Ninguém de modo algum vos engane. Porque primeiro deve vir a apostasia, e deve manifestar-se o homem da iniquidade, o filho da perdição, o adversário, aquele que se levanta contra tudo o que é divino e sagrado, a ponto de tomar lugar no Templo de Deus, e apresentar-se como se fosse Deus. Não vos lembrais de que vos dizia estas coisas, quando ainda estava convosco? Agora, sabeis perfeitamente o que o detém até que chegue o tempo de se manifestar. Porque o mistério da iniquidade já estão em ação, apenas esperando o desaparecimento daquele que o detém. Então o tal ímpio se manifestará, a quem o Senhor Jesus destruirá com o sopro de Sua boca e o aniquilará com o Resplendor de Sua Vinda.
2 Tessalonicenses 2:1 a 8
A retração do Império Romano na virada do século VI para o VII teve consequências imensas para o cristianismo. A Europa dita Ocidental ficou à mercê da expansão de um Império germânico que, apesar de se denominar romano, tinha outro horizonte cultural e institucional.
O Império Carolíngeo possibilitou, e em certa medida até impulsionou, a fragmentação da soberania que, acompanhada do avanço de formas específicas de senhorialismo [servidão], levou o Estado a um colapso na nascente Cristandade Latina, entre o fim do século IX e o início do século XI.
A ideia e o poder imperiais não desapareceram, mas foram bastante reformulados. O Império Otônida, mais tarde Sacro Império Romano-Germânico, tinha bases fiscais mais sólidas que qualquer realeza medieval, mas ainda assim era estruturada a partir de potentados feudais locais que, dentre outras coisas, tinham o direito de eleger o Imperador. Por outro lado, o novo Império não contava com o território franco ocidental, que logo se desenvolveria em uma Monarquia que sustentava uma visão de soberania que fazia do Rei o "Imperador de seu território".
É nesse contexto que ocorre a Questão das Investiduras e a Reforma Gregoriana, marcadas pela reivindicação do Bispo de Roma por supremacia sobre os poderes seculares, uma modificação no conceito de Sinfonia dos Poderes [espiritual/temporal] herdada do Papa São Gelásio e do Imperador São Justiniano o Grande. A nova abordagem tinha graves implicações para o Império, já que boa parte dos potentados alemães e italianos que tinham voto na eleição imperial eram também Bispos.
Tanto a Igreja Romana quanto o Império Germânico redescobriram o direito público romano e o aplicaram para fundamentar suas respectivas cosmovisões.
Os canonistas do Papado elaboraram a partir de Graciano o conceito da supremacia papal e plantaram as sementes da doutrina da infalibilidade [plenitudo postestatis]. Já os defensores do Império encontraram na escola de Bolonha um reduto do estudo, ainda que enviesado, dos Códigos de São Justiniano, proclamando que o Imperador recebia seu poder de Deus [ainda que mediado pelo 'povo romano'] para governar todo o mundo [lex regia].
Os dois poderes com pretensões universalistas se digladiaram por toda a Idade Média Central, a o movimento cruzadista foi fator determinante para ambos. A verdade, porém, é que a disputa fragilizou sobremaneira as bases 'políticas' do Império Germânico, que saiu definitivamente derrotado na segunda metade do século XIII após o triunfo momentâneo de Frederico II.
Mas o Papado não pôde usufruir a aparente vitória. A Unam Sanctam, que tinha a intenção de consolidar a supremacia papal sobre todas as esferas da Cristandade Latina, não foi aceita pelo Rei francês Filipe IV, que arremeteu contra o Papa Bonifácio VIII nos primeiros anos do século XIV e simplesmente o prendeu. A desmoralização foi ainda mais completa porque o Papado foi transferido para Avignon, feudo pontifício em território francês, sendo controlado a partir dali pelo Monarca Capetíngeo.
Nos 70 anos que se seguiram, a maioria esmagadora dos Papas e da cúria romana eram franceses, e boa parte dos interesses do Papado eram os interesses da França. Óbvio que isso desmoralizou as pretensões universalistas do Papado, e deu espaço para outra eclesiologia desenvolvida nos séculos XII e XIII, a conciliarista. Quando o Papado decidiu retornar a Roma, já no cenário da Guerra dos Cem Anos, o cisma foi quase que inevitável. O Ocidente conviveu por duas gerações com dois [e até três] Bispos de Roma, processo que desembocou na declaração da superioridade do Concílio Geral sobre o Papa no Sínodo de Constança, já no século XV.
Os advogados da Supremacia papal se recuperariam nas décadas seguintes, principalmente nos Concílios de Florença e de Trento. O século XVI foi de consolidação das linhas gerais das doutrinas mais tardes consagradas no Vaticano I [1870]. Mas as eclesiologias herdeiras do conciliarismo sobreviveram por toda a Europa. Na França, principal potência do continente, na sofisticada forma do galicanismo. Nos territórios alemães sob o modelo de um episcopalismo moderado que evoluiria para o Febronianismo. Nos territórios do Império Austríaco, na forma estatal do Josefinismo. E na Península Ibérica por meio de um Regalismo pragmático.
No fim das contas, as doutrinas do supremacismo e da infalibilidade papais eram quase que contra-culturais, predominando nos Estados Pontifícios, no clero do centro e do Norte da Itália, e na ação de ordens como a dos Jesuítas. A ação dos canonistas medievais destruiu a possibilidade de um Império Romano no Ocidente -- ainda que sua intenção não fosse exatamente essa, é impossível a co-existência de ''dois impérios'' que se considerem universais em um mesmo território/civilização --, mas sucumbiu frente aos "impérios nacionais" representados pelas Monarquias Absolutistas, processo associado também ao surgimento dos Protestantismos [vitoriosos, não por acaso, em territórios do Sacro Império Romano Germânico].
A adesão à eclesiologia supremacista cresceu apenas quando as próprias Monarquias foram sacudidas pela emergência de uma nova forma de secularismo movido por ideias iluministas e liberais [e só mais tarde socialistas], que destruiu a presença da religião no espaço público. A Revolução Francesa, a expansão napoleônica, e mais tarde as ondas revolucionárias de 1822, 1830 e 1848,detonaram qualquer pretensão de poder temporal do clero, o espoliaram da base territorial de exercício de poder, e ameaçaram a própria viabilidade do cristianismo como força institucional.
No século XIX, o episcopado convergiu para o ultramontanismo. Aquela que era até então uma eclesiologia minoritária se consagrou no Vaticano I em uma monarquia papal de poderes quase que ilimitados dentro da Igreja Romana no momento mesmo em que isso se tornava praticamente irrelevante em termos políticos e sociais.
Os católico-romanos não demoraram muito para perceber o imbróglio, e as tendências desde o fim da II Guerra Mundial são as de minimizar a abrangência das definições da Pastor Eterno por meio da Lumem Gentium, de um Papado nada triunfalista, e finalmente do apelo cada vez maior à sinodalidade.
É como se a Igreja Romana de meados do século XX para cá tenha sido acometida por um sentimento de constrangimento e até estupor por ter se tornado, em meio a um mundo pós-cristão, muito mais uma Monarquia plenipotenciária fundamentada em noções mais adequadas à relação jurídica entre governantes e governados, do que uma continuidade com o modelo de comunhão sacramental e sinodal herdado da Antiguidade.
Retornando ao ponto: a retração do Império Romano teve consequências terríveis para o Cristianismo.