domingo, 8 de março de 2026

O MITO PROTESTANTE DO "CÂNON DE SÃO JERÔNIMO"


Para justificar a novidade de seu Cânon, os evangélicos reivindicam São Jerônimo, muitos deles jurando que a tradução da Vulgata desse Santo Padre coincidia com o que eles pensavam das Escrituras.


Começando do princípio: As Escrituras Sagradas usadas pelos cristãos era a Septuaginta, que circulava em mais de uma versão. A Septuaginta não coincidia com o Cânon que os Rabinos consolidariam nos séculos II e III da Era Cristã, ela incluía outros textos, mais tarde chamados no Ocidente de "deuterocanônicos". Já os livros comuns à versão rabínica constavam na Septuaginta com variações muito importantes. Livros como o de Jeremias, Daniel, Ester são mais amplos em grego, e há divergências fundamentais, por exemplo, em obras da importância de Isaías.


As primeiras traduções da Septuaginta para o latim foram feitas ainda no século II. São conhecidas como "Vetus Latina", e circulavam em diferentes edições. Na verdade, a "Vetus Latina" é um conjunto de versões traduzidas diretamente da Septuaginta. Essas traduções se consolidaram nas leituras litúrgicas das Igrejas ''Ocidentais" a partir do século II.


O projeto de tradução conhecido como Vulgata era em princípio uma revisão dos Evangelhos. No fim do século IV, São Jerônimo começou esse trabalho corrigindo a Vetus Latina de acordo com o texto grego. Essa revisão abarcou APENAS os Evangelhos. Não incluiu Atos dos Apostolos, as cartas paulinas, as cartas católicas, ou Apocalipse. Gradualmente a iniciativa foi ampliada para o Velho Testamento. São Jerônimo se mudou para Belém para ter acesso a textos hebraicos que considerava mais confiáveis.


Entre os séculos II e V, a Igreja debateu qual seria a lista canônica fixa do NT e do VT. Cada Padre tinha sua posição a respeito. São Jerônimo também tinha sua opinião. Ele preferia seguir o cânon rabínico [Hebraica Veritas], mas com alguns nuances [que vou apontar mais adiante.]


Mas isso não significa que existia um "Cânon de São Jerônimo". No fim do século IV, justamente na época em que ele começou seu trabalho de revisão e tradução, Concílios realizados no Norte da África definiram uma lista canônica oficial para todas as Igrejas que deles participaram. Nos anos 390, a lista canônica das Igrejas do Ocidente [incluindo Roma] e do Norte da África [incluindo Alexandria] seguiam a Septuaginta e se afastava dos Rabinos.



Ou seja, a posição de São Jerônimo foi "derrotada" nos Concílios de Hipona, Cartago etc. Ele não se rebelou contra a decisão. Apesar de ter defendido a "Hebraica Veritas", O Bispo de Estridão aceitou o Sínodo e a prática litúrgica herdada da Septuaginta.

A prova disso é que ele incluiu todos esses livros na Vulgata, cuja tradução chegou ao fim por volta de 405 [mais de dez anos posterior ao Concílio de Cartago], e que citava os "deuterocanônicos" em comentários e cartas posteriores, os apresentando com o linguajar de Escrituras inspiradas.

Mas e os livros traduzidos por São Jerônimo na Vulgata, eles batem com o Cânon veterotestamentário dos protestantes?

NÃO.

É verdade que o trabalho de São Jerônimo comparava a Septuaginta com outras versões em grego, com versões da Vetus Latina, e com textos hebraicos. E que em larga medida usou manuscritos hebraicos em sua tradução do Pentateuco, Profetas, Livros Históricos e Sapienciais. Mas há exceções notáveis!

