"Em 58, na véspera de Brasil x Rússia, entrei na redação. Tiro o paletó, arregaço as mangas e pergunto a um companheiro: "Quem ganha amanhã?" Vira-se para mim, mascando um pau de fósforo. Responde: -- "Ganha a Rússia, porque o brasileiro não tem caráter. Eis a opinião dos brasileiros sobre os outros brasileiros -- não temos caráter. [...] Essa falta de autoestima tem sido a vergonha, sim, tem sido a desventura de todo um povo."
Nelson Rodrigues, 20/06/1970
Declarar que a Seleção tem capacidades para vencer se tornou sinônimo de 'pachequismo'. O normal, para boa parte da torcida, é afirmar que NÃO há qualquer possibilidade de vitória.
A derrota passa a ser esperada, até desejada, e vista como um alívio, até por confirmar o viés inicialmente derrotista.
Muitas vezes, essa abordagem está ligada também a uma postura ácida em relação às perspectivas do país, às vezes até ao desejo de que a Seleção espelhe o diagnóstico de mediocridade, perfídia e desesperança que enxergam na ideia de Brasil.
Essas associações são possíveis por conta do peso que a Seleção tem no imaginário nacional e do próprio papel do futebol na política e cultura global. Para aqueles com uma visão negativa do Brasil, a Seleção sempre foi empecilho. Difícil explicar como uma sociedade tão sem horizontes conseguiu gerar um futebol tão rico, vencedor e admirável.
Essa Copa mostrou o predomínio quase que total do ethos derrotista por parte do torcedor comum, de um modo que, talvez, não fosse visto desde a Era pré-Pelé, em que Nelson Rodrigues denunciava o "complexo de vira-latas" na alma nacional.
A abordagem sempre esteve lá, mas agora ela é hegemônica. Não se resume a criticar estruturas corruptas das instituições esportivas, a administração periclitante dos clubes, a falta de organização, ou a defasagem tática [como em 2014/18]. O que se diz é ainda mais impactante: o Brasil não teria jogadores para vencer a Copa do Mundo.
Essa é uma crença impressionante quando se trata de Seleção brasileira, historicamente considerada uma superpotência no mundo da bola. Uma análise do elenco da Seleção por meio do valor de mercado a torna ainda mais significativa.
O escrete de 2026 está entre os seis mais valiosos da Copa [praticamente empatado com a quinta posição, a Alemanha]. O valor aumentaria muito se Estevão, Wesley, Rodrygo, João Pedro, Militão participassem do Mundial [quatro deles não foram por lesões, e um deles foi preterido em prol de Neymar].
Com esses "reforços", o valor do elenco subiria mais uns 200 milhões de euros, passaria Portugal, empataria com o terceiro colocado [a Espanha], ficando apenas abaixo da França e da Inglaterra.
É surpreendente dizer que um elenco tão valioso no mercado global da bola "não tem chances de vencer a Copa do Mundo". A Argentina, atual Campeã, tem elenco de menor valor no mercado global. Marrocos 'vale' menos da metade que o escrete brasileiro.
Alguns diriam que o mercado "superestima'' o elenco brasileiro, mas é um mau argumento. O atleta "vale" o que o mercado está disposto a pagar por ele. A avaliação não se fundamenta em caridade, mas em ferrenha, competente, e permanente análise de desempenho, que se ajusta e regula constantemente. Erra aqui e ali, mas indiscriminadamente, sem olhar bandeiras.
O elenco brasileiro é um dos mais valiosos do planeta porque é percebido no mundo como um dos melhores. Não como o "melhor", mas como capaz de figurar entre os três/cinco mais qualificados.
Objetivamente, portanto, o Brasil tem jogadores com qualidade para vencer a Copa do Mundo. Não falta também comissão técnica, já que somos geridos por um dos grandes treinadores do mundo. É possível criticar Ancelotti de várias maneiras, mas não dá pra sustentar que ele não conhece futebol, e que não seja capaz de montar equipes vencedoras.
Isso leva a percepção da torcida para outro rumo. Se temos elenco para figurar entre os principais candidatos, por que o torcedor brasileiro se abraçou à desconstrução simbólica da Seleção? Mais ainda, há saída para uma Seleção que foi desconstruída simbolicamente por seus próprios torcedores?
A destruição simbólica da Seleção é plenamente compatível com gosto por futebol. As pessoas podem se identificar com este ou aquele clube, por diversas razões e afetos, e ao mesmo tempo desejar o fim do 'mito' do futebol brasileiro.
Esse embate de perspectivas não é novo.
Nelson Rodrigues escreveu que a vitória na Suécia tinha mudado o modo do brasileiro comum se entender. Escrevia ele que a humildade tinha sentido para os "césares industriais dos Estados Unidos". Já o escrete nos fazia a caridade de dar mania de grandeza a um país de paus de arara: "sentimos que o brasileiro deixava de ser um vira-latas entre os homens, e o Brasil um vira-latas entre as nações."
Em maio de 1958, poucos dias antes de começar a Copa da Suécia, Nelson escrevia que a derroa de 1950 gerou uma chaga e humilhação nacional que "nada, absolutamente nada podia curar". O brasileiro não conseguia acreditar na Seleção, não conseguia acreditar em si mesmo. Acrescentava que "gostaríamos de acreditar na seleção", mas éramos impedidos pelo "pânico de uma nova e irremediável desilusão."
O diagnóstico que Nelson Rodrigues fazia da alma brasileira é que o nosso problema era o de nos considerarmos inferiores aos demais. Era o "complexo de vira-latas". Explicava ele: "Dizer que nos julgamos os 'maiores' é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Porque, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade." Do mesmo modo, tínhamos perdido a decisão de 1950 porque Obdúlio Varela, líder da Celeste Olímpica, tinha nos tratado "a pontapés, como vira-latas".
Nesse sentido, o grande problema da Seleção não era técnico, tático, físico, estrutural etc. "É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer que não é um vira-latas".
Os escritos imortais de Nelson são uma amostra de que esse embate já estava colocado desde a gênese do futebol enquanto esporte de massas, e que a Seleção tem um papel central nele.
Mas se após o tricampeonato no México, parecia consolidar de vez a imagem da superioridade, agora vivemos em um cenário inverso. É difícil ver um horizonte de mudança de chave. O futebol brasileiro, incluindo sua torcida, nunca foi tão vira-lata. E talvez não exista saída para este buraco, já que em 1958 foi necessário um Pelé capaz de vencer três de quatro Copas disputadas para convencer a nação que éramos capazes.
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