segunda-feira, 2 de março de 2026

O ISLÃ XIITA, O IRÃ, E O AYTOLLAH KHAMENEI

Muhammad al-Madhi, o Imã Oculto no xiismo duodecimano


Muitos acreditaram que os EUA tinham obtido uma vitória simbólica e até decisiva com o assassinato de Khamenei. A leitura da grande mídia, especialmente a brasileira, é a de que Trump teria um troféu para exibir internamente, e que o regime iraniano poderia sofrer alguma paralisação e até o colapso.


Essa é uma leitura absurdamente equivocada tanto em relação à real estrutura institucional no Irã como também sobre o Islã shia [xiita].
Não vou me estender nesse texto sobre a questão institucional. Basta apontar que Khamenei não era, como vendido pela mídia ocidental, um "autocrata". O Irã tem um regime altamente institucionalizado. Vou focar em certos princípios do xiismo que são difíceis para um ocidental médio entender.
O Santuário do Imã Hussein ibn Ali, erguido em Karbala, Iraque: centro de devoção e peregrinação xiita


Embora sejam todos muçulmanos, o Islã shia tem diferenças fundamentais para o sunni [sunita]. E a história dos shias é marcada pela perseguição e pela opressão promovida pelos próprios sunnis desde o assassinato de Ali, o quarto Califa [Sucessor], primo e genro do "Profeta" Mohammed, e marido de Fátima [filha do "Profeta" e figura feminina mais venerada no Islã, à frente até da Virgem Maria].
Ali ibn Talib não era apenas uma autoridade temporal para os shias. Ele era o Imã, a autoridade espiritual máxima, que tem o carisma da infalibilidade e da "impecabilidade", guiado diretamente por Deus, e guardião do caráter esotérico do Corão [o Livro Sagrado muçulmano]. Os Imãs são encarados praticamente como a corporificação da Luz Divina, e formam uma linhagem hereditária. O primogênito de Ali foi o segundo Imã e assim sucessivamente, dando continuidade, ainda segundo eles, à presença do conhecimento divino no mundo.
A questão é que todos os Imãs foram massacrados pelos sunnis [sunitas]. O acontecimento mais decisivo, nesse sentido, é a derrota de Hussein ibn Ali na batalha de Karbala diante das forças do Califa Yazid I. O assassinato de Hussein se deu no dia 10 de outubro de 680, e é rememorado pelos shias [xiitas] como o dia de Ashura.
Esse acontecimento não é apenas histórico para os shias. É encarado de modo muito mais profundo e abrangente, é uma Revelação da própria estrutura da realidade. O mundo está tomado pelo mal, inclusive o mundo sunni [sunita]. O mal age na perseguição e na opressão de todos os verdadeiros fiéis, que são seguidores do Imamato, os guias infalíveis que Deus deixou no mundo para manter o conhecimento esotérico do verdadeiro Islã.
Ashura, dia em que os xiitas rememoram que o mundo é dominado pelo mal, e que o fiel tem de lutar em nome da Verdade e da Justiça Divinas em todas as áreas, mesmo ao ponto do martírio


Como eu dizia, todos os Imãs foram assassinados pelos próprios sunnis. Os shias acreditam que o décimo segundo Imã, Muhammad al-Maddhi, escapou dessa morte. Ele passou pela "ocultação", que é explicada como a transposição para um "mundo intermediário" dentro da criação [mais ou menos como para alguns Enoque estaria no segundo céu, ou então oculto no Jardim do Éden]. O Imã Oculto guia os verdadeiros fiéis a partir dessa realidade e, ainda segundo o xiismo, vai retornar um dia para libertar o mundo da opressão e da injustiça, derrotando o Djjalal [figura similar à do anticristo no cristianismo].
Mas ninguém sabe qual o dia e a hora da Revelação do Imã Oculto, isso faz parte da escatologia, vai ocorrer no fim dos tempos. Até lá, o verdadeiro fiel tem a obrigação de buscar o conhecimento, o contato com o Imã Oculto, e lutar pela Verdade e pela Justiça em todos as áreas [inclusive a social e a política], mesmo ao ponto do martírio, que é a suprema glorificação, e que aconteceu com todos os Imãs anteriores ao décimo segundo.
Isso fez com o que o Islã shia se consolidasse como uma "espiritualidade sofredora". Eles dizem que "todo dia é Ashura, todo lugar é Karbala", significando que o mundo jaz no maligno, e que o fiel tem de ser resiliente até a morte em nome de Deus e da Justiça. É uma espiritualidade que mistura gnosticismo e neoplatonismo, e que repercute certo sentimento dos ascetas cristãos que buscavam o deserto proclamando "morte ao mundo" [claro que os shias fazem isso em prol de uma doutrina herética, estou analisando aqui de um ponto de vista de religião comparada].
Ruhollah Khomeini, epicentro da maior revolução religiosa do último século.

É a partir desse arcabouço que tem de ser analisado o impacto do assassinato de Khamenei. Para eles, o "martírio" de Khamenei ou de Nasrallah [líder do Hezbollah] é a seiva da própria espiritualidade shia. Morrer como os Imãs é visto por eles como a suprema glória. Eles vão lamentar, chorar, mas ao mesmo tempo se convencer de que a perseguição pelos poderes desse mundo prova que estão do lado correto, lutando pela Justiça em um mundo inteiramente dominado pela opressão e pela obscuridade.
Para cada iraniano de mentalidade ocidentalizada que comemora a morte de Khamenei, existem uns cem que leem o fato como a experiência da verdade de sua religião e de sua continuidade com a perseguição do Imamato e de seus fiéis pelos "poderes do mundo".
É impossível derrotar uma espiritualidade dessas pela multiplicação de "cruzes" [que no xiismo é um dos símbolos da opressão dos poderemos malignos sobre os enviados por Deus e seus fiéis].
Khamenei orando: sucessor de Khomeini como Líder Supremo foi responsável pela institucionalização do regime e também pela moderação da Guarda Revolucionária

É ingenuidade completa imaginar que se poderia derrotar o Irã com o assassinato de suas lideranças religiosas. Isso é mais ou menos como um César Romano da Antiguidade acreditar que poderia conter o cristianismo torturando e matando um santo da antiguidade. [Mais uma vez, a comparação aqui se dá no campo da fenomenologia da religião.]
A liderança iraniana não é moldada por paradigmas iluministas. Eles não são "ocidentais", que leem o mundo por meio de uma ótica secular. Para eles, o Islã não é uma questão de ir à igreja no fim de semana. Não é mero conservadorismo moral. É toda uma forma de olhar para a realidade que é pré-iluminista. E mais do que isso, é anti-iluminista. Naquele mundo, a religião [seja ela falsa ou verdadeira, não é esse o ponto] ainda não foi derrotada como cosmovisão de governo.
Quem quiser entender de modo mais "popularesco" essa espiritualidade deveria ver o filme Duna, de Villeneuve, ou melhor ainda: ler o livro de Frank Herbert.


Shias em luto por Khamenei em Teerão

Nenhum comentário:

Postar um comentário