e o futuro pós-Lula é cada vez mais problemático. A solução seria que os ditos progressistas aprendessem com Getúlio Vargas, cujo legado e memória foi atacado pelo lulopetismo por décadas e décadas.

Mas Jessé está em posição de fornecer elementos para que o problema possa ser minimamente sanado?

Nada indica, já que ele contribui para a alienação progressista com suas teses descabidas sobre o racismo. O sociólogo consegue tornar o conceito ainda mais abrangente que o de Dugin. Ele identifica uma matriz do pensamento racista, um racismo primordial, não no pseudo-universalismo iluminista [que nada mais é que a generalização temporal e espacial do eurocentrismo], mas nas fontes intelectuais da civilização helenista, romana, cristã, europeia e ocidental.

O Racismo Primordial, diz ele, seria consequência da psicologia e antropologia platônicas, mais particularmente da hierarquia entre o espírito [o logos, a razão] e o corpo [as paixões, incluindo os desejos]. Esta distinção se tornou axial no agostinianismo, que teria acrescentado uma versão de cogito que romperia com aspectos muito importantes da psicologia aristotélica.

Pronto, a "gramática da desigualdade'' estaria pronta para espalhar o vírus do ''racismo primordial'' por civilizações inteiras ao longo de séculos de ação da Igreja Católica [e mais tarde pela ética protestante] e para legitimar o estranhamento entre os grupos sociais. [1]

A linha de argumentação de Jessé é adornada com muito Bourdieu e Taylor. O principal, no entanto, é que a legitimação e reprodução da desigualdade viria do platonismo vulgar que Nietzsche chamava de cristianismo, e das instituições que o veiculam ao longo dos tempos. E desse modo ele pretende ter encontrado a chave que explica a reprodução do ''racismo estrutural'' que Sílvio Almeida teria intuído.



Racismo, nessa abordagem, nada mais é que sinônimo de ''hierarquia'', um verdadeiro ''pecado original'' na ótica progressista. A responsabilidade por toda essa falta de modernidade [ou seja, pelos obstáculos ao igualitarismo] está na religião, como não poderia deixar de ser. E como o racismo nada mais é que do que uma forma oitocentista de desigualdade e hierarquia entre populações, já dá pra entender onde se pretende chegar.

Chega a ser risível ler Jessé criticar a ''esquerda de Oslo'' e as agendas identitárias, denunciar o afastamento do povo e a guerra cultural contra as classes populares, e vê-lo analisar a história por meio dessas chaves canhestras e batidas. "Médico, cura-te a ti mesmo!", eu diria. Jessé precisava aprender alguma coisa com Getúlio Vargas, que superou o repúdio à religião herdado do positivismo e de certo socialismo utópico e se aproximou do catolicismo-romano e da Doutrina Social da Igreja.

Ele voltará!

Mas não por papinho furado que tem por pano de fundo a criminalização do cristianismo e a condenação da história intelectual ocidental. Reproduzindo tendências inerentes ao progressismo desde suas origens, Jessé até começa bem. Mas não se segura e investe contra a natureza, os anjos, a beleza, o espírito, e tudo que é superior na vida e no mundo. _____________________________


[1] Jessé vê, no entanto, um potencial democratizante no protestantismo por oposição ao catolicismo-romano pelas críticas à hierarquia social medieval e pela valorização da ascese do trabalho. Evidente que ele não podia deixar de se apegar a mais este jargão do progressismo.

domingo, 13 de outubro de 2024

A Escada de Jacó por qual os Anjos descem à Terra e sobem ao Céu

 

"A Escada de Jacó é a Santíssima Virgem Maria, que é a ponte entre o céu e a terra. Ela é aquela que traz o Filho de Deus do céu para a terra, e é aquela que nos guia de volta para o Céu".

São Gregório Palamas



Na postagem anterior, falei um pouco sobre as divergências entre os Tradicionalistas em torno da ideia de Pontifex. Antes de falar da abordagem cristã ortodoxa sobre este tema, é bom recordar um aspecto muito importante da veneração a Theotokos, e que se associa, de modo tipológico, à discussão empreendida pelos dois metafísicos. 


No capítulo 28 de Gênesis, o Patriarca Jacó é advertido por Isaque, seu pai, a não tomar por mulher uma das filhas de Canaã. Ele é enviado à casa do avô materno para escolher uma das filhas de Labão, seu tio. No caminho, repousa em dado lugar e é acometido por um sonho misterioso. O episódio é narrado desta maneira:

"Isaac chamou Jacó e o abençoou, dando-lhe esta ordem: "Não desposarás uma filha de Canaã. Mas vai a Padã-Aram, à casa de Batuel, pai de tua mãe, e escolhe lá uma mulher entre as filhas de Labão, irmão de tua mãe. Deus Todo-Poderoso te abençoe, te faça crescer e multipliar, de sorte que te tornes uma multidão de povos. Conceda-te ele, como também à sua posteridade, a bênção de Abraão, a fim de que possuas a terra onde moras, e que Deus deu a Abraão." Isaac despediu Jacó, e este partiu para Padã-Aram, para a casa de Labão, filho de Batuel, o arameu, irmão de Rebeca, mãe de Jacó e de Esaú. [...] Chegou a um lugar, e ali passou a noite, porque o sol já se tinha posto. Serviu-se como travesseiro de uma das pedras que ali se encontravam, e dormiu naquele mesmo lugar. E teve um sonho: via uma  escada, que, apoiando-se na terra, tocava com o cimo o céu; e anjos de Deus subiam e desciam pela escada. No alto estava o Senhor, que lhe dizia: "Eu sou o Senhor, o Deus de Abraão, teu pai e o Deus de Isaac; darei a ti e à tua descendência a terra em que estás deitado. Tua posteridade será tão numerosa como os grãos de poeira no solo; tu te estenderás, para o ocidente e para o oriente, para o norte e para o meio-dia, e todas as famílias da terra serão benditas em ti e em tua posteridade. Estou contigo, para te guardar aonde quer que fores, e te reconduzirei a esta terra, e não te abandonarei sem ter cumprido o que te prometi." Jacó, despertando de seu sono, exclamou: "Em verdade, o Senhor está neste lugar, e eu não o sabia!" E, cheio de pavor, ajuntou: "Quão terrível é este lugar! É nada menos que a casa de Deus; é aqui, a porta do céu".


A Igreja Ortodoxa identifica o sonho como uma pré-figuração da Toda Santa e Pura Virgem Maria. Theotokos é a Escada por meio da qual Cristo encarna, tal como ensinava Santo Efraim o Sírio: "A Escada de Jacó é a Santíssima Virgem Maria, que trouxe o Filho de Deus do Céu para a Terra." O mesmo ensinamento se encontra em São João Damasceno: "A Virgem Maria é a escada por meio da qual Deus vem até nós, e ela é a porta através da qual podemos subir até o Céu."


Ícone da Escada da Divina Ascensão


A Escada vista por Jacó tem importância capital no ascetismo ortodoxo. Uma das principais obras sobre o tema, chamada de "A Escada da Divina Ascensão", foi escrita pelo monge São João do Sinai, também conhecido como São João da Escada, hegúmeno do Mosteiro de Santa Catarina do Sinai durante a primeira metade do século VII. Ela lista os passos ou degraus no ascetismo, em número de trinta, para que o asceta possa alcançar a theosis -- termo grego para deificação, o propósito da vida cristã.

Em um dos hinos da Igreja para a Mãe de Deus se canta:

"Sarça que arde mas não queima,
Paz, ó Ponte para o Alto,
Escada vista por Jacó;
Paz, ó vaso puro em que 
O santo maná foi guardado".


Alguém pode se lembrar também da seguinte passagem do primeiro capítulo do Evangelho de São João Teólogo:

"Diz-lhe Natanael: "De onde me conheces?" Respondeu-lhe Jesus: "Antes de Filipe te chamar, vi-te quando estavas debaixo da figueira". Respondeu-lhe Natanael: "Rabi, tu és o filho de Deus, tu és o Rei de Israel". Jesus respondeu e disse-lhe: "Porque te disse 'vi-te debaixo da figueira', tu crês? Verás algo de maior do que essas coisas". E diz-lhe: "Amém amém vos digo: vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem".

A perícope remete evidentemente à Escada de Jacó, e se liga à visão ortodoxa de Cristo como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, e à união Hipostática. O mistério da natureza humana de Cristo também está ligado à Theotokos.


São João Teólogo contempla o Filho do Homem





Guénon e Evola, ou Realeza e Sacerdócio

 "Está estabelecido assim que a autoridade da Monarquia temporal desce sem mediação da fonte da autoridade universal. E que esta fonte, una na pureza de sua origem, flui em múltiplos canais dada a abundância de sua excelência."

Dante Alighieri




A Dupla Coroa do Monarca egípcio, a branca representando o Alto Egito e a vermelha o Baixo Egito. É a coroa usada tanto por Horus quanto pelo deus criador Atum

Uma das maiores pendengas entre Tradicionalistas é a divergência entre Guénon e Evola sobre os vínculos entre a "Autoridade Espiritual" e o "Poder Temporal" -- como o francês colocava o problema. Esta questão tem repercussões em vários níveis, não apenas na organização social.


Na varnashrama hindu, os brâmanes são uma casta 'superior' a dos Ksatryias. Os primeiros representam a 'palavra' do Macantropo [Homem Universal], e se ocupam da transmissão da doutrina, tanto em forma expositiva e lógica, como também mistérica e iniciática. A vocação brâmane se vincularia a Vishnu e à guna sattva, de caráter luminoso e ascendente pelos graus de ser. Os homens com essa vocação são os ''intelectuais'', ''contemplativos'' e ''mestres'' em dada civilização. Tem atividades sacerdotais, artísticas e professorais e se vinculam prioritariamente ao conhecimento e sua difusão.


Os Ksatryias, por sua vez, representam os membros do Macantropo, e portanto seu potencial para ação em dado mundo ou ordem de manifestação. Sua vocação está ligada a Brahma, o demiurgo, e à guna Rajas [na verdade, uma mescla entre Sattva e Rajas], que expande ou consolida determinada organização ou ordem ou compossibilidades em dado plano ou âmbito da realidade. Os indivíduos que pertencem a essa varna exercem o poder, o governo e a administração de dada sociedade. Estão também ligados às funções de Justiça e Guerra.


Se fôssemos comparar estas varnas com a psicologia humana, os brâmanes se associam ao Nous, ou ao Intelecto Ativo. Poderíamos também dizer que eles estão associados ao espírito e à cabeça. Já os Ksatryias se vinculam à personalidade, ao peito, à alma irascível. No terreno esotérico, estas varnas estão ligadas a formas diferentes de Iniciação. Os brâmanes são gnósticos, trilham vias jñana, de pura contemplação e metafísica, compatíveis com suas tendências sátvicas. Já os Ksatryias tem apelos emotivos e psíquicos que os tornam mais adequados a caminhos devocionais, à ligação com ''divindades pessoais''.


Guénon ia além ao sustentar que a iniciação dos ksatryias era dos Mistério Menores, ligados à salvação da personalidade, ao retorno ao estado original do homem como centro deste mundo [estado adâmico], e aos conhecimentos cosmológicos. Já a iniciação brâmane era a dos Mistérios Maiores, que levavam à Identificação Suprema [ou realização espiritual], de natureza principalmente metafísica.


Dito isto, ele ensinava que em toda ''civilização normal'' -- ou seja, toda sociedade organizada segundo a Tradição --, os brâmanes exerciam a autoridade sobre os Ksatryias. Estes tinham todo o poder na ordem mundana, mas se curvariam aos sacerdotes e mestres que detinham o ensinamento tradicional de ordem mais elevada. Como o Rei nada mais era que um ksatryia, estaria limitado pelo sacerdócio.