1) São Jerônimo revisou/traduziu os Salmos três vezes. A primeira, ainda em Roma, era apenas uma revisão da Vetus Latina, corrigindo-a segundo o grego [Septuaginta]. A segunda, nos anos iniciais da década de 390, quando ele já se encontrava em Belém, foi uma nova tradução a partir da Septuaginta, e que foi chamada de "Saltério Galicano". Foi esta tradução que predominou na Vulgata! A terceira versão de São Jerônimo, "Saltério segundo o Hebraico", nao foi adotada nem na Vulgata nem na prática litúrgica! Portanto, apesar de preferir o hebraico, a Vulgata de São Jerônimo transmitiu o Saltério a partir da Septuaginta [que tem distinções importantes em relação à versão massorética, tanto no texto quanto na contagem dos Salmos].

2) Há diferenças de texto e tamanho da versão em hebraico do Livro de Daniel para as versões que circulavam em grego [incluindo a Septuaginta]. Muitos chamam isso hoje de "adições a Daniel", como o Livro de Susana, Bel e o Dragão, a Oração de Azarias, o Cântico dos Três Jovens. Na verdade, eram partes integrantes da versão grega usada liturgicamente pelos cristãos. São Jerônimo decidiu traduzir a versão grega de Teodócio, que é ampliada, e não a hebraica [mais curta e que segue a versão rabínica].

3) São Jerônimo traduziu também o Livro de Tobias e Judite [dois "deuterocanônicos"] do aramaico.

4) São Jerônimo não traduziu mas revisou os demais "deuterocanônicos", ajustando o texto da Vetus Latina ao da Septuaginta.




Portanto, o trabalho de São Jerônimo seguia o Cânon estabelecido nos Concílios norte-africanos. Não existia um "cânon de São Jerônimo", e sim uma posição desse Padre no debate que ocorria.

As traduções proporcionadas por São Jerônimo tampouco se adequam inteiramente aos textos rabínicos. Se é verdade que preferia as versões hebraicas à grega, é VERDADE TAMBÉM que São Jerônimo sempre se subordinou antes ao USO LITÚRGICO do que às suas preferências pessoais. Daí o Saltério e o Livro de Daniel seguirem as versões gregas.

Por fim, a Vulgata de São Jerônimo não se tornou de uma hora para outra o texto comum das Igrejas do Ocidente. Ela continuou coexistindo com versões da Vetus Latina, algumas delas muito mais usadas em certas regiões. O prestígio e a difusão da Vulgata cresceu aos poucos, e de maneira desigual. Só se pode afirmar que ela ganhou predominância definitiva a partir do final do século VIII, já no período Carolíngeo, quando o texto passou por revisões que o uniformizaram. Mesmo assim, versões da Vetus Latina persistiram até o início do segundo milênio.

Tanto a Vulgata quanto a Vetus Latina circulavam segundo a lista canônica definida nos Concílios norte-africanos do século IV. É verdade que alguns poucos manuscritos apresentavam variações [oração a Manassés, por exemplo]. Mas NÃO se seguiu o cânon rabínico definido nos séculos II e III depois de Cristo. Não havia nenhum "Cânon de São Jerônimo".

Fim da mitologia protestante.


ps.: as discussões sobre o Cânon voltaram a esquentar no Ocidente com os movimentos de Reforma, no século XV. Muitos protestantes alegam que o "cânon não estava fechado porque os romanos estavam discutindo os livros antes de Trento". Sim, porque o movimento reformista começou DENTRO da Igreja Romana. Esse processo levou a uma ruptura, um cisma. Os reformadores, como Lutero, saíram de DENTRO da Igreja Romana. Se separaram dela e fundaram seus próprios movimentos. Daí porque Roma sentiu necessidade de "dogmatizar" seu cânon, primeiro em Florença-Ferrara, depois em Trento, como reação aos reformistas. Isso não significa que não existisse um cânon anterior definido por concílios e expresso no uso litúrgico comum.

pps.: As listas definidas nos concílios regionais, incluindo os norte-africanos, foram recebidas oficialmente no VI Concílio Ecumênico, mais especificamente nos cânones definidos em Trullo.


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