"A capacidade de unir os Reinos do Céu e da Terra permaneceu a chave para o mistério teológico dos ícones e permitiu-lhes resistir às mais severas tempestades teológicas, psicológicas e emocionais."
Padre Andreas Andrepoulos
Minha declaração sobre a astrologia causou estupor -- sincero ou fingido, não sei -- em algumas pessoas, que a vincularam à figura do Olavo de Carvalho e a práticas ocultistas. Este tipo de reação escandalizada vinda de certas figuras envolvidas direta ou indiretamente com a política não é nada incomum, e surgem de ímpeto polemista misturado com um conjunto de preconceitos contra religiosos e espiritualistas em geral. O ímpeto polemista está em vincular tudo o que não se gosta a um rótulo que serve de 'xingamento' e 'demonização' do interlocutor: Assim, a esquerda chama de fascista tudo que não é espelho; a direita chama de comunista tudo a que ela se opõe; russófilos duginistas se veem em uma guerra santa contra o olavetismo; e há olavetes que imaginam o Brasil invadido e dominado por Alexandr Dugin. Este tipo de rotulação maniqueísta se dá em um campo erístico sem qualquer seriedade, e assim eu não preciso me ocupar dele. As críticas que fiz a Olavo de Carvalho nos últimos quinze anos falam por si só.
Já o conjunto de preconceitos bebe de fontes materialistas e seculares, e carrega sua própria dose de alienação e hipocrisia, já que os movimentos seculares em geral foram impulsionados por sujeitos mergulhados em crenças e práticas espiritualistas, algumas delas ligadas ao que se convencionou chamar de ''ocultismo''. Como apontou Jason A. Josephson-Storm, em "Myth of Disenchantment. Magic, Modernity and the birth of Human Sciences", longe de varridas da vida pública, as crenças e práticas espirituais continuam norma entre governantes, empresários, cientistas e populações do mundo contemporâneo. Apesar do discurso 'oficial', o mundo continua encantado pra maioria esmagadora da civilização que se abraçou fanaticamente ao secularismo. Da Enciclopédia dos Iluministas, que considerava a Magia uma ciência, passando por revolucionários que conspiravam em lojas Maçônicas, e até mesmo a filósofos como Adorno, a elite política e intelectual do Ocidente se abraça à ideia similares ao ''sobrenatural".
A minha postagem também pode causar ojeriza em determinada sensibilidade religiosa. Mas nesse caso se trata do choque entre espiritualidades que se consideram mutuamente exclusivas. Quando um religioso condena como superstição a espiritualidade X ou Y, ele não pretende que suas próprias práticas religiosas caiam sob o mesmo epíteto. Superstição, evidentemente, é a religião do outro, e esse tipo de embate é perfeitamente natural e compreensível. Mas tampouco podem ser consideradas reflexões sérias caso não superem o nível do ''estranhamento'' puro e simples.
Isto posto, vou esmiuçar um pouco mais a postagem que fiz no X e mostrar porque o suposto escândalo não passa de ignorância e/ou hipocrisia. O texto não visa debater a ciência contemporânea, assunto que me interessa de forma bem marginal. Tenho uma abordagem instrumentalista da ciência contemporânea: a considero a melhor que existe para o que se propõe. Mas aquilo a que ela se propõe me parece bastante insuficiente para o coração humano.
A imagem no início deste texto traz Cristo no centro do Zodíaco. A representação se encontra no Mosteiro Dekoulou, na Grécia. As condenações dos Padres da Igreja a certas ciências e artes da Antiguidade [como a matemática ou o teatro] se baseavam em alguns critérios, se ligam a um dado contexto. No caso da Astrologia, há condenação explícita ao culto pagão que acompanhava a consulta divinatória e à própria noção que acompanhava a tentativa de predição, a saber, que as ações humanas eram governadas e determinadas pela natureza.
Anselmo da Cantuária tinha uma explicação cosmológica para as Musas, associando-as ao movimento harmônico das esferas celestes |
Enfim, os cristãos citados aqui, todos eles figuras de extrema relevância nessa religião, criticavam a astrologia no que ela tem de determinista e de técnica preditiva. Mas aceitavam sua cosmologia subjacente, a estrutura que rege a relação entre os diferentes seres e elementos do cosmos, e a associavam diretamente a uma dada antropologia e psicologia. Obviamente, eles nunca ouviram falar de Olavo de Carvalho ou do Ocultismo contemporâneo, que causam um Grande Medo em alguns temperamentos. Eram apenas estudiosos das ciências e ideias pré-modernas, que se refletem nas Escrituras Sagradas, nos ritos, imagens, e ensinamentos do Cristianismo.
Alguns podem achar um tédio ou desperdício de tempo se ater a abstrações deste tipo. Afinal, os jornais não providenciam apenas ''horóscopos'', eles entretém o público com as informações do dia no campo político, econômico, esportivo, gastronômico, internacional, cultural etc. Mas eu avisei na postagem do X: não é um assunto para todo mundo. É chamado de ''mistérios menores", diz respeito a um nicho de pessoas com um tipo especifico de disposição. Aparentemente, Deus não é um progressista: ele distribuiu vocações e dons de maneira muito desigual entre os homens.