Evola pensava diferente. Ele fazia notar a existência de um estado anterior à divisão de varnas, o estado do próprio Realizado. Neste estado, os poderes de brâmanes e Ksatryias estariam sintetizados. A função social que corresponderia a este estado era a do Rei-Sacerdote, o Pontifex supremo. O Ksatryia teria características que lhe permitiriam conquistar o poder sacerdotal e atingir este elevado patamar espiritual, sem mediação brâmane. Esta via régia colocava o Monarca em uma posição superior a do sacerdote.


A resposta guenoniana ao argumento do Barão é de que não vivemos mais na Era de Ouro, em que alguns homens já nasciam Iniciados. No momento atual de degeneração, a Era de Trevas, a posição de Evola não faria sentido.


Na Cristandade Latina, ambos exemplificavam sua discordância por meio das pendengas entre o Papado e o Império -- ou na terminologia italiana, entre guelfos e gibelinos. Mas elas também tomam forma no fortalecimento das Monarquias no alvorecer da Modernidade, com a Realeza submetendo o clero e insistindo em teorias como a do Direito Divino.


A discordância neste ponto está longe de ser banal, e traz implicações para a análise da decadência espiritual e civilizacional. A tese principal de Guénon era a Rebelião dos Ksatryias, que causa uma ruptura no reflexo pessoal e social do Mancatropo. As considerações de Evola sobre o ''Retrocesso das Castas" são um tanto diferentes, bem como dos meios para evitar ou 'retificar' a situação.

Em outra postagem vou falar de uma perspectiva cristã-ortodoxa sobre este 'problema'.

terça-feira, 8 de outubro de 2024

Julius Evola e a Iniciação no Cristianismo


 Duas semanas atrás, publiquei um texto resumindo, de forma bem simplificada e didática, as divergências que René Guénon e Fritjof Schuon tinham a respeito do Cristianismo.


Houve quem me perguntasse a opinião de Julius Evola. Fiel a sua perspectiva sobre a tradição iniciática, que pode ser melhor compreendida a partir da obra "A Tradição Hermética", Evola resumia toda essa pendenga de forma bem simples:

"Na minha opinião, o que pode existir de iniciático no Cristianismo não é cristão, e o que é cristão não pode ser iniciático." [O Arco e a Clava, 1968]

Assim, Evola não nega a possibilidade de ritos e fluxos iniciáticos na história cristã, nem sua continuidade através dos tempos. Ele cita sinais nos Padres da Antiguidade, em São Simeão o Novo Teólogo, no conceito de theosis e no hesicasmo na Ortodoxia, nas ordens de cavalaria na Idade Média, nos ciclos arturianos, e até em certas ambiências protestantes.

Mas ele considerava que o esoterismo e o poder iniciático que porventura existissem no cristianismo não eram propriamente cristãos. O Cristianismo, por natureza, seria uma doutrina divorciada desses princípios tradicionais, sacerdotal por definição, e devocional demais para que pudesse ser incluída no âmbito do qual Evola falava.

Por isso também, ele achava que os movimentos cristãos mais próximos de uma real compreensão esotérica eram os heréticos, especialmente os gnósticos da Antiguidade.



Se o cristianismo podia ou não ser base para uma restauração tradicional no Ocidente é outra questão, para a qual Evola deu resposta negativa durante quase toda sua vida, ainda que no final já tivesse uma resposta mais ambígua e até favorável, em algum grau, ao Cristianismo.

Enfim, a abordagem de Evola é uma terceira via, uma alternativa tradicionalista, em relação a de Guénon e Schuon. O primeiro pensava o cristianismo como inicialmente esotérico, mas descendo para o nível do exoterismo por Providência Divina a fim de evitar momentaneamente a derrocada civilizacional que se prenunciava na Antiguidade. O segundo considerava os ritos cristãos propriamente iniciáticos nos "três ramos" dessa religião: catolicismo-romano, ortodoxia e luteranismo.

Evola diz que é possível sim que exista, tanto em sua origem, quanto em seus desdobramentos históricos, iniciações no cristianismo. Mas elas não surgem NO cristianismo. São como um ''corpo acrescentado'', quase que estranho, a uma forma de espiritualidade [o cristianismo] que é por natureza profana.

Evidente que nenhuma dessas três abordagens pode satisfazer plenamente um cristão, apontando para a dificuldade que é encaixar esta religião na narrativa Tradicionalista.

sábado, 5 de outubro de 2024

O Profeta Jonas e o Monstro Marinho


 O Profeta Jonas, que os ortodoxos comemoramos hoje, não foi engolido por um ''peixe'' [tradução na Vulgata]. Nem por uma "baleia" [tradução de Lutero]. O termo na Septuaginta é Kêtos, que é melhor traduzido como ''ser marinho'' ou ''monstro marinho''. E aí pode ser muita coisa, incluindo monstros desconhecidos por nós.


São Nicodemos trata desse tema em seu 'Grande Synaxaristes':

"Para aqueles que amam o conhecimento e que são curiosos, apresentamos aqui algumas coisas sobre o Ketos. O Ketos era maior que um navio-prisão, de acordo com Theocles. Era cinco vezes maior que um elefante, de acordo com Aeliano. Tinha 50 cúbitos de comprimento, de acordo com Eratóstenes. Era de cem cúbitos segundo Nearchos. E segundo Onésicrato, tinha seiscentos pés. Ortágoras diz que tinha mil pés de comprimento e cinquenta de largura.
De acordo com os Padres Teóforos que seguiam estes homens da Antiguidade, o Ketos tinha um tamanho imenso. São Basílio Magno afirmava que a magnitude do corpo do Ketos era maior que uma montanha, e que eles pareciam ilhas [Hexaemeroun, Hom. 7). Quando o Ketos nadava sobre as ondas, dizia Santo Ambrósio, parecia uma ilha ou uma grande montanha cujo pico tocava os céus. Eustácio de Antioquia, em seu Hexaemeron, declarou que um Ketos, chamado de aspidochelon, era tão grande que parecia uma ilha aos olhos dos marinheiros.
Mesmo os modernos dizem que em Santonia, cidade da França localizada o Oceano Britânico, foi encontrado um Ketos com cento e vinte pernas, segundo Scaliger. E outro foi achado no Mar Báltico, com cem cúbitos de comprimento, segundo Ziegler. Estes estão entre os muitos Ketos que contam ter sido encontrados, dentre os quais estão aqueles chamados de baleias."


Como se percebe, os homens encontraram muitos tipos de Ketos no mar, eles não podem ser reduzidos a grandes peixes, tubarões e baleias. Não sabemos que tipo de Monstro Marinho engoliu o Profeta Jonas, mas sabemos que ele foi ''sepultado'' em suas entranhas ou ventre. Tanto isso é verdade, que ele ora ao Senhor dessa maneira:

"Gritei em aflição ao Senhor meu Deus;
E ele ouviu-me.
Das entranhas do Hades ouviste meu grito e minha voz.
Atiraste-me para [as] profundezas
Do coração do mar; e rios me cercaram.
[...]
Desci à terra, cujas trancas me detêm, eternas;
E que suba a ruína da minha vida, ó Senhor meu Deus!
Quando a minha alma me abandonava,
Lembrei-me do meu Senhor."

O Profeta fala da sua morte. Daí o Sinal de Jonas, mencionado por Cristo: Jonas foi tragado pelo Hades e depois retornou à vida. [Deus ordena que o Ketos, o Monstro Marinho, o vomite em terra.]



Existem diversas conexões entre o ocorrido com Jonas e ritos iniciáticos em diversos continentes e tempos. Mircea Eliade tratou dessas similaridades em seu "Mito e Realidade", associando o neófito engolido por um monstro ao retorno à Mãe-Terra ou, de modo mais próprio, um ''retorno ao útero''.

O importante é notar que para a Igreja não se trata de uma ''alegoria'' ou parábola. O Profeta Jonas e os acontecimentos descritos são considerados históricos. No entanto, o mundo para os antigos não é o mundo imaginado pelo homem moderno. É uma realidade imbricada por diversas dimensões, em que o preternatural e o sobrenatural irrompem a todo momento e se fazem presentes aos sentidos. Não convém interpretar ou compreender estas passagens escriturísticas com limitada capacidade imaginativa e cognitiva contemporânea